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    Hispania [Publicaciones periódicas]. Volume 74, Number 3, September 1991
    
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ArribaAbajo Sousândrade em Nova Iorque: Visão da Mulher Americana65
Frederick G. Williams


Universidade de Califórnia, Santa Barbara



Introdução

Joaquim de Sousa Andrade (ou Sousândrade como ele veio a aglutinar o seu nome) nasceu a 9 de julho de 1832, na fazenda Nossa Senhora da Vitória, próxima do rio Pericumã, município de Alcântara, Estado do Maranhão.66 A sua infância era bucólica, a família era abastecida, unida e observava os preceitos da religião cristã. A sua vida idílica acaba com a inesperada morte dos pais. Entra num período de crise financeira, apela ao imperador para obter fundos para educar-se, mas sem sucesso. Entra na bohêmia. Justifica a sua vida dissoluta explicando que não tinha ninguém para aconselhá-lo. O amor que procurava nas muitas amantes é substituto da perda do amor ideal da mãe. Viaja pelo mundo.

De muitas maneiras sua vida sugere o arquétipo do intelectual latino-americano lutando para unir as forças contraditórias do barbarismo e da civilização. Não obstante, ele estava sempre fazendo as coisas diferentemente. Ao contrário de seus contemporâneos, não foi a Coimbra para obter o grau universitário, e sim a Paris. E em vez de estudar Direito ou Medicina, como era comum, teria estudado Engenharia na Sorbonne. Depois de formado passou algum tempo viajando pela Europa.

De volta ao Brasil, segundo parece, cursou um ano na Escola de Medicina do Rio de Janeiro, viajou pelo Amazonas (1858-1860) e casou-se no Maranhão com Mariana de Almeida e Silva, vivendo como fazendeiro e nas horas vagas publicando dois livros de poesia.

O poeta e sua família moravam afastados da cidade num elegante sobrado às margens do rio Anil, em São Luís. Até 1871 Sousândrade já gastara muito de suas economias, hospedando amigos em sua mansão e proporcionando-lhes outras prodigalidades. A sua única filha, a jovem Maria Bárbara, tinha compleição doentia. Pensou o poeta que a mudança de clima lhe seria favorável. Provavelmente porque no casamento as coisas não corressem bem, quando Sousândrade resolveu acompanhar a educação de Maria Bárbara em Nova Iorque, Mariana foi excluída dos planos de viagem. Pai e filha tomaram em Belém do Pará, a 6 de maio de 1871, o vapor «North American», com destino a Nova Iorque, onde desembarcaram a 19 do mesmo mês.67 Sousândrade contava 39 anos.

Maria Bárbara foi matriculada no Instituto do Sagrado Coração de Manhattanville, localizado aproximadamente sete milhas do centro de Nova Iorque. O poeta alugou dependência de uma casa de família, de cuja janela podia avistar as torres da igreja anexa ao colégio. Enquanto nos Estados Unidos, a principal atividade de Sousândrade foi trabalhar na sua obra épica de treze cantos, O Guesa.68 No poema, Sousândrade se identifica com o guesa, nome da vítima humana dos índios muyscanos da Colômbia. O sacrificado era uma criança arrancada da casa paterna.

O papel de Guesa-vítima que Sousândrade se imagina representando deverá resultar não somente na revitalização da cultura indígena, mas no benefício e na redenção de toda a humanidade. Sousândrade, entendendo que a juventude necessitava de orientação na vida, se propõe a exercer sobre ela efetiva liderança, guiando-a através de sua obra, em que vê uma espécie de bússola literária.

Usa um approach titanístico. Ao guesa, e a tradição indígena, o autor invoca e associa Prometeu   —549→   (a tradição greco-romana) e Jesus Cristo (tradição judeu-cristã). Cada um desses semideuses deveria oferecer um sacrifício supremo. Todos eles deram sua vida ou se submeteram ao sofrimento que acompanha o sacrifício, por livre e espontânea vontade, e tudo para o bem-estar da humanidade. Assim como eles, Sousândrade tem que salvar o seu povo, o Brasil. Ele identifica os inimigos da nação como sendo a falsa aplicação da religião, a monarquia e a escravidão, e Dom Pedro é o símbolo dos três.

Durante a sua permanência de quatorze anos nos EUA, Sousândrade teve oportunidade de ver um governo republicano em ação. Em-bora elogiasse o país por seu desenvolvimento e pela liberdade de seu sistema -nele via a esperança do futuro- condenou fortemente as distorções econômicas e as injustiças sócio-políticas associadas ao seu progresso. Desses aspectos negativos da vida americana deixou contundente registro no Canto X dO Guesa, especialmente na parte conhecida como «O Inferno de Wall Street».

Um dos temas de maior relevo em todo o poema épico, especialmente no Canto X, é a relação do Guesa com a mulher que se apresenta em diversas fases sob diversos aspetos.




A Mulher Americana nO Guesa

Eu divido o Canto X em 26 quadros ou cenas, o que corresponde mais ou menos à divisão das estrofes em segmentos, dos quais só 8 não contêm alguma referência à mulher americana.

I. Mulher Símbolo

O canto começa e termina com a mulher como símbolo. América é designada a filha de Deus e a espartana gentil da liberdade, é a Mãe formosa que abre os braços aos imigrantes vindos a Nova Iorque:


Vinde! a filha do Deus não vos despreza.
-E forma-se a corrente em Castle-Garden,
...
Sede bemvindos! há lugar p'ra todos
   E lar e luz e liberdade e Deus.-
   E a cada filho em dor, miséria e apodos,
   Abre a formosa Mãe os braços seus!
A Espartana gentil! da liberdade
   Amostra os horizontes aos escravos.


(187)                


No fim do canto, a musa americana está de luto por causa da morte de duas figuras importantes da literatura norte-americana, o poeta Henry Wadsworth Longfellow, e o filósofo Ralph Waldo Emerson, ambos em 1882:


Está de luto la musa americana
   Pelo pai da poesia...
...
   A Longfellow farewell! prostrado roble,
...
   Segue ao Segue. ao Poeta o Filósofo...


(272)                


II. Visão Positiva da Jovem Americana

Existem várias referências genéricas à beleza e saúde dos jovens que têm o ar livre para respirar neste país democrático. O segundo quadro do canto descreve uma parada que comemora o fim da Guerra Civil; o feriado chama-se Decoration Day, e os jovens participam com entusiasmo (187-88). Outra celebração que o poeta descreve é May Day, o primeiro de maio, com a sua rainha e corte de moças:


O infantil povo, luz na face e rosas,
    Anda a rainha de maio coroando;
   Leves frechas pelo ar voam, as moças
   O arco, amazóneo o garbo, recurvando


(191)                


Também faz referência ao atletismo em que participam moços e moças, nomeadamente, em regatas:


Exercita-se a atleta mocidade-
As virgens e os donzeis concorrem, luctam,
E das parelhas à velocidade
Ou da leda regata, ao prémio exultam!


(188)                


Uma cena ocorre na escola onde estuda a filha do poeta, o Colégio do Sagrado Coração em Manhattanville. Ficaram registrados os nomes das suas companheiras:


      
Pelos recintos
   Dos parks e os jardins de Sacred-Heart
   Derrama-se o dilúvio de jacintos-
    Oh minha filha, venho ver-te e dar-te
A minha bênção! como estás tão linda!
   Brinca- esperam-te Anita, Emily, Cora,
    Mamie Dévlin, Marie, Néllie...


(221-22)                


O poeta aprecia os bons ensinamentos das dedicadas freiras:


Aqui são mães de amor as virgens santas,
   As esposas do céu, que em luz educam
   As filhas dos mortaes. Oh! como encantas
   Toda minha alma ao ver-te em puro amor!


(222)                


III. Prostituição e o Sub-mundo Urbano; Aberrações Sociais

No meio da paz e contentamento, Sousândrade registra que com o pôr do sol, as jovens que   —550→   aparecem vêm transformar os parques e as avenidas principais num mercado de prostituição. Devemos recordar que a visão da prostituta que o poeta apresenta é cheia de clichês, uma visão romântica, até melodramática. Sousândrade é o advogado dela, quer crer que é uma mulher vitimizada pela sociedade e simpatiza com ela. Este juízo está conforme a mentalidade de sua época. Não devemos esquecer que esta é a época da peça, A Dama das Camélias, por Dumas fils, da ópera, La Traviata, de Verdi e do romance Lucíola, de José de Alencar. Embora a lógica ditasse a injustiça do argumento, e os ensinamentos religiosos proibissem, existia um duplo padrão: ter aventuras sexuais era aceitável no homem, mas não na mulher.

O quadro 4 principia no parque ao findar o dia. Admirando a beleza das donzelas que por ali passavam, o poeta não pode deixar de admirar a mulher americana:


Eu estou assentado em Central-Park
   Ao fim do dia -pela relva o sol:
...
   Como o amor à mulher transforma em astro!
    -E alevantando a fronte a Americana
   Resplandecem-lhe os auro-flavos rolos,
   E passa a livre caçadora Diana.


(188-90)                


O poeta confessa que tem acompanhado algumas mulheres como esta «nocturna mariposa» aos salões doirados de Nova Iorque, nomeadamente ao Hoffman House, um dos hotéis mais luxuosos da cidade:


Nas noites suas de Hoffman, com ela...
    Nos doirados salões de Nova-York,  100
   Nas praças os meetings, onde vela
...
Das azas das noturnas mariposas
   Pendido o maltrajado Guesa-Errante.


(189)                


Sousândrade admite que tem conhecido prostitutas com grande virtude e compaixão humana, características que faltam em algumas mulheres virtuosas, e identifica os dois consórcios de nome:


   [O Guesal Viu... n'uma prostituta a mói piedade;
    E a mór prostituição viu... n'uma virgem.
Utie -Hortense- a adúltera ao paganismo
   De Venus melhorara, quanto a noiva
    Fazendo o yankee o dito cristianismo.


(189)69                


Como segundo exemplo do sub-mundo urbano, no quadro 16, o poeta ficou indignado com o orgulho da prostituta Fiskie, e maldisse a sociedade que a levou à cidade e à ruina:


Oh! quanto é doloroso, à divindade
Livre, a prostituição, proud e louça!
...
«Maldita a sociedade que vos leva
Para o golfão dos centros populosos,
...
Sendo a 'Venus' vulgar da mascarada
E das formas co'o vício ao coração...


(226-27)                


Reconhece, porém, que ela não tem condições para escapar desta vida. Entende também, que a tentação da carne é poderosa e Fiske lhe atrai e repele ao mesmo tempo:


   «Voar? voar?... a vós faltam as azas!
   Ursa d'arte a 'sangrar'... 'Fogo e amargura
    Há no encanto, nas espumosas gazas
   Candente carne -amai a formosura'!
...
Esta é Fiskie -mulher d'esses que vieram
   Ao hóspede divino rir, roubar-


(228)                


No episódio do Inferno de Wall Street, que chamo o quadro 19, há muitas referências a aberrações sociais e sexuais que adiante consideraremos. No quadro 20, que vem imediatamente depois do Inferno, Sousândrade faz uma última referência à prostituta. No Inferno, quem é adorado é o «deus material». A prostituta, como todo o mundo, trabalha pelo ouro:


Por ele prostitue-se... a prostituta;
Afina-se por ele e mais, mais bela,
A bela e formosíssima impoluta.


(262)                


IV. Admoestações aos Americanos e ao Mundo em Geral

Depois de observar tanta degradação, Sousândrade apresenta a sua solução. Primeiramente pergunta de onde vem este mal social numa República livre como os EUA. A resposta surpreende um pouco porque quem tem a culpa não é o homem luxurioso («Não é o homem que à mulher deprava», 197), nem as instituições sócio-políticas, mas as próprias vítimas, as mulheres:


Mas, donde vem o mal, quando a República
Bem cumpre seu dever -a escola, o templo?
- Talvez do intérprete, ou da menos púdica
Deusa do lar...


(195)                


Embora a responsabilidade de manter um bom exemplo para os filhos recaia sobre ambos, o marido e a mulher:


Não rainhas das modas, reis dos bancos,
    Mães da vaidade e paes da ladroeira;
...
   E o homem que não foi o irmão das belas,
   Prepara-se à conquista das Sabinas
   A oiro; não às ciências das estrelas-
   E eis o divórcio amor por esterlinas.


(197)                


A segunda vez que o poeta aconselha à mulher aparece no quadro 21. Suas palavras destinam-se   —551→   às «Damas da grandeza» a quem sugere que tomem a peito os problemas dos pobres, estendendo os seus serviços voluntariamente:


Ide às escolas, Damas da grandeza,
   Superintendei, sede as condutoras
    Voluntárias dos filhos da pobreza,
    Enquanto as mães trabalham!
   ... dos pobres
   Fazei, dos filhos seus, amigos vossos


(253-54)                


V. Damas da Grandeza

Parece ser o caso que Sousândrade observou um pouco a vida das damas da alta classe, e o que não presenciou terá imaginado. Em todo caso, refere-se a dois episódios que envolvem a mulher social ou «nobre». O primeiro aparece no quadro 12, e envolve uma mulher denominada Hela, com quem terá assistido um banquete e baile em Tarrytown:


Tarrytown a tão quieta. Reuniu-se
    A flor da mocidade e da beleza
   No alcantilado hotel. Tristonho aí viu-se
   E não de dor, mas de ventura, o Guesa.
E nos solariums beijam-se os amantes;
...
   E a dança aérea às músicas vibrantes
   No espeloso salão tece-se e agita.
Donosa Hela dançava, coleiando


(216)                


O segundo episódio que envolve a classe alta ocorre no quadro 18 e serve de transição e contraste com o Inferno que lhe segue imediatamente. Se não juntou dois momentos, a cena começa 31 de dezembro no aniversário duma «lady nobre». Os convidados parecem ter ficado a noite, pois, o dia seguinte é identificado como o primeiro dia do ano e todos se dirigem aos lagos gelados para patinarem. Além da «lady», a família consiste do pai e duma bela «miss».


No dia de anos bons a lady nobre,
   Recamados drawingrooms deslumbrantes
   As recepções, radiosa de brilhantes,
    Deusa o colo alvo e cândido descobre
A que adornos desmaiam. Sumptuosos,
    Bufetes e o bouquet. Sorrindo a miss
   No adorável serviço de meiguice.


(229-30)                


Sousândrade parece ter ficado mais uma noite, pois registra que a família lê a Bíblia e canta hinos. Mas, ao dia seguinte, cedo, há uma curiosa transformação, pois aparece o astuto Yankee que abre a cidade de Nova Iorque ao negócio e os seus correligionários negativos: o roubo, o divórcio e o assassínio:


A Bíblia da família à noite é lida;
   Aos sons do piano os hinos entoados,
...
-Mas, no outro dia cedo, a praça, o stock,
   Sempre acesas cráteras do negócio,
   O assassínio, o audaz roubo, o divórcio,
   Ao smart Yankee astuto, abre New York.


(230)                


VI. A Mulher Americana no Inferno de Wall Street

Como é de esperar, Sousândrade no Inferno entra em detalhes, não só da sua participação com a mulher, mas sobretudo, apresenta a mulher americana sob condições extremamente negativas.

1. Atividades da cortesã, prostituta, e o submundo urbano

Vou apenas enumerar algumas referências e depois dar uns exemplos mais representativos:

Alcoviteiros (231)Abortos (258)
Madama (232)Vivisecções (249)
Bordel (233)Violações (234)
Cortesãs (244)Pederastia (235)
Prostitutas (253)Alcoolismo (234)
Pornografia (249)

Existe uma série de três estrofes interligadas, porém separadas umas das outras no poema. Trata-se das jovens «puras» treinadas na religião, que começam a sua queda trágica bebendo cerveja:

(Pretty girls com a BIBLIA debaixo do braço:)


-Testamento Antigo tem tudo!
O Novo quer santas de pau...
Co'o Book jubilante
Adelante,
City bell's, ao lager anyhow!


(234)                


Na segunda estrofe, uma das Pretty girls é encontrada moribunda num bosque em Newark, New Jersey, estupefatadamente bêbada, e tendo sido violada por 23 homens:

(Pretty-girl moribunda em NEWARK 'stupefied with liquor nos bosques e visitada por vinte e três' sátiros:)


-Hui! Legião, Venus-Pandemos!
Picnic, O! Cristãos de Belial!
Paleontologia!
Heresia
Preadã! Gábaa protobestial!


(234)                


É interessante notar que na versão de 1877, esta Pretty girl apareceu originalmente como free love, isto é, uma adepta à doutrina do amor livre, ironia trágica, pois a história acaba mal.70 Na última estrofe da pequena: série, a moça   —552→   expira:

(NEWARK 'dosed'-girl, aux bois dormante, expirando:)


[252]                


71

Além do submundo da prostituição, o Inferno faz referências a outras (para a época) aberrações socias que envolvem a mulher, todas interligadas: a doutrina de free love (amor livre para a mulher); a poligamia entre os mórmons e no contexto Muçulmano; direitos da mulher e a mulher candidata à presidência dos EUA; e, como exemplo de hipocrisia e decadência, o escândalo sexual que causou o processo contra o suposto adultério entre Tilton e Beecher, ambos da classe alta, e ele, um dos mais famosos pregadores e líderes religiosos da nação.

2. Free love

O movimento free love teve como principais divulgadoras as irmãs Victoria e Tennessee Claflin. Como feministas que eram, opunham-se a qualquer padrão duplo que favorecesse o homem e limitasse a mulher. No campo da moral, se a sociedade «aceita» que o homem tenha aventuras sexuais antes do casamento e extra-maritais depois, então o mesmo direito deveria ser concedido à mulher. Elas mantinham que o direito de amar quem e quando se quisesse é reservado à pessoa e não às regras e convenções estabelecidas pela sociedade, a igreja ou o governo.

A designação free love(s) aparece seis vezes no Inferno. Sendo que a idéia é anátema à noção de fidelidade na mulher no casamento, e por conseguinte, cria problemas para as relações normais entre o casal dentro do lar ideal que Sousândrade tanto anelava e pregava, devemos considerar que sua conotação é sempre negativa, embora tenha o seu aspecto jocoso e bizarro.

Free love aparece primeiro como propostas de amor contidas nas cartas recebidas pelo Duque Alexis da Rússia, quando de viagem pelos EUA:

(DUQUE ALEXIS recebendo freeloves missivas; BRIGHAM:)


[234]                


A atitude contida na expressão free love veio a simbolizar uma mulher devassa, mesmo luxuriosa, partidária em orgias sexuais, e como tal, free love forma parte do mal geral contra o qual os hinos do pregador Ira D. Sankey protestam:

(Hinos de SANKEY chegando pelo telefone a STEINWAY HALL:)


-O Lord! God! Almight Policeman!
O mundo é ladrão, beberrão,
Burglar e o vil vândalo
Escândalo
Freelove... e 'i vem tudo ao sermão!


(234)                


Free love aparece como característica negativa de mulheres americanas (não é menos negativa a designação para o homem brasileiro, porém) «-São freeloves Ursas do Norte; / Ped'rasta o Cruzeiro do Sul» (235), e serve também para designar adeptas ao movimento, como em Freeloves «meditando nas... belas artes» (243), ou «Freeloves passando a votar em seus maridos:»(250).

3. Poligamia

Outra prática estranha para Sousândrade no meio americano é a poligamia entre os mórmons. O poeta veio a conhecer esta instituição através de reportagens nos jornais, quase que exclusivamente negativas. A poligamia foi instituída por revelação ao profeta da religião, Joseph Smith, em 1831 em Ohio, e praticada clandestinamente pelos fiéis sucessivamente em Missouri, Illinois e abertamente em Utah depois de 1851. A primeira lei contra o sistema, que admitia uma pluralidade de esposas para um só marido, aparece em 1862. Esta, porém, só é reconhecida como constitucional em 1879, e é a partir do ano seguinte que o governo federal começa a processar os infratores.

Embora não usasse a palavra poligamia, nessa época, referências a Brigham Young (o segundo profeta-líder) ou a Mormon eram imediatamente identificadas coma doutrina mais conhecida da religião.72 Já vimos o começo da terceira referência à igreja Mórmon, vejamos a estrofe completa, que inclui uma passagem nitidamente feminina:

(DUQUE ALEXIS recebendo freeloves missivas; BRIGHAM:)


-De quantas cabeças se forma
Um grande rebanho mormão?
=De ovelha bonita,
Levita,
Por vezes s'inverte a equação.


(234)                


O Duque Alexis pergunta a Brigham Young, depois de receber propostas das free loves, qual deveria ser o tamanho de uma família polígama mórmon. A resposta é talvez uma alusão a sua décima-nona esposa, Ann Eliza Webb Young, que em 18 73, iniciou um processo de divórcio   —553→   contra o profeta Brigham, um novo Moisés (da tribo de Levi) a conduzir seu povo no deserto de Utah. Ann se tornou o centro de muitas atenções por todo o país, proferindo conferências acerca de sua vida num harém mórmon.73

A primeira alusão à poligamia, porém, não é àquela praticada pelos mórmons, e sim pelos maometanos, cujo livro sagrado, o Alcorão, dá ao homem direito a ter até quatro esposas.

(Ambos em LIEDERKRANZ folgando à confissão:)


-Abracadabra! Abracadabra!
Mahomed melhor que Jesus
Entende a mulher
E não quer
Nos céus quem da terra é a cruz!


(233)                


A estrofe segue após outra referência direta ao caso Tilton-Beecher. Este, sendo representante da doutrina cristã, ao cometer o suposto adultério, estaria seguindo mais às doutrinas de Maomé. A diferença do povo muçulmano (e do povo de Israel, diga-se de passagem, cujos profetas praticavam a poligamia, entre eles Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Davi e Solomão, todos referidos no Inferno), Jesus, ou seja, o cristianismo tradicional, não admitia tal prática.

Estará Sousândrade dizendo que a poligamia é a preferida ordem social entre os sexos, coisa que Maomé entendia e Jesus não? Ou estará dizendo que a poligamia e o cristianismo se excluem mutuamente, e portanto o Reverendo Beecher (e por extensão os mórmons) não pode ser um bom cristão?74 Eu acho que Sousândrade optaria pelas duas possibilidades. Ele, embora se declarasse bom cristão, facilmente justificava as múltiplas aventuras amorosas que teve antes e durante o casamento.75 Em outra passagem, o poeta se refere a Huris (plural de Huri, a bela mulher virgem prometida aos que alcançam o paraíso de Maomé) numa curiosa mistura com Sansão, o israelita, e Dalila, sua cortesã filistina que o traiu (faz lembrar a história do Guesa, traído também pela mulher amada):

(Gentlemen [pelotiqueiros] na catástrofe; HURIS lenços-verdes enxugando os olhos-mortos de SANSÃO:)


-Do Guesa a Farsália explorada,
Num 'corner' espremido o autor,
Dá oirão! == A musa
Cafusa
Dalila traiu-o... que horror!


(256)                


4. Direitos da Mulher

O direito da mulher aparece, não como ponto positivo no Inferno como apareceu em outra passagem do canto X,76 mas como assunto para ser ridicularizado, porque é uma das premissas da candidata à presidência dos EUA do Partido da Igualdade de Direitos, Victoria Woodhull, que também advoga o movimento free love, e reclama para si o poder da comunicação com os mortos:

(V. WOODHULL no mundo dos espíritos:)


-Napoleão! Grand'Catarina!
Trema a terra à cris-sensação!
Demóstenes! Grande
Alexandre!
Woman rights, hipódromo e pão!


(238)                


Victoria Claflin casou-se com Canning Woodhull em 1853, divorciando-se dele em 1864. Ficou com o nome, porém, e, em 1872, foi «Candidata à presidência americana» (237). Em 1870, ela com sua irmã fundaram um semanário sensacionalista com o nome das duas, o Woodhull and Claflin Weekly.

5. O Caso Tilton-Beecher

Foi o jornal de Woodhull e Claflin que primeiro noticiou o alegado adultério entre Alice Tilton, esposa de Theodore Tilton, e Henry Ward Beecher. O escândalo aparece logo na sétima estrofe do Inferno e segue em mais cinco:

(Mob violentada:)


-Mistress Tilton, Sir Grant, Sir Tweed,
Adultério, realeza, ladrão,
Em masc'ras nós (rostos
Compostos)
Que dancem à eterna Linch Law!


(232)                


O poeta põe em relevo três episódios controversos e rumorosos da década. Em geral as turbas é que atacam. Mas na introdução parentética a turba é apresentada -no caso, o público norte-americano- como a assaltada em lugar de assaltante. Tilton, Grant e Tweed são introduzidos com títulos apropriados e seguidos imediatamente de caracterizações de uma só palavra. A Sra. Alice Tilton, esposa do jornalista e redator-chefe do Independent, e o famoso evangelista Beecher, tinham sido acusados de adultério pelo marido «traído» e processados.

É interessante notar que a única mulher respeitada   —554→   e respeitável em todo o episódio do Inferno é a Harriet Beecher Stowe, irmã do reverendo Beecher e autora do famoso Uncle Tom's Cabin (e dum outro romance baseado na vida das irmãs Claflin). Assim mesmo, ela é atingida pelo lodo do Inferno, pois Sousândrade faz alusão à acusação de relações incestuosas que ela fez contra Byron. O Tilton e o Beecher, além de amigos, tinham sido colegas na redação do jornal:

(BEECHER-STOWE e H. BEECHER:)


-Mano Laz'rus, tenho remorsos
Da pedra que em Byron lancei...
==Caiu em mim, mana
 210
Cigana!
Ele, à glória; eu, fora da lei!


(232)                





Conclusão

Temos visto que em geral, Sousândrade apresenta uma visão bastante negativa da mulher americana. Pormenoriza as suas falhas, especialmente as suas falhas morais (nomeadamente os excessos sexuais). Entendemos que o seu intuito era de avisar e acautelar à jovem nação, prevenindo-lhe dos males sociais que porventura lhe poderão destruir. O interessante disto tudo é que é mais do que evidente que o amor ilícito atrai a Sousândrade talvez até mais do que lhe repugne.

Sousândrade quis o Inferno como contraste ao amor divino, dando exemplos negativos. Mas o seu interesse lascivo é mais do que patente, pois ele se identifica de nome no Inferno, como se estivesse no meio da sordidez. E não apenas como observador desinteressado ou jornalista do sensacional, mas como participante ativo das várias atividades. Começa por nos revelar a maneira que usou para entrar em contato com as moças: foi à igreja da Graça. E quando o encontro não dava certo (ou porque a moça só queria o flirt, ou porque exigia muito dinheiro) e queria xingá-la -ou se simplesmente queria encontrá-la outra vez e não conhecia nem o nome nem o seu endereço- fez como há anos faz o americano e apela ao jornal escrevendo e publicando o Personal, a notícia pessoal:

(O GUESA escrevendo personals no HERALD e consultando as SIBILAS de NEW-YORK:)


-Young-Lady da Quinta Avenida,
Celestialmente a flirtar
Na igreja da Graça...
 215
-Tal caça
Só mata-te almighty dollár.


(237)                


Numa estrofe, o autor mostra a estreita ligação que existia entre ele, Dom Maranhão, e a Miss Manhattan (252-53). Há, inclusive, referência ao sacrifício ritual e a estirpação do coração do Guesa: mas não vem às mãos dos xeques sacerdotes, e sim das muitas «doutoras» que tentaram aliviar a dor que sente por falta da verdadeira amante celestial:

(Sentimentais doutoras carbonisando o coração do GUESA:)


-Que escorra sangue, não veneno...
==Um 'morango'! -Oh... todo oiro e dor...
==Fossilpetrifique!
-Ai... não fique
Sem glória o Inca e o astro sem flor...


(254)                


Já vimos que era o Guesa quem estava com Utie e Hortense no hotel Hoffman (189), o Guesa com Hela em Tarrytown (213), o Guesa com Fiskie (228). Falta mencionar o Guesa convidando a Augusta para descer o Harlem:


Vem descer comigo o Harlem
Nestes doirados vapores,
...
Dos dias do nosso amor!
Corre, Augusta! corre, Augusta!


(221)77                


A Carrie de Murray-Hill, a vedete de Vassar que encanta os alunos do Cooper Instituto:


Quando de Murray-Hill vens na colina,
Os príncipes, os ricos mercadores,
Adoram a serénide divina,
Que é de Cooper e Vássar os amores


(265)                


Ou a Lulu, que aparece no fim do Inferno («Meiga Lulu, / Choras e tu» 260) e também em Liras Perdidas num poema intitulado «Sea Shore Breakfast», datado de 1882, e cujos versos iniciais são:


Lulu linda, tu mandas que espumem
Nosso copos de vinho doirado?


(LP 125)                


Creio ter demonstrado que Sousândrade passou muito tempo em companhia da mulher americana. Sendo assim, estava em ótima posição para descrever e caracterizá-la. Infelizmente, não soube aproveitara oportunidade, pois a sua experiência se limitou quase que exclusivamente às mulheres de má vida. Não procurou conversar com a mulher educada (esteve perto de Vassar e de outras instituições americanas para o ensino superior da mulher), não entrou em diálogo com a mulher política (esta era a época da luta para o sufrágio feminino e do movimento de temperança contra o álcool), não   —555→   freqüentou as exibições artísticas, os museus, os concertos, os salões literários ou o teatro onde poderia ter presenciado a maestria de muitas artistas. Todas elas, a mulher educada, a mulher política, a mulher artística poderiam ter servido como exemplos ou modelos, para a nova geração de moças. Não o fez. Também não descreveu a mulher ama de casa, nem a mulher que trabalha fora, o que surpreende, pois é o momento do influxo das mulheres nas fábricas, sobretudo, as mulheres imigrantes. Mas Sousândrade não estava escrevendo um documentário: tinha um propósito específico e esse propósito demandava o uso de exemplos negativos que demonstrassem o que podia acontecer ainda no seio da liberdade quando os homens resistem às suas responsabilidades. Para nós leitores de cem anos depois, dá-nos a oportunidade de conhecer mais pormenorizadamente um pouco das condições e dos problemas que enfrentava a mulher americana de classe baixa na sua luta de sobrevivência no Inferno que era Nova Iorque. Assim sendo, Sousândrade nos apresenta uma visão interessante da mulher americana, mas incompleta e negativa.




OBRAS CITADAS

Campos, Augusto e Haroldo de. Revisão de Sousândrade. São Paulo, 1964.

Guimarães, Argeu. D. Pedro II nos Estados Unidos. Rio de Janeiro, 1961.

Roberts, B. H. A Comprehensive History of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints. Provo: Brigham Young UP, 1965.

Sousândrade, Joaquim de. O Guesa. London, s. d.

Williams, Frederick G. e Jomar Moraes. Sousândrade: Inéditos. São Luís: Departamento de Cultura do Estado, 1970.

Williams, Frederick G. Sousândrade: Vida e Obra. São Luís, 1976.






    Hispania [Publicaciones periódicas]. Volume 74, Number 3, September 1991
    
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