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História do Brasil


Frei Vicente do Salvador




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Dedicatória

Ao licenciado Manuel Severim de Faria chantre na Santa Sé de Évora


O motivo que teve Aristóteles para se divertir da especulação, a que o seu gênio e inclinação natural o levava, como consta da sua Lógica, Física, e Metafísica, e dar-se a escrever livros históricos e morais, quais as suas Éticas epólicas e a história de animais, além de lho mandar o grande Alexandre, e lhe fazer as despesas, foi ver também, que estimava tanto o livro de Homero, em que se contam os feitos heróicos de Achiles, e de outros esforçados guerreiros que, segundo refere Plutarco in vita Alexandre de ordinário o trazia consigo, ou quando o largava da mão o fechava em escritório guarnecido de ouro, e pedras preciosas, melhor peça, que lhe coube dos despojos de Dario, ficando-lhe na mão a chave, que de ninguém a fiava, e com muita razão, porque como diz Túlio, de oratore, os livros históricos são luz da verdade, vida da memória, e mestres da vida; e Diodoro Siculo diz in proemio sui operis, que estes igualam os mancebos na prudência aos velhos, porque o que os velhos alcançam com larga vida e muitos discursos, podem os mancebos alcançar em poucas horas de lição, assentados em suas casas.

Eis aqui a razão por que o grande Alexandre tanto estimava o livro de Homero, e se hoje houvera muitos Alexandres, também houvera muitos Homeros, porque como diz Ovídio


Scribentem juvat ipse favor, minuitque laborem:
Cumque1 suo crescens pectore fervet opus.



O favor ajuda o escritor, alivia-lhe o trabalho, anima-o, e dá-lhe fervor a sua obra; porém o que agora vemos é que querendo todos ser estimados, e louvados dos escritores, há mui poucos que os louvem e estimem, e menos que lhes façam as despesas, só temos a V. M. em Portugal que os estima, e favorece tanto como se vê na sua livraria, que quase toda tem ocupada de livros históricos, e principalmente no que fez de louvores dos três historiadores portugueses, Luiz Camões, João de Barros e Diogo do Couto, favor tão grande para escritores de histórias, que se pode dizer, e assim é, que aos mortos da vida, ressuscitando-lhes a memória, que já o tempo lhes tinha sepultada, e aos vivos excita, dá ânimo e fervor, para que saiam à luz com seus escritos, e folgue cada um de contar, e compor sua história. Este foi o motivo que tive, para sair com esta do Brasil, junto com V. M. ma querer fazer de tomar a impressão à sua custa para em tudo se parecer com Alexandre. Outro tive, que foi pedir-mo Vossa Mercê, e pelo conseguinte mandar-mo, pois os rogos dos senhores tem força de preceitos. Glos. ïl unica, et in L. I. ff., quod jussu, donde é aquele verso


Est rogare ducum species violenta jubendi.



E assim foi este de tanta força, que não só incitei a um amigo que a mesma história compusesse em verso, de sorte que pudesse dizer o que disse Santo Agostinho ao Santo bispo Simpliciano, que havendo-lhe pedido um tratado breve em declaração de certas dificuldades lhe ofereceu dois livros inteiros, desculpando-se, ainda, com ser a letra tanta, que pudera causar fastio, de não satisfazer que lhe foi pedido, conforme ao desejo do suplicante; são suas palavras as que se seguem:

Vereor ne ista, quae sunt a me dicta, et non satisfecerint expectationi et taedio fuerint gravitati2 tuae, quandoquidem et tu ex omnibus, quae interrogati unum a me libellum misti veles, ego duos libros, eosdemque longissimos misi, et fortasse quaestionibus3 nequaquam expedite diligenter respondi. Aug. Lb. 2º quaestion4. ad Simplic.



Desta maneira havendo-me Vossa Mercê pedido um tratado das coisas do Brasil, lhe ofereço dois, leitura, que pudera causar fastio, se o diverso método a não variara, e dera apetite, e contudo receio de não satisfazer curiosidade de Vossa Mercê, segundo sei, que gosta desta iguaria. Donde tomei também motivo para a dedicar a Vossa Mercê e não a outrem, lembrando-me que por dar Jacó a Isac seu pai uma de que gostava alcançou a bênção como a mãe lho havia certificado, dizendo:

Nuncergo, fili5 mi, acquiesce consiliis meis: et [pergens ad gregem]6 mihi duos hoedos7 ut faciam ex eis escas patri tuo, quibus libenter8 vescitur: quas cum intuleris9, et comederit10 benedicat11 tibi.



Bem enxergou o santo velho, ainda que cego, que Jacob o enganava, pois o conheceu pela voz. Vere quidem vox12 Jacob, est; mas levado do gosto da iguaria a que era afeiçoado depois da inspiração do céu lhe concedeu a bênção, esta peço eu a Vossa Mercê, e com ela não tenho que temer a maldizentes. Nosso Senhor, vida, saúde, e estado conserve e aumente a Vossa Mercê, como os seus lhe desejamos.

Bahia, 20 de dezembro de 1627.

Servo de Vossa Mercê
FREI VICENTE DO SALVADOR






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Livro primeiro

Em que se trata do descobrimento do Brasil, costumes dos naturais, aves, peixes, animais e do mesmo Brasil



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Capítulo I

Como foi descoberto este Estado


A terra do Brasil, que está na América, uma das quatro partes do mundo, não se descobriu de propósito, e de principal intento; mas acaso indo Pedro Álvares Cabral, por mandado de el-rei d. Manuel, no ano de 1500 para as Índias, por capitão-mor de 12 naus, afastando-se da costa de Guiné, que já era descoberta ao Oriente, achou estoutra ao Ocidente, da qual não havia notícia alguma, foi costeando alguns dias com tormenta até chegar a um porto seguro, do qual a terra vizinha ficou com o mesmo nome.

Ali desembarcou o dito capitão com seus soldados armados, para pelejarem; porque mandou primeiro um batel com alguns a descobrir campo, e deram novas de muitos gentios, que viram; porém não foram necessárias armas, porque só de verem homens vestidos, e calçados, brancos, e com barba / do que tudo eles carecem / os tiveram por divinos, e mais que homens, e assim chamando-lhe Caraíbas, que quer dizer na sua língua coisa divina, se chegaram pacificamente aos nossos.

Donde assim como os índios da Nova Espanha, quando viram desembarcar nela os espanhóis lhes chamaram viracocés, que significa escumas do mar, parecendo-lhes que o mar os lançara de si como escumas, e este nome lhes ficou sempre, assim somos ainda destoutros chamados Caraíbas e respeitados mais que homens. Mas muito mais cresceu neles o respeito, quando viram oito frades da ordem do nosso padre São Francisco, que iam com Pedro Álvares Cabral, e por guardião o padre frei Henrique, que depois foi bispo de Cepta, o qual disse ali missa, e pregou, onde os gentios ao levantar da hóstia, e cálice se ajoelharam, e batiam nos peitos como faziam os cristãos, deixando-se bem nisto ver como Cristo senhor nosso neste divino Sacramento domina os gentios, que é o que a igreja canta no Invitatório de suas Matinas, dizendo:

Christum regem dominantem gentibus, qui se manducantibus dat spiritus pinguedinem, venite adoremus.



Do deus Pã, diziam os antigos gentios, que dominava e era senhor do Universo, e disseram verdade se o entenderam deste Pã divino; porque sem falta ele é o Deus que tudo domina, e apenas há lugar em toda a terra onde já não seja venerado, nem nação tão bárbara de que não seja querido e adorado, como estes Brasis bárbaros fizeram.

Bem quiseram os nossos frades, pela facilidade que nisto mostraram, para aceitarem a nossa fé católica, ficar-se ali, para os ensinarem e batizarem, mas o capitão-mor, que os levava para outra seara não menos importante, partiu daí a poucos dias com eles para a Índia, deixando ali uma cruz levantada como também dois portugueses degradados para que aprendessem a língua, e despediu um navio a Portugal, de que era capitão Gaspar de Lemos com a nova a el-rei d. Manuel, que a recebeu com o contentamento, que tão grande coisa, e tão pouco esperada merecia.




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Capítulo II

Do nome do Brasil


O dia em que o capitão-mor Pedro Álvares Cabral levantou a cruz, que no capítulo atrás dissemos, era 3 de maio, quando se celebra a invenção da Santa Cruz, em que Cristo Nosso Redentor morreu por nós, e por esta causa pôs nome à terra, que havia descoberta, de Santa Cruz, e por este nome foi conhecida muitos anos: porém como o demônio com o sinal da cruz perdeu todo o domínio, que tinha sobre os homens, receando perder também o muito que tinha nos desta terra, trabalhou que se esquecesse o primeiro nome, e lhe ficasse o de Brasil, por causa de um pau assim chamado, de cor abrasada e vermelha, com que tingem panos, que o daquele divino pau que deu tinta e virtude a todos os sacramentos da igreja, e sobre que ela foi edificada, e ficou tão firme e bem fundada, como sabemos, e porventura por isto ainda que ao nome de Brasil ajuntaram o de estado, e lhe chamaram estado do Brasil, ficou ele tão pouco estável, que com não haver hoje 100 anos, quando isto escrevo, que se começou a povoar, já se hão despovoados alguns lugares, e sendo a terra tão grande, e fértil, como adiante veremos, nem por isso vai em aumento, antes em diminuição.

Disto dão alguns a culpa aos reis de Portugal, outros aos povoadores; aos reis pelo pouco caso que haviam feito deste tão grande estado, que nem o título quiseram dele, pois intitulando-se senhores de Guiné, por uma caravelinha que lá vai, e vem, como disse o Rei do Congo, do Brasil não se quiseram intitular, nem depois da morte de el-rei d. João Terceiro, que o mandou povoar e soube estimá-lo, houve outro que dele curasse, senão para colher suas rendas e direitos; e deste mesmo modo se haviam os povoadores, os quais por mais arraigados, que na terra estivessem, e mais ricos que fossem, tudo pretendiam levar a Portugal, e se as fazendas e bens que possuíam soubessem falar também lhes haveriam de ensinar a dizer como os papagaios, aos quais a primeira coisa que ensinam é papagaio real para Portugal; porque tudo querem para lá, e isto não tem só os que de lá vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra, não como senhores, mas como usufrutuários, só para a desfrutarem, e a deixarem destruída.

Donde nasce também, que nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular. Não notei eu isto tanto quanto o vi notar um bispo de Tucuman da Ordem de S. Domingos, que por algumas destas terras passou para a Corte, era grande canonista, homem de bom entendimento e prudência, e assim ia muito rico; notava as coisas, e via que mandava comprar um frangão, quatro ovos, e um peixe, para comer, e nada lhe traziam: porque não se achava na praça nem no açougue, e se mandava pedir as ditas coisas, e outras muitas a casas particulares lhas mandavam, então disse o bispo verdadeiramente que nesta terra andam as coisas trocadas, porque toda ela não é república, sendo-o cada casa; e assim é, que estando as casas dos ricos / ainda que seja a custa alheia, pois muitos devem quanto têm / providas de todo o necessário, porque tem escravos, pescadores, caçadores, que lhes trazem a carne e o peixe, pipas de vinho e de azeite, que compram por junto: nas vilas muitas vezes se não acha isto a venda. Pois o que é fontes, pontes, caminhos e outras coisas públicas é uma piedade, porque atendo-se uns aos outros nenhum as faz, ainda que bebam água suja, e se molhem ao passar dos rios, ou se orvalhem pelos caminhos, e tudo isto vem de não tratarem do que há cá de ficar, senão do que hão de levar para o reino.

Estas são as razões porque alguns, como muitos dizem, que não permanece o Brasil nem vai em crescimento; e a estas se pode ajuntar a que atrás tocamos de lhe haverem chamado estado do Brasil, tirando-lhe o de Santa Cruz, com que pudera ser estado, e ter estabilidade e firmeza.




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Capítulo III

Da demarcação da terra, e costa do Brasil com a do Peru e Índias de Castela


Grandes dúvidas e diferentes se começavam a mover sobre as conquistas das terras do Novo Mundo, e houveram de crescer cada dia mais, se os reis católicos de Castela, d. Fernando, e d. Isabel, sua mulher, e el-rei de Portugal, d. João Segundo, que as iam conquistando não atalharassem com um concerto, que entre si fizeram, de que também deram conta ao Papa, e houveram sua aprovação e beneplácito. O concerto foi, que de uma das ilhas de cabo Verde chamada Santo Antão se medissem 370 léguas para o oeste, e dali lançando uma linha meridiana de norte a sul, todas as terras e ilhas que estavam para descobrir desta linha para a parte do oriente fossem da coroa de Portugal, e as ocidentais da coroa de Castela.

Conforme a isto, diz Pedro Nunes, famoso cosmógrafo, que a terra do Brasil da Coroa de Portugal começa além da ponta do rio Amazonas, da parte do oeste no porto de Vicente Pizon, que demarca em dois graus da linha equinocial, para o norte, e corre pelo sertão até além da Baía de S. Mathias, por 44 graus, pouco mais ou menos, para o sul, e por esta medida / diz o mesmo cosmógrafo / tem o Brasil pela costa 1500 léguas; porém, dado que assim seja na teoria a prática é não chegar ao Brasil mais que até o rio da Prata, que esta em 35 graus, e, contudo, ainda tem mais de 1000 léguas por costa, porque posto que em algumas partes corre de norte a sul, que são os graus só de 17,5 léguas: todavia pela maior parte, que é para o sul do cabo de Santo Agostinho até o rio da Prata, corre de nordeste a sudoeste, que são de 25 léguas, e para o norte do cabo Branco até o rio Amazonas, quase de leste a oeste, onde se altera o grau, se multiplicam as léguas, e assim não é muito que em 35 graus haja tantas.

Donde se colige também, que é a terra do Brasil da figura de uma harpa, cuja parte superior fica mais larga ao norte correndo do oriente ao ocidente, e as colaterais a do sertão do norte a sul, e da costa do nordeste a sudoeste, se vão ajuntar no rio da Prata em uma ponta à maneira de harpa, como se verá no mapa mundi, e na estampa seguinte.

Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão não trato, porque até agora não houve quem a andasse, por negligência dos portugueses que, sendo grandes conquistadores de terras, não se aproveitam delas, mas contentam-se de as andar arranhando ao longo do mar como caranguejos.

Depois do sobredito concerto e demarcação, se moveram ainda novas dúvidas sobre a conquista destas terras; porque um português por nome Fernão de Magalhães, homem de grande espírito, e de muita prática e experiência na arte de navegação, por um agravo que teve de el-rei d. Manuel, por lhe não mandar acrescentar um tostão a moradia que tinha para ficar igual a de seus antepassados, se tirou do seu serviço e se passou ao imperador Carlos Quinto, oferecendo-se até dar maiores proveitos da Índia de que tinham os portugueses, e por viagem mais breve e menos custosa e perigosa que a sua, por um estreito que ele novamente descobrira na costa do Brasil; e lhe pôs também as ilhas de Maluco na demarcação de Castela. Ao que o imperador não somente deu ouvidos, mas admitiu ao seu serviço, e posto que el-rei lhe escreveu logo, fazendo-lhe as lembranças necessárias, não deixou de dar navios e gente a Fernão de Magalhães com que cometeu a viagem, e foi pelo estreito às ilhas de Maluco, onde todos se perderam, exceto um, que depois de passar muitos trabalhos e perigos, e cinco meses de fome estreitíssima, de que lhe morreram 21 pessoas, os que ficaram vivos, constrangidos da extrema necessidade, arribaram-se à ilha de Cabo Verde, onde os portugueses, enquanto não souberam da viagem que traziam, os agasalharam e proveram com todos os mantimentos e refrescos necessários, porque os castelhanos diziam virem das Antilhas, mas depois que entenderam a verdade, determinaram secretamente de lançar mão da nau, e a fizeram deter, até darem aviso ao reino, o que também aventaram os castelhanos, e se fizeram à vela com tanta pressa, que não tiveram tempo de recolher o seu batel, e os da ilha o tomaram com 13 homens, que estavam em terra, e os mandaram logo a el-rei com novas do que passava. el-rei que já nesse tempo era d. João Terceiro, por falecimento de el-rei d. Manuel, seu pai, que havia um ano era morto, a 13 de dezembro de 1521, mandou logo quatro caravelas em busca do navio, mas por maior pressa, que se deram, acharam novas, que já era aportado em Sevilha.

Pelo que determinou no seu Conselho de mandar pedir ao imperador toda a especiaria, que o navio trouxera das ilhas de Maluco, por estarem dentro da sua demarcação, e que não quisesse começar a dar motivo de se quebrarem as pazes, que por ambos estavam ratificadas, e assim o escreveu ao imperador e a Luiz da Silveira, que havia mandado por seu embaixador a Castela sobre casamentos e lianças, escreveu mudasse a substância da embaixada, e só tratasse deste negócio, como também o mandou fazer o imperador pelo seu secretário que estava em Portugal, Cristóvão Barroso, ao qual escreveu, que falasse logo a el-rei, e lhe desse uma carta, que sobre isso lhe escrevia, em que se queixava muito de todas estas coisas, e principalmente de ele mandar no alcance da sua nau, que vinha carregada de especiaria das terras, que cabiam na sua demarcação sem tocar por toda a Índia e que isto era quebrar as capitulações antigas, e novas das pazes, que estavam assentadas, e juradas de um reino a outro, sendo todos os navios portugueses por seu mandado mui bem recolhidos em todos os portos de seus senhorios, por onde lhe pedia, que lhe mandasse soltar os presos, e castigar na ilha os que prenderam: às quais queixas se respondeu de parte a parte, que se poriam em juízo, e se julgaria o que fosse justiça.

Mas sem falta se viera o negócio a averiguar pelas armas, se não se efetuassem neste tempo os casamentos del-rei com a rainha d. Catarina irmã do imperador, e do imperador com a imperatriz d. Isabel, irmã del-rei com que ficaram duas vezes cunhados, e irmãos, e pelo conseguinte em muita paz e amizade.

Também el-rei Francisco de França desejoso de ter parte nos grandes proveitos, que diziam tirar-se destas terras, começou a argüir novas dúvidas sobre a demarcação que entre si os reis de Portugal fizeram com os de Castela, da qual ele se lançara de fora sendo requerido para isso, e agora sentia muito a renunciação, que tinha feito. Donde se veio a dizer, que pelo desgosto, que tinha destes dois reis de Portugal e Castela repartirem entre si o mundo, e o demarcarem à sua vontade, consentia andarem os seus vassalos pelo mar tão soltos, que não somente roubavam os navios, mas cometiam as ditas terras, e as queriam povoar, principalmente as do Brasil, como adiante veremos.




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Capítulo IV

Do clima e temperamento do Brasil


Opinião foi de Aristóteles, e de outros filósofos antigos de que a zona tórrida era inabitável, porque como o sol passa por ela cada ano duas vezes para os trópicos, parecia-lhes, que com tanto calor não poderia alguém viver, e confirmavam sua opinião, porque o sol aquenta com os seus raios uniformiter diformiter, mais ao perto que ao longe, e por essa causa no inverno aquenta pouco, porque anda distante, sed sic est, que na zona temperada onde nunca entra, só pelo acesso que faz no verão enfermam, e morrem os homens de calor, logo a fortiori em a zona tórrida donde nunca sai, há de ser mortífero.

Porém a experiência tem já mostrado, que a zona tórrida é habitável, e que em algumas partes dela vivem os homens com mais saúde, que em toda a zona temperada, principalmente no Brasil, onde nunca há peste, nem outras enfermidades comuns, senão bexigas de tempos em tempos, de que adoecem os negros, e os naturais da terra, e isto só uma vez, sem a segundar em os que já as tiveram, e se alguns adoecem de enfermidades particulares, é mais por suas desordens, que por malícia da terra. A razão disto é porque ainda que a terra do Brasil seja cálida por estar a maior dela na zona tórrida, contudo é juntamente muito úmida, como se prova do orvalhar tanto de noite, que nem depois de sair o sol a quatro horas se enxugam as ervas; e se alguém dorme ao sereno, se levanta pela manhã tão molhado dele como se lhe houvera chovido.

Daqui vem também não poder o sal e o açúcar, por mais que o sequem, e resguardem, conservar-se sem umedecer-se, e o ferro e aço de uma espada ou navalha, por mais limpos, e sacalado que sejam, se enche logo de ferrugem, e esta umidade é causa de que o calor desta terra se tempere, e faz este clima de boa complexão, outra é pelos ventos leste e nordeste, que ventam do mar todo o verão do meio-dia pouco mais ou menos, até a meia-noite, e lavam e refrescam toda a terra.

A última causa é pela igualdade dos dias e das noites, porque (como dizem os filósofos) a extensão faz intenção; donde se um pusesse ou tivesse a mão devagar sobre um fogo fraco de estopas ou de palhas se queimaria mais, que se depressa a passasse por um fogo forte, e por isto em Portugal, posto que o calor é mais remisso se sente mais, porque dura mais, e são maiores os dias no verão, que as noites, mas no Brasil, ainda que mais intenso, dura menos, e não aquenta tanto que o frio da noite o não atalhe, que não chegue de um dia a outro.

Donde se responde ao argumento de Aristóteles de que o sol aquenta mais na zona tórrida, que na temperada, intensiva, mas não extensiva, e que esta intenção de calor se modera com os ventos frescos do mar, e umidade da terra, junto com a frescura do arvoredo, de que toda está coberta; de tal sorte que os que a habitam vivem nela alegremente. O em que se verifica a opinião dos filósofos é nas coisas mortas, porque estando nas outras terras a carne três ou quatro dias sã, e incorrupta, e da mesma maneira o pescado, nesta não está 24 horas, que se não dane e corrompa.




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Capítulo V

Das minas de metais e pedras preciosas do Brasil


Já no capítulo terceiro, comecei a murmurar da negligência dos portugueses, que não se aproveitavam das terras do Brasil, que conquistaram, e agora me é necessário continuar com a murmuração, havendo de tratar das minas do Brasil, pois sendo contígua esta terra com a do Peru, que a não divide mais que uma linha imaginária indivisível, tendo lá os castelhanos descobertas tantas e tão ricas minas, cá nem uma passada dão por isso, e quando vão ao sertão é a buscar índios forros, trazendo-os à força, e com enganos, para se servirem deles, e os venderem com muito encargo de suas consciências, e é tanta a fome que disto levam, que ainda que de caminho achem mostras, ou novas de minas, não as cavam, nem ainda as vêem, ou as demarcam.

Um soldado de crédito me disse, que indo de São Vicente com outros, entraram muitas léguas pelo sertão, donde trouxeram muitos índios, e em certa paragem lhes disse um que dali a três jornadas estava uma mina de muito ouro limpo, e descoberto, donde se podia tirar em pedaços, porém que receava a morte se lha fosse mostrar, porque assim morrera já outro que em outra ocasião a quisera mostrar aos brancos; e dizendo-lhe estes, que não temesse, porque lhe rogariam a Deus pela vida, prometeu que lha iria mostrar, e assentaram de partir no dia seguinte pela manhã, porque aquele era já tarde, com isto se apartou o índio para o seu rancho, e quando amanheceu o acharam morto, e como morreram todos, não houve mais quem tivesse ânimo para descobrir aquela riqueza, que a mesma natureza / segundo dizia o índio / ali está mostrando descoberta. Outra entrada fez um Antônio Dias Adorno, da Bahia, em que também achou de passagem muitas sortes de pedras preciosas, de que trouxe algumas mostras, e por tais foram julgadas dos lapidários.

De cristal sabemos em certo haver uma serra na capitania do Espírito Santo em que estão metidas muitas esmeraldas, de que Marcos de Azevedo levou as mostras a el-rei, e feito exame por seu mandado, disseram os lapidários, que aquelas eram da superfície, e estavam tostadas do sol, mas que se cavassem ao fundo as achariam claras e finíssimas, pelo que el-rei lhe fez mercê do hábito de Cristo, e de dois mil cruzados, para que tornasse a elas, os quais se não deram; e o homem era velho e morreu sem haver mais até agora quem lá tornasse.

Também há minas de cobre, ferro e salitre, mas se pouco trabalham pelas de ouro e pedras preciosas, muito menos fazem por estoutras.

Não ponho culpa a el-rei, assim porque sei que nesta matéria lhe tem dado alguns alvitres falsos e, diz Aristóteles, que é pena dos que mentem não lhes darem crédito quando falam verdade, como também porque não basta mandar el-rei, se os ministros não obedecem, como se viu no das esmeraldas de Marcos de Azevedo.




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Capítulo VI

Das árvores agrestes do Brasil


Há no Brasil grandíssimas matas de árvores agrestes, cedros, carvalhos, vinháticos, angelins, e outras não conhecidas em Espanha, de madeiras fortíssimas para se poderem fazer delas fortíssimos galeões, e o que mais é, que da casca de algumas se tira a estopa para se calafetarem, e fazerem cordas para enxárcia e amarras, do que tudo se aproveitam os que querem cá fazer navios, e se poderá aproveitar el-rei se cá os mandara fazer; mas os índios naturais da terra as embarcações de que usam são canoas de um só pau, que lavram a fogo e a ferro; e há paus tão grandes, que ficam depois de cavados, com 10 palmos de boca de bordo a bordo; e tão compridos, que remam a 20 remos por banda.

São também as madeiras do Brasil mui acomodadas para os edifícios das casas por sua fortaleza, e com elas se acha juntamente a pregadura; porque ao pé das mesmas árvores nascem uns vimes mui rijos, chamados timbós, e cipós que, subindo até o mais alto delas ficam parecendo mastros de navios com seus cordéis, e com estes atam os caibros, ripas e toda a madeira das casas, que houvera de ser pregadas, no que se forra muito gasto de dinheiro e, principalmente, nas grandes cercas, que fazem aos pastos dos bois dos engenhos, porque não saiam a comer os canaviais do açúcar, e os achem no pasto, quando os houverem mister para a moenda, as quais cercas se fazem de estacas e varas atadas com estes cipós.

Ao longo do mar, e em algumas partes, muito espaço dentro dele há grandes matas de mangues, uns direitos e delgados de que fazem estas cercas e caibros para as casas. Outros que dos ramos lhes descem as raízes ao lado, e delas sobem outros, que depois de cima lançam outras raízes, e assim se vão continuando de ramos a raízes, e de raízes a ramos, até ocupar um grande espaço, que é coisa de admiração.

Não é menos admirável outra planta, que nasce nos ramos de qualquer árvore, e ali cresce, e dá um fruto grande, e mui doce chamado caragatá, e entre suas folhas, que são largas, e rijas, se acha todo o verão água frigidíssima, que é o remédio dos caminhantes, onde não há fontes. Há muitas castas de palmeiras, de que se comem os palmitos e o fruto, que são uns cachos de cocos, e se faz deles azeite para comer, e para a candeia, e das palmas se cobrem as casas.

Nem menos são as madeiras do Brasil formosas que fortes, porque as há de todas as cores, brancas, negras, vermelhas, amarelas, roxas, rosadas e jaspeadas, porém tirado o pau vermelho, a que chamam Brasil, e o amarelo chamado Tataisba, e o rosado Arariba, os mais não dão tinta de suas cores, e, contudo, são estimados por sua formosura para fazer leitos, cadeiras, escritórios e bufetes: como também se estimam outros, porque estilam de si óleo odorífero, e medicinal, quais são umas árvores mui grossas, altas e direitas chamadas copaíbas, que golpeadas no tempo do estio com um machado, ou furadas com uma verruma, ao pé estilam do âmago um precioso óleo, com que se curam todas as enfermidades de humor frio, e se mitigam as dores que delas procedem, e saram quaisquer chagas, principalmente de feridas frescas, posto com o sangue, de tal modo, que nem fica delas sinal algum, depois que saram: e acerta às vezes estar este licor tão de vez, e desejoso de sair, que em tirando a verruma, corre em tanta quantidade como se tiraram o torno a uma pipa de azeite; porém, nem em todas se acha isto, senão nas que os índios chamam fêmeas, e esta é a diferença que tem dos machos, sendo em tudo o mais semelhante, nem só tem estas árvores virtude no óleo, mas também na casca, e assim se acham ordinariamente roçadas dos animais, que as vão buscar para remédio de suas enfermidades.

Outras árvores há chamadas coboreibas, que dão o suavíssimo bálsamo com que se fazem as mesmas curas, e o Sumo Pontífice o tem declarado, por matéria legítima da santa unção, e crisma, e como tal se mistura e sagra com os santos óleos onde falta o da Pérsia.

Este se tira também dando golpes na árvore, e metendo neles um pouco de algodão em que se colhe, e exprimido o metem em uns coquinhos para o guardarem e venderem.

Outras árvores se estimam ainda que agrestes, por seus saborosos frutos, que são inumeráveis, as que frutificam pelos campos, e matos, e assim não poderei contar senão algumas principais, tais são as sasapocaias de que fazem os eixos para as moendas dos engenhos, por serem rigíssimas, direitas e tão grossas como tonéis, cujos frutos são uns vasos tapados, cheios de saborosas amêndoas, os quais depois que estão de vez se destapam, e comidas as amêndoas servem as cascas de grãos para pisar adubos, ou o que querem.

Maçarandubas, que é a madeira mais ordinária de que fazem as traves e todo o madeiramento das casas, por ser quase incorruptível, seu fruto é como cerejas, maior e mais doce, mas lança de si leite, como os figos mal maduros.

Jenipapos, de que fazem os remos para os barcos como na Espanha os fazem de faia, tem um fruto redondo tão grande como laranjas, o qual quando é verde, espremido dá o sumo tão claro como a água do pote; porém quem se lava com ele fica negro como carvão, nem se lhe tira a tinta em poucos dias.

Desta se pintam, e tingem os índios em suas festas, e saem tão contentes nus, como se saíssem com uma rica libré, e este fruto se come depois de maduro, sem botar dele nada fora.

Gyitis (sic) é fruto de outras, o qual posto que feio à vista, e por isto lhe chamam coroe, que quer dizer nodoso, e sarabulhento, contudo é de tanto sabor e cheiro, que não parece simples, senão composto de açúcar, ovos e almiscar.

Os cajueiros dão a fruta chamada cajus, que são como verdiais, mas de mais sumo, os quais se colhem no mês de dezembro em muita quantidade, e os estimam tanto, que aquele mês não querem outro mantimento, bebida ou regalo, porque eles lhes servem de fruta, o sumo de vinho, e de pão lhes servem umas castanhas, que vem pegadas a esta fruta, que também as mulheres brancas prezam muito, e secas as guardam todo o ano em casa para fazerem maçapães e outros doces, como de amêndoas; e dá goma como a Arábia. A figura desta árvore e do seu fruto é a seguinte.

O mesmo tem outra planta que produz os ananases, fruta que em formosura, cheiro e sabor excede todas as do mundo, alguma tacha lhe põem os que têm chagas e feridas abertas, porque lhas assanha muito se a comem, trazendo ali todos os ruins humores, que acha no corpo: porém isto antes argue a sua bondade, que é não sofrer consigo ruins humores, e purgá-los, pelas vias, que acha abertas, como o experimentam os enfermos de pedra, que lha desfaz em areias, e expele com a urina, e até a ferrugem da faca, com que se apara, a limpa; a figura da planta e fruto é o seguinte.

Cultivam-se palmares de cocos grandes, e colhem-se muitos, principalmente à vista do mar, mas só os comem, e lhes bebem a água, que tem dentro seus mais proveitos, que tiram na Índia, onde diz o padre Frei Gaspar no seu Itinerário a folhas 14, que das palmeiras se arma uma nau à vela, e se carrega de todo o mantimento necessário sem levar sobre si mais, que a si mesma. Fazem-se favais de favas e feijões de muitas castas, e as favas secas são melhores que as de Portugal, porque não criam bicho, nem tem a casca tão dura como as de lá, e as verdes não são piores.

A sua rama é a modo de vimes, e se tem por onde trepar faz grande ramada.

Maracujás é outra planta que trepa pelos matos, e também a cultivam e põem em latadas nos pátios e quintais, dão fruto de quatro ou cinco sortes, uns maiores, outros menores, uns amarelos, outros roxos, todos mui cheirosos, e gostosos, e o que mais se pode notar é a flor porque além de ser formosa e de várias cores, é misteriosa, começa no mais alto em três folhinhas, que se rematam em um globo, que representa as três divinas pessoas em uma Divindade ou / como outros querem / os três cravos com que Cristo foi encravado, e logo tem abaixo do globo (que é o fruto) outras cinco folhas, que se rematam em uma roxa coroa, representando as cinco chagas e coroa de espinhos de Cristo Nosso Redentor.

Das árvores e plantas frutíferas, que se cultivam em Portugal, se dão no Brasil as de espinho com tanto viço, e fertilidade, que todo o ano há laranjas, limões cidras e limas doces em muita abundância. Há também romãs, marmelos, figos e uvas de parreira, que se vindimam duas vezes no ano; e na mesma parreira / se querem / tem juntamente uvas em flor, outras em agraço, outras maduras, se as podam a pedaços em tempos diversos.

Há muitas melancias e abóboras de Quaresma, e de conserva muitos melões todo o verão tão bons, como os bons de Abrantes, e com esta vantagem que lá entre cento se não acham dois bons, e cá entre cento se não acham dois ruins.

Finalmente se dá no Brasil toda a hortaliça de Portugal, hortelã, endros, coentro, segurelha, alfaces, celgas, borragens, nabos e couves, e estas só uma vez se plantam de couvinha, mas depois dos olhos, que nascem ao pé, se faz a planta muitos anos, e em poucos dias crescem e se fazem grandes couves: além destas há outras couves da mesma terra, chamadas taiobas, das quais comem também as raízes cozidas, que são como batatas pequenas.




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Capítulo VII

Das árvores e ervas medicinais, e outras qualidades ocultas


Além das árvores do salutífero bálsamo, e óleo de copaíba, de que já fiz menção no capítulo sexto, há outras, que destilam de si mui boa almécega, para as boticas: outras chamadas sassafrás, ou árvores de funcho, porque cheiram, a ele, cujas raízes e o próprio pau para enfermidades de humores frios é tão medicinal como o pau da China. Há árvores de canafístula brava, assim chamada, porque se dá nos matos, e outra que se planta, e é a mesma que das Índias.

Há umas árvores chamadas anudaz, que dão castanhas excelentes para purgas, e outras que dão pinhões para o mesmo efeito, os quais têm este mistério que se tomam com uma tona, e películo sutil, que tem, provocam o vômito, e se lha tiram, somente provocam a câmera. Mas tem-se por mais fácil, e melhor a purga da batata, ou mechoação, que também há muita pelos matos.

Nas praias do mar, ou ao longo delas se dá uma erva, que se não é a salsaparrilha, parece-se com ela, e tomada em suadouros faz os mesmos efeitos.

A erva fedegosa, chamada dos gentios e índios feiticeira, pelas muitas curas, que com ela se fazem e, particularmente do bicho, que é uma doença mortífera.

As ambaíbas, são umas figueiras bravas que dão uns figos de dois palmos, quase, de comprido, mas pouco mais grossos que um dedo, os quais se comem e são mui doces, e os olhos dessas árvores pisados, e postos em feridas frescas, com o sangue as saram maravilhosamente. A folha da figueira do inferno posta sobre nascidas, e leicenços mitiga a dor, e a sara. As de jurubeba saram as chagas, e as raízes são contra peçonha. A caroba sara das boubas. O cipó, das câmeras; enfim não há enfermidade contra a qual não haja ervas nesta terra, nem os índios naturais dela têm outra botica ou usam de outras medicinas.

Outras há de qualidades ocultas, entre as quais é admirável uma ervazinha, a que chamam erva viva, e lhe puderam chamar sensitiva, se o não contradissera a filosofia, a qual ensina o sensitivo ser diferença genérica que distingue o animal da planta, e assim define o animal, que é corpo vivente sensitivo.

Mas contra isto vemos, que se tocam esta erva com a mão, ou com qualquer outra coisa, se encolhe logo, e se murcha, como se sentira o toque, e depois que a largam, como já esquecida do agravo, que lhe fizeram, se torna a estender e abrir as folhas; deve isto ser alguma qualidade oculta, qual a da pedra de cevar para atrair o ferro, e não lhe sabemos outra virtude.




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Capítulo VIII

Do mantimento do Brasil


É o Brasil mais abastado de mantimentos que quantas terras há no mundo, porque nele se dão os mantimentos de todas as outras. Dá-se trigo em S. Vicente em muita quantidade, e dar-se-á nas mais partes cansando primeiro as terras, porque o viço lhe faz mal.

Dá-se também em todo o Brasil muito arroz, que é o mantimento da Índia Oriental, e muito milho zaburro, que é o das Antilhas e Índia Ocidental. Dão-se muitos inhames grandes, que é o mantimento de S. Tomé e Cabo Verde, e outros mais pequenos, e muitas batatas, as quais plantadas uma só vez sempre fica a terra inçada destas.

Mas o ordinário e principal mantimento do Brasil é o que se faz da mandioca, que são umas raízes maiores que nabos e de admirável propriedade, porque se as comem cruas, ou assadas são mortífera peçonha, mas raladas, esprimidas e desfeitas em farinha fazem delas uns bolos delgados, que cozem em uma bacia, ou alguidar, e se chamam beijus, que é muito bom mantimento, e de fácil digestão, ou cozem a mesma farinha mexendo-a na bacia como confeitos, e esta se a torram bem, dura mais que os beijus, e por isso é chamada farinha de guerra, porque os índios a levam quando vão a guerra longe de suas casas, e os marinheiros fazem dela sua matalotagem daqui para o reino.

Outra farinha se faz fresca, que não é tão cozida, e para esta / se a querem regalada / deitam primeiro as raízes de molho, até que amoleçam, e se façam brandas, e então as espremem etc., e se estas raízes assim moles as põem a secar ao sol chama-se carimã, e as guardam ao fumo em caniços muito tempo, as quais, pisadas se fazem em pó tão alvo como o da farinha de trigo, e dele amassado fazem pão, que se é de leite, ou misturado com farinha de milho, e de arroz, é muito bom, mas estreme é algum tanto corriento; e assim o para que mais o querem é para papas, que fazem para os doentes com açúcar, e as tem por melhores que tisanas, e para os sãos as fazem de caldo de peixe ou de carne, ou só de água, e esta é a melhor triaga que há contra toda a peçonha, e por isso disse destas raízes, que tinham propriedade admirável, porque sendo cruas mortífera peçonha, só com um pouco de água e sal se fazem mantimento e salutífera triaga: e ainda tem outra a meu ver mais admirável, que sendo estas raízes cruas mantimento com que sustentam e engordam cevados e cavalos, se as espremem e lhe bebem só o sumo morrem logo, e com ser este sumo tão fina peçonha, se o deixam assentar-se coalha em um polme, a que chamam tapioca, de que se faz mais gostosa farinha, e beijus, que da mandioca, e cru é bela goma para engomar mantos.

Outra casta há de mandioca, a que chamam aipins, que se podem comer crus, sem fazer dano, e assados sabem a castanhas de Portugal assadas, e assim de uma como da outra não é necessário perder-se a semente, quando se planta, como no trigo; mas só se planta a rama feita em pedaços de pouco mais de palmo, os quais metidos até o meio na terra cavada dão muitas e grandes raízes, nem se recolhem em celeiros donde se comam de gorgulho como o trigo, mas colhem-as do campo pouco a pouco, quando querem, e até as folhas pisadas, e cozidas se comem.




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Capítulo IX

Dos animais e bichos do Brasil


Criam-se no Brasil todos os animais domésticos, e domáveis de Espanha, cavalos, vacas, porcos, ovelhas e cabras, e parem a dois e três filhos de cada ventre, e a carne de porco se come indiferentemente de inverno e verão, e a dão a doentes como a de galinha. Há também muitos porcos monteses; alguns como os javalis de Espanha, os quais andam em manadas, e se o caçador fere algum há logo de subir-se a alguma árvore; porque vendo eles que não podem chegar-lhe remetem todos ao ferido e aos outros em que se pegou algum sangue, com tanta fereza, que se não apartam até não deixarem três ou quatro mortos no campo, e então se vão em paz, e o caçador também com a caça.

Outros há que têm o umbigo nas costas, e é necessário tirar-lho com uma faca, antes que o esquartejem, sob pena de ficar toda a carne fedendo a raposinhos.

Outros há a que chamam capivaras, que quer dizer comedores de erva, andam sempre na água tirado, quando saem a passear pelos vales, e margens dos rios, e alguns tomam, e criam em casa fora da água, pelo que se julgam por carne, e não por pescado. Há outros animais a que chamam antas, que são de feição de mulas, mas não tão grandes, e têm o focinho mais delgado, e o beiço superior comprido a maneira de tromba, e as orelhas redondas, a cor cinzenta pelo corpo, e branca pela barriga, estas saem a passear só de noite, e tanto que amanhece metem-se em matos espessos, e ali estão o dia todo escondidos; a carne destes animais, é no sabor, e fêvera como de vaca, e do couro curtido se fazem mui boas couras para vestir, e defender de setas e estocadas: algumas tem no bucho umas pedras, que na virtude são como as de bazar, mas mais lisas, e maciças.

Há outras mais caças de veados, coelhos, cutias; e pacas que são como lebres, mas mais gordas e saborosas, e não se esfolam para se comerem, porque têm couros como de leitão.

Há tatus, a que os espanhóis chamam armadilhos, porque são cobertas de uma concha não inteiriça como a das tartarugas, mas de peças a modo de lâminas, e sua carne assada é como de galinha.

Tamanduá é um animal tão grande como carneiro, o qual é de cor parda com algumas pintas brancas, tem o focinho comprido e delgado para baixo, a boca não rasgada como os outros animais, mas pequena e redonda, a língua da grossura de um dedo, e quase de três palmos de comprido; as unhas, a maneira de escopros, o rabo mui povoado de cerdas, quase tão compridas como de cavalo, e todas estas coisas lhe são necessárias para conservar sua vida; porque como não come outra coisa senão formigas, vai-se com as unhas cavar os formigueiros, até que saiam da cova, e logo lança a língua fora da boca, para que se peguem a ela, e como a tem bem cheia a recolhe para dentro, o que faz tantas vezes até que se farta, e quando se quer esconder aos caçadores, lança o rabo sobre si, e se cobre todo com suas sedas, de modo que não se lhe vêem os pés nem cabeça, nem parte alguma do corpo, e o mesmo faz quando dorme, gozando debaixo daquele pavilhão um sono tão quieto, que ainda que disparem junta uma bombarda, ou caia uma árvore com grande estrépito não desperta, senão é somente com um assobio, que por pequeno, que seja o ouve logo, e se levanta.

A carne desse animal comem os índios velhos, e não os mancebos, por suas superstições, e agouros. Há também muita diversidade de animais nocivos, que se não comem, como são onças, ou tigres, que matam touros, e se estão famintos comerão um exército, mas se estão fartos, não só não ofendem a alguém, mas nem ainda se defendem e se deixam matar facilmente.

Há raposas, e bugios, e destes há uns que são grandes, chamados guaribas, que tem barbas como homens, e se barbeiam uns aos outros, cortando o cabelo com os dentes; andam sempre em bandos pelas árvores, e se o caçador atira em algum, e não o acerta matam-se todos de riso, mas se o acerta, e não cai, arranca a flecha do corpo, e torna a fazer tiro com ela a quem o feriu, e logo foge pela árvore acima e, mastigando folhas, metendo-as na feridas se cura, e estanca o sangue com elas.

Outros bugios há não tão grandes, nem tem mais habilidades que fazer momos e caretas, mas são de cheiro; e outros pequenos chamados sagüis, uns pardos, outros ruivos.

Há outro animal chamado jaritacaca, que tem as mãos e pés como bugio, o qual é malhado de várias cores e detestável à vista, mais que ao olfato, como experimentam os que o querem caçar, porque só com uma ventosidade que larga, é tanto o fedor, que lhe foge o caçador, e do caçador fogem os vizinhos, muitos dias não podendo sofrer o mau cheiro, que se lhe comunicou, e vai comunicando por onde quer que vá, e os cães se vão muitas vezes lavar na água, e esfregar com a terra sem poder tirar o fedor.

Outro animal há a que chamam preguiça, por ser tão preguiçoso, e tardo em mover os pés e mãos, que para subir a uma árvore, ou andar um espaço de vinte palmos há mister meia hora, e posto que o aguilhoem, nem por isso foge mais depressa.

Há outro a que chamam taibu, que, depois que pare os filhos, os recolhe todos em um bolso, que tem no peito, onde os traz até os acabar de criar.

Há também muitas cobras, e algumas tão grandes, que engolem um veado inteiro, e dizem os índios naturais da terra, que depois de fartas rebentam, e corrupta a carne se gera outra do espinhaço; porque já aconteceu achar-se alguma presa com um vime, que tinha em si incorporado, o que não podia ser, senão que ficou junto ao vime quando rebentou, e se lhe corrompeu a carne, e depois criando outra de novo a colheu de dentro, e incorporou em si; porém não se há de dizer que morrem / como os índios cuidam /, senão, que com a carne corrupta ficam ainda vivas, e assim não ressuscitam mas saram, e algumas se viram já de 60 palmos de comprido, em Pernambuco, se enrolou uma destas em um homem, que ia caminhando, de tal sorte que se não levara bom cão consigo, que mordendo-a muitas vezes a fez largar, sem falta o matava: e ainda assim o deixou tal, que nunca mais tornou as suas cores, e forças passadas.

Também me contou uma mulher de crédito, na mesma capitania de Pernambuco, que estando parida lhe viera algumas noites uma cobra mamar nos peitos, o que fazia com tanta brandura, que ela cuidava ser a criança, e depois que conheceu o engano o disse ao marido, o qual a espreitou na noite seguinte e a matou. Há outras a que chamam cascavéis; porque os têm no rabo, com que vão fazendo rugido, por onde quer que vão, e cada ano lhe nasce um de novo, algumas vi que tinham oito, e são tão venenosas, que os mordidos delas de maravilha escapam. Outra há que chamam de duas cabeças, porque tanto mordem com o rabo como com a cabeça.

Há no Brasil infinitas formigas, que cortam as folhas das árvores, e em uma noite tosam toda uma laranjeira, se seu dono se descuida de lhe botar água em uns testos, que tem aos pés.

Outra casta há chamada copy, que fazem uns caminhos cobertos por onde andam, e roem as madeiras das casas, e os livros, e roupa que acham, se não há muita vigilância. Piolhos e percevejos não há no Brasil, nem tantas pulgas como em Portugal; mas há uns bichinhos de feição de pulgas, tão pequenos como piolhos de galinhas, que se metem nos dedos e solas dos pés de quem anda descalço, e se fazem tão grandes, e redondos como camarinhas, quem sabe tirá-los inteiros sem lesão o faz com a ponta de um alfinete, mas quem não sabe rebenta-os, e ficando a pele dentro cria matéria.




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Capítulo X

Das aves


Além das aves que se criam em casa, galinhas, patos, pombos, e perus, há no Brasil muitas galinhas bravas pelos matos, patos nas lagoas, pombas bravas, e umas aves chamadas jacus, que na feição e grandeza são quase como perus.

Há perdizes e rolas, mas as perdizes têm alguma diferença das de Portugal. Há águias de sertão, que criam nos montes altos, e emas tão grandes como as da África, umas brancas, e outras malhadas de negro, que sem voarem do chão com uma asa levantada ao alto, ao modo de vela latina, correm com o vento como caravelas, e contudo as tomam os índios a cosso nas campinas.

Há muitas garças ao longo do mar, e outras aves chamadas guarás, que quando empenam são brancas, e depois pardas e, finalmente, vermelhas como grã. Há papagaios verdes de cinco ou seis espécies, uns maiores, outros menores, que todos falam o que lhes ensinam. Há também araras, e canindés de bico revolto como papagaios, mas são maiores, e de mais formosas penas. Há uns passarinhos, que para que as cobras lhes não entrem nos ninhos a comer-lhes os ovos, e filhinhos, os fazem pendurados nos ramos das árvores de quatro ou cinco palmos de comprido, com o caminho mui intrincado, e compostos de tantos pauzinhos secos, que se pode com eles cozer uma panela de carne. Há outros chamados tapéis, do tamanho de melros, todos negros, e as asas amarelas, que remedam no canto todos os outros pássaros perfeitissimamente, os quais fazem seus ninhos em uns sacos tecidos.

Há muitas mui grandes baleias, que no meio do inverno vem a parir nas baías, e rios fundos desta costa, e às vezes lançam a ela muito âmbar, do que do fundo do mar arrancam, quando comem, e conhecido na praia, porque aves, caranguejos, e quantas coisas vivas há acodem a comê-lo.

Há outro peixe chamado espadarte, por uma espada que tem no focinho de seis ou sete palmos de comprido, e um de largura, com muitas pontas, com que peleja com as baleias, e levantam a água tão alta quando brigam, que se vê daí a três ou quatro léguas.

Há também homens marinhos, que já foram vistos sair fora d'água após os índios, e nela hão morto alguns, que andavam pescando, mas não lhes comem mais que os olhos e nariz, por onde se conhece, que não foram tubarões, porque também há muitos neste mar, que comem pernas e braços, e toda a carne.

Na capitania de S. Vicente, na era de 1564, saiu uma noite um monstro marinho à praia, o qual visto de um mancebo chamado Baltazar Ferreira, filho do capitão, se foi a ele com uma espada, e levantando-se o peixe direito como um homem sobre as barbatanas do rabo lhe deu o mancebo uma estocada pela barriga, com que o derrubou, e tornando-se a levantar com a boca aberta para o tragar-lhe deu um altabaixo na cabeça, com que o atordoou, e logo acudiram alguns escravos seus, que o acabaram de matar, ficando também o mancebo desmaiado, e quase morto, depois de haver tido tanto ânimo. Era este monstruoso peixe de 15 palmos de comprido, não tinha escama senão pêlo, como se verá na figura seguinte.

Há uns peixes pequenos em toda esta costa, menores de palmo, chamados majacus, que sentindo-se presos do anzol o cortam com os dentes, e fogem, mas se lhe atam a isca em qualquer linha, e pegam nela, os vão trazendo brandamente a superfície da água, onde com uma rede-fole os tomam sem alguma resistência, e tanto que os tiram fora da água incham tanto, que de compridos que eram ficam redondos como uma bexiga cheia de vento, e assim se lhe dão um coice rebentam e soam como um mosquete, tem a pele muito pintada, mas mui venenosa, e da mesma maneira o fel; porém se o esfolam bem se comem assados, ou cozidos, como qualquer outro peixe. Outros há do mesmo nome mas maiores, e todos cobertos de espinhos mui agudos, como ouriços cacheiros, e estes não vêm senão de arribação de tempos em tempos, e um ano houve tantos nesta baía, que as casas, e engenhos se alumiaram muito tempo com o azeite de seus fígados.

Mariscos há em muita quantidade, ostras, umas que se criam nos mangues, outras nas pedras, e outras nos lodos, que são maiores. Nas restingas de areia há outras redondas e espalmadas, em que se acha aljôfar miúdo, e dizem que se as tirassem do fundo de mergulho achariam pérolas grossas. Há briguigões, amêijoas, mexilhões, búzios como caracóis, e outros tão grandes, que comida a polpa ou miolo fazem das cascas buzinas, em que tangem, e soão mui longe.

Há muitas castas de caranguejos, não só na água do mar e nas praias entre os mangues: mas também em terra entre os matos há uns de cor azul chamados guaiamus, os quais nas primeiras águas do inverno, que são em fevereiro, quando estão mais gordos, e as fêmeas cheias de ovas, se saem das covas, e se andam vagando pelo campo, e estradas, e metendo-se pelas casas para que os comam.

Camarões há muitos, não só no mar como os de Portugal, mas nos rios e lagoas de água doce, e alguns tão grandes como lagostins, dos quais também há muitos, que se tomam nos recifes de águas-vivas, e muitos polvos e lagostas.




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Capítulo XI

De outras coisas que há no mar e terra do Brasil


Inopem me copia fecit, disse o poeta, e disse verdade, porque onde as coisas são muitas é forçado que se percam, como acontece ao que vindima a vinha fértil e abundante de fruto, que sempre lhe ficam muitos cachos de rebusco, e assim me há sucedido com as coisas do mar e terra do Brasil, de que trato. Pelo que me é necessário rebuscar ainda algumas, que farei neste capítulo, que quanto todas é impossível relatá-las.

Faz-se no Brasil sal não só em salinas artificiais, mas em outras naturais, como em Cabo Frio, e além do Rio Grande, onde se acha coalhado em grandes pedras muito, e muito alvo. Faz-se também muita cal, assim de pedra do mar, como da terra, e de cascas de ostras, que o gentio antigamente comia, e se acham hoje montes delas cobertos de arvoredos, donde se tira e se coze engradada entre madeira com muita facilidade.

Há tucum, que são umas folhas quase de dois palmos de comprido, donde só com a mão sem outro artifício se tira pita rijíssima, e cada folha dá uma estriga. Outra planta há chamada caraguatá, da feição da erva babosa, mas cada folha tem uma braça de comprido, as quais deitadas de molho e pisadas, se desfazem em linho de que se fazem linhas, e cordas, e se pode fazer pano.

Há árvores de sabão, porque com a casca das frutas se ensaboa a roupa, e as frutas são umas contas tão redondas e negras, que parecem de pau evano torneado, e assim não há mais que furá-las, enfiá-las, e rezar por elas.

Há muita erva de anil, e de vidro, que se não lavra. Há muitas fontes, e rios caudalosos, com que moem os engenhos de açúcar, e outros por onde entra a maré, mui largos e fundos, e de boas barras e portos para os navios.

Quis um pintar uma cidade mui bastecida e abastada, e pintou-a com as portas serradas, e ferrolhadas, significando que tudo tinha em si, e não era necessário vir-lhe alguma de fora, que é a excelência; porque diz o Psalmista que louve a celestial cidade de Jerusalém ao senhor / Lauda Hierusalem dominum, lauda Deum tuum, Sion, quoniam confortavit seras portarum tuarum /. Mas não faltou logo quem contrafizesse e pintasse outra com as portas abertas, e por elas entrando carretas carregadas de mantimentos, dizendo que aquela era mais bastecida e abastada, nem lhe faltou outra autoridade com que a confirmar do mesmo Psalmista, o qual diz que ama Deus muito as Portas de Sion / diligit dominus portas Sion super omnia tabernacula Jacob / e isto não porque as têm fechadas, senão abertas a naturais, e estrangeiros, a brancos e negros, que todos têm seu trato e comércio / Ecce alieniginae et Tirus13 et populus Ethiopum hi fuerunt illic /. Conforme a isto digna é de todos os louvores à terra do Brasil, pois primeiramente pode sustentar-se com seus portos fechados sem socorro de outras terras: Senão pergunto eu; de Portugal vem farinha de trigo? a da terra basta. Vinho? de açúcar se faz mui suave, e para quem o quer rijo, com o deixar ferver dois dias embebeda como de uvas.

Azeite? faz-se de cocos de palmeiras. Pano? faz-se de algodão com menos trabalho do que lá se faz o de linho, e de lã; porque debaixo do algodoeiro o pode a fiandeira estar colhendo, e fiando, nem faltam tintas com que se tinja.

Sal? cá se faz artificial e natural como agora dissemos. Ferro? muitas minas há dele, e em S. Vicente esta um engenho onde se lavra finíssimo. Especiaria? há muitas espécies de pimenta e gengibre. Amêndoas? também se escusam com a castanha de caju, et sic de caeteris.

Se me disserem que não pode sustentar-se a terra, que não tem pão de trigo, e vinho de uvas para as missas, concedo, pois este divino Sacramento é nosso verdadeiro sustento, mas para isto basta o que se dá no mesmo Brasil em S. Vicente e Campo de S. Paulo, como tenho dito no capítulo nono, e com isto está, que tem os portos abertos e grandes barras, e baías, por onde cada dia lhe entram navios carregados de trigo, vinho e outras ricas mercadorias, que deixam a troco das da terra.




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Capítulo XII

Da origem do gentio do Brasil, e diversidade de línguas que entreeles há


D. Diogo de Avalos vizinho de Chuquiabue no Peru na sua Miscelânea Austral, diz que nas serras de Altamira, em Espanha, havia uma gente bárbara, que tinha ordinária guerra com os espanhóis, e que comiam carne humana, do que enfadados os espanhóis juntaram suas forças, e lhes deram batalha na Andaluzia, em que os desbarataram, e mataram muitos. Os poucos que ficaram não se podendo sustentar em terra a desempararam, e se embarcaram para onde a fortuna os guiasse, e assim deram consigo nas ilhas Fortunadas, que agora se chamam Canárias: tocaram as de Cabo Verde e aportaram no Brasil: saíram dois irmãos por cabos desta gente, um chamado Tupi e outro Guarani, este último deixando o Tupi povoando o Brasil passou ao Paraguai com sua gente, e povoou o Peru: esta opinião não é certa, e menos o são outras, que não refiro, porque não tem fundamento: o certo é que esta gente veio de outra parte, porém donde não se sabe, porque nem entre eles há escrituras, nem houve algum autor antigo, que deles escrevesse. O que de presente vemos é que todos são de cor castanha, e sem barba, e só se distinguem em serem uns mais bárbaros, que outros / posto que todos o são assaz /. Os mais bárbaros se chamam in genere Tapuias, dos quais há muitas castas de diversos nomes, diversas línguas, e inimigos uns dos outros.

Os menos bárbaros, que por isso se chamam Apuabetó, que quer dizer homens verdadeiros, posto que também são de diversas nações e nomes; porque os de S. Vicente até o rio da Prata são Carijós, os de Rio de Janeiro, Tamoios, os da Bahia, Tupinambás, os do rio de S. Francisco, Amaupiras, e os de Pernambuco, até o rio das Amazonas Potiguaras, contudo todos falam uma mesma linguagem e este aprendem os religiosos que os doutrinam por uma arte de gramática que compôs o padre José de Anchieta, varão santo da ordem da Companhia de Jesus, é linguagem mui compendiosa, e de alguns vocábulos mais abundantes que o nosso Português; porque nós a todos os irmãos chamamos irmãos e a todos os tios, tios, mas eles ao irmão mais velho chamam de uma maneira, aos mais de outra. O tio irmão do pai tem um nome, e o tio irmão da mãe outro, e alguns vocábulos têm de que não usam senão as fêmeas, e outros que não servem senão aos machos, e sem falta são mui eloqüentes, e se prezam alguns tanto disto, que da prima noite até pela manhã andam pelas ruas e praças pregando, excitando os mais a paz, ou a guerra, ou trabalho, ou qualquer outra coisa que a ocasião lhes oferece, e entretanto que um fala todos os mais calam, e ouvem com atenção, mas nenhuma palavra pronunciam com f, l ou r, não só das suas, mas nem ainda das nossas, porque se querem dizer Francisco, dizem Pancicu; e se querem dizer Luiz, dizem Duhi; e o pior é que também carecem de fé, de lei e de rei, que se pronunciam com as ditas letras.

Nenhuma fé tem nem adoram a algum Deus; nenhuma lei guardam, ou preceitos, nem tem rei que lha dê, e a quem obedeçam, senão é um capitão, mais para a guerra, que para a paz, o qual entre eles é o mais valente e aparentado; e morto este, se tem filho, e é capaz de governar, fica em seu lugar, senão algum parente mais chegado ou irmão.

Fora este, que é capitão de toda a aldeia, tem cada casa seu principal, que são também dos mais valentes, e aparentados, e que tem mais mulheres; porém nem a estes, nem ao maioral pagam os outros algum tributo, ou vassalagem, mais que chamá-los quando tem vinhos, para os ajudarem a beber, ao que são muito dados, e os fazem de mel, ou de frutas, de milho, batatas, e outros legumes mastigados por donzelas, e delidos em água até se azedar, e não bebem quando comem, senão quando praticam, ou bailando, ou cantando.




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Capítulo XIII

De suas aldeias


Há uma casta de gentios Tapuias chamados por particular nome Aimorés, os quais não fazem casas onde morem, mas onde quer que lhes anoitece, debaixo das árvores limpam um terreiro, no qual esfregando uma cana ou flecha com outra acendem lume, e o cobrem com bom couro de veado, posto sobre quatro forquilhas, e ali se deitam todos a dormir com os pés para o fogo, dando-lhes pouco, como os tenham enxutos e quentes, que lhes chova em todo o corpo.

Porém as mais castas de índios vivem em aldeias, que fazem cobertas de palma, e de tal maneira arrumadas, que lhes fique no meio um terreiro, onde façam seus bailes e festas, e se ajuntem de noite a conselho. As casas são tão compridas que moram em cada uma 70, ou 80 casais, e não há nelas algum repartimento mais, que os tirantes, e entre um e outro é um rancho, onde se agasalha um casal com sua família, e o do principal da casa é o primeiro no copiar, ao qual convida primeiro qualquer dos outros, quando vem de caçar, ou de pescar, partindo com ele daquilo que traz, e logo vai também repartindo pelos mais, sem lhe ficar mais que quanto então jante, ou ceie, por mais grande que fosse a cambada do pescado, ou da caça.

E quando algum vem de longe, as velhas daquela casa o vão visitar, ao seu rancho com grande pranto, não todas juntamente, mas uma depois de outra, no qual pranto lhe dizem as saudades que tiveram, e trabalhos que padeceram em sua ausência, e ele também chora dando uns urros de quando em quando sem exprimir coisa alguma, e o pranto acabado lhe perguntam se veio, e ele responde que sim, e então lhe trazem de comer, o que também fazem aos portugueses, que vão às suas aldeias, principalmente se lhes entendem a língua, maldizendo no choro a pouca ventura que seus avós e os mais antepassados tiveram, que não alcançaram gente tão valorosa como são os portugueses, que são senhores de todas as coisas boas, que trazem a terra de que eles dantes careciam, e agora as tem em tanta abundância, como são machados, foices, anzóis, facas, tesouras, espelhos, pentes e roupas, porque antigamente roçavam os matos com cunhas de pedra, e gastavam muitos dias em cortar uma árvore, pescavam com uns espinhos, faziam o cabelo e as unhas com pedras agudas, e quando se queriam enfeitar faziam de um alguidar de água espelho, e que desta maneira viviam mui trabalhados, porém agora fazem suas lavouras, e todas as mais coisas com muito descanso, pelo que os devem de ter em muita estima; e este recebimento é tão usado entre eles, que nunca ou de maravilha deixam de fazer, senão quando reinam alguma malícia ou traição contra aqueles, que vão às suas aldeias a visitá-los, ou resgatar com eles.

A noite toda tem fogo para se aquentarem, porque dormem em redes no ar, e não têm cobertores, nem vestido, mas dormem nus marido e mulher na mesma rede, cada um com os pés para a cabeça do outro, exceto os principais, que como têm muitas mulheres dormem sós nas suas redes, e dali quando querem se vão deitar com a que lhes parece, sem se pejarem de que os vejam. Quando é hora de comer se ajuntam os do rancho, e se assentam em cócoras, mas o pai da família deitado na rede, e todos comem em um alguidar, ou cabaço, a que chamam cuia, que estas são as suas baixelas, e dos cabaços principalmente fazem muito cabedal, porque lhes servem de pratos para comer, de potes e de púcaros para água e vinho, e de colheres, e assim os guardam em uns caniços que fazem chamados jiraus, onde também curam ao fumo os seus legumes, porque se não corrompam, e sem terem caixas, nem fechaduras, e os ranchos sem portas, todos abertos, são tão fiéis uns aos outros, que não há quem tome ou bula em coisa alguma sem licença de seu dono.

Não moram mais em uma aldeia que em quanto lhes não apodrece a palma dos tetos das casas, que é espaço de três ou quatro anos, e então o mudam para outra parte, escolhendo primeiro o principal, com o parecer dos mais antigos, o sítio que seja alto, desabafado, com água perto, e terra a propósito para suas roças e sementeiras, que eles dizem ser a que não foi ainda cultivada, porque têm por menos trabalho cortar árvores que mondar erva, e se estas aldeias ficam fronteiras de seus contrários, e têm guerras, as cercam de pau-a-pique mui forte, e às vezes de duas e três cercas, todas com suas seteiras, e entre uma e outra cerca fazem fossos cobertos de erva, com muitos estrepes de baixo, e outras armadilhas de vigas mui pesadas, que em lhes tocando caem, e derribam a quantos acham.




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Capítulo XIV

Dos seus casamentos e criação dos filhos


Não é fácil averiguar, mormente entre os principais, que têm muitas mulheres, qual seja a verdadeira, e legítima, porque nenhum contrato exprimem, e facilmente deixam umas e tomam outras, mas conjetura-se que é aquela de que primeiro se namoram, e por cujo amor serviram aos sogros, pescando-lhes, caçando, roçando o mato para a sementeira, e trazendo-lhes a lenha para o fogo. Mas o sogro não entrega a moça até lhe não vir seu costume, e então é ela obrigada a trazer atado pela cintura um fio de algodão, e em cada um dos buchos dos braços, outro, para que venha à notícia de todos, e depois que é deflorada pelo marido, ou por qualquer outro, quebra em sinal disso os fios, parecendo-lhe que se o encobrir a levará o diabo, e o marido de qualquer maneira a recebe, e consumando o matrimônio, se tem que esta é a legítima mulher, ou quando assim não estão casados, a cunhada, mulher que foi do irmão defunto, ainda que lhe ficasse filho dele, ou a sobrinha / filha, não do irmão, que esta tem eles em conta de filha própria, e não casam com ela, senão da irmã, / e com qualquer destas com que primeiro se casaram, ou seja, a sobrinha ou a cunhada, os casam depois sacramentalmente os religiosos que os curam, no mesmo dia em que batizam dispensando nos impedimentos, por privilégio que para isto tem, e lhes tiram todas as outras, casando-as com outros, não sem sentimento dos primeiros maridos; porque de ordinário se ficam com as mais velhas.

A mulher em acabando de parir se vai lavar ao rio, e o marido se deita na rede, mui coberto, que não dê o vento, onde está em dieta, até que se seque o umbigo ao filho, e ali o vem os amigos a visitar como a doente, nem há poder lhes tirar esta superstição, porque dizem que com isto se preservam de muitas enfermidades a si, e à criança, a qual também deitam em outra rede com seu fogo debaixo, quer seja inverno, quer verão, e se é macho logo lhe põem na azelha da rede um arquinho com suas flechas; e se fêmea uma roca com algodão.

As mães dão de mamar aos filhos sete ou oito anos, se tantos estão sem tornar a parir, e todo este tempo os trazem ao colo ora elas, ora os maridos, principalmente quando vão às suas roças, onde vão todos os dias depois de almoçarem, e não comem enquanto andam no trabalho, senão à véspera, depois que voltam para casa. Os maridos na roça derrubam o mato, queimam-no, e dão a terra limpa às mulheres, e elas plantam, mondam a erva, colhem o fruto e o carregam, e levam para casa em uns cofos mui grandes feitos de palma, lançados sobre as costas, que pode ser suficiente carga de uma azêmola, e os maridos levam um lenho aos ombros, e na mão seu arco e flechas, que fazem com as pontas de dentes de tubarões, ou de umas canas agudas, a que chamam taquaras, de que são grandes tiradores; porque logo ensinam aos filhos de pequenos a tirar ao alvo, e poucas vezes tiram a um passarinho, que não o acertem, por pequeno que seja.

Também os ensinam a fazer balaios, e outras coisas de mecânica, para as quais têm grande habilidade, se eles a querem aprender, que se não querem não os constrangem, nem os castigam por erros, e crimes que cometam, por mais enormes que sejam. As mães ensinam as filhas a fiar algodão e fazer redes de fio, e nastros para os cabelos, dos quais se prezam muito, e os penteiam, e untam de azeite de coco bravo, para que se façam compridos, grossos, e negros.

Nas festas se tingem todas de jenipapo, de modo que se não é no cabelo parecem negras de Guiné, e da mesma tinta pintam os maridos, e lhes arrancam o cabelo da barba, se acerta de lhe nascer algum, e o das sobrancelhas e pestanas, com que eles se tem por mui galantes, junto com terem os beiços de baixo furados, e alguns as faces, e uns tornos, ou batoques de pedras verdes metidos pelos buracos, com que parecem uns demônios.

Pois hei tratado neste capítulo do contrato matrimonial deste gentio: tratarei também dos mais contratos, e não serei por isso prolixo ao leitor, porque os livros que hão escrito os doutores de contractibus, sem os poderem de todo resolver pelos muitos, que de novo inventa cada dia a cobiça humana, não tocam a este gentio; o qual só usa de uma simples comutação de uma coisa por outra, sem tratarem do excesso, ou defeito do valor, e assim com um pintainho se hão por pagos de uma galinha.

Nem jamais usam de pesos e medidas, nem têm números por onde contem mais que até cinco, e se a conta houver de passar daí a fazem pelos dedos das mãos e pés, o que lhes nasce da sua pouca cobiça; posto que com isso está serem mui apetitosos de qualquer coisa que vem, mas tanto que a tem, a tornam facilmente de graça, ou por pouco mais de nada.




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Capítulo XV

Da cura dos seus enfermos e enterro dos mortos


Não há entre este gentio médicos sinalados, senão os seus feiticeiros, os quais moram em casas apartadas, cada um per si, e com porta mui pequena, pela qual não ousa alguém entrar, nem tocar-lhe em alguma coisa sua; porque se algum lhas toma, ou lhes não dá o que eles pedem, dizem vai, que hás de morrer, a que chamam lançar a morte, e são tão bárbaros que se vai logo o outro lançar na rede sem querer comer, e de pasmo se deixa morrer, sem haver quem lhe meta na cabeça que pode escapar, e assim se podem estes feiticeiros chamar mais mata-sanos, que médicos, nem eles curam os enfermos, senão com enganos chupando-lhes na parte que lhes dói, e tirando da boca um espinho ou prego velho, que já nela levavam, lho mostram dizendo que aquilo lhes fazia o mal, e que já ficam sãos, ficando eles tão doentes como de antes.

Outros médicos há melhores, que são os acautelados, e que padeceram as mesmas enfermidades, os quais aplicando ervas, ou outras medicinas, com que se acharam bem, saram os enfermos, mas se a enfermidade é prolongada; ou incurável, não há mais quem os cure, e os deixam ao desamparo. Testemunha sou eu de um, que achei na Paraíba tolhido de pés e mãos, à borda de uma estrada, o qual me pediu lhe desse uma vez de água, que morria de sede, sem os seus, que por ali passavam cada hora, lha quererem dar, antes lhe diziam que morresse porque já estava tísico, e que não servia mais que para comer o pão aos sãos; mandei eu buscar água por uns que me acompanhavam e, entretanto, o fiquei catequizando porque ainda não era cristão, e de tal maneira se acendeu na sede de o ser, e de salvar sua alma, que vinda a água, primeiro quis que o batizasse, que beber, e daí a poucos dias morreu em um incêndio de uma aldeia, onde o mandei levar, sem haver quem o quisesse tirar da casa que ardia, vendo que não tinha ele pés nem forças para se livrar.

Donde se vê a pouca caridade que tem este gentio com os fracos e enfermos, e juntamente a misericórdia do Senhor, e efeitos da sua eterna predestinação, a qual não só neste, mas em outros muitos manifesta muitas vezes, ordenando que percam os religiosos o caminho que levam, e vão dar nos tigipares ou cabanas com enfermos que estão agonizando, os quais recebendo de boa vontade o sacramento do batismo se vão a gozar da bem-aventurança no céu.

Tanto que algum morre o levam a enterrar, embrulhado na mesma rede em que dormia, e a mulher, filhas e parentas, se as tem, o vão pranteando até a cova com os cabelos soltos lançados sobre o rosto, e depois o pranteia ainda a mulher muitos dias: mas se morre algum principal da aldeia, o untam todo de mel, e por cima do mel o empenam com penas de pássaros de cores, e põem-lhe uma carapuça de penas na cabeça com todos os mais enfeites, que ele costumava trazer em suas festas, e fazem-lhe na mesma casa, e rancho onde morava, uma cova muito funda e grande, onde lhe armam sua rede, e o deitam nela assim enfeitado com seu arco e flechas, espada e tamaracá, que é um cabaço com pedrinhas dentro, com que costumam tanger, e fazem-lhe fogo ao longo da rede para se aquentar, e põem-lhe de comer em um alguidar, e a água em um cabaço, e na mão uma cangueira, que é um canudo feito de palma cheio de tabaco, e então lhe cobrem a cova de madeira, e de terra por cima, que não caia sobre o defunto, e a mulher por dó corta os cabelos, e tinge-se toda de jenipapo, pranteando o marido muitos dias, e o mesmo fazem com ela as que a vem visitar, e tanto que o cabelo cresce até lhe dar pelos olhos, o torna a cortar, e a tingir-se de jenipapo, para tirar o dó, e faz sua festa com seus parentes, e muito vinho.

O marido quando lhe morre a mulher também se tinge de jenipapo, e quando tira o dó se torna a tingir, tosquia-se e ordena grandes revoltas de cantar, e bailar, e beber, nestas festas se cantam as proezas do defunto, ou defunta, e do que tira o dó, e se morre algum menino filho de principal o metem em um pote, posto em cócoras, atados aos joelhos com a barriga, e enterram o pote na mesma casa, e rancho, debaixo do chão, e ali o choram muitos dias.




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Capítulo XVI

Do modo de guerrear o gentio do Brasil


É este gentio naturalmente tão belicoso, que todo o seu cuidado é como farão guerra a seus contrários, e sobre isto se ajuntam no terreiro da aldeia com o principal dela, os principais das casas, e outros índios discretos, a conselho, onde depois de assentados nas suas redes, que para isto armam em umas estacas, e quieto o rumor dos mais que se ajuntam a ouvir, porque é a gente que em nenhuma coisa tem segredo, propõem o maioral sua prática, a que todos estão mui atentos, e como se acaba respondem os mais antigos cada um per si, até que vem a concluir no que hão de fazer, brindando-se entretanto algumas vezes com o fumo da erva santa, que eles têm por cerimônia grave, e se concluem que a guerra se faça, mandam logo que se faça muita farinha de guerra, e que se apercebam de arcos, e flechas, e alguns paveses, ou rodelas, e espadas de paus tostados, e como todas estas coisas estão prestes à noite antes da partida, anda o principal da aldeia pregando ao redor das casas, declarando-lhes onde vão, e a obrigação que tem de fazerem aquela guerra, exortando-os à vitória, para que fique deles memória, e os vindouros possam contar suas proezas.

O dia seguinte depois de almoçarem toma cada um suas armas nas mãos, e a rede em que há de dormir às costas, é uma paquevira de farinha, que é um embrulho liado, quanto pode carregar, feito de umas folhas rijas, que nem se rompem, nem a água as passa, e não se curam de mais vianda; porque com a flecha a caçam pelo caminho, e nas árvores acham frutas, e favos de mel.

Os principais levam consigo suas mulheres, que lhes levam a farinha e as redes, e eles não levam mais que as armas; e antes que abalem faz o maioral um capitão da dianteira, que eles têm por grande honra, o qual vai mostrando o lugar onde se hão de alojar, e o caminhar é um após outro, por um carreiro como formigas, nem já mais sabem andar de outra maneira, tem grande conhecimento da terra, e não só o caminho por onde uma vez foram atinam, por mais serrado que já esteja, mas ainda por onde nunca foram.

Tanto que saem fora de seus limites, e entram pela terra dos contrários, levam suas espias adiante, que são mancebos mui ligeiros, e há alguns de tão bom faro, que a meia légua cheiram o fogo, ainda que não apareça o fumo.

Chegando duas jornadas da aldeia de seus contrários não fazem fogo, porque não sejam por eles sentidos, e ordenam-se de maneira, que possam entrar de madrugada, e tomá-los descuidados e despercebidos, e depois entram com grande urro de vozes, e estrondo de buzinas e tambores, que é espanto, não perdoando no primeiro encontro a grandes nem pequenos, a que com suas espadas de pau não quebrem as cabeças, porque não tem por valor o matar, senão quebram as cabeças, ainda que seja dos mortos por outros, e quantas cabeças quebram tantos nomes tomam, largando o que o pai lhes deu no nascimento, que um, e outros são de animais, de plantas, ou do que se lhes antolha, mas o nome que tomaram não o descobrem / ainda que lho roguem / senão com grandes festas de vinho, e cantares em seu louvor, e eles se fazem riscar e lavrar com um dente agudo de um animal, e lançando pó de carvão pelos riscos e lavores ensangüentados, ficam com eles impressos toda a vida, o que tem por grande bizarria, porque por estes lavores, e pela diferença deles se entende quantas cabeças quebraram.

E sendo caso que acham seus contrários apercebidos com cercas feitas, fazem-lhes outra contracerca de estacas metidas na terra com ramos e espinhos, liados, a que chamam caiçara, a qual enquanto verde não há coisa que a rompa, e dali blasonam, e jogam as pulhas com os contrários, até que uns ou outros abalroam, ou saem a pelejar em campo, e toda a sua peleja é fazendo o motim, que é correr e saltar de uma parte para outra, porque lhe não façam pontaria.




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Capítulo XVII

Dos que cativam na guerra


Os que podem cativar na guerra levam para vender aos brancos, os quais lhe compram por um machado, ou foice cada um, tendo-os por verdadeiros cativos, não tanto por serem tomados em guerra, pois não consta da justiça dela, quanto por a vida que lhes dão, que é maior bem que a liberdade; porque se os brancos os não compram, os primeiros senhores os têm em prisões atados pelo pescoço, e pela cinta com cordas de algodão grossas e fortes, e dão a cada um por mulher a mais formosa moça, que há na casa, a qual tem o cuidado de o regalar, e lhe dar de comer até que engorde, e esteja para o poderem comer, e então ordenam grandes festas, e ajuntamentos de parentes e amigos, chamados de 30, 40 léguas, com os quais na véspera, e dia do sacrifício, cantam e bailam, comem, e bebem alegremente, e também o padecente come e bebe com eles, depois o untam com mel de abelhas, e sobre o mel o empenam com muitas penas de várias cores, e a lugares o pintam de jenipapo, e lhe tingem os pés de vermelho, e metendo-lhe uma espada na mão, para que se defenda como puder, o levam assim atado a um terreiro fora da aldeia, e o metem entre dois mourões, que estão metidos no chão, afastados um do outro alguns 20 palmos, os quais estão furados, e por cada furo metem as pontas das cordas, onde o preso fica como touro, e as velhas lhe cantam, que se farte de ver o sol, pois cedo o deixará de ver, e o cativo responde com muita coragem, que bem vingado há de ser, então vão buscar o que há de matar a sua casa todos os seus parentes, e amigos, onde o acham já pintado de tinta de jenipapo com carapuça de penas na cabeça, manilhas de ossos nos braços, e nas pernas grandes ramais de contas ao pescoço, com seu rabo de penas nas ancas, e uma espada de pau pesada de ambas as mãos mui pintada, com cascas de mariscos pegadas com cera, e no cabo e empunhadura da espada grandes penachos; e assim o trazem com grandes cantares, e tangeres de seus búzios, gaitas e tambores, chamando-lhe bem-aventurado, pois chegou a tamanha honra, e com este estrondo entra no terreiro, onde o paciente o espera, e lhe diz que se defenda, porque vem para o matar, e logo remete a ele com a espada de ambas as mãos, e o padecente com a sua se defende, e ainda às vezes ofende, mas como os que o tem pelas cordas o não deixam desviar do golpe, o matador lhe quebra a cabeça, e toma nome, que depois declara com as cerimônias que vimos no capítulo passado.

Em morrendo este preso, logo os velhos da aldeia o despedaçam, e lhe tiram as tripas e forçura, que mal lavadas cozem para comer, e reparte-se a carne por todas as casas, e pelos hóspedes, que vieram a esta matança, e dela comem logo assada, e cozida, e guardam alguma muito assada, e mirrada, a que chamam moquém, metida em novelos de fio de algodão, e posta nos caniços ao fumo, para depois renovarem o seu ódio, e fazerem outras festas, e do caldo fazem grandes alguidares de migas, e papas de farinha de carimã, para suprir na falta de carne, e poder chegar a todos; o que o matou nenhuma coisa come dele, antes se vai logo deitar na rede, e se faz todo sarrafaçar, e sangrar, tendo por certo que morrerá se não derrama de si aquele sangue, nem faz o cabelo dali a sete ou oito meses, os quais passados faz muitos vinhos, e apelida os amigos para beber e cantar, e com essa festa se tosqueia, dizendo que tira o dó daquele morto, e é tão cruel este gentio com os seus cativos, que não só os matam a eles, mas se acontece a algum haver filho da moça que lhe deram por mulher, a obrigam que o entregue a um parente mais chegado, para que o mate, quase com as mesmas cerimônias, e a mãe é a primeira que lhe come a carne; posto que algumas, pelo amor que lhes têm, os escondem, e às vezes soltam também os presos, e se vão com eles para suas terras, ou para outras.






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Livro segundo

Da História do Brasil no tempo do seu descobrimento



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Capítulo I

De como se continuou o descobrimento do Brasil, e se deu ordem a se povoar


Posto que el-rei d. Manuel, quando soube a nova do descobrimento do Brasil, feito por Pedro Álvares Cabral, andava mui ocupado com as conquistas da Índia Oriental, pelo proveito que de si prometiam, e com as de África pela glória e louvor, que a seus vassalos delas resultava, não deixou, quando teve ocasião de mandar uma armada de seis velas, e por capitão-mor delas Gonçalo Coelho, para que descobrisse toda esta costa, o qual andou por ela muitos meses descobrindo-lhe os portos e rios, e em muitos deles entrou e assentou marcos, com as armas del-rei, que para isso trazia lavrados, mas pela pouca experiência que então se tinha de como corria a costa, e os ventos com que se navega, passou tantos trabalhos e infortúnios, que foi forçado tornar-se para o reino com duas caravelas menos, e a tempo em que já era morto el-rei d. Manuel, que faleceu no ano do Senhor de 1521; e reinava seu filho el-rei d. João Terceiro, ao qual se apresentou com as informações que pôde alcançar, pelas quais el-rei parecendo-lhe coisa de importância, mandou logo outra armada, e por capitão-mor Cristóvão Jacques, fidalgo de sua casa, que neste descobrimento trabalhou com notável proveito sobre a clareza da navegação desta costa, continuando com seus padrões conforme o regimento que trazia, e andando correndo esta grande costa veio dar com a baía a que chamou de Todos os Santos, por ser no dia da sua festa, primeiro de novembro, e entrando por ela, especulando todo o seu recôncavo, e rios, achou em um deles chamado de Paraguaçu duas naus francesas, que estavam ancoradas comerciando com o gentio, com as quais se pôs às bombardadas, e as meteu no fundo com toda a gente, e fazenda, e logo se foi para o reino, e deu as informações de tudo a Sua Alteza, as quais bem consideradas, com outras que já tinha de Pero Lopes de Sousa, que por esta costa também andou com outra armada, ordenou que se povoasse esta província, repartindo as terras por pessoas que se lhe ofereceram para as povoarem e conquistarem à custa de sua fazenda, e dando a cada um 50 léguas por costa com todo o seu sertão, para que eles fossem não só senhores, mas capitães delas; pelo que se chamam, e se distinguem por capitanias.

Deu-lhes jurisdição no crime de baraço e pregão, açoites e morte, sendo o criminoso peão e sendo nobre até 10 anos de degredo; e no cível cem mil-réis de alçada, e que assistam às eleições dos juízes, e vereadores eles ou seu ouvidor, que eles fazem, como também fazem escrivãos do público, judicial e notas, escrivão da câmara, escrivão da ouvidoria, juiz, e escrivão dos órfãos, meirinho da vila, alcaide do campo, porque o do cárcere provê o alcaide-mor, e el-rei os ofícios da sua real fazenda, como são os dos provedores, e seus meirinhos, almoxarifes, porteiros da alfândega, e guardas dos navios; e ainda que os donatários são sismeiros das suas terras, e as repartem pelos moradores como querem, todavia movendo-se depois alguma dúvida sobre as datas, não são eles os juízes delas, senão o provedor da fazenda, nem os que as recebem de sesmaria têm obrigação de pagar mais que dízimo a Deus dos frutos que colhem, e este se paga a el-rei por ser Mestre da Ordem de Cristo, e ele da aos donatários a redízima, que é o dízimo de tudo o que lhe rendem os dízimos: pertencem-lhes também a vintena de todo o pescado que se pesca nos limites dar suas capitanias, e todas as águas com que moem os engenhos de açúcar, pelos quais lhes pagam de cada cem arrobas duas, ou três, ou conforme se concertam os senhores dos engenhos com eles, ou com seus procuradores, as quais pensões não têm a Bahia, Rio de Janeiro, Paraíba e as mais capitanias de el-rei, nas quais se paga o dízimo somente, mas no que toca a jurisdição do cível, e crime lha limitou el-rei depois muito, como veremos no capítulo primeiro do livro terceiro.




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Capítulo II

Das capitanias e terras, que el-rei doou a Pero Lopes e Martim Afonso de Souza, Irmãos


Como Pero Lopes de Souza havia já andado por estas partes do Brasil coube-lhe a escolha primeiro que a outros, e não tomou todas as suas 50 léguas juntas, senão 25 em Itamaracá, de que adiante trataremos, e outras 25 em São Vicente, que se demarcam e confrontam com as terras da capitania de seu irmão Martim Afonso de Sousa em tanta vizinhança, que não deixa de haver litígio e dúvidas, sendo que quando de princípio as povoaram e fortificaram foi de muito proveito esta vizinhança por se poder ajudar um ao outro, e defender do inimigo, como bem se viu depois de idos pelas muitas guerras que os moradores tiveram com os gentios, e franceses, que entre eles andavam, e por mar em canoas lhe vinham dar muitos assaltos, e por muitas vezes os tiveram cercados, e sempre se defenderam muito bem, o que não poderiam fazer se as povoações e fortes não estivessem tão próximos.

Donde se verifica bem o que Scipião africano disse no senado de Roma, que era necessário continuar-se com as guerras de África, porque faltando estas as haveria civis entre os vizinhos; como as houve entre estes / ainda que irmãos / depois que venceram os gentios; mas descendo ao particular a razão das dúvidas, que estes senhores têm, ou seus herdeiros, acerca destas capitanias me parece que é por dizerem as suas doações, que se demarcaram pela barra do Rio de S. Vicente, um para o norte, outro para o sul, e como este rio tem três barras, causadas de duas ilhas, que o dividem, uma que corre ao longo da costa, e outra dentro do rio, como se verá na descrição seguinte, daqui vem duvidar-se de qual destas barras se há de fazer a demarcação.

Nesta ilha fora esteve uma vila, que se chamou Santo Amaro, de que já não há mais que a ermida do santo: mas fez-se outra na terra firme da parte do sul chamada vila da Conceição. Na ilha de dentro há duas povoações, uma chamada de Santos, outra de São Vicente como o rio, a qual veio edificar Martim Afonso de Souza em pessoa, e a povoou de mui nobre gente, que consigo trouxe, e assim floresceu em mui breve tempo.

Daqui se embarcou no ano de 1533, para descobrir mais costa e rios dela, e foi correndo até chegar ao rio da Prata, pelo qual navegou muitos dias, e perdendo alguns navios e gente deles nos baixos do rio, se tornou para a sua capitania, donde foi chamado por Sua Alteza para o mandar por capitão-mor do mar da Índia, do que serviu muitos anos, e depois de governador da Índia, donde vindo a Portugal serviu muitos anos no conselho de estado até el-rei d. Sebastião, em cujo tempo faleceu.

Pelo sertão nove léguas do rio de São Vicente está a vila de São Paulo, na qual há um mosteiro da Companhia de Jesus, outro do Carmo, e nos tem sinalado sítio para outro de nossa seráfica ordem, que nos pedem queiramos edificar há muitos anos, com muita instância e promessas, e sem isso era incitamento bastante termos ali sepultado na igreja dos padres da companhia um frade leigo da nossa ordem, castelhano, a quem matou outro castelhano secular, porque o repreendia que não jurasse, foi religioso de santa vida, e confirmou-o Deus depois de seu martírio com um milagre, e foi que assentando-se uma mulher enferma de fluxo de sangue sobre a sua sepultura ficou sã.

Ao redor desta vila estão quatro aldeias de gentio amigo, que os padres da Companhia doutrinam, fora outro muito, que cada dia desce do sertão.

São os ares destas duas capitanias frios e temperados, como os de Espanha, porque já estão fora da zona tórrida em 24 graus e mais; e assim é a terra mui sadia, fresca e de boas águas, e esta foi a primeira onde se fez açúcar, donde se levou plantas de canas para as outras capitanias, posto que hoje se não dão tanto a fazê-lo quanto a lavoura do trigo, que se dá ali muito, e cevada e grandes vinhas, donde se colhem muitas pipas de vinho, ao qual para durar dão uma fervura no fogo.

Outros se dão a criação de vacas, que multiplicam muito, e são as carnes mais gordas que na Espanha, principalmente os cevados, que se cevam com milho zaburro, e com pinhões de grandes pinhais, que há agrestes, tão férteis e viçosos, que cada pinha é como uma botija, e cada pinhão, depois de limpo, como uma castanha, ou belota de Portugal.

Cavalos há tantos, que vale cada um cinco ou seis tostões. Mas o melhor de tudo é o ouro, de que trataremos adiante, quando tratarmos do governador d. Francisco de Souza, que por mandado del-rei assistiu nas minas.

Destas vilas se foi há poucos anos um morador de nação castelhana, por ser muito cioso da mulher, que era portuguesa, natural de São Vicente, e muito formosa, a morar em uma ilha chamada de Cananéia, que fica mais ao sul, e chegada ao rio da Prata; mas pouco viveu sem seus receios, porque conhecida a fertilidade da terra, se foram outros muitos com suas famílias a morar também a ela, e se fez uma povoação tão grande como estoutras.14




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Capítulo III

Da terra e capitania que el-rei doou a Pero Lopes


Em companhia de Pero Lopes de Souza andou por esta costa do Brasil Pedro de Góes, fidalgo honrado, muito cavaleiro, e pela afeição que tomou à terra pediu a el-rei d. João que lhe desse nela uma capitania, e assim lhe fez mercê de cinqüenta léguas de terra ao longo da costa, ou as que se achassem donde acabassem as de Martim Afonso de Souza, até que entestasse com as de Vasco Fernandes Coutinho: da qual capitania foi tomar posse com uma boa frota, que fez em Portugal à sua custa, bem fornecida de gente e todo o necessário, e no rio chamado da Paraíba, que está em 21º e dois terços, se fortificou e fez uma povoação, em que esteve bem os primeiros dois anos, e depois se lhe levantou o gentio, e o teve em guerra cinco ou seis anos, fazendo às vezes pazes, que logo quebravam, e o apertavam tanto, que forçado a despejar a terra e passar-se com toda a gente para a Capitania do Espírito Santo, em embarcações, que para isso lhe mandou Vasco Fernandes Coutinho, donde ficou com toda a sua fazenda gastada, e muitos mil cruzados de um Martim Ferreira, que com ele armava para fazerem muitos engenhos de açúcar.

No distrito desta terra e capitania cai a terra dos Aitacazes, que é toda baixa e alagada, onde estes gentios vivem mais à maneira de homens marinhos que terrestres; e assim nunca se puderam conquistar, posto que a isso foram algumas vezes ao Espírito Santo e Rio de Janeiro; por que quando se há de vir às mãos com eles, metem-se dentro das lagoas, onde não há entrá-los a pé nem a cavalo, são grandes búzios e nadadores, e a braços tomam o peixe ainda que sejam tubarões, para os quais levam em uma mão um pau de palmo pouco mais, ou menos, que lhes metem na boca direito, e como o tubarão fique com a boca aberta, que a não pode serrar com o pau, com a outra mão lhe tiram por ela as entranhas, e com elas a vida, e o levam para a terra não tanto para os comerem, como para dos dentes fazerem as pontas das suas flechas, que são peçonhentas e mortíferas, e para provarem forças e ligeireza, como também dizem que as provam com os veados nas campinas, tomando-os a cosso, e ainda com os tigres e onças, e outros feros animais.

Estas e outras incredíveis coisas se contam deste gentio, creia-as quem quiser, que o que daqui eu sei é, que nunca foi alguém a seu poder, que tornasse com vida para as contar; verdade é que já hoje há deles mais notícia, porque lhes deu uma cruel doença de bexigas, que os obrigou a nos irem buscar, e ser nossos amigos, como veremos no livro quinto desta história.




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Capítulo IV

Da terra e capitania do Espírito Santo, que el-rei doou a Vasco Fernandes Coutinho


Não teve menos trabalhos com a sua capitania Vasco Fernandes Coutinho, a quem el-rei, pelos muitos serviços que lhe havia feito na Índia, lhe fez mercê de 50 léguas de terra por costa, o qual a foi conquistar, e povoar com uma grande frota à sua custa, levando consigo a d. Jorge de Menezes o de Maluco, e d. Simão de Castelo Branco, e outros fidalgos, com os quais avistando primeiro a serra de Mestre Álvaro, que é grande, alta e redonda, foi entrar no Rio do Espírito Santo, o qual esta em 20º; onde logo à entrada do rio, da banda do sul, começou a edificar a vila da Vitória, que agora se chama a Vila Velha em respeito da outra vila do Espírito Santo, que depois se edificou uma légua mais dentro do rio, na ilha de Duarte de Lemos, por temor do gentio: e como o espírito de Vasco Fernandes era grande, deixando ordenados quatro engenhos de açúcar, se tornou para o reino a aviar-se para ir pelo sertão a conquistar minas de ouro, e prata, de que tinha novas, deixando por seu loco-tenente d. Jorge de Menezes, ao qual logo os gentios fizeram tão cruel guerra, que lhe queimaram os engenhos, e fazendas, e a ele mataram às flechadas, sem lhe valer ser tão grande capitão, e que na Índia, Maluco e outras partes tinha feitas muitas cavalarias.

O mesmo fizeram a d. Simão de Castelo Branco, que lhe sucedeu na capitania, e a puseram em tal cerco, e aperto, que não podendo os moradores dela resistir-lhes se passaram para outras, e tornando-se Vasco Fernandes Coutinho do reino para a sua, por mais que trabalhou o possível pela remediar, e vingar do gentio, não foi em sua mão, por estar sem gente e munições de guerra, e o gentio pelas vitórias passadas muito soberbo, antes viveu muitos anos mui afrontado deles naquela ilha, até que depois pouco a pouco reformou as duas ditas vilas.

Mas enfim gastados muitos mil cruzados, que trouxe da Índia, e muito patrimônio, que tinha em Portugal, acabou tão pobremente que chegou a lhe darem de comer por amor de Deus, e não sei se teve um lençol seu em que o amortalhassem.

Seu filho, do mesmo nome, também com muita pobreza viveu, e morreu na mesma capitania, e não se atribua isto à maldade da terra, que é antes uma das melhores do Brasil; porque da muito bom açúcar, e algodão, gado vaccum, e tanto mantimento, frutas e legumes, pescado e mariscos, que lhe chamava o mesmo Vasco Fernandes o meu Vilão farto.

Dá também muitas árvores de bálsamo, de que as mulheres misturando-o com a casca das mesmas árvores pisadas fazem muita contaria, que se manda para o reino, e para outras partes; mas o que fez mal a estes senhores depois das guerras foi não seguirem o descobrimento das minas de ouro e prata, como determinavam, e parece que herdaram deles este descuido seus sucessores, pois descobrindo-se depois na mesma capitania uma serra de cristal, e esmeraldas, de que tenho feito menção no capítulo quinto do primeiro livro, nem disto se trata, nem de fortificar-se a terra, para defender-se dos corsários, sendo que por ser o rio estreito se pudera fortalecer com facilidade: antes levando-o pelo espiritual me disse Francisco de Aguiar Coutinho, senhor dela, que dissera a Sua Majestade que tinha uma fortaleza na barra da sua capitania, que lha defendia, e não havia mister mais, e que esta era a ermida de Nossa Senhora da Pena, que ali está, aonde do Mosteiro do Nosso Padre S. Francisco, que temos na vila do Espírito Santo, vão dois frades todos os sábados a dizer missa, e a temos a nossa conta; e na verdade a dita ermida se pode contar por uma das maravilhas do mundo, considerando-se o sítio, porque está sobre um monte alto um penedo, que é outro monte, a cujo cume se sobe por 55 degraus lavrados no mesmo penedo, e em cima tem um plano, em que está a igreja, e capela, que é de abóbada, e ainda fica ao redor por onde ande a procissão cercado de peitoril de parede, donde se não pode olhar para baixo sem que fuja o lume dos olhos.

Nesta ermida esteve antigamente por ermitão um frade leigo da nossa ordem, asturiano, chamado frei Pedro, de mui santa vida, como se confirmou em sua morte, a qual conheceu alguns dias antes, e se andou despedindo das pessoas devotas, dizendo que feita a festa de Nossa Senhora, havia de morrer, e assim sucedeu, e o acharam morto de joelhos, e com as mãos levantadas como quando orava, e na tresladação de seus ossos desta igreja para o nosso convento, fez muitos milagres, e poucos enfermos os tocam com devoção que não sarem logo, principalmente de febres, como tudo consta do Instrumento de testemunhas que esta no arquivo do convento.




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Capítulo V

Da capitania de Porto Seguro


Esta capitania foi a primeira terra do Brasil que se descobriu por Pedro Álvares Cabral indo para a Índia, como está dito no primeiro capítulo do primeiro livro, e dela fez el-rei mercê, e doação de 50 léguas de terra na forma das mais a Pedro do Campo Tourinho, natural de Viana, muito visto na arte de marear, o qual armando uma frota de muitos navios à sua custa, com sua mulher e filhos, e alguns parentes, e muitos amigos, partiu de Viana, e desembarcou no rio de Porto Seguro, que está em 16º, e dois terços, e se fortificou no mesmo lugar onde agora é a vila, cabeça desta capitania: edificou mais a vila de Santa Cruz, e outra de Santo Amaro, onde esta uma ermida de Nossa Senhora da Ajuda em um monte mui alto, e no meio dele, no caminho pelo qual se sobe, uma fonte de água milagrosa, assim nos efeitos, que Deus obra por meio dela, dando saúde aos enfermos, que a bebem, como na origem, que subitamente a deu o Senhor ali pela oração de um religioso da companhia, segundo me disse como testemunha de vista, e bem qualificada, um neto do dito Pedro do Campo Tourinho, e do seu próprio nome, meu condiscípulo no estudo das Artes e Teologia, e depois Deão da Sé desta Bahia, o qual depois da morte de seu avô, se veio a viver com sua avó e mãe, por sua mãe Leonor do Campo, com licença de Sua Majestade, vender a capitania a d. João de Lencastre, primeiro duque de Aveiro, por 100 mil-réis de juro, o qual mandou logo capitão que a governasse em seu nome, e fizesse um Engenho à sua custa, e desse ordem a se fazerem outros, como se fizeram, posto que depois se foram desfazendo todos, assim por falta de bois, que não cria esta terra gado vaccum, por causa de certa erva do pasto, que o mata, como por os muitos assaltos do gentio Aimoré, em que lhe matavam os escravos, pelo que também despovoaram muitos moradores, e se passaram para outras capitanias.

Porém sem isto tem outras coisas, pelas quais merecia ser bem povoada; porque no rio Grande, onde parte com a capitania dos Ilhéus, tem muito pau-brasil, e no rio das Caravelas muito zimbo, dinheiro de Angola, que são uns buziozinhos mui miúdos de que levam pipas cheias, e trazem por elas navios de negros, e na terra deste rio, e em todas as mais que há até entestar com as de Vasco Fernandes Coutinho, se dá muito bem o gado vaccum, e se podem com facilidade fazer muitos engenhos.




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Capítulo VI

Da capitania dos Ilhéus


Quando el-rei d. João Terceiro repartiu as capitanias do Brasil, fez mercê de uma delas, com 50 léguas de terra por costa, a Jorge de Figueiredo Corrêa, escrivão de sua fazenda, a qual começa da ponta do sul da barra da Bahia, chamada o morro de São Paulo, por diante.

Este Jorge de Figueiredo fez uma frota bem provida do necessário, e moradores, com a qual mandou um castelhano, grande cavaleiro, homem de esforço e experiência, chamado Francisco Romeiro, o qual desembarcando no dito morro, começou ali a povoar, e por se não contentar do sítio, se passou para onde esta a vila dos Ilhéus, que assim se chama pelos que têm defronte da barra, e vindo assentar pazes com o gentio Tupiniquim foi com a capitania em grande crescimento, e neste estado a vendeu o donatário com licença de Sua Majestade a Lucas Giraldes, que nela meteu grande cabedal, com que veio a ter oito engenhos, ainda que os feitores (como costumam fazer no Brasil) lhe davam em conta a despesa por receita, mandando-lhe mui pouco ou nenhum açúcar: pelo que ele escreveu a um florentino chamado Thomaz, que lhe pagava com cartas de muita eloqüência, Thomazo, quiere que te diga, manda la asucre deixa la parolle, e assinou-se, sem escrever mais letra.

Mas não foi este o mal desta capitania, senão a praga dos selvagens Aimorés, que com seus assaltos cruéis, fizeram despovoar os engenhos, e se hoje estão já de paz, ficaram os homens tão desbaratados de escravos, e mais fábrica, que se contentam com plantar mantimento para comer.

Porém no rio do Camamu, e nas ilhas de Tinharé e Boepeba, que são da mesma capitania, e estão mais perto da Bahia, há alguns bons engenhos e fazendas, e no rio de Taipé, que dista só duas léguas dos Ilhéus, tem Bartolomeu Luiz de Espinha um engenho, e junto dele esta uma lagoa de água doce, onde há muito e bom peixe do mar, e peixes-bois, e um pomar formoso de marmelos, figos e uvas, e frutas de espinhos.




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Capítulo VII

Da capitania da Bahia


Toma esta capitania o nome da Bahia por ter uma tão grande, que por antonomásia e excelência se levanta com o nome comum, e apropriando-o a si se chama a Bahia, e com razão, porque tem maior recôncavo, mais ilhas, e rios dentro de si, que quantas são descobertas no mundo, tanto que tendo hoje 50 engenhos de açúcar, e para cada engenho mais de dez lavradores de canas, de que se faz o açúcar, todos têm seus esteiros, e portos particulares; nem há terra que tenha tantos caminhos, por onde se navega.

As ilhas que dentro de si tem, entre grandes e pequenas, são 32, só tem um senão, que é não se poder defender a entrada dos corsários, porque tem duas bocas, ou barras, uma dentro da outra, a primeira a leste da ponta do padrão da Bahia, ou morro de S. Paulo, que é de 12 léguas, a segunda, que é a interior ao sul da dita barra, ou ponta do Padrão, a ilha de Itaparica, que é boca de três léguas.

Está esta Bahia em 13º, e um terço e tem em seu circuito a melhor terra do Brasil; porque não tem tantas áreas como as da banda do norte, nem tantas penedias como as do sul, pelo que os índios velhos comparam o Brasil a uma pomba, cujo peito é a Bahia, e as asas as outras capitanias, porque dizem que na Bahia está a polpa da terra, e assim da o melhor açúcar que há nestas partes.

Também é tradição antiga entre eles, que veio o bem-aventurado Apóstolo São Tomé a esta Bahia, e lhes deu a planta da mandioca, e das bananas de São Tomé, de que temos tratado no primeiro livro; e eles em paga deste benefício, e de lhes ensinar que adorassem e servissem a Deus, e não ao Demônio, que não tivessem mais de uma mulher, nem comessem carne humana, o quiseram matar e comer, seguindo-o efeito até uma praia, donde o santo se passou de uma passada à ilha de Maré, distância de meia légua, e daí não sabem por onde, devia de ser indo para a Índia, que quem tais passadas dava bem podia correr todas estas terras, e quem as havia de correr também convinha que desse tais passadas.

Mas como estes gentios não usem de escrituras, não há disto mais outra prova, ou indícios, que achar-se uma pegada impressa em uma pedra naquela praia, que diziam ficara do santo quando se passou à ilha, onde em memória fizeram os portugueses no alto uma ermida do título, e invocação de São Tomé.

Pela banda do norte parte esta capitania com a de Pernambuco, pelo rio de São Francisco, o qual era merecedor de se escrever não só em bom capítulo particular, senão em muitos, pelas muitas e grandes coisas, que dele se dizem, mas contento-me com passá-las em suma, ou a vulto, como hei passado outras, porque estão todas as do Brasil tão desacreditadas, que não sei se ainda assim o quererão ler.

Está este rio em altura de 10º, e uma quarta, na boca da barra tem duas léguas de largo, entra a maré por ele outras duas somente, e daí para cima é água doce, donde há tão grandes pescarias, que em quatro dias carregam de peixe quantos caravelões lá vão, e se querem navegam por ele até 20 léguas, ainda que sejam de 50 toneladas de porte.

No inverno, nau traz tanta água, nem corre tanto como no verão, e no cabo das ditas 20 léguas, faz uma cachoeira, por onde a água se despenha, e impede a navegação; porém daí por diante se pode navegar em barcos, que lá se armarem, até um sumidouro, onde este rio vem 10 ou 12 léguas por baixo da terra, e também é navegável daí para cima 80 ou 90 léguas, podendo navegar barcos, ainda mui grandes, pela quietação com que corre o rio, quase sem sentir-se, e os índios Anaupirás navegam por ele em canoas.

É gentio este que ainda não foi tratado, e dizem que se ataviam com algumas peças de ouro; pelo que Duarte Coelho de Albuquerque, senhor que foi de Pernambuco, tratou no reino desta conquista, mas nunca se fez, nem o rio se povoou até agora mais que de alguns currais de gado e roças de farinha ao longo do mar, sendo assim que é capaz de boas povoações, porque tem muito pau-brasil e terras para engenhos.

Não trato do rio de Sergipe, do rio Real e outros, que ficam nos limites desta capitania da Bahia, por não ser prolixo, e também porque adiante pode ser tenham lugar.

Desta capitania da Bahia fez mercê el-rei d. João Terceiro a Francisco Pereira Coutinho, fidalgo mui honrado, de grande fama e cavalarias na Índia, o qual veio em pessoa com uma grande armada à sua custa no ano do nascimento do Senhor de 1535, e desembarcando da ponta do Padrão da Bahia para dentro se fortificou; onde agora chamam a Vila Velha, esteve de paz alguns anos com os gentios, e começou dois engenhos levantando-se eles depois, lhos queimaram, e lhe fizeram guerra por espaço de sete ou oito anos, de maneira que lhe foi forçado, e aos que com ele estavam, embarcarem-se em caravelões, e acolherem-se à capitania dos Ilhéus, onde o mesmo gentio, obrigado da falta do resgate que com eles faziam, se foram ter com eles assentando pazes, e pedindo-lhes que se tornassem, como logo fizeram com muita alegria; porém levantando-se uma tormenta deram à costa dentro na Bahia na ilha Itaparica, onde o mesmo gentio os matou, e comeu a todos, exceto um Diogo Alvares, por alcunha posta pelos índios o Caramuru, porque lhe sabia falar a língua, e não sei se ainda isto bastaria pelo que são carniceiros, e ficaram encarniçados nos companheiros, se dele não se namorara a filha de um índio principal, que tomou a seu cargo o defendê-lo, e desta maneira acabou Francisco Pereira Coutinho com todo o seu valor, e esforço, e a sua capitania com ele.




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Capítulo VIII

Da capitania de Pernambuco, que el-rei doou a Duarte Coelho


As 50 léguas de terra desta capitania se contêm do rio de São Francisco, de que tratei no capítulo próximo passado, até o rio de Iguaraçu, de que tratei no capítulo segundo deste livro, e chama-se de Pernambuco, que quer dizer mar furado, por respeito de uma pedra furada, por onde o mar entra, a qual está vindo da ilha de Itamaracá, e também se poderá assim chamar por respeito do porto principal desta capitania, que é o mais nomeado, e freqüentado de navios que todos os mais do Brasil, ao qual se entra pela boca de um recife de pedra tão estreita, que não cabe mais de uma nau enfiada após outra, e entrando desta barra, ou recife para dentro, fica logo ali um poço, ou surgidouro, onde vem acabar de carregar as naus grandes, e nadam as pequenas carregadas de 100 toneladas, ou pouco mais, para o que esta ali uma povoação de 200 vizinhos com uma freguesia do Corpo Santo, de quem são os mareantes mui devotos, e muitas vendas e tabernas, e os passos de açúcar, que são umas lojas grandes, onde se recolhem os caixões até se embarcarem os navios.

Esta povoação, que se chama de Recife, esta em 80º uma légua da vila de Olinda, cabeça desta capitania, aonde se vai por mar, e por terra, porque é uma ponta de areia como ponte, que o mar da costa, que entra pela dita boca, cinge ao leste, e voltando pela outra parte faz um rio estreito, que a cinge ao oeste, pelo qual rio navegam com a maré muitos batéis, e as barcas, que levam as fazendas ao varadouro da vila, onde esta a alfândega.

A vila se chama de Olinda, nome que lhe pôs um galego, criado de Duarte Coelho, porque andando com outros por entre o mato buscando o sítio onde se edificasse, achando este, que é em um monte alto, disse com exclamação e alegria, Olinda.

Desta capitania fez el-rei d. João Terceiro mercê a Duarte Coelho, pelos muitos serviços que lhe havia feito na Índia na tomada de Malaca, e em outras ocasiões, o qual como tinha tão valorosos e altos espíritos, fez uma grossa armada em que se embarcou com sua mulher d. Beatriz de Albuquerque, e seu cunhado Jerônimo de Albuquerque, e foi desembarcar no rio de Iguaraçu, onde chamam os marcos, porque ali se demarcam as terras de sua capitania com as de Itamaracá, e as mais que se deram a Pero Lopes de Souza, onde já estava uma feitoria de el-rei para o pau-brasil, e uma fortaleza de madeira que el-rei lhe largou, e nela se recolheu, e morou alguns anos, e ali lhe nasceram seus filhos Duarte Coelho de Albuquerque, e Jorge de Albuquerque, e uma filha chamada d. Ignez de Albuquerque, que casou com d. Jerônimo de Moura, e cá morreram ambos, e um filho, que houveram, todos três em uma semana.

Dali deu Duarte Coelho ordem a se fazer a vila de Iguaraçu uma légua pelo rio adentro, do qual tomou o nome, e também se chama a vila de São Cosme e Damião, pela igreja matriz, que tem deste título, e orago, a qual é mui freqüentada dos moradores da vila de Olinda, que dista dela quatro léguas, e de outras partes mais distantes, pelos muitos milagres, que o Senhor faz pelos merecimentos, e intercessão dos santos.

Esta vila encarregou Duarte Coelho a um homem honrado Viannez chamado Afonso Gonçalves, que já o havia acompanhado da Índia. Da vila de Iguaraçu, ou dos santos Cosmos, mandou vir de Viana seus parentes, que tinha muitos, e mui pobres, os quais vieram logo com suas mulheres e filhos, e começaram a lavrar a terra entre os mais moradores, que já havia plantando mantimentos e canas de açúcar, para o qual começava já o capitão a fazer um engenho, e em tudo os ajudavam os gentios, que estavam de paz, e entravam e saíam da vila com seus resgates, ou sem eles, cada vez que queriam, mas embebedando-se uma vez uns poucos se começaram a ferir, e matar de modo, que foi necessário mandar o capitão alguns brancos com seus escravos, que os apartassem, ainda que contra o parecer dos nossos línguas, e intérpretes, que lhe disseram os deixasse brigar, e quebrar as cabeças uns aos outros; porque se lhes acudiam, como sempre se receiem dos brancos, haviam cuidar que os iam prender, e cativar, e se haviam de pôr em resistência, e assim foi, que logo se fizeram em um corpo, e com a mesma fúria, que uns traziam contra os outros, se tornaram todos os nossos, sem bastar vir depois o mesmo capitão com mais gente para os acabar de aquietar, e o pior foi que alguns, que ficaram fora da bebedice, se foram logo correndo à sua aldeia apelidando arma; porque os brancos se haviam já descoberto com eles, e tinham presos, mortos, e cativos, e feridos quantos estavam na vila, e assim o iriam fazendo pelas aldeias, e para mais confirmação desta mentira levavam uns dos mortos, que era filho do principal da aldeia, com a cabeça quebrada, dizendo que por ali veriam se falavam verdade, o qual visto, e ouvido pelo principal, e pelos mais se puseram logo em arma, e foram dar nos escravos do capitão, que andavam no mato cortando madeira, onde mataram um, os outros fugiram para a vila a contar o que se passava; e não bastou mandar-lhes o capitão dizer que os seus próprios fizeram a briga, e se mataram uns aos outros com a bebedice, e que os brancos foram só apartá-los, e eram seus amigos; nada disto bastou, antes apelidou o principal o das outras aldeias mandando-lhes parte do escravo do capitão, que haviam morto, para que se cevassem nela, como os da sua haviam feito na outra e assim se ajuntaram infinitos, e puseram em cerco a vila, dando-lhe muitos assaltos, e matando alguns moradores, e entre eles o capitão Afonso Gonçalves de uma flechada, que lhe deram por um olho, e lhe penetrou até os miolos, o qual os da vila recolheram, e enterraram com tanto segredo, que o não souberam os inimigos em dois anos, que durou o cerco, antes viam tanto vigia, e concerto, que parecia estar dentro algum grande capitão, sendo que cada um o era de si mesmo, e a necessidade de todos; porque até as mulheres vigiavam o seu quarto na fortaleza enquanto os homens dormiam, e estando elas de posto uma noite, vendo os inimigos tanto silêncio, que parecia não haver ali gente, subiram alguns, e começaram a entrar pelas portinholas das peças, mas elas, que os haviam sentido subir, os estavam aguardando com suas partasanas nas mãos, e quando estavam já com meio corpo dentro lhas meteram pelos peitos, e os passaram de parte a parte, e uma não contente com isso tomou um tição, e pôs fogo a uma peça com que fez fugir os outros, e espertar os nossos, que foi um feito mui heróico para mulheres terem tanto silêncio, e tanto ânimo.

O aperto maior que houve neste cerco foi o da fome; porque se não podiam valer de suas roças, onde tinham o mantimento, nem do mar para pescar e mariscar, e se da ilha de Itamaracá os não socorreram pelo rio em um barco, sem dúvida morreram todos à fome; e ainda este socorro lhe quiseram estorvar por muitos modos, mandando ameaçar aos da ilha, que só por isto lhes iriam fazer guerra, e esperando o barco; quando passava, lhe tiravam de terra muitas flechadas, pelo que era necessário ir mui bem empavesado, e contudo sempre feriam alguns remeiros, e uma vez determinaram fazer uma armadilha com que metessem o barco no fundo com quantos iam nele, e para este efeito cortaram uma grande árvore, que estava em uma ponta de terra, por onde haviam de ir costeando, e não a cortaram de todo, senão quanto se tinha por uma corda, para que quando passasse o barco por junto dela então a largassem e deixassem cair; mas quis Deus que eles caíssem na armadilha, que fizeram, porque a árvore não caiu para fora, senão para a terra, e os colheu debaixo, matando e ferindo a muitos.

Outros muitos milagres obrou Nosso Senhor neste cerco, pela intervenção dos bem-aventurados S. Cosme e Damião, padroeiros desta vila, que se isto não fora não se puderam sustentar com tantas necessidades quantas padeciam.

Nem Duarte Coelho os podia socorrer, por estar também neste tempo em contínuos assaltos do gentio na vila de Olinda, e lhe terem por terra todos os caminhos tomados; somente mandou levar em uns barcos as crianças, e a mais gente, que não pudesse pelejar; porque não estorvassem, nem comessem o mantimento aos mais, que não foi pequeno acordo para aquele tempo, até que quis Nosso Senhor, que os mesmos inimigos, cansados já de pelejar, se pacificaram, e tornaram a ter paz, e amizade com os brancos, com o que tornaram a fazer suas fazendas.




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Capítulo IX

De como Duarte Coelho correu a costa da sua capitania, fazendo guerra aos franceses, e paz com o gentio, e se foi para o reino


Não menos foi o aperto em que Duarte Coelho / como temos tocado / teve tudo este tempo na vila de Olinda, tendo-o por algumas vezes os inimigos posto em cerco em a sua torre, com muitas necessidades de fome e sede, contra quem não valiam as balas, que valorosamente atiravam de dentro, ainda que com elas matavam muitos gentios e franceses: mas Deus Nosso Senhor, que excitou o ânimo de Raab, mulher desonesta, para que escondesse as espias de seu povo, e fosse instrumento da vitória que se alcançou contra Jericó, a excitou também a filha de um principal destes gentios, que se havia afeiçoado a um Vasco Fernandes de Lucena, e de quem tinha já filhos, para que fosse entre os seus, e gabando os brancos às outras as trouxessem todas carregadas de cabaças de água, e mantimentos, com que os nossos se sustinham; porque isto faziam muitas vezes, e com muito segredo, e era este Vasco Fernandes tão bem temido e estimado entre os gentios, que o principal se tinha por honrado em tê-lo por genro, porque o tinham por grande feiticeiro; e assim uma vez que o cerco era mais apertado e estavam os de dentro receosos de os entrarem, saiu ele só fora, e lhes começou a pregar na sua língua brasílica, que fossem amigos dos portugueses, como eles o eram seus, e não dos franceses, que os enganavam, e traziam ali para que fossem mortos, e logo fez uma risca no chão com um bordão, que levava, dizendo-lhes que se avisassem, que nenhum passasse daquela risca para a fortaleza, porque todos os que passassem haviam de morrer, ao que o gentio deu uma grande risada, fazendo zombaria disto, e sete ou oito indignados se foram a ele para o matarem, mas, em passando a risca, caíram todos mortos; o que visto pelos mais levantaram o cerco, e se puseram em fugida.

Não crera eu isto, posto que o vi escrito por pessoa, que o afirmava, se não soubera que neste próprio lugar, onde se fez à risca, defronte da torre, se edificou depois um suntuoso templo do Salvador, que é matriz das mais igrejas de Olinda, onde se celebram os divinos ofícios, com muita solenidade e, assim não se há de atribuir aos feitiços senão à Divina Providência, que quis com este milagre sinalar o sítio, e imunidade do seu templo.

Com estas e outras vitórias, alcançadas mais por milagres de Deus, que por forças humanas, cobrou Duarte Coelho tanto ânimo, que não se contentou de ficar na sua povoação pacífico, senão ir-se em suas embarcações pela costa abaixo até o rio de S. Francisco, entrando nos portos todos de sua capitania, onde achou naus francesas, que estavam ao resgate de pau-brasil com o gentio, e as fez despejar os portos, e tomou algumas lanças e franceses, posto que não tanto a seu salvo, e dos seus, que não ficassem muitos feridos, e ele de uma bombardada, de que andou muito tempo maltratado, e contudo não se quis recolher até não a limpar a costa toda destes ladrões, e fazer pazes com os mais dos índios, e isto feito se tornou para a sua povoação com muitos escravos, que lhe deram os índios, dos que tinham tomados nas suas guerras, que uns lá tinham com os outros, o que fez também muito temido, e estimado dos circunvizinhos de Olinda, dizendo todos que aquele homem devia ser algum diabo imortal, pois se não contentava de pelejar em sua casa com eles, e com os franceses, mas ainda ia buscar fora com quem pelejar, e com isto mais por medo que por vontade lhe foram dando lugar para fazer um engenho uma légua da vila, e seu cunhado Jerônimo de Albuquerque outro; e os lavradores suas roças de mantimentos, e canaviais, a que o gentio os vinha ajudar, e lhes traziam muitas galinhas, caças, e frutas do mato, peixe, e mariscos a troco de anzóis, facas, foices, e machados, que eles estimavam muito.

Fez também caravelões, e lanchas em que fossem resgatar com os da costa com que tinha feito pazes, donde a troco das mesmas ferramentas, e de outras coisas de pouca valia, resgatavam muitos escravos e escravas, de que se serviam, e os casavam com outros livres, que os serviam também como os cativos.

Vendo Duarte Coelho que a terra estava quieta, e os moradores contentes, determinou ir-se a Portugal com seus filhos, deixando o governo da capitania a seu cunhado Jerônimo de Albuquerque em companhia da irmã.

O intento que o levou devia ser para requerer seus serviços, que na verdade eram grandes; e ainda que eram para seu proveito, e de seus descendentes, aos quais rende hoje a capitania perto de vinte mil cruzados: muito mais eram para el-rei, a quem só os dízimos passam cada ano de 60 mil cruzados, fora o pau-brasil, e direitos do açúcar, que importam muito os desta capitania por haver nela cem engenhos; porém como ainda então não havia tantos, nem tanta renda, e devia estar mexericado com el-rei, que lhe tomava a jurisdição, quando lhe foi beijar a mão lho remocou, e o recebeu com tão pouca graça, que indo-se para casa enfermou de nojo, e morreu daí a poucos dias; pelo que indo Afonso de Albuquerque com dó ao passo, e sabendo el-rei dele por quem o trazia, lhe disse: Pesa-me ser morto Duarte Coelho, porque era muito bom cavaleiro. Esta foi a paga de seus serviços, mas mui diferente a que de Deus receberia, que é só o que paga dignamente, e ainda ultra condignum, aos que o servem.




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Capítulo X

De como na ausência de Duarte Coelho ficou governando Jerônimo de Albuquerque a Capitania de Pernambuco, e do que nela aconteceu neste tempo


Razão tinha / se tivera perfeito uso dela / o gentio desta capitania para não se inquietar, e inquietá-la com a ausência de Duarte Coelho, pois ficava em seu lugar sua mulher d. Beatriz de Albuquerque, que a todos tratava como filhos, e Jerônimo de Albuquerque seu irmão, que assim por sua natural brandura, e boa condição, como por ter muitos filhos das filhas dos principais, os tratava a eles com respeito. Mas como é gente que se leva mais por temor, que por amor, tanto que viram ausentes o que temiam, começaram a fazer das suas, matando, e comendo a quantos brancos e negros seus escravos encontravam pelos caminhos, e o pior era que nem por isto deixavam de lhes vir a casa com seus resgates, dizendo que eles o não faziam, senão alguns velhacos, que haviam mister bem castigados.

Muito dava isto em que entender a Jerônimo de Albuquerque por não saber que conselho tomasse, e assim chamou a ele os oficiais da Câmara, e outras pessoas que o podiam dar, e juntos em sua casa lhes perguntou o que faria, começou logo cada um a dizer o que sentia, e os mais foram de parecer que os castigassem, e lhes fizessem guerra, mas não concordando no modo dela, se desfez a junta sem resolução do caso, e se foi cada um para sua casa, só ficaram alguns, que melhor sentiam, e entre eles um chamado Vasco Fernandes de Lucena, homem grave, e muito experimentado nesta matéria de índios do Brasil, que lhes sabia bem a língua, e as tretas de que usam, o qual disse ao governador que não era bem dar guerra a este gentio sem primeiro averiguar quais eram os culpados, porque não ficassem pagando os justos pelos pecadores; e que ele / se lhe dava licença / daria ordem e traça com que eles mesmos se descobrissem, e acusassem uns aos outros, e sobre isso ficassem entre si divisos, e inimigos mortais, que era o que mais importava; porque todo o reino em si diviso será assolado, e uns aos outros se destruíram sem nós lhes fazermos guerra, e quando fosse necessário fazer-lha, nos ajudaríamos do bando contrário, que foi sempre o modo mais fácil das guerras, que os portugueses fizeram no Brasil, e para isto mandasse logo ordenar muitos vinhos, e convidar os principais das aldeias, para que os viessem beber, e no mais deixasse a ele o cargo.

Pareceu isto bem aos que ali estavam, e o governador encomendando-lhes o segredo como convinha, mandou fazer os vinhos, e eles feitos mandou chamar os principais das aldeias dos gentios, e tanto que vieram os mandou agasalhar pelos línguas, ou intérpretes, que o fizeram ao seu modo bebendo com eles, porque não suspeitassem ter o vinho peçonha, e o bebessem de boa vontade, e depois que estiveram carregados, lhes disse Vasco Fernandes de Lucena que o governador os mandava chamar porque determinava ir fazer guerra aos Tobayoyas (Tobayáras?), que eram outros gentios seus contrários, o que não queria fazer sem sua ajuda; porém como entre eles havia alguns velhacos, como eles mesmos confessavam, que ainda em sua presença matavam, e comiam os portugueses, e os seus escravos, que achavam pelos caminhos, se receava que em sua ausência viriam a suas casas a matar suas mulheres e filhos, pelo que era necessário, antes que se partissem, saber quem eram estes para os castigar, e premiar os bons; e como eles / deve de ser pela virtude do vinho, que entre outras tem também esta / nunca falam verdade, senão quando estão bêbados, começaram a nomear os culpados, e sobre isto vieram às pancadas, e flechadas, ferindo-se, e matando uns aos outros, até que acudiu o governador Jerônimo de Albuquerque, e os prendeu; e depois de averiguar quais foram os homicidas dos brancos, uns mandou pôr em bocas de bombardas, e dispará-las à vista dos mais, para que os vissem voar feitos pedaços, e outros entregou aos acusadores, que os mataram em terreiros, e os comeram em confirmação da sua inimizade, e assim a tiveram daí avante tão grande como se fora de muitos anos, e se dividiram em dois bandos, ficando os acusadores com os seus sequazes, que era o maior número, onde dantes estavam, da vila até a mata do pau-brasil, por onde tiveram os portugueses lugar de se alargarem por esta parte, e fazerem seus engenhos, e fazendas, assim na várzea de Capiguaribe, que é a melhor de toda esta capitania, como em todo o espaço, que há até a vila de Iguaraçu; e a gente dos culpados, e acusadores, se passou para as matas do cabo de Santo Agostinho, louvando aos portugueses que haviam feito justiça.

Porém de lá vinham fazer tanta guerra a estoutros nossos amigos de uma grande cerca, que fizeram nos outeiros, que cercam a várzea de Capiguaribe da banda do sul, chamados Guararapes, que foi necessário ao capitão-mor Jerônimo de Albuquerque ir dar nela com os brancos, que pôde ajuntar, e mais de dez mil de estoutros índios, que para isto se lhe ofereceram de boa vontade, e como eram tantos, e os da cerca 600 flecheiros, com muita confiança remeteram a ela, e a acometeram por todas as partes, parecendo-lhes que já a tinham ganhada, mas os de dentro, como andavam mais resguardados, se defenderam, e os ofenderam de modo matando e ferindo tantos, que foi forçado aos capitães, depois de muitas horas de peleja, mandá-los recolher para uma caiçara, ou cerca de rama, que fizeram 25 braças afastada da dos contrários, e houve toda aquela noite grande jogo de pulhas, e bravatas de parte a parte, como costumam: dizendo, todavia, os contrários sempre que não o haviam com os brancos, antes queriam sua amizade, senão com os índios, e assim o mostraram o dia seguinte, porque estando os nossos portugueses, e índios muito descuidados, cuidando que não os viriam buscar, eles com um socorro de duzentos flecheiros, que lhes veio de outra aldeia, saíram com tanta pressa, e os cometeram com tanta fúria, que a muitos não deram lugar para tomar armas, e sem elas, e sem ordem alguma lançaram a fugir, tirado o capitão-mor Jerônimo de Albuquerque, que se foi retirando com os portugueses ordenadamente, mas não tanto a seu salvo que lhe não quebrassem um olho com uma flecha naquela primeira remetida, que depois não quiseram segui-los senão aos negros, que iam fugindo, nos quais fizeram grande destruição, e matança, de que depois se vingaram indo com Duarte Coelho de Albuquerque, que por morte de seu pai veio com seu irmão Jorge de Albuquerque a governar esta sua capitania, e foi dar guerra a este gentio do cabo, como a seu tempo contaremos.




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Capítulo XI

Da capitania de Itamaracá


Já dissemos no capítulo segundo como Pero Lopes de Souza não tomou as 50 léguas de terra, de que el-rei lhe fez mercê, todas juntas, senão repartidas, 25 da capitania de São Vicente para o sul, e outras 25 da capitania de Pernambuco para o norte, a que chamam de Itamaracá por respeito de uma ilha assim chamada, na qual está situada a vila da Conceição com uma igreja matriz do mesmo título, e outra da Santa Misericórdia.

A ilha tem duas léguas de comprido, ou pouco mais, ao redor dela vem desembocar cinco rios, dos quais, o de Iguaraçu, que demarca e extrema esta capitania da de Pernambuco, e está em 7º e um terço, alaga da ilha da parte do sul, onde está a dita vila, e o porto dos Navios, os quais para entrarem tem por baliza, e sinal umas barreiras vermelhas, com as quais pondo-se nordeste sudoeste entram pela barra à vontade. Outra barra tem a ilha à parte do norte, pela qual entram caravelões da costa.

Os outros rios que da terra firme vêm desembocar ao redor desta ilha são os de Araripe, Tapirema, Tujucupapo e Gueena, nos quais há mui bons engenhos de açúcar principalmente neste último de Gueena, onde está outra freguesia.

Nesta ilha de Itamaracá tinham os franceses feito uma fortaleza com um presídio de mais de cem soldados, com muitas munições, e artilharia, onde se recolhia a gente dos seus navios quando vinham a carregar de pau-brasil, que os gentios lhe cortavam, e acarretavam aos ombros a troco de ferramenta e outros resgates de pouca valia, que lhes davam, como também lhes traziam a troco dos mesmos muito algodão, e fiado, e redes feitas em que dormem, bugios, papagaios, pimenta e outras coisas que a terra dá, que para os franceses era de muito ganho, e por esta causa assim neste porto como nos mais do Brasil comerciavam com o gentio, e os alteravam contra os portugueses, induzindo-os que os não consentissem povoar, antes os matassem e comessem, porque o mesmo vinham eles a fazer, o qual sabido por el-rei d. João Terceiro, ordenou uma armada mui bem provida de todo o necessário, e mandou nela por capitão-mor Pero Lopes de Souza, para que viesse primeiramente a esta ilha, e daqui a todos os mais portos, e lançasse dele todos os franceses que achasse, e destruísse suas fortalezas e feitorias, levantando outras, donde lhe carregassem o pau-brasil por sua conta, porque esta era a droga que tomava para si.

Esta armada partiu de Lisboa, e navegou prosperamente até avistar a ilha de Itamaracá a tempo que havia dela saído uma nau francesa carregada para França, a qual cuidou fugir-lhe, mas mandou atrás dela uma caravela muito ligeira, e por capitão dela um João Gonçalves, homem de sua casa, de cujo esforço tinha muita confiança, pela experiência que dele tinha de outras armadas em que o acompanhou contra os corsários na costa de Portugal e de Castela; e como a caravela era um pensamento, e a nau francesa sobrecarregada, posto que alojou muita parte da carga do pau-brasil, enfim foi alcançada, e querendo se pôr em defesa lhe tiraram da nossa com um pelouro de cadeia, que a colheu de proa a popa, e a desenxarceou de uma banda, e lhe matou alguns homens, com o que se renderam os mais, que eram 35 entre grandes e pequenos, e a nau com oito peças de artilharia, com a qual presa se tornou o capitão João Gonçalves, havendo já 27 dias que o capitão-mor estava na ilha, onde teve informação de outra nau que vinha de França com munições e resgates aos franceses, e a mandou esperar por outras duas caravelas, de que foram por capitães Álvaro Nunes de Andrada, homem fidalgo, galezo, da geração dos Andradas, e Gamboas, e Sebastião Gonçalves Arvelos, os quais a tomaram, e entraram com ela na mesma maré em que João Gonçalves entrou com a outra, com que os franceses da fortaleza começaram a enfraquecer, e desmaiar, e muito mais porque se lhe levantou um levantisco, e alguns portugueses que eles tinham tomado, e andavam entre os gentios, os quais, como lhes sabiam falar já a língua, os amotinaram contra os franceses de tal modo, que se Pero Lopes de Souza lho não proibira, quiseram logo matá-los, e comê-los, que tão variável é o gentio, e amigo de novidades; e assim vieram logo os principais oferecer-se a Pero Lopes de Souza para isto, e para tudo o mais que lhes mandasse; o qual os recebeu benignamente, e lhes disse que não fizessem o mal aos franceses, porque todos eram irmãos, nem ele lho havia de fazer, se lhe não resistissem, antes muitos benefícios, e favores; sabido isto pelos franceses / que logo lhe foram dizer / lhe mandou o seu capitão oferecer que fosse tomar entrega da fortaleza, e deles, que todos queriam ser seus prisioneiros, e cativos, e só pediam mercê das vidas, e assim se fez; não esperando o capitão da fortaleza que Pero Lopes de Souza chegasse a ela, mas ao caminho lhe trouxe as chaves, e lhas entregou com todos os seus soldados desarmados, ele lhes mandou entregar a sua roupa, e despejada a fortaleza da artilharia, e do mais que tinha a mandou arrasar, fazendo outra mais forte na povoação, e outra nos marcos, para resguardo da feitoria Del-rei, que depois Sua Alteza deu a Duarte Coelho, onde logo se tratou de fazer muito pau para a carga dos navios: e enquanto estas coisas se faziam sucedeu uma noite, que estando o capitão-mor com a candeia, e janela aberta lhe tiraram de fora com duas flechas, das quais uma lhe foi tocando com as penas pelo roupão, e ambas se foram pregar em umas rodelas, que estavam defronte na parede, o qual suspeitando nos franceses, mandou pela manhã que os enforcassem todos, e começando-se a fazer execução, vendo dois que ele havia tomado para a fortaleza por serem bombardeiros, que os mais eram inocentes, disseram em altas vozes que eles eram os culpados, que lhe haviam atirado cuidando de o acertarem, e nenhum daqueloutros tinha culpa; pelo que mandou sustar a execução neles, e enforcar a estoutros, mas estavam muitos enforcados, e cá se consumiram todos, com que os gentios ficaram estimando mais os portugueses, e os começaram a ajudar a fazer suas roças e fazendas, e a cortar e trazer o pau, que se havia de carregar nos navios de el-rei, o que tudo se lhes pagava muito a seu gosto.

Carregados os navios da armada que o capitão havia trazido para este efeito se partiram para o reino, e ele nos outros foi correr a costa, como el-rei lhe mandava, onde entrou em muitos portos, e queimou algumas naus francesas que achou, mas os franceses lhe fugiram pela terra dentro com os gentios, donde depois nos fizeram muito mal.

Ultimamente chegou a São Vicente, onde achou a seu irmão mais velho, Martim Afonso de Souza, fortificando, e povoando a sua capitania, e dando ordem a se povoar, e fortificar também a sua de São Vicente para o sul, se tornou a esta de Itamaracá, e achando boa informação de um Francisco de Braga, grande intérprete do Brasil, que havia deixado em seu lugar, o tornou a deixar com todos os seus poderes, e se tornou a Portugal a dar conta a el-rei do que tinha feito, donde foi por capitão-mor de quatro naus para a Índia o ano de 1539, e a tornada para o reino se sumiu a nau em que vinha, sem nunca mais aparecer, nem coisa alguma dela.




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Capítulo XII

Do que aconteceu na capitania de Itamaracá depois que dela e foi o donatário Pero Lopes de Souza


Como o capitão Francisco de Braga sabia falar a língua do gentio, e era tão conhecido entre eles, não faziam senão o que ele queria, e lhes mandava, e assim se ia esta capitania povoando com muita facilidade, mas chegou neste tempo Duarte Coelho a povoar a sua, e como fez a povoação nos marcos, foi a muita vizinhança causa de terem algumas diferenças, por fim das quais lhe mandou Duarte Coelho dar uma cutilada pelo rosto, e o capitão vendo que não podia vingar, se embarcou para as Índias de Castela, levando tudo o que pôde; pelo que ficou a capitania desbaratada, perdida, como corpo sem cabeça, e muito mais por chegar neste tempo novas que era morto Pero Lopes de Souza, vindo da Índia, onde el-rei o mandou por capitão-mor das naus. Mas sua mulher d. Isabel de Gamboa mandou logo aprestar um patacho em que viesse o capitão João Gonçalves, que já havia estado com seu marido, e se partisse à pressa, sem esperar por outros três navios, que se ficavam negociando; e assim se partiu; porém os que partiram derradeiro chegaram, e o primeiro arribou às Antilhas, e foi dar à costa na ilha de Santo Domingo, com os mastros quebrados, posto que se salvou a gente.

Vendo Pedro Vogado, que assim se chamava o capitão-mor dos três navios, que não era chegado o capitão João Gonçalves à ilha, os carregou logo de pau-brasil, e os tornou a mandar, avisando a d. Isabel do que passava, e de como ele ficava entretanto governando. A qual, em vez de o mandar continuar porque o fazia mui honradamente, mandou outro capitão, que mais era para governar uma barca, e assim se embarcou, e foi por essas capitanias abaixo / como fez o Braga /, deixando esta em termos de se acabar de despovoar, se não fora um morador honrado chamado Miguel Álvares de Paiva, o qual levantaram por capitão, porque nunca se quis sair da ilha, antes teve mão nos outros, que se não fossem nem mandassem suas mulheres, e filhos, como alguns queriam, com medo dos gentios, que neste tempo tinham cercada a vila de Iguaraçu, e os ameaçavam que lhes haviam de fazer o mesmo; este capitão era o que socorria os do cerco com os barcos do mantimento, como dissemos no capítulo nono, e trazia outros entre a ilha e a terra firme com soldados e armas, para que estorvassem ao inimigo a passagem, até que finalmente se quietaram, e chegou o capitão João Gonçalves das Antilhas, cuja vinda foi muito festejada, e os gentios lhe tinham muito respeito, por verem que assim lho tinha Pero Lopes de Souza, quando cá esteve, e assim não lhe chamavam senão o capitão velho, e pai de Pero Lopes: e na verdade ele o parecia no zelo com que o servia, e procurava o aumento desta sua capitania, não consentindo que aos Índios se fizesse algum agravo, mas cariciando a todos, com que eles andavam tão contentes, e domésticos, que de sua livre vontade se ofereciam a servir os brancos, e lhes cultivavam as terras de graça, ou por pouco mais de nada, principalmente um ano que houve de muita fome na Paraíba, donde só pelo comer se vinham meter por suas casas a servi-los; e assim não havia branco, por pobre que fosse nesta capitania, que não tivesse 20 ou 30 negros destes, de que se serviam como de cativos, e os ricos tinham aldeias inteiras.

Pois que direi dos resgates que faziam, donde por uma foice, por uma faca, ou um pente traziam cargas de galinhas, bugios, papagaios, mel, cera, fio de algodão, e quanto os pobres tinham.

Durou esta era, a que ainda hoje os moradores antigos chamam dourada, enquanto viveu o capitão velho, mas depois que morreu vieram outros a destruir quanto estava feito, fazendo, e consentindo fazerem-se tantas vexações e agravos aos pobres gentios em suas próprias terras, e aldeias, que se começaram a inquietar e rebelar, e os que pela nossa paz e amizade se afastavam dos franceses, e senão eram alguns da beira mar, os outros do sertão de nenhuma maneira os admitiam entre si, nem queriam seu comércio; depois uns e outros se liaram com eles, e nos fizeram tão grandes guerras, quanto os moradores desta capitania o sentiram em suas pessoas e fazendas, e não menos o donatário, que todo este tempo recebeu dela perdas sem proveito, e enfim lhe veio a custar tomar-lhe el-rei um grande pedaço dela, que é grande parte da Paraíba, por havê-la conquistado, e libertado do poder dos inimigos à custa da sua fazenda, e de seus vassalos, como no livro quarto veremos.




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Capítulo XIII

Da terra e capitania, que el-rei d. João Terceiro doou a João de Barros


No fim das 25 léguas da terra da capitania de Itamaracá, que el-rei doou a Pero Lopes de Souza, doou, e fez mercê a João de Barros, feitor, que foi da casa da Índia, de 50 léguas por costa; o qual cuidando de se aproveitar a si e a seus amigos, armou com Fernand'Álvares de Andrade, tesoureiro-mor do reino, e Aires da Cunha, que veio por capitão da empresa, mandando com ele dois filhos seus em uma frota de 10 navios, em que vinham 900 homens, e com todo o necessário para a jornada, e para a povoação que vinham fazer, se partiram de Lisboa no ano de 1535; mas desgarrando-se com as águas e ventos foram tomar terra junto do Maranhão, onde se perderam nos baixos.

Deste naufrágio escapou muita gente, com a qual os filhos de João de Barros se recolheram a uma ilha, que então se chamava das Vacas, e agora de São Luiz, donde fizeram pazes com o gentio tapuia, que então ali habitava, resgatando mantimentos, e outras coisas, que lhes eram necessárias: e chegou o trato e amizade a tanto que alguns houveram filhos das Tapuias, como se descobriu depois que cresceram, não só porque barbaram, e barbam ainda hoje todos os seus descendentes, como seus pais e avós, senão pelo amor que têm aos portugueses em tanta maneira, que nunca jamais quiseram paz com os outros gentios, nem com os franceses, dizendo que aqueles não eram verdadeiros Peros / que assim chamam aos portugueses, parece por respeito de algum que se chamava Pedro / e, todavia, quando na era de 614 entraram os nossos no Maranhão, logo os vieram ver, e fazer pazes com eles, dizendo que estes eram os seus Peros desejados, de que eles descendiam.

Donde se colige que não era o Maranhão a terra, que el-rei deu a João de Barros, como alguns cuidam, senão estoutra, que demarca pela Paraíba com a de Pero Lopes de Souza; porque se fora a do Maranhão, havendo seus filhos escapado do naufrágio, e chegado à do Maranhão com quase toda a sua gente, e achando a da terra tão benévola, e pacífica, que causa havia para que a não povoassem?

Prova-se também por que todas as que se deram naquele tempo foram contíguas umas com outras, e os donatários éreos uns dos outros pela ordem que vimos nos capítulos precedentes.

E finalmente se confirma, por que a do Maranhão foi dada a Luiz de Mello da Silva, que a descobriu, como se verá no capítulo seguinte, e não devia el-rei de dar a um, o que tinha dado a outro.

Nem o mesmo João de Barros, na primeira década, livro sexto, capítulo primeiro, onde fala da sua capitania, faz menção do Maranhão, mas só diz que da repartição que el-rei d. João Terceiro fez das capitanias na província de Santa Cruz, que comumente se chama do Brasil, lhe coube uma, a qual lhe custou muita substância de fazenda, por razão de uma armada, que fez em companhia de Aires da Cunha / et cetera, / que é a armada / como temos dito / que arribou, e se foi perder no Maranhão, e daí mandou depois em outros navios buscar seus filhos, donde ficou tão pobre, e endividado, que não pôde mais povoar a sua terra, a qual já agora é de Sua Majestade, por cujo mandado depois se conquistou, e se ganhou ao gentio Potiguar à custa de sua real fazenda.




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Capítulo XIV

Da terra e capitania do Maranhão, que el-rei d. João Terceiro doou a Luiz de Mello da Silva


O Maranhão é uma grande baía, que fez o mar, cuja boca se abre ao norte em 2º e um quarto da linha para o sul, entre a'ponta do Pereá, que lhe fica a leste, e a do Cumá a oeste, tem no meio a ilha de S. Luiz, que é de 20 léguas de comprido, e sete ou oito de largura, onde esteve Aires da Cunha, quando se perdeu com a sua armada, e os filhos de João de Barros, como dissemos no capítulo precedente. A qual ilha sai desta baía como língua com a ponta de Arassoagi ao norte, onde tem a boca. Dentro tem outras muitas ilhas, das quais a maior é de seis léguas. Deságuam nesta baía cinco rios caudalosos, e todos navegáveis, que são o Monim, o Itapucuru, o Mearim, o Pinaré, que dizem nasce muito perto do Peru, e o Maracu, que se deriva por muitos, e mui espaçosos lagos.

Todos estes rios têm boníssimas águas, e pescados, excelentes terras, muitas madeiras, muitas frutas, muitas caças, e por isto muito povoadas de gentios.

No tempo que se começou a descobrir o Brasil, veio Luiz de Mello da Silva, filho do alcaide-mor de Elvas, como aventureiro, em uma caravela a correr esta costa, para descobrir alguma boa capitania, que pedir a el-rei, e não podendo passar de Pernambuco desgarrou com o tempo e águas, e se foi entrar no Maranhão, do qual se contentou muito, e tomou língua do gentio, e depois na Margarita de alguns soldados que haviam ficado da companhia de Francisco de Orelhana, que como testemunhas de vista muito lha gabaram, e prometeram muitos haveres de ouro, e prata pela terra dentro, do que movido Luiz de Mello se foi a Portugal pedir a el-rei aquela capitania para a conquistar e povoar, e sendo-lhe concedida, se fez prestes na cidade de Lisboa, e partiu dela em três naus e duas caravelas, com que chegando ao Maranhão se perdeu nos esparsos e baixos da barra, e morreu a maior parte da gente que levava, escapando só ele com alguns em uma caravela, que ficou fora do perigo, e 18 homens em um batel, que foi ter à ilha de Santo Domingo, dos quais foi um meu pai, que Nosso Senhor tenha em sua glória, o qual sendo moço, por fugir de uma madrasta, e ser Alentejano, como o capitão, da geração dos Palhas, e com pouco grau para sustentar a vida, se embarcou então para o Maranhão, e depois para esta Bahia, onde se casou, e me houve, e a outros filhos e filhas.

Depois de Luiz de Mello ser em Portugal se passou à Índia, onde obrou valorosos feitos, e vindo-se para o reino muito rico, e com tenção de tornar a esta empresa, acabou na viagem na nau São Francisco, que desapareceu sem se saber mais novas dela; nem houve quem tratasse mais do Maranhão o que visto pelos franceses, lançaram mão dele, como veremos no livro quinto.

Mas hão se aqui por fim deste de advertir duas coisas: a primeira que não guardei nele a ordem de tempo e antigüidade das capitanias, e povoações, senão a do sítio, e contiguação de umas com outras, começando do sul para o norte, o que não farei nos seguintes livros, em que seguirei a ordem dos tempos, e sucessão das coisas. A segunda, que não tratei das do Rio de Janeiro, Sergipe, Paraíba, e outras, porque estas se conquistaram depois, e povoaram por conta del-rei, por ordem de seus capitães, e governadores gerais, e terão seu lugar quando tratarmos deles nos livros seguintes.






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Livro terceiro

Da História do Brasil do tempo que o governou Tomé de Souza até a vinda do governador Manuel Teles Barreto



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Capítulo I

De como el-rei mandou outra vez povoar a Bahia por Tomé de Souza, governador geral da Bahia


Depois que el-rei soube da morte de Francisco Pereira Coutinho, e da fertilidade da terra da Bahia, bons ares, boas águas, e outras qualidades que tinha para ser povoada; e juntamente estar no meio das outras capitanias, determinou povoá-la e fazer nela uma cidade, que fosse como coração no meio do corpo, donde todas se socorressem, e fossem governadas. Para o que mandou fazer uma grande armada, provida de todo o necessário para a empresa, e por capitão-mor Tomé de Souza, do seu conselho, com título de governador de todo o estado do Brasil, dando-lhe grande alçada de poderes, e regimento, em que quebrou os que tinha concedido a todos os outros capitães proprietários, por no cível e crime lhes ter dado demasiada alçada, como vimos no capítulo segundo do livro segundo; mandando que no crime nenhuma tenham, sem que dêem apelação para o ouvidor-geral deste estado, e no cível 20 mil-réis somente; e que o dito ouvidor-geral possa entrar por suas terras por correção, e ouvir nelas de auções novas e velhas, o que não faziam dantes, e para isto lhe deu por ajudadores o doutor Pero Borges, corregedor que fora de Elvas, para servir de ouvidor-geral; Antônio Cardoso de Barros para provedor-mor da Fazenda, e Diogo Moniz Barreto para alcaide-mor da cidade que edificasse; com os quais, e com alguns criados del-rei, que vinham providos em outros cargos, e seis padres da companhia para doutrinar, e converter o gentio, e outros sacerdotes, e seculares, partiu de Lisboa a 2 de fevereiro de 1549, trazendo mais alguns homens casados, e mil de peleja, em que entravam quatrocentos degradados.

Com toda esta gente chegou à Bahia a 20 de março do mesmo ano, e desembarcou na Vila Velha, que Francisco Pereira deixou edificada logo à entrada da barra, onde achou a Diogo Álvares Caramuru, de quem disse no sétimo capítulo do livro segundo, que foi livre da morte pela filha de um índio principal, que dele se namorou, a qual embarcando-se ele depois, fugido em um navio francês, que aqui veio carregar de pau, e indo já o navio à vela, se foi a nado embarcar com ele, e chegando à França, batizando-se ela, e chamando-se Luiza Alvares, se casaram ambos, e depois os tornaram a trazer os franceses no mesmo navio, prometendo-lhes ele de lho fazer carregar por seus cunhados.

Porém chegando à Bahia, e ancorando no rio de Paraguaçu, junto à ilha dos franceses, lhes mandou uma noite cortar a amarra, com que deram à costa, e despojados de quanto traziam, foram todos mortos, e comidos do gentio, dizendo-lhes Luiza Alvares, sua parenta, que aqueles eram inimigos, e só seu marido era amigo, e como tal tornava a buscá-los, e queria viver entre eles, como de feito viveu até a vinda de Tomé de Souza, e depois muitos anos, e a ela alcancei eu, morto já o marido, viúva mui honrada, amiga de fazer esmolas aos pobres, e outras obras de piedade.

E assim fez junto a Vila Velha em um aprazível sítio uma ermida de Nossa Senhora da Graça, e impetrou do Sumo Pontífice indulgências para os romeiros, dos quais é mui freqüentada.

Esta capela ou administração dela doou aos padres de São Bento, que ali vão todos os sábados cantar uma missa.

Morreu muito velha, e viu em sua vida todas suas filhas, e algumas netas casadas com os principais portugueses da terra, e bem o mereciam também por parte de seu progenitor Diogo Álvares Caramuru, por cujo respeito fiz esta digressão; pois este foi o que conservou a posse da terra tantos anos, e por seu meio fez o governador Tomé de Souza pazes com o gentio, e os fez servir aos brancos, e assim edificou, povoou e fortificou a cidade, que chamou do Salvador, onde ela hoje está, que é meia légua da barra para dentro, por ser aqui o porto mais quieto, e abrigado para os navios: onde ouvi dizer a homens do seu tempo / que ainda alcancei alguns / que ele era o primeiro que lançava mão do pilão para os taipais, e ajudava a levar a seus ombros os caibros, e madeiras para as casas, mostrando-se a todos companheiro, e afável / parte mui necessária nos que governam novas povoações /; com isto folgavam todos de trabalhar, e exercitar cada um as habilidades que tinha, dando-se uns à agricultura, outros a criar gado, e a toda a mecânica, ainda que a não tivessem aprendida, com o que foi a terra em grande crescimento, e muito mais com a ajuda de custa, que el-rei fazia com tanta liberalidade, que se afirma no triênio deste governador gastar de sua real fazenda mais de 300 mil cruzados em soldos, ordenados de ministros, edifícios da Sé, e casa dos padres da Companhia, ornamentos, sinos, artilharia, gados, roupas, e outras coisas necessárias, o que fazia não tanto pelo interesse, que esperava de seus direitos, e dos dízimos, de que o Sumo Pontífice lhe fez concessão com obrigação de prover as igrejas, e seus ministros, quanto pelo gosto, que tinha de aumentar este estado, e fazer dele um grande império, como ele dizia.

Nem se deixou então de praticar, que se alguma hora acontecesse / o que Deus não permita / ser Portugal entrado, e possuído de inimigos estrangeiros, como há acontecido em outros reinos, de sorte que fosse forçado passar-se el-rei com seus portugueses a outra terra, a nenhuma o podia melhor fazer, que a esta: porque passar-se às ilhas / como diziam, e fez o senhor d. Antônio, pretendente do reino, no ano do Senhor de 1580 /, além de serem mui pequenas, estão tão perto de Portugal que lhe iriam os inimigos no alcance, e antes de se poderem reparar dariam sobre eles.

A Índia, ainda que é grande, é tão longe, e a navegação tão perigosa, que era perder a esperança de poder tornar, e recuperar o reino. Porém o Brasil, com ser grande fica em tal distância, e tão fácil a navegação, que com muita facilidade pode cá vir e tornar quando quiserem, ou ficar-se de morada, pois a gente que cabe em menos 100 léguas de terra, que tem todo Portugal, bem caberá em mais de mil, que tem o Brasil, e seria este um grande reino, tendo gente, porque donde há as abelhas há o mel, e mais quando não só das flores, mas das ervas e canas se colhe mel e açúcar, que de outros reinos estranhos viriam cá buscar com a mesma facilidade a troco das suas mercadorias, que ca não há; e da mesma maneira as drogas da Índia, que daqui fica mais vizinha, e a viagem mais breve e fácil, pois a Portugal não vão buscar outras coisas senão estas, que pão, panos, e outras coisas semelhantes não lhe faltam em suas terras; mas toda esta reputação e estima do Brasil se acabou com el-rei d. João, que o estimava e reputava.




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Capítulo II

De outras duas armadas, que el-rei mandou com gente e rovimento para a Bahia


Logo no ano seguinte de mil quinhentos e cinqüenta mandou el-rei outra armada com muita gente e provimento, e por capitão-mor dela Simão da Gama d'Andrade, no galeão velho muito afamado; foi este fidalgo nesta cidade grande republico, e daí a muitos anos morreu nela de herpes, que lhe deram em uma perna, deixando uma capela perpétua de missas na Igreja da Misericórdia, onde está sepultado com um epitáfio, que diz assim:


Pela suma caridade
de Cristo Crucificado,
está aqui sepultado
Simão da Gama d'Andrade
para ser ressuscitado.



Nesta armada veio o bispo d. Pedro Fernandes Sardinha, pessoa de muita autoridade e exemplo, e extremado pregador, e trouxe em sua companhia quatro sacerdotes da Companhia de Jesus para ajudarem os seis, que já cá estavam, na doutrina, e conversão do gentio, e outros clérigos, e ornamentos para a sua Sé.

O ano seguinte de mil quinhentos cinqüenta e um, mandou el-rei outra armada, e por capitão-mor dela Antônio de Oliveira Carvalhal para alcaide-mor de Vila Velha, com muitas donzelas da rainha d. Catarina, e do Mosteiro das Órfãs, encarregadas ao governador para que as casasse, como o fez, com homens a que deu ofícios da República, e algumas dotou de sua própria fazenda.

Era Tomé de Souza homem muito avisado e prudente, e muito experimentado nas guerras da África e da Índia, onde estivera, tinha mostrado valoroso cavaleiro, mas estava isto cá tão em agro, e enfadava-se de labutar com degradados, vendo que não eram como o pêssego, «pomo que da Pátria Pérsia veio melhor tornado no terreno alheio», que pediu com muita instância por muitas vezes a el-rei que lhe desse licença para se tornar ao reino, contudo é muito para notar um dito, que / entre outros que tinha mui galantes / disse quando lhe veio a licença.

É costume nesta Bahia ir o meirinho do mar quando entram os navios, e trazer a nova ao governador donde são, e do que trazem; como pois fosse em aquela ocasião, e achasse que vinha sucessor ao governador, tornou-se mui alegre a pedir-lhe alvíssaras, porque já eram cumpridos seus desejos, e estava no porto novo governador, respondeu-lhe ele depois de estar um pouco suspenso: Vedes isso, meirinho, verdade é que eu o desejava muito, e me crescia a água na boca quando cuidava em ir para Portugal, mas não sei que é que agora se me seca a boca de tal modo, que quero cuspir, e não posso. Não deu o meirinho resposta a isto, nem eu a dou, porque os leitores dêem a que lhes parecer.




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Capítulo III

Do segundo governador geral, que el-rei mandou ao Brasil


Movido el-rei dos rogos e importunações do governador Tomé de Souza, acabado o triênio do seu governo, lhe mandou por sucessor d. Duarte da Costa, o qual se embarcou, e partiu de Lisboa no ano de mil quinhentos cinqüenta e três a oito do mês de maio, trazendo em sua companhia seu filho d. Álvaro, e o Padre Luiz da Grã, que havia sido reitor no Colégio de Coimbra, e mais dois padres sacerdotes, e quatro irmãos da companhia, um dos quais era José de Anchieta, que depois foi cá seu provincial, e se pode chamar Apóstolo do Brasil, pelas obras e milagres, que nele fez, como o padre São Francisco Xavier se chamou da Índia.

O governador tanto que chegou trabalhou muito por fortificar e defender esta nova cidade da Bahia contra os bárbaros gentios, que se levantaram, e cometeram grandes insultos, que ele emendava dissimulando alguns com prudência, e castigando outros com armas, matando-os, e cativando-os em guerras, que lhes fez, de que era capitão seu filho d. Álvaro da Costa, o qual em todas se houve valorosamente. Nem el-rei o deixou de favorecer em todo o seu tempo com armadas de muitos soldados, e moradores.

Ajudavam também o bispo d. Pedro Fernandes, trabalhando sem cessar na conversão das almas, na ordem do Culto Divino, administração dos sacramentos, e em tudo mais tocante ao espírito, que el-rei não menos pretendia, e encomendava que o temporal.

Porém o demônio perturbador da paz a começou a perturbar de modo entre estas cabeças eclesiásticas, e secular, e houve entre eles tantas diferenças que foi necessário ao bispo embarcar-se para o reino com suas riquezas, aonde não chegou por se perder a nau, em que ia, no rio Cururuipe, seis léguas do de S. Francisco, com toda a mais gente que nela ia, que era Antônio Cardoso de Barros, que fora provedor-mor, e dois cônegos, duas mulheres honradas, muitos homens nobres, e outra muita gente, que por todos eram mais de cem pessoas, os quais, posto que escaparam do naufrágio com vida, não escaparam da mão do gentio Caeté, que naquele tempo senhoreava aquela costa, o qual depois de roubados, e despidos, os prenderam, e ataram com cordas, e pouco a pouco os foram matando, e comendo, senão a dois índios, que iam desta Bahia, e um português, que sabia a língua.

Não sei se deu isto ânimo aos mais governadores para depois continuarem diferenças com os bispos, de que tratarei em seus lugares, e porventura os culparei mais, porque tenho notícia das razões, ou para melhor dizer sem razões de suas diferenças, o que não posso neste caso sem ser notado de murmurador, pois não sei a causa, que tiveram, somente direi o que ouvi das pessoas, que caminham desta Bahia para Pernambuco, e passam junto ao lugar donde o bispo foi morto / porque por ali é o caminho / que nunca mais se cobriu de erva, estando todo o mais campo coberto dela, e de mato, como que está o seu sangue chamando a Deus da terra contra quem o derramou; e assim o ouviu Deus, que depois se foi desta Bahia dar guerra àquele gentio, e se tomou dele vingança, como adiante veremos.




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Capítulo IV

De uma nau da Índia, que arribou a esta Bahia no tempo do governador d. Duarte da Costa


No segundo ano do governador d. Duarte da Costa, que foi o do Senhor de mil quinhentos cinqüenta e cinco, em o mês de maio, arribou a esta Bahia, por falta de água, a nau São Paulo, que ia para a Índia em companhia de outras quatro, das quais todas ia por capitão-mor d. João de Menezes de Sequeira, e por capitão desta arribada Antônio Fernandes, que era senhor dela; vinham nesta nau muitos doentes, os quais o governador mandou recolher no hospital, e aos sãos ordenou darem-lhes mesa cinco meses que aqui estiveram, por se tomar parecer entre os oficiais da nau, e outros da terra / presente o governador, e d. Antônio de Noronha, o catarraz, que ia servir à capitania de Diu / e assentaram todos que, se partisse em outubro poderia passar à Índia, como aconteceu, e em menos de quatro meses chegou a Cochim, onde ainda achou a nau Capitânia, de que era capitão d. João de Menezes, e o dia seguinte deu a vela para Goa muito contente por levar novas daquela nau, que já se tinha por perdida, ainda que mui descontente com outras que levava da morte do ínclito infante d. Luiz, duque de Beja, e Condestable de Portugal, senhor de Serpa, Moura, Cavilhão, e Almada, e governador do priorado de Crato, que faleceu este ano de mil quinhentos cinqüenta e cinco, o qual, entre outras muitas virtudes, e excelências, de que foi adornado, principalmente teve duas, zelo da religião cristã e ciência da arte militar, e ainda que em seu tempo se moveram poucas guerras, em que ele se pudesse achar, sabendo que o imperador Carlos Quinto, seu cunhado, passava a África, se foi para ele sem licença alguma, nem companhia, por saber que o havia el-rei seu irmão de negar, como já em outras ocasiões o havia feito, ao que todavia el-rei acudiu logo dando licença a alguns fidalgos, que o seguissem, e mandando a uma armada sua, que já lá estava, lhe obedecesse, de que era capitão Antônio de Saldanha, e para todo o dinheiro que gastasse lhe mandou grande crédito, e por esta via se achou com formosa cavalaria de nobreza de seu reino acompanhado, em ajuda do invictíssimo imperador na conquista da Goleta, e de Tunes, que por seu conselho se conquistou contra o parecer de muitos capitães mais antigos, experimentados, que o contrário diziam.

Mas o nosso infante, não podendo sofrer que no exército onde ele se achava se enxergasse ponto algum de covardia, tanto insistiu neste seu parecer que o imperador deixou de levantar o cerco, como determinava pelo conselho dos outros, e o mandou prosseguir como o infante dizia, o qual militando debaixo da bandeira do imperador, se mostrou soldado digno de tal capitão, e ele se havia por bem-afortunado da milícia de tal soldado, parecendo-lhe que no Conselho tinha um Nestor, e no Exército um Achiles; era aos estrangeiros benigno, aos naturais afável, e com todos geralmente liberalíssimo, pelo que de todos era amado, e de todos louvado.

Nunca casou nem teve filhos, mais que um natural, que foi o senhor d. Antônio, o qual, por não ser legítimo, não foi rei de Portugal, posto que em algumas partes do reino chegou a ser levantado por rei.

Também este mesmo ano de mil quinhentos cinqüenta e cinco se recolheu o imperador Carlos Quinto à religião no Convento de S. Jerônimo de Juste, por ser lugar sadio, e acomodado a quem larga o governo, e inquietações do mundo, que ele deixou ao muito católico príncipe d. Felipe seu filho.




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Capítulo V

De outra nau da Índia, que arribou à Bahia


No ano de mil quinhentos cinqüenta e seis mandou el-rei negociar cinco naus para mandar à Índia, de que deu a capitania-mor a d. Luiz Fernandes de Vasconcellos, o qual escolheu a nau Santa Maria da Barca para ir nela; estando todas prestes, e carregadas para dar à vela abriu a nau Capitânia uma água tão grossa, que se ia ao fundo, e acudindo oficiais para lhe darem remédio, não lho puderam dar, por não saberem por onde entrava a água, vendo el-rei, que se ia gastando o tempo, mandou fazer as outras naus à vela, e que aquela se descarregasse, o que se fez já; na nau Capitânia se despejou toda com muita pressa, e se resolveu, e buscou de popa a proa sem lhe poderem dar com a água, e andava um grande burburinho entre os pescadores de Alfama, dizendo que Deus prometia aquilo, porque aquele ano lhes tirara o arcebispo as antigas cerimônias com que festejavam o dia do bem-aventurado São Frei Pedro Gonçalves levando-o às hortas de Enxobregas com muitas folias, cargas de fogaças, e outras mostras de alegria, e de lá o traziam enramado de coentros frescos, e eles todos com capelas ao redor dele cantando, e bailando; chegou esta queixa ao arcebispo, e como era mui amigo deste fidalgo, que andava tristíssimo, por não poder aquele ano fazer viagem; movido também da grande fé, e devoção, que os pescadores, e mareantes tinham ao santo, lhes tornou a conceder licença para que o festejassem como dantes, entretanto não se deixou de buscar a água da nau, e trabalhar com as bombas, e outros vasos em esgotar, ou diminuir a muita que entrava, até que um marinheiro foi dar com o furo de um prego na quilha, que por descuido ficou por pregar, e por calafetar, e só se tapou com o breu, que depois se tirou, e por ali fazia aquela água, a qual se tomou logo com grande alvoroço, e tornou a nau a carregar, porque disseram os oficiais que ainda tinham tempo, e assim deu a vela a dois de maio, e foi seguindo sua derrota, mas na costa de Guiné achou tanta calmaria, que a deteve setenta dias, e tomando parecer sobre o que fariam assentaram que fossem invernar ao Brasil, porque era muito tarde, e logo se fizeram na volta da baía de Todos os Santos, onde chegaram a quatorze de agosto.

O governador d. Duarte da Costa foi logo desembarcar o capitão-mor, e os fidalgos que vinham na nau, que eram Luiz de Mello da Silva, d. Pedro de Almeida, despachado na capitania de Baçaim, d. Filipe de Menezes, d. Paulo de Lima, Nuno de Mendonça, e Henrique de Mendonça seu irmão; Jerônimo Corrêa Barreto, Henrique Moniz Barreto, e outros fidalgos, que agasalhou, banqueteou, e deu pousadas à sua vontade, e o mesmo fez a toda a mais gente da nau, a que deu mantimento todo o tempo que ali esteve.

Seguiu-se o ano de mil quinhentos cinqüenta e sete mui sinalado assim pela morte do imperador Carlos Quinto, que nele morreu na idade de cinqüenta e oito anos e sete meses, renunciando ainda em vida em seu filho Felipe os seus reinos, e em seu irmão Fernando o império, e recolhendo-se em um mosteiro, onde acabou felicissimamente a vida; como pela morte de el-rei d. João, que faleceu em 11 de junho de idade de cinqüenta e cinco, tendo reinado trinta e cinco, e neste ano acabou o seu governo d. Duarte da Costa, e lhe veio sucessor.

Teve d. Duarte da Costa, além de ser grande servidor del-rei, uma virtude singular, que por ser muito importante aos que governam não é bem que se cale, e é que sofria com paciência as murmurações que de si ouvia, tratando mais de emendar-se, que de vingar-se dos murmuradores, como lhe aconteceu uma noite, que andando rondando a cidade ouviu que em casa de um cidadão se estava murmurando dele altissimamente, e depois que ouviu muito lhes disse de fora: Senhores, falem baixo, que os ouve o governador. Conheceram-no eles na fala, e ficaram mui medrosos que os castigaria, mas nunca mais lhes falou nisso, nem lhes mostrou ruim vontade ou semblante.



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