Antigua. Historia y Arqueología de las civilizaciones Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

Conjuntos arqueológicos

> Castro de Monte Mozinho (Penafiel-Portugal)


Presentación
Teresa Soeiro

     Desde que em 1920 Lacerda Machado publicou, em Coimbra, o opúsculo intitulado Uma cidade Morta no Monte Mòsinho ou Castro de Santo Estevão de Oldrões, este sítio entrou definitivamente no registo dos arqueólogos, no roteiro dos turistas e no mapa dos caçadores de antiguidades. A enorme área que ocupa, a facilidade com que as estruturas se vêem à flor da terra e o abundante espólio de superfície, se foram causa de grandes destruições produzidas pela busca de tesouros, reais ou encantados, também motivaram sucessivas gerações de investigadores, nacionais e estrangeiros, atraídos por essa inquietante combinação entre indigenismo e romanidade que se tornou imagem de marca de Mozinho e paradigma no Noroeste Peninsular.

     Em localização central no actual concelho de Penafiel, o castro ocupa um cabeço granítico com 408 metros de altitude, na periferia da serra do mesmo nome. O seu posicionamento estratégico permite-lhe abarcar um larguíssimo panorama, que se estende a Norte até às serras de Santa Catarina, de Monte Córdoba e de Vandoma, para Este passa o Tâmega para esbarrar nas cumeadas do Marão, e em sentido Sul chega muito além Douro, ao Montemuro.

     Tendo em conta o horizonte mais próximo, diríamos que está implantado num local sobranceiro à depressão formada pelo curso superior do rio Cavalum, afluente do Sousa, e pelo da ribeira da Camba, da bacia do Tâmega, sobre o extenso e fértil vale que é caminho natural de ligação Norte/Sul, certamente desde sempre utilizado e hoje percorrido pela estrada que une Penafiel a Entre-os-Rios.

     Rico em nascentes de água, rodeado por terras agricultáveis que sobem até à periferia da muralha, dispondo a Nascente de um extenso planalto ainda intensamente utilizado há poucas décadas para apascentar rebanhos e estabelecer colmeias, Mozinho oferecia recursos naturais favoráveis à opção histórica de fixar uma população significativa, aglomerada dentro de um espaço delimitado, defensável e estrategicamente colocado sobre a importante via inter-regional. Pouco distantes ficavam as minas de ouro exploradas pelos romanos, de Sobreira/Castromil, da serra das Banjas e mesmo de Valongo.

     Monte Mozinho é o topónimo que utilizamos para designar este grande povoado de altura concentrado e fortificado, um castro, do qual desconhecemos o nome antigo. Também não sabemos individualizar o povo que aqui habitou. Pelo que hoje conhecemos, foi fundado só depois do momento da conquista do noroeste por Augusto, ou seja muito perto da mudança de era. Amuralhado, extenso e concentrando bastante população, o castro teve de ser erguido já com licença dos novos donos da terra, se não mesmo por incentivo deles, que procuravam assim reunir populações dispersas por pequenos castros, e dar-lhes uma organização político-administrativa com a qual pudessem dialogar.

     O primeiro tempo de Mozinho é pois aquele que decorre entre a sua fundação, na época de Augusto, e o governo dos dois imperadores que lhe sucederam. Foi o momento de se erguerem as muralhas que definem o perímetro habitado e o diferenciam do território envolvente, menos humanizado; de construir habitações, casas-pátio em que dominam os aposentos de planta circular tradicional, ordenadas entre ruas calcetadas que se cruzam, de forma planeada.

     Embora as escavações tenham sobretudo incidido nas cotas altas do povoado, a planta levantada na década de sessenta, quando a vegetação era rala, deixa entrever construções circulares a estender-se até à muralha exterior, que envolvia uma área rondando os 20 hectares. Diremos que quem aqui vivia nesta época, fazia-o segundo formas de estar de tradição pré-romana, castreja, sendo os bens importados de outras regiões do império ainda escassos, mas certamente muito importantes para marcar o estatuto social dos detentores.

     As décadas de quarenta a sessenta do século I d. C., mostram já uma maior integração na esfera cultural e material do mundo romano. A ergologia castreja ombreia ainda com a romana na construção de edifícios e na feitura de utensílios. Mas a compra de produtos chegados de várias províncias é já intensa. Multiplicam-se as ânforas de vinho, as cerâmicas finas, os vidros, os adornos de bronze, a moeda,... que nos dizem estar o mercado local e regional profundamente intervencionado pela dinâmica económica do império. Além destes testemunhos de mudança nas condições materiais de vida, encontramos também elementos para afirmar que em outros campos a transformação não seria menor, nomeadamente na aprendizagem do latim, no gosto pela sua escrita e mesmo na adopção de nomes próprios romanos.

     O período correspondente ao governo da dinastia flávia e aos primeiros imperadores antoninos, é simultaneamente de riqueza e decadência. Mozinho perde as características castrejas, monumentaliza-se e enriquece as suas áreas centrais, mas perde população e contrai grandemente o espaço construído. Na acrópole são arrasados três quarteirões de casas castrejas que ladeiam o eixo central, para sobre dois deles se erguerem complexos edifícios ao gosto romano. No topo, uma construção elíptica surge como um espaço público e lúdico da comunidade, um anfiteatro. Fora da primeira muralha, por baixo da porta e ao lado do principal eixo viário, ergue-se um monumento estilisticamente romano, carregado de esculturas. Podemos dizer que o castrejo acabara, de tal forma se impõe a romanidade.

     E neste mundo novo, também o assentamento tipo castro deixara de ser a forma de habitar preferida. As populações partiam em direcção às terras baixas, dispersavam-se pelos campos, pelos poucos núcleos urbanos, pelos centros mineiros. À medida que avançamos no segundo século da nossa era, deixamos de encontrar vestígios de ocupação em Mozinho, ao menos nas áreas escavadas. Mas os testemunhos multiplicam-se e diversificam-se na região envolvente.

     O povoado reanimou-se desta temporária letargia a partir das últimas décadas do século III d. C. e durante o seguinte. Voltamos a documentar amplas áreas de construção habitacional ao gosto romano, nas plataformas mais baixas, mantendo-se o total abandono da acrópole. Os materiais comuns são romanos, as importações continuam a marcar presença, a moeda, ainda que desvalorizada, é muito abundante, dispersa ou entesourada. Nesta época de turbulência e de dificuldades para o poder imperial, Mozinho está enquadrado numa paisagem cada vez mais ocupada, em que as estações arqueológicas são numerosas e ilustram tipos de implantação muito variados, como aldeias com os seus cemitérios de dezenas de sepulturas, casais isolados ou balneário termal de S. Vicente do Pinheiro.

     Fora da muralha exterior, que delimitava o espaço habitado pelos vivos, mas contíguo a ela, encontramos o território dos mortos, a(s) necrópole(s), seguindo a prescrição de exclusão consagrada na lei romana desde tempos remotos. Uma área de enterramentos, a Norte do povoado, foi utilizada do século I ao IV d. C., originando uma grande concentração de sepulturas de diversas épocas e características, mas todas elas contendo dádivas e por vezes epígrafes.

     Os enterramentos mais antigos, de finais do século I d. C., são covachos onde foi depositado um conjunto diversificado de vasos cerâmicos e vítreos, contendo algum deles os carvões e outros restos da pira funerária, que teria sido erguida noutro local. Outros enterramentos, um deles bem datado do segundo quartel do século III d. C., mostram o bustum, com potente camada de combustão resultante da incineração no local, sobre a qual foram colocados os bens oferecidos ao defunto. Já as sepulturas do final deste século e do IV d. C. são exemplares cuidados da nova moda da inumação, deposição do cadáver íntegro, alguns dentro de caixão, em covas rectangulares, por vezes bem estruturadas com paredes pétreas e uma pequena prateleira lateral por onde se poderiam renovar as dádivas, sempre muito numerosas.


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     O Município de Penafiel, com apoio de fundos europeus, construiu nos últimos anos o Centro Interpretativo, com área de acolhimento, um pequeno bar, auditório e expositor/venda, e de um conjunto de outras estruturas necessárias ao funcionamento do Sítio Arqueológico, como Instalações Sanitárias, Casa do Guarda, Armazém/laboratório para tratamento primário do material exumado e Casa dos Arqueólogos, esta passível de ser disponibilizada para investigadores e público interessado. No centro deste espaço de cultura e lazer, inserido em mancha agro-florestal, fica um grande parque murado, com prado e árvores. Trataram-se os espaços na envolvente castro, através da criação de percursos, sinaléctica e requalificação vegetal. Ampliou-se a linha de divulgação do monumento pela criação de novos produtos.

     Esta intervenção foi ainda valorizada pela inserção neste espaço de um conjunto de esculturas contemporâneas de granito, da autoria de Colin Figue, João Antero, Paulo Neves e Volker Schnuttgen, concebidas e realizadas para este local, encetando um interessante diálogo de modernidade com o monumento.

     As campanhas de escavação prosseguem anualmente, bem como a investigação, publicada em edições próprias e apresentada em reuniões e revistas da especialidade. Todo o espólio exumado está depositado no Museu Municipal de Penafiel.


Algunas referencias bibliográficas
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  • _____, Monte Mozinho: Sítio arqueológico, Penafiel, 1998.
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  • SOUSA, Elísio Ferreira de, «Relatório das escavações levadas a efeito no Monte Mòzinho», Douro Litoral, Porto, 6 série, 5/6 (1954), pp. 136-149.
  • SOUSA, J. J. Rigaud de, «Lucernas de Penafiel», Revista de Etnografia, Porto, 12 (1966), pp. 313 - 319.

     Museu Municipal de Penafiel

     Rua Conde de Ferreira s/n

     4560-483 Penafiel- Portugal

     Tel: +351 255712760

     E-mail: mmpnf48@megamail.pt




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