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CLXIII

                                         ArribaAbajoRevuelvo en la incesable fantasía
Cuando me he visto en más dichoso estado,
Si agora que de Amor vivo inflamado,
Si cuando de su ardor libre vivía.
 
     Entonces desta llama solo huía,
Despreciando en mi vida su cuidado (51);
Agora, con dolor de lo pasado,
Tengo por gloria (52) aquello que temía.
 
     Bien veo que era vida deleitosa
Aquella que lograba sin temores,
Cuando gustos de Amor tuve por viento;
 
     Mas viendo hoy a Natercia tan hermosa,
Hallo en esta prisión glorias mayores,
Y en perderlas por libre hallo tormento.
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Autos

Portadas be las Ediciones príncipes

     Nueva Edición de los Enfatriões y del Filodemo de Luis de Camoens conforme la Edición de 1587 (53) -fls. 86-110 y fls. 143 v.-163, -que tiene el título:



Portada de la Edición príncipe de El Rey Seleuco.

 

El título del tomo es lo siguiente:

 

RIMAS

de

Lvis de

Camões.

Primeira parte.

Agora nouamente emendadas

nesta última impressa<n>o,

& acrecentada hu<n>a

Comedia nunca atégora

impressa. (El Rey Selevco)

--

Em Lisboa. Com todas as licenças.

------------------------------

Na Officina de Paulo Craesbeeck

Impressor, & Liureiro das tres Orde<n>s

Militares, & a sua custa. An. 1645.



               Enfatriões (54) de LUIS DE CAMOENS -�producto clásico, pero mismo así, profundamente nacional, antiguo pero perfectamente adaptado al gusto y espíritu del siglo XVI�.
 

KARL VON REINHARDSTOETTNER, Plautus, Leipzig, 1886.



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Auto chamado dos Enfatrioes

(55)
feyto por Luis de Camões, em o qual entram as feguras seguintes. Enfatrião, Almena Sua Molher, Sosea seu Moço, Bromia sua criada, Belferrão patra<n>o, Aurelio primo dela com seu moço, Iupiter & Mercurio, & entra logo Almena saudosa do marido he na guerra, & diz.


                                              Al. Ha señor Anfatrião
onde estaa todo meu bem
pois meus olhos vos nam. vem
falarey co coraçam
que dentro nalma vos tem 5
ausentes duas vontades (56)
qual corre mores perigos
qual sofre mais crueldades
se vos antre os enemigos
se eu antre as saudades 10
 
     � Que a ventura que vos traz
tam longe da vossa terra
tantos desconcertos faz
que se vos leuou à guerra
nam me quis leixar em paz 15
Bromia qu com vida ter
da vida ja desespera
que lhe poderas dizer
     bro. Que nunca se vio prazer
senão quando nam se espera 20
 
     � E por tanto nam deuia
de ter triste a fantesia
porque vossa merce crea
que o prazer sempre saltea
quem dele mais desconfia 25
eu tenho no coraçam
do señor Anfatrião
venha oje alga noua (57)
nam receba alteração
que a verdadeyra affeyção 30
na longa ausencia se proua
 
     al. Dizey logo a Feliseo
     -que chegue muito apressado
ao cais & busque meio
de saber algum recado (58) 35
do porto Persico veio
& mais lhe aueis de dizer
isto vos dou por officio
dalga noua saber
em quanto eu vou fazer 40
aos deoses sacreficio. (59)
 

� Vayse Almena, & diz Bromia.

     bro. Saudades de minha ama
chorinhos & deuações
sacreficios & orações (60)
me han de lançar (61) na cama 45
certamente
nòs molheres de femente (62)
somos fedenho tam tosco
que cõ qualquer vento vente (63)
queremos forçadamente 50
que os deoses viuão cõ nòfco. (64)
 
     � Quero Feliseo chamar
& dezirlhe a onde a de hir
mas ele como me vir
logo a de querer rinchar 55
de traueso
eu que de zombar nam cesso
por ficar com ele em salua
lançolhe h & outro remesso
aos seus furtolhe o aluo
& entam ele fica aueso.
porque o milhor destas danças
cõ hs vendisos (65) asim
he trazelos por aqui
o cheiro das esperanças 65
por viuer
aos hom (66) de trazer
nos amores assi mornos
soo pera ter que fazer
& depois ao remeter 70
lançarlhe a capa nos cornos.
 
     � Feliseu se estais ha mão
chegay ca, v como h gamo (67)
bem fey nam chamo em vão
 

� Vem Feliseu.

     fe. Chamaisme tamb vos chamo 75
porem eu ouso (68), & vos não
señora que me matais (69)
se vos ja nunca me ouuis
ou me ouuis & vos calais
dizey porque me chamais 80
se me vos a mim fogis.
 
     bro. Eu vos fujo, fe. fogis digo
de dar a meus males cabo
     bro. Sabey que dese perigo
nam fujo como de imigo 85
fujo como do diabo.
     fe. Day ao demo essa tençam (70)
vzay antes de cortes
cay (71) vos nesta razão
     bro. do perigo fogem os pees 90
do diabo o coração.
 
     fe. Dizeifme que nessa briga
do meu coração fogis
     bro. Ainda queu isso diga
     fe. A minha doce enemiga (72) 95
bem sinto que me sentis
mas para que me chamais
     bro. Mandauos minha señora
que chegueis daqui ao cais
& algas nouas saybais (73) 100
denfatrião nessa ora (74).
 
     fe. Quem as não sabe de si (75)
doutrem como as faberà
     bro. Não nas sabeis vos de m
     fe. Mà trama (76) venha por ti 105
dona (77) feyticeyra maa
porque não me olhas dercito
cadela que assi me cortas
     bro. Por vos quero dar portas
que seu olhar doutro geyto 110
trarey cem mil vidas mortas.
 
     fe. E pois pera que me andais
enganando a cem mil anos
     bro. Dou vos vida cõ enganos
     fe. Nesses enganinhos tais 115
acho crucis desenganos
     bro. Quãta esses vos quero eu dar
vos cuidais estais na sela (78)
pois podeis vos decer dela
queu nunca vos pude olhar 120
     fe. Jugais comigo a panela.
 
     � Tendes me a tanto catiuo (79)
& desenganaisme agora
tudo isso he o que priuo
assi, que he isso senhora 125
dochelo morto, dochelo vivo (80)
se me vos desenganais
no cabo de tantos anos
direy se licença dais
daisme vida cõ enganos (81) 130
desenganos ja chegais
 
     � Mas se isso auia de ser
dizey maa desconhecida (82)
desterro de meu viuer
que vos custaua dizer 135
amor vay buscar tua vida
     bro. zõbais salaisme coprinhas (83)
     fe. Riruos eis se vem a mão
copras não mas isto fam
ansias y passiones minhas (84) 140
dos bofes & coração. (85)
     bro. Isuos fazendo ds sengos (86)
     fe. Perdoneme dios si peco
     bro. Nesses dentinhos framengos
conheço que sois hum peco 145
de todos quatro auoengos (87)
     fe. Tudo vos leuo em capelo (88)
ja questais tanto em agraço (89)
porem falando singelo
afurto desse mao zelo 150
quereisme dar h abraço
 
     bro. Ora digo que não posso
vsar cõ vosco de fero (90)
tomaio, fe. ja o nam quero
porque esse abraço vosso 155
sabey que he engano mero
     bro. Ho vos sois ds sensabores
abraço pedis asim
seu remango dum chapim (91)
     fe. Tudo isso sam fauores 160
zombay vingaiuos de mim.
 
     bro. Vos de sorioso touro
as garrochas não sents
     fe. Vedes cõ isso sou mouro (92)
quando cuido que fois ouro 165
achouos toda ceitis
     bro. En fim sanha de vilam
vos fez perder h bom dia
     fe. Ia agora o eu tomaria
quereismo dar, bro. agora nam 170
coseyuos (93) eu todavia
 
     fe. Pois señora aquem vos ama
sois tam desarrazoada
quero tomar outra dama
que nam digam os dalfama. (94) 175 (95)
que nam tenho namorada
     bro. Leixaime, fe. vos me deixay
     bro. Deixaime, fe. zõbais de mim
     bro. Deixaime pois me engeitais
eu me aufentarey daqui 180
onde me mas não vejais. (96)
 
     fe. Boa esta a zombaria
     bro. Não sam essas minhas manhas
     fe. Porem isuos toda via
     bro. Voime a tierras estranhas 185
a do ventura me guia (97)

� Vayse Bromia, & diz Feliseo.

     fe. Fantesias de donzela
não ha qu como eu as quebre
porque certo cuidam elas
que com palaurinhas belas 190
vos vendem gato por lebre.
 
     � Esta tem (98) la pera si
queu sou porela finado
& cre que zomba de mim
& eu digolhe que sim 195
sou por ela esperdiçado (99)
prezase de has seguras (100)
& eu nam quero mais frandes (101)
doulhe trela as trauessuras
porque destas cossaduras 200
se sazem as chagas grandes.
 
questas andam Sempre à vela
estas vos digo eu que coso
porque de firmes na sella
crem que salsam a costela (102) 205
& ficam pelo pescoso
que quando estas damas tais
me cacham (103) entam recacho
mas disto agora no mais
querome hir daqui ao cais 210
verse algas nouas acho.
 

� Vayse Felisco & vem. Iupiter & Mercurio, & diz.

 

Iupiter.

     Iup. Ho grande & alto destino
ho potencia tam profana
que a seta d menino (104)
faça que meu ser deuino 215
se perca por cousa humana
que me aporueitã ceos
onde minha essencia mora
com tanto poder (105) se agora
a qu me adora por Deos 220
siruo eu como señiora.
 
     � O que estranhar aseyçam (106)
que em baxa cousa vay por
a vontade & o coraçam
sabe tampouco damor 225
quã pouco amor da rezam. (107)
mas que remedio ey de ter
contra molher tam terribel
que se nam pode vencer
     mer. Alto señor a teu poder 230
o deficel lhe he possiuel
 
     ju. Tu nam ves questa molher
se preza de vertuosa
     mer. Señor tudo pode ser
que pera quem muito quer 235
sempre aseyção he manhofa
seu marido esta ausente
na guerra longe daqui
tu que es Iupiter potente
tomaras sña forma em ti 240
que o faras muy facilmente.
 
     � E eu me trasformarey
na de Sofea criado seu
& ao arrayal me yrey
onde logo saberey 245
como se a batalha deu
& assi poderas entrar
em lugar de seu marido
& pera que sejas crido
poderas tambem contar 250
quanto eu la teuer sabido.
 
     ju. Quem arde em tamanho fogo (108)
tiralhe a vertude a cor
de sotil & sabedor (109)
& qu fora esta do jogo 255
enxerga (110) o lanso melhor
mas tu que dos fabedores
tanto auante sempre estas
se deos es dos mercadores
seloas dos amadores 260
pois tal remedio me das.
 
     � Ponhase logo em effeyto
que não sofre dilação
qu o fogo tem no peito (111)
& tu vay logo dereito 265
onde anda Enfatrião.
 

� Vanse & vem Feliseo & Calisto & diz Feliseo.

     fe. A do bueno (112) por aqui
tão longe do acostumado
     ca. Mais longe vou eu de mi
dir perto de meu cuidado (113) 270
     fe. no andar vos conheci
     cal. E vos onde vos lançais
cõ vossa contemplação (114)
     fe. Eu chego daqui ao cais
a saber Denfatrião 275
não sey se vou por demais.
     cal. Porque por demais dizeis
     fe. Porque nada ali he certo
     cal. nouas la não nas busqueis
que aqui as tendes mais perto 280
     fe. Pois daymas se as sabeis
     ca. H nauio he ja chegado
a barra que vem de laa
tras Danfatrião recado (115)
diz que o dexa embarcado 285
pera se vir para ca.
 
     � Tem vencido aquele Rey
& diz segundo lhe ouui
que esta noute sera aqui
     fe. Essas nouas leuarey 290
Almena que torne ensi (116)
porque ella tem mayor guerra (117)
cos temores de perdelo
que ele co Rey dessa terra
     cal. Onde amor lançar o selo 295
nenha cousa o desterra.
 
     � Porque inda o penfamto
vos fique señor em calma
por morte ou apartamento
sempre vos la ficam nalma 300
as pegadas do tromento
fe. Isso he hum segredo mero (118)
a que amor nos obriga
por isso em caso tam fero (119)
señor nunca ninguem diga 305
ja lho quis & não lho quero.
 
     � Eu quis bem a ha molher
que vos conhecestes bem
& cõ (120) muito lhe querer
casouse, ca. ho & com qu 310
que ainda o não posso crer
     fe. Com h mercador que veio
agora do Egito rico
     cal. Isso tras agoa no bico (121)
esse homé he paruo ou feio 315
     fe. Pois vedes disso me pico (122).
 
     � E em pago desta treyção
afora outros mil descontos (123)
que tras consigo afeyção
sempre os sinais destes pontos (124) 320
trarey no meu coração, (125)
     ca. Vistela mais, fe. Señor vi
na genelnha dagrade
passey & dixelhe assi
casada sem piedade (126) 325
porque não na aucis de mim.
 
     ca. Que vos dixe, fe. la no centro (127)
lhe enxerguei (128) pouca alegria
& como quem lhe doya
metendose pera dentro 330
dixe ja passo folia (129)
     ca. A maa sem conhecimento (130)
qui lhe desse mil chofradas (131)
     fe. Señor como (132) são casadas
cassanse co esquecimento 335
das cousas que sam passadas.
 
     ca. Lembranças de vos deixar
picaruos aõ como tojos
     fe. Señor aueis dassentar (133)
onde amor vos quer matar 340
sempre alha, miran ojos (134)
h mote señor lhe mandei
h dia estando com febre
sò da paxam (135) que tomey
     ca. Pois vejamos que t lebre (136) 345
     fe. Señor eu volo direy.
 

� Mote.

vos por outrem, eu por vos (137)
vos contente, eu penado
vos casada, eu cansado
polos sanctos de minha dona 350
 
     ca. Señor vos so fizestes
     fe. Si que ninguem me ajudo (138)
     ca. Se vos so o composestes
crede que estremo dissestes
nunca Orlando tal falou (139) 355
señor fizesteslhe pee (140)
     fe. Senhor si todo h ano
vos zombais senão mengano
     ca. Não, mas douuos minha fee (141)
que nunca vi tão bom pano. 360
 
     fe. Ora olhe vossa merce.

� Volta.

     � Olhay em quam fundos vaos
por vossa causa me afogo
que outro meo (142) ganha o jogo
& eu triste pago os paos 365
olhos trauessos & maos
inda eu veja o meu cuydado
por esse vosso trocado.
 
     cal. No mais quiso me degola (143).
(144)señor eu aja perdam 370
(145)fezestes esse rifaõ
em alg jogo de bola
& foilhe ele ter a mão
     fe. Digouos que o vio, & lho leu
h moçozinho descola 375
     ca. Está isso asi do ceo
sabe ela jugar a bola
     fe. Não. ca. Pois não vos entendeo.
 
     � Ora eu ja cheguey a ler
Petrarca & crede de mim (146) 380
que nunca tal cousa vi
onde mora o bom saber
logo da sinal de si
onde casada poseste
dizey porque nam disestes 385
la que yo vi por m mal (147)
     fe. Renunciaua o metal
em refõeszinhos como estes
a fe de por tal cõ tal.
 
     � Que a troua trigo tremes (148) 390
a de ser toda dum pano
que parece multo ingres
num pelote Portugues
todo hum quarto castelhano (149)
ouui outra tambem minha 395
que fiz a certa tençam
crara leue, bonetinha
de feyção que esta trouinha
he trouinha de feiçam.
 
     � Como eu hum dia me vise 400
morto & a mão na candea (150)
& ela nam me acodisse
fizlhe esta porque sentisse
que daua os fios à tea (151)
& o perposito he 405
andar eu h dia Soo
& pera que ouuesse doo
de mim & de minha fee
lamenteylhe como Ioo (152)
     ca. Andaistes señor muy bem 410
     fe. Ora señor atentay
& vede o saybo que tem
se he pera a ver alguem
ca. Ora dizey, fe. ey la vay.
 

� Troua.

     � Coração de carne crua 415
velo teu amor aqui
que esmorecido por ti
jas (153) no meio desta rua. (154)
 
     cal. Na rua señor jazia
& era em tempo de lama 420
     fe. Señor qu fala a qu ama
de si mesmo senão fia
aueis de mintir à dama
     cali. Volta (155) disso, fe. singular
senão que he muyto sentida. 425
faruos ha señor chorar
     ca. Ho, diga por sua vida
     fe. farey o que me mandar
 

Volta.

     � Porque não as delle magoa
ho dura (156) mais que ninguem 430
que anda (157) o triste que não tem
qu lhe de ha vez dagoa
não lhe negues teu querer
pois te nam custa dinheiro
que en fim por derradeyro 435
a terra te à de comer.
 
     ca. Tal troua nunca se vio
agorentastela jaa
     fe. Señor nam ainda estaa
como a fua may pario (158) 440
& nam esta muyto maa
     ca. He troua que tem por seis
não na posso mais gabar
mas pois tal coufa fayeis (159)
señor nam me ensinareis 445
donde vem tãbem trouar
 
     fe. Não he a cousa tam pequena
como señor a fezestes
essa que agora dissestes
mas porem vou dar almena 450
estas nouas que me destes
depois señor nos veremos
ficay roendo esse oso
     ca. o roer señor he vosso
     fe. pois cu por mais zõbemos 455
ey de ser vosso & reuosso
 
     ca. Ho escusaiuos destremos
que isso señor me atarraqua
mas nos nos encontraremos
& sobre isso enuidaremos 460
dous reales mais de saca. (160)
 

� Vanse ambos & vem Iupiter & Mercurio transformados, Iupiter na forma Denfatrião, Mercurio na de Sofea escrauo, & diz.

Iupiter.

     ju. Mercurio pois sou mudado (161)
nesta forma natural
olha & nota com cuydado
se esta em mi o pintado 465
aparente co real (162)
     mer. Qué tão proprio se trãsforma
tenho por openiam.
que na tal transformação
lhe prestou natura a forma 470
cõ que fez Anfatrião
 
     ju. Pois tu no gesto (163) & na cor
estas Sofea escrauo seu
     mer. Multo mais faras señor
     ju. Não no faz senão o amor 475
que nisto pode mais queu (164)
     mer. Ia señor te fiz menção
como deu Anfatrião
a el Rey Terela a morte (165)
que na guerra �goal a sorte 480
pode mais que o coração (166)
     � E depois de Ser tomada
toda a cidade com gloria
Danfatrião bem ganhada
como em final de vitoria 485
esta copa lhe foy dada
por ela bebia elRey (167)
em quanto a vida quería
& eu porque te compria
a seu escrauo a surtey 490
que na caixa a trazia
 
     � Esta poderas leuar
a almena por lhe mostrar
verdadeiro o que he sengido
& desta arte seras crido 495
sem mais outro ardil buscar
     ju. Pois tudo ts ordenado
por tão noua & sotil arte
como me vires entrado
yras dar este recado 500
e Febo (168) de minha parte.
 
     � Que faça mais de vagar
seu curso neste Emispherio
Que o que soe acostumar (169)
que esta noite ey de ordenar 505
h caso de alto mysterio
& a Efphera mais alta
mandaras que fixa esteja
porque a noute mayor seja
porque sempre o tempo falta 510
onde alegría he sobeja
     � E teras tamanho tento
que como isto se ordenar
venhas aqui vegiar
porque meu contentamento 515
ninguem mo possa estrouar
     mer. Seja feyto sem debate
tudo como te conuem
     ju. pois não parece ninguem
como hom de casa bate 520
& muda a fala tamb
 
     � Bate Mercurio a porta.
     mer. Ho de la casa, en buena ora,
darmean de cenar aqui
     Bro. Sosea parece que ouui
aluiçaras minha señora 525
que na fala o conheci.
     � Entra Almena & Bromia.
     al. Zombais Bromia por ventura
     bro. Señora não zombo não
     al. Vejo eu Anfatrião
ou a vista me asegura 530
o questà no coração
 
     ju. Olhos diante dos quais
desejey mais este dia
que nenha outra alegria
señora nunca creais 535
que lhe minta a fantesia
     al. Ho presença mais querida
que quantas formou amor
isto he verdade señor
acabese aqui (170) a vida 540
por não ver prazer maior
     ju. Pois esta ora de vos ver
alcançar señora pude
para mais contente ser
conforme (171) co este prazer 545
nouas de vossa saude
     al. A vida soy pesada & crua
à saude queu sostinha
que em quanto señor a tinha
temer perigo na sua (172) 550
me fez descuidar da minha
     mer. Y pues, mi señora Almena
pesia (173) al demonio maluado
no dira a vn su criado
vengaes Sosea norabuena 555
     al. Sejais Sosea bem chegado.
     bro. B mal cri eu que podesse
verte Sosea oje aqui
     mer. Pues también yo no crey
qui en mi vida te vesse 560
según las muertes que vi.
 
     al. Muito señor folgarey
com nouas de vencimento (174)
     Iu. De tudo quanto passey
por vos dar contentamento 565
em suma vos contarey (175)
trago señora a victoria
daquele Rey tam temido
com fama crara & notoria
por mayor soy a gloria (176) 570
de me ver de vos vencido.
 
     � S me terem resistencia
os grandes me obedeceram
como el Rey morto teueram
em sinal de obediencia 575
esta copa me trouxeram
el Rey por ela bebia (177)
ela & tudo o mais he nosso
por onde craro se via
que tudo me obedecia 580
pois tinha nome de vosso. (178)
 
     mer. Si mas luego (179) de rondon
la fortuna dio la buelta (180)
     al. Como. mer. fue gran perdición
porque èn aquella rebuelta 585
me hurtaron mi jubon
pero bien me lo pagaron
quando comigo riñeron
que aunque me despojaron
si vno de seda lleuaron 590
otro de açotes me dieron.
 
     al. Señor não posso gostar
de gosto que he tão menso
senam muito de vagar
façame merce dentrar
& contarmoa por istenso

� Vãse & fica Mercurio & Broma

     mer. Yo también te contaria
Bromia se quedas a tras
que vna noche enojarteas (181)
     bro. Que, mer. foñaua te tenia 600
no me atreuo a dezir mas.
 
     bro. Dize, mer. pardies no dire
soñaua, bro. bem que sonhauas
     mer. quãdo enla cama estauas
que yo, en fin recorde 605
     bro. Pois tudo isso receauas
     mer. Sabe dios (182) yo aca siento
sola vna alma viue en dos
la qual anda dentro en vos (183)
     bro. E que quer ela ca dentro 610
     mer. También esso sabe Dios.
 

� Vayse Bromia & diz Mercuro

     mer. Bem se podera enganar
Bromia segundo ora estou (184)
como Almena senganou
mas cumpre hir ordenar 615
o que meu pay (185) me mandou
& porque seja guardada
esta porta & vegiada
de toda a gente nacida (186)
me sera cousa forçada 620
ser tam de pressa a tornada
quam prestes faço a partida
 

� Vayse Mercurio & vem Sosea co recado Danfatrião

     so. Anfatrion esforçado
brauo va por la batalla (187)
siete cabeça lleuaua 625
de las mejores à hallado.
 

� Fala. (188)

     � Qui viene de tierra agena
y de la muerte escapo
la razón le permtio
que cante como serena (189) 630
como agora hago yo
y pues canto tan gentil (190)
fuera llanto si muriera
quiero cantar como quiera
vna y otra y mas de mil 635
que digan desta manera
 

� Canta.

     � Dõgolõdrõ cõ dõgolõdrera
por el camino de otera
rosas coge enla rossera
dongolondrõ cõ dõgolõdrera. (191) 640
 

� Fala.

     � Quando yo vengo a pensar
que vno matarme quisiera
no hago sino temblar
porque creo si muriera
no pudiera mas cantar 645
porque estando a vn rincon
de la casa a do quede
senti muy grande ronron
y mirando que mire (192)
vi que era vn gran raton. 650
 
     � Empero yo nunca sigo
sino consejos muy sanos
que en estos casos liuianos
quien desprecia el enemigo
mil vezes muere a sus manos (193) 655
pero mi señor alli
mato el Rey delos glipazos
yo como muerto lo vi
juro a mi fee (194) que le di
mas de dos mil cuchillazos (195). 660
 
     � Y por me librar de afan (196)
me voy siempre a cosa hecha
prouar mi mano derecha
que aquel es buen capitán (197)
quedel tiempo se aprouecha 665
que quien ha de pelear
a de buscar tiempo y ora
pero quiero caminar
que me muero por cantar (198)
todo aquesto mi señora 670
 

� Vem Mercurio & diz.

Mil vezes comigo vejo
pera que meu Pay (199) se asoute
pois entam pequeno ensejo
lhe mandey talhar a noute
a medida do dessejo (200) 675
& pois que como possante
ami tudo se reporta
chego agora neste instante
a estrouar queste bargante (201)
me não chegue a esta porta 680
 
     fo. No se que miedo o locura
nesse pecho se me cría
por dios que se me asegura
q<ue> ha mucho ques nonhe (202) escura
sin que venga el claro día (203) 685
mas sabed que pienso yo
quel sol que no se acordo
de con el día venir
que a noche quando ceno
alg buen vino bebió 690
que le haze tanto dormir (204)
 
     mer. Ia sintes comprida a noute (205)
que eu asi mandey fazer
pois mais te quero dizer
que sintiras muito açoute 695
se ca quiseres vir ter
porem pois este bargante
tem medroso coração (206)
querome sengir ladrão
ou fantasma & por diante 700
não ira Se v à mão
 
     � E cõ tudo se passar
a fala quero mudar
na sua de tal seyção
que couses & perfiar 705
lhe façam oje assentar
que eu sou Sosea ele não

� Fala Castelhano.

no veo passar ninguno
en quien yo me pueda hartar
     so. A quien oygo aquí hablar 710
mande Dios no sea alguno
que me quiera aporrear
     mer. La carne de algún humano
me seria muy sabrosa
     so. Ho que boz tan temerosa 715
hombres comes ho mi ermano
no es mejor otra cosa
carne humana es muy mesqui (207)
o no comas desso no
antes carne de gallina 720
pero se mas se a vezina
que más gallina (208) que yo.
 
     mer. Vna boz de ho<m>bre aora
ala oreja me bolo (209)
     so. Pesate quien me pario 725
la boz traigo boladora
ella quisiera ser yo
pues mi boz pudo bolar
do la pudiesses oyr
por contigo no reñir 730
me diuieras de prestar
las alas para huir.
 
     mer. Que buscas cabe essa puerta
hombre se queres ladram
     so. Ay quel alma tengo muerta 735
ho Iupiter me conuierta
las tripas em coraçam.
     mer. Quien eres, quieres hablar
     so. Soy quien mi voluntad quiere
     mer. Piensas que puedes burlar 740
     so. E tu puedes me quitar
que yo sea quien quisiere.
 
     mer. Ozas hablar tam ozado
dum velhaco bouarron (210)
di quien eres, so. hum criado 745
del señor Anfatrião
por nombre Sosea chamado
     mer. Pienso quel sezo perdiste
como te llamas mal hombre
     so. Sosea soy sino me oyste (211) 750
     mer. Como en persona ta<n> triste
ossas densuziar mi no<m>bre.
 
     � Estos puños lheuaras
pues tener mi no<m>bre quieres
queres me dizer quien eres 755
     so. Ho señor no me des mas
que yo sere quen tu quisieres
     mer. Com tam nueua falsedad
andais por esta ciudad
delante de quien os mira 760
pues si sois Sosea tomad
     so. Si me das por la verdad
que me aras (212) por la mentira
 
     mer. Y que verdad es la tuya
que te quiero dar castigo 765
     so. Sino soy Sosea que digo
que Iupiter me destruya (213)
     mer. Mira el falso enemigo
tomad este bosetón
que yo soy Sosea & no vos (214) 770
     so. Tu Sosea, mer. Sosea por dios
escrauo Dansatrión (215)
     so. De modo que tiene dos
 
     mer. No terna aunque tu quieres
que a mí solo conoció 775
     so. Pues yo luego quien so (216)
Si tú no sabes quien eres
quieres que lo sepa yo
     so. En fin as me de hazer crer
que yo no soy quien ser solía 780
     mer. Quien solías tu de ser
     so. Tregoas me as de prometer
dirte lo he fin porsia.
     mer. Prometo, so. no me darás
     mer. No sino fuere razón 785
     so. Pues hermano tu sabrás
que mi amo Anfatrión
     mer. Tu amo, pues Ilcuaras
mi amo es que tuyo no
     so. Ay que vn braço me quebró 790
     mer. Mas que luego te matasse
     so. Oxala Dios ordenasse
que tú aora fuesses yo
yo que te desmembrasse
 
     mer. Essa tu tema tam loca 795
puños te la han de quitar
dime di verguença poca
hablas, so. que puedo hablar
si me as quebrado la boca
     mer. Di quien eres sin fatiga 800
     so. Soy hu<n> ho<m>bre en quie<n> tú das
     mer. Dime pues que no<m>bre as.
     so. Como queres tu que diga
pera que no me des más.
 
     m. No me as de ablar co<n>trahecho 805
     so. Toda mi vida passada
sosea (217) fuy, y con despecho
aora soy que, no nada (218)
que tus manos me han desecho
     mer. Cuyo eres pues las sientes 810
dexando consejos vanos
la verdad, q<ue> si me mie<n>tes
das con la lengua en los die<n>tes
y yo doyte con las manos.
 
     so. No conoces Anfatrião 815
     mer. Hombre sin seso te llamo
tan fuera estas de razón
piensas de mi bouarron
que no conozco a mi amo
     so. En su casa conociste 820
vno que es sosea chamado
hombre despreciado y triste
     mer. Dessa suerte lo dixiste
yo soy triste y despreciado.
 
     � Pues sabe que te aliego (219) 825
ala muerte tu fortuna
     so. Pues luego si yo no soy yo
aunque nadie me mato
soy luego cosa ninguna
ho dioses que desconcierto 830
yo por ventura soy muerto
ho muriome la razón
yo no soy de Anfatrión
el no me mando del puerto (220)
 
     � Yo no sé que no estoy loco 835
de mi madre no nací
no ando, no hablo aquí
     mer. Pues sossiega agora vn poco
que yo tambié<n> diré de mí
yo no sé que yo soy yo 840
yo no te dí con mis manos
mi señor no me lleuo
ala guerra a do mato
aquel Rey delos Thebanos.
 
     so. Yo esso muy bien lo sé 845
empero tú que hazas
quando la batalla vias
     mer. Escucha yo lo diré
y cessarán tus porfías
quando mi señor andaua 850
peleando y derramaua
la sangre de algú<n> mesquino (221)
con vna bota de vino (222)
yo el mío (223) acrescentaua
 
     so. Díze lo q<ue> yo hazía 855
con todo saber quería
sola vna cosa si puedo
tu pecho anton que sentía
     mer. del beber grande alegría
y del pelear gran miedo 860
     so. Y después, mer. muy reposado
a dormir me eche degrado
desdel sol hasta la luna
     so. Todo lo tiene contado
en fin tengo aueriguado 865
que yo no soy, cosa ninguna
 
     � Pues de todo en vn instante
me as echado de mi fuera
aconsejame si quiera
quien seré daquí adelante
pues no soy quien dantes era
     mer. Quando yo no ser quisiere
esse que tu ser desseas
después que ya Sosea no fuere
darte he sete pluguiere 875
licencia que tudo seas.
 
     � Y acogete luego amigo
abuscar tu nombre digo
pues dios vida te dexo
que el Sosea queda comigo 880
     so. Pues contigo quedo yo
Dios quede hermano contigo
aora quiero yr allá
a do mi señora esta
contarle como es venido 885
mi señor, mas o perdido
si otro yo tiene allá
todo lo terna sabido
 
     mer. Ha hombre, so. mi vos sono
     mer. A onde buelues aora 890
     so. Por Deos no se onde vò
porque si yo no soy yo
ni Almena es mi señora
     mer. Adonde vaz, so. con mensage
del señor Anfatrion 985
pera Almena, mer. a do saluage
pues quebraste la omenaje
ay veras tu perdición.
 
     � Yo doyte consejos sanos
y perfias otra vez 900
     so. (224) Altos dioses soberanos
pues me no valen las manos
foge. Aqui me valgan los pies
     mer. desta arte enseñan aqui
ahurtar el nombre ageno 905

� Vayse & torna Sosea & diz.

     so. Ay Dios como me acogi
ho Iupiter alto y bueno
quan cerca la muerte vi
 
     � Quiero me yr a mi señor (225)
contarle quanto he passado 910
y el me dira degrado
si yo soy su seruidor
en que cosa me he tornado

� Vayse Sosea & vem Iupiter & Almena & diz Iupiter.

     ju. Toda a pessoa descreta
terà señora assentado 915
que hum bem muito dessejado
se ha de alcançar por dieta (226)
pera ser sempre estimado.
     � E quem alcançado tem
tamanho contentamento 920
por conserualo conuem
que tome por mantimento
a fome de tanto bem
por isso ey de tomar
este tempo tam ditoso 925
pera a frota visitar
& depois quando tornar
tornarey mais dessejoso
 
     Que pois tam bom catiueiro (227)
me tem pressa a liberdade (228) 930
eu lhe prometo em verdade
que torne ainda primeiro
que mo peça a saudade
     al. Ainda que possa yr
mais asinha do que creo 935
como ey de consentir
que se aja de partir
na mesma noite que veo (229)
 
     ju. Forçada he minha tornada
mas muito cedo virey 940
porque desque soy chegada
a este porto a armada
ainda a nam vesitey
     al. Pois señor tampouco estais
com quem vstes inda agora 945
façase como mandais
     ju. Vos me vereis ca señora
primeiro do que cuidais.
 

� Vanse & vem Anfatriam & Sosea & diz Anfatriam. (230)

     an. En fim tu quo (231) estas aqui
estauas ja la primeyro (232) 950
     so. Señor Crea (233) ques ansi
     an. Eu nunca entendi de ti
que eras tambem chucarreyro
     so. Señor yo questoy presente
no soy Sosea su criado 955
     an. Creo que não certamente
porque Sosea era auisado
& tu es muy diferente.
 
     so. Pues señor en mi se ve
que no soy quien dantes era 960
bueluome. an. y para que
     so. Ver se a dicha me quede
dormiendo por la galera
     an. Pois me queres fazer crer
ha doudice tam raza (234) 965
mais, quero de ti saber
como não entraste em casa
Dalmena minha molher.
 
     so. Aunque Sosea quisiesse
la verdad no negará 970
aquel yo que alla està
no quiso que a casa fuesse
estotro yo que yua alla
y con furia tan crecida
ami se vino aquel hombre 975
que yo me puse em huyda
ansi le dexe mi nombre
por me dexar el la vida
 
     an. Quem seria tam ousado
que tanto mal te fizesse 980
 
     so. Yo mismo Sosea chamado
que a casa era ya llegado
antes que de aca partisse
     an. Tu chegaste antes de t
este he gentil desbarate (235) 985
     so. Pues más le digo de aquí
que vengo huyendo de mi
porque yo mismo no me mate
 
     an. Eram dous, ou era hum sò
quem te fez assi fogir 990
     so. Pesete quien me pario (236)
digo que era vn solo yo
mil vezes lo he de dezir
puede ser que naceria
daquel hombre otro alguno 995
como aquel de mi nacia
porque aunque fuesse vno
por mas de quatro tenia.
 
     � El tenia mi aparencia
empero yo nunca v 1000
tal fuerça ni tal potenca
esta sola differencia
le tengo hallado de m
     an. Pudeste dele saber
cujo (237) era, so. quien aquel yo 1005
tuyo señor disse ser
     an. Nunca eu tiue mais hum sò
& esse nam quisera ter.
 
     so. Pues señor si el bien doblado
telo muestra agora Dios 1010
deue ser de ti alabado
pues de h solo criado
te à hecho agora dos
     an. Antes pera que conheças
que cousa he mao seruidor 1015
me pesarà se assi sor
que de tam rois cabeças
quantas mas tanto pior.
     � E ja que sam tam incertos
teus ditos pera se crer 1020
muito milhor deue ser
que dexe teus desconcertos
& va ver minha molher.

� Vanse & entra Almena & diz.

     al. Que fado que nacimento
de gente humana nacida (238) 1025
que descaso (239) & auarento
nunca consentio na vida
perfeyto contentamento.
 
     � Anfatrião que mostrou
hum prazer tam dessejado 1030
a quem tanto o dessejou
na noite que soy chegado
nessa mesma se tornou (240)
de se tornar tam asinha
sinto tanto intristecer 1035
o sentido & alma minha
que certo que me adeuinha
alg nouo desprazer.
 
     � Mas parece este que vem
senão estou enganada
se ele he venha com b
pois que com sua tornada
tão trestornada me tem.

� Entra Anfatrião & Sosea & diz Anfatrião.

     an. Com que palauras señora
poderey engrandecer 1045
tão soblimado prazer
como he ver chegada a ora
em que vos pudesse ver.
 
     � Certo gram contentamento
tiue de meu vencimento (241) 1050
mas maior o ey de mim
de me ver posto na fim
de tão longo apartamento
     al. Ia eu disse o que sentia
de vinda tam dessejada 1055
mas digame toda via
como nã soy ver a armada
que me disse oje este dia (242).
 
     an. Dela venho eu inda agora
dessejoso de vos ver 1060
muito mais que de vencer
mas que me dizeis señora
que oje me ouuistes dizer
     al. Senão estaua remota (243)
certamente que lhe ouui 1065
quando oje partio daqui
que tornaua a ver a frota
que (244) era forçado asi.
 
     an. Sosea. so. señor aqu estoy yo
     an. Tu ouues tal desconcerto 1070
     so. Grandes orejas gano
pues estando em casa oyo
quien estaua alla nel puerto
     an. Quando dizeis me ouuistes
     al. Oje quando vos partistes 1075
     an. donde. al. daqui de me ver (245)
nunca vi grande prazer
que nam tenha os cabos tristes. (246)
 
Quantos males dimprouiso
que causam grandes mudanças 1080
que molher de tanto auiso
agora minhas lembranças
atem fora de juizo (247)
     al. Quereis me fazer cuidar
que poderia sonhar 1085
o que pelos olhos vi
nunca vos eu mereci
quererdesme esprimentar (248)
 
     an. Posto que he pera pasmar
ver h caso tam estranho 1090
todauia ey de atentar
se poderey concertar
h desconcerto tamanho
quando dizeis que vim ca
     al. Esta noite que passou 1095
     an. Dayme algu aqui se achou
que me visse, al. esse que ay està (249)
Sosea que cõ vosco andou.
 
     an. Sosea podeste lembrar
que ontem me viste aqui 1100
     so. nunca yo supe de mi
que me pudiese acordar
daquelho que nunca vi
     al. Ora eu creo & he asi
que ambos vindes conjurados 1105
para zombardes de mi
mas eu darey oje aqui
sinais que sejam prouados.
 
     an. Que sinais pode hi auer
de mentira tam notoria 1110
que n foi n pode ser
     al. Donde vim eu a saber
nouas de vossa victoria (250)
     an. Que nouas, al. diruolas ey
assi como mas contastes 1115
que na batalha matastes
aquele soberbo rey
& tudo desbaratastes.
 
     � Não fazendo resistencia
na batalha tam crua 1120
dandouos obediencia
vos deram ha copa sua
laurada por exelencia (251)
     an. Sosea he culpado soo
nestes acontecimentos 1125
     so. Señor som encantamientos (252)
porque aquel hõbre que es yo
le contaria estos cuentos
 
     an. Qu he esse que vos deu
tais nouas saber queria 1130
     al. Que mo pergunta, an. qu eu
quereisme fazer fandeu.
     al. Mas vos me fazeis sandia (253)
     an. Ora quero perguntar
que fiz fendo, aqui chegado 1135
     al. pusemonos a cear
     an. E depos de ter ceado
     al. Fomonos ambos deitar.
 
     an. Nunca queira deos que possa (254)
acharse na minha onrra 1140
nenha falta n mossa
seja isso doudice vossa
antes que minha desonrra
     so. Bien lo supe yo entender
que era esto encantacones 1145
& aora me aura de crer
que dos Soseas puede auer
pues ay dos Anfatriones.
 
     al. Cõ me quererdes tentar
tam trouada me fezestes (255) 1150
que me nam pode lembrar
que uos mandasse mostrar
a copa que me ontem destes
     an. Eu copa se isso ay ha (256)
que estou doudo cudarey (257) 1155
     so. Señor bien guardada està
     al. Bromea, bro. señora, al. day ca
a copa que ontem vos dey. (258)
 
     so. pues (259) yo pari otro yo
& vos otro Enfatrião 1160
no es mucha admiración
si la copa otra parió (260)
ni a vn fuera de razón.

� Entra Bromia coa copa & diz.

Eis aquí a copa vem
testemunho da verdade (261) 1165
     an. O estranha nouidade
     al. Poderme a dezir alguem
que o que digo he falsidade.
 
     an. Sosea quando ontem ca vinhas
podermeas negar ladram 1170
que lhe deste as nouas minhas
& mais a copa que tinhas
guardada na tua mão
     so. Señor que no pude no
ver ami señora almena (262) 1175
si aquel esso aca ordeno
no lheue este yo la pena
del mal que hizo el otro yo.
 
     an. Ora eu nam sey entender
tal caso nem lhe acho fundo 1180
com tudo venho a dizer
que à tantos males no mundo
que tudo se pode crer
se vos trouxer qu vos diga
que esta noite dormir (263) 1185
na nao crereis que he afs
     al. Nenha cousa me obriga
a que não crea o que vi
 
     an. Se o patram aqui vier
que he homem dautoridade 1190
crereis o que vos diser
     al. Sim que ninguem pode auer
que me negue esta verdade
     an. Eu estou em concrusam
doje desembaraçar 1195
tam enleada quessam
ha nao me quero tornar
a trazer ca Belferram.
     � Sosea ate minha tornada
fica nesta casa em vela 1200
queu armarey tal salida (264)
a que ma mim t armada
que venha oje a cair nela

� Vayse & diz Almena.

     al. Ho molher triste & suspensa
da mais alta (265) confusam 1205
que nunca vio coraçam
em que mereces a offensa
que te faz Anfatrião.
 
     � Sempre de mim soy amado
tanto quanto cm mi fe sente 1210
co coração tam liado
que se de mim era ausente
nele o via fegurado (266)
& pois molher que comprisse
milhor queu fedelidade (267) 1215
não na vi, n quem me visse
que dos lemites saisse
h ponto de honestidade.
 
     Pois por he tão maltratada
inocencia tam singela 1220
que a pena mais apertada
he a culpa leuantada (268)
ao coração liure della
mas ja que minhalma está
sem culpa do que padeço 1225
seja o que for queu conheço
a verdade me pora
no queu pelo (269) ter mereço.
Bromia, br. Señora, al. hi mãdar
a Feliseo que và 1230
meu primo Aurelio chamar
que lhe quero perguntar
que conselho me darà
& pois que Enfatrião
vay buscar somente quem 1235
lhe a ude a sua tençam
quero eu ter aqui tambem
quem me defenda a rezam.
 

Vayse Bromea & vem Iupiter & diz Iupiter.

     ju. Gram desconcerto tem feyto
Anfatrião com Almena 1240
qualquer deles tem direito
eu fou o que venço o preyto
& ambos pagam a pena
quero me hir la desfazer
tam trabalhosa demanda (270) 1245
por nos tornarmos a ver
por en fin qu muito quer (271)
com qualquer desculpa abrãda
 
     E pois a afeyçam
a de mudar tam minha 1250
quero hir alcançar perdam
da culpa que sendo minha (272)
parece Danfatriáo
     al. Parece que torna ca
Anfatrião que ja se hia 1255
nam sey a que tornara
senão fe lhe peza ja
dos enganos que tecia (273)
 
     ju. Señora nam aja error (274)
que tantos males me faça 1260
porque se o contrario for
pequeno sera o amor
que manencoria (275) desfaça
& pois com tanta alegria
de tantos perigos vim 1265
pesar mea se achar no fim
que ha leue zombaria
vos possa agrauar de mim (276).
 
     al. Com palauras de desonrra
nam fe à de tratar quem ama 1270
nem zombaria se chama
por esprementar a onra
pòr em tal perigo a fama
bem tiue eu pera m
que era aquilo experiencia 1275
     ju. Errey no que cometi
bem me basta a penitencia
de quanto me arrependi.
 
     � E se fiz algum error
cõ que vosso amor se mude 1280
de qu uolo tem maior
não esprementey vertude (277)
mas esprementey amor
que se com caso tam vario
folguey de vos agastar 1285
soy amor acrecentar
porque as vezes h contrayro
faz feu contrario auiar
 
     � Daqui v que a leue magoa
firmeza, feyções (278) aumenta 1290
como bem se ve na fragoa
onde o fogo se acrecenta
borrifandoo cõ pouca agoa
se h mal grande fe aleuanta
n coração que maltrata 1295
ha afeyção desbarata (279)
porque onde a agoa he tanta
o fogo damor se mata
 
     � E pois tiue tal tenção
perdoay señora a culpa 1300
deste vosso coraçam
     al. Não se alcança assi perdão
derro que nam tem desculpa
     ju. Ora pois assi tratays
qu em tanto risco pos 1305
o amor que vos negais
eu mausentarey de vos
onde mais me não vejays (280)
     � Que pois desculpa não tem
coraçao que tanto quer (281) 1310
voume que não será bem
que quem vos nam podeis ver
que possa mais ver ninguem
se alga ora meu cuidado
vos der dor em que (282) pequena 1315
peçouos pois fuy culpado
que vos nao pese da pena
de qu vos foy tão pesado
 
     � E depois que a desuentura
puser este coração 1320
debaxo da sepultura
as letras na pedra dura (283)
vossa dureza (284) diram
isto vos ey de dizer
que mensinou minha dor 1325
se quiserdes leda ser
nunca espremiteis amor
em qu volo não teuer
 
     � Deixaime hir não me tenhais
     al. Anfatrião nam choreis 1330
Anfatrião, ju. que quereis
ou pera que nomeais
hom que ver não podeis
     al. Anfatrião seu causey
com manencoria pequena 1335
cousa cõ que o magoey
eu quero cair na pena
dessa culpa que lhe dey.
     ju. Sempre serey magoado
se vossa mà condição (285) 1340
me não perdoa o passado
     al. Perdoo & peço perdão
delhe não ter perdoado
     so. No le perdone señora
hasta que cõ deuoción 1345
tambien me pida perdón
que ben se me acuerda aora
que me ha llamado ladrón.
 
     ju. Sosea, so. señor, ju. vay buscar
o Piloto Belferrão 1350
dirlhas se desembarcar
que me parece rezão
que venha oje ca cear (286)
     so. Si señor voy ala ora (287)
     ju. De nenha calidade 1355
cures de fazer demora
& nos vamonos señora
confirmar nossa amizade.

� Vanfe & vem Mercurio & diz

     � Grandes reboltas vam la
grandes acontecmentos 1360
cumpreme que esteja ca
em quanto meu pay està (288)
em seus desenfadamentos
porque vejo Anfatrião
vir da nao muy apressado 1365
& tendo corrido & andado
não pode achar Belfarrão
que lhe era bem escusado.
 
     � Pareceme que vira
ver se lhe abre aqui alguem 1370
mas porem se chega ca
ja pode ser que se và
mais confuso do que vem

� Entra Anfatrião & diz.

Quis nos nossa natureza
cõ tal condição fazer 1375
que ja temos por certeza
não auer grande prazer
sem mestura de tristeza (289)
 
     � Este decreto espantoso
que instituyo nossa sorte 1380
he tal & tam reguroso
que ninguem antes da morte
se pode chamar ditoso
com esta justa balança
ho fado grande profundo 1385
nos refrea a esperança
porque ninguem neste mundo
busque bemauenturança.
 
     � Eu que cuidey de viuer
sempre contente de m 1390
com tamanho rey vencer
venho achar minha molher
de todo fora de si
mas doutra parte que digo
que see verdade o que v 1395
& o que la diz he asi
virey a cuidar comigo
que eu sou ho fora de m
 
     � Quero ver se acho ja
fora de tam secos nos 1400
ou de casa, mer. ho de alla
qui sois. an. abre. mer. sãtodios
pues no os conocen aca
     an. Ho que gentil desuario
abrime ora se quiserdes 1405
     mer. no hare que en mi confio
que de fuera dormiredes
que no comigo amor mio (290)
 
     � Que canción para oyr
     an. A Sosea zombas de mi 1410
ora querome fengir
que ainda o nam conhec
por ver se me quer abrir
a señor não abrireis
     mer. que quereis hõbre por dios 1415
     an. Duas palauras de vos
     mer. tengo dicho mas de ses
& aora me pedis dos.
 
     � De fuera podeis dormir
que no podeis entrar aca 1420
     an. Ora acabay abri la (291)
     mer. Digo que no quiero abrir
dixe dos palabras ya
     an. Ora sus bargante abri
     mer. Si no te buelues de aqui 1425
a gran peligro te offreces
     an. Velhaco nam me conheces
ou estas fora de ti.
 
     mer. Bonico venís amor
quien sois que habláis ta<n> osado 1430
     an. Abre que sou teu senhor
     mer. Bueluase dessotro lado
y conocerlee mejor
     an. Sosea moço, me. assí me llamo
huélgome que lo sepáis 1435
empero digo que os vays
que Enfatrión es mi amo
vos hi buscar quien seáis.
 
     an. Pois quero saber de t
eu qu sou, mer. y quil sois vos 1440
como os llaman, an. abri
     mer. A vos os llaman abri
pues abri, anda cõ dios
     an. Qu ha que possa sofrer
em sua honrra tal destroço 1445
que pera me endoudecer
me tem negado a molher
& agora me nega o moço.
 
     mer. Mira el encantador
como se lastima y llora 1450
y fuesse tomar aora
la forma de mi señor
para engañar mi señora
pues espera y no os vays
por hun espacio pequeño 1455
verna quien representáis
y el os hará que boluays
el falso gesto a su dueño.
     an. Vay velhaco & chama ca
esse falso feiticeyro 1460
que se ele la dentro està
esta espada julgarà
qual de nos he o verdadeyro

� Vayse Mercurio & vem Sosea & Belferrão, & diz Belferrão.

     bel. Ora ninguem prefumira
que tinhas tam pouco siso 1465
pois vas achar demprouiso
tambem forjada mentira
que me faz cair de riso
h moço que aleuantou
tal graça nunca naceo 1470
porque vos jura que achou
que ou ele em dous se perdeo
ou de h dous se tornou.
 
     so. Patrón que no burlo no
en vno son dos vnidos 1475
y en dos cuerpos repartidos
yo soy el, y el es yo
de hu<n> padre y madre nacidos
     bel. Esse tu que la estas
tam velhaco he como ti (292) 1480
     so. Mas aun pienso que es más
por delante y por detrás
todo se parece a m.
 
     � Y fue gran merce de Dios
ajuntar ami mas vno 1485
que peor fuera de nos
si dios me hiziera ninguno
que no de vno hazer dos
     bel. Assi que se te perdefte
vieste a cobrar mais h 1490
muy gentil conta fizeste
pois que perdido soubeste
pois eras dous fendo nenh.
 
     so. Pues tenéis por abusión
verdad ta<n> clara y ta<n> rasa 1495
aunque pone admiración
quiera dios que alla en casa
no halleis otro patrón
     an. O Patrão que fuy buscar
parece que vejo vir 1500
não sey qu o foy chamar
mas que me à de aporueitar
me não querem abrir (293)
 
     � Ha Belferrão, bel. a señor
ja finto que fuy culpado 1505
porque quem he conuidado
se tam vagaroso sor
merece não ser chamado
     an. A vos qu vos cõuidou
     bel. Sosea por mandado seu 1510
     an. Diso Patram não sey eu
que Sosea ja me negou
& ja fenam da por meu.
     E fe alguem vos foy dizer
queu vos chamo a minha mesa 1515
mal vos darà de comer
qu de todo lhè defesa
a casa & mais a molher
     bel. Quem he esse tão ausado (294)
que vos isso faz señor 1520
     an. Sosea creo que enganado
por algum encantador,
que a honrra me t roubado.
     bel. Se ele aqui comigo vem
isso como pode ser 1525
     an. Ha, que a ira que vou ter
tam cega a vista me tem (295)
que mo não deixaua ver
porque rezão caualeyro
não me abris quãdo vos mãdo 1530
vos fazeisuos chucarreyro
     so. Yo señor y como y quando
     an. Queréis lo saber primeyro.
 
     � Esperay diruolo ha
mas serà por outro son 1535
     so. Ha señor Anfatrión
porque matandome està
sin delito y sin razón
     an. Agora que vos eu dou
me chamais Anfatrião 1540
& pera me abrirdes não
     bel. Este moço em que peccou
porque pena sem rezam.
No mais por amor de m
     an. não que nam sou seu señor 1545
eu sou hum encantador
não no dizeis vos ass
ladrã perro enganador. (296)
     so. Porque fuy presto a llamar
por su mandado al Patrón 1550
me quiere ora matar
     an. Qu volo mandou buscar (297)
     so. Sino ay otro Anfatrión
vuestra merce sin dudar.
 
     an. Eu te mandey, so. si señor 1555
si otro no, an. outro àqui
por qui tu zombes de m
pois sò desse encantador
me quero vingar de ti.
     so. Ho Iupiter a quien bramo 1560
por sua bonda que me vala (298)
pues porque Sosea me chamo
yo mismo, y despues mi amo
me dieron venida mala
 

� Entra Iupiter & diz.

     ju. Quem he o tam atreuido 1565
que aqui ousa de fazer
tam reuoltoso arroido
cõ meus moços sem temer (299)
que fuy sempre tam temido
qui aqui faz vnião 1570
toma mui grande despejo
     bel. Ho grande admiração
vejo eu outro Anfatrião
ou he sonho isto que vejo
 
     so. No miráis la encantación 1575
que aquel hizo ami señor
el que sale, belferrón (300)
es el cierto Anfatrión (301)
questotro es encantador
     ju. Sosea. so. mi Señor ya vo 1580
     ju. Patrão por vos sò espero
     so. No os lo dezia yo
que este era el verdadero
y esse que alla queda no
 
     an. Bargante onde te vas 1585
fazes teu señor sandeo (302)
pois espera & leuaras
     ju. Oula tornay por detras
não deis no moço, he meu
Voso, ju. meu. ã. pode isto auer (303) 1590
que outr minhas cousas tome
vos galante aueis de fer
o que me tomais o nome
casa, moços & molher.
 
     � Eu vos farey conhecer 1595
cõ qu tendes esse trato
     ju. Sosea, so. Señor, ju. vay dizer
que aparelhem de comer (304)
em quanto este doudo mato
     bel. Ho señor não seja asim 1600
aja em vos concerto alg
& senão pois aqui vim
farey que sò tome en mim
os golpes de cada h
 
     ju. Patrão vossa boa estrela (305) 1605
me fara deixar cõ vida
quem me nao merece tela
     an. não na tenho eu merecida
pois que vos deixo com ela
     bel. Ho hom que for sezudo 1610
na tão grande questam
a de tomar por escudo
a justiça & a rezão
que estas armas vencem tudo
 
     � E pois nossa natureza 1615
muitos homs faz igoais
dee qualquer de vos sinais
de qu he, pera certeza
da forma que ambos mostrais
     ju. Sou contente de mostrar 1620
pelos finais que vos dou
que saõ este sem faltar
     an. Que sinais podeis vos dar
pera que sejais qu sou.
 
     ju. Estes que logo veres 1625
se saõ vaõs (306) se de rais (307)
Patrão vos sede jus
que em vos logo (308) enxergares
qual mais verdade vos diz
     bel. Eu não sinto (309) onde consista 1630
a cura desta doença
que ha tam pouca differença
que aquele em ponho a vista
por esse dou a fentença.
 
     � Mas señor vos q<ue> ordenastes 1635
que o juis disto fosse eu
quando se a batalha deu
dizey que me encomendastes
que sicasse a cargo meu
     ju. Deyuos cargo que esteuesse 1640
toda armada a bõ recado
& se mal vos foccedesse
que para os viuos ouuesse
o refugio aparelhado (310)
 
     bel. Ora vos quantos dobrões 1645
esse dia mentregastes
     an. tres mil & vos os contastes
     bel. Ambos sois Anfatriões
pelos finais que mostrastes
     ju. Pera ser mais conhecida 1650
a tençam (311) deste sandeu
vede estoutro sinal meu
que he neste braço a ferida
que me elRey Terela deu
 
     bel. Mostray vos señor tambem 1655
     an. Aqui o podeis olhar
     bel. Ho causa pera espantar
que ambos a ferida tem
d tamanho em h lugar
Vem Sosea. (312)
     so. Dize mi señora Almena (313) 1660
que no fe à assi destar
cõ hun bouo a razonar
que se le enfria la cena
     ju. Belfarrão vamos cear
 
     an. Belfarrão não me leyxeis 1665
como, tambem me negais
     ju. Anday não vos detenhais
vamos comer se quereis
não ousais (314) h doudo mais
     an. Ha maos assi me ordenais 1670
offensa tão mal olhada
eu farey se me esperays
cõ que todos conheçais
os fios da minha espada (315).
 
     ju. As portas prestes fechemos 1675
nam entre este doudo ca
     so. De fuera se dormirá (316)
entre tanto que cenemos
puede passearse allá.
 

� Vanse dentro & fica Anfatrião soo & diz.

     an. Ho ira para senam crer 1680
em que minhalma se abrasa
que me faz endoudecer (317)
& nam me ajuda a romper
as paredes desta casa
& porque nam tenho eu
forças que tudo destrua
pois que tanto a saluo seu
outrem acho que possua
a milhor parte do meu.
 
     � Eu yrei oje buscar 1685
quem me ajude a vir quelmar
toda esta casa sem pena
donde veja arder Almena
cõ qu a vejo enganar.

Vayse Anfatrião, & vem Aurelio, & hum seu moço e diz.

     aur. No alho a mis males culpa 1695
pera que merezca pena
la causa que me condena
     mo. Essa esta gentil desculpa
para oje dar Almena.
 
     � T no mandado chamar 1700
& ele està tão descuidado
     aur. Moco queresme matar
que desculpa posso eu dar
milhor queste meu cuydado
     mo. E não ha mais que fazer 1705
co isso a boca me tapa
pera mais nada dizer
     aur. Ora dame ca essa capa
& vamos ver ho que quer.
 
     � Não trates de mais rezam 1710
pois não ha qu te rezista
que veio (318) outra nouaçam (319)
     mo. que he, aur. ou me mte a vista
ou eu vejo Anfatrião
     mo. Eu ouui a Feliseo 1715
quando ca trouxe o recado
como ele era chegado
& quis me dizer que veio
do siso desconcertado
 
     aur. Isso quero eu saber 1720
pois que tal cousa se soa (320)
señor podese dizer
que a vinda seja muy boa
     an. Essa não pode ela ser
     aur. por não. an. porq he roubada 1725
minha honrra sem temor
& minha casa tomada
& vossa prima enganada
por h grande encantador
 
     aur. isso he certo, an. & manisesto 1730
& tudo tem ja por seu
adultero & deshonesto
tem tomado o meu gesto (321)
& fazlhe crer que faõ eu
     aur. Contais h caso despanto 1735
& pois, não podeis entrar
defendeyrne por en tanto
que eu eylà de chegar
pèra ver qu pode tanto
 

� Vayse Aurelio dentro & diz Anfatrião.

     an. Se ver desonrra tam crara (322) 1740
me não teuera o sentido
totalmente endoudecido
que grauemente chorara
ver tam grande amor perdido
& quando vejo a verdade 1745
do nosso amor & amizade
desfeyto cõ tanta magoa
encheseme os olhos dagoa (323)
& alma de saudade.
 
     � Assi que quis minha estrela (324) 1750
para nunca ser contente
que agora estando presente
viua mais saudoso dela
que quando dela era ausente
esta porta vejo abrir 1755
com impeto demasiado
que poderey presumir
que vejo Aurelio sair
como hom desatinado.

� Vem Aurelio & Belfarrão & Sosea & diz Aurelio.

     aur. Ho estranha nouidade 1760
ho causa para nam crer (325)
     bel. Venho cego de verdade
que não poderam soffrer
meus olhos a claridade
     so. Ho triste que viengo ciego 1765
cõ rayos y com visiones
& destas encantaciones
si nuestra casa arde en fuego
ham se de arder mis colchones.
 
     aur. Vamos a Anfatrião 1770
contarlhe cousas tamanhas
     an. Que vay la que cousas vam
     aur. Marauilhas sam estranhas
que me treme o coração (326)
porque aquele hom que assi 1775
tantos enganos teceo (327)
como era cousa do ceo
tanto que apareci
logo desapareceo.
 
     � E em desaparecendo 1780
com roido grande & horrdo
toda a casa alumiou
& darte nos inflamou
que nos vimos acolhendo
do rayo que nos cegou 1785
estes acontecimentos
não sam de humana pessoa
vos ouuis a vos que soa
escutay estay atentos
vejamos o que pregoa 1790
 
     � Voz de Iupiter de dentro.
     � Anfatrião que em tus dias
ves tamanhas estranhezas
nam te espantem fantesias
que as vezes grandes tristezas
parem grandes alegrias 1795
Iupiter sam manifesto
nas obras de admiração
que por mi causado (328) sao
quis me vestir em teu gesto (329)
por honrrar tua geraçam 1800
 
     � Tua molher parirà
hum filho de mim gerado
que Hercules se chamarà
o mais valente e esforçado
que no mundo se acharà (330) 1805
cõ este, teus successores
se honrraram de serem teus
& darlheaõ os escriptores
por doze trabalhos seus
doze milhões de louuoses (331). 1810
 
     � Dessa illustre fadiga
colheras muy rico fruito (332)
em fim a razão me obriga
que tam pouco dela diga
porque o tempo dirá muito (333). 1815
 

� FIM.

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Auto de Filodemo

(334)



                     Acerca de esta obra, debido al Cancioneiro (335) de Luis Franco Correa: COMEDIA FEITA POR LUIS DE CAMOENS -REPRESENTADA NA INDIA A FR.co DE BARRETO -persiste la tradición que habiendo sido el AUTO, quizá escrito en Lisboa, fue llevado a escena en Goa, en 1555, en los festejos con que se celebró la investidura de aquel gobernador.                


Auto chamado de Filodemo (336),

 

FEYTO POR LVIS DE CAMOES

 

en que entram as feguras seguintes, Filodemo, Vilardo seu moço, Dionisa, Solina sua Moça, Vanadoro Monteyro, hum pastor Doriano amigo de Filodemo, hum bobo filho do pastor, Florimena Pastora, dõ Lusidardo pay de Vanadoro, tres Pastores baylando Doloroso amigo de Vilardo.



� ARGVMENTO DO AVTO.

                                  Hvm Fidalgo Portugues que a caso andaua nos Rey-
nos de Dinamarca, como por largos amores & mayores
seruiços teuese alcançado ho amor de ha filha del
Rey, foylhe necessario fogir com ela em ha gale, por 5
quanto auia dias que a tinha prenhe, & de feito sendo
chegados à costa d'Espanha, onde ele era senhor de
grãde patrimonio, armouselhe grande tromenta, que
sem nenhum remedio dando a galé a costa se perderam
todos miserauelmente, senam a Princesa que cm ha
taboa soy a praya, a qual como chegasse o tpo de 10
seu parto junto de ha fonte pario duas criãças,
a macho & femea, & não tardou muito h pastor
Caltelhano naquelas partes (337) moraua, ouuindo os
trros gritos dos meninos lhe acodio a tpo que a may-
ja tinha espirado, crecidas en fim as crianças 15
debayxo da humanidade (338) & criaçam daquele pastor, ho ma-
cho que Filodemo se chamou ha vontade de qu os bau-
tizara, leuado da natural inclinaçam deixando o campo
se foy para a cidade, aonde por musico & discreto valeo
muto en casa de dõ Lusidardo, irmão de seu Pay, a qu 20
muitos anos seruio sem saber o parentesco que antre
ambos auia, & como de seu pay não teuese erdado
mais que os altos espritos, namorouse de Dionysa,
filha de seu señor & tio, que encitada ao que por
suas obras & boas partes (339) merecia, ou porque elas nada 25
engeitão, lhe não queria mal. Aconteceo mais que Ve-
nadoro filho de dõ Lusidardo, mancebo fragueiro, &
muyto dado ao exercicio da caça, andando h dia no
campo apos h ceruo se perdeo dos seus, & indo dar
em ha fonte onde estaua Florimena irmã de Filo- 30
demo, que asim lhe puseram o nome enchendo ha
talha dagoa, se perdeo damores por ela, que se nam
soube dar a conselho, n partirse donde ela es-
taua, atê (340) que seu Pay o não soy buscar. Ho qual infor-
mado pelo Pastor que a criara (que era hom sabio na 35
arte magica) & como a criara, não teue por
mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha,
& prima de Filodemo, & a Venadoro seu filho,
com Florimena sua sobrinha, irmã de Filodemo Pastor, &
tambem pela muita renda que tinha que de seu Pay ficara, 40
de que eles eram uerdadeyros erdeyros, & das mais parti-
cularidades da comedia, fara mçam o auto he o seguinte.


� Entra logo Filodemo & hum seu moço, Vilardo.
                                                 fi. Moço Vilardo, mo. eylo vay
          fi. Falay erama (341) falay (342)
     & sahi ca para asala 45
    Ího vilão como se cala
          mo. Pois señor sayo a meu pay
     que quando dorme não fala
          fi. Trazey ca ha cadeyra
     ouuis vilão, mo. Señor mim 50
     semela não tras a mim
     vejo lheu roym maneyra
          fi. Acabay vilão roim (343).
          � Que moço para seruir
     qu tem as tristezas minhas 55
     que pudesse afsi dormir
          mo. Señor nestas menhaãszinhas
     não ahay fenão cayr (344)
     por de mais he trabalhar
     queste sono seme ausente 60
          fi. Porque, mo. por à de assentar
     que senam for cõ pão quente
     não ha de desaferrar.
 
          fi. Ora hi pelo que vos mando
     vilão feito de formento. 65
     triste do que viue amando (345)
     sem ter outro mantimento
     cõ questè fantesiando
     sò ha cousa me desculpa
     deste cuidado (346) que sigo 70
     ser de tamanho perigo
     que cuido que a mesma culpa
     me fica sendo castigo.
� V o moço & assentase na cadeira Filodemo, & diz auante.
          � Ora quero praticar
     sò comigo h pouco aqui 75
     que depois que me perdi (347)
     dessejo de me tomar
     estreta conta de mi
     vay para fora vilardo (348)
     torna ca vayme saber 80
     se se quer ja 1à erguer
     o señor dõ Lusidardo
     & vem mo logo dizer
 
� Vayse o Moço.
          � Ora bem minha ousadia
     fem azas, pouco segura 85
     que vos deu tanta valia
     que subais a fantesia
     onde não sobe (349) ventura
     por ventura eu não naci
     no mato fem mais valer 90
     co gado ao pasto trazer
     pois donde me veyo a m
     Saberme tambem perder
 
          � Eu nacido antre pastores
     fuy trazido dos currais 95
     & dantre meus naturais
     para casa dos senhores
     donde vim a valer mais
     agora logo tam cedo
     quis mostrar a condiçam (350) 100
     de rustico & de vilam
     dandome ventura o dedo (351)
     lhe quero tomar a mão. (352)
          � Mas ho quisto não he asi
     n saõ vilãos meus cuidados 105
     como eu deles entendi (353)
     mas antes de soblimados
     os nam posso crer de m (354)
     porque como ey eu de crer (355)
     que me faça minha estrela 110
     tam alta pena sofrer
     que fomente pola ter
     mereço a gloria della. (356)
 
          � Senam se amor datentado
     porque me nam queixe dele 115
     tem por ventura ordenado
     que mereça o meu cuidado
     sò por ter cuidado dele (357)
� Vem o moço & diz.
          mo. O Señor dõ Lusidardo
     dorme cõ todo contento (358) 120
     & ele cõ o pensamento (359)
     quer estar fazendo alardo
     de castelinhos de vento (360)
 
          � Pois tam cedo se vestio
     con seu dano se conforme (361) 125
     pesar de que me pario (362)
     ainda o sol nam saio (363)
     se vem a mão tamb darme (364)
     ele querse leuantar
     asi pela menhazinha 130
     pois queró desenganar
     que por muito madrugar
     nam amanhece mais azinha (365)
 
          fi. Trazeme a viola ca
          mo. Voto a tal que me vou rindo (366) 135
     señor tambem dormira
          fi. Traze moço, mo. Sim virà
     senão esteuer dormindo
          fi. Ora hi polo que vos mando
     nam grasejeys, mo. eisme vou 140
     pois pesar de sam (367) Fernando (368)
     por ventura sou eu grou (369)
     sempre ey destar vegiando.
 
� Vayse o moço & diz Filodemo.
          � Ha señora que podeis
     ser remedio do que peno 145
     quã mal ora cuidareis
     que viueis, & que cabeis
     n coraçam tã pequeno
     se vos fosse apresentado
     este tromento en que vuo 150
     crerieys que fuy ousado
     em este vosso criado
     tornarse vosso catiuo (370)
 
� Vem o Moço & tras a viola.
          mo. Ora eu creio se he verdade (371)
     que estou de todo acordado 155
     que meu amo he namorado
     & am dame na vontade
     que anda h pouco abalado. (372)
     & se tal he eu daria
     por conhecer a donzela 160
     a razão (373) doje este dia
     por a desenganaria
     somente por ter doo dela. (374)
 
          � Auialhe de perguntar
     señora de que comeis 165
     se comeis douuir cantar (375)
     de falar bem, de trouar
     em boa hora casareis
     porem se vos comeys pão
     tende señora resguardo 170
     que eys aqui està Vilardo
     que he h camalião
     por isso vos (376) fazey fardo. (377)
 
          � E se vos sois das gamenhas (378)
     & ouuerdes datenta 175
     por mais que por manducar
     mi cama son duras penhas
     mi dormir sempre velar (379)
     a viola señor vem
     sem primas, nem derradeyras 180
     mas sabe que lhe conuem
     se quer señor tanger bem (380)
     à de auer meller terceyras. (381)
 
          � E se estas cantigas vossas
     não forem para escutar 185
     & não quiserdes espirar (382)
     à mister cordas mais grossas
     porque não possam quebrar
          fi. Vay para fora, mo. ja venho
          fi. Queu sò desta fantesia 190
     me sostenho & me mantenho (383)
          mo. Camanha vista que tenho
     que vejo à estrela no dia.
 
� Vayse Vilardo & canta Filodemo.
          � Ado sube el pensamiento
     seria gloria imensa 195
     si alla fuesse quien lo piensa.
          fala. Qual espirito deuino
     me farà a m sabedor
     pois tam alto ymagino (384)
     deste meu mal, se he amor 200
     se por dita, he desatino
     se he amor digão me qual
     pode ser meu fundamento (385)
     ou qual he seu natural
     ou porque empregou tão mal 205
     h tam alto pensamento
 
          � Se he doudice, como en tudo
     a vida me abrasa & queyma
     ho qu vio n peito rudo
     desatino tam fezudo 210
     que toma tão doce teyma
     à señora Dionysa
     onde natureza humana
     se mostrou tam soberana
     que o que vòs valeis me auisa 215
     & o queu peno mengana
 
� Vem Solina moça & diz.
          so. Tomado estais vos agora
     señor cõ o furto nas maõs (386)
          fi. Solina, minha señora
     quantos pensamentos vãos 220
     me ouueries lançar fora
          fo. Ho señor & quam bem soa
     o tanger de quando em quando
     bem sey eu ha pessoa
     que ha bem ha ora boa 225
     que vos està escutando.
 
          fi. Por vida vossa, zõbais (387)
     qu he, quereismo dizer
          so. Não no aueis vos de saber
     bofe se me não peytais 230
          fi. daruos ey quanto teuer
     pera tais tempos como estes
     qu teuera ha vos dos ceos
     pois escutar me quisestes
          so. assi pareça eu a Deos 235
     como lhe vos parecestes.
 
          fi. A señora Dionysa
     querse ja alcuantar
          so. Assi me veja eu casar
     como despida en camisa 240
     se ergueo por vos escutar
          fi. En camisa leuantada
     tão ditosa he minha estrela
     ou mo dizeis refalfada
          so. Pois bem me defendeo ela 245
     que vos nam dissesse nada.
 
          fi. Se pena (388) de tantos anos
     merecer alg fauor
     para curar (389) de meus danos
     fartayme desses enganos (390) 250
     que não quero mais do amor
          so. Agora quero eu falar
     neste caso cõ mais tento (391)
     quero agora perguntar
     & de sizo his vos tomar 255
     h tam alto pensamento. (392)
 
          � Certo he muita (393) marauilha
     se vos isto não sentis
     bem, vos, como não cais
     que Dionysa que he filha 260
     do señor a quem seruis
     como, vòs não atentais
     dos grandes de què pedida
     peçouos que me digais
     qual he o fim que esperays 265
     neste caso, em vossa vida
     que rezão boa, ou que cor
     podeis dar a esta affeyção
     dizeyme vossa tenção
          fi. Ondes vistes vos amor 270
     que se guie por razão (394)
     se quereis saber de mi
     que fim ou de que teor
     pertendo en minha dor
     se eu neste amor quero fim 275
     sem fim me atromente amor.
 
          � Mas cõ glora fengida
     pertendeis de menganar
     por assi mal me tratar
     asi que me dais a vida 280
     somente por me matar (395)
          so. Eu vos digo a verdade
          fi. Da verdade fujo eu
     porque sò amor me deu
     pena de tal calidade 285
     que affaz me custa do meu. (396)
          so. Folgo muito de saber
     que sois amante (397) tam fino
          fi. Pois mas vos quero dizer
     que as vezes no que ymagino 290
     não ouzo de mestender
     na ora que ymaginey
     na causa de meu tromento
     tamanha gloria leuey
     que por onças dessejey 295
     de lograr o pensamento.
 
          so. Se me vos am jurardes
     de me terdes en segredo
     ha cousa, mas ey medo
     de logo tudo contardes 300
          fi. A qu, so. àquele enxouedo (398)
          fi. Qual. so. aquele mao pesar
     que ontem cõuosco hia
     qué se fosse em vos fiar
     o que vos disse o outro dia 305
     tudo lhe fostes contar.
 
          fi. Que lhe contey, so. ja lhesse
          fi. Por certo questou remoto (399).
          so. hi que sois h sesto roto
          fi. Esse hom tudo merece 310
          so. Vos sois muito seu deuoto
     Señora não ajais medo
     contaymiso & farmey mudo
          so. Señor ho hom sezudo
     se em tais cousas tem segredo 315
     sayba alcançara tudo.
 
          � A señora Dionysa
     crede que mal vos não quer
     nam vos posso mais dizer
     isto tende por balisa 320
     com que vos saybays reger
     que en molheres se atentais
     o querer està vesiuel (400)
     & se bem vos gouernais
     não desespereis do mais 325
     por en fim tudo he possiuel.
 
          fi. Señora pode isso ser
          so. Si, que tudo ho mundo tem
     olhay não no sayba alguem
          fi. E que maneyra ey de ter 330
     para en mi ter tanto bem
          so. Vos señor o sabereis (401)
     & ja que vos descobri
     tamanho segredo aqui
     ha merce me fareis 335
     en que me vay muito a m.
 
          fi. Señora a tudo me obrigo
     quanto for en minha mão.
          so. Pois dizey a vosso amigo
     que não gaste tempo en vão 340
     n queira amores comigo
     porque eu tenho parentes
     que me podem bem casar
     & mais que nao quero andar
     agora en boca de gentes (402) 345
     a qu sele vay gabar
 
          fi. Señora mal conheceis
     o que vos quer Duriano
     sabey se o não sabeis
     que en sua alma sente o dano 350
     do pouco que lhe quereis
     & que outra cousa não quer
     que teruos sempre seruida (403)
          so. Pola sua negra (404) vida
     isso auia eu b mester 355
          fi. vos sois desagardecida.
          so. Si que tudo faõ enganos
     en tudo quanto falais
          fi. não quero que me creais
     crede o tempo que a dous anos 360
     que vos serue, & inda mais
          so. Señor bem fey que mengano
     mas a vos como a irmão
     descubro este coração
     sabey que a Doriano 365
     tenho sobeja afeyção (405)
 
          � Olhay que lhe não digais
     isto que vos aqui digo
          fi. Señora mal me trateis (406)
     inda que sou seu amigo 370
     sabey que vosso sou mais
          so. E ja que vos confessey
     aquestas fraquezas mnhas
     que ha tanto de mim sey
     fazeyuos nas cousas minhas 375
     ho queu nas vossas farey.
 
          fi. Vos enxergareis (407) señora
     o queu, por vos sey fazer
          so. Como me deixo esquecer
     aqui esteuera agora 380
     falando te anoutecer
     voume & olhay quanto val
     ho que passou antre nos
          fi. E porque vos hides vos
          so. Porque parece ja mal 385
     estar aqui ambos soos. (408)
 
          � E mas vou vestir agora
     a qu vos da tã maa vida (409)
     ficayuos señor embora
          fi. Nessa yde vos senhora 390
     que ja vos tenho entendida.
� Vayse Solina, & diz Filodemo
          fi. Ora se pode isto ser
     do questa moça me auisa
     que a señora Dionysa
     por me ouuir se fosse erguer 395
     da sua cama em camisa.
 
          � E diz que mal me não quer
     não queria mayor gloria
     mas o que mais posso crer
     que nem para lhe esquecer 400
     lhe passo pela memoria (410)
     mas ter Solina tambem
     en Doriano ho intento
     & leuarme (411) a lenha o vento (412)
     porque sela lhe quer bem 405
     para bem vay meu tromento.
 
          � Mas foyse este hom perder
     neste tempo, de maneyra
     por ha molher solteyra
     que não me atreuo a fazer 410
     que h pequeno bé lhe queyra (413)
     porem farlhey h partido
     porquela não se querele
     que se mostre seu perdido
     inda que seja fengido 415
     como lhoutrem faz a ele
 
          � E ja que me satisfaz
     & tanto nisto se alcança
     delhe fengida esperança
     do mal que lhe outrem faz 420
     tomarà nela vingança.
� Vayse Filodemo, & v Vilardo.
          mo. Ora (414) boa està a cilada
     do meu amo cõ sua ama
     que se leuantou da cama
     por ouuilo (415), està tomada 425
     assi a tome (416) mà trama (417).
 
          � E mais crede que qu canta
     ainda descantarà
     & qu do leyto onde está
     por ouuilo se leuanta 430
     mòr desatino farà (418)
     qu auia de cuidar
     que dama fermosa & bela (419)
     faltase o demonio nela
     para a fazer namorar 435
     de qu nam he ygoal dela (420)
 
          � Que me dizeis a Solina
     como se faz Celestina (421)
     que por não lhe auer enueja
     tamb para si desseja 440
     o que o dessejo lhensina
     crede que (422) seme aluoroço
     que a ey de tomar por dama
     & não serà gram destroço
     pois o amo quer ha ama 445
     que à moça queyra o moço.
 
          � Voume que vejo la vir
     Vanadoro apercebido
     para a casa (423) se partir
     & voto a tal que he partido (424) 450
     para ver & para ouuir
     que (425) he rezão justa & rasa (426)
     que seu folgar se desconte
     en qu arde como brasa (427)
     que se vay caçar ao monte 455
     fique outrem caçando en casa.
� Vayse Vilardo, & entra Vanadoro.
          ve. Aprouada antiguamente
     soy & muyto de louuar
     a ocupaçam do caçar
     & da mais antigua gente 460
     auida por singular
     he o mais contrario officio
     que tem a ociosidade
     may de todo o bruto vicio
     por este limpo exercicio 465
     se reserua a castidade. (428)
 
          � Este dos grandes senhores
     soy sempre muito estimado
     & he grande parte do estado (429)
     ter monteyros caçadores 470
     como officio he prezado
     pois logo porque razam
     ameu pay a de pezar
     de me ver hir a caçar
     & tam boa ocupaçam 475
     que mal me pode causar.
 
Vem o monteyro & diz.
          mo. Señor venho aluoroçado
     & mais cõ muita razam 480
          ve. como asi mo. me he chegado
     o mais estremado cão
     que nunca caçou veado
     vejamos que me ha de dar (430)
          ve. Daruos ey quanto teuer (431)
     mas a se desprimentar
     para se poder julgar 485
     as manhas (432) que pode ter.
 
          mo. Pode assentar queste cão
     que tem das manhas a chaue
     bem feyto en admiraçam
     pois en ligeyro ha aue 490
     en cometer hum lião
     com porcos marauilhofo
     com veados estremado
     fobejalhe o ser manhoso
          ve. Pois eu ando dessejoso 495
     dirmos mutar (433) hum veado.
 
          mo. Pois señor como nam vay
          ve. Vamos, & vos muy ligeyro (434)
     o necessario hordenay
     queu (435) quero chegar primeyro 500
     pedir licença a meu Pay.
Vanse & v Duriano & diz.
                                       du. Pois não creo eu en sam Pisco (436) do pao se ey de por pè en ramo
verde, tè lhe dar (437) treztos açoutes, depois de ter gastado per-
to de treztos cruzados cõ ela, por logo lhe nam mãdei o cetim
para as mãgas, fez de mi mãgas ao demo (438), nam dessejo eu de saber senã 505
qual he o galãte me socedeo, se volo eu colho
a balrrauto (439), eu lhe farey botar ao mar quantas esperan-
ças lhe a fortuna tem cortado ha minha custa, ora tenho as-
sentado (440) que amor deltas anda (441) co dinheyro como a
mare coa la, bolsa chea amor en agoas viuas, mas 510
se vaza vereis esprayar este engano (442), & deixar en seco
quantos gostos andauão como pexe nagoa.
� Entra Filodemo & diz.
fi. Oula ca sois vos, pois agora hia eu bater essas mou-
tas, para ver se me saieis de alga, porque qu
vos quiser achar, he necessario que vos tire como ha alma (443). 515
du. Ho marauilhosa pessoa, vos he certo vos prezas
de mais certo en casa, pinheyro en porta de ta-
uerna, (444) e trazeys se v a mão, os pensamentos cos-
focinhos quebrados, de cayrem onde vos sabeis (445),
pois sabeis señor Filodemo quais sam os que me matam, 520
hs muito bem (446) almofasados (447) com dous ceytis, fen-
d a anca pelo meyo, (448) & se prezão de brãdos na con-
uersasam, & de falarem pouco, & sempre consigo (449) di-
zendo, que não daram meia ora de triste (450) pelo tezouro
de Veneza, (451) & gabão mais Gracilaso que Boscam (452), (453) & ambos     525
lhe saem das mãos virgs, & tudo isto por vos me-
terem en conciencia que se não achou para mais o Gram
Capitam Gonçalo Fernández (454), ora pois desenganouos
que a mòr rapasia (455) do mundo foram (456) altos espritos, & eu
não trocarey duas pescoçadas (457) da minha ecetra (458), (459) depois      530
ter feito a trosquia a h frasco (460), & falarme por tu, &
fengirseme bebada, por o não (461) pareça por quantos
Sonetos estam escriptos polos troncos dos aruores do Vale
Luso (462), nem por quantas Madamas Lauras vos ydolatrais, fi.
ta ta, (463) não vades auante que vos perdeis, (464) du. 535
aposto que adeuinho o que quereis dizer, fi.
que. du. que se me não acodieis com batel, que me hia
meus passos contados a ereje damor (465), fi. ho certeza
tamanha ho muito pecador não se conhecer por esse, du.
mas ho que certeza mayor de muito enganado espe- 540
rar en sua openiam, mas tornando a nosso porposito,
que he o para que me buscais, que se he cousa de vossa saude tudo farey, (466) fi.
como templara el destplado (467), qu poderà dar o
que não tem señor Duriano eu querouos deixar co-
mer tudo, não pode ser a natureza não faça vós 545
o a razão não pode, ho caso he este diruoloey
porem he necessario que primeiro a limpeis como
marmelo (468) & ajunteys para h canto de casa (469), todos
esses maos psamentos, por segdo andais mal
avinhado (470), danareis tudo aquilo agora lãçar en 550
vos, ja vos dey cota da pouca tenho cõ toda a
outra cousa não he seruir (471) a señora Dionysa, &
posto a desigualdade dos estados (472) o não cõsintão, eu
não pertdo dela mas o não pertnder dela nada (473)
por o lhe quero consigo mesmo se paga, 555
ste meu amor he como a aue Fenis, (474) que de si sò
nace, & nam de outro nenh interesse, du. b praticado (475)
esta isso mas dias ha (476) eu não creo en fonhos, fi.
por (477) du. Eu volo direy, por todos vosoutros os q amais
pela pasiua, (478) dizeis o amor (479) fino como melão, não 560
a de querer mais de sua dama amala, (480) & viraa logo
o vosso Petrarca, & o vosso Petro Bbo (481), atoado a
treztos Platões, mais safado que as luuas d paj
darte (482), mostrando rezões verisimeis & aparentes
para não quererdes mais de vossa dama vela, & ao 565
mais ate falar cõ ela, pois inda achareis outros es-
codrinhadores (483) damor, mais especulatiuos defende-
rão a justa (484) por não emprenhar o dessejo, & eu façouos
voto solene (485) se a qualquer destes lhe entregassem
sua dama tosada e aparelhada antre dous pratos, (486) eu 570
fico (487) não ficasse pedra sobre pedra, (488) e en (489) ja de m
vos sey cõfessar os meus amores hã de ser pela
actiua, & ela à de ser a pacite, (490) e eu agte por
esta he a verdade, mas cõ tudo va v. m. coa historia
por diãte, fi. vou por vos cõfesso nesse caso à muita     575
duuida antre os doutores, aisi vos cõto, es-
tãdo esta noite (491) cõ a viola na mão b trinta ciu qua-
rta legoas pelo certão, dtro de h psamento, se
não quãdo me tomou a treição Solina, & antre muitas
palauras teuemos me descubrio a señora Dionisa 580
se leuãtara da cama por me ouuir, & esteuera (492)
pela greta da porta espreitando (493) quasi ora & mea,
du. cobras & tostões sinal de terra, pois ainda vos eu não
fazia tãto auãte (494), fi. finalmte veiome a descobrir, me
não qria mal, soi a mi o mayorb (495) do mdo, eu 585
estaua ja cõcertado cõ minha pena (496), a sofrer por sua
causa, & não tenho agora sogeito a tamanho b,
du. grãde parte da saude he para o dote trabalhar por
ser fão, sevos leixardes mãquecer na estrebaria, (497)
essas finezas de namorado, nca chegareis onde che- 590
gou Rui de Sãde (498), porisso boas esperãças ao leme,
eu vos faço bõ as duas enxadadas acheis agoa, (499) &
mais passastes, fi. a maior graça do mdo (500) veiome a desco-
brir que era perdida (501) por vos, & aisi me quis dar a entder
que faria por m tudo ho que lhe vos mereceis,     595
du. S. Maria (502) quãtos dias á que nos olhos lhe vejo
marejar esse amor, porque o fechar de jenelas que esa
molher me faz, & otros enojos (503) que dizer podria, no
sõ sino corredores del amor, (504) & a cilada en que ela quer
que eu caya. fi. n eu não quero que lho queyrais, (505) mas que lhe (506) 600
façais crer que lho quereis, du. nam canta dessa maneyra me
offereço a rõper mea duzia de seruiços alinhauados as pãde-
retas que bast assentarme en soldo, pelo mais fiel amante
que nunca calçou esporas, & se isto não bastar, (507) falgaõ las
palauras mais sangrentas del coraçon, (508) entoadas de feyçam 605
que digam que sou hum Mancias (509) e pior ainda,
filo. ora daisme a vida vamos ver se por ventura apa-
rece, porque Vanadoro Irmão da Señora Dionysa he
fora à caça, & sem ele fica a casa despejada, & o se-
nhor dom Lufidardo anda no pumar todo o dia que todo seu 610
passatempo he enxertar & despor, & outros exercicios
dagricultura naturais a velhos, & pois o tempo nos vem
a medida do dessejo, vamomonos (510) la, & fe lhe puderdes falar
fazey de vos mil manjares (511), porque lhe façais crer que
sois mais esperdiçado damor (512) que hum Bras quadrado (513), 615
du. ora vamos que agora estou de vez, & cuido doje fa-
zer mil marauilhas, (514) com que vosso feyto
venha a luz.
� Vanse & entra Dionysa & Solina, & diz Dionisa.
                                  di. Solina, mana, so. senhora
     di. Trazeyme ca almofada
     que a casa està despejada 620
     & esta varanda ca fora
     esta milhor assombrada
     trazey a vossa tambem
     para estarmos ca laurando (515)
     en quanto meu pai não vem 625
     estaremos praticando
     sem nos estrouar ninguem.
 
     so. Este he o mesmo lugar
     onde estaua o bem logrado (516)
     tal que de muito enleuado 630
     se esquesia do cantar
     por se enleuar no cuidado (517)
     di. Nos mana sois muy roim
     logo lhe fostes contar
     que me ergui polo escutar 635
     so. Eu o disse, di. eu nãno ouui
     como mo quereis negar
 
     so. E pois isso que releua (518)
     que se perde nisso agora
     di. que se perde, aisi señora 640
     folgareis vos que se atreua
     a contalo là por fora
     que se lhe meta en cabeça
     alga paruoa tençam
     que faça se vem a mão 645
     alga cousa que pareça
     so. senhora não tem razam.
 
     di. Eu sey muy b atentar
     do que se à de ter resseyo
     & do que he para estimar 650
     so. Não he o demo tam feio
     como algu o quer pintar (519)
     & não se espera isso dele
     que não he ora tão moço
     & vossa merce asele (520) 655
     que qualquer segredo nele
     he como ha pedra en poço. (521)
 
     di. E eu que segredo quero
     cõ hum criado de meu Pay
     so. E vos mana fazeis fero (522) 660
     ao diante vos espero
     se adiante o caso vay.
     di. Ho madraço (523), qu no vir
     falar de sizo coela
     entam vos gentil donzela 665
     folgais muito de o ouuir
     so. Si, porque me fala nela (524)
 
     � E eu como ouço falar
     nela como qu não sente
     folgo de o escutar 670
     sò para lhe vir contar
     o que dela diz a gente
     que eu não quero nada dele
     & mais porque està falando
     não mesteue ela rogando 675
     que fosse falar cõ ele
     di. Disseuolo assi zombando.
     � Vos logo tomais en grosso (525)
     tudo quanto me escutais
     paruo que velo não posso 680
     so. Ela ali, & o cão co osso (526)
     inda isto à de vir a mais
     pois que tal odio lhe tem
     falemos señora en al (527)
     mas eu digo que ninguem 685
     merece por querer bem
     que a qué lho quer, queira mal
 
     di. Deixayo vos doudejar
     le meu Pay, ou meu yrmão
     o vierem a auentar (528) 690
     não ha ele de folgar
     so. Deos meterà nisso a mão (529)
     di. Ora hi polas almofadas
     que quero hum pouco laurar
     por ter en que me occupar 695
     que en cousas tão mal olhadas
     não se à o tempo de gastar.
     � Vay Solina dizendo.
     Que cousas somos molheres
     como somos perigosas
     & mais estas tam viçosas 700
     que estam a boca que queres (530)
     & adoccem de mimosas
     se eu nam caminho agora
     a seu dessejo & vontade
     como faz esta señora 705
     fazense logo nessa ora (531)
     na volta da honestidade.
 
     � Qu a vira o outro dia
     h poucochinho agastada
     dar no chão co almofada 710
     & en leuar a fantesia
     toda noutra trasformada
     outro dia lhe ouuirão
     lançar sospiros a molhos
     & cõ a imaginacam 715
     cayrlhe agulha mão
     & as lagrimas dos olhos.
 
     � Ouuirlheis ha derradeira
     a ventura (532) maldizer
     porque a foy fazer molher 720
     então diz quer ser freyra
     & não se sabe entender
     entam gabao de descreto
     de musico & b desposto
     de bõ corpo, & de bõ rosto     725
     quanta entam eu vos pormeto
     que não tem dele desgosto.
 
     � Depois fe vem atentar
     diz que he muyto malfeyto (533)
     amar hom deste geyto 730
     & que não pode alcançar
     por seu desejo en effeyto (534)
     logo se faz tam senhora
     logo lhe ameaça a vida
     logo se mostra nessa ora 735
     muito segura de fora (535)
     & de dentro esta sentida (536).
     � Bofee segundo vou vendo
     se esta postema (537) vier
     como es (538) sospeito a crecer 740
     muito ha dela entendo
     ao fim que pode vir ter. (539)
� Vayse Solina & entra Duriano & Filodemo & diz Duriano.
                                     du. Ora deixaya hir que a vinda lhe falaremos, entre tanto
cuydarey o como ey de fazer, que não ha mòr trabalho
pera ha pessoa que fengirse. fi. Darlheis esta carta, & 745
fazey muyto coela que a de (540) a señora diosa (541), que me vay
nisso muito. du. Por molher de tam bõ engenho a tendes, fi. E
porque me perguntais isso. du. porque ainda ontem entrou pelo,
a. b. c. & ja quereis que lea carta mãdadeyra, falaeis
cedo escreuer materia junta. fi. não lhe digais que 750
vos disse nada, porque cuydara por isso lhe falais,
mas fengi de puro amor a andais buscando a tempos que
façam a vossa tencam. du. deixaime vos am cõ o ca
so que eu sey milhor as pancadas a estes vintes
que vos, & eu vola farey ole vir ã nos sem gafas (542), & vos 755
entretanto acolheyuos a sagrado (543), porque eyla la vem. fi.
olhay là fazei que a nam vedes, & fengi que
falais conuosco que faz a nosso caso, (544) du.
dizeis bem, yo sigo tristeza, remedio de tristes la
terrible pena mia no la espero remiar, pois nam devia (545) 760
assi de ser po santos, (546) & vanse los, mas muitos dias
ha que eu sey que o amor & os cangrejos andão as
vesas, ora en fim las tristezas no me espantem por
que suelen afloxar (547) quanto mas õuelem (548). (549)
�� Entra Solina & vayse Filodemo, & diz Solina coa almofada.
                                     so. Aqui anda passeando 765
     Duriano, & soo consigo
     pensamentos praticando
     daqui posso estar notando
     cõ qu sonha, se he comigo
     du. Ha quã longe estara agora 770
     minha senhora Solina
     de saber questou bem fora
     de ter outra por senhora
     segundo amor determina
 
     � Porem se determinasse 775
     minha bem auenturança
     que de meu mal lhe pezasse,
     ata (550) que nela tomasse
     do que lhe quero vingança. (551)
     so. Comigo sonha por certo 780
     ora querome mostrar
     assi como por acerto
     chegarmey mais ao perto
     por ver seme quer falar.
 
     � Sempre esta casa a destar 785
     acompanhada de gente
     que não possa hom passar
     du. Ha treição vindes tomar
     qu ja feridas não sente
     so. Logo me ami parecia 790
     que era ele o que passeaua
     du. & eu mal adeuinhaua
     que me viesse este dia
     que ha tantos que dessejaua.
 
     � Se hs olhos por vos seruir
     cõ o amor que vos conquista
     se atreueram a sobir
     os muros de vossa vista
     que culpa tem qu vos vir
     & se esta minha affeyção 800
     que vos sirue de giolhos
     não fez erro na tenção
     tomay vingança nos olhos
     & deixay o coração (552),
 
     so. Ora agora me v riso 805
     assi que vos sois señor
     de fizo meu seruidor
     do. De sizo, não porque o sizo
     me tem tirado o amor (553)
     porque o amor se atentais 810
     n tam verdadeyro amante
     não deyxa sizo bastante
     senão se sizo chamais
     a doudice tão galante.
 
     so. Como deos esta nos ceos 815
     que se he verdade o que temo
     que fez isto Filodemo (554)
     du. Mas felo o demo, deos
     não faz mal tanto em estremo
     so. bem, vos señor Duriano 820
     porque zõbareis de mim
     du. Eu zõbo, so. eu não me gano
     du. Seu zõbo, inda en meu dano
     vejais vos muy cedo a fim
 
     mas vos señora Solina 825
     porque me querereis mal
     so. Sou mofina (555), du. ho real
     asim que minha mofina
     he minha imiga mortal
     dias ha queu ymagino 830
     que en vos amar & seruir
     não ha amador mais fino (556)
     mas sinto que de mofino
     me fino (557) sem no sentir. (558)
 
     so. B deriuais quanta assi 835
     a popa (559) o dito vos veyo
     do. Virmea de vos por creyo
     que vos falais dentro en m
     como esprito en corpo alheyo
     & asi que en estas pios (560) 840
     a cayr señora vim
     b parecera antre nos
     pois vos andais dentro em mm
      hande eu tãb dtro em vos.
 
     so. E bem que falar he esse 845
     du. Dentro na vossa alma digo
     la andasse, & la morresse
     & se isto mal vos parece
     dayme a morte por castigo
     so. Ha mao como sois maluado 850
     du. Mas vos como sois maluada
      de h pouco mais de nada
     fazeis h hom armado
     como qu esta sempre armada.
 
     � Dizeyme Solina mana (561) 855
     so. Que he isso tiray la a mão
     & vos sois mao cortesam
     du. o que vos quero mengana
     mas o que dessejo não
     aqui não ha senão paredes 860
     as quais nam falam nem vem (562)
     so. está iso muito bem
     bem, & vos señor nam vedes
     que podera vir alguem. (563)
 
     du. Que vos custão dous abraços 865
     so. não quero tantos despejos (564)
     du. Pois que farão meus dessejos
     que querem teruos nos braços
     & daruos trezentos beijos (565)
     so. Olhay que pouca vergonha (566) 870
     hiuos di boca de praga (567)
     du. Eu não sey certo à que ponha
     mostrardes me atriaga
     & virdesme a dar peçonha.
 
     so. Ora yde (568) rir a feyra 875
     & não sejays dessa laya
     du. Se vedes minha canseyra (569)
     por lhe não dais maneira (570)
     so. Que nianeyra. du. à da faya (571)
     so. Por minha alma de vos dar 880
     mea duzia de porradas
     du. o que gostosas pancadas
     muy bem. vos podeis vngar
     que em m faõ b empregadas (572)
 
     so. Ho diabo que o eu dou 885
     como me doco a mão
     du. Mostray ca minha affeyção
     que essa dor me magoou
     dentro no meu coração
     so. Ora yuos embora asinha 890
     du. Por amor de m senhora,
     não fareis (573) ha cousinha
     so. Digo que vades embora
     que cousa, (574) du. esta cartinha
 
     so. Que carta, du. de Filodemo 895
     a Dionysa vossa ama
     so. Dzey que tome outra dama
     & dè os amores ao derno
     du. Não andemos pola rama (575)
     señora aqui para nos (576) 900
     que sentis dela cõ ele
     so. grandes alforges sois vos
     poslhe dizer que apele
     du. Falay que aqui estamos foos
 
     so. Qualquer honesta le abala 905
     como sabe que he querida
     ela he por ele perdida (577)
     nunca noutra cousa fala
     du. ora voulhe dar a vida
     so. E eu não lhe disse jaa 910
     quanta affeyção lhela tem
     du. não se fia de ninguem
     nem crè que para ele há
     no mundo tamanho bem. (578)
 
     so. Diruos hia de mi là 915
     o que lheu disse zombando (579)
     du. não disse por Sam Fernando (580)
     so. ora ydeuos, du. que me me (581)
     & mandais que torne, quando
     so. Quando eu ca vir lugar (582) 920
     volo mandarey dizer
     du. Se o quiserdes buscar
     não vos deue (583) de faltar
     senam faltar o querer (584)
 
     so. Não falta, du. daime h abraço 925
     ensinal do que quereis
     so. Ta que o não leuareis
     du. de quantos feruiços faço
     nenh pagar me quereis
     so. Pagaruos ham alg ora 930
     que isso a m tambm me toca
     mas agora yuos embora
     du. Essas mãos beijo senhora
     em quanto não posso a boca
 
� Vayse Duriano & sala Solina com Donysa que lhe tras a almo fada, & diz Solina.
     so. Ia vossa merce dira 935
     queestiue muyto tardando
     dio. Bem vos deteuestes là
     bofe que estaua cuydando
     en nam sey que, so. que ferà
     aqui somos, quanta (585) agora 940
     està ella trasportada (586)
     dio. Que rosnais vos la senhora
     so. Digo que tardey la fora
     en buscar esta almofada.
 
     � Questaua ela agora soo
     consigo fantesiando 945
     dio. Bofe questaua cuydando
     que he muito para auer doo
     da molher que viue amando
     que h hom pode passar
     a vida mais ocupado 950
     com passear, com casar (587)
     com correr, cõ caualgar (588)
     forra (589) parte do cuidado.
 
     � Mas a coytada
     da molher sempre encerrada (590) 955
     que nam tem contentamento (591)
     ne tem desenfadamento
     mais que agulha & almofada
     então isto vem parir
     os grandes erros da gente 960
     em que ja antiguamente
     foram mil vezes cayr
     princesas dalta semente (592).
 
     � Lbrame que ouui contar
     de tantas afeyçoadas 965
     en baxo, & pobre lugar
     que as que agora vão errar
     podem ficar desculpadas (593)
     so. Semora a muita (594) affeyção
     nas Prinsezas dalto estado 970
     não he muita admiração
     que no fangue delicado
     faz o amor mais impresam.
 
     � Mas deixando isto a parte (595)
     se mela quiser peitar (596) 975
     pormeto de lhe mostrar
     ha cousa muyto darte
     que la dentro fuy achar
     dio. Que cousa, so. cousa desprito
     dio. Alg pano de lauores 980
     so. Inda ela não deu no fito (597)
     cartinha sem sobrescrito (598)
     que parece ser damores
 
     dio. Essa he a boa ventura
     so. Bofe que mo pareceo 985
     dio. E essa donde naceo
     so. no meu cesto da costura
     não sey qu mali meteo
     dio. Mostraima não ajais medo
     mana eu que vos descobri 990
     E sela v para mi
     logo quer ver meu sagredo
     nã na veja vasse di.
 
     � Eyla ay, dio. cuja será
     so. Não sey certo cuja he 995
     dio. Si sabeis, so. não sey bofe
     dio. Ora a carta mo dirà (599)
     so. Pois leya vossa merce. (600)
 
� Abre Dionisa a carta & lea.
Carta
                                        Se pera mecer minha pena me não falta mais que
viuer contente dela, ja logo ma podeis consentir pois 1000
que de nenha outra cousa viuo triste, senão por não
ser para tam doce tristeza, se tdes por offensa co
meter tamanha ousadia por maior a deuieis ter se a nam
cometesse, que amor acostumado he fazer os
estremos as medidas das affeições, & as affeyções as medidas 1005
da causa dele, (601) pois logo n o meu amor (602), pode ser
pouco nem fazer menos, se este bastar para cõ
sentirdes en meu pensamento, baste para me dardes o
que pelo ter mereço, & senão muytas gragas ao amor
que me soube dar h cuidado que cõ telo se paga o 1010
trabalho de sofrelo.
                                so. Quanta paruoice diz
     dio. Ora muito boa està
     como vos mana sois mà
     não sejais vos tão biliz (603) 1015
     que bem vos entendo ja
     cuja he. so. & eu que sey
     dio. Pois qu o sabe. so. o demo
     dio. certo que he de quem temo
     que os ditos que nela achey 1020
     sam todos de Filodemo.
 
     � Este hom que ateruimento
     he este que foy tomar
     qual serà seu fundamento
     que mil vezes me faz dar 1025
     mil voltas ao pensamento (604)
     não entendo dele nada
     mas inda quisto he assi
     disso que dele entendi
     me sinto tão alterada
     que me arreceyo de mim.
 
     � Eu inda agora não creo
     que he verdade este amor
     mas praza a Deos se assi for
     que inda este meu receyo 1035
     senão conuerta en temor
     so. Ia vos, ja sedes
     pexes nas redes (605)
     señora qu mais confia (606)
     mais azinha a cair vem 1040
     natural he do querer bem
     que o amor nalma se cria
     sem no sentir quem no tem.
 
     � Filodemo no que ouui
     temlhe sobeja affeyção (607) 1045
     & posto que o crea assi
     ou eu sonhey, ou ouui
     que era dalta geração
     logo na filosomia (608)
     nas manhas, artes, & geyto 1050
     mostra muy grande respeyto
     n tam alta fantesía
     nam se põe en bayxo peito.
 
     dio. Tudo isso cuido & vi
     mil vezes meudamente 1055
     mas estas mostras asim
     saõ desculpas pera mim
     & nam para toda a gente
     so. O seu moço vejo vir
     a nos seu passo contado 1060
     este he muito pera ouur
     que diz que me quer feruir (609)
     damores esperdiçado. (610)
 
� Entra Vilardo & diz.
     vi. Señora o Señor seu Pay
     mesmo de (611) vossa merce 1065
     ja la para casa vay
     porisso seora anday
     que ele me mando (612) n pe
     & diz que fosse jantar
     vossa merce mesma mente 1070
     so. & ja veo da (613) pumar
     dio. Ho qu pudera escusar
     de comer nem de ver gente.
 
     � Nenha còr de verdade
     tenho do que mele manda 1075
     vi. Sela sem vontade anda
     eu lhemprestarey vontade
     empreste mela a vianda
     so. Va señora por não dar
     mais en que cuydar à gente 1080
     dio. Irey mas não por jantar
     que qu viue descontente
     mantense de ymaginar. (614)
 
     v. Pois tambem ca minhas dores
     me não dexão comer pão 1085
     n come minha afeição
     senão sopadas damores
     & mil postas de paixão
     das lagrimas caldo faço
     do coração escudela 1090
     esses olhos sam panela
     que coze bofes & baço
     cõ toda a mais cabadela
 
� Vanse todos & entra o monteyro em busca de Vanadoro, que se perdeo na caça, & diz.
     mõ. Perdeose por essa brenha
     Vanadoro meu señor 1095
     sem que nouas dele tenha
     queira Deos inda não venha
     desta perda outra mayor
     contra (615) esta parte daqui
     des por (616) h cervo correo 1100
     logo desapareceo
     como da vista o perdi
     o gosto se me perdeo.
 
     � Eu & os mais caçadores
     corremos montes & couas 1105
     falamos cora lauradores
     deste vale, & com pastores
     sem dele acharmos nouas (617)
     quero ver nestes casais
     que cobr aquele aruoredo (618) 1110
     se acharey pastores mais
     que me d algs sinais
     que me possam tornar ledo (619).
 
� Chama polos pastores do casal, & respondelhe h pastor.
     � Ou dos casais, ou de là
     ha pastores não falais (620) 1115
     pas. Quien sois, o lo que buscais (621)
     mõ. Ouuis chegay para ca
     pas. Dezid vos lo que mandáis.
     � Fala o bobo seu filho do pastor.
     bo. No vayais a do os llamo
     padre sin saber quien es 1120
     pas. Porque, bo. porque este es
     aquel ladrón que hurtó
     el asno del Portugués.
 
     � Y se vais a do están
     os jure al cuerpo sagrado (622) 1125
     de sam pisco, & sam Ioan (623)
     que tambem os hurtarán
     que sois asno más honrrado
     pas. Dexame hir, que me llamò
     bo. no por vida de mi madre 1130
     que si allá vais muerto so
     y desta vez quedo yo
     sin asno, triste, & sin padre
 
     mõ. Vinde que volo encomendo
     & en vossas mãos me ponho (624) 1135
     bo. No vais que dixo en comildo
     y encomiendoos al demonio (625)
     y esso es lo que andais hazido (626)
     pas. Dexame yr a do està
     que no es cosa que me espante 1140
     No quereis (627) sino yr alla
     pues echale pan delante
     puede ser que amansara.
 
     pas. Dios os guarde, que cosa es
     essa porque bozeais 1145
     mõ. Darmeis nouas ou finais
     d Fidalgo Portugues
     se passou por onde andais
     bo. Yo so hidalgo Portogues
     que manda su señoria 1150
     pas. Cállate, o que necio es
     bo. Padre no me dexares (628)
     ser lo que quisiere h dia.
 
     � A fancto dios verdadero
     no serelo que otros son 1155
     digo agora que no quiero
     ser Alonsico el vaquero (629)
     pas. Cállate ya bobarrón
     bo. ya me callo aora h poco
     a de ser lo que yo quisiere 1160
     pas. Señor dígalo que quiere
     por queste mochacho es loco
     y muero porque no muere (630)
 
     mõ. Digo que sé por ventura
     sabéis o que ando buscando 1165
     h fidalgo que casando
     se perdeo nesta espessura
     apos h ceruo andando (631)
     tenho esta parte (632) corrida
     sem dele poder saber 1170
     trago alegria perdida (633)
     & se de todo a perder
     percase tambem a vida
 
     � Porque sò pelo buscar
     tenho trabalhos assaz 1175
     bo. yo no puedo callar más
     pas. como no puedes callar
     quítate allá para tras
     quanto por aquesta tierra
     no siento nueva ninguna 1180
     mõ. Ho trabalhosa fortuna
     pas. mas detras daquesta sierra
     hallareis por dicha alguma
 
     � Que (634) vnas choças de varos
     Portugueses alli estam 1185
     y ay muchas vezes van
     caçadores (635) caualleros
     puede ser que lo sabran
     mõ. Quero me hir la saber
     ficayuos a Deos (636) pastor. 1190
     pas. Dios os liure de dolor
     bo. Y anos dè siempre comer
     pan y sopas ques mejor.
 
     � Mira lo que os notefico
     en aquel valle aculla 1195
     anda paciendo h borrico
     hidalgo manso y bonco
     puede ser que esse serà
     pas. Calla y acaba de andar
     bo. Ia ando, pas. quieres callar 1200
     bobo que tãpoco sabe
     bo. no dizeis que ande y acabe
     ando y no quiero acabar
 
� Vanse todos & entra Florismena Pastora com hum póte que vay á fonte & diz.
     flo. Por este fermoso (637) prado
     tudo quanto a vista alcança 1205
     tam alegre esta tornado
     que a qualquer desesperado
     pode dar certa esperança
     o monte & sua aspereza
     de flores se veste ledo 1210
     reuerdece o aruoredo
     somente em minha tristeza
     està sempre o tempo quedo
     � Iunto desta fonte pura
     segundo a muitos ouui 1215
     daltos parentes naci (638)
     foy como quis a ventura (639)
     mas não como eu mereci
     o dia que fuy nacida
     minha may do parto forte (640) 1220
     foy sem cura falecida
     & o dia que me deu vida
     lhe dey eu a ela a morte.
 
     � Do mesmo parto naceo
     meu irmão antre os cabritos 1225
     comigo tambem viueo
     mas asi como (641) creceo
     creceram nele os espritos (642)
     foyse buscar a cidade
     teue juyzo & saber 1230
     eu fiquey como molher (643)
     & nam tiue faculdade
     pera poder mais valer
 
     � A h pastor obedeço
     por Pay, que doutro nam sey 1235
     & pola may que matey
     a ha cabra conheço
     de cujo leyte mamey
     mas porem ja queste monte
     me obriga meu nacimento 1240
     quero pois quer meu tromto
     encher a talha na fonte
     que cos olhos acrecento
 
     � En quanto finge que enche a ta
     lha entra Vanadoro & diz.
     va. Pois que me vim alongar
     dos caminhos & da gente 1245
     fortuna que o consente
     se deuia contentar
     de me ter tam descontente
     porem (644) segundo adeuinho
     por tam espesso aruoredo 1250
     por tam alpero rochedo
     quanto mais busco o caminho
     tanto mais dele me arredo.
 
     � O caualo como amigo
     ja cansado me trazia 1255
     mas deixoume toda via
     que mal podera comigo
     qu consigo nam podia
     querome aqui assentar
     a sombra nesta eruinha (645) 1260
     por canso ja de andar
     mas inda a fortuna minha
     não cansa de me cansar
 
     � Iunto desta fonte pura (646)
     não sey qu cuydo questa 1265
     mas no coração me da (647)
     que aqui me guarda a vtura (648)
     alga ventura mà
     ou ganhado ou bem perdido
     faça en fin o que quiser 1270
     que eu ho fim disto ey de ver
     que ja venho apercebido
     atudo quanto vier.
 
     � Ho que fermosa serrana
     à vista se me offerece 1275
     deosa dos montes parece
     & se he certo que he humana
     o monte não na merece (649)
     pastora tão delicada
     de gesto (650) tão singular 1280
     pareceme que en lugar
     de perguntar pola estrada
     por mim lhey de perguntar (651)
 
     � Ate qui sempre zombey
     de qualquer outra pessoa
     que afeyçoada topey
     mas agora zõbarey
     de quem senão affeyçoa
     serrana cuja pintura (652)
     tanto alma me moueo 1290
     dizeyme por qual ventura (653)
     andareis nesta espessura
     merecendo estar no ceo.
 
     flo. Tamanho inconueniente
     andar na serra parece 1295
     pois a ventura da gente
     sempre he muy differente
     do que ao parecer merece
     va. Tal reposta he manifesto
     não se parecer coas cabras (654) 1300
     pois não vos parece honesto
     saberdes matar (655) co gesto
     senão inda cõ palauras.
 
     � No mato tudo rudeza
     ha tal gesto & descilção 1305
     não no creio, flo. porque não
     não suprira natureza (656)
     onde falta criação (657)
     va. Ja logo nisso senhora
     dizeis senão sinto mal (658) 1310
     que do vosso natural
     não era serdes pastora
     flo. Digo mas pouco me val.
 
     va. Pois qu vos pode trazer
     á conuersação (659) do monte. 1315
     flo. Perguntayo a essa fonte
     que as cousas duras de crer
     h as faça, outro as conte
     va. Esta fonte que esta aqui
     que sabe do que dizeis 1320
     flo. Señor mais não pergunteis
     porque outra cousa de mi
     sabey que nam sabereis.
 
     � De vos agora sabey
     o que nam tendes sabido 1325
     se quereis agoa bebey
     se andais por dita (660) perdido
     eu vos encaminharey
     va. Señora eu não vos pedia
     que ningu mencaminhasse 1330
     que o caminho eu queria
     se o eu agora achasse
     mais perdido me acharia.
 
     � Não quero passar daqui
     & não vos pareça espanto 1335
     que en vos vendo me rendi
     porque quando me perdi
     não cuidey de ganhar tanto
     flo. Señor qu na serra mora
     tambem entende a verdade 1340
     dos enganos da cidade
     vasse embora, ou fique embora (661)
     qual for mais sua vontade (662),
 
     va. Ho lindissima donzela
     a qu ventura (663) ordena 1345
     que me guie como estrela
     quereisme deixar a pena
     & leuarme a causa (664) dela
     & ja que vos conjurastes
     vos & amor para matarme 1350
     ho não deixeis descutarme
     pois a vida me tirastes
     não me tireis o queyxarme.
 
     � Que eu en sãgue & nobreza
     o claro ceo me estremou 1355
     & a fortuna me dotou
     de grandes bs & riqueza
     que sempre a muytos negou
     andando caçando aqui
     a pos h ceruo ferido (665) 1360
     permetio meu fado assi
     que andãdo dos meus perdido
     me venha perder ami.
 
     � E porque inda mais passasse (666)
     do que tinha por passar 1365
     buscando qu mensinasse
     porque via me tornasse
     acho qu me faz ficar
     que vingança permetio
     a fortuna n perdido (667) 1370
     ho que tirano partido (668)
     que qu o ceruo ferio
     va como ceruo ferido.
 
     � Ambos feridos n monte
     eu a ele, outrem ami 1375
     ha defferença ha aqui
     quele vay sarar a sonte
     & eu nella me fer
     & pois que tam transformado
     me tem vossa fermosura (669) 1380
     h de nos troque o estado
     ou vos para pouoado
     ou eu para a espessura
 
     flo. Dos Arminhos he certeza
     se lhe a coua algu sujar 1385
     morar fora antes dentrar
     destimar muito a limpeza
     pola vida a vay trocar (670)
     tambem quem na serra mora
     tanto estima a honestidade 1390
     que antes toma ser pastora
     que perder a castidade
     a troco de ser senhora.
 
     � Se mais quereis, esta fonte
     vos descubra o mais de mi 1395
     o que ela vio, ela o conte
     porque eu voume para o mõte
     que ha ja muito que vim
� Vayse Florismena, & diz Vanadoro.
     va. Ho linda minha enemiga (671)
     gentil pastora esperay 1400
     pois a tanto amor me obriga (672)
     consentime que vos siga
     va o corpo onde alma vay
     � E pois por vos me perdi
     eneste estado amor me pos 1405
     os olhos com que vos vi
     pois os deixastes sen mi
     ho não os deixeis sem vos
     porque a fortuna me dixe
     que nas serras onde andais 1410
     en estes estremos tais
     não era b que vos visse
     para não ver de vos mais (673)
 
     � E pois amor se quis ver
     da liure vida vingado 1415
     en que eu foya viuer
     faça en mi o que quiser
     que aqui vou ao jugo atado (674)
 

� Vayse Vanadoro a pos de Florimena, & entra dom Lusidardo seu Pay, que quer hir em sua busca, & o monteyro & Filodemo, & diz dõ Lusidardo.

 
     lusi. Ho sancto deos verdadeyro (675)
     a que o mundo obedece 1420
     meu filho não aparece
     ou que me dizeis monteyro
     mõ. Digolhe que mentristece
     que eu corri por esses montes
     bem quinze legoas, ou mais 1425
     & busquey pelos casais
     por serras, montes & fontes
     sem ver nouas nem sinais
     � Toda a gente que leuou.
     buscandoo muyto cansada (676) 1430
     pelo mato anda espalhada
     mas ainda ninguem tornou
     que foubesse dele nada
     lu. ho fortuna nunca ygoal
     qu me fara sabedor 1435
     de meu filho & meu amor
     que se he muito grande o mal
     muyto mòr he o temor.
 
     � Quem tolhe que não achasse
     alg lião temeroso 1440
     nalg monte cauernoso
     que sua fome fartasse
     en seu corpo tão fermoso (677)
     qu ha que sayba, ou que visse
     que das montanhas erguidas 1445
     dalg monte não sayse
     & com seu sange tengisse
     as cruas nele nacidas.
 
     ho filho, vayme a lembrar
     quantas vezes vos mandaua 1450
     que leixasseis o caçar
     não cuydey de adeuinhar
     o que fortuna ordenaua
     eu yrey filho buscaruos
     por esses montes por hy 1455
     ou perderme, ou cobraruos
     que morte que quis mataruos
     quero que me mate ami. (678)
 
     � Onde fostes fenecido (679)
     seja tamb vosso Pay 1460
     serme ha acontecido
     como virote que vay
     buscar outro que he perdido
     vos soo aueis de ficar
     Filodemo, encarregado 1465
 
     para esta casa guardar
     que do vosso bõ cuydado (680)
     tudo se pode fiar
 
     � Hideuos a fazer prestes
     manday caualos selar 1470
     pois achalo não pudestes
     hirmeis mostrar o lugar
     onde da vista o perdelles.
 
� Vanse & entra o bouo com o vestido de Vanadoro que lhe tomou Vanadoro o seu por se vestir de pastor & diz cantando.
     bo. Los mochachos del Obispo
     no comen cosa mimosa 1475
     ni çãca (681) daraña, ni cosa mimosa. (682)
� Fala.
     � De su sayo colorado
     tan loçano me vistio
     y pues yo ya no foy yo (683)
     ya por otro estoy trocado 1480
     que este sayo me troco
     ho que asno portogues
     que loco por Florimena
     desseo çamarra agena (684)
     y dame por interes 1485
     vna çamarra tan buena.
 
     � Como yo vi la bouilla (685)
     andar con el en quistiones
     y pararsele amarilla
     dixele Florimenilla 1490
     andais en dongolondrones,
     el me dixo, matalote (686)
     no tengais dello desmayo
     y en esto como vn rayo
     tomome mi capirote 1495
     y diome su capisayo.
 
     � Capirote en buena see
     si vos quando en mi enstrastes
     capisayo vos tornastes
     que yo por esso cantare 1500
     pues ansi me mejorastes.
 
� Canta
     � Lyrio, lyrio, lyrio loco (687)
     cõ que, con capirotada.
 
     � Por hablar con la golosa
     damores, mirad la cosa 1505
     çamarrilla tan hermosa
     que me han dado tan honrrada
     cõ que, cõ capirotada.
� Fala
     Yo entonces respondi
     señor dame pan y queso 1510
     mas despues que lo entendi
     dixe a ella, dale vn beso
     quel me dio çamarra ami,
     agora me miraran
     quantos ala yglesia fueren 1515
     y aquellos (688) que no me quieren
     aora me rogaran. (689)
     � Sabeis porque no querre
     porque estoy ahidalgado
     y quando fuere rogado 1520
     cantado respondere
     que ya soy otro tornado.
� Canta & bayla.
     � Soropicote, picote moças
     aora quiero amores cõ vosotras (690). (691)
 
� Entra o Pay & diz.
     pai. Hijo Alonsillo, bo. hijo alõsillo 1525
     pai. no me quieres escuchar
     bo. pues dexame sospirar (692).
     pai. escuchame ora asnillo
     lo que te quiero mandar
     vete al valle delas rosas 1530
     di a Anton del lugar
     que se puede acallegar
     porque tengo muchas cosas
     que importam para le hablar (693)
 
     Porque es aqui llegado 1535
     a este valle vn hõbre honrado
     mancebo de casta buena
     que amores de Florimena
     le traen loco y penado
     dize que quiere casar 1540
     con ella que su tromento
     do le dexa reposar
     y que venga festejar (694)
     tan dichoso casamiento.
 
     bo. Dezi padre también vos 1545
     no quereis casar comigo
     casemos ambos a dos
     pai. Ve y haz lo que te digo
     bo. responde padre por dios
     pai. Ve luego y buelue apressado 1550
     anda, no quieres andar
     bo. Pues me aueis empuxado
     juro a mi de desandar (695)
     todo quanto tengo andado.
 
     pai. Trabajoso es este insano 1555
     nunca haze lo que quereis (696)
     bo. Ora no os apaxoneis
     mi padrecico loçano (697)
     que burlauà, y no lo veis
     pai. Vete day, bo. he me aqui 1560
     pay. Ve donde te dixe. bo. ya vgo
     o que padrasto que tengo
     que assi me manda por ahí
     fendo camino tan luengo
 
� Vãse, & entra Dionisa & Solina
     � O Solina minha amiga 1565
     que todo este coração
     tenho posto en vossa mão
     amor me manda que diga
     vergonha me diz que não
     que farey 1570
     como me descobrirey
     porque a tamanho tromento
     mais remedio lhe não sey
     que entregalo ao sofrimento
     meu pay muito entristecido
     se vay pela ferra erguida
     ja da vida aborrescido (698)
     buscando o filho perdido
     tendo a filha ca perdida
     sem cuidar 1580
     foy a casa encomendar
     a quem destruyr lha quer
     olhay que gentil (699) saber
     que vay comigo leixar
     qu me não leixa viuer. 1585
 
     so. Señora en tanto desgosto
     não posso meter a mão
     mas como diz o refraõ
     mais val vergonha no rosto
      (700)que magoa no coração (701) 1590
     & bofe (702) se tanto amasse
     & visse tempo & sezam (703)
 
     sem seu pay, sem (704) seu irmão
     que a nuuem trille tirasse
     de cima do coração. 1595
 
     dio. A mana que tenho medo
     que seu en tal consentisse
     que logo o mundo o sentisse
     porque nunca ouue segredo
     que en fim senão descobrisse 1600
     so. Se eu tantas dobras (705) teuesse
     como quantas ouue erradas
     sem que o mundo o soubesse
     afee queu inrriquecesse
     & fosse das mais honrradas 1605
 
     dio. Sabeis que tenho en vontade
     so. Que podeis señora ter
     dio. Falarlhe soo para ver
     se he por ventura verdade
     o que dizeis que me quer 1610
     so. Bofe mana dizeis bem (706)
     & eu o mandarey chamar
     como para lhe rogar
     que h anel que la me tem
     que mo mande concertar. 1615
 
     dio. Dizeis muy b, so. voume la
     chamar o seu moço à sala
     & seste paruo vem ca
     com ele h pouco rira
     que sempre amores (707) me fala (708) 1620
     Vilardo moço, vi. qu chama
     so. Ven ca moço, eu te chamo (709)
     quede teu amo, vi. à que dama
     perguntaisme por meu amo
     & não por h que vos ama. 1625
 
     so. E qu he esse amador
     que quer ter comigo passo (710)
     será ele alg madrasso (711)
     vi. Eu sou mesmo que o amor
     me quebra pelo espinhasso 1630
     & mais vos sabey de mi
     se (712) a dizelo me atreuo
     que desquesses olhos vi
     que yo ni como ni bebo
     ni hago vida sem ti. 1635
 
     � E mais para namorado
     não saõ ora tão madraço (713)
     so. Sois muito desmazalado
     vi. Mas antes (714) de delicado (715)
     cayo pedaço a pedaço. 1640
     & mais eu sofrer nam posso
     que me façais tanto fero (716)
     questou ja posto no osso
     porque sou vosso & reuosso
     por vida de quanto quero (717) 1645
     so. Feros, està chea a rua (718)
     ora estou bem auiada
     vi. Copido por vida tua
     que a nam faças tam crua
     pois que te não faço nada 1650
     amor, amor, mas te pido
     que quando se for deitar
     que le digas al oydo (719)
     deuiesuos de lembrar
     neste tempo d perdido. (720) 1655
 
     so. E tu fazes ja coprinhas (721)
     ainda (722) tu trouaras
     vi. Qu eu, por estas barbinhas (723)
     que se vos virdes as minhas
     que digais que nam saõ mas 1660
     so. Ora pois me quereis bem
     dizeyme ha. vi. eyla aqui
     & veja o saybo que tem
     porquesta trouinha asi
     sayba què troua do assem (724). 1665
 
� Diz o moco (725) a troua.
     Passarinhos que voais
     nesta menhã tam serena
     sabey que soo minha pena (726)
     pode encher mil (727) cabeças (728)
     so. O refam (729) està salgado (730) 1670
     essa pena te dou eu
     vi. Vos & amor, que de maluado
     me tem milhor en penado
     que nenhum virote seu
     pois se me ouuireis cantar 1675
     so. E tu es tambem cantor
     canto milhor que vn açor (731)
     quereis que vos venha dar
     musiqueta (732) de primor.
 
     E que vos mande tanger 1680
     muito milhor que ninguem
     so. Ia isso quisera ver
     vi. Querermeis seo eu fizer
     alg pedaço de bem
     so. Querertey trinta pedaços 1685
     vi. & esse querer dara fruito (733)
     que me tire destes laços
     so. E que fruito, vi. dous abraços.
     so. Esse fruito custa muito (734)
 
     vi. Esse he o amor que en vos ha 1690
     pesar de minha may torta (735)
     so. Ora hi chamay logo la
     vosso amo, que venha ca
     logo, que he cousa que importa
     vi. logo. so. logo nessas oras 1695
     vi. não estarey aqui mais
     so. não, ainda ay estais
     vos aueis mister esporas (736)
     vi. Yrey porque mo mandais
 
Vayse Vilardo & Solina, & entra o pastor & Vanadoro com ele feyto pastor, & diz o pastor.
     pai. Mas de h mes es ya passado 1700
     que en esta sierra andais
     y es caso mal mirado
     que andeis guardando ganado
     por vna que tanto amais (737)
     y si os determinais 1705
     en querer casar con ella
     juro ami (738) que nada errais
     y si esso es para auella
     en vano cabras guardais.
 
     Ya me distes vuestra fee (739) 1710
     saben lo estas sierras todas
     yo con ella mengañe
     que luego mandar llame
     quien festejasse las bodas
     & agora dezis con pena 1715
     ques dura cosa casar
     pues bolueos norabuena
     que no aueis dengañar
     con palauras Florismena
 
     va Quem à de ter coração 1720
     para tamanho temor
     que en m pegando (740) estam
     da parte a rezão
     & doutra parte o amor (741)
     tambem vejo que perdela 1725
     serà minha perdição
     que b me diz à afeiçam
     que pouco faço por ela
     pois não desfaço en qu sam (742)
     pay. Digoos si por baxeza 1730
     dezis que no os conuiene
     daros he ha certeza
     que en sangue y em nobreza
     tanto como vos la tiene
     va. Pastor digo que daqui 1735
     farey tudo que quiserdes
     & se mais quereis de mi
     digo que vos dou o si
     para tudo o que fizerdes.
 
     pay. Dios os de su bendición 1740
     y pues que casays con ella
     yo os affirmo en concrusión
     que aun de vos y mas della
     verna gran generación
     yo me voy por ella hijo 1745
     tomadla assí mal co<n>puesta
     verna quien haga la fiesta
     que en plazer y regozijo
     nos festeje esta floresta (743)
 
� Vayse o Pastor & fica Vanadoro falando soo, & diz.
     va. Ho ribeiras tam fermosas 1750
     vales campos pastoris
     porque vos não reuestis
     de nouas flores & rozas
     se minha gloria sentis
     porque nam secais abrolhos 1755
     & vos agoas que regando
     os olhos, is alegrando
     correy que tamb meus olhos
     dalegres estam manando
 
     � Ha pastora em quem espero 1760
     poder viuer descansado
     contigo guardarey gado
     que ja eu senti não quero
     nenha alteza destado
     diga o que quiser a gente 1765
     tudo terey na palha
     porque està craro & vidente
     que não ha honrra que valha
     contra a vida de contente (744)
� Entram tres Pastores baylando & cantando de terreyro, diante do Pastor que traz Florimena & diz o Pastor.
     pai. Pues el amor os obriga (745) 1770
     a que hagais tambuena liga
     tomando a Dios por testigo
     daqui os la entrego amigo
     por muger y por amiga (746)
     va. Consentis nisto senhora 1775
     flo. Señor em tudo consento
 
     va. O grande contentamento
     flo. Sayba que nunca ate agora
     lhe ouue enueja ao tromento
 
     pay. Assi lo dezis bobilha 1780
     o mala dolor os duela (747)
     pero no es marauilha
     quien consiente ansi la filha
     consienta también la espuela. (748)
� Tornam a baylar & cantar & acabado entra dom Lusidardo, & o mõteiro andão em busca de Vanadoro, & diz dom Lusidardo.
     lusi. Tres dias ha ja que ando 1785
     por esta larga espessura
     a Vanadoro buscando
     & o que dele vou achando
     he como quer a ventura (749)
     mõ. Señor cuido que la vejo 1790
     hs lauradores cantar
     lusi. Hi diante perguntar
     mõ. Comprido he seu dessejo
     se a vista não menganar
     lusi. Como asi. mõ. ele não vee 1795
     aquele pastor louçaõ
     cõ ha moça pola mão
     se Vanadoro não he
     n eu o monteyro saõ
     pa. Quien veo alla assomar 1800
     que se viene a nuestras vodas
     bo. no los dexemos llegar
     que nos vernan a robar
     juri ami (750) las migas todas.
 
     lusi. Ho Vanadoro meu filho 1805
     es tu este, va. tal estou
     que cuido que este não sou
     lusi. Certo que me marauilho
     de qu tanto te mudou
     como estas assi mudado 1810
     no rosto, & no vestido
     va. Ando ja noutro trocado
     tanto que fiquey pasmado
     de como fuy conhecido.
 
     � E se vossa merce vem 1815
     para me leuar daqui
     mais a de leuar que a mi
     & a de ser quem me tem
     todo transformado en si (751)
     bo. Esso porque lo entendeis (752) 1820
     por las migas por ventura
     boto a tal no lleuareis
     por mas y mas que andeis
     no hareys tal trauessura (753)
 
     va. Esta fermosa donzela 1825
     en mi teue tal poder
     que folguey de me perder
     pois en fim vin achar nela
     o que não cuydey de ser
     tanto en mi pode este amor 1830
     que a tenho recebida (754)
     & se o erro graue for
     aqui quero ser pastor
     deixeme ter esta vida.
 
     lusi. He certo tal casamento 1835
     va. Tenhao por cousa segura
     lusi. Ho grande acontecimento
     destarte sabe a ventura (755)
     agoar (756) h contentamento
     pai. Óyame señor ami 1840
     como ho<m>bre sabio y discreto
     porque acaesció así
     y lo que supe hasta aquí
     lo puede tener por cierto.
 
     � Muchos años son corridos 1845
     que enesta fuente abierta
     en estos valles floridos
     halle dos niños nacidos
     y a su madre casi muerta
     los niños chicos (757) crié 1850
     y desto cierto me arreo (758)
     y a la madre sepulté
     y después hu<n> gran desseo
     de saber esto tome.
 
     � Como yo fuesse enseñado 1855
     de chco (759) ala magica arte
     por mi padre ques finado
     muy conoscido y nombrado
     soy por tal en toda parte
     yo con yeruas dela sierra 1860
     artimales (760) y otras cosas
     hare si el arte no se hierra
     que desciendan ala tierra
     las estrellas luminosas.
 
     Soy en fin certificado 1865
     que la madre de los dos
     fue Princesa dalto estado
     & por hu<n> caso no<m>brado
     la traxo (761) a esta terra (762) Dios
     el macho como creció 1870
     desseoso de otro bien
     ala corte se partó
     la hembra es esta por quien
     vuestro hijo se perdió. (763)
 
     Y si mas quiere señor 1875
     de mi arte, prestamente
     dello le hare sabedor
     mas ha de ser de tenor
     que no lo sepa la gente
     lusi. Mas vamonos se quereis
     que não sofro dilação
     a minha casa, & entam
     la disso me informareys
     que he caso de admiração.
 
     E vos filho não cuydeis 1885
     que a gloria de vos achar
     nam he tanto destimar
      en qualquer estado esteys
     não folgue de vos leuar
Vanse todos, & diz Solina v do vir a Filodemo.
     so. Eis Filodemo la vem 1890
     asinha (764) acodio ao leme (765)
     dio. Isso he de qu quer bem
     mas não sey se ouio algu
     porque quem cipera teme
 
     agora (766) me quisera eu 1895
     daqui c mil leguas ver (767)
     fi. Folgara eu asi de ser
     por queste cuidado (768) meu
     fora mais de aguardecer
     que quando por accidente 1900
     da fortuna desastrado (769)
     fosse apartado da gente
     n deserto onde somente
     das feras fosse guardado.
 
     � E por ferro, fogo, & agoa 1905
     buscar minha morte yria
     a voz ronca (770) a lingoa fria (771)
     tamanho mal, tanta magoa
     as montanhas contraria (772).
     là muy contente & vfano 1910
     de mostrar amor tam puro
     poderia ser que o dano
      não moue h peito humano
     que mouesse h monte (773) duro (774).
 
     dio. Nesse deserto apartado 1915
     de toda a conuersação
     merecieis degradado
     por justiça cõ pregam
     que disesse por ousado (775)
     & eu tamb merecia 1920
     metida a graue tromento
     pois que como não deuia
     vim a dar consentimento
     a tão sobeja ousadia
 
     fi. Señora se me atreui 1925
     fiz tudo o que amor ordena
     & se pouco mereci
     tudo o que perco por mi
     mereço por minha pena
     & se amor pode vencer 1930
     leuando de m a palma
     eu não lho pude tolher
     que os homs não tem poder
     sobre os effeytos (776) dalma.
 
     � E ainda que pudera 1935
     resestir contra o mal meu
     sayba que o não fezera
     que pouco valera eu
     se contra vos me valera (777)
     não deue logo ter culpa 1940
     qu se venceo darmas tais
     assi que nisto, & no mais
     tomo por minha desculpa
     vos mesma que me culpais.
 
     & se este atreuimento 1945
     com tudo for de culpar
     acabay de me matar (778)
     que aqui tenho h sofrimento (779)
     que tudo pode passar (780)
     & se esta penitencia 1950
     que faço en me perder
     alg bem vos merecer
     fique en vossa conciencia
     o que me podeis deuer.
 
     � Que dizeis a isto señora 1955
     dio. Eu que vos posso dizer
     ja nam tenho en mi poder
     segundo me sinto agora
     para poder responder
     respondeylhe vos Solina 1960
     pois a vos mentreguey
     so. Bofe não responderey
     veja ele o que determina
     dio. Não no vejo n no sey.
 
     so. Pois eu (781) tãbem nam sey nada 1965
     dio. Porque. so. do que eu fezer
     se depois se arrepender
     dira que eu fuy a culpada.
     dio. eu so quero a culpa ter
     so. Señora por não errar 1970
     não quero que fique en m
     esta noite no jardim
     ambos podem praticar (782)
     como isto venha a bom. fim
 
     � La poderam ajuntar (783) 1975
     entrambos o parecer (784)
     que eu nam mey nisso de achar
     que nam quero temperar
     o que outrem a de comer (785)
     dio. vos vedes a trouação 1980
     que la nessa casa vay
     so. Dame ca no coração
     que he vindo o señor seu Pay
     cõ o señor seu yrmão.
 
     dio. Filodemo yuos embora 1985
     falay depois com Solina
     so. Vamonos tambem senhora
     receber seu pay la fora
     não venha sentir a mina (786).
 

� Vanse todos & entra Vilardo & Doloroso que vem dar ha musica a Solina, com os musicos, & diz logo Vilardo.

                                vi. Assi que te contaua Doloroso destas em que sempre andão (787) 1990
rogindo as sedas, do. auante que bem sey que o não dizes polas sedas
de Veneza, vi. ja sabeys que esta nossa Solina, he tam Celes-
tina que nam ha quem a traga a nos, do. logo parece (788)
moça brigosa, que por daca aquelas palhas, darà e tomarà (789)
quatro espaldeiradas, & ao outro dia quem à de cuidar que ha 1995
molher de sua arte à de querer bem a h paruo como ti, por
estas tais sam como homis sezudos se de noite se achão en al-
gum arroido (790) onde possam fogir sem serem conhecidos facilmte
o fazem, & ao outro dia quem a de cuydar que h homem tam
honrado auia de fogir, outros dizem bem pode ser 2000
porque noyte escura he capa de Iudeus, (791) & de enuergonhados,
vi. muy gentil comparaçam he esta, mas assi que te dezia
o outro dia assi zõbando lhe pormeti de lhe dar ha
musica, & ja chamey outros dous meus amigos, que logo han
de vir aqu ter cõnosco, do. que tal he a musica (792) que 2005
determinas de lhe dar, não seja de sizo porque serà
a mayor paruoice do mundo, porque não concerta com
a paruoice que tu finges, vi. a musica não he senam
das nossas, mas façote quexume que nem cõ h cão de
busca pude achar has nesporas (793) por toda esta terra, 2010
do. nem nas acharas fenam alugadas, mas eu não sou de
openião que teus amores te custem dinheyro ora ja la
aparecem os outros companheyros, & eu tambem aju-
darey de telhinha (794), oude assouio, & vem me isto a popa,
porque daqui yremos à porta da mínha padeyrinha, 2015
porque ando com ela num certo requerimento, vi.
vossas merces vem ao propio, boa seja a vinda, as
guitarras vem tperadas (795). ami. tudo v como cpre, man-
day vegiar a justiça entretanto. vi. ora sus fazey como
se tperaseis cabeça de pescada com seu figado & bucho, 2020
& canada & mea que nunca meu pay fez tamanho gasto na
sua misa noua.
� Neste passo se da a musica com todos quatro, hum tange guitarra outro pentem, & outro telhinha, & outro canta cãtigas muyto velhas & no milhor diz Vilardo.
vi. Estay assi quedos que eu sinto quem quer que he, do.
justiça pelo corpo de tal, ora sus aqui nam, ha outro valha-
couto que nos valha que por os pes ao caminho & mostrarlhe (796) 2025
as ferraduras.
� Vanse todos & entra o Monteyro & diz.
mon. Como he gracioso este mundo & como he galante, & quam
gracioso seria quem o pudesse ver de palanque, com
carta dalforria ao pescoço, porque nem pudessem
entender nele meirinhos, almotaceis da limpeza, trabalhos, 2030
esperãças, temores, com toda a outra cabedela
dfadamentos, ora notay bem de quantas cores tesseo a
fortuna esta (797) manta Dalentejo, perdeose Vanadoro na
caça, eis a casa toda en volta como rio, o Pay enfadado
a yrmãa triste, a gente desgostosa, tudo en fim fora do 2035
couce, & o galante aposentado nos matos com os trajos mu-
dados como camaliam (798) dessepado dos pees & das mãos por
ha ferranica Dalentejo & veio o caso (799) a fayr, (800) de ma-
neyra fora da madre (801), que a recebesse por molher, e rapa
oleo & crisma de quem he, & renega todas as alembranças 2040
de seu pay, pois tanto tomou ao pee da letra, o que Deos (802)
disse, por esta deyxaras teu pay & may, & atentay isto (803)
por me fazer merce, cudareis que este caso era, solus pe-
regrinos (804), sabey que os nam da fortuna senam aos Pares
como quedas Dionisa mais mimosa & mais guardada de 2045
seu Pay que bicho de seda, moça sem fel (805) como põbinha,
que nos anos não tinha feyto inda o enequim (806), mais fer-
mosa que ha menhaã de Sam Ioam, (807) mais mansa que o
rio Tejo, mais brãda que hum Soneto de Gracilaso (808), (809)
mais delicada que hum pucarinho de Natal, en fim que 2050
por mea ora de sua conversaçam, se podera sofrer
ha pipa com cobra & galo, & doninha, como a parricida, (810)
com tanto que dissesse o pregão, o porque, & porque vos
não fieis em castanhas, nam sey se o diga se o cale, que
de magoado me traua pola manga a fala da garganta, 2055
mas com tudo não ha quem se tenha, seu Pay a achou (811)
esta noyte no jardim com Filodemo, (812) mais arrependida
do tempo que perdera, que do que ali perdia, eu coy-
tado de m (813) que meta os dentes nos cabeçais se dessejar
aue de pena. � Aqui entra Duriano, & diz como cantando. 2060
du. Ti ri ri, ti ri rão. mon. que he isso senhor Doriano
que descuidos sam esses onde he ca a yda agora. do. vou
assi como paruo, porque o melhor he nam saber homem nada
de si, mon. que dizeis a vosso amigo Filodemo que assi se
soube aporueitar do tempo que ficou sò em casa. du. Eu 2065
que ey de dizer, digo que descreo desta minha capa se não
he isto caso (814) pera sayr com ele a desafio, mon, porque,
du. porque nam basta que lhe de a fortuna, gostos tam me-
didos sobre o fonil (815), que lhe poem nos braços Dionysa, a (816)
mais fermosa dama que nunca espalhou cabelos ao ven- 2070
to, senam ainda para o assegurar cm sua boa vtura (817)
lhe vem a descobrir que he filho de nam sey quem nem
quem não, mon. esses saõ outros quinhentos, cujo filho
dizem que he, que cu ouui ja sobrisso nam sey que fa-
bulas, du. diruoloey pasmareys, que nam he menos que (818) 2075
Principe & pior ainda, (819) nunca ouvistes dizer de h irmão
do señor dom Lusidardo, que agrauado del Rey se foy
para os reynos de Dinamarca. mõ. tudo isso ouui ja,
du. pois esse galante em satisfaçam de mutas merces que
elRey de Dinamarca lhe fizera, meteose damores com 2080
ha sua filha a mais moça, & como era bom justador
manso, discreto, galante, partes (820) que a qualquer molher
abalaõ, dessejou ela de ver geraçam dele, senão quando
liuremos Deos se lhe começou dencurtar o vestido, (821) estas
sidras (822) não se desist en noue das senam en 2085
noue meses, foylhe a ele então necessario acolher
se co ela, por nam colhessem a ela co ele, acolheo
se em ha galê, & vede là Princesa em ha galera
nueua, com el marinero a ser marinera (823). (824) Finalmte
vindo nauegãdo todo esse Oceano Germanico, bãcos de 2090
Frãdes, (825) mar Dinglaterra & trazidos à costa Despanha,
não nos quis a ventura deyxar gozar do repouso que nela (826)
buscauam, deulhe supitamente tamanha tromenta que fem (827)
remedio deu a galè a costa, onde feyta pedaços morreram
todos desestradamente, sem escapar mais que a 2095
Princesa cõ o que trazia na barriga, a quem parece que
a fortuna guardaua para dar o descanso que a seu Pay
& Mãy negara. Sayo finalmente a moça na praya tal qual
o temeroso naufragio deixaria ha Princesa mais deli-
cada hum Arminho, & indo assi a pobre molher pola 2100
terra estranha, & despouoada, & sem quem a encaminhasse
por donde: depois de ter perdido tanto a esperança de ter
algum remedio, dandolhe as dores de parto junto de
ha fonte aonde en breue espaço lançou duas crian-
ças, macho & femea, como vizagras, & como a fraca com -2105
preyção da delicada molher, não pudesse sostentar tantos
e tam, desacostumados trabalhos facilmente deu a vida
que tanto auia que dessejaua de dar, deyxando viuos
aqueles dous retratos dela & de seu Pay, que por causa
de seus nacimentos a vida lhe tirarão, como acontece a 2110
biboras. E como as criãças fossem destinadas ao que
vedes, não faltou hum pastor que as criase, que ali veo
ter, dando a Mãy a alma a Deos: de maneyra que por
não gastar mais palauras, o macho he vosso amigo Filo-
demo, & a femea he a Serrana Florimena, molher què he 2115
ja de Vanadoro (828) mõ. Estrañas cousas me contays, ass que
logo de seu Pay erdou Filodemo namorar a filha do señor
que serue, não auerà logo por mal o señor dõ Lusidardo,
tomar por jenrro & nora, quem acha por sobrinos, dor.
Sabey chora de prazer com eles, que ja diz que 2120
acha que Filodemo se parece natural cõ seu yrmão,
& Florimena com sua mãy. mon. Dayme a entender como
se creo tam de ligeyro, o señor dom Lusidardo de quem
isso contou. dori. no caso nam ha duuida porque o Pas-
tor que la achastes lhe certificou todo o caso, & fez 2125
ao Pastor muitas merces, & manda fazer muitas festas
solenes, Vanadoro casado com sua molher & prima, &
Filodemo que o mesmo parentesco tem, com a Señora Dionisa
estam fora de crer tamanho contentamento, cuydo que zom-
bão dele. mon. ora deixame yr a ver o rosto a esse velhaco (829) 2130
de Filodemo, pois de meu matalote (830) se me tornou señor, que
creo que vem o señor dom Lusidardo dessemulemos.



� Entra dom Lusidardo com Vanadoro que tras Florimena pola mão & Filodemo tras a Dionisa, & diz dom Lusidardo.
                           
     � Quem não ficara pasmado
     de ver que por tal caminho
     tem a ventura ordenado 2135
     Filodemo meu criado
     vir ser meu jenrro & sobrinho
     Quem não pasmara agora
     de ver a ventura minha
     Que tem tornado na ora 2140
     Florimena ha pastora (831)
     ser minha nora & sobrinha.
     � Dense graças ao señor
     cujo segredo & porfundo
     pois que vemos que quis pòr 2145
     a ventura & o amor
     por prazeres deste mundo.
� Vanse todos & fenece a presente obra.

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