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Sousândrade em Nova Iorque:
Visão da Mulher Americana65
Frederick G.
Williams
Universidade de Califórnia, Santa
Barbara
Introdução
Joaquim de Sousa Andrade (ou Sousândrade como ele veio
a aglutinar o seu nome) nasceu a 9 de julho de 1832, na fazenda Nossa Senhora
da Vitória, próxima do rio Pericumã, município de
Alcântara, Estado do Maranhão.66 A sua infância era bucólica, a família era
abastecida, unida e observava os preceitos da religião cristã. A
sua vida idílica acaba com a inesperada morte dos pais. Entra num
período de crise financeira, apela ao imperador para obter fundos para
educar-se, mas sem sucesso. Entra na bohêmia. Justifica a sua vida
dissoluta explicando que não tinha ninguém para
aconselhá-lo. O amor que procurava nas muitas amantes é
substituto da perda do amor ideal da mãe. Viaja pelo mundo.
De muitas maneiras sua vida sugere o arquétipo do
intelectual latino-americano lutando para unir as forças
contraditórias do barbarismo e da civilização. Não
obstante, ele estava sempre fazendo as coisas diferentemente. Ao
contrário de seus contemporâneos, não foi a Coimbra para
obter o grau universitário, e sim a Paris. E em vez de estudar Direito
ou Medicina, como era comum, teria estudado Engenharia na Sorbonne. Depois de
formado passou algum tempo viajando pela Europa.
De volta ao Brasil, segundo parece, cursou um ano na Escola
de Medicina do Rio de Janeiro, viajou pelo Amazonas (1858-1860) e casou-se no
Maranhão com Mariana de Almeida e Silva, vivendo como fazendeiro e nas
horas vagas publicando dois livros de poesia.
O poeta e sua família moravam afastados da cidade num
elegante sobrado às margens do rio Anil, em São Luís.
Até 1871 Sousândrade já gastara muito de suas economias,
hospedando amigos em sua mansão e proporcionando-lhes outras
prodigalidades. A sua única filha, a jovem Maria Bárbara, tinha
compleição doentia. Pensou o poeta que a mudança de clima
lhe seria favorável. Provavelmente porque no casamento as coisas
não corressem bem, quando Sousândrade resolveu acompanhar a
educação de Maria Bárbara em Nova Iorque, Mariana foi
excluída dos planos de viagem. Pai e filha tomaram em Belém do
Pará, a 6 de maio de 1871, o vapor «North American», com
destino a Nova Iorque, onde desembarcaram a 19 do mesmo mês.67 Sousândrade contava 39 anos.
Maria Bárbara foi matriculada no Instituto do Sagrado
Coração de Manhattanville, localizado aproximadamente sete milhas
do centro de Nova Iorque. O poeta alugou dependência de uma casa de
família, de cuja janela podia avistar as torres da igreja anexa ao
colégio. Enquanto nos Estados Unidos, a principal atividade de
Sousândrade foi trabalhar na sua obra épica de treze cantos,
O Guesa.68 No
poema, Sousândrade se identifica com o guesa, nome da vítima
humana dos índios muyscanos da Colômbia. O sacrificado era uma
criança arrancada da casa paterna.
O papel de Guesa-vítima que Sousândrade se
imagina representando deverá resultar não somente na
revitalização da cultura indígena, mas no benefício
e na redenção de toda a humanidade. Sousândrade, entendendo
que a juventude necessitava de orientação na vida, se
propõe a exercer sobre ela efetiva liderança, guiando-a
através de sua obra, em que vê uma espécie de
bússola literária.
Usa um
approach titanístico. Ao
guesa, e a tradição indígena, o autor invoca e associa
Prometeu
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(a tradição greco-romana) e Jesus Cristo
(tradição judeu-cristã). Cada um desses semideuses deveria
oferecer um sacrifício supremo. Todos eles deram sua vida ou se
submeteram ao sofrimento que acompanha o sacrifício, por livre e
espontânea vontade, e tudo para o bem-estar da humanidade. Assim como
eles, Sousândrade tem que salvar o seu povo, o Brasil. Ele identifica os
inimigos da nação como sendo a falsa aplicação da
religião, a monarquia e a escravidão, e Dom Pedro é o
símbolo dos três.
Durante a sua permanência de quatorze anos nos EUA,
Sousândrade teve oportunidade de ver um governo republicano em
ação. Em-bora elogiasse o país por seu desenvolvimento e
pela liberdade de seu sistema -nele via a esperança do futuro- condenou
fortemente as distorções econômicas e as injustiças
sócio-políticas associadas ao seu progresso. Desses aspectos
negativos da vida americana deixou contundente registro no Canto X dO Guesa, especialmente na parte conhecida como «O
Inferno de Wall Street».
Um dos temas de maior relevo em todo o poema épico,
especialmente no Canto X, é a relação do Guesa com a
mulher que se apresenta em diversas fases sob diversos aspetos.
A Mulher Americana nO Guesa
Eu divido o Canto X em 26 quadros ou cenas, o que
corresponde mais ou menos à divisão das estrofes em segmentos,
dos quais só 8 não contêm alguma referência à
mulher americana.
I. Mulher
Símbolo
O canto começa e termina com a mulher como
símbolo. América é designada a
filha de Deus e a espartana gentil da
liberdade, é a
Mãe formosa que abre os
braços aos imigrantes vindos a Nova Iorque:
| Vinde! a filha do Deus não vos despreza. | | | | -E forma-se a corrente em Castle-Garden, | | | | ... | | | | Sede bemvindos! há lugar p'ra todos | | | | E lar e luz e liberdade e Deus.- | | | | E a cada filho em dor, miséria e
apodos, | | | | Abre a formosa Mãe os braços
seus! | | | | A Espartana gentil! da liberdade | | | | Amostra os horizontes aos escravos. | | |
|
No fim do canto, a musa americana está de luto por
causa da morte de duas figuras importantes da literatura norte-americana, o
poeta Henry Wadsworth Longfellow, e o filósofo Ralph Waldo Emerson,
ambos em 1882:
| Está de luto la musa
americana | | | | Pelo pai da poesia... | | | | ... | | | | A Longfellow
farewell!
prostrado
roble, | | | | ... | | | | Segue ao Segue. ao Poeta o
Filósofo... | | |
|
II. Visão Positiva da
Jovem Americana
Existem várias referências genéricas
à beleza e saúde dos jovens que têm o ar livre para
respirar neste país democrático. O segundo quadro do canto
descreve uma parada que comemora o fim da Guerra Civil; o feriado chama-se
Decoration Day, e os
jovens participam com entusiasmo (187-88). Outra celebração que o
poeta descreve é
May Day, o primeiro de
maio, com a sua rainha e corte de moças:
| O infantil povo, luz na face e rosas, | | | | Anda a rainha de maio coroando; | | | | Leves frechas pelo ar voam, as
moças | | | | O arco, amazóneo o garbo,
recurvando | | |
|
Também faz referência ao atletismo em que
participam moços e moças, nomeadamente, em regatas:
| Exercita-se a atleta mocidade- | | | | As virgens e os donzeis concorrem, luctam, | | | | E das parelhas à velocidade | | | | Ou da leda regata, ao prémio exultam! | | |
|
Uma cena ocorre na escola onde estuda a filha do poeta, o
Colégio do Sagrado Coração em Manhattanville. Ficaram
registrados os nomes das suas companheiras:
| Pelos recintos | | | | Dos
parks e os jardins
de
Sacred-Heart | | | | Derrama-se o dilúvio de
jacintos- | | | | Oh minha filha, venho ver-te e dar-te | | | | A minha bênção! como estás
tão linda! | | | | Brinca- esperam-te Anita, Emily, Cora, | | | | Mamie Dévlin, Marie,
Néllie... | | |
|
O poeta aprecia os bons ensinamentos das dedicadas
freiras:
| Aqui são mães de amor as virgens
santas, | | | | As esposas do céu, que em luz
educam | | | | As filhas dos mortaes. Oh! como
encantas | | | | Toda minha alma ao ver-te em puro amor! | | |
|
III.
Prostituição e o Sub-mundo Urbano; Aberrações
Sociais
No meio da paz e contentamento, Sousândrade registra
que com o pôr do sol, as jovens que
—550→
aparecem vêm
transformar os parques e as avenidas principais num mercado de
prostituição. Devemos recordar que a visão da prostituta
que o poeta apresenta é cheia de clichês, uma visão
romântica, até melodramática. Sousândrade é o
advogado dela, quer crer que é uma mulher vitimizada pela sociedade e
simpatiza com ela. Este juízo está conforme a mentalidade de sua
época. Não devemos esquecer que esta é a época da
peça,
A Dama das Camélias, por Dumas
fils, da ópera,
La Traviata, de Verdi e do romance
Lucíola, de José de
Alencar. Embora a lógica ditasse a injustiça do argumento, e os
ensinamentos religiosos proibissem, existia um duplo padrão: ter
aventuras sexuais era aceitável no homem, mas não na mulher.
O quadro 4 principia no parque ao findar o dia. Admirando a
beleza das donzelas que por ali passavam, o poeta não pode deixar de
admirar a mulher americana:
| Eu estou assentado em Central-Park | | | | Ao fim do dia -pela relva o sol: | | | | ... | | | | Como o amor à mulher transforma em
astro! | | | | -E alevantando a fronte a Americana | | | | Resplandecem-lhe os auro-flavos rolos, | | | | E passa a livre caçadora Diana. | | |
|
O poeta confessa que tem acompanhado algumas mulheres como
esta «nocturna mariposa» aos salões doirados de Nova Iorque,
nomeadamente ao Hoffman House, um dos hotéis mais luxuosos da
cidade:
| Nas noites suas de Hoffman, com ela... | | | | Nos doirados salões de
Nova-York, |
100 | | | Nas praças os
meetings, onde
vela | | | | ... | | | | Das azas das noturnas mariposas | | | | Pendido o
maltrajado Guesa-Errante. | | |
|
Sousândrade admite que tem conhecido prostitutas com
grande virtude e compaixão humana, características que faltam em
algumas mulheres virtuosas, e identifica os dois consórcios de nome:
| [O Guesal Viu... n'uma prostituta a
mói piedade; | | | | E a mór prostituição
viu... n'uma virgem. | | | | Utie -Hortense- a adúltera ao paganismo | | | | De Venus melhorara, quanto a noiva | | | | Fazendo o
yankee o dito
cristianismo. | | |
|
Como segundo exemplo do sub-mundo urbano, no quadro 16, o
poeta ficou indignado com o orgulho da prostituta Fiskie, e maldisse a
sociedade que a levou à cidade e à ruina:
| Oh! quanto é doloroso, à divindade | | | | Livre, a prostituição,
proud e
louça! | | | | ... | | | | «Maldita a sociedade que vos leva | | | | Para o golfão dos centros populosos, | | | | ... | | | | Sendo a 'Venus' vulgar da mascarada | | | | E das formas co'o vício ao
coração... | | |
|
Reconhece, porém, que ela não tem
condições para escapar desta vida. Entende também, que a
tentação da carne é poderosa e Fiske lhe atrai e repele ao
mesmo tempo:
| «Voar? voar?... a vós faltam
as azas! | | | | Ursa d'arte a 'sangrar'... 'Fogo e
amargura | | | | Há no encanto, nas espumosas
gazas | | | | Candente carne -amai
a formosura'! | | | | ... | | | | Esta é Fiskie -mulher d'esses que vieram | | | | Ao hóspede divino rir, roubar- | | |
|
No episódio do Inferno de Wall Street, que chamo o
quadro 19, há muitas referências a aberrações
sociais e sexuais que adiante consideraremos. No quadro 20, que vem
imediatamente depois do Inferno, Sousândrade faz uma última
referência à prostituta. No Inferno, quem é adorado
é o «deus material». A prostituta, como todo o mundo,
trabalha pelo ouro:
| Por ele prostitue-se... a prostituta; | | | | Afina-se por ele e mais, mais bela, | | | | A bela e formosíssima impoluta. | | |
|
IV. Admoestações
aos Americanos e ao Mundo em Geral
Depois de observar tanta degradação,
Sousândrade apresenta a sua solução. Primeiramente pergunta
de onde vem este mal social numa República livre como os EUA. A resposta
surpreende um pouco porque quem tem a culpa não é o homem
luxurioso («Não é o homem que à mulher
deprava», 197), nem as instituições
sócio-políticas, mas as próprias vítimas, as
mulheres:
| Mas, donde vem o mal, quando a República | | | | Bem cumpre seu dever -a escola, o templo? | | | | - Talvez do intérprete, ou da menos
púdica | | | | Deusa do lar... | | |
|
Embora a responsabilidade de manter um bom exemplo para os
filhos recaia sobre ambos, o marido e a mulher:
| Não rainhas das modas, reis dos bancos, | | | | Mães da vaidade e paes da
ladroeira; | | | | ... | | | | E o homem que não foi o irmão
das belas, | | | | Prepara-se à conquista das
Sabinas | | | | A oiro; não às ciências
das estrelas- | | | | E eis o divórcio amor por
esterlinas. | | |
|
A segunda vez que o poeta aconselha à mulher aparece
no quadro 21. Suas palavras destinam-se
—551→
às «Damas da
grandeza» a quem sugere que tomem a peito os problemas dos pobres,
estendendo os seus serviços voluntariamente:
| Ide às escolas, Damas da grandeza, | | | | Superintendei, sede as condutoras | | | | Voluntárias dos filhos da
pobreza, | | | | Enquanto as mães trabalham! | | | | ... dos pobres | | | | Fazei, dos filhos seus, amigos vossos | | |
|
V. Damas da Grandeza
Parece ser o caso que Sousândrade observou um pouco a
vida das damas da alta classe, e o que não presenciou terá
imaginado. Em todo caso, refere-se a dois episódios que envolvem a
mulher social ou «nobre». O primeiro aparece no quadro 12, e
envolve uma mulher denominada Hela, com quem terá assistido um banquete
e baile em Tarrytown:
| Tarrytown a tão quieta. Reuniu-se | | | | A flor da mocidade e da beleza | | | | No alcantilado hotel. Tristonho aí
viu-se | | | | E não de dor, mas de ventura, o
Guesa. | | | | E nos solariums beijam-se os amantes; | | | | ... | | | | E a dança aérea às
músicas vibrantes | | | | No espeloso salão tece-se e
agita. | | | | Donosa Hela dançava, coleiando | | |
|
O segundo episódio que envolve a classe alta ocorre
no quadro 18 e serve de transição e contraste com o Inferno que
lhe segue imediatamente. Se não juntou dois momentos, a cena
começa 31 de dezembro no aniversário duma «lady nobre». Os convidados parecem ter
ficado a noite, pois, o dia seguinte é identificado como o primeiro dia
do ano e todos se dirigem aos lagos gelados para patinarem. Além da
«lady», a
família consiste do pai e duma bela
«miss».
| No dia de anos bons a
lady nobre, | | | | Recamados
drawingrooms
deslumbrantes | | | | As recepções, radiosa de
brilhantes, | | | | Deusa o colo alvo e cândido
descobre | | | | A que adornos desmaiam. Sumptuosos, | | | | Bufetes e o
bouquet. Sorrindo a
miss | | | | No adorável serviço de
meiguice. | | |
|
Sousândrade parece ter ficado mais uma noite, pois
registra que a família lê a Bíblia e canta hinos. Mas, ao
dia seguinte, cedo, há uma curiosa transformação, pois
aparece o astuto
Yankee que abre a
cidade de Nova Iorque ao negócio e os seus correligionários
negativos: o roubo, o divórcio e o assassínio:
| A Bíblia da família à noite
é lida; | | | | Aos sons do piano os hinos
entoados, | | | | ... | | | | -Mas, no outro dia cedo, a praça, o
stock, | | | | Sempre acesas cráteras do
negócio, | | | | O assassínio, o audaz roubo, o
divórcio, | | | | Ao
smart Yankee astuto, abre
New York. | | |
|
VI. A Mulher Americana no
Inferno de Wall Street
Como é de esperar, Sousândrade no Inferno entra
em detalhes, não só da sua participação com a
mulher, mas sobretudo, apresenta a mulher americana sob condições
extremamente negativas.
1. Atividades da
cortesã, prostituta, e o submundo urbano
Vou apenas enumerar algumas referências e depois dar
uns exemplos mais representativos:
| Alcoviteiros (231) | Abortos
(258) |
| Madama (232) | Vivisecções
(249) |
| Bordel (233) | Violações
(234) |
| Cortesãs (244) | Pederastia
(235) |
| Prostitutas (253) | Alcoolismo
(234) |
| Pornografia (249) | |
Existe uma série de três estrofes interligadas,
porém separadas umas das outras no poema. Trata-se das jovens
«puras» treinadas na religião, que começam a sua
queda trágica bebendo cerveja:
|
(Pretty girls
com a BIBLIA debaixo do braço:)
| -Testamento Antigo tem tudo! | | | | O Novo quer santas de pau... | | | | Co'o
Book jubilante | | | | Adelante, | | | | City bell's, ao
lager anyhow! | | |
|
Na segunda estrofe, uma das
Pretty girls é encontrada
moribunda num bosque em Newark, New Jersey, estupefatadamente bêbada, e
tendo sido violada por 23 homens:
|
(Pretty-girl
moribunda em NEWARK 'stupefied with liquor nos
bosques e visitada por vinte e três' sátiros:)
| -Hui! Legião, Venus-Pandemos! | | | | Picnic, O! Cristãos de
Belial! | | | | Paleontologia! | | | | Heresia | | | | Preadã! Gábaa protobestial! | | |
|
É interessante notar que na versão de 1877,
esta
Pretty girl apareceu
originalmente como
free love, isto é, uma
adepta à doutrina do amor livre, ironia trágica, pois a
história acaba mal.70 Na
última estrofe da pequena: série, a moça
—552→
expira:
|
(NEWARK
'dosed'-girl,
aux bois dormante,
expirando:)
|
71
Além do submundo da prostituição, o
Inferno faz referências a outras (para a época)
aberrações socias que envolvem a mulher, todas interligadas: a
doutrina de
free love (amor livre para a
mulher); a poligamia entre os mórmons e no contexto Muçulmano;
direitos da mulher e a mulher candidata à presidência dos EUA; e,
como exemplo de hipocrisia e decadência, o escândalo sexual que
causou o processo contra o suposto adultério entre Tilton e Beecher,
ambos da classe alta, e ele, um dos mais famosos pregadores e líderes
religiosos da nação.
2.
Free love
O movimento
free love teve como principais
divulgadoras as irmãs Victoria e Tennessee Claflin. Como feministas que
eram, opunham-se a qualquer padrão duplo que favorecesse o homem e
limitasse a mulher. No campo da moral, se a sociedade «aceita» que
o homem tenha aventuras sexuais antes do casamento e extra-maritais depois,
então o mesmo direito deveria ser concedido à mulher. Elas
mantinham que o direito de amar quem e quando se quisesse é reservado
à pessoa e não às regras e convenções
estabelecidas pela sociedade, a igreja ou o governo.
A designação
free love(s) aparece seis vezes
no Inferno. Sendo que a idéia é anátema à
noção de fidelidade na mulher no casamento, e por conseguinte,
cria problemas para as relações normais entre o casal dentro do
lar ideal que Sousândrade tanto anelava e pregava, devemos considerar que
sua conotação é sempre negativa, embora tenha o seu
aspecto jocoso e bizarro.
Free love aparece primeiro como
propostas de amor contidas nas cartas recebidas pelo Duque Alexis da
Rússia, quando de viagem pelos EUA:
|
(DUQUE ALEXIS recebendo
freeloves missivas; BRIGHAM:)
|
A atitude contida na expressão
free love veio a simbolizar uma
mulher devassa, mesmo luxuriosa, partidária em orgias sexuais, e como
tal,
free love forma parte do mal
geral contra o qual os hinos do pregador Ira D. Sankey protestam:
|
(Hinos de SANKEY chegando pelo telefone a
STEINWAY HALL:)
| -O Lord! God! Almight
Policeman! | | | | O mundo é ladrão, beberrão, | | | | Burglar e o vil vândalo | | | | Escândalo | | | | Freelove... e 'i vem tudo ao
sermão! | | |
|
Free love aparece como
característica negativa de mulheres americanas (não é
menos negativa a designação para o homem brasileiro,
porém) «-São
freeloves Ursas do Norte; /
Ped'rasta o Cruzeiro do Sul» (235), e serve também para designar
adeptas ao movimento, como em
Freeloves «meditando
nas... belas artes» (243), ou «Freeloves passando a votar em seus
maridos:»(250).
3.
Poligamia
Outra prática estranha para Sousândrade no meio
americano é a poligamia entre os mórmons. O poeta veio a conhecer
esta instituição através de reportagens nos jornais, quase
que exclusivamente negativas. A poligamia foi instituída por
revelação ao profeta da religião, Joseph Smith, em 1831 em
Ohio, e praticada clandestinamente pelos fiéis sucessivamente em
Missouri, Illinois e abertamente em Utah depois de 1851. A primeira lei contra
o sistema, que admitia uma pluralidade de esposas para um só marido,
aparece em 1862. Esta, porém, só é reconhecida como
constitucional em 1879, e é a partir do ano seguinte que o governo
federal começa a processar os infratores.
Embora não usasse a palavra poligamia, nessa
época, referências a Brigham Young (o segundo
profeta-líder) ou a Mormon eram imediatamente identificadas coma
doutrina mais conhecida da religião.72 Já vimos o começo da terceira
referência à igreja Mórmon, vejamos a estrofe completa, que
inclui uma passagem nitidamente feminina:
|
(DUQUE ALEXIS recebendo
freeloves missivas;
BRIGHAM:)
| -De quantas cabeças se forma | | | | Um grande rebanho mormão? | | | | =De ovelha bonita, | | | | Levita, | | | | Por vezes s'inverte a equação. | | |
|
O Duque Alexis pergunta a Brigham Young, depois de receber
propostas das
free loves, qual deveria ser o
tamanho de uma família polígama mórmon. A resposta
é talvez uma alusão a sua décima-nona esposa, Ann Eliza
Webb Young, que em 18 73, iniciou um processo de divórcio
—553→
contra o profeta Brigham, um novo Moisés (da tribo de Levi) a conduzir
seu povo no deserto de Utah. Ann se tornou o centro de muitas
atenções por todo o país, proferindo conferências
acerca de sua vida num harém mórmon.73
A primeira alusão à poligamia, porém,
não é àquela praticada pelos mórmons, e sim pelos
maometanos, cujo livro sagrado, o Alcorão, dá ao homem direito a
ter até quatro esposas.
|
(Ambos em LIEDERKRANZ folgando à
confissão:)
| -Abracadabra! Abracadabra! | | | | Mahomed melhor que Jesus | | | | Entende a mulher | | | | E não quer | | | | Nos céus quem da terra é a cruz! | | |
|
A estrofe segue após outra referência direta ao
caso Tilton-Beecher. Este, sendo representante da doutrina cristã, ao
cometer o suposto adultério, estaria seguindo mais às doutrinas
de Maomé. A diferença do povo muçulmano (e do povo de
Israel, diga-se de passagem, cujos profetas praticavam a poligamia, entre eles
Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Davi e Solomão, todos
referidos no Inferno), Jesus, ou seja, o cristianismo tradicional, não
admitia tal prática.
Estará Sousândrade dizendo que a poligamia
é a preferida ordem social entre os sexos, coisa que Maomé
entendia e Jesus não? Ou estará dizendo que a poligamia e o
cristianismo se excluem mutuamente, e portanto o Reverendo Beecher (e por
extensão os mórmons) não pode ser um bom
cristão?74 Eu acho que
Sousândrade optaria pelas duas possibilidades. Ele, embora se declarasse
bom cristão, facilmente justificava as múltiplas aventuras
amorosas que teve antes e durante o casamento.75 Em outra passagem, o poeta se refere a Huris
(plural de Huri, a bela mulher virgem prometida aos que alcançam o
paraíso de Maomé) numa curiosa mistura com Sansão, o
israelita, e Dalila, sua cortesã filistina que o traiu (faz lembrar a
história do Guesa, traído também pela mulher amada):
|
(Gentlemen
[pelotiqueiros] na catástrofe; HURIS lenços-verdes enxugando os
olhos-mortos de SANSÃO:)
| -Do Guesa a Farsália explorada, | | | | Num 'corner' espremido o
autor, | | | | Dá oirão! == A musa | | | | Cafusa | | | | Dalila traiu-o... que horror! | | |
|
4.
Direitos da Mulher
O direito da mulher aparece, não como ponto positivo
no Inferno como apareceu em outra passagem do canto X,76 mas como
assunto para ser ridicularizado, porque é uma das premissas da candidata
à presidência dos EUA do Partido da Igualdade de Direitos,
Victoria Woodhull, que também advoga o movimento
free love, e reclama para si o
poder da comunicação com os mortos:
|
(V. WOODHULL no mundo dos
espíritos:)
| -Napoleão! Grand'Catarina! | | | | Trema a terra à cris-sensação! | | | | Demóstenes! Grande | | | | Alexandre! | | | | Woman rights,
hipódromo e pão! | | |
|
Victoria Claflin casou-se com Canning Woodhull em 1853,
divorciando-se dele em 1864. Ficou com o nome, porém, e, em 1872, foi
«Candidata à presidência americana» (237). Em 1870,
ela com sua irmã fundaram um semanário sensacionalista com o nome
das duas, o
Woodhull and Claflin Weekly.
5.
O Caso Tilton-Beecher
Foi o jornal de Woodhull e Claflin que primeiro noticiou o
alegado adultério entre Alice Tilton, esposa de Theodore Tilton, e Henry
Ward Beecher. O escândalo aparece logo na sétima estrofe do
Inferno e segue em mais cinco:
|
(Mob violentada:)
| -Mistress Tilton, Sir Grant, Sir Tweed, | | | | Adultério, realeza, ladrão, | | | | Em masc'ras nós (rostos | | | | Compostos) | | | | Que dancem à eterna
Linch Law! | | |
|
O poeta põe em relevo três episódios
controversos e rumorosos da década. Em geral as turbas é que
atacam. Mas na introdução parentética a turba é
apresentada -no caso, o público norte-americano- como a assaltada em
lugar de assaltante. Tilton, Grant e Tweed são introduzidos com
títulos apropriados e seguidos imediatamente de
caracterizações de uma só palavra. A Sra. Alice Tilton,
esposa do jornalista e redator-chefe do
Independent, e o famoso evangelista
Beecher, tinham sido acusados de adultério pelo marido
«traído» e processados.
É interessante notar que a única mulher
respeitada
—554→
e respeitável em todo o episódio do
Inferno é a Harriet Beecher Stowe, irmã do reverendo Beecher e
autora do famoso
Uncle Tom's Cabin (e dum outro romance
baseado na vida das irmãs Claflin). Assim mesmo, ela é atingida
pelo lodo do Inferno, pois Sousândrade faz alusão à
acusação de relações incestuosas que ela fez contra
Byron. O Tilton e o Beecher, além de amigos, tinham sido colegas na
redação do jornal:
|
(BEECHER-STOWE e H. BEECHER:)
| -Mano Laz'rus, tenho remorsos | | | | Da pedra que em Byron lancei... | | | | ==Caiu em mim, mana |
210 | | | Cigana! | | | | Ele, à glória; eu, fora da lei! | | |
|
Conclusão
Temos visto que em geral, Sousândrade apresenta uma
visão bastante negativa da mulher americana. Pormenoriza as suas falhas,
especialmente as suas falhas morais (nomeadamente os excessos sexuais).
Entendemos que o seu intuito era de avisar e acautelar à jovem
nação, prevenindo-lhe dos males sociais que porventura lhe
poderão destruir. O interessante disto tudo é que é mais
do que evidente que o amor ilícito atrai a Sousândrade talvez
até mais do que lhe repugne.
Sousândrade quis o Inferno como contraste ao amor
divino, dando exemplos negativos. Mas o seu interesse lascivo é mais do
que patente, pois ele se identifica de nome no Inferno, como se estivesse no
meio da sordidez. E não apenas como observador desinteressado ou
jornalista do sensacional, mas como participante ativo das várias
atividades. Começa por nos revelar a maneira que usou para entrar em
contato com as moças: foi à igreja da Graça. E quando o
encontro não dava certo (ou porque a moça só queria o
flirt, ou porque exigia muito
dinheiro) e queria xingá-la -ou se simplesmente queria
encontrá-la outra vez e não conhecia nem o nome nem o seu
endereço- fez como há anos faz o americano e apela ao jornal
escrevendo e publicando o
Personal, a notícia
pessoal:
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(O GUESA escrevendo
personals no HERALD e
consultando as SIBILAS de NEW-YORK:)
| -Young-Lady da Quinta
Avenida, | | | | Celestialmente a flirtar | | | | Na igreja da Graça... |
215 | | | -Tal caça | | | | Só mata-te
almighty
dollár. | | |
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Numa estrofe, o autor mostra a estreita
ligação que existia entre ele, Dom Maranhão, e a Miss
Manhattan (252-53). Há, inclusive, referência ao sacrifício
ritual e a estirpação do coração do Guesa: mas
não vem às mãos dos xeques sacerdotes, e sim das muitas
«doutoras» que tentaram aliviar a dor que sente por falta da
verdadeira amante celestial:
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(Sentimentais
doutoras carbonisando o
coração do GUESA:)
| -Que escorra sangue, não veneno... | | | | ==Um 'morango'! -Oh... todo oiro e dor... | | | | ==Fossilpetrifique! | | | | -Ai... não fique | | | | Sem glória o Inca e o astro sem flor... | | |
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Já vimos que era o Guesa quem estava com Utie e
Hortense no hotel Hoffman (189), o Guesa com Hela em Tarrytown (213), o Guesa
com Fiskie (228). Falta mencionar o Guesa convidando a Augusta para descer o
Harlem:
| Vem descer comigo o Harlem | | | | Nestes doirados vapores, | | | | ... | | | | Dos dias do nosso amor! | | | | Corre, Augusta! corre, Augusta! | | |
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A Carrie de Murray-Hill, a vedete de Vassar que encanta os
alunos do Cooper Instituto:
| Quando de Murray-Hill vens na colina, | | | | Os príncipes, os ricos mercadores, | | | | Adoram a serénide divina, | | | | Que é de Cooper e Vássar os amores | | |
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Ou a Lulu, que aparece no fim do Inferno («Meiga Lulu,
/ Choras e tu» 260) e também em
Liras Perdidas num poema intitulado
«Sea Shore Breakfast», datado de 1882, e cujos versos iniciais
são:
| Lulu linda, tu mandas que espumem | | | | Nosso copos de vinho doirado? | | |
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Creio ter demonstrado que Sousândrade passou muito
tempo em companhia da mulher americana. Sendo assim, estava em ótima
posição para descrever e caracterizá-la. Infelizmente,
não soube aproveitara oportunidade, pois a sua experiência se
limitou quase que exclusivamente às mulheres de má vida.
Não procurou conversar com a mulher educada (esteve perto de Vassar e de
outras instituições americanas para o ensino superior da mulher),
não entrou em diálogo com a mulher política (esta era a
época da luta para o sufrágio feminino e do movimento de
temperança contra o álcool), não
—555→
freqüentou as exibições artísticas, os museus, os
concertos, os salões literários ou o teatro onde poderia ter
presenciado a maestria de muitas artistas. Todas elas, a mulher educada, a
mulher política, a mulher artística poderiam ter servido como
exemplos ou modelos, para a nova geração de moças.
Não o fez. Também não descreveu a mulher ama de casa, nem
a mulher que trabalha fora, o que surpreende, pois é o momento do
influxo das mulheres nas fábricas, sobretudo, as mulheres imigrantes.
Mas Sousândrade não estava escrevendo um documentário:
tinha um propósito específico e esse propósito demandava o
uso de exemplos negativos que demonstrassem o que podia acontecer ainda no seio
da liberdade quando os homens resistem às suas responsabilidades. Para
nós leitores de cem anos depois, dá-nos a oportunidade de
conhecer mais pormenorizadamente um pouco das condições e dos
problemas que enfrentava a mulher americana de classe baixa na sua luta de
sobrevivência no Inferno que era Nova Iorque. Assim sendo,
Sousândrade nos apresenta uma visão interessante da mulher
americana, mas incompleta e negativa.
OBRAS CITADAS
Campos, Augusto e Haroldo de.
Revisão de Sousândrade.
São Paulo, 1964.
Guimarães, Argeu.
D. Pedro II nos Estados Unidos. Rio de
Janeiro, 1961.
Roberts, B. H.
A Comprehensive History of The Church of
Jesus Christ of Latter-day Saints. Provo: Brigham Young UP, 1965.
Sousândrade, Joaquim de.
O Guesa. London, s. d.
Williams, Frederick G. e Jomar
Moraes.
Sousândrade: Inéditos.
São Luís: Departamento de Cultura do Estado, 1970.
Williams, Frederick G.
Sousândrade: Vida e Obra.
São Luís, 1976.
Hispania [Publicaciones periódicas]. Volume 74, Number 3, September 1991
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