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Capítulo IX

De uma armada de holandeses, que passou pelo Rio de Janeiro para o estreito de Magalhães, e de outra de franceses, que foi carregar de pau-brasil ao Cabo Frio, et coetera


Neste tempo sendo capitão-mor do Rio de Janeiro Constantino de Menelau, que sucedeu a Afonso de Albuquerque, foi aportar à enseada do rio da Marambaia, que dista nove léguas abaixo do Rio de Janeiro, uma armada de seis naus holandesas, cujo general se chamava Jorge: soube-o Martim de Sá, que tinha um engenho ali perto na Tijuca, e entendendo como experimentado que por necessidade de água iam ali, e que haviam de desembarcar com o beneplácito do capitão-mor, a quem escreveu, se foi lá uma noite com doze canoas de gente, em que iriam 300 homens portugueses, e Índios, os quais deixando-as escondidas no rio, se desembarcaram delas, e conjeturando por três batéis, que viram na praia da enseada, que andavam holandeses em terra, como de feito andavam uns à água, outros às frutas, bem descuidados, os cercaram, e deram sobre eles tão subitamente, que ainda que se quiseram defender trinta e seis holandeses que eram, não puderam, antes lhes mataram 22, e cativaram 14 com as lanchas, sem que das naus lhes pudessem valer, porque ficavam longe, e logo se fizeram à vela para seguir sua viagem, que era para o estreito de Magalhães, e por ele ao mar do Sul, e costa do Peru, onde passaram, e meteram no fundo algumas naus, que encontraram, as quais parece que não eram de tão boa madeira, como outras, que depois encontraram de Manilha, que é uma das ilhas Filipinas, com que se combateram também fortemente, mas enfim não as puderam levar, porque segundo me disse um holandês, que se achou presente, e era cirurgião de ofício, era tal a madeira daquelas naus de Manilha, que a passava o pelouro, e logo se serrava o buraco por si mesmo sem ungüentos, nem outra coisa, o que não tinham as suas holandesas, antes lhe meteram duas no fundo, e fugiu uma, e tomaram as outras, cativando a gente, que ficou com vida, metendo-os a rogar nas galés com tanta fome e trabalho, que tomaram antes a morte, segundo este cirurgião dizia.

Os outros, que tomaram no Rio de Janeiro, quisera Martim de Sá tomar a sua conta, para que andassem soltos, e levou para sua casa um chamado Francisco, e o regalou...

N. B.- O resto deste capítulo nono não esta no manuscrito, nem nas emendas; além disto salta deste capítulo para o décimo oitavo, havendo portanto uma falta de oito capítulos: o capítulo décimo oitavo é o seguinte.




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Capítulo XVIII

De como estando provido Henrique Corrêa da Silva por governador do Brasil, não veio; a causa porque; e como veio em seu lugar Diogo de Mendonça Furtado


Tendo d. Luiz de Souza acabado o triênio do seu governo do Brasil, e sua mulher a condessa de Medelim na Corte, que requeria sua ida, proveu Sua Majestade o cargo em Henrique Correa da Silva, que o aceitou de boa vontade, e bom zelo, segundo alcancei algumas vezes que com ele falei em Lisboa, onde me achei naquele tempo, no qual determinou Duarte de Albuquerque Coelho de mandar seu irmão Mathias de Albuquerque a governar a sua capitania: porque os mais governadores, depois que Diogo Botelho a encetou, se vinham ali em direitura, por se não encontrarem em pontos de preeminências, que como são pontos são indivisíveis, e cada um os quer todos para si. Alcançou uma provisão de Sua Majestade, que se notificou ao governador Henrique Correa, para que se viesse em direitura à Bahia sem tocar Pernambuco, e se de arribada, ou de qualquer outro modo lá fosse lhe não obedecessem; ao que ele respondeu que nem a Pernambuco, nem ao Brasil viria, porque não havia de dar homenagem das terras, que não podia ver como estavam fortificadas, e o que haviam mister para serem defendidas, e governadas como convém. Pelo que Sua Majestade, se havia de ser com aquela condição, podia prover o cargo em outrem, como de feito proveu logo em Diogo de Mendonça Furtado, que havia vindo da Índia onde estava casado, e andava requerendo na Corte a satisfação de seus serviços.

Diogo de Mendonça se aprestou o mais breve, que pôde; e porque os desembargadores, que vieram com d. Diogo de Menezes, uns eram mortos, outros idos para o reino com licença de el-rei, e outros lha tinham pedida para se irem, mandou sete com o governador, para que com dois, que cá estavam casados, se inteirasse outra vez a casa, e Tribunal da Relação.

Todos partiram de Lisboa no mês de agosto de 1621, e chegando à altura de Pernambuco, onde os navios, que para lá vinham se apartaram dos da Bahia, mandou o governador a eles um criado chamado Gregório da Silva provido na capitania do Recife, que estava vaga pela ausência de Vicente Campello, posto que Mathias de Albuquerque o admitiu só na capitania da fortaleza de el-rei, separando-lhe a do lugar ou povoação, que ali está, e dando-a a um seu criado, e assim andam já separadas.




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Capítulo XIX

Da chegada do governador Diogo de Mendonça à Bahia, e ida de seu antecessor d. Luiz de Souza para o reino


Em 12 de outubro de 1621, a uma terça-feira, que o vulgo tem por dia aziago, chegou o governador Diogo de Mendonça Furtado, que foi o duodécimo governador do Brasil, à Bahia, e desembarcando foi levado a Sé com acompanhamento solene, e daí a sua casa, donde antes de subir a escada, foi ver o armazém das armas, e pólvora, que estava na sua loja, demonstração de se prezar mais de soldado e capitão, que de outra coisa, e na verdade esta era naquele tempo a mais importante de todas, por se haverem acabado as pazes ou tréguas entre Espanha, e os holandeses, e se esperarem novas guerras nestas partes transmarinas, que estas são sempre as que pagam por nossos pecados, e ainda pelos alheios, e assim é necessário que as ilhas e costas do mar estejam sempre em arma.

Isto parece que proveu o governador Diogo de Mendonça, quando antes que entrasse em casa, e se desenjoasse, e descansasse da viagem, quis ver o armazém de armas. Com seu antecessor enquanto sendo partiu para o reino correu com muita amizade, visitas de cumprimentos, assim em público nas igrejas, como em sua casa, a que d. Luiz respondia como bom cortesão; e aprestando-se os navios, se embarcou em um patacho de Viana, chamado Manja Léguas, por ser bom navio de vela, deixando a todos saudosos com a sua ausência, porque nunca por obra, nem por palavra fez mal algum, e foi mui rico sem tomar o alheio, senão pelo grande cabedal que trouxe seu, e retorno que sempre lhe vinha, antes fez alguns empréstimos, que lhe ficaram devendo, os quais não sei depois como se lhe pagariam.

Fez em seu tempo uma formosa casa contígua com as suas para se fazer nela relação, que até então se fazia em casas de aluguel; e porque um seminário, que el-rei havia mandado fazer com renda para quatro órfãos estudarem, se havia desfeito, pelas casas serem de taipa de terra, e caírem, começou outras de pedra e cal, mas nem por ser obra tão pia, nem por deixar já para ela seis mil cruzados consignados, houve quem lhe pusesse mão até agora, e queira Deus que alguma hora o haja.

Levou d. Luiz em sua companhia Pero Gouvea de Mello, que fora provedor-mor da Fazenda, e o desembargador Francisco da Fonseca Leitão; e tomou de caminho Pernambuco, para ir em companhia da frota, da qual não quis ir por capitão, por ser de navios mercantes, ou por não ter ocasião de entender com Mathias de Albuquerque, capitão-mor de Pernambuco, com quem não estava corrente.




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Capítulo XX

De como Antônio Barreiros, filho do provedor-mor da fazenda, foi por provisão do governador geral Diogo de Mendonça Furtado governar o Maranhão, Bento Maciel o Grão-Pará, e o capitão Luiz Aranha a descobri-lo pelo cabo do Norte por mandado de Sua Majestade


Sabendo Sua Majestade da morte de Jerônimo de Albuquerque, capitão-mor do Maranhão, proveu na capitania com título de governador, independente do governador do Brasil, a d. Diogo de Carcome, espanhol, casado em Lisboa, o qual se deteve tanto tempo em seus requerimentos, e pretensões, ou os ministros de el-rei no despachar, que primeiro o despachou a morte, e morreu em sua casa antes que de Lisboa se partisse. Pelo que o governador determinou prover a serventia, enquanto el-rei não mandava outro, e porque Sua Majestade tinha dado a provedoria-mor de sua fazenda a Antônio Barreiros por seis anos, com condição que se dentro neles fizesse dois engenhos de açúcar no Maranhão lhe faria mercê do ofício por toda a vida; proveu o governador na capitania do dito Maranhão a Antônio Moniz Barreiros, filho do dito provedor, para com o poder do seu cargo melhor poder fazer os engenhos.

Também proveu na do rio das Amazonas a Bento Maciel Parente, por ser morto Jerônimo Fragoso de Albuquerque, que o servia como fica dito, e neste mesmo tempo, que foi no ano do Senhor de mil seiscentos e vinte e três, mandou Sua Majestade o capitão Luiz Aranha de Vasconcelos em uma caravela de Lisboa a descobrir e sondar o dito rio pelo cabo do Norte, por dizerem que por ali podia tirar a sua prata do Potuci, com menos gasto, e para este efeito lhe deu provisão para os capitães de Pernambuco, Rio Grande, Maranhão, e Pará lhe darem tudo o que fosse necessário; em virtude das quais lhe deu Mathias de Albuquerque em Pernambuco uma lancha com 17 soldados, e o piloto Antônio Vicente, mui experimentado naquela navegação, e lhe carregou na caravela oito mil cruzados de diversas sortes de fazendas por conta de Sua Majestade para a fortaleza do Pará, que havia dois anos se não provia com pagas, nem algum socorro, pelo que estava mui necessitada, e André Pereira Timudo, capitão-mor do Rio Grande, lhe deu quatro soldados, dos quais era um Pero Gomes de Gouvea seu alferes, que o capitão Luiz Aranha fez capitão da lancha.

Os outros eram o sargento Sebastião Pereira, Pero Fernandes Godinho, e um carpinteiro, que também foi importante à jornada. Antônio Moniz Barreiros no Maranhão lhe deu quinze soldados, em que entrava um flamengo chamado Nicolau, que os índios haviam tomado no Pará saindo-se de um forte que os holandeses lá tinham, com outros dois, e sete negros de Guiné, a uma roça a plantar tabaco, e era prático naquele grande Rio.

Para o qual se partiram os nossos do Maranhão, e chegaram à fortaleza a 14 de maio da dita era de 1623, onde o capitão dela Bento Maciel, por dizerem que a caravela não poderia navegar contra a corrente do rio, lhes deu outra lancha, e algumas canoas de índios, e lhes dava também trinta soldados brancos com seu capitão sinalado, que Luiz Aranha não quis aceitar, por querer ser ele o que lho sinalasse, dizendo que Sua Majestade lhe mandava dar soldados, e não capitães; mas contentou-se com os índios, e com o comissário que ali estava da nossa ordem e província frei Antônio da Merciana lhe dar o irmão frei Cristóvão de São José por capelão desta jornada, o qual era tão respeitado dos índios, que em poucos dias de navegação pelo rio acima lhe ajuntou quarenta canoas com mais de mil flecheiros amigos, que de boa vontade seguiram ao capitão, movidos também das muitas dádivas, que ele dava aos principais, e a outros, que lhe traziam suas ofertas de caça, frutas, e legumes, as quais não aceitava sem pagar-lhes com ferramentas, velório, pentes, espelhos, anzóis, e outras coisas, dizendo que assim lho mandava el-rei.

Com esta multidão de índios, e os poucos soldados brancos, que havia trazido das outras capitanias, seguiu sua viagem, nem sem algumas grandes tormentas, principalmente uma com que lhe quebrou o leme da lancha maior, e os obrigou a tomar terra, onde o carpinteiro, que havia trazido do Rio Grande, fez outro de um madeiro, que cortaram, com o qual, posto que as fêmeas eram de cordas, e era necessário renová-las cada três dias, todavia governava muito bem, e assim foram todos navegando até certa paragem, onde o flamengo Nicolau, que traziam do Maranhão, lhes disse que estava perto um forte de holandeses, os quais não esperando que os nossos chegassem, mandaram mais de setecentos índios seus confederados a salteá-los no rio, como fizeram à meia-noite, e se travou entre uns e outros uma batalha, que durou duas horas, mas foi Deus servido de dar aos nossos vitória com morte de 200 contrários, fora 30 que tomaram vivos em duas canoas, dos quais se soube haver seis ou sete que eram amigos, e compadres dos holandeses por dádivas, que deles recebiam, quando vinham navios de Holanda, mas que naquela ocasião nenhum estava no porto, nem havia na fortaleza mais de trinta soldados, e alguns escravos de Guiné, com quem lavravam tabaco.

Ouvido isto pelo capitão mandou remar até se porém leste a oeste com o forte, e em amanhecendo mandou lá um soldado em uma canoa pequena, que remavam quatro remeiros, e sua bandeira branca, a dizer que se entregassem dentro de uma hora primeira, senão que os poria todos a cutelo, porque assim lho mandava o seu rei de Espanha, cujas eram aquelas terras e conquistas.

Ao que responderam que aquela fortaleza era, e se sustentava pelo conde Maurício, pelo que se não podiam entregar sem ordem sua, e para esta vir era pouco tempo o que lhes dava.

Mas depois se soube que o seu intento não era este, senão esperar que lhe viesse socorro de outra fortaleza, que distava desta 10 léguas, do que tudo se desenganaram com lhe responder Luiz Aranha que ele tinha já ordem, que havia de seguir, e não tinha que aguardar outra, e mais quando a vantagem dos seus soldados era tão conhecida, e porque assim o cuidassem mandou pôr entre os brancos, assim nas lanchas como nas canoas, muitos índios com roupetas, chapéus, ou carapuças, com que ao longe pareciam todos brancos, e bastou este ardil, e outros de que usou, para que logo levantassem bandeira de paz, e se entregassem com a artilharia, mosquetes, arcabuzes, munições, escravos, e fazendas, que tinham na fortaleza, a qual os nossos queimaram, e arrasaram; e o dia seguinte, querendo ir dar em outra fortaleza, mandou uma canoa com 40 romeiros todos índios flecheiros, e três homens brancos muito animosos, que eram Pero da Costa, Jerônimo Correa de Sequeira, e Antônio Teixeira, a descobrir o caminho, aos quais saíram 12 canoas de gentio contrário, chamados Haruans, e tomando a nossa em meio sem quererem admitir a paz, e amizade, que lhes denunciavam, começaram a disparar muita flecharia, os nossos já como desesperados da vida, porque não podiam ser socorridos tão bem depressa dos mais, que ficavam longe, encomendando-se a Deus, se defenderam, e pelejaram tão animosamente, que já quando chegaram os companheiros tinham mortos muitos, e muitos mais se mataram depois da sua chegada, e socorro, e se tomaram quatro canoas de cativos, sem dos nossos morrerem mais de sete, mas ficaram 25 feridos, e Jerônimo Correa de Sequeira com duas flechadas, uma no peito, outra em uma perna, de que esteve mal, e ficou assim ele, como os dois companheiros, que iam na primeira canoa, com as mãos tão empoladas da quentura dos canos dos arcabuzes, que mais de 20 dias não puderam pegar em coisa alguma, porque cada um deles disparou mais de 40 tiros.

Curados os feridos, e descansando do trabalho da peleja aquela noite, na manhã seguinte mandou um capitão um cabo de esquadra com recado aos holandeses que se entregassem, porque assim o haviam feito os da outra fortaleza de Muturu / que era o nome do primeiro sítio /, e ali os traziam consigo, do que certificados por um que lá lhe mandou, se vieram a entregar assim as pessoas, que eram 35, como toda a fábrica da fortaleza, artilharia, escravos, e o mais que nela tinham.

Aqui perguntou o capitão aos holandeses se havia mais alguma fortaleza, ou estância de gente da sua nação naquele rio, e certificado que não, senão duas de ingleses, e essas lhe ficavam já abaixo, se tornou à nossa fortaleza do Pará; e não achando nela o capitão Bento Maciel, que o havia ido buscar para o ajudar, se embarcou em sua caravela, e foi pela banda do norte da Barra Grande outra vez ao rio arriba até o achar, depois de ter navegado um mês por entre um labirinto de ilhas, e ao dia seguinte, depois de estarem juntos, viram vir um nau, e surgir uma légua donde estavam, à qual foi Bento Maciel com quatro canoas ao socairo da caravela em que ia Luiz Aranha, para remeterem à nau, e pondo-se debaixo dela a desfazerem, o que se não pôde fazer com tanta presteza, que primeiro não alcançassem da nau com um pelouro de oito libras a uma canoa, com que nos mataram sete homens brancos, e feriram 20 negros, porém as outras se meteram debaixo do bojo da nau, e vendo que a não queriam dar a furaram ao lume da água com machados, com que se foi a pique, e sobre isto puseram os inimigos ainda fogo à pólvora, para que nenhuma coisa escapasse, e contudo escaparam algumas pipas de vinho, e cerveja, barris de queijos, e manteiga, e uma caixa grande de botica, de que os nossos se aproveitaram; porém os holandeses, que eram cento e vinte cinco, todos foram mortos a fogo e a ferro.

Com estas vitórias e boas informações do grande rio das Amazonas, que sempre o piloto Antônio Vicente foi sondando, se partiu Luiz Aranha de Vasconcelos, na sua caravela, a dar a nova a el-rei, levando por testemunhas quatro dos holandeses, que havia tomado, e um índio principal, que o havia guiado, e também alguns escravos, para de caminho vender nas Índias, donde se partiu em companhia da frota da prata, mas apartando-se dela junto a Belmuda (sic), daí a 15 dias foi tomado dos corsários holandeses, os quais por irem muitos doentes das gengivas, a que chamam mal de Luanda, o lançaram em um pequeno bote com quatro marinheiros portugueses na Iliceira, para que lhe fossem buscar alguns limões, e outra embarcação mais capaz em que levassem os companheiros, e por não tornarem / coisa mui ordinária de quem se vê livre / levaram os mais cativos a Salé, donde saíram por resgate, exceto o índio, e os quatro holandeses, que levaram livres à Holanda.




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Capítulo XXI

Das fortificações, e outras boas obras, que fez o governador Diogo de Mendonça Furtado na Bahia, e dúvidas, que houve entre eles e o bispo, e outras pessoas


Era o governador Diogo de Mendonça Furtado, liberal, e gastava muito em esmolas. Acrescentou a igreja de S. Bento, que lhe custou dois mil cruzados, e a todos os mais mosteiros ajudou, e fez as esmolas que pôde. Fortificou a cidade, cercando-a pela parte da terra de vala de torrões; e porque a casa que servia de armazém, junto a da alfândega, estava caída, começou a fazer outra no cabo da sua, para que o alto lhe ficasse servindo de galeria, e o baixo de armazém, como tudo se fez com muita perfeição, posto que a outros não pareceu bem depois o armazém, por não ser boa tanta vizinhança com a pólvora.

Também começou a fazer a fortaleza do porto em um recife, que fica um pouco apartado da praia, havendo provisão de Sua Majestade para se fazer não só da imposição do vinho, que estava posta nesta Bahia, mas também da de Pernambuco, e Rio de Janeiro, e que do dinheiro que recebem os mestres, não dos fretes, senão de outro, que eles introduziram chamado de avarias, que ordinariamente são duas patacas por caixa, desse quatro vinténs cada um para a obra da fortaleza, que não deixou de ser contrariada de alguns, porém realmente era mui necessária para defensão do porto, e dos navios que ali surgem à sombra dela, e de que não se pôde tirar o louvor também ao arquiteto Francisco de Frias, que a traçou.

Um dos contraditores, que houve da fortaleza sobredita, foi o bispo d. Marcos Teixeira, o qual sendo rogado que quisesse ir benzer a primeira pedra, que se lançou no cimento do forte, não quis ir, dizendo que se lá fosse seria antes amaldiçoá-la, pois fazendo-se o dito forte cessaria a obra da Sé, que se fazia do dinheiro da imposição; mas não foi este o mal, que o governador lhe reservou seis mil cruzados para correr a obra da Sé, senão que do dia, que chegou o bispo a esta cidade, que foi a 8 de dezembro de 1622, desconcordaram estas cabeças, não querendo o governador achar-se no ato do recebimento, e entrada do bispo, senão se houvesse de ir debaixo do pálio praticando com ele, no que o bispo não quis consentir, dizendo que havia de ir revestido da capa de asperges, mitra e báculo, lançando bênçãos ao povo, como manda o cerimonial romano, e não era decente ir praticando.

Por isto não foi o governador, mas mandou o chanceler, e desembargadores, e depois o foi visitar à casa, e se visitaram pessoalmente, e de presentes muitas vezes. Logo se levantou outra dúvida acerca dos lugares da igreja, querendo o governador que também se assentassem ambos de uma parte, e ali estivessem ambos conversando, ao que o bispo respondeu não podia ser conforme ao mesmo cerimonial, por razão dos círculos e outras cerimônias, que mandam se façam com ele nas missas solenes; e nem isto bastou, nem uma sentença, e provisão de el-rei, que lhe mandou mostrar, em que por evitar dúvidas / quais as houve entre o governador e bispo de Cabo Verde / declara para os do Brasil, e todos os mais, que o governador se assente à parte da epístola, e primeiro se incensasse o bispo, e depois o governador.

Nem isto bastou, antes respondeu que se ele se achasse em alguma igreja com o bispo, se cumprisse o que o cerimonial, e el-rei manda, fundado em que nunca iria onde o outro fosse, e assim o cumpriu.

Os desembargadores, que não podiam contender com ele sobre o lugar material da igreja, contenderam sobre o espiritual, e jurisdição que tem para a correição dos vícios, e neste tempo mais que em nenhum outro, porque lhe tiraram de um navio dois homens casados, que mandou fazer vida com suas mulheres a Portugal, por estarem cá abarregados com outras havia muito tempo, e isto sem os homens agravarem, antes requerendo que os deixassem ir, pois já estavam embarcados; pelo que o bispo excomungou o procurador da Coroa, que foi o autor disto, e houve sobre o caso muitos debates, enfim estas eram as guerras civis, que havia entre as cabeças, e não eram menos as que havia entre os cidadãos, prognóstico certo da dissolução da cidade, pois o disse a suma verdade, Cristo Senhor Nosso, que todo o reino onde as houvesse, entre os naturais e moradores, seria assolado e destruído.

Outro prognóstico houve também, que foi arruinarem-se as casas de el-rei, em que o governador morava, de tal maneira, que se as não sustentaram com espeques, se vieram todas ao chão, sendo assim que eram de pedra e cal, fortes, e antigas, sem nunca até este tempo fazerem alguma ruína.




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Capítulo XXII

De como os holandeses tomaram a Bahia


A 21 de dezembro de 1623 partiu de Holanda uma armada de vinte e seis naus grandes, treze do estado, e treze fretadas de mercadores, da qual avisou Sua Majestade ao governador Diogo de Mendonça que se apercebesse na Bahia, e avisasse os capitães das outras capitanias fizessem o mesmo, porque se dizia virem sobre o Brasil. O governador avisou logo a Martim de Sá, capitão-mor do Rio de Janeiro, o qual entrincheirou toda a cidade, concertou a fortaleza da barra, e fez ir os homens do recôncavo para os repartir por suas estâncias, companhias e bandeiras e porque muitos não apareciam, por andarem descalços, e não terem com que lançar librés, ordenou uma companhia de descalços, de que ele quis ser o capitão, e assim ia diante deles nos alardos descalço, e com umas ceroulas de linho, e o seguiam com tanta confiança, e presunção de suas pessoas, que não davam vantagem aos que nas outras companhias militavam ricamente vestidos, e calçados.

Sem esta, foram muitas as preparações de guerra, que fez Martim de Sá nesta ocasião. As mesmas fariam nas outras capitanias / que a todas se deu aviso, até o rio da Prata /, mas faço menção do Rio de Janeiro como testemunha de vista, porque ainda então lá estava. Da mesma maneira se apercebeu o governador nesta Bahia, mandando vir toda a gente do recôncavo; e por alguns se não tornassem logo por serem pobres, e não terem que comer na cidade, mandou a um mercador seu privado que desse a cada um desses três vinténs para cada dia, por sua conta; porém como não haja moeda de três vinténs, dizia-lhes que levassem um tostão, e lhes daria uma de oito vinténs, e se os pobres lhe levavam o tostão, lhes dizia que o gastassem primeiro, e depois lhe daria os três vinténs, porque o governador lhos não mandava dar senão aos pobres, que nenhuma coisa tinham, nem lhes aproveitava replicar que haviam pedido o tostão emprestado, e que não era seu, nem outra alguma razão que dessem.

Não se passaram muitos dias, quando vieram ao governador novas de Baepeba, que andava lá uma nau grande, a qual tomara um navio, que vinha de Angola com negros. Quis sair ou mandar a ela, cuidando que não seria da armada, porque passava de quatro meses era partida de Holanda, e se entendia haveria aportado em outra parte: e esta era a nau Holanda, em que vinha o coronel para governar a terra, chamado d. João Vandort, a qual não pôde tomar a ilha de S. Vicente, que é uma das de Cabo Verde, onde as outras naus se detiveram dez semanas a tomar água, e carnes, e levantar oito chalupas, que traziam em peças; e por esta causa chegou primeiro a esta costa, e andava aos bordos dos Ilhéus para o morro, esperando as mais para entrar com elas, o que não fez, porque não as viu quando entraram, que foi a 9 de maio da era de 1624; mas vistas pelo governador Diogo de Mendonça repartiu logo as estâncias pelos capitães, e gente das freguesias de fora, que ainda aqui estavam, e da cidade; e deixando a companhia de. seu filho, que era de soldados pagos, e recebiam soldo da fazenda de el-rei, para acudir, aonde fosse necessário, mandou a outra companhia com seu capitão Gonçalo Bezerra ao porto da Vila Velha, que é meia légua da cidade; e o escrivão da Câmera Rui Carvalho com mais de cem arcabuzeiros do povo, além de sessenta índios flecheiros de Afonso Rodrigues, da Cachoeira, que os capitaneava.

Fez a Lourenço de Brito capitão dos aventureiros, e a Vasco Carneiro encomendou a fortaleza nova, da qual posto que não acabada jogava já alguma artilharia. Não trato das outras estâncias, porque só nestas duas partes desembarcaram os holandeses aquela mesma tarde.

Os do porto da Vila Velha estavam com os seus arcabuzes feitos detrás do mato, para os dispararem ao desembarcar dos batéis; porém vendo ser muito maior o número dos inimigos não os quiseram esperar, quis detê-los Francisco de Barros na Vila Velha animando-os, ainda que velho e aleijado, mas iam tão resolutos, que nem bastou esta adamoestação, nem outra que lhe fez o padre Jerônimo Peixoto, pregador da companhia, o qual os foi esperar a cavalo, dizendo-lhes porque fugiam, pois tinham por todo aquele caminho de uma parte e de outra matos donde se podiam embrenhar, e a seu salvo fazer a sua batalha sem os inimigos saberem donde lhes vinham.

Nada disto bastou para tirar-lhes o medo, que traziam, antes como mal contagioso o vieram pegar aos da cidade, ou lho tinham já pegado os primeiros núncios, pois de quanta gente estava nela não houve outro socorro que saísse senão um padre pregador, que então pregava em deserto, e todavia se fora um socorro, que lançaram duas mangas de gente por entre o mato, e rebentaram das encruzilhadas, que há no caminho, ainda que os holandeses eram mil e duzentos, não lhes deixaram de fazer muito dano.

Melhor o fizeram os da fortaleza nova, a qual o almirante Petre Petrijans (sic), ou como os portugueses lhe chamamos Pero Peres, com o resto da sua soldadesca valorosamente combateu, e não com menos valor, e ânimo lha defendeu Vasco Carneiro, e Antônio de Mendonça, que o ajudou com mui poucos dos seus soldados, que já os mais lhe haviam fugido; também os socorreu com muito ânimo Lourenço de Brito, capitão dos aventureiros, porém como eram muitos os holandeses, e o forte não estava acabado, nem com os reparos necessários, foi forçado largar-lho, estando já Lourenço de Brito ferido, e treze homens mortos, sendo dos últimos que se saiu o nosso irmão frei Gaspar do Salvador, que os esteve exortando, e confessando, e quando se abaixou para entender o que lhe dizia um castelhano, a quem um pelouro havia levado uma perna, o livrou Deus de outro, que lhe passou por cima da cabeça, havendo-lhe já outro levado um pedaço de túnica: e os holandeses por ser já noite, e se temerem que os rebatessem da parte de terra se contentaram só com cravar as peças de artilharia, e o deixaram, tornando-se para as suas naus, não deixando delas de dia nem de noite de esbombardear para a cidade, e para toda a praia, na qual mataram a Pero Garcia no seu balcão, onde se pôs com seus criados, e chegando o governador a perguntar-lhe como estava / porque andava ele naquele (sic) doente / lhe respondeu «Senhor, já estou bom, que neste tempo os enfermos saram, e tiram forças da fraqueza», ânimo por certo, a que os próprios inimigos deveram ter respeito, e assim depois que o souberam, mostraram pesar, pondo a culpa à diabólica arma do fogo, que aos mais valentes mata primeiro, e como raio onde mais fortaleza acha faz mais dano.

O pelouro lhe deu pelas queixadas, e ainda lhe deu lugar a se confessar, e de se reconciliar com alguns seus inimigos, que ali se acharam. um dos quais era Henrique Álvares, a quem também outro pelouro matou pouco depois. Os mais que haviam desembarcado na Vila Velha se alojaram aquela noite em S. Bento, para combaterem no dia seguinte a cidade, na qual o governador determinou de se defender, mas como se não pôs em um cavalo correndo, e discorrendo por toda a cidade que não lhe fugisse a gente, todos se foram saindo: o que não podia ser sem que os capitães das portas, e mais saídas da cidade fossem os primeiros; e o bispo, que aquele dia se fez amigo com o governador, e se lhe foi oferecer com uma companhia de clérigos, e seus criados, pedindo estância onde estivesse, e a quem o governador agradecendo-lhe muito o oferecimento disse que em nenhuma parte podia estar melhor que na sua Sé, também a desamparou, consumindo o Santíssimo Sacramento, e deixando a prata e ornamentos, e tudo o mais, o mesmo fizeram clérigos e frades e seculares, que só trataram de livrar as pessoas, e algumas coisas manuais, deixando as casas com o mais, que tinham adquirido em muitos anos: tanto pôde o receio de perder a vida, e enfim se perde tarde ou cedo, e às vezes em ocasião de menos honra.




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Capítulo XXIII

De como o governador Diogo de Mendonça foi preso dos holandeses, e o seu coronel d. João Vandort ficou governando a cidade


O governador vendo que a gente era toda fugida, ainda que não faltou quem lhe dissesse que fizesse o mesmo, respondeu que nunca lhe estava bem dizer-se dele que fugira, e antes se poria o fogo, e se abrasaria, e vendo passar dois religiosos nossos pela praça os chamou, e confessando-se com um deles se recolheu dentro de sua casa só com seu filho Antônio de Mendonça, Lourenço de Brito, o sargento-mor Francisco de Almeida de Brito, e Pero Casqueiro da Rocha.

Pela manhã chegaram os holandeses à porta da cidade, e a outras entradas, que ficam daquela parte de S. Bento, onde se haviam alojado de noite, e não achando quem lho contradissesse, entraram, e tomaram dela posse pacífica, subiram alguns à casa do governador, que neste tempo quis pôr fogo a uns barris de pólvora para abrasar-se, se Pero Casqueiro lhe não tirara o morrão da mão, e vendo-os entrar levou da espada, e remeteu a eles, mas enfim o prenderam, e aos que com ele estavam, e os repartiram pelas naus.

Daí a dois dias chegou o coronel d. João Vandort, que como dissemos no capítulo passado não havia entrado com os mais, e começou a governar as coisas da terra, porque o general, que era um homem velho chamado Jacob Vilguis, nunca, ou rarissimamente saiu da nau: o coronel era homem pacífico, e se mostrava pesaroso do dano feito aos portugueses, e desejoso da sua paz e amizade, e assim aos que quiseram tornar passou passaportes, e lhes mandou dar quanto quiseram, não sem os seus lho estranharem, porque segundo o princípio que levava lhe houveram de levar tudo; porém a não serem os portugueses tão firmes na fé da Santa Igreja Católica Romana, e tão leais aos seus reis como são, não lhes fizera menos guerra com estas dádivas, sujeitando os ânimos dos que as recebiam, do que os seus a faziam por outra parte com as armas, tomando quanto podiam pelas roças circunvizinhas da cidade, e isto com tanto atrevimento como se foram senhores de tudo, e assim se atreveram só três ou quatro a ir ao tanque dos padres da companhia, que dista da cidade um terço de légua, e em sua presença falando-lhes um deles latim, e dizendo-lhes: «Quid existimabatis quando vidisti classem nostram»; fazendo dos calções alforjes, e enchendo-os de prata da igreja, e de outra que ali acharam, os puseram aos ombros, e se foram mui contentes; porém quatro negros dos padres, que não tinham tanta paciência, os foram aguardar ao caminho com seus arcos e flechas, e matando o latino, fizeram fugir os outros, e largar a prata que levavam.

Da mesma maneira foram onde a várzea de Tapuípe, que dista pouco mais de meia légua, e mataram uma vaca, mas estando esfolando-a deu sobre eles Francisco de Castro, George de Aguiar, e outros cinco homens brancos, e doze índios, e mataram cinco dos holandeses, e logo chegou também Manuel Gonçalves, e seguindo os outros que fugiam matou quatro, e feriu dois feridos, que levaram a nova, deixando a vaca morta e esfolada aos índios, que a comeram, e as suas armas aos nossos soldados.

Nem só andavam os holandeses insolentes por estes caminhos, mas muito mais os negros, que se meteram com eles, entre os quais houve um escravo de um serralheiro que prendeu seu senhor na roça de Pero Garcia, onde se havia acolhido, e depois de o esbofetear, dizendo-lhe que já não era seu senhor, senão seu escravo, não contente só com isto lhe cortou a cabeça, ajudado de outros negros, e de quatro holandeses, e a levou ao coronel, o qual lhe deu duas patacas, e o mandou logo enforcar, que quem fizera aquilo a seu senhor, também o faria a ele se pudesse.

Melhor o fez outro negro, que nos servia na horta, chamado Bastião, o qual também se meteu com os holandeses, mas porque lhe quiseram tomar um facão, que levava na cinta, e o ameaçaram que o enforcariam, se saiu da cidade com outros dois ou três negros, os quais encontraram à fonte nova, que é logo a saída, seis holandeses, que lhe começaram a buscar as algibeiras, mas como o Bastião levava ainda o seu facão, temendo-se que se lho vissem o quereriam outra vez enforcar, o escondeu no peito de um, e matando-o lançou a correr pelo caminho, que vai para o rio Vermelho, onde encontrou uns criados de Antônio Cardoso de Barros, os quais informados do caso fingiram também que fugiam com o negro, e se foram todos embrenhar adiante, donde depois que os holandeses passaram lhes saíram nas costas, e os foram levando até um lameiro, e atoleiro, onde mataram quatro, e cativaram um, e será bem saber-se para glória dos valentes, que o era tanto um dos mortos homem já velho, que metido no atoleiro quase até a cinta ali aguardava as flechas tão destramente com a espada, que todas as desviava, e cortava no ar, o que visto por Bastião se meteu também no lodo, e lhe deu com um pau nos braços, atormentando-lhos de modo que não pôde mais manear a espada.




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Capítulo XXIV

De como o bispo foi eleito do povo por seu capitão-mor enquanto se avisava a Pernambuco a Mathias de Albuquerque, que era governador


Tanto que a cidade foi tomada, e o governador preso, se juntaram daí a alguns dias os oficiais da Câmera na aldeia do Espírito Santo, que é de índios doutrinados dos padres da companhia, e ali abriram a via de sucessão do governador Diogo de Mendonça, em que Sua Majestade mandava que por sua morte ou ausência lhe sucederia no governo Mathias de Albuquerque, que atualmente estava governando Pernambuco por seu irmão Duarte de Albuquerque Coelho, senhor daquela terra, do que logo avisaram, mas porque a distância é grande, e de ida e vinda são mais de 200 léguas de caminho, e os holandeses não contentes com estarem senhores da cidade, se queriam assenhorear do que havia fora, como vimos no precedente capítulo, elegeu o povo, e aclamou por seu capitão-mor, que os governasse o bispo d. Marcos Teixeira, o qual a primeira coisa que intentou foi recuperar a cidade se pudesse, e para este efeito nomeou por coronéis a Lourenço Cavalcanti de Albuquerque, e a Melchior Brandão, e escrever a muitos homens que já estavam todos em seus engenhos, e fazendas, e como os teve juntos determinou entrar na cidade no dia do bem-aventurado Santo Antônio, de madrugada, e porque no mosteiro do Carmo, que está fora defronte dela, se haviam agasalhado dois portugueses com suas mulheres e família, se murmurava deles que serviam de espias aos holandeses, e lhes davam sinal, e aviso com o sino; para que então lho não dessem mandou diante Francisco Dias de Ávila com índios flecheiros e alguns arcabuzeiros que os prendessem, o que os índios fizeram com tanta desordem, que antes eles foram os que deram aviso e sinal, porque em chegando ao dito mosteiro, e não lhes querendo os de dentro abrir, entraram por força, dando um urro de vozes tão grande, que ouvido pelos holandeses, tiveram tempo de se aperceber, de sorte que quando os quiseram cometer, que era já sol saído, e vieram descendo a ladeira do Carmo, e alguns já subindo a da cidade para entrarem pela porta onde estava uma fortaleza, lhe tiraram dela tantas bombardadas, e mosquetadas, que os fizeram tornar por onde vieram, e ainda os foram seguindo um grande espaço, sendo que eram os portugueses mais em número, e se se dividiram em algumas mangas, que cometessem juntamente por outras partes da cidade, que ainda não estavam fortificadas, porventura a recuperaram.

E porque até este tempo entravam e saíam alguns portugueses na cidade com passaporte do coronel, houve licença Lourenço de Brito para ir visitar a Diogo de Mendonça a nau, e concertou com ele que lhe mandaria uma jangada, e outra para seu filho. Antônio de Mendonça, com dois índios remeiros, que de noite mui secretamente os levassem à terra, como de feito mandou, e estando já para descerem a elas deu o urro, que temos dito no Carmo, com que espertaram os da nau, que lha estorvaram, e os das jangadas se acolheram mui ligeiramente para a terra, não sem serem sentidos dos holandeses, que daí por diante entendendo o que podia ser nela, e nas mais, puseram grandessíssima vigia, e os dos passaportes, com temor que os holandeses se alterassem com estas contas, se saíram da cidade sem tornarem mais a ela, só ficaram dois ou três mercadores casados por conservarem sua fazenda, com outros tantos oficiais mecânicos, e alguns pobres velhos, e enfermos, que por sua pobreza e enfermidade não puderam sair.




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Capítulo XXV

De como foi morto o coronel dos holandeses d. João Vandort, e lhe sucedeu Alberto Escutis, e o bispo assentou o seu arraial, e estâncias para os assaltar


Desta desordenada vinda, e cometimento da cidade ficaram os nossos portugueses desenganados de mais poderem cometer; mas ordenou o bispo que andassem ao redor dela pelos matos algumas companhias, porque quando alguns holandeses saíssem fora como costumavam, ou os negros de Guiné, que com eles se haviam metido a buscar frutas, e mantimentos pelos pomares, e roças circunvizinhas, os prendessem, sucedeu ser o coronel o primeiro que saiu a cavalo a ver a fortaleza de S. Filipe, que dista uma légua da cidade, e à tornada se adiantou dos holandeses, e negros, que trazia em sua guarda, levando só em sua companhia um trombeta em outro cavalo, onde lhes saiu Francisco de Padilha com Francisco Ribeiro, seu primo, cada um com a sua escopeta, e acertando melhor os tiros que acertou o coronel com um pistolete, que disparou, lhes mataram os cavalos, e depois de os verem derribados, e com os pés ainda nos estribos debaixo dos cavalos, matou o Padilha ao coronel, e o Ribeiro ao trombeta, e logo chegaram os índios selvagens de Afonso Rodrigues da Cachoeira, que ali andavam perto, e cortando-lhes os pés e mãos e cabeças, conforme o seu gentílico costume, e os deixaram, donde os holandeses levaram o corpo do seu coronel, e o dia seguinte o enterraram na Sé com a pompa, que costumam, muito diferente da nossa, porque não levaram cruzes, música, nem água benta, senão o corpo em um caixão coberto de baeta de dó.

Os capitães, que o levaram aos ombros, e um filho do defunto, um cavalo à destra, que também ia, e as caixas, que se tocaram destemperadas, tudo isto ia coberto de dó, e adiante as companhias, todos dos mosqueteiros, com os mosquetes debaixo do braço, e as forquilhas arrastando, os quais, entrando na igreja o defunto, se ficaram de fora ao redor dela, e ao tempo que o enterraram, os dispararam todos três vezes, não se metendo entre uma surriada e outra mais espaço que enquanto carregam, o que fazem com muita ligeireza; e logo deixadas as armas do defunto penduradas em um pilar dos da igreja junto à sua sepultura, se tornaram à sua casa, onde antes de entrarem se leu a via do sucessor, que era Alberto Escutis, o qual já quando se tomou a cidade havia servido o cargo dois dias, que estoutro tardou, e lido o papel se fez pergunta aos capitães e soldados se o reconheciam por seu coronel, e governador, para lhe obedecerem em tudo o que lhes mandasse, e respondido que sim os despediu, feitas suas cortesias, e se recolheu com os do Conselho, e alguns, e porque de todo os portuguêses perdessem as esperanças de poderem recuperar a cidade, a cercou, e fortificou por todas as partes represando o ribeiro, que corre ao longo dela pela banda da terra, com que cresceu a água sobre as hortas, que por ali havia, muitos palmos, e assim por esta banda como pela do mar fez muitos baluartes, e fortes de artilharia.

O bispo também assentou seu arraial uma légua da cidade, no chão de um monte a que se não podia subir senão por três partes, nas quais mandou fazer três trincheiras com suas peças, e duas roqueiras cada uma, e a que estava para a banda da cidade, entregue ao coronel Melchior Brandão com a gente de Paraguaçu, a outra, que estava para Tapuípe, ao capitão Pero Coelho, e a terceira, por onde se servia para o sertão, ao capitão Diogo Moniz Teles, e o corpo da guarda se fazia junto à tenda, ou casa palhaça do capitão-mor pelos soldados do presídio, e outros, que seriam todos duzentos.

A este arraial se trazia a vender carne, peixe, frutas, farinhas, e o mais que havia por todo o recôncavo, e algum pouco vinho, e azeite, que se trazia de Pernambuco em barcos até a terra de Francisco Dias de Ávila, e daí por terra ao arraial, fora do qual havia também outras estâncias para os capitães dos assaltos, convém a saber, em Tapegipe defronte da fortaleza de S. Filipe, que ocupavam os holandeses, estava uma trincheira com duas peças de bronze, onde assistiam os capitães Vasco Carneiro, e Gabriel da Costa com uma companhia do presídio com quarenta soldados, e não muito longe desta estava outra em outro caminho com cinco falcões, e duas roqueiras, em que assistiam os capitães Manuel Gonçalves, e Luiz Pereira de Aguiar, e Jorge de Aguiar, e junto ao mar, e porto outra, donde estava o capitão Jordão de Salazar da ermida de S. Pedro, para a vigia estavam os capitães Francisco de Castro, e Agostinho de Paredes com sessenta homens da vigia. Para o Rio Vermelho com quarenta homens na roça de Gaspar de Almeida, Francisco de Padilha, e Luiz de Siqueira.

Fora estes foram também capitães em alguns assaltos Pero de Campos, Diogo Mendes Barradas, Antônio Freire, e outros; os cabos destes capitães dos assaltos eram da banda do norte da cidade, onde fica o mosteiro de Nossa Senhora do Carmo, Manuel Gonçalves, e da banda do sul, onde fica o de S. Bento, Francisco de Padilha; posto que sempre se ajudavam uns aos outros, quando a necessidade o requeria, e Lourenço de Brito como capitão dos aventureiros acudia a todas as partes.




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Capítulo XXVI

Dos assaltos, que se deram enquanto governou o bispo


Ordenadas as coisas pelo bispo, na maneira que fica dito, sabendo os capitães Francisco de Padilha, e Jorge de Aguiar, que os holandeses faziam poste na casa de Cristóvão Vieira, escrivão dos agravos, a qual está um pouco mais de um tiro de pedra fora do muro, e porta da cidade, entraram nela uma noite com mais dez companheiros, e à espada mataram quatro holandeses, pelo que depois derribaram e puseram fogo à casa, e a todas as mais que havia nos arrebaldes, e roçaram os matos, que lhe podiam ser impedimento, e aos portugueses abrigo, mas sobre este roçar de matos, e derribar casas houve alguns encontros, em que os capitães Lourenço de Brito, e Antônio Machado com a sua gente mataram uma vez quatro, e por outra o mesmo Lourenço de Brito, e Luiz de Siqueira mataram muitos, e aqui testificou o capitão Lourenço de Brito do negro Bastião, de que atrás fizemos menção, que se adiantou a todos dizendo, que a sua flecha não chegava tão longe como o pelouro dos arcabuzes, e assim lhe era necessário para empregá-la nos inimigos chegar-se mais perto deles, o que também fez em outros encontros, e uma vez andando já com eles à espada, dizendo-lhes os nossos negros que se retirasse, respondeu «Não retira, não, sipanta, sipanta», querendo nisto dizer que não era tempo de retirar quando andavam já à espada; porque tinha experimentado dos holandeses que não eram tão destros nesta arma, como nas de fogo, e assim vindo à espada tinha já o pleito por vencido; outros holandeses foram até a casa de Jorge de Magalhães, que dista mais de uma légua da cidade, queimando as que havia pelo caminho, e roubando quanto achavam; porque os moradores se saíam fugindo para os matos, e a uma mulher, que não pôde fugir, quiseram romper as orelhas para lhe tirarem os cercilhos, e pendentes de ouro, se ela não lhos dera, e ainda fizeram outras coisas piores se não acudira Francisco de Padilha com a sua gente, o qual matou quatro, e foi seguindo os mais, que lhe fugiram até o Rio Vermelho; outra vez foram muitos ao pomar de Diogo Sodré, que se chama da vigia, porque dali a fazem aos navios que aparecem na costa, e se dá aviso na cidade antes que entrem na barra, e levaram muitos negros consigo dos seus confederados para carregarem de laranjas, limas doces, limões, e cidras, que há ali muitas, mas saíram-lhe os capitães Antônio Machado, e Antônio de Moraes com 50 homens cada um, e depois de batalharem animosamente, e lhes matarem nove holandeses, todavia se retiraram com dois portugueses mortos, e alguns feridos; mas a este tempo acudiu o capitão Padilha com 20 soldados seus, e indo após eles, que já se iam para a cidade, lhe fizeram rosto, e se tornou a travar outra batalha, a que tornaram os dois primeiros capitães, que se haviam retirado, e os foram levando até terem vista do socorro, que ia aos holandeses, que então os deixaram, por não terem mais pólvora, nem munição, mas ainda nesta segunda batalha lhe mataram muitos mais, e cativaram um vivo, chamado Rodrigo Mateus, que levaram ao bispo.

Não se haviam com menos ânimo e esforço Manuel Gonçalves, e os mais capitães, que ficavam da banda do Carmo, vigiando continuadamente se saíam para aquela parte alguns holandeses, e assim junto ao mesmo mosteiro do Carmo mataram uma vez seis, e outra três; e saindo do forte de S. Filipe a pescar a umas camboas, que ficam perto, deram sobre eles, e os pescaram, antes que eles pescassem; mataram um, e cativando três, que levaram ao bispo, dos quais um era o cabo do forte; e vendo os holandeses que os nossos se ajudavam por estes assaltos, de umas casas que ali estavam, onde no tempo da paz morava o capitão do forte com sua família, foram uma manhã cinco com picões para derribá-las, mas Manuel Gonçalves, Jorge de Aguiar, e Pero do Campo, que já estavam esperando emboscados no mato, tanto que os viram subidos para destelharem a casa, saíram com os seus, mataram dois, e seguindo os outros até a porta da fortaleza, e sem falta a entraram daquela vez, se na mesma porta não pusessem os de dentro uma peça de artilharia, que dispararam com muita munição miúda, e os fizeram tornar.

Outra vez havendo-lhe um negro do capitão Pero de Campo tomado o batel do pé do forte, e levado aos nossos, sem embargo de muitas peças, que lhe atiraram sem lhe acertar alguma, entendendo o dito capitão Manuel Gonçalves que pois não tinham batel iriam por terra dar aviso a cidade do que passava, os foi esperar ao caminho, e vendo que iam dois em uma jangada mandou a eles a nado, mas não os tomaram, porque lhes acudiu uma lancha sua, que ia da cidade.




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Capítulo XXVII

De outros assaltos, que se deram à beira-mar aos holandeses


Vendo os holandeses que por terra ganhavam mui pouco, e os não deixavam chegar às fazendas de fora, determinaram ir a elas por mar, socapa / como eles diziam / de buscar algum refresco por seu dinheiro, ou a troco de outras mercadorias; e para isto levavam às vezes alguns portugueses consigo, dos que entre si tinham, para que segurassem aos outros da paz, e quando não quisessem lhes fariam guerra, mas também disto se preveniu o bispo, mandando que os que tinham engenhos, e fazendas junto a praia se fortificassem, e assistissem nelas, e por esta causa mandava sair de cada freguesia 20 homens a assistir no arraial, e com esta prevenção se defenderam dos inimigos em algumas partes, e ainda em outras os ofenderam, como fez Bartolomeu Pires, morador na boca do rio de Matuim, o qual vendo que de um patacho que ali se pôs saíam os holandeses às vezes ao engenho de Simão Nunes de Mattos, que está defronte na ilha de Maré, a comer com o feitor, porque seu dono não estava aí, se foi meter com eles, e os convidou para uma merenda no dia seguinte, avisando a Antônio Cardoso de Barros lhe mandasse gente para o ajudar, como mandou, e a pôs em cilada da outra parte do engenho, e mortas as galinhas, postas a assar para mais dissimulação, tanto que os teve juntos deu sinal aos da emboscada, os quais saíram, e mataram alguns, em que entrou um mercador holandês; e fugindo os mais para o batel, cativaram só três, que depois daí a seis meses tornaram a fugir de casa de Antônio Cardoso de Barros para os seus.

Outros foram em uma nau à ponta da ilha de Itaparica, chamada a ponta da Cruz, e depois de a carregarem de azeite, ou graxa de baleia, que aí havia / porque aquele é o lugar onde se faz /, se foram ao engenho de Gaspar de Azevedo, que está na praia uma légua atrás da ponta, onde lhe não tomaram açúcar nem fizeram algum dano, antes lhe escreveram que viesse para o seu engenho, e moesse cana, e lhe dariam para isso negros, e toda a fábrica necessária, e somente a uma cruz de pau alta, que estava no terreiro do engenho, deram algumas cutiladas, a qual milagrosamente se torceu, e virou logo para outra parte, para a qual caminhando depois os holandeses acharam alguns moradores da ilha com Afonso Rodrigues da Cachoeira, que então ali chegou com o seu gentio, e mortos oito à flechadas, e arcabuzadas, lhes tomaram uma lancha com três roqueiras, e fizeram embarcar os mais com a água pela barba, e muitos mui malferidos; pelo que se ficou tendo aquela cruz em tanta veneração e estima dos católicos, que fazem dela relíquias, com que saram muitos enfermos de maleitas, e outras enfermidades.

O capitão Francisco holandês foi em outra nau a ilha de Boipeba, que é de fora da barra, e entrando pelo rio dentro até a vila do Cairu, que será de 20 vizinhos, com duas lanchas de mosqueteiros; mandou o português que consigo levava à terra, e de lá veio com ele Antônio de Couros, senhor ali de um engenho, por ser amigo do dito capitão holandês Francisco, do tempo que nesta cidade esteve preso, como dissemos no capítulo nono deste livro; o qual Antônio de Couros, depois de se saudarem com as palavras, e cerimônias devidas, se virou ao português medianeiro, chamando-lhe tredo a el-rei, e parcial dos holandeses, e logo disse ao capitão que não queria com ele paz senão guerra, e para ela o ia esperar em terra, e foi tão honrado o holandês que, ou pelo seguro da paz que lhe havia dado, ou pela amizade e conhecimento que tinham dantes, ou pelo que fosse, nem por palavras, nem por obras lhe deu ruim resposta, antes se tornou para a nau, que havia deixado no morro de S. Paulo, que é a barra daquele rio, e daí para a cidade, depois tornou ao Camamu com outra nau, e com mais lanchas e soldados, e outro português, que havia sido seu carcereiro no tempo que esteve preso, e com muitos negros dos que haviam tomado dos navios de Angola, para ver se lhos queriam trocar por vacas, porcos, e galinhas, e também por lhe não responderem ao seu propósito, se tornou só com 12 bois, que tomou do pasto do engenho dos padres da companhia, e ainda estes lhes custaram oito holandeses, que os índios mataram à flechadas, e por haver levado as lanchas de vela perderam cá a presa de um navio de Viana, que vinha da ilha da Madeira carregado de vinhos, e mui embandeirado, ao qual estando já junto das naus holandesas para tomar a vala, e deitar âncora, tiraram de uma delas duas bombardadas, o que visto pelos portugueses do navio conheceram pelos pelouros que levavam ser de guerra, e largando todo o pano ao vento, que era largo, foram correndo pela Bahia dentro, indo também a holandesa, que era a nau Tigre, após ela, porém como se deteve em se desamarrar, e largar as velas, sempre o navio lhe levou esta vantagem, a qual bastou para a seu salvo se pôr na boca do rio de Matuim, onde a nau, por ser grande, que era de 350 toneladas, e não levar lanchas, não pôde chegar nem fazer-lhe dano.

O dia seguinte chegadas as lanchas do Camamu as mandaram logo ao dito rio, onde por não acharem o navio, que se foi meter dali a uma légua na Petinga, deram na fazenda de Manuel Mendes Mesas, lavrador, e lhe tomaram algumas ovelhas, que viram andar no pasto, com que tornaram para as suas naus.

O bispo mandou logo o capitão Francisco de Castro, e outros ao rio da Petinga, para defenderem o navio se lá fossem os holandeses enquanto se descarregava, e dele levaram seis peças de artilharia para o arraial, e sabendo que uma nau se pusera entre a ilha dos Frades, e a de Maré, para daí com a sua lancha tomar os barcos, que por aqueles boqueirões navegavam, encarregou ao capitão Agostinho de Paredes que andasse por aí em uma barca para lhe impedir as presas, e ver se podia tomar-lhes a lancha, porém eles se guardaram disso, porque estando ali 20 dias, e saindo nela quase cada dia o capitão, que se chamava Cornélio Corneles, com 25 mosqueteiros, ou quando ele não ia o piloto, a qualquer barco que passava, tanto que o barco encalhava em terra, ou se metia pelos boqueirões o deixavam, e se tornavam à nau, o que eu sei como testemunha de vista, porque neste tempo ainda estava cativo nesta nau, e um dia lhes disse que se desenganassem de poder fazer presa alguma; porque estava defronte uma fortaleza, mostrando-lhe uma igreja de Nossa Senhora do Socorro de muitos milagres, a qual defendia todo aquele circuito, do que muito se riram, mas enfim se tornaram para o porto da cidade sem pilhagem alguma.




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Capítulo XXVIII

Dos navios, que os holandeses tomaram na Bahia, e o que fizeram da gente que cativaram


Quando os holandeses tomaram a Bahia acharam trinta navios ancorados, alguns ainda carregados com as fazendas, que trouxeram do reino, outros de açúcar, já para partirem, outros de farinha da terra, e outros mantimentos para Angola, os quais todos tomaram descarregando-os nos seus, e em suas lojas, escolheram os melhores para os armarem, e servirem deles, e aos mais meteram no fundo, e fora estes lhes vieram depois a cair nas mãos alguns vinte; porque como este porto é de tanto comércio, e vem a ele de partes tão remotas, que nem daí a quatro meses se pôde nelas saber como estava impedido por si se vinham entregar, e ancorar entre os inimigos, com quanto lhes era necessário de farinha de trigo, biscoito, azeite, vinho, sedas, e outras ricas mercadorias, e por remate lhes veio um do rio da Prata carregado dela, em que vinha d. Francisco Sarmento, que havia servido em Potosi de corregedor, e trazia mulher e filhos, e um genro e neto, que todos recolheu o coronel em sua casa depois de roubados, e lhes deu mesa e vestidos.

Entre estes navios tomados foi logo dos primeiros um o dos padres da companhia, em que costumam visitar os colégios e casas, que tem por esta costa, e nesta ocasião vinha ao Rio de Janeiro o padre Domingos Coelho, seu provincial, que ia já acabando, e o padre Antônio de Mattos, que lhe havia de suceder, e outros padres e irmãos da companhia, que por todos eram 10.

Vinham também quatro religiosos de S. Bento, e eu, e meu companheiro da ordem do nosso padre S. Francisco: amanhecemos aos 28 de maio da dita era de 1624 na ponta do morro de S. Paulo, que é por onde se entra na primeira boca da Bahia, onde vimos duas lanchas, e uma nau, que se vieram a nós, e brevemente ferraram do navio por vir desarmado, e se senhorearam dele, e de quanto trazia, que eram caixões de açúcar, marmeladas, dinheiro, e outras coisas de encomendas, e de passageiros, que nele vinham e nos trouxeram para o porto, donde nos repartiram pelas suas naus de dois em dois, e de quatro em quatro, e assim estivemos até o fim de julho, que o seu general se partiu com 11 naus para as salinas, e o almirante com cinco, e dois patachos para Angola, e juntamente partiram quatro em direitura carregadas de açúcar para Holanda, em que mandaram o governador Diogo de Mendonça Furtado, com seu filho, e o ouvidor-geral Pero Casqueiro da Rocha, e o sargento-mor, e também os padres da companhia, e os de S. Bento, e a nós deixaram para nos trocarem pelos seus, que estavam cativos dos assaltos, sobre o que andava um português, morador na terra, que falava a língua flamenga, o qual depois acharam que lhe era tredo, e os enganava, pelo que o prenderam, e enforcaram com um irmão seu, e um mulato, que os acompanhava, e a nós se ficaram dilatando as esperanças da nossa liberdade, de tal sorte que meu companheiro por melhor arriscar-se a ir a nado, o que eu ainda que quisera não podia fazer, porque quem não sabe nadar vai-se ao fundo, e assim estive na prisão do mar quatro meses, os quais passados me pediu Manuel Fernandes de Azevedo um dos moradores portugueses, que ficaram na cidade, e concederam que viesse para sua casa, e pudesse andar em sua companhia pela cidade, contanto que não chegasse aos muros e fortificações, donde me ocupei em confessar os portugueses, em forma que nem um morreu sem confissão, como até este tempo morriam, mas não eram muitos, porque todos os que se quiseram ir deram licença, e três navios, em que se foram um para Pernambuco, e dois para o Rio de Janeiro, nos quais foram trezentas pessoas, os mais deles gente do mar, e passageiros dos navios, que tomaram, também fugiram muitos para o nosso arraial, para onde lhes não queriam dar licença, e de lá se veio para eles uma mulher casada fugindo a seu marido com uma filha formosa, que o coronel casou com um mercador holandês, e lhes fez grandes festas em seu recebimento de músicas, danças, e banquetes, que duraram três dias.

Aos mais portugueses, que ficamos, davam ração como aos seus de pão, vinho, azeite, carne, peixe cada semana; e as obras que lhe faziam alguns, que eram alfaiates e sapateiros, e camisas, que as mulheres faziam pagavam muito bem.




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Capítulo XXIX

De como Mathias de Albuquerque, depois que recebeu a provisão do governo, tratou do socorro da Bahia, e fortificação de Pernambuco, onde deteve a Francisco Coelho de Carvalho, governador do Maranhão


Recebida por Mathias de Albuquerque em Pernambuco a provisão do governo do Brasil na vagante de Diogo Mendonça Furtado, fez logo uma junta dos oficiais da Câmera, capitães, prelados da religião, e outras pessoas qualificadas sobre se viria em pessoa socorrer a Bahia, o que por todos lhe foi contradito; assim porque não bastaria o socorro, que de lá podia trazer para recuperá-la, como pelo perigo em que deixava estoutra capitania, de cuja fortificação e defensa se devia também tratar, pois viam arder as barbas dos seus vizinhos, com a qual resolução mandou Antônio de Moraes, que de cá havia ido, e achado no caminho um grande pedaço de âmbar, tornasse por terra com socorro de alguns soldados com suas armas, e munições, fazendo também tornar outros, que encontrasse pelo caminho, e assim chegou ao arraial uma boa companhia.

O governador se ficou fortificando na vila de Olinda com muita diligência, cercando toda a praia, e pondo nela soldados com seus capitães nas estâncias necessárias, como também fez no rio Tapado um terço de légua da vila, e o Pau Amarelo, que dista dela três léguas, e é porto onde podem entrar lanchas, e patachos; e porque o do Recife é o principal onde estão os nossos navios, e duas fortalezas, que são as chaves de todo o Pernambuco, pediu a Francisco Coelho de Carvalho, governador do Maranhão, que pouco havia ali chegara do reino, não quisesse em aquela ocasião seguir sua viagem para o Maranhão, encarregando-lhe o dito porto e povo do Recife, e o governo dele, sobre o qual ambos escreveram a. Sua Majestade que se houvesse disso por bem servido, e por esta causa se ficou ali Francisco Coelho de Carvalho com três companhias de soldados, que do reino levava, e juntamente com ele seu filho Feliciano Coelho de Carvalho, Manuel Soares, seu sargento-mor, Jacome de Reimonde, provedor-mor da fazenda do Maranhão, e Manuel de Souza Deça, capitão-mor do Pará, e mandou só um barco ao Maranhão com alguns velhos, e mulheres, no qual se embarcou nosso irmão frei Cristóvão Severim, que ia por custódio com 15 frades, que trazia da província, e cinco que se lhe ajuntaram desta custódia do Brasil, a quem também o administrador de Pernambuco, que então era o dr. Bartolomeu Ferreira, deu poderes de vigário-geral, e provisor, como os trazia do Santo Ofício para rever e qualificar os livros, o que tudo era mui necessário naquelas partes.

Partiram do Recife a 12 de julho de 1624, e aportaram aos dezoito do mês na enseada de Mocaripe, três léguas do Ceará, donde os veio buscar o capitão-mor Martim Soares Moreno para o forte, em que se detiveram 15 dias, sacramentando os brancos, e doutrinando os índios de duas aldeias, que ali estavam, com os quais o custódio deixou dois religiosos, por requerimento, que o capitão lhe fez, para quietação dos índios, que com esperanças de alcançá-los os haviam até ali sustentado.

Os mais chegaram ao Maranhão em seis de agosto, onde começaram a edificar uma casa, e igreja de taipa, em que se disse a primeira missa no ano seguinte dia de Nossa Senhora das Candeias, ajudando Deus a obra como sua com algumas maravilhas, e milagres notáveis; um foi que dizendo os pedreiros que para se rebocarem as paredes eram necessárias 60 pipas de cal, e não havendo mais que 25 com elas se rebocaram, e sobejaram ainda 17 pipas, não sem grande admiração dos oficiais, que com juramento afirmaram era milagre.

Outro foi que trazendo-se para a obra em um carro uma mui grande e pesada trave, caiu o carreiro que ia diante, e passando a roda do carro por cima dele com todo aquele peso, não lhe fez dano algum, mas logo se levantou são, e prosseguiu sua carreira, ficando-lhe só o sinal da roda impresso no peito por onde passou para prova do milagre.

Nem trabalhou menos o padre custódio no edifício espiritual das almas, que na visita achou estragadas, e na conversão dos índios. O mesmo fez no Pará, onde reduziu a paz dos portugueses os gentios Tocantins, que escandalizados de agravos, que lhe haviam feito, estavam quase rebelados, e levou consigo os filhos dos principais para os doutrinar, e domesticar, proibiu com excomunhão venderem-se os índios forros, como faziam, dizendo que só lhe vendiam o serviço.

Queimou muitos livros, que achou dos franceses hereges, e muitas cartas de tocar, e orações supersticiosas, de que muitos usavam, apartou os amancebados das concubinas, e fez outras muitas obras do serviço de Nosso Senhor, e bem das almas, não sem muito trabalho, e perseguições, que por isto padeceu, sabendo que são bem-aventurados os que padecem pela justiça.




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Capítulo XXX

De como o governador geral Mathias de Albuquerque mandou de Pernambuco por capitão-mor da Bahia a Francisco Nunes Marinho, e da morte do bispo


Informado o governador geral Mathias de Albuquerque em Pernambuco de algumas dúvidas, e diferenças, que havia entre o bispo e o ouvidor-geral Antão de Mesquita de Oliveira sobre o governo do arraial, e da mais gente da Bahia, porque também haviam para isto eleito o mesmo ouvidor-geral, antes que elegessem, e aclamassem o bispo, para atalhar a estas dúvidas, e diferenças, mandou que viesse por capitão-mor Francisco Nunes Marinho, que o havia já sido na Paraíba, e servido a el-rei na Índia e em outras partes com muita satisfação, e para isto lhe deu dois caravelões, de um dos quais veio ele por capitão, e de outro Antônio Carneiro Falcato com trinta soldados, pólvora, munições, e vitualhas de vinho, azeite, e outras coisas, que se lhe puderam dar em tempo tão necessitado delas.

No mar tiveram uma grande tormenta, que os obrigou a entrar no rio de Sergipe del-rei com vergas e mastros quebrados, donde depois que os refez, para seguirem sua viagem, e ele se foi com alguns soldados por terra, e chegou a muito bom tempo, porque daí a poucos dias adoeceu o bispo da doença, de que morreu aos 8 de outubro da dita era, deixando a todos assaz saudosos, e desconsolados com a falta de sua presença, por ser ela tal, que ainda a natural agradava a todos, sem as muitas graças sobrenaturais, que Deus a esmaltou, porque era mui esmoler, e liberal, devotíssimo do Santíssimo Sacramento, o qual levava ele próprio aos enfermos, ou ao menos o acompanhava com um brandão aceso, todas as vezes que o levavam fora de dia, ou de noite. Celebrava cada dia derramando na missa muitas lagrimas de devoção.

Pregava sem ser teólogo, posto que grande canonista, melhor que muitos teólogos, com muito zelo da salvação das almas: enfim dele se podia dizer aquilo do sábio Sapientiae, que o levou Deus deste mundo, e em tão pouca idade, que ainda não chegava a 50 anos, porque não era o mundo digno de tanto bem, e se isto se pode dizer dos seus merecimentos para com Deus, não menos para com el-rei, como bem se viu nesta ocasião, em que o serviu de capitão-mor e governador depois da Bahia tomada; porque ele foi o que andando os homens espalhados pelos matos morrendo de fome, e nem eles se tendo por seguros, os fez ajuntar em um arraial, como já dissemos, e ali deu ordem a que se levassem mantimentos de todas as partes a vender, sustentando ele os pobres à sua custa, que o não podiam comprar.

Dali ordenou os capitães e companhias para os assaltos, em que reprimiu a insolência dos holandeses, que se isto não fora houveram de assolar todas as fazendas de fora, e quando iam aos assaltos os animava, e exortava de modo que até os gentios selvagens, que de princípio andavam alguns nestas companhias, obrigava a irem com muita vontade, e esforço; logo se punha em oração pedindo a Deus lhe desse vitória, e quando com ela tornavam lhe dava graças, abraçava os soldados, e gratificava-lhes não só com palavras, mas com dádivas, com que todos andavam à porfia a quem melhor havia de pelejar; e assim puseram sem o ter sitiado em tanto aperto, que não se atreviam a sair 50 passos da cidade a buscar um limão, senão com muita gente, e ordem, e nem essa bastava, o que tudo se pode atribuir também às orações do santo bispo, que não só governava estas guerras com sua indústria, conselho, e agencia, como Josué, e outros famosos capitães, mas com lágrimas e orações como Moisés: e entendendo que a tomada da cidade fora castigo do céu por vícios, e pecados, depois se castigava a si mesmo, e fazia tão áspera penitência, que nunca mais fez a barba, nem vestiu camisa, senão uma sotaina de burel, dormia mui pouco, e jejuava muito, pregava e exortava a todos à emenda de suas culpas, para que aplacassem a divina ira, até que destes trabalhos o tirou Deus para o descanso da bem-aventurança, como se pode confiar em sua divina misericórdia.




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Capítulo XXXI

Dos encontros, que houve com os holandeses no tempo que governou o nosso arraial o capitão-mor Francisco Nunes Marinho


Ainda que o capitão-mor Francisco Nunes Marinho era velho, e enfermou gravissimamente chegando à Bahia, nem por isso enfraqueceu do ânimo, ou faltou bom ponto do que era do seu ofício, e governo, antes tinha dito a João Barbosa, que o acompanhou, e serviu desde a Paraíba, que por mal que estivesse nunca o dissesse aos soldados, mas tomando-lhe o recado, dissesse que lho ia dar, e tornasse com a resposta em seu nome, que lhe parecesse, o que o dito João Barbosa fazia com tanta prudência e cortesia, que todos iam contentes, e depois que sarou usava de outra cautela, que tendo mui pouca pólvora, mostrava botijas cheias de areia, fazendo entender aos soldados que eram de pólvora, e quando se lhe queixavam porque dava tão pouca, e pediam mais, dizendo que deixavam muitas vezes de seguir os inimigos nos assaltos, porque no melhor lhes faltavam as cargas, respondia que bastava aquilo, querendo antes ser notado de escasso, ou de qualquer outra nota, que descobrir a falta da pólvora, para que de todo não desmaiassem, e deixassem a guerra; assim foi continuando com os assaltos na forma, que o bispo havia ordenado, e era a melhor que podia ser, acrescentando mais duas trincheiras, uma em Tapuípe, e outra da banda de S. Bento, para os nossos que neles andavam.

Ordenou também que andassem dois barcos de vigia um em Itapoã, outro no morro, para avisar os navios que vinham de Portugal, com que se salvaram três ou quatro, e sem mudar o arraial lhe abreviou o caminho para a cidade um terço de légua, para com mais presteza poderem acudir aos assaltos; e no seu tempo soube o capitão Manuel Gonçalves pelas espias, que trazia, que estavam alguns holandeses metidos no mosteiro do Carmo, e deu sobre eles com os mais capitães de que era cabo, onde pelejaram uns e outros valorosamente, e ficaram dos holandeses e dos nossos dois. Outra vez encontrou o mesmo Manuel Gonçalves uns holandeses, que saíram da fortaleza de São Filipe, e matou dois, fazendo recolher os outros: queimou-lhes um batel, e enfim os tinha tão apertados, que senão era por mar poucos passos se atreviam a sair da fortaleza.

Alguns assaltos foram também dar por mar os holandeses, como foi um no engenho de Manuel Rodrigues Sanches, onde lhe tomaram cinqüenta caixas de açúcar, queimando-lhe as casas, e a igreja sem lho poderem impedir, posto que acudiram Manuel Gonçalves, e André de Padilha, pai do capitão Francisco de Padilha, e depois o coronel Lourenço Cavalcanti com quarenta homens, e os fizeram embarcar, matando-lhes, e ferindo-lhes alguns. Outro assalto deram no engenho de Estevão de Brito Freire, donde ao desembarcar lhe resistiu o capitão da freguesia Agostinho de Paredes com alguns arcabuzeiros, os quais por serem poucos, e os inimigos muitos, foi forçado retirarem-se ao alto às casas de um lavrador fora dos pastos do engenho, no qual os holandeses mataram alguns bois, e chegaram a estar às arcabuzadas, e ainda às pulhas com os nossos; mas de noite se embarcaram à pressa, deixando dois bois mortos sem os levarem, e só levaram 20 caixas de açúcar, que acharam no engenho, havendo já de caminho tomado 12 de retame de um engenho de mel, e alguns porcos de um chiqueiro, e se não se houveram assim embarcado não o puderam depois fazer tanto a seu salvo, porque no dia seguinte acudiu o capitão dos assaltos Francisco de Padilha, e Melchior Brandão, e capitão de Paraguaçu com muita gente; e porque uma nau dos holandeses havia ficado em seco, e se detiveram três ou quatro dias em tomar uma água, que abrira, e aliviá-la da artilharia nas lanchas, os ditos capitães se embarcaram com o Paredes, cuidando que saíssem em terra, o que não fizeram, mas concertada e aliviada a nau se foram para o porto da cidade.

Tinha mais o dito capitão-mor Francisco Nunes ordenadas, e feitas setenta escadas para escalar a fortaleza de S. Filipe em Tapuipe, e à força se senhorear dela, e da pólvora dos inimigos para os assaltos, o que não pôs em execução, porque lhe veio sucessor, e trouxe pólvora, e tudo o mais necessário.




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Capítulo XXXII

De como veio d. Francisco de Moura por mandado de Sua Majestade socorrer a Bahia, e governar o arraial


Sabida pelo nosso rei católico Filipe Terceiro a nova da perda da Bahia, a sentiu grandemente, não tanto pela perda quanto por sua reputação, por entender que os holandeses por esta via determinavam diverti-lo das guerras, que atualmente lhes fazia na Holanda, ou que por sustentá-la, e acudir aos assaltos, que continuamente lhe faziam pela costa de Espanha, não poderia acudir a estoutro, como eles diziam, e assim para desenganá-los destes desenhos mandou com muita brevidade aprestar suas armadas, e que entretanto se mandasse de Lisboa todo o socorro possível, não só à Bahia, mas às outras partes do Brasil, para que os rebeldes não tomassem pé no estado, nem ainda o lançassem fora dos limites da cidade, que tinham tomada, porque nisso podiam perigar as fazendas dos engenhos de açúcar, que estão no recôncavo, de que tanto proveito recebem as suas alfândegas.

O que visto pelos governadores do reino d. Diogo de Castro, conde de Basto, e d. Diogo da Silva, conde mordomo-mor, mandaram logo em 8 de agosto de 1624 duas caravelas em direitura a Pernambuco, para dali seguir na ordem que o governador Mathias de Albuquerque lhes desse em socorro da Bahia; eram os capitães Francisco Gomes de Mello, e Pero Cadena, um e outro bem vistos na costa do Brasil.

Traziam de socorro o que em tão poucos navios podia ser, 120 homens de guerra, 50 quintais de pólvora, 1.100 pelouros de ferro de toda a sorte, 20 quintais de chumbo em pão, 1.300 arcabuzes de Biscaia aparelhados, 14 quintais de chumbo em pelouros, duzentas lanças e piques de campo, quatro arrobas de morrão.

Chegou Francisco Gomes de Mello a Pernambuco nos últimos de setembro, onde foi recebido com extraordinário alvoroço, e repiques da vila, sabendo por ele ficarem fervendo Portugal, e Castela em socorro do Brasil. O capitão Cadena chegou mais tarde, por dar de caminho aviso na ilha da Madeira.

Mandaram também os senhores governadores em 19 de agosto da dita era Salvador Corrêa e Sá de Benevides no navio Nossa Senhora da Penha de França com oitenta homens, armados com seus arcabuzes de Biscaia, 14 quintais de pólvora, oito de chumbo, e dois de morrão, ao Rio de Janeiro, em que seu pai Martim de Sá estava atualmente governando. E à Bahia mandaram por capitão-mor d. Francisco de Moura, que já havia sido governador de Cabo Verde, com 150 homens de guerra, 300 arcabuzes aparelhados, 50 quintais de pólvora, 10 de morrão, 29 de chumbo em pão, 150 formas de fazer pelouros.

Com este socorro chegou d. Francisco de Moura a Pernambuco, pátria sua, em três caravelas, das quais ele capitaneava a sua, e as outras duas Jerônimo Serrão, e Francisco Pereira de Vargas, aos quais se ajuntaram em Pernambuco Manuel de Souza de Sá, capitão-mor do Pará, e Feliciano Coelho de Carvalho, filho do governador do Maranhão, que se ofereceram para os acompanharem, e o governador Mathias de Albuquerque lhes deu seis caravelões, e 80 mil cruzados mais de novos provimentos, e nos caravelões se meteu todo o socorro, que vinha nas caravelas, o que tudo se fez dentro de oito dias, no fim dos quais se partiram do Recife, e foram desembarcar à torre de Francisco Dias de Ávila, donde se vieram por terra ao arraial, e em chegando a ele aos 3 de dezembro de 1624 lhe fizeram salva de seis peças de artilharia, o que aos holandeses na cidade deu que entender, porque até aquele tempo não tinham dali ouvido outras, e assim desejavam muito saber o que era, e colher alguém que lho dissesse, para o que fizeram uma saída a S. Bento, onde se encontraram com o capitão Lourenço de Brito em uma emboscada, e lhe mataram o sargento, e prenderam outro homem muito malferido, do qual souberam ser d. Francisco de Moura, capitão-mor, que sucedera a Francisco Nunes Marinho, e este ao bispo, que era morto, das quais coisas nenhuma até então sabiam senão por dito dos negros, a que não davam crédito.

Outra saída fizeram ao Carmo, a qual não lhes sucedeu tanto a seu gosto por ser a tempo que d. Francisco mandava o arquiteto Francisco de Frias reconhecer aquele sítio, e como nele se pudessem os nossos fortificar, e iam em seu resguardo o capitão Manuel Gonçalves, Gabriel da Costa, e os mais, que daquela parte militavam, os quais pelejaram com tanto esforço neste encontro, e lhes mataram, e feriram tantos com morte de um só dos nossos, que o arquiteto foi dizer a d. Francisco que para tão valentes, e animosos soldados não havia mister fazer fortificações artificiais, pois sem elas remetiam aos inimigos como leões. Ia-lhes também faltando já o conduto da carne, e pescado, e por lhes dizerem que na ilha de Itaparica, três léguas da cidade, havia muitos currais de vacas, e boas pescarias, determinaram senhorear-se dela, e para este efeito se embarcaram em duas naus, e algumas lanchas 400 soldados com o capitão Quife, e o capitão Francisco, e indo já nos batéis para desembarcar na ilha no engenho de Sebastião Pacheco, estava Paulo Coelho, capitão da ilha, detrás de uma cava ou bardo da bagaceira da cana, com outros portugueses, donde às arcabuzadas lhe feriram alguns, e impediram que não desembarcassem. E porque em todos os mais engenhos houvesse a mesma resistência, mandou d. Francisco de Moura por Manuel de Souza Deça ver as fortificações, que tinham, e que onde não as houvesse se fizessem, o que fez com grande cuidado. Fez também cabo a João de Salazar de dez barcas para defenderem do inimigo as que trouxessem mantimentos, ou gente do recôncavo ao arraial. Com isto cessaram os assaltos por mar, e também por chegar um navio de Holanda pela festa do Natal, que tomou de caminho outro nosso, que vinha de Lisboa para Pernambuco com cartas de el-rei, e aviso da nossa armada, que vinha.

N. B.- Este capítulo foi copiado das adições e emendas a esta História do Brasil.




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Capítulo XXXIII

Da morte do coronel Alberto Scutis, e como lhe sucedeu seu irmão Guilhelmo Scutis, e se continuaram os assaltos


Muito solícito andou o coronel Alberto Scutis, depois que teve estas novas, em fortificar a cidade e o porto, entendendo que por uma parte e outra lhe convinha defender-se, e principalmente mandou acabar, e perfeiçoar o forte da praia, que Diogo de Mendonça começou, e não tinha ainda acabado, mas nem por isto deixava de andar em festas, e banquetes, assim na terra como nas naus, a que levava o seu prisioneiro d. Francisco Sarmento com toda a sua família, e porventura daqui se lhe originou dar em uma enfermidade, de que morreu em poucos dias.

Logo o dia em que o coronel Alberto Scutis morreu, que foi a vinte e quatro de janeiro de mil seiscentos e vinte e cinco, foi levantado por coronel seu irmão Guilhelmo Scutis, que era capitão-mor ou mestre de campo, ficando em seu lugar o capitão Quife; no dia seguinte se deu sepultura ao defunto na Sé e com as mesmas cerimônias, que se fizeram na do primeiro coronel, de que tratamos no capítulo undécimo, senão que deram mais duas surriadas que ao outro, ou fosse por ser irmão do coronel, ou por neste mesmo dia lhe haver chegado uma nau de Holanda com 60 soldados a 13 de março chegou outra, que por o vento lhe ser escasso, e os que a governavam duvidarem se o porto seria ainda seu, andou dois dias aos bordos sem entrar, nem menos duvida, e receio houve com isto na cidade, suspeitando que seria da armada de Espanha, e andaria esperando pelas mais; e assim se apercebeu o coronel com todas as prevenções necessárias; porém quietaram-se com a chegada da nau, vendo que era sua, e vinha carregada de ladrilho, que muito estimaram, para uma torre que tinham começada à porta do muro, que vai para o Carmo, para a qual iam tirando a pedra já da capela nova da Sé, e porque lhes faltava cal, foram aos dezessete do mesmo mês pela manhã cedo a uma casa donde a havia além do Carmo, junto da ermida de Santo Antônio, buscá-la com muitos negros, e sacos para a trazerem, e cento e vinte soldados mosqueteiros de resguardo, os quais metidos na casa da cal, e em outras ali vizinhas, porque chovia, saíam alguns poucos a vigiar, a que saiu o capitão Jordão de Salazar, que estava na ermida, e logo o capitão Francisco de Padilha, e Jorge de Aguiar, e os mais capitães dos assaltos, que por ali andavam perto, e se travou entre todos uma rija batalha, na qual por chover, e não poderem usar das armas de fogo as largaram, e vieram às espadas, com que nos mataram dois homens, e feriram 12, e os nossos mataram nove holandeses, um dos quais era tenente-coronel, e feriram muitos; tomaram-lhe 18 mosquetes, duas alabardas, um tambor, e algumas espadas, assim dos mortos, como dos que fugiram; mas vendo que lhes vinha socorro da cidade se retiraram os nossos, dando-lhes lugar que levassem os seus mortos e feridos, posto que sem a cal, que iam buscar.

Não trato dos assaltos, que se deram aos negros seus confederados, que algumas vezes saíam fora pelas roças como quem bem as sabia, e os caminhos, a buscar frutas para lhes venderem, dos quais foram alguns tomados, e a um destes cortou o capitão Padilha ambas as mãos, e o tornou a mandar para a cidade com um escrito pendurado ao pescoço, em que desafiava o capitão Francisco, que era o mais conhecido, porque este / como já disse / é o que tomou Martim de Sá no Rio de Janeiro, e o mandou o capitão-mor Constantino Menelau de lá a esta cidade, onde esteve preso muito tempo. O qual saiu ao desafio com duzentos mosqueteiros, e alguns negros flecheiros, mas quando viu a confiança com que o estavam aguardando além de S. Bento, junto a ermida de S. Pedro, e sentiu um rumor no mato, que imaginou ser manga de índios, para lhe tomarem as costas, posto que realmente não eram senão uns negros, que iam carregados de tábuas da ermida de Santo Antônio da Vila Velha para o arraial, isto bastou para não ousar a cometer, nem ainda a esperar, e se tornou para a cidade.

Outra fineza fez o capitão Francisco Padilha com seu primo Antônio Ribeiro, que se foram a um bergantim dos holandeses uma noite, e junto da fortaleza nova, e dos seus navios, que tinham continua vigia, o levaram dali à vista da sua nau, que estava vigiando na barra, a meter no rio Vermelho com duas peças pequenas de bronze, e quatro roqueiras, que tinha dentro, indo por terra o capitão Francisco de Castro, com a sua companhia, e a do Padilha de resguardo, para que se os holandeses fossem atrás do bergantim o encalhassem em terra, e lho defendessem, o que eles não fizeram por se não poderem persuadir / segundo diziam / que lho levaram os portugueses, senão que se desamarrara, e o vento, e a maré o levara.




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Capítulo XXXIV

Da armada que Sua Majestade mandou a socorrer e recuperar a Bahia, e dos fidalgos portugueses que se embarcaram


Com muita brevidade mandou Sua Majestade aprestar suas armadas, assim em Castela, como em Portugal e Biscaia para socorrer, e recuperar a Bahia do poder dos holandeses, dizendo que se lhe fora possível ele mesmo houvera de vir em pessoa, o que foi causa de todos seus vassalos se oferecerem à jornada com muita vontade, e só na armada de Portugal se embarcaram mais de cem fidalgos, para o que foi também grande motivo d. Afonso de Noronha, Fidalgo velho, que havia sido eleito viso-rei da Índia, e foi o primeiro que se alistou por soldado, a quem todos os outros seguiram, para passar este grande oceano, como os filhos de Israel a Aminadab, para a passagem do mar Vermelho.

Partiu esta armada de Lisboa a 22 de novembro de 1624, dia de Santa Cecília, por general dela d. Manuel de Menezes no galeão S. João, do qual vinha por capitão seu filho d. João Teles de Menezes, e juntamente de uma companhia de soldados, e d. Álvaro de Abranches, neto do conde de vila Franca, e Gonçalo de Souza, filho herdeiro de Fernão de Souza, governador do reino de Angola, de outras duas, que por todos eram seiscentos soldados.

Almeiranta, que era o galeão Santa Anna, vinha por almirante e mestre de campo de um terço d. Francisco de Almeida, por capitão da sua infantaria Simão de Mascarenhas, do hábito de S. João.

No galeão Conceição vinha por capitão e mestre de campo de outro terço Antônio Moniz Barreto; por capitão da infantaria d. Antônio de Menezes, filho único de d. Carlos de Noronha. No galeão S. José vinha por capitão d. Rodrigo Lobo, e da infantaria d. Sancho Faro, filho do conde de Vimieiro.

Na nau Caridade vinha por capitão dela e da infantaria Lancerote de França. Na naveta Santa Cruz vinha por capitão dela e da infantaria Constantino de Mello. Na nau Sol Dourado, capitão Manuel Dias de Andrade. Na nau Penha de França, capitão Diogo Vaião.

Na nau Nossa Senhora do Rosário, capitânia da esquadra do Porto e Viana, por capitão-mor dela e de toda a esquadra Tristão de Mendonça Furtado, e por capitão da infantaria Antônio Álvares. Na almeiranta chamada S. Bartolomeu, almirante Domingos da Câmara, e capitão da infantaria d. Manuel de Moraes.

Na nau Nossa Senhora da Ajuda, capitão dela e da infantaria Gregório Soares. Na nau Nossa Senhora do Rosário Maior, capitão dela e de arcabuzeiros Rui Barreto de Moura.

Na nau Nossa Senhora do Rosário Menor, capitão Cristóvão Cabral, do hábito de S. João. Na nau Nossa Senhora das Neves Maior, capitão Domingos Gil da Fonseca. Na nau Nossa Senhora das Neves Menor, capitão Gonçalo Lobo Barreto. Na nau S. João Evangelista, capitão Diogo Ferreira. Na nau Nossa Senhora da Boa Viagem, capitão Bento do Rego Barbosa. Na nau S. Bom Homem, capitão João Casado Jacome.

Os mais navios eram patachos e caravelas, que por todos eram vinte e seis, dez do Porto e Viana, e os mais de Lisboa.

Os fidalgos que neles vinham embarcados por soldados, seguindo a ordem do alfabeto, eram: o já nomeado d. Afonso de Noronha, do Conselho de Estado. d. Afonso de Portugal, conde de Vimioso. d. Afonso de Menezes, herdeiro da casa de seu pai, d. Fradique. d. Álvaro Coutinho, senhor de Almourol. Álvaro Pires de Távora, filho herdado de Rui Lourenço de Távora, governador que foi do Algarve, e viso-rei da Índia. Álvaro de Souza, filho herdeiro da casa de Gaspar de Souza, do Conselho de Estado, e governador que foi do Brasil. Álvaro de Souza, filho de Simão de Souza. d. Antônio de Castelo, senhor de Pombeiro. Antônio Corrêa, senhor de Belas. Antônio Luiz de Távora, filho herdeiro do conde de S. João. Antônio Teles da Silva, do hábito de S. João, filho de Luiz da Silva, do Conselho de Sua Majestade, vedor de sua fazenda. Antônio da Silva, filho de Pedro da Silva. Antônio Carneiro de Aragão. Antônio de S. Paio, filho de Manuel de S. Paio, senhor de vila Flor. Antônio Pinto Coelho, senhor das Figueiras. Antônio Taveira de Avelar. d. Antônio de Mello. Antônio Freitas da Silveira, filho de João Rodrigues de Freitas, da ilha da Madeira. Braz Soares de Souza. d. Duarte de Menezes, conde de Tarouca. Duarte de Albuquerque, senhor de Pernambuco. d. Diogo da Silveira, filho herdeiro de d. Álvaro da Silveira, e neto do conde de Sortelha. d. Diogo Lobo, filho de d. Pedro Lobo. d. Diogo de Noronha. d. Diogo de Vasconcellos e Menezes, e d. Sebastião, filhos de d. Afonso de Vasconcellos, da casa de Penela. Duarte de Mello Pereira. Duarte Peixoto da Silva. Estevão Soares de Mello, senhor da casa de Mello. Estevão de Brito Freire. d. Francisco de Portugal, comendador da fronteira. Francisco de Mello de Castro, filho de Antônio de Mello de Castro. d. Francisco de Faro, filho do conde d. Estevão de Faro, do Conselho de Estado de Sua Majestade, e vedor de sua fazenda. Francisco Moniz d. Francisco de Toledo, e Antônio de Abreu, seu irmão. d. Francisco de Sá, filho de Jorge de Sá. Francisco de Mendonça Furtado, e Cristóvão de Mendonça Furtado, seu irmão. Garcia Veles de Castelo Branco. Gaspar de Paiva de Magalhães. Jorge de Mello, filho de Manuel de Mello, monteiro-mor. Jorge Mexia. Gonçalo de Souza, filho herdeiro de seu pai Fernão de Souza, governador do reino de Angola. Gonçalo Tavares de Souza, filho de Bernardim de Távora, do Algarve. d. Henrique de Menezes, senhor de Louriçal. Jerônimo de Mello de Castro. d. Henrique Henriques, senhor das Alcaçovas. Henrique Corrêa da Silva. Henrique Henriques. d. João de Souza, alcaide-mor de Thomar. João da Silva Tello de Menezes, coronel de Lisboa. João de Mello. d. João de Lima, filho segundo do visconde d. João de Portugal, filho de d. Nuno Álvares de Portugal, governador que foi do reino. d. João de Menezes, filho herdeiro de d. Diogo de Menezes. João Mendes de Vasconcellos, filho de Luiz Mendes de Vasconcellos, governador que foi do reino de Angola. João Machado de Brito. Joseph de Souza de S. Paio. Luiz Álvares de Távora, conde de S. João, senhor da casa de Mogadouro. d. Lopo da Cunha, senhor de Sentar. Luiz. Cesar de Menezes, filho de Vasco Fernandes Cesar, provedor dos armazéns de Sua Majestade. Lourenço Pires Carvalho, filho herdeiro da casa de Gonçalo Pires Carvalho, provedor das obras de Sua Majestade. d. Lourenço de Almada, filho de d. Antão de Almada. Lopo de Souza, filho de Aires de Souza. Martim Afonso de Oliveira de Miranda, morgado de Oliveira. Martim Afonso de Távora, filho de Rui Pires de Távora, reposteiro-mor de Sua Majestade. Manuel de Souza Coutinho, filho de Cristóvão de Souza Coutinho, guarda-mor das naus da Índia, senhor da casa de Baião. d. Manuel Lobo, filho de d. Francisco Lobo. Manuel de Souza Mascarenhas. Martim Afonso de Mello, e Joseph de Mello, seu irmão. d. Manuel Coutinho, e dois filhos do marechal d. Fernando Coutinho. Nuno da Cunha, filho herdeiro de João Nunes da Cunha. d. Nuno Mascarenhas da Costa, filho de d. João Mascarenhas. Nuno Gonçalves de Faria, filho de Nicolau de Faria, almotacé-mor. Pedro da Silva, governador que foi da Mina. Pedro Cesar de Eça, filho de Luiz Cesar. Pero da Silva da Cunha, filho de Duarte da Cunha. Pero Lopes Lobo, filho de Luiz Lopes Lobo. Pero Cardoso Coutinho. Pero Corrêa da Silva. Paulo Soares. Pero da Costa Travassos, filho de João Travassos da Costa, secretário da mesa do Paço. Rui de Moura Teles, senhor da Póvoa. d. Rodrigo da Costa, filho de d. Julianes da Costa, governador que foi de Tangere, presidente da Câmera de Lisboa, e do Conselho do Paço. d. Rodrigo Lobo. Rui Corrêa Locas. Rodrigo de Miranda Henriques. Rui de Figueiredo, herdeiro da casa de seu pai Jorge de Figueiredo. Luiz Gomes de Figueiredo, e Antônio de Figueiredo, seus irmãos. d. Rodrigo da Silveira, e Fernão da Silveira, seu irmão, filhos de d. Luiz Lobo da Silveira, senhor das Sargedas. Rui Dias da Cunha. Sebastião de Sá de Menezes, filho herdeiro de Francisco de Sá de Menezes, irmão do conde de Matosinhos. Simão de Miranda. Simão Freire de Andrade, e muitos outros homens nobres, que parece se não tinham por tais os que se não embarcavam nesta ocasião; e assim aconteceu em Viana entre três irmãos, que sendo necessário ficar um com o cuidado de sua família, e dos mais, nenhum deles o quis ter, por não faltar na empresa, e por entender o conde de Miranda Diogo Lopes de Souza que importava ficar algum, por sorte de dados resolveu a contenda.

A mesma houve entre um pai, e um filho, querendo cada qual vir por soldado, e foi o caso ao. conde governador, que resolveu tocar mais a jornada ao filho, que ao pai, e os deixou conformes na pretensão da honra, que cada um para si queria.




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Capítulo XXXV

Da ajuda de custa, que deram os vassalos de Sua Majestade portugueses para sua armada


E se tão liberais se mostraram de suas pessoas os portugueses nesta ocasião, não o foram menos de suas fazendas, não somente os que se embarcaram, que estes claro está que aonde davam o mais haviam de dar o menos, e aonde arriscavam as vidas não haviam de poupar o dinheiro, e assim fizeram grandíssimas despesas; mas também os que se não puderam embarcar deram um grande subsídio pecuniário para o apresto da armada.

O presidente da Câmera da cidade de Lisboa deu da renda dela 100 mil cruzados. O excelentíssimo duque de Bragança d. Teodósio Segundo deu da sua fazenda e 20 mil cruzados. O duque de Caminha d. Miguel de Menezes, 16 mil e 500 cruzados. O duque de vila Hermosa, presidente do Conselho de Portugal, d. Carlos de Borja, dois mil e 400 cruzados, com que se pagaram 200 soldados.

O marquês de Castelo Rodrigo, d. Manuel de Moura Corte Real, três mil 350 cruzados, que em tanto se estimou o frete da nau Nossa Senhora do Rosário Maior, e a companhia que nela veio à sua custa. d. Luiz de Souza, alcaide-mor de Beja, senhor de Bringel, e governador que foi do estado do Brasil, três mil e 300 cruzados, e 30 moios de trigo para biscoitos.

O conde da Castanheira, d. João de Ataíde, dois mil e 500 cruzados. d. Pedro Coutinho, governador que foi de Ormuz, dois mil cruzados. d. Pedro de Alcaçova, mil e 500 cruzados. Antônio Gomes da Matta, correio-mor, dois mil cruzados. Francisco Soares, mil cruzados. Os filhos de Heitor Mendes, quatro mil cruzados. Contribuíram também os prelados eclesiásticos.

O ilustríssimo e reverendíssimo arcebispo de Lisboa d. Miguel de Castro com dois mil cruzados. O ilustríssimo arcebispo primaz d. Afonso Furtado de Mendonça, 10 mil cruzados. O ilustríssimo arcebispo de Évora d. Joseph de Mello, quatro mil cruzados. O bispo de Coimbra d. João Manuel, quatro mil cruzados. O bispo da guarda d. Francisco de Castro, dois mil cruzados. O bispo do Porto d. Rodrigo da Cunha, mil e 500 cruzados. O bispo do Algarve d. João Coutinho, mil cruzados.

Finalmente deram os mercadores portugueses de Lisboa e reino 34 mil cruzados. Os italianos 500 cruzados, e os alemães dois mil e cem cruzados, que em tanto se estimaram 150 quintais de pólvora, que deram; montou tudo 220 mil cruzados, que foi o gasto da armada, sem entrar nele a fazenda de Sua Majestade, e assim veio provida abundantissimamente de todo o necessário para a viagem, porque além das matalotagens, que os particulares traziam de suas casas, se carregaram para a campanha sete mil e 500 quintais de biscoito, 854 pipas de vinho, mil 368 de água, quatro mil 190 arrobas de carne, três mil 739 de peixe, mil 782 de arroz, 122 quartos de azeite, 93 pipas de vinagre, fora outro muito provimento de queijos, passas, figos, legumes, amêndoas, açúcar, doces, especiarias, e sal; vinte e duas boticas, dois médicos, e quase em todos os navios cirurgiões; 200 camas para os enfermos, e muitas meias, sapatos e camisas; 310 peças de artilharia, pelouros redondos e de cadeia, dois mil e 500; mosquetes, e arcabuzes, dois mil 710; chumbo em pelouros, 209 quintais; piques e meios piques, mil 355. De morrão 202 quintais. De pólvora 500 quintais, e muitas palanquetas de ferro, lanternetas, pés-de-cabra, colheres, carregadores, guarda-cartuchos, e todos os mais petrechos necessários para o serviço da artilharia, e para o de fortificações e cerco; vieram muitas pás, enxadas, alviões, picões, foices roçadeiras, machados, serras, seiras de esparto, e carretas de terra; e para o conserto dos navios veio muito breu, alcatrão, cevo, pregadeiras sorteadas, estopa, chumbo em pasta, enxárcia, lona, pano de treu (sic), fio, e outras muitas miudezas, e para uma necessidade 20 mil cruzados em reais.




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Capítulo XXXVI

Como a armada de Portugal veio ao Cabo Verde esperar a real de Espanha, e daí vieram juntas à Bahia


Aos 19 de dezembro da dita era de 1624 tomou a nossa armada de Portugal as ilhas de Cabo Verde, donde levava ordem de Sua Majestade, que não passasse sem a armada da coroa de Castela; aos quatorze havia derrotado da mais armada o galeão Conceição, de que era capitão Antônio Moniz Barreto, mestre de campo; e aos vinte deu à costa com tormenta nos baixos de Santa Anna na ilha de Maio, das onze para a meia-noite, morreram cento e 50 soldados, que se lançaram ao mar, vendo que não iam com os fidalgos na primeira batelada, e ainda se houveram de lançar a perder mais, se não acudira d. Antônio de Menezes, capitão de infantaria, filho único de d. Carlos de Noronha, mancebo de 22 anos, exortando-os que tivessem paciência até tornar o batel, e esperança em Deus, que todos se haviam de salvar, nem ele os havia de desacompanhar até os ver todos salvos, postos em terra; o mesmo lhes disse d. Francisco Deça, filho de d. Jorge Deça, e com o exemplo destes dois fidalgos se deliberaram todos a passar ou no batel, ou em outros modos, que cada um inventava, de jangadas, e pranchas de paus e tábuas, entre os quais se salvaram também dois frades da nossa província de Santo Antônio, frei Antônio, e frei Francisco, que vinham por capelães do galeão, um no batel, outro em uma cruz, que engenhou de duas tábuas, figura daquela em que esteve, e está toda a nossa salvação, e remédio; chegando recado ao general d. Manuel de Menezes da desgraça do naufrágio, avisou logo ao governador de Cabo Verde Francisco de Vasconcellos, e a João Coelho da Cunha, senhor da ilha de Maio, onde o naufrágio sucedera, para que mandassem socorrer aos perdidos, o que eles fizeram com tanto cuidado que não só os curaram, e regalaram, mas com sua ajuda, de seus escravos, e criados se tirou a artilharia, munições, enxárcias do galeão, e outras causas tocantes assim à fazenda de Sua Majestade como de particulares, que se deram a seus donos, e com isto se entreteve ali a armada 50 dias, até chegar a de Castela, que esperavam, a qual era de 32 naus; na capitania real vinha por generalíssimo do mar e terra d. Fadrique de Toledo, por almirante d. João Fajardo, general do estreito, na sua.

Na capitania de Nápoles, capitão o marquês de Cropani, mestre de campo general da empresa. Na almeiranta o marquês de Torrecusa, mestre de campo do Terço de Nápoles. Na capitania de Biscaia, general Valezilha. Na almeiranta seu irmão. Na capitania de Quatro Vilas general d. Francisco de Azevedo. No galeão Santa Anna, que era também desta esquadra de Quatro Vilas, capitão d. Francisco de Andruca (?); e neste vinha o mestre de campo do Terço da Armada Real de Orelhana, em outro d. Pedro Osório, mestre de campo do Terço do Estreito, e em outros de todas as esquadras outros capitães, sargentos, e oficiais de guerra, a que não sei os nomes, mas nos tratados particulares, que se imprimiram da jornada, se poderão ver, e neste nos capítulos seguintes se verão as obras, das quais, mais que dos nomes, se colige a verdadeira nobreza.

Juntas pois estas armadas no Cabo Verde, e feitas suas salvas militares, e cortesãos cumprimentos, se partiram daí em 11 de fevereiro de 1625 em dia de entrudo para esta Bahia, à qual chegaram em 29 de março, véspera de Páscoa, a salvamento, somente se perdeu a nau Caridade, de que era capitão Lançarote de Franca, em os recifes da Paraíba, mas acudiu-lhe logo seu tio Afonso de Franca, que era capitão-mor da Paraíba, com barcos e marinheiros, e quatro caravelões, que mandou o governador de Pernambuco, com que salvaram não só a gente toda, exceto dois homens, que aceleradamente se haviam lançado ao mar, mas depois o casco da nau com todo o massame, armas, artilharia, munições, e o capitão Lançarote de Franca, deixando a nau, para que a mastreassem, porque lhe haviam cortado os mastros, se foi com os seus soldados a Pernambuco, e daí em sete caravelões, que o governador lhes deu, a Bahia, onde chegou no mesmo dia que a armada.




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Capítulo XXXVII

De como Salvador Correa, do Rio de Janeiro, e Jerônimo Cavalcanti, de Pernambuco vieram em socorro à Bahia, e o que lhes aconteceu com os holandeses no caminho


No capítulo vigésimo oitavo deste livro dissemos como depois da Bahia tomada pelos holandeses foi o seu almirante Pedro Peres com cinco naus de força, e dois patachos, para Angola; o fim, e intento, que os levou foi para a tomarem, e dela poderem trazer negros para os engenhos, para o qual diziam que se haviam contratado com el-rei de Congo, e na barra de Luanda andavam já outras naus suas, e tinham queimados alguns navios portugueses, e feitas outras presas em tempo que o bispo governava pela fugida do governador João Correa de Souza, porém como lhe sucedeu no governo Fernão de Souza, e teve disto notícia, se aprestou, e fortificou de modo que quando os holandeses chegaram não puderam conseguir o seu intento, nem fazer mais dano que tomar uma nau de Sevilha, que ia entrando, e dois navios pequenos, e assim se tornaram à costa do Brasil, e entraram no rio do Espírito Santo a 10 de março de 1625, onde havia poucos dias era chegado Salvador Correa de Sá e Benevides com 250 homens brancos e índios em quatro canoas e uma caravela, que seu pai Martim de Sá, governador do Rio de Janeiro, mandava em socorro da Bahia, o qual ajudou a Francisco de Aguiar Coutinho, governador e senhor daquela terra do Espírito Santo, a trincheirar a vila, pondo nas trincheiras quatro roqueiras, que na terra havia, e desembarcando os holandeses lhes tiraram com uma delas, e lhes mataram um homem; e depois de entrados na vila lhe saíram os nossos por todas as partes, com grande urro do gentio, e lhes mataram 35, e cativaram dois, sendo o primeiro que remeteu à espada com um capitão, que ia diante, Francisco de Aguiar Coutinho, dizendo-lhe «Se vós sois capitão conhecei-me, que também eu o sou», e com isto lhe deu uma grande cutilada, com que o derribou em terra; também o guardião da casa do nosso padre S. Francisco frei Manuel do Espírito Santo, que andava com os seus religiosos animando os nossos portugueses, vendo já os inimigos junto às trincheiras, se assomou por cima delas com um crucifixo dizendo «Sabei, luteranos, que este Senhor vos há de vencer», e com isto vendo-se livre de um chuveiro de pelouros, se foi ao sino da igreja Matriz, que ali estava perto, e o começou a repicar publicando vitória, com que a gente se animou mais a alcançá-la, de sorte que o general dos holandeses se retirou para as naus com perto de 100 feridos, de 300 que haviam desembarcado, e alguns. mortos, entre os quais foi um o seu almirante Guilherme Ians, e outro o traidor Rodrigo Pedro, que na mesma vila havia sido morador, e casado com mulher portuguesa, e sendo trazido por culpas a esta Bahia, fugiu do cárcere para Holanda, e vinha por capitão em uma nau nesta jornada, e com esta raiva mandou o general uma nau, e. quatro lanchas a queimar a caravela de Salvador Correa, que havia mandado meter pelo rio acima, em um estreito, mas ele acudiu nas suas canoas, e lhes matou quarenta homens, e tomou uma das lanchas.

O dia seguinte escreveu o general a Francisco de Aguiar neste modo: «Vossa Senhoria estará tão contente do sucesso passado, quanto eu estou sentido, mas são sucessos da guerra; se me quiser mandar os meus, que lá tem cativos, resgatá-los-ei, quando não, caber-nos-á mais mantimento aos que cá estamos».

Isto lhe escreveu o general cuidando que ficaram na terra menos mortos, e mais cativos, mas nem esses poucos lhe quis mandar o governador, e assim se fez o holandês à vela em 18 de março, e se partia com muito pouca gente, donde em saindo topou com o navio dos padres da companhia, em que nos haviam tomado, e os mesmos holandeses haviam dado a Antônio Maio, mestre do navio de d. Francisco Sarmento, em troco do seu, e vinha já outra vez do Rio de Janeiro carregado de açúcar para a ilha Terceira, o qual trouxeram até a barra da Bahia, e daí mandaram um patacho de noite reconhecer o estado do porto, e das naus que nele estavam, e por dizerem que era a armada de Espanha, descarregando nas suas, e pondo fogo ao navio, se foram por defronte de Olinda, em Pernambuco, donde tomaram um negro de João Guteres, que andava pescando em uma jangada, e lhe perguntaram se estava a Bahia recuperada, o qual não só lhes disse que sim, senão também que mandara o general d. Fadrique de Toledo matar as flamengos todos: e eles / ainda que era mentira / o creram, dizendo não seria ele castelhano, e descendente do duque de Alba; pelo que se foram à ilha de Fernão de Noronha a fazer aguada, e chacinas, com que se tornaram para Holanda levando o negro consigo; e aos mais negros e brancos, que haviam tomado no navio dos padres, deram um patachinho, em que foram cair a Paraíba, e contaram estas novas. E Salvador Correa, que ficou vitorioso no Espírito Santo, se partia nas suas canoas com a sua gente para a Bahia, onde se meteu entre a armada, e foi dos generais, e de todas aqueles fidalgos bem recebido.

Da mesma maneira sabendo Jerônimo Cavalcanti de Albuquerque, em Pernambuco, de Laçarote de Franca, que se perdeu na nau Caridade, na Paraíba, que a armada era passada para a Bahia, se embarcou em um navio por ordem do governador Mathias de Albuquerque, com dois irmãos seus, e outros parentes, e amigos, e 130 soldados, todas sustentados à sua custa, e vindo encontrou-se no mar com o patacho, que os holandeses haviam mandado vigiar antes da vinda da nossa armada, com cuja vinda ficou de fora; este cometeu o de Jerônimo Cavalcanti, e depois de se tirarem um, e outro muitas bombardadas, sendo mortos cinco dos nossos, um dos quais foi Estevão Ferreira, capitão da proa, que com estar ferido se não quis recolher até o não matarem os holandeses, e se foram, que não devia de ser sem terem também muitos mortos, ou recebido algum dano, e os Cavalcantis entraram na Bahia. donde foram bem recebidos de todos, particularmente do capitão-mor d. Francisco de Moura, seu primo, e do senhor de Pernambuco Duarte de Albuquerque, que havia vindo na armada por soldado, e Sua Majestade se deu do feito por bem servido, como o manifestou em uma carta, que escreveu ao mesmo Jerônimo Cavalcanti.




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Capítulo XXXVIII

Como desembarcaram os da armada, e os holandeses lhes foram dar um assalto a S. Bento, donde se começou a dar a primeira bateria


Melhor Páscoa cuidaram os holandeses que tivessem, quando a véspera dela pela manhã, a hora que na igreja se costuma cantar Aleluia, tiveram vista da armada imaginando ser a sua, que esperavam, porem tanto que a viram por de largo em fileira e meia-lua, que quase cercava da ponta de Santo Antônio até a de Tapuípe toda a enseada em que está a cidade, e virem-se os barcos dos portugueses do recôncavo meter entre ela, conheceram ser de Espanha, e se começaram aparelhar com muito cuidado, chegaram as suas naus à terra junto das fortalezas, e meteram três das mercantis, que tinham tomadas, no fundo diante das suas, para entupirem o passo às da nossa armada, que lhes não pudesse chegar, tiraram os marinheiros portugueses, que tinham a bordo, e os trouxeram para a cidade, notificando a eles, e aos mais, que nela estávamos que não saíssemos de casa; trouxeram algumas peças de artilharia para o colégio, e outras partes, per onde lhes pareceu que os poderiam entrar. Despejaram o forte de São Filipe, que esta uma légua da cidade, entendendo que lhes não eram 60 homens, que lá tinham, de tanto efeito coma nela.

Os da nossa armada neste tempo iam-se desembarcando junto ao forte de Santo Antônio dois mil castelhanos, 1500 portugueses, e 500 neopolitanos com seus mestres de campo, que eram dos castelhanos d. Pedro Osório, e d. João de Orelhana; dos portugueses d. Francisco de Almeida e Antônio Moniz Barreto, e dos neopolitanos o marquês de Torrecusa, dos quais deixou o general no quartel de S. Bento a d. Pedro Osório, d. Francisco de Almeida, e o marquês, cada um com o seu terço, que todos continham dois mil soldados, e ele se passou ao do Carmo com os mais, e logo se foi trazendo a artilharia para pôr em ambos, porque ambos estão em montes, e são quase os últimos de outros, que tem a cidade da banda da terra por padrastos. O que pressentindo os holandeses, e receando o dano, que dali lhes podiam fazer, saíram aos que estavam alojados em São Bento trezentos mosqueteiros à terceira oitava da Páscoa às 10 horas do dia, donde se começou uma batalha, que durou duas horas, na qual foram mortas dos nossos 80, porque como os vieram retirando até os fazerem recolher à cidade, da porta dela, e de outras fortalezas lhes tiraram tantas bombardadas com cargas de munição miúda, e de pregos, que puderam fazer toda esta matança, e ferir a muitos, do que os holandeses vieram mui contentes, e trouxeram por troféu uma coura de um capitão castelhano, cujo corpo, com cobiça dela, que era toda apassamanada de ouro, trouxeram arrastando até ao pé da ladeira onde do muro podiam chegar com qualquer arcabuz, e muito melhor com os mosquetes, de que eles usam, e assim vindo os nossos a buscá-lo de noite para lhe darem sepultura, lhes tiraram algumas mosquetadas, mas contudo o levaram, e o enterraram em sagrado com os mais, que neste assalto morreram pelejando animosamente que foram os de mais conta d. Pedro Osório, mestre de campo do Terço do Estreito, o capitão d. Diogo de Espinosa, o capitão d. Pedro de Santo Estevão, sobrinho do marquês de Cropani, João de Orejo, secretário do mestre de campo, d. Fernando Gracian, d. João de Torreblanca Francisco Manuel de Aguilar, d. Lucas de Segura, e d. Alonso de Agana, junta ao qual se achou na batalha d. Francisco de Faro, filho do conde de Faro, com um holandês a braços, e o matou, como também foram outros mortos e feridos, posto que poucos em comparação aos nossos, os quais com esta cólera sem mais aguardar assentaram logo a artilharia, e no dia seguinte, que foi quinta-feira 3 de abril, começaram com ela a bater a cidade, porque (sic) aquela parte fronteira a São Bento, abrindo-lhe grandes buracos no muro, que os holandeses tornavam a tapar de noite com sacos de terra, que para isto fizeram, mas não tanta a seu salvo, que cada noite lhes não matassem e ferissem alguns, com o que eles não desmaiavam, tendo esperança que viria cedo a sua armada, como um inglês feiticeiro lhes havia certificado, e por esta causa puseram uma grande bandeira com as suas armas no pináculo da torre da Sé, que está no mais alto lugar da cidade, para que vindo os seus a vissem, e pudessem entrar confiadamente conhecendo que estava a terra por sua. E a esta conta se defendiam, e nos ofendiam por todas os modos, que podiam, entre os quais foi um, que largaram duas naus de fogo uma noite com vento em popa, e maré para que fossem abalroar às nossas, e queimá-las, uma das quais pôs em risco a nossa almeiranta de Portugal, e sem falta se queimara se não ficara amarra, e largara o traquete, com que quis nosso Senhor que se livrasse do perigo.

A outra investiu com a almeiranta do estreito com tanto ímpeto, que se começava a derreter o breu, e chamuscar alguns soldados, mas também foi livre pela diligência e indústria de d. João Fajardo, a cujo cargo estava aarmada, e a canoa em que cuidaram escapar três holandeses, que governavam o fogo, foi tomada com um deles por uma chalupa de Roque Centena.

Nem deixavam com toda esta ocupação os holandeses todos os dias, manhã e tarde, de se ajuntarem à Sé a cantar salmos, e fazer deprecações a Deus que os ajudassem: donde um domingo pela manhã deu um pelouro, que vinha da nossa bateria de S. Bento, e passando a parede da capela de S. José levou as pernas a quatro, que estavam assentados em um banco, ouvindo a sua pregação, de que morreram dois.

Assistiam neste quartel de S. Bento, donde esta boiada se fez, e outras muitas, d. Francisco de Almeida, mestre de campo de um terço português e almirante da Armada Real da Coroa de Portugal, e com ele militaram d. João de Souza, alcaide-mor de Thomar, Antônio Correa, senhor da Casa de Belas, d. Antônio de Castelo Branco, senhor de Pombeiro, Rui de Moura Teles, senhor da Póvoa, d. Francisco Portugal, comendador da fronteira, d. Álvaro Coutinho, senhor de Almourol, Pedro Correa Gama, sargento-mor deste terço. O capitão Gonçalo de Souza, o capitão Manuel Dias de Andrade, o capitão Salvador Correa de Sá e Benevides, o capitão Jerônimo Cavalcanti de Albuquerque, seus irmãos, e outros nobres portugueses.

Assistia também com o seu terço de neopolitanos Carlos Caraciolos, marquês de Torrecusa, enquanto se não mudou a outro sítio. E do terço do estreito muitos fidalgos e capitães, que todos uns, e outros a inveja no cavar da terra para os valos pareciam cavadores de ofício, no carregar da faxina para as trincheiras mariolas, mas no disparar dos mosquetes, e muito mais em esperar os dos inimigos, valorosos soldados.

N. B.- Este capítulo trigésimo oitavo foi copiado das adições e emendas a esta História do Brasil, que existem no Real Arquivo da Torre do Tombo.




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Capítulo XXXIX

Da segunda bateria, que se fez do mosteiro do Carmo, onde assistiu o general d. Fadrique de Toledo, e outras duas, que dela se derivaram


Não trabalharam menos os que militaram na bateria do Carmo com o general d. Fadrique, mas como os de São Bento foram picados daquele assalto dos holandeses, não houve rédea, que os tivesse, a não serem os primeiros; além de que acharam um pedaço de muro do próprio mosteiro de que se ajudaram para a trincheira, e os do Carmo a fizeram toda de novo, assim para a banda da cidade, a cuja porta fica este monte fronteiro da parte do norte, como para as naus inimigas, que lhe ficavam ao pé da banda do poente, às quais começaram de tirar em 9 de abril, tratando-as mui mal com os pelouros, e a maior delas, que era do capitão Sansão, e tinha duas andainas de artilharia meteram no fundo, posto que ali o fundo é pouco por estar muito chegada à terra, e a nau ser grande, ainda ficou com grande parte sobre a água, mas perderam-se-lhe alguns mantimentos, e coisas que estavam no porão, e mataram-lhe quatro homens, e feriram 12.

Não foi menos o dano, que desta bateria fizeram na cidade furando-lhe o muro e a porta, e derribando muitas casas, pelo que prometeu o coronel a todos os holandeses, que de noite trabalhassem no reparo dos muros e trincheiras, duas patacas a cada um; parque de dia sem estipêndio o faziam, e assim era contínuo o trabalho, e sabre este fazer e desfazer, romper, e reparar de muros era também contínua a bateria de peças, e mosquetes, e se matava de parte a parte alguma gente; entre outros foi mui notável um tiro, que tiraram desta bateria do Carmo à outra, que tinham os holandeses à porta da Sé, onde deu o pelouro na terra debaixo dos pés de um sargento, e sem lhe fazer mais dano, que fazê-lo saltar como quem dançando faz uma cabriola, varou ao hospital, e rompendo a parede matou a dois cirurgiões, que estavam curando a seus feridos, e feriu de novo a um dos feridos.

Da mesma maneira foram mortos alguns dos nossos, como foi Martim Afonso, Morgado de Oliveira, que recolhendo-se a casa a vestir uma camisa, suado do trabalho de carregar faxina, e carregar e descarregar mosquetes, assentando-se à janela a tomar um pouco de ar, o feriu uma peça dos holandeses em uma perna, de que em três dias morreu com tanto valor e cristandade como se esperava de tão qualificada pessoa, o qual se embarcou enfermo de Lisboa, e advertindo-o parentes e amigos que não tratasse da jornada, respondeu que ungido havia de ir nela, tanto era o desejo, que tinha do serviço do seu rei, não só nesta ocasião, mas em outras muitas ia bem mostrado; o qual Sua Majestade lhe soube bem gratificar depois de sua morte nas mercês que fez a seus filhos, como adiante veremos.

Este foi um dos fidalgos portugueses, que militava neste quartel do Carmo, de que havemos tratado, e vamos tratando, com Sua Excelência; os outros eram d. Afonso de Noronha; o conde de São João Luiz Álvares de Távora, cunhado do dito Morgado de Oliveira; o conde de Vimioso D. Afonso de Portugal; o conde de Tarouca d. Duarte de Menezes; Duarte de Albuquerque; Francisco de Mello de Castro; Álvaro Pires de Távora; João da Silva Tello; Lourenço Pires de Carvalho; d. João de Portugal; Martim Afonso de Távora; Antônio Teles da Silva; o capitão d. João Teles de Menezes; o capitão Cristóvão Cabral; o capitão d. Álvaro de Abranches; o capitão d. Antônio de Menezes; o capitão d. Sancho de Faro, e outros.

Desta estância do Carmo ordenou o general d. Fadrique que se fizessem outras duas, uma nas palmeiras, em que estiveram os mestres de campo d. João de Orelhana, e Antônio Moniz Barreto, e Tristão de Mendonça, capitão-mor da esquadra do Porto, com dois sobrinhos seus Francisco e Cristóvão de Mendonça, d. Henrique de Menezes, senhor de Louriçal; Rui Correa Locas, Nuno da Cunha, Antônio Taveira de Avelar, o capitão Lançarote de Franca, o capitão Diogo Ferreira, e outros; e foi esta estância de muita importância, por ser mais alta que todas, e não estarem as dos holandeses por aquela fronteira tão fortificadas, e assim lhe descavalgaram as suas peças, e lhes mataram e feriram muitos homens, posta que também nos mataram alguns, e entre eles o capitão Diogo Ferreira, que foi um dos três irmãos vianeses, que ganhou por sorte de dados o vir na jornada, que dissemos na capítulo trinta e três, e também outro a que chamavam João Ferreira, que vinha por provedor-mor da fazenda deste estado do Brasil com um navio armado, fretado à sua custa, morreu em Lisboa de uma febre aguda, ficando o que perdeu na sorte dos dados com vida, e fazenda em sua casa e pátria, ainda chorando porque não foi um deles.

A outra estância e bateria foi de d. Francisco de Moura com a gente da Bahia, e capitães dos assaltos, donde assistiram também alguns criados de Duarte de Albuquerque Coelho, capitão, governador, e senhor de Pernambuco; e esta foi muito arriscada bateria, porque estava diante da de d. Fadrique um tiro de arcabuz, mui chegada à cidade, e fronteira ao Colégio dos Padres da Companhia, donde os holandeses batiam com seis peças, e de parte a parte se fazia muito dano.




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Capítulo XL

De outras trincheiras, que se fizeram da parte de S. Bento, e como se começaram a dividir os franceses dos holandeses


Também / e ainda antes das duas estâncias sobreditas / fizeram as suas d. Manuel de Menezes, e d. João Fajardo à parte de S. Bento, em um morro junto ao mar, sobre a ribeira que chamam de Gabriel Soares, donde fizeram muito dano com cinco peças de artilharia não só aos navios holandeses, e às fortalezas da praia, que toda dali se descobria, mas também a algumas da cidade.

Entre esta estância, e a de S. Bento fez também o marquês de Torrecusa, mestre de campo do terço dos napolitanos, os quais ainda que ficavam bem fronteiros à porta da cidade, e tão perto dela, que não só com a artilharia grossa, mas com a miúda podiam fazer dano, desejosos / parece / de virem às mãos com cólera de italianos, foram fazendo uma cava, com que chegaram ao pé do muro. Estas sete estâncias, que estão ditas nestes três capítulos, são donde se fez bateria à cidade, sem se deixar de ouvir estrondo de bombardas, esmerilhões, e mosquetes de parte a parte, um quarto de hora, de dia nem de noite, em 23 dias que durou o cerco, e eram tantos os pelouros pelo ar, que milagrosamente escapavam as pessoas assim nas casas, como nas ruas, e caminhos; nem faltou curioso que contasse, e diz que foram as balas grossas que os inimigos tiraram 2.510, e as que os nossos lhe tiraram 4.168. O qual para que melhor se entenda porei aqui a descrição da cidade, e sítio das fortalezas, donde se tirava de dentro, e de fora dela, que é a seguinte.

Bem entenderam por estas vésperas os inimigos qual seria a festa quando os nossos entrassem na cidade, e com este receio se começaram já os franceses a dividir dos holandeses determinando fugir para os nossos, da qual ocasião se quis aproveitar também um soldado português indiático, que os holandeses haviam tomado vinda de Angola, e se havia alistada com soldo, entrando, e saindo com eles da guarda, o qual sabendo a determinação dos franceses se concertou com quatro para pôr fogo à pólvora, e alegando este serviço, que não era pequeno, alcançar perdão da vida, porém um o descobriu ao coronel, o qual mandou logo prender, e enforcar o português, e um dos franceses, que os outros dois lhe fugiram para os nossos; pela que mandou o coronel lançar bando pelas ruas, a som de dez ou doze tambores, que todo o que soubesse de outro, que quisesse fugir, e lho fosse denunciar lhe daria quatrocentos cruzados, e daí avante se teve muita vigia sabre os franceses na poste que faziam.




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Capítulo XLI

De como se levantaram os soldados holandeses contra o seu coronel Guilhelmo Scutis, e depondo-o do cargo elegeram outro em seu lugar


Aos 26 dias do mês de abril, que era um sábado, dia dedicado à Virgem Sacratíssima Senhora Nossa, em que costuma fazer particulares mercês a seus devotos, favoreceu sinaladamente aos que estavam na sua bateria, e trincheira do Carmo, dando-lhes este dia tanto ânimo e coragem, que alguns sem temor da artilharia e mosquetes, que disparavam os inimigos, chegaram até à porta da cidade, e um soldado aragonês chamado João Vidal, da companhia de d. Afonso de Alencastre, chegou a tomar a bandeira, que estava sobre a porta, e por entre as balas, que os inimigos lhe tiravam a levou ao seu capitão, e dele ao general, que inda que repreendeu a sorte, por se fazer sem ordem sua, recebeu o caso como o merecia o valor dele, e fez acrescentar ao soldado oito escudos de vantagem.

Sucedeu também que sacudindo, no mesmo tempo, o morrão um holandês, que estava de guarda naquela parte, deram as faíscas em um barril de pólvora, com que se chamuscaram 25 de tal maneira, que não puderam mais manear as armas, coisa que eles diziam naquela ocasião sentir mais que a própria morte, porque morrendo, só os mortos faltavam na peleja, mas sendo lesos e feridos, faltavam também os cirurgiões, e enfermeiros, que com sua cura se ocupavam, tão desejosos andavam da vitória, que a antepunham às suas próprias vidas; e porque a seu coronel acudiu tarde a este rebate, e já em outras ocasiões o haviam notado de descuidado, e tratava de cometer concerto, segundo o descobriu a uma sua amiga portuguesa, se conjuraram trinta soldados, e foram para o matar dentro em sua casa, e a Estevão Raquete, capitão da Companhia de Mercadores, que com ele estava, mas este fugiu, e feriram o coronel com uma alabarda na cabeça e nas mãos, o que dizem se fez com consentimento dos capitães, cuja prova é não se prender alguns dos ditos soldados, e logo as do Conselho privarem o ferido do cargo, e elegerem por coronel o capitão-mor chamado Quife, e em seu lugar por capitão-mor, ou mestre de campo o capitão Buste.

Incrível é a insolência com que nisto se houveram estes soldados, pois não bastou o novo coronel mandar prender a Estevão Raquete na cadeia pública para se quietarem, senão que ainda lá foram dois para o matarem, e o houveram de fazer se lhe não acudiram outros presas, e o próprio coronel, o qual os mandou prender; os outros se foram à casa da portuguesa também para a matar se lhes não fugira para casa de um português casado, que a escondeu e vingaram-se em lhe roubarem quanta lhe acharam, que não era pouco o que o coronel lhe havia dado.

Não é menos incrível a vigilância e cuidado, com que a novo coronel de dia e de noite trabalhava recolhendo-se com as trincheiras para dentro, para assestar nela a artilharia, quando as de fora fossem de todo rotas, e traçando outros ardis, e invenções de guerra, com que se pudessem entreter até lhes vir o socorro da sua armada, que esperavam, e em que tinham toda a sua confiança.




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Capítulo XLII

De como se entregaram os holandeses a concerto


Quão enganados vivem os homens, que põem a sua confiança nas forças e indústria humanas, experimentaram brevemente os holandeses nesta cidade da Bahia, cuja guarda e defensão cuidavam estar em tirarem um capitão, e porem outro mais diligente e industrioso, senda certo o que diz David que se a Senhor não guarda a cidade, em vão vigiam os que a guardam. E assim não passaram três dias inteiros, que se não desenganassem do seu intento, vendo que já não podiam reparar o dano, que das nossas baterias lhes faziam, e enfim vieram a entender que lhes convinha fazer concerto, que ao outro coronel haviam estranhado, mas ainda o fizeram paleado com uma capa de honra, mandando por um tambor uma carta ao general d. Fadrique ao Carmo, em que lhe diziam que aquela manhã haviam ouvido uma trombeta nossa, que segundo seu parecer os chamava, e convidava a paz, a qual também eles queriam, e para tratar dela houvesse entretanto tréguas. Ao que respondeu d. Fadrique que ele não chamava a sitiados, e cercados com trombetas, senão com vozes de artilharia, mas se eles a estas acudiam, e queriam causa que não fosse contrária à honra de Deus, e del-rei, estava prestes para os ouvir, com o que logo se começou a tratar das pazes, e estavam as holandeses tão desejosos delas, que na mesma hora os que ficavam fronteiras à bateria das palmeiras, a qual estava à ordem de d. João de Orelhana, e Antônio Moniz Barreto, mestre de campo, e de Tristão de Mendonça, capitão-mor da esquadra do Porto, se foram para eles levantando as mãos em sinal de rendidos, aos quais desceu a falar o dito Tristão de Mendonça, e Lançarote de Franca, capitão da infantaria, que se foi com eles a falar ao coronel, e do quartel do Carmo, por ordem de Sua Excelência, João Vicente de S. Felix, e Diogo Ruiz, tenente do mestre de campo general, e depois outros recados de parte até se concluir o concerto, o qual se fez por escritura pública em presença de pessoas do Conselho, que foram da parte dos holandeses Guilhelmo Stop, Hugo Antônio, e Francisco Duchs.

Da parte de Sua Majestade o marquês d. Fadrique, o marquês de Cropani, d. Francisco de Almeida, e Antônio Moniz Barreto, mestres de campo de dois terços de portugueses: d. João de Orelhana, mestre de campo de um terço castelhano: d. Jerônimo Quexada, auditor-geral da armada castelhana, Diogo Ruiz, tenente do mestre de campo general, e João Vicente de S. Felix, as quais todos, depois de suas conferências, assentaram que os holandeses entregariam a cidade ao general d. Fadrique de Toledo em nome de Sua Majestade, no estado em que se achava aquele dia 30 de abril de 1625, a saber, com toda a artilharia, armas, bandeiras, munições, petrechos, bastimentos, navios, dinheiro, ouro, prata, jóias, mercancias, negros escravos, cavalos, e tudo o mais, que se achasse na cidade de Salvador, com todas os presos que tivessem, e que não tomariam armas contra Sua Majestade até se verem em Holanda. E o general em nome de Sua Majestade lhes concedeu que todos pudessem sair da cidade livremente com sua roupa de vestir e cama, os capitães e oficiais cada um em seu baú ou caixa, e os soldados em suas mochilas, e não outra coisa, e que lhes daria passaporte para os navios de Sua Majestade, não os achando fora da derrota da sua terra, e embarcações em que comodamente pudessem ir, e mantimentos necessários para três meses e meio, e que lhes dariam os instrumentos náuticos para sua navegação, e os tratariam sem agravo, e lhes dariam armas para sua defesa na viagem, sem as quais sairiam até os navios, salvo os capitães, que poderiam sair com suas espadas.

Assinaram-se estas capitulações no quartel do Carmo a 30 de abril de 1625, por d. Fadrique de Toledo Osório. Guilhelmo Stop. Hugo Antônio. Francisco Duchs.

N. B.- Este capítulo foi copiado das adições e emendas a esta História do Brasil.




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Capítulo XLIII

De como se tomou entrega da cidade, e despojos: graças, que se deram a Deus pela vitória, e aviso, que se mandou à Espanha


No primeiro de maio da dita era, dia dos bem-aventurados Apóstolos S. Filipe e Santiago, se abriram as portas da cidade, e entrando por elas o nosso exército bem ordenado, se puseram logo postas nas partes que era necessário. E os holandeses / que ainda eram mil novecentos e dezenove / se recolheram nas casas da praia com boa guarda de soldadas espanhóis; e depois nas suas naus, com encargo de as concertarem, e calafetarem os seus carpinteiros e calafates. Também foram logo presos os portugueses, que se ficaram com eles, e se lhes fez inventário da sua fazenda, como também se fez de toda a que foi achada em poder dos holandeses, e das mais coisas que entregaram, que foram 600 negros, uns fugidos de seus senhores para o inimigo com amor da liberdade, outras de presas que tomaram em navios, que vinham de Angola.

Entregaram mais seis navios e duas lanchas, porque ainda que quando entrou a nossa armada na Bahia tinham 21, já as outras eram queimados, ou metidos no fundo.

Item - entregaram 16 bandeiras de companhias, e o estandarte, que estava na torre da Sé: 216 peças de artilharia, 40 de bronze, e as mais de ferro. E 35 pedreiros, 500 quintais de pólvora embarrilados: balas, bombas, granadas, e outros artifícios de fogo em abundância, 1.578 mosquetes, 133 escopetas, e arcabuzes, grande quantidade de cobre em pasta; 870 morriões; 84 peitos fortes, grande número de outros, e espaldares; 21 quintal de morrão; e todas as fazendas, que haviam tomadas, assim das lojas dos mercadores, e casas da cidade, como de navios, e muitas que trouxeram de sua terra, as mais das quais tinham metidas no colégio dos Padres da Companhia, onde os mercadores moravam, para as venderem quando achassem compradores, e se o Colégio lhe servia de loja de mercancias, e morada de mercadores, a igreja lhes servia de adega. E depois que os vinhos se acabaram, de enfermaria.

Da mesma maneira estavam profanadas todas as outras igrejas da cidade, porque a do nosso seráfico padre servia de armazém de pólvora e armas, e no dormitório morava um capitão, e companhia de soldados. A ermida de Nossa Senhora da Ajuda era outro armazém de pólvora. A Misericórdia também era sua enfermaria: e só na Sé pregavam, e enterravam os capitães defuntos, que para os mais fizeram cemitério do Rocio, que fica defronte dos padres da companhia. E assim não houve outra igreja, que fosse necessária desviolar-se senão a Sé, causa que as hereges sentiram muito, ver que desenterraram dois seus coronéis, e outros capitães, que ali estavam enterrados, e chamaram alguns para que mostrassem as sepulturas, e os levassem a enterrar ao campo, para se haver de celebrar a primeira missa in gratiarum actionem15, a qual cantou solenemente o vigário-geral do bispado do Brasil, o cônego Francisco Gonçalves, aos cinco dias do mês de maio.

Foram diácono e subdiácono dois clérigos castelhanos capelães da armada. Pregou o padre frei Gaspar da sagrada Ordem das Pregadores, que d. Afonso de Noronha trazia por seu confessor. Nela se ajuntaram os generais da empresa com todas os fidalgos, que nela se acharam de Portugal e Castela.

Depois se fez o mesmo nas outras igrejas, pela mercê da vitória alcançada, e se fizeram ofícios pelos católicos que nela morreram. Aqui confesso eu minha insuficiência para poder relatar os júbilos, a consolação, a alegria, que todos sentíamos em ver que nos púlpitos, onde se haviam pregado heresias, se tornava a pregar a verdade de nossa fé católica, e nos altares, donde se haviam tirado ignominiosamente as imagens dos santos, as víamos já com reverência restituídas, e sobretudo víamos já o nosso Deus no Santíssimo Sacramento do altar, do qual estávamos havia um ano privados, servindo-nos as lágrimas de pão de dia, e de noite, como a David quando lhe diziam os inimigos cada dia «Onde esta o teu Deus?» E depois de lhe darmos por isto as graças, as dávamos também ao nosso católico rei por haver sido por meio de suas armas o instrumento deste bem.

E daqui entendo eu que se o seu reino de Espanha se pinta em figura de uma donzela mui formosa com a espada em uma mão, e espigas de trigo na outra, não é só para denotar sua fortaleza, e fertilidade, mas para significar como pelas armas de seus exércitos se goza este divino trigo em todo o mundo.

O aviso deste sucesso venturoso se encarregou por particular a d. Henrique de Alagon, que no assalto que os holandeses deram a São Bento, foi ferido de dois pelouros, a quem acompanhou o capitão d. Pedro Gomes de Porrez, do hábito de Calatrava, no patacho de que era capitão Martim de Lano. O treslado da carta, que levou de d. Fadrique para Sua Majestade é o seguinte.

«Senhor: eu hei trazido a meu cargo as armas de Vossa Majestade a esta província do Brasil, e nosso Senhor há vencido com elas, se hei acertado a servir a Vossa Majestade, com isto estou sobejamente premiado. As ocupações de dar cobro a cidade restituir a Nosso Senhor seus templos, tratar dos negócios da justiça, que Vossa Majestade me encarregou, e castigo dos culpados, carena de algumas naus, bastimento para a armada, em que há bem que fazer: aviamento, e despacho dos rendidos, que hão de tornar a sua terra, e o deste aviso, e outras mil coisas me tem sem hora de tempo: o que faltar na relação emendarei no segundo aviso. d. João Fajardo há servido a Vossa Majestade melhor que eu, porque há assistido no apresto do que há desembarcado do mar com grande cuidado, que não há sido menos essencial que o das armas; também esteve na segunda bateria, que se fez aos navios, e em tudo há procurado servir a Vossa Majestade, e ajudar-me como pessoa de tantas obrigações.

O mesmo há feito d. Manuel de Menezes. O marquês de Cropani há trabalhado, ainda que velho, como moço, com o fervor, e zelo que outras vezes, dando a Vossa Majestade obrigação de fazer-lhe mercê, e honra, e a mim de suplicá-lo a Vossa Majestade, etc.»



E assim prosseguiu depois em outras o louvor de todos em geral com a liberalidade, que é mui própria na nobreza castelhana. Foi feita a dita carta a doze de maio, e chegou brevemente a Madri, onde Sua Majestade fez dar solenemente as graças a Nossa Senhor pela mercê recebida, sobre outras mui grandes, que este ano de mil seiscentos e vinte e cinco recebeu, como foi livrar-lhe Cadiz de uma poderosa armada de 130 navios ingleses, da qual livrou também milagrosamente a frota de Índias, que aquele ano trazia 17 milhões em ouro, prata e frutos da terra. E o milagre foi que tanta que os ingleses aportaram em Cadiz, mandou S. Majestade despachar seis caravelas com grandes prêmios a frota para que fosse aportar a Lisboa ou Galiza, por não ser presa dos inimigos; caiu uma das caravelas nas mãos dos ingleses, os quais, tenda por certo que esperando a frota em quarenta graus se fariam senhores dela, partiram logo de Cadiz a pôr-se naquela altura, mas foi Deus servido que nenhuma caravela das nossas acertou com a frota, e assim veio direita a Cadiz, vinte dias depois da inglesa a estar esperando na paragem por onde houvera de vir se lhe deram o recado de Sua Majestade.

Nem aqui parou a sua desgraça, e ventura nossa, senão que a sua armada se perdeu depois com tempestades, e tormentas, de sorte que a menor parte dela tornou a sua terra. Em Flandres foi tomada aos hereges a poderosa cidade de Breda. E no Brasil / coma temos dito / recuperada de outros a Bahia, que o ano dantes a tinham ocupada. Bem parece que foi aquele bissexto e estoutro de Jubileu, em que o vigário de Cristo em Roma tão liberalmente abre, e comunica aos fiéis o tesouro da igreja, para que confessando-se sejam absolutos de culpas, e censuras, que são muitas vezes as que impedem as mercês e benefícios divinos, e nos acarretam os castigos. E principalmente se pode atribuir a felicidade deste ano a Espanha, em ser nele celebrada a canonização de Santa Isabel, rainha de Portugal, e natural do reino de Aragão, por cuja intercessão e merecimentos podemos crer que fez, e fará Deus muitas mercês a estes reinos.

N. B.- Este capítulo foi copiado das emendas a esta História do Brasil.




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Capítulo XLIV

Da guerra que o governador Mathias de Albuquerque mandou dar ao gentio da Serra da Copaoba, que se rebelou na ocasião dos holandeses


Não só o gentio da beira-mar se rebelou nesta ocasião dos holandeses contra os portugueses, mas também os do sertão e serra de Copaoba, e a esta conta mataram logo 18 vizinhos seus, e lhes cativaram seis filhas moças donzelas, e alguns meninos; pelo que o capitão-mor da Paraíba, Afonso de Franca, tanto que Francisco Coelho se partiu, mandou a capitão Antônio Lopes de Oliveira, e à sua ardem os capitães Antônio de Valadares e João Afonso Pinheiro com muita gente branca, e o padre Gaspar da Cruz com os índios Tabajaras, nossos amigos, e inimigos antigos dos Potiguares rebelados, para que lhes fossem fazer guerra, e os castigassem como mereciam: os quais os não acharam já na serra, porque pressentindo isto / coisa mui natural nos que se sentem culpados /, pondo fogo às aldeias e igrejas, que nelas tinham, / porque já muitos haviam recebido o Sacramento do Batismo /, se haviam ido meter com os Tapuias, dali mais de 100 léguas, para que os ajudassem, e defendessem dos portugueses, levando-lhe de presente as donzelas e meninos, que haviam tomado na Paraíba, do que tudo informado o governador Mathias de Albuquerque, mandou suster na jornada Antônio Lopes de Oliveira, e os mais capitães que iam da Paraíba, até se informar melhor do caso, e tomar conselho sobre a justiça da guerra; para o que fez ajuntar em sua casa os prelados das religiões, teólogos, e outros letrados, canonistas e legistas, e concluindo-se entre eles ser a causa da guerra justa, e pelo conseguinte os que fossem nela tomados escravos, que são no Brasil os despojos dos soldados, e ainda o soldo, porque o gentio não possui outros bens, nem os que vão a estas guerras recebem outro soldo.

Logo o governador mandou os capitães Simão Fernandes Jacome e Gomes de Abreu Soares, e por cabo deles Gregório Lopes de Abreu, com suas companhias; os quais chegando a Paraíba, e informados de Antônio Lopes de Oliveira do lugar para onde o gentio tinha fugido, mandaram os mantimentos, e alguma gente até o Rio Grande por mar, e se partiram por terra para daí levarem outra companhia, que por mandado do governador geral lhe deu o capitão Francisco Gomes de Mello, e foi por capitão dela Pero Vaz Pinto a ordem também de Gregório Lopes de Abreu, os quais começaram todos a marchar pelo sertão, onde padeceram grandes fomes, e sedes, e aconteceu andarem três dias sem acharem água para beber, pelo que desesperados de todo o remédio humano, e esperando só nos merecimentos e intercessão do bem-aventurado Santo Antônio, cuja imagem levavam consigo, o começaram a invocar uma tarde, e cavar na terra seca pedindo que lhes desse água, e foi coisa maravilhosa, que a poucas enxadadas saiu em tanta quantidade, que todos os do alojamento muito se abastaram aquela noite, e o dia seguinte, enchendo suas vasilhas para caminharem, a água se secou.

Dali a três jornadas deram com uns poucos dos índios, e os tomaram para lhes servirem de guias, posto que fugiu um, que levou aviso aos mais; pelo que quando chegaram os nossos os acharam já postos em arma; mas nem isso bastou, para que os não cometessem com tanto ímpeto, e ânimo, que lhes mataram muitos, não perdoando os nossos Tabajaras a mulheres nem meninos, pela vontade que levavam aos rebeldes, o que visto pelos Tapuias, depois de haverem sustentado a briga dois dias, mandaram perguntar a Gregório Lopes, cabo das nossas companhias, que vinda fora aquela às suas terras, donde nunca foram brancos a fazer-lhes guerra, não lhes tendo eles dado causa a ela? O qual respondeu que não o haviam com eles, senão enquanto eram fautores e defensores dos Potiguares, que se haviam rebelado contra o seu rei, havendo-lhe prometido vassalagem, e se haviam confederado com os holandeses, e morto os portugueses seus vizinhos contra as pazes, que tinham celebradas, e assim se desenganassem que, senão, iria sem os levar cativos ao governador, ou lhes custaria a vida, com o qual desengano lhe trouxe o principal dos Tapuias, dois principais dos rebeldes, chamado um Cipoúna, e outro Tiquaruçu, para que tratassem de pazes, e concerto, como trataram; e em resolução foi que se queriam entregar com toda a sua gente da serra de Copaoba ao governador, para que dispusesse deles como lhe parecesse justiça, dando-lhe para isto um mês de espera; o que o capitão Gregório Lopes aceitou pela necessidade em que os seus estavam de mantimento, trazendo logo consigo muitos dos filhos em reféns, e as moças brancas, e meninos, que tinham presos.

Nem este concerto aceitou, e fez com o principal Tiquaruçu, que era mais culpado, antes o mandou matar logo em presença de todos às cutiladas. Não com Cipoúna, o qual cumpriu depois à risca, trazendo toda a sua gente, no tempo que ficou, para que o governador dispusesse dela à sua vontade, e o governador, sem tomar nenhum por si, cometeu ao desembargador João de Sousa Cardines que os repartisse pelos soldados e outros moradores, para que os servissem em pena de sua culpa, e rebelião, mas muitos se acolheram a sagrado das doutrinas dos padres da companhia, onde foram bem acolhidos, porque ali se doutrinam, e conservam melhor, que nas casas dos seculares, como já outras vezes tenho dito.

N. B.- Este capítulo quadragésimo quarto foi copiado desta História do Brasil por frei Vicente do Salvador; porém o capítulo quadragésimo quarto que está nas adições e emendas a esta História é o que se segue.




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Capítulo XLIV (bis)

Da armada, que veio de Holanda a Bahia em socorro dos seus, e do mais, que sucedeu até a partida da nossa


Não se podia dizer que a guerra era acabada, por se haver recuperada a cidade dos holandeses, pois ainda se esperava pela sua armada do socorro. E assim chegou logo um navio de Angola, que deu por nova andar no morro uma nau, e um patacho, que tinham tomado dois navios nossos, um de mantimentos para a armada de Portugal, que vinha de Lisboa, outro da ilha da Madeira, com vinhos, que também se mandava à armada, e ao conde de Vimioso da sua capitania de Machico; saiu-lhes Tristão de Mendonça, e o capitão Gregório Soares, por mandado do seu general d. Manuel de Menezes, e tomaram o dos mantimentos com os holandeses, que dentro estavam. Também mandou d. João Fajardo um patacho, que tomou o dos vinhos, e dos holandeses, que tomaram destes dois navios, constou que vinha já a sua armada do socorro, a qual poucos dias depois, aos 26 de maio pela manhã, apareceu na barra; eram 34 naus, 15 grandes do estado, e as mais de frete, e assim eram duas capitanias. Às duas horas depois do meio-dia entraram todas enfiadas umas traz outras para dentro com tanta confiança que provavelmente se entendeu deviam ainda cuidar que estava a cidade por sua, e que fora bom o conselho, que o marquês de Coprani havia dado, que se não abalasse a nossa armada, porque eles viriam surgir junto dela, acrescentando que seria bom tirar-se a bandeira real, que haviam posto na torre da Sé, e pôr em seu lugar a holandesa, que haviam tirado, e dispararem da nossa armada alguns tiros à cidade, e da cidade à armada, para que se confirmassem os holandeses no que cuidavam, e lhes viessem a cair nas mãos: porém d. Fadrique respondeu o que referem de Alexandre Magno que não era honra alcançar vitória com enganos, e mandou sair os navios mais pequenos logo pela manhã com ordem que não pelejassem, até não chegarem as capitânias, as quais se desamarraram tão tarde, que havendo ido os primeiros em vento e maré favorável, acharam já tudo contrário, o dia que se ia acabando, e os inimigos retirando-se, pelo que mandou tirar um tiro de recolher, e também por ver que havia um galeão nosso, chamado Santa Tereza, dado em seco nos baixos da parte da Itaparica, o qual cortando-lhe o mastro grande, nadou, e saiu do perigo. E os holandeses, posto que alguns tocaram o baixo, saíram, e se foram todos a seu salvo aquela noite na volta do mar, sem perderem mais que dois batéis, que se desamarraram, ou largaram por mão, e uma bandeira que a almeiranta de Nápoles levou com um pelouro a um deles da quadra: onde se perdeu a mais gloriosa empresa, que se podia ganhar, com a qual, junta a que haviam alcançado na cidade, se ficavam quebrando os braços aos inimigos, para nos não poderem tão cedo fazer dano, mas parece que os quis Deus deixar ainda no Brasil / como deixou os cananeus aos filhos de Israel / para freio de nossos pecados; e assim se foram logo desta Bahia à da Traição, do que sendo avisado d. Fadrique por via de Pernambuco, mandou à pressa aprestar a armada para ver se de caminho, em caso que ainda aí estivessem, os podia levar. E para este efeito mandou que João Vincêncio Sanfeliche, de quem se valia nas coisas de mais consideração, e o general Francisco de Vallecilha, como tão experimentado na náutica, se adiantasse a Pernambuco com instrução que em companhia do governador Mathias de Albuquerque, e das pessoas mais práticas o informasse do sítio da baía da Traição, suas particularidades, e capacidade, para ver se achando-se a armada inimiga nela, poderia entrar a de Espanha a desalojá-la, e não podendo, que conviria fazer em resolução de não perder tempo quando chegasse a Pernambuco, senão que pudesse executar o que tivessem determinado, pelo que fez logo o governador juntar todos os pilotos em sua casa, e com seu parecer assentaram que na boca da dita baía não havia mais que 15 ou 16 palmos de água, com que era impossível entrar a armada de Espanha, além de que a parte que tinha mais fundo estava ocupada com os navios de Holanda; e assim o melhor seria surgir a nossa armada defronte da barra, e saltearem os inimigos por terra até os forçar a sair; e para isto haviam prevenido cem juntas de bois, e carros para tirar a artilharia, mil índios da Paraíba, e mil homens brancos de Pernambuco, que com os mais, que d. Fadrique mandaria desembarcar dos seus, seria bastante para conseguir seu intento, o qual por esta causa deu conclusão às coisas da Bahia.

Mandou enforcar dos portugueses, que estavam presos por voluntariamente se haverem ficado com os holandeses, quatro, e dos negros, que se confederaram com eles, seis, sendo primeiro uns e outros ouvidos, e julgados pelo auditor-geral. Repartiu os despojos das mercadorias, e fazendas, que os holandeses haviam tomado aos moradores, pelos soldados da armada. Donde trouxe um pregador, pregando naquela ocasião muito a propósito aquilo do primeiro capítulo do profeta Joel / Residuum erucae comedit locusta /, porque o que haviam deixado os inimigos lhes levaram os amigos, que vieram para os socorrer, e remediar. E se ainda destes restou alguma coisa / residuum locustae comedit bruchus /, que foi o presídio de mil soldados, que o dito general deixou da armada na cidade, no qual deixou por sargento-mor Pedro Correa, que o havia sido de um dos terços de Portugal, soldado velho, experimentado nas guerras de Flandres.

Fez capitães da infantaria a Francisco Padilha, Manuel Gonçalves, Antônio de Moraes, e Pero Mendes, que o haviam sido dos assaltos, e capitão-mor e governador da terra a d. Francisco de Moura, que já de antes o era. Despediu-se dos conventos dando a cada um de esmola 200 cruzados para ajuda de repararem as paredes, que como serviram de baluartes e trincheiras, ficaram mui danificados.

E com isto pedindo que lhe encomendassem a Nosso Senhor a viagem, se embarcou a vinte e cinco de julho, dia do bem-aventurado Apóstolo Santiago, patrão de Espanha, posto que pelo vento ser contrário, não pôde sair da barra senão a quatro de agosto, no qual tempo o tiveram três dos navios, em que iam embarcados os holandeses rendidos, para se apartarem dos mais, e se irem.

N. B.- Segue-se o capítulo quadragésimo quinto do sucesso da nossa armada para o reino, e dos holandeses para a sua terra; porém nas adições e emendas a esta História do Brasil é o quadragésimo sétimo.




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Capítulo XLVII (alias XLV)

Do sucesso da nossa armada para o reino, e dos holandeses para a sua terra


Com tormenta partiu a nossa armada da Bahia, pelo que logo abriu muita água um galeão de Espanha, e lhe foi forçado tornar para dentro, para depois de tomada ir em companhia de outro que também, por se não poder concertar a tempo, não foi com a armada, à qual depois de partir sobreveio outra tormenta, tão grande, que não pôde tomar Pernambuco, onde a estavam esperando com muito alvoroço, não já para pelejar com a holandesa, que era ida, senão para regalarem a Sua Excelência, e mais senhores, para cujo recebimento tinham ordenadas muitas festas, especialmente sentiram não poder ver o senhor da terra Duarte de Albuquerque Coelho, e não devia ele de senti-lo menos, pois padecia a pena de Tântalo, não podendo gozar do que apetecia, e via, nem a vinda para a Bahia, nem a ida. Daqui começaram logo os navios a apartar-se, cada um para onde a força da tempestade o levava, e muito mais depois que lhes sobrevieram outras na altura das ilhas, com que se perdeu a almeiranta de Portugal na ilha de S. Jorge, mas salvou-se o almirante d. Francisco de Almeida, e os que com ele iam, com muito trabalho, e darem continuamente à bomba, sem comer, porque a matalotagem apodreceu com a água, donde depois na mesma ilha adoeceram, e morreram muitos, e entre eles d. Antônio de Castelo Branco, senhor de Pombeiro, que Nosso Senhor tenha em sua glória, como confio em sua divina Misericórdia, e pelo que sei dele no tempo que esteve nesta Bahia, que se confessava, e comungava cada semana, ouvia todos os dias missa, junto com ser muito esmoler, e outras virtudes, que como pedras preciosas, engastadas em fino ouro de sua nobreza, davam de si muito lustre.

O galeão em que ia d. Afonso de Alencastre, por fazer muita água, e não a poderem tomar, tomaram a gente em outro, e o mais que puderam, e puseram-lhe fogo. Constantino de Mello, e Diogo Varejão encontraram seis navios holandeses, com quem pelejaram, e sendo rendida a nau do Varejão, ficou só o Mello na sua naveta continuando a briga com tanto valor, que já o deixavam, se não sobrevieram três naus de estado, a que também resistiu, mas enfim o tomaram, e levaram a Holanda, roubando-lhe quanto levava, senão a fama do capitão, que foram publicando, e é bem se publique por todo o mundo.

D. Manuel de Menezes, general da armada de Portugal, chegou à Lisboa a 14 de outubro, havendo brigado na paragem da ilha de S. Miguel com dois galeões de holandeses, que iam de mina carregados, o qual depois de ter feito amainar um o deixou ao galeão Sant'Anna das Quatro Vilas, que ia na sua esteira, no qual ia o mestre de campo d. João de Orelhana, e se foi em seguimento do outro, que lhe ia fugindo, e porventura o tomara, segundo a sua nau era forte, e ligeira, se não fora necessário tornar atrás acudir ao galeão Sant'Anna, que ardia; porque havendo abordado e rendido o dos holandeses, e passados já muitos ao nosso, tirado alguns, que se não quiseram sair, não sei se por estes, ou se acaso se pegou fogo ao seu, e in continenti dele ao nosso, com que se abrasaram ambos, sem se salvar mais que 148 pessoas, que se lançaram a nadar, a que d. Manuel acudiu quando viu o fogo, deixando o galeão, que ia fugindo, e largando-lhes a fragata, cabos, jangadas, tábuas, e outras coisas, de que se pudessem valer, os livrou do perigo da água, morrendo todos os mais abrasados com o mestre de campo d. João de Orelhana, d. Antônio de Luna de Menezes, e outros muitos.

D. Fadrique de Toledo com grande parte da armada derrotou com o rigor do tempo avante do estreito ao porto de Málaga, e fazendo dali alguns fidalgos sua jornada a Portugal souberam de um correio de Sua Majestade junto a Sevilha ser aportado a Cadiz uma armada inglesa de 130 velas, per onde logo voltaram desandando o caminho, que já tinham andado, julgando ser aquele o mais próprio de quem eles eram, que o que depois de tão larga jornada levavam a suas casas: eram os que fizeram esta volta João da Silva Tello, d. Duarte de Menezes, conde de Tarouca, Francisco de Mello de Castro, d. Lopo da Cunha, senhor de Santar, d. Francisco Luiz de Faro, filho do conde d. Estevão de Faro, Antônio Taveira de Avelar, e d. Nuno Mascarenhas. Levaram seu caminho de Sevilha a Xeres onde o duque de Medina Sidônia, neto de Rui Gomes da Silva, pelo que tinha de português, lhes fez singulares demonstrações de agasalho, e estimação, que valia tão primoroso valor.

Trataram logo do fim da sua vinda, que era meterem-se em Cadiz, para que a ajudassem a defender, pedindo ao duque uma galé para nela passarem, e pelas dificuldades, que o duque representou, não puderam então levar avante esta sua deliberação, e assim se foram à defensão da ponte de Suasso, onde assistiam quatro mil homens, mas chegando depois recado de Cadiz de d. Fernando Girão, para que de noite lhe metessem na cidade trezentos homens escolhidos, foram os fidalgos os primeiros, que na vanguarda com seus piques partiram a este socorro, caminhando três léguas a pé, com chuva, e água em muitas partes pelos joelhos, até entrarem na cidade às 11 horas da noite, onde d. Fernando Girão os foi buscar a suas pousadas, significando com palavras, e com abraços, que sentiria muito fazer o inimigo leva da sua armada, pois com o favor de tais cavaleiros podia esperar desbaratá-lo. Em Cadiz assistiram como valorosos a todo o trabalho e perigo militar até o inimigo se ir. Não mereceram menos estimação d. Afonso de Noronha, Antônio Moniz Barreto, Henrique Henriques, e d. Afonso de Alencastre, porque ainda que quando chegaram a Cadiz estavam já os inimigos retirados, dizem os teólogos que a vontade eficaz é equivalente à obra, se não pode pôr-se em efeito, e por tal a estimou Sua Majestade, escrevendo ao Conselho que porque estava informado do valor com que os portugueses o serviram nesta ocasião, e que para morrer por seu serviço lhes não faltava vontade, e sobejava o ânimo, mandava que a cada um se desse o que tivesse da Coroa para filhos ou herdeiros, e lhes fizessem todas as mais mercês, que ele por outro decreto seu tinha concedido aos que morressem nesta empresa da Bahia, sem ser necessário a nenhum fazer sobre isto mais diligências. O teor da carta é o seguinte:

«Governadores amigos. Eu el-rei, vos envio muito saudar, como aqueles que amo. Havendo-se entendido o que os fidalgos portugueses, que foram cobrar a Baía de Todos os Santos, tem servido, e desejando que conheçam quão agradável me foi seu serviço, e quão satisfeito me acho de suas pessoas, rei por bem, em primeiro lugar, que se executem as mercês gerais, que fiz para os que morressem nesta jornada nos filhos de Martim Afonso de Oliveira, e que se me consulta em que outra poderia eu mostrar-lhes meu agradecimento, e sentimento da morte de seu pai, por ser tão honrado fidalgo, e tão zeloso do meu serviço, não reparando para o fazer em nenhum particular seu, ficando, se pode ser, tão satisfeito do seu modo de servir, como de seus mesmos serviços. E aos mais fidalgos me pareceu se lhes declarem, e dêem por feitas todas aquelas mercês, que se lhes fizeram pelo caso que morressem na jornada, pois da sua parte não lhes ficou mais que fazer. Desejando eu infinito que saibam os que me servem que gratifico o ânimo de fazê-lo, como a mesma obra, e que não hão mister mais solicitação, negociação, recordo, nem passos, que dados em meu serviço, e por esta razão sem consulta nenhuma o quis resolver assim. Escrita em Madri a 18 de setembro de 1625. Rei.»



Não se poderá ver maior demonstração do amor de Sua Majestade à Coroa de Portugal; pois sem consulta do estado, só pela do amor, foi servido de seu moto próprio formar um real decreto tão favorável a esta Coroa. Nem menos grato se mostrou aos que vieram pela Coroa de Castela, fazendo a uns e outros grandes mercês; mas muito maiores as recebeu de Deus este mesmo ano, que foi o de mil seiscentos e vinte e cinco, e bem parece que era o do Jubileu geral, em que o vigário de Cristo em Roma tão liberalmente abre, e comunica aos fiéis o tesouro da igreja.

Daquela armada inglesa tão poderosa, da qual livrou também tão milagrosamente a frota das Índias, que aquele ano trazia dezessete milhões em ouro, prata, e frutos da terra, e o milagre foi, que tanto que os ingleses aportaram em Cadiz, mandou Sua Majestade despachar seis caravelas com grandes prêmios à frota, para que fosse aportar a Lisboa ou Galiza por não ser presa dos inimigos. Caiu uma das caravelas nas mãos dos ingleses, os quais tendo por certo que esperando a frota em quarenta graus se fariam senhores dela, partiram logo de Cadiz a pôr-se naquela altura; mas foi Deus servido que nenhuma caravela das nossas acertou com a frota, e assim veio direita a Cadiz vinte dias depois da inglesa a estar esperando na paragem por onde houveram de vir se lhe deram o recado de Sua Majestade; pelo que reconhecido el-rei de tão grande mercê, deu graças a Nosso Senhor, e muito mais depois que soube ser quase toda a armada inimiga com tempestades, e tormentas, de sorte que a menor parte dela tornou à sua terra. Em Flandres foi tomada aos hereges a poderosa cidade de Buda. No Brasil recuperada de outros a Bahia, que o ano dantes a tinham ocupada. Mas que havia de ser, se neste ano foi celebrada a canonização de Santa Isabel Rainha de Portugal, natural do reino de Aragão, por cuja intercessão e merecimentos podemos crer que fez, e fará Deus muitas mercês a estes reinos.16

Também padeceram grandes tormentas no mar os holandeses, que foram da Bahia, ainda que levavam os navios mais descarregados, que é um bem só nas tormentas conhecido; e não foi menor a que padeceram em terra depois que chegaram à Holanda, porque logo foram todos presos pelos seus, e sentenciados à morte por se haverem entregues a partido tão cedo com a cidade, e o mais que tinham, e haviam ganhado na Bahia, sem esperarem pela sua armada do socorro, ao que acudiram as mulheres, filhos, e parentes com embargos, alegando que não fora possível deixarem de se entregarem, ou morrerem todos, pela muita tardança do seu socorro, e grande aperto em que os nossos os tinham postos: e outras coisas, pelas quais enfim os soltaram, e lhes concederam as vidas, condenando-os somente em que se lhes não pagassem os soldos, que se lhes devia.

Os outros que haviam vindo de socorro, se foram da baía da Traição a Porto Rico, que é em Índias de Castela, onde achando a gente descuidada desembarcaram, e saquearam o lugar, depois acudiu o capitão da fortaleza da barra, que por ser estreita e como porta daquele porto, lho cerrou de modo que não puderam sair como entraram, antes se viram em tanto aperto, que já de concerto largaram quanto tinham roubado, e ainda alguma coisa do seu, porque os deixassem sair, o que o capitão lhes não quis conceder, assim por entender que os tinha vencidos, como por recear que el-rei lho estranhasse, e em ambas as coisas se enganou, porque os inimigos estavam mui fortes em suas naus, com tudo quanto saqueado, ensacado, e metido dentro nelas, esperando só uma noite escura de tormenta, e vento, que lhes servisse para saírem, como lhes sucedeu em uma em que saíram, e se foram, sem lho poderem impedir nem fazer-lhes algum dano, mais que em uma não velha, que puseram por... (sic), e Sua Majestade mandou cortar a cabeça ao capitão da fortaleza, e não por aceitar o concerto, que lhe cometiam os holandeses, no que ele só cuidava que estava toda a culpa.

N. B.- Nas adições e emendas vem este capítulo, porém onde no fim dele diz: «e Sua Majestade mandou cortar a cabeça ao capitão da fortaleza, e não por aceitar o concerto, que lhe cometiam os holandeses, no que ele só cuidava que estava toda a culpa.» nas emendas só diz o seguinte: «E Sua Majestade não se houve por tão bem servido do capitão da fortaleza como ele imaginou.»




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Capítulo XLVI

De como o governador Mathias de Albuquerque mandou buscar a carga de uma nau da Índia, que se perdeu na ilha de Santa Helena


Providência divina foi ficarem na Bahia os dois galeões que dissemos no capítulo precedente, um dos quais era da esquadra de Biscaia, chamado Nossa Senhora da Atalaia, de que era capitão João Martins de Arteagoa, outro da esquadra do estreito, chamado S. Miguel, e o capitão Francisco Cestim, porque foram depois mui úteis e necessários para irem buscar a carga da nau Conceição, que por se ir ao fundo com água descarregou na ilha de Santa Helena; vinha esta da Índia em companhia de outras quatro, das quais vinha por capitão-mor d. Antônio Tello, o qual não podendo deixar de seguir a sua viagem, tomou dela a fazenda que pôde, e a gente com o seu capitão d. Francisco de Sá, e deixou a Antônio Gonçalves pousado com 120 homens brancos, e alguns cafres em guarda do mais, escrevendo por um batel ao governador do Brasil que lhe mandasse navios; chegou o batel a Pernambuco, onde o governador Mathias de Albuquerque, que estava em 18 de agosto de 1625, o qual avisou logo a d. Fadrique, pedindo-lhe para isto quatro urcas, que aí o estavam aguardando com mantimentos para a armada, dos quais era cabo João Luiz Camarena, e d. Fadrique do mar, onde achou o recado, mandou que fossem os ditos galeões da Bahia, porque das urcas dos mantimentos tinha necessidade a sua armada, pelo que o governador mandou logo em direitura aos de Santa Helena uma caravela de refresco, e por capitão dela Mateus Rodovalho, e duas naus pela Bahia, uma chamada S. Bom Homem, capitão Antônio Teixeira, outra Churrião, capitão Custódio Favacho, providas da fazenda de Sua Majestade, pelo contratador Jerônimo Domingues, para que daqui fossem com os ditos galeões, como logo foram, e com outra não chamada a Rata, que mandou d. Francisco de Moura, da qual era capitão Rodrigo Álvares.

Chegaram a Santa Helena a 27 de dezembro de 1626, acharam os indiáticos entrincheirados com os fardos, e com três baluartes feitos, em que tinham seis peças de artilharia, donde haviam pelejado primeiro com uma nau holandesa, e depois com quatro de holandeses e ingleses, tão valorosamente, que não se atreveram a sair à terra, e se foram com muita gente morta.

Depois de começarem os nossos navios a tomar carga, estando já quase carregados, chegou uma nau holandesa, maior que a nau da Índia, com 40 peças de artilharia, a qual surgiu entre os dois galeões, e eles abalroaram com ela, e saltando a gente no convés, que acharam despejado, se senhorearam dele, rompendo a enxárcia, e velas, e dizendo aos que estavam debaixo da xareta que se rendessem, respondiam que não, porque já o diabo estava em seus corações, e assim pelejaram como endemoninhados, matando, e ferindo com os piques, por entre a xareta, e com roqueiras a muitos dos nossos, entre os quais foi morto o capitão Arteagoa, pelo que, e por se temerem do fogo, que por algumas vezes lhe lançaram, a desabalroaram, e a nau se foi com todas as riquezas, que trazia de Ternate.

Os nossos acabaram de carregar, deixando ainda na ilha o mapam (sic) de âncoras, e amarras, que não couberam.

Partiram em 7 de fevereiro da dita era de 1626, vindo por capitão-mor Filipe de Chaverria, em lugar do que morreu na batalha: chegaram a Pernambuco a primeiro de março, onde o governador os proveu de todo o necessário para a viagem, por ordem do sobredito contratador, e do almoxarife João de Albuquerque de Mello, e se fizeram à vela com outros navios mercantes para o reino aos dezoito do mesmo mês, e chegaram a Lisboa a salvamento em quinze de maio.




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Capítulo XLVII

Dos holandeses, que andavam por esta costa da Bahia até á Paraíba no ano de mil seiscentos e vinte e seis, e da ida do governador Francisco Coelho de Carvalho para o Maranhão


Em 19 de abril desta era de 1626 apareceram na boca desta barra da Bahia, junto ao morro, três naus holandesas de força, uma das quais trazia 30 peças de artilharia grossa e 104 homens de guerra: meteu no fundo uma caravela, que vinha de Angola, de que era mestre Antônio Farinha, vizinho de Sezimbra, por não querer amainar, mas salvaram-lhe toda a gente branca, e alguns negros, de 170 que trazia, e os trouxeram 11 dias consigo, fazendo-lhes boa companhia, por o trazerem / segundo ao depois disseram / assim por ordem do seu príncipe de Orange, em respeito do bom tratamento que o general d. Fadrique de Toledo deu aos holandeses na recuperação desta cidade, e depois os foram lançar todos no rio das Contas, donde feita sua aguada, se foram ajuntar com outra esquadra de quatro naus, e um patacho, que vinha para Pernambuco, e aí ancoraram todas juntas defronte da barra aos 20 de maio, exceto o patacho, o qual por ser mui ligeiro andava com 10 peças de artilharia, discorrendo sempre pela costa de uma parte para outra, e este fez encalhar na Poripuera, 30 léguas de Pernambuco para a Bahia, uma lancha, que o governador mandava de aviso, e tomou um navio de Viana, que havia saído do Recife com 600 caixas de açúcar, e assim por ir tão carregado, e com caixas por entre as peças de artilharia, não pôde jogar delas, e se deixou tomar de um patacho, coisa em que os ministros de Sua Majestade deviam vigiar muito nestas partes, porque não foi este o primeiro que se perdeu por esta causa, nem será o derradeiro, senão se fizer muita vigia para que não vão sobrecarregados.

Tomou também outro, que ia para Angola, e uma caravela, que vinha da ilha da Madeira, carregada de vinhos, lançando a gente de todos na ilha de Santo Aleixo.

Deu caça a uma caravela que vinha dos rios de Congo, a qual se lhe acolheu ao porto do Pau Amarelo, e a outra de Sezimbra, que se meteu na enseada do cabo de Santo Agostinho, donde depois ao longo do Recife foram meter no porto, como também fizeram três navios de Lisboa, e dois das Canárias, por aviso que lhes deram de um barco que o governador mandou para este efeito da banda do cabo, que é a paragem por onde no mês de maio, e nos mais de inverno, navegam para Pernambuco.

Também mandou o mesmo governador geral Mathias de Albuquerque dois índios da terra, e um mulato, cada um em sua jangada com artifício de fogo para o porem às naus dos holandeses, que estavam mais de quatro léguas da barra ao mar, dos quais chegou um chamado Salvador, e o pegou à popa da capitânia, mas foi sentido de um cachorro da nau, que despertou a gente, e o apagaram, tirando logo as mais um tiro de rebate, com a qual raiva queimaram o dia seguinte a caravela, que haviam tomado, e também porque o mestre lhes não havia querido dar por ela 50 cruzados, que lhe pediram, e feito isto levantaram ferro, e se foram.

Também se foi Francisco Coelho de Carvalho, governador do Maranhão, o qual passava já de dois anos que estava em Pernambuco sem poder partir-se, assim pela cobrança de 20 mil cruzados, que el-rei ali lhe mandou dar, como por causa dos holandeses da Bahia, e destoutros, e por isto, tanto que os viu idos, e desimpedido o passo, se partiu em 13 de julho da dita era de 1626, com cinco barcos, que lhe deu o governador Mathias de Albuquerque, o qual o veio despedir ao Recife, e lhe mandou fazer salvas das fortalezas.

Ele ia em um dos barcos com seu filho Feliciano Coelho de Carvalho, e o sargento-mor Manuel Soares de Almeida. Dos outros eram capitães Manuel de Souza Deça, capitão-mor do Pará; Jacome de Reymonde, provedor-mor da fazenda, e João Maciel.

Gastaram na viagem 15 dias até o Ceará, porque não navegavam de noite; ali se detiveram outros 15 dias, nos quais proveu o governador o forte de pólvora, e de mais artilharia, e fez paga aos soldados, e ao capitão Martim Soares Moreno lançou o hábito de Santiago, de que el-rei lhe fez mercê por seus serviços, que não foram poucos os que lhe fez, não só no descobrimento do Maranhão, como fica dito no primeiro capítulo deste livro, mas depois de estar por capitão do Ceará, onde os corsários o temem tanto, que havendo ali aportado algumas vezes, nenhuma se atreveram a desembarcar, desejando-o ele tanto, que chegou a meter-se entre os índios nós, nu e tinto da sua cor, parecendo-lhe que como estes foram seus compadres, e amigos, não se temendo deles, desembarcariam, e assim os colheria, e nem isto bastou. Feito foi este de subrogação, pois parece não obrigar seu ofício a tanto, e assim foi bem empregada a mercê, que Sua Majestade lhe fez do hábito, e se lhe deu com ele pouca tença, por isso lhe dá Deus muito âmbar por aquela praia, com que pode muito bem matar la hambre.

Estava no Ceará a esta sazão o padre frei Cristóvão Severim, custódio do Maranhão, chegado de poucos dias depois de haver passados muitos no caminho, porque veio por terra, padecendo grandes fomes, e sedes, e guerras dos gentios Tapuias, Arechis, e Uruatins, que duas vezes o saltearam, e lhe mataram um índio dos que trazia em sua companhia, e lhe feriram treze, com mais três brancos portugueses mas com serem os inimigos em número muitos mais, sem comparação, os poucos nossos, e seis brancos arcabuzeiros, ajudados e animados pelo padre custódio, lhes tiveram os encontros tão valorosamente, que enfim se livraram deles, deixando-lhe também alguns dos seus mortos, e feridos, e chegaram ao Ceará, onde o custódio e seu companheiro agasalharam com muito respeito e caridade a dois Padres da Companhia de Jesus, que iam com o governador Francisco Coelho de Carvalho, e dali se embarcaram, e partiram todos para o Maranhão, na qual viagem, depois de haverem passado o Buraco das Tartarugas, por não levarem pilotos práticos na costa, foram dar em uns baixos com uma grande tormenta em que se viram perdidos, mas quis Nosso Senhor que iam as águas de lançamento, com o que, e com alijarem alguma carga dos barcos, puderam nadar, e seguir sua viagem até o Maranhão, onde o governador, e os que com ele iam, foram bem recolhidos, e onde os deixaremos a outros historiadores, que escrevam suas obras. Assim porque Sua Majestade tem já apartado aquele governo deste do Brasil, de que escrevo, como porque eu também vou dando fim a esta História.




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Capítulo XLVIII

De como Diogo Luiz de Oliveira veio governar o Brasil, e se foi seu antecessor Mathias de Albuquerque para o reino


Aos 25 de agosto de 1626 partiu de Lisboa Diogo Luiz de Oliveira, que havia sido mestre de campo em Flandres, para vir governar este estado do Brasil; chegou a Pernambuco a 7 de novembro, onde deixando as urcas de fora da barra, porque não trazia licença para se deter aí muito tempo, desembarcou em uma lancha, e foi se recolher em casa do nosso Padre Santo Antônio, que temos no Recife, até dia de S. Martinho Bispo, que é aos onze, em que se foi para a vila acompanhado com 80 cavaleiros.

A entrada dela na porta da alfândega estava um arco triunfal de muito boa arquitetura, ornado de bons versos, emblemas, e epigramas em seu louvor. Dali se estendiam duas fileiras de soldados arcabuzeiros ao longo das paredes até a porta da Misericórdia, onde estava outro arco não com menos perfeição lavrado, e ornado; neste se apeou, e feita a fala por André de Albuquerque, vereador mais velho, o levaram debaixo do pálio até a igreja Matriz, indo diante o mestre de campo, general deste estado, d. Vasco Mascarenhas / ofício novamente criado para o Brasil /, e o capitão-mor de Pernambuco André Dias de Franca, e o de Itamaracá Pero da Motta Leite, todos novamente vindos do reino com o mesmo governador, e o povo todo de Olinda com muito aplauso; donde depois de feita oração, e as cerimônias costumadas, o levaram à casa do seu antecessor, que já lha tinha para isso desocupada, visitaram-se ambos muitas vezes com sinais de grande amizade, o tempo que o governador ali se deteve, que foi até aos 20 de dezembro do dito ano de 1626; e porque lhe veio recado que estava na barra de Guiena um navio holandês com duas lanchas, e que tomara um barco de Pero Pires carregado de açúcar, e dera caça a um navio, que se foi meter na Paraíba, e a outro do Biscainho, que vinha carregado de vinhos da ilha da Madeira, determinou ver se de caminho podia fazer esta presa, mas o ladrão, quando viu tantos navios, fugiu, e o governador chegou com os seus a salvamento à Bahia, onde a primeira coisa que fez foi ordenar que se fizesse um solene ofício pela alma de seu irmão, o Morgado de Oliveira, na igreja de Nossa Senhora do Carmo, onde foi enterrado.

Dois meses passados depois da sua chegada, aos 3 de março de 1627 entraram treze navios holandeses, e tomaram 21 nossos, que estavam no porto já com três mil caixas de açúcar dentro, eles perderam dois dos seus, um dos quais era a sua capitânia, em que vinha por general Pero Peres, inglês, que na tomada da Bahia viera por almirante.

Mathias de Albuquerque, vendo que as urcas, em que determinava ir-se para o reino, eram tomadas dos holandeses na Bahia, escolheu uma caravela ligeira, na qual depois que outros três navios holandeses, que andaram na barra de Pernambuco, a desocuparam, se embarcou, e partiu a 18 de junho da dita era, e levou em sua companhia o doutor Bartolomeu Ferreira Lagarto, vigário da Paraíba, e administrador, que foi destas partes, antes de se reunir a jurisdição delas à Mitra, e um religioso da nossa custódia sacerdote.

Foi Mathias de Albuquerque todo o tempo que serviu, assim de capitão-mor de Pernambuco, como de governador geral do Brasil, que foram sete anos, sempre muito limpo de mãos, não aceitando coisa alguma a alguém, nem tirando ofícios para dar a seus criados. Nas ocasiões de guerra, e do serviço de Sua Majestade foi mui diligente, não se poupando de dia, nem de noite ao trabalho: nunca quis andar em rede, como no Brasil se costuma, senão a cavalo, ou em barcos, e quando nestes entrava não se assentava, mas em pé os ia ele próprio governando. Tinha grande memória, e conhecimento dos homens, ainda que só uma vez os visse, e ainda dos navios, que uma vez vinham àquele porto, tornando outra daí a muito tempo, antes de chegar o mestre, dizia cujos eram, e vez houve que vindo um com o mastro mudado, vendo o de mui longe com o óculo, disse: aquele é tal navio, que aqui veio há um ano, mas traz já outro mastro; e assim o afirmou o mestre depois que chegou, sendo perguntado.

Teve boa fortuna em seu governo, por serem os tempos tão infortúnios e calamitosos, e na viagem o livrou Deus de inumeráveis corsários, de que o mar estava povoado, levando-o sempre a salvamento em 52 dias a Caminha, onde achou o duque dela, e marquês de vila Real d. Miguel de Menezes, seu parente, onde os deixaremos, e darei fim a esta História, porque sou de 63, e é já tempo de tratar só da minha vida, e não das alheias.






 
 
FIM
 
 


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