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A Literatura de Cordel: Antes e Agora83
Mark J. Curran
Arizona State
University
As seguintes páginas oferecem uma visão
panorâmica do cordel brasileiro: o que era e o que é hoje em dia.
O cordel já passou pela fase de produção ativa em grande
escala nacional, embora exista agora em determinadas localidades em escala
menor. Fica hoje em dia, principalmente como acervo, como documento de cem anos
de tradição literária popular no Brasil. Como literatura
popular em verso e jornalismo popular em verso, o folheto de feira era,
é, e sempre será «romance» e «jornal do
povo».
A literatura de cordel do Brasil é basicamente uma
literatura híbrida de formas populares e folclóricas. Por um
lado, está escrita com a autoria indicada, impressa em folhetos de papel
frágil e barato e vendida nas praças, feiras e esquinas de rua de
muitas cidades e vilas do Brasil. Por outro lado, suas raízes são
também folclóricas: muitos de seus temas, suas formas
métricas, e, sua apresentação na feira vêm da
tradição oral do Nordeste do Brasil. Dessa forma, o poeta popular
de feira tem muito em comum com o cantador do Nordeste do Brasil, o poeta
«oral» que compõe e canta versos improvisados na feira em
forma de desafio, fenômeno velhíssimo da tradição
poética ocidental.
A literatura de cordel no Brasil deve ter existido em forma
embriônica e em pequena escala desde os séculos XVI e XVII com as
folhas volantes trazidas pelos colonizadores portugueses. Mas sua forma
definitiva brasileira realmente data do fim do século XIX no Nordeste do
País. Entre os primeiros livrinhos existem os que foram importados pela
Livraria Garnier no Rio de Janeiro. As histórias populares que esses
livrinhos continham, quase sempre em prosa, levaram-se ao Nordeste onde
lançaram raízes, cresceram e se converteram no que viria a ser
uma forte tradição nordestina e brasileira.
Estes livrinhos em prosa foram vertidos em poesia, quase
sempre na forma de estrofes de seis ou sete versos de oito sílabas com
rima abcbdb ou ababccb consoante. O
corpus de assuntos e temas destas
histórias vem da tradição popular ibérica
(principalmente da portuguesa, mas, também da espanhola) e de outras
fontes européias e até orientais. Logo os temas foram adaptados,
reformados e até substituídos por retratos da vida brasileira e a
realidade nordestina (Barroso). Mas, o bonito e o encantador da literatura de
cordel brasileira é que ainda hoje, nos fins do século XX, sua
temática tradicional continua viva no Brasil, isto apesar de todas as
pressões da vida moderna (Luyten; Slater,
Literatura de Cordel; Curran,
Reflections).
O termo
literatura de cordel é
relativamente novo no Brasil, sendo produto dos estudiosos do tema que basearam
seu uso na tradição e terminologia de um fenômeno ancestral
em Portugal. Luís da Câmara Cascudo, mestre dos folcloristas
brasileiros (e orientador nosso no Brasil nos anos 60), atribui em
Cinco Livros do Povo o nome à
literatura de cordel portuguesa que se vendia exposta em cordeis ou barbantes,
também conhecida como
literatura dos cegos (1953). Mas entre as
pessoas que lêem e compram os livros desta literatura popular no Brasil
existem vários outros nomes, tais como: folhetos de feira, folhetos,
histórias, abecês, e, na época áurea do cordel, os
arrecifes (refere-se à produção do cordel na cidade de
Recife, estado de Pernambuco, pelo poeta e editor João Martins de
Ataíde dos anos 1920 a 1950).
É uma tarefa difícil, se não
impossível, identificar as origens européias do
corpus original do cordel.
Há vários estudos dos mestres que tratam o assunto, de novo
Gustavo Barroso e Luís da Câmara Cascudo, aos quais se juntam os
novos (Diégues Júnior; Slater,
Stories). Podemos afirmar, entretanto,
que as raízes do cordel brasileiro estão muito mais ligadas
à literatura popular escrita do que à tradição oral
(ou ainda escrita)
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do
romanceiro ibérico, embora Ariano
Suassuna, aficionado, estudioso e recriador do assunto no Brasil, goste de
colocar o nome
romanceiro popular nordestino ao cordel
(Suassuna). Assim sendo, é preciso familiarizar-se com a
tradição dos
chapbooks ou
broadsides na Inglaterra, da
littérature de colportage
na França,
dos pliegos sueltos e
literatura de cordel
espanhóis, e, finalmente, do que se chama a
literatura dos cegos dos
séculos XVI e XVII de Portugal mesmo. Todas estas literaturas populares,
até recentemente pouco apreciadas pelos letrados da
tradição erudita ocidental, têm suas semelhanças e
diferenças, e, sabe-se que muitas delas foram trazidas ao Novo Mundo.
Neste continente estas literaturas existiam em lugares isolados até que
folcloristas no século XX começaram a despertar interesse no
fenômeno (Mendoza; Simmons). Mas, é precisamente o cordel
brasileiro que sobreviveu de maneira espetacular e importante na vida cultural
brasileira. Sem dúvida alguma, os leitores que conhecem as
payadas argentinas, os
corridos mexicanos, e,
especialmente, o
corpus folclórico de
histórias populares de vários países que tratam de fadas,
príncipes e princesas, monstros, santos e seres nunca vistos,
apreciarão esta tradição tão enraizada na vida
popular nordestina.
Ninguém sabe com certeza quem escreveu o primeiro
folheto de cordel brasileiro, mas há versos esporádicos em
folhetos da Guerra de Canudos de 1896 (Calasans). Pouco depois o poeta
paraibano Silvino Pirauá Lima publicou seus versos em forma de cordel.
Mas, o primeiro grande nome do cordel brasileiro sendo ainda hoje o mais
conhecido, é Leandro Gomes de Barros. Gomes de Barros escreveu e
publicou suas obras na região de Recife, capital de Pernambuco, desde
fins do século XIX até a sua morte em 1918. (Vale a pena notar
que Leandro Gomes de Barros era do estado da Paraíba, de onde vinha a
maior parte das grandes figuras da poesia folclórica oral, isto
é, dos cantadores de feira do Nordeste). Parece que ele escreveu e
publicou quase mil histórias durante sua carreira de mais de vinte anos
de poeta popular. Várias destas se consideram
«clássicos» do gênero (Cascudo,
Cinco Livros). L. G. de Barros ficou
conhecido especialmente pelo sabor jocoso e satírico de seus versos
sobre a realidade política, econômica e social brasileira. Ao
mesmo tempo ele era criador de maravilhosos
romances tradicionais, quer dizer, poemas
compridos de temática tradicional européia-brasileira.
Logo depois do fim da carreira de Leandro Gomes de Barros na
década de 20, com a fama e visibilidade do cordel sempre em estado de
crescimento, a «carreira» de poeta e editor de cordel se
«profissionalizou». Um dos maiores «empresários»
do cordel foi o paraibano João Martins de Ataíde. Ele publicou em
Recife centenas de títulos que foram vendidos em todo o Nordeste e Norte
do Brasil. Ele foi seguido por outros poetas-editores como José Bernardo
da Silva de Juazeiro (Ceará), Manoel Camilo dos Santos de Guarabira
(Paraíba), João José da Silva de Recife, Manoel D'Almeida
Filho de Aracaju (Sergipe), Cuíca de Santo Amaro e Rodolfo Coelho
Cavalcante de Salvador da Bahia, e muitos outros. Assim, a poesia de cordel se
compunha e publicava em todos os estados do Nordeste brasileiro.
Com os movimentos migratórios internos no Brasil
até fins do século XIX e no começo do século XX, a
literatura popular do Nordeste também se mudava com os poetas que
acompanhavam esta fase da vida brasileira. Com o
boom da borracha no Amazonas no
começo do século XX, com as ondas de migração
à zona agrícola do riquíssimo estado sulista de São
Paulo e às cidades industriais de São Paulo e o Rio de Janeiro,
e, coma construção de Brasiliano centro do país nos anos
50, o cordel também aumentava seu mercado. Quando iniciamos a nossa
pesquisa de cordel nos anos 60 para recolher folhetos e entrevistar poetas, foi
preciso viajar desde São Paulo e o Rio no Centro-Sul, pelo Vale do Rio
São Francisco em Minas Gerais e pelo sertão da Bahia, por todo o
Nordeste (o berço do cordel) até o Amazonas.
Os anos 70 e 80 trouxeram novas mudanças para o
país e também para os autores, editores e público do
cordel. Os inimigos do povo -a inflação monetária, a
resultante carestia de vida, em fim, a crise econômica do país-
afetaram seriamente esses humildes senhores que escreviam e publicavam seus
versos, também humildes para serem vendidos a um público modesto.
As vendas do cordel caíram de maneira assustadora. O povo já no
tinha recursos para comprar o folheto ou romance de cordel, cada vez mais caro,
e o poeta humilde já no tinha recursos para imprimir suas
histórias em verso. Além disso, a feira semanal nos povoados e
pequenas cidades do interior do Nordeste (o lugar onde o poeta mais vendia seus
versos) se acabava. Mas, houve também outros fatores: o país se
modernizava, as estradas e os meios de transporte se melhoravam de maneira
surpreendente, o rádio de pilha chegava aos rincões mais
longínquos, e, de
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repente, o televisor colorido
também! Em fim, o Brasil, e especialmente a parte mais pobre do
país (a maior região do público de cordel), enfrentava a
vida difícil do século XX.
De um modo geral, os resultados não foram felizes para
o cordel. O público tradicional sumiu pouco a pouco (por vários
motivos, tanto econômicos como sociais), os mestres do momento
áureo do cordel envelheceram ou morreram, outros por necessidade, foram
obrigados a procurar outros meios de ganhar o pão de cada dia. Como
conseqüência, diminuiu rapidamente. Simultaneamente, um novo
público surgiu nos anos 60, e principalmente na década de 70: os
intelectuais, artistas de vários meios de expressão, estudantes
de classe média, e turistas com uma curiosidade pelo «folclore
brasileiro» (Curran,
Cordel,
Distribution). E com o novo
público, ainda de classe humilde, principalmente de gente modesta,
imigrada a São Paulo e ao Rio -um público já não
homogêneo mas pluralista- o cordel, como é de esperar, tinha que
mudar também. Passou a ser muito popular na feira nordestina da zona
norte do Rio de Janeiro! Um público significante também residia
em São Paulo. A «Meca» do cordel tradicional nordestino, a
cidade do Recife, ficou atrás numa quase total falta de movimento
poético popular. Enquanto ocorria isso, o público tradicional
nordestino, isto é, os compradores de cordel, quase desaparecia. Ainda
pior, o cordel que chegara nos 70 e princípios de 80 a ser algo de moda
para a classe média curiosa do Centro-Sul, já no atraía
como antes.
Chegamos, pois, à situação atual. O
cordel continua esporadicamente no Nordeste, mas, os grandes mestres dos anos
60 morreram: José Bernardo da Silva, Manoel Camilo dos Santos,
Cuíca de Santo Amaro e Rodolfo Coelho Cavalcante, José Soares e
outros não menos importantes. Há, certamente, uns poucos de
renome que continuam, especialmente no sul na feira nordestina do Rio. Existe
ainda um público de raízes nordestinas no Rio e em São
Paulo; porém, estes fazem parte dos novos leitores pouco relacionados
à tradição antiga do cordel nordestino. Existe um
interesse significante na xilogravura popular que o pessoal de cordel usa para
ilustrar a capa dos folhetos. E, talvez o mais interessante de tudo, o povo
ainda aprecia os versos de cordel, tanto as estórias tradicionais quanto
a narração de um grande evento político como a
odisséia de Tancredo Neves e a volta da Democracia ao Brasil em 1985
junto à trágica morte de Tancredo no mesmo ano (Curran,
Brazilian Democratic Dream). Mas,
é a totalidade de quase cem anos de existência, anos de
exuberância, de vitalidade, que fazem do cordel um importante aspecto da
vida cultural popular do Brasil.
Qual é, então, o valor do cordel? Se
consultados, os poetas mesmos dizem que expressa a alma do povo, que diverte,
que informa, que ensina ao seu público. Uma vez o escritor
Orígenes Lessa, aficionado do cordel e um dos maiores patrocinadores dos
pobres poetas, disse que estes versos valiam por sua ingenuidade, seu humor,
suas imagens, linguagem, narração clássica, e, vitalidade
literária (1955). Ao considerarmos os vinte e cinco anos de
convivência com os poetas e a poesia de cordel, concordamos com o mestre
Orígenes, e, mantemos ainda hoje, como no passado, que o cordel serve
(embora com um público reduzido e diferente de hoje em dia) muitos
motivos. Em sua totalidade a poesia de cordel é uma das literaturas
populares de mais sucesso e vitalidade no mundo. Contém um
corpus significante da poesia narrativa
tradicional vinda de Portugal (e Espanha), documenta como nenhum outro
fenômeno as crenças, gostos e preocupações de muitos
brasileiros, diverte ao mesmo povo, e, finalmente, informa e interpreta os
grandes acontecimentos da vida local, nacional e até internacional.
E há mais: o cordel serviu e ainda serve de fonte de
inspiração para a «outra» cultura brasileira, ou
seja, a erudita ou culta do Brasil sofisticado. Escritores (de todos os
gêneros, mas especialmente do romance e do drama), pintores, cineastas e
músicos beberam da fonte destes senhores humildes que acreditam haver
nascidos com «o dom do verso», a lista é comprida e
impressionante. Ariano Suassuna e seus colegas do Teatro Estudantil de
Pernambuco nas décadas de 40 e 50 tinham a meta de colecionar, adaptar
ou recriar o «romanceiro popular do nordeste» a fim de ser
representado em teatro popular às massas. Temos o já
clássico
Auto da Compadecida e a trilogia
Romance da Pedra do Reino como provas.
Jorge Amado, ainda o romancista de mais renome dentro e fora do Brasil, se
inspirou na cultura popular do povo, e,
um (entre muitos) dos elementos populares
que utiliza é a poesia popular (ver
Jubiabá,
Pastores da Noite,
Tenda dos Milagres e especialmente
Tereza Batista Cansada de Guerra).
Até o grande Guimarães Rosa bebeu da fonte do cordel quando
compartiu seus temas em
Grande Sertão: Veredas (Curran,
Influência; Cultura Popular; Jorge
Amado). No teatro chamam a atenção as obras de Dias Gomes,
no cinema as obras de Glauber
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Rocha, e na música umas das
canções de Elba Ramalho, entre outros. Sem falar do interesse
despertado pela gravura em madeira, ou seja, a xilogravura, que enfeita e
ilustra uma grande parte das capas dos livrinhos de cordel e atrai aficionados
do mundo da pintura internacional (Machado, Maranhão).
Como é, pois, esta literatura? Primeiro, vejamos o
folheto em si. É um livrinho ou folheto pequeno impresso em papel barato
de jornal com uma capa de papel de qualidade um pouco melhor, o de embrulho. Na
capa, em cima, está o título do poema narrativo tratado pelo
folheto, por exemplo,
História de Carlos Magno e os Sete
Pares da França. Debaixo do título aparece o nome do autor,
ou às vezes, do «autor-proprietário» que é o
próprio editor que já comprou os direitos de tal história.
Mais importante para as vendas, para atrair o freguês, é a
ilustração que aparece no meio da capa. Existe uma
história comprida e interessante sobre as ilustrações de
capa dos folhetos de cordel, mas sabe-se que no começo se usavam os
próprios tipos de imprensa para enfeitar a capa. Durante o momento
áureo do cordel dos anos 20 até fins dos 50 no Nordeste com uma
grande gráfica (e empresa) no Recife, e, mais tarde em Juazeiro do Norte
(Ceará), lugar de romaria popular para o pessoal de todo o Nordeste do
país, dominava por completo o
clichê de retratos de artistas do
cinema dos Estados Unidos e estampas de postais românticos da
época. No entanto, da década de 60 até o momento atual
domina a xilogravura popular feita por artistas folclóricos ou
populares, sendo esta ainda a forma que agrada mais ao comprador novo no
mercado ou feira.
O folheto mais vendido nos anos 70 e 80 normalmente era de
oito páginas, chamando-se
folheto; durante os dias gloriosos do
cordel, também havia livros de 16 e 32 páginas (também,
mas raramente, de 48 até 60 páginas), isto nos grandes poemas
narrativos chamados
romances. Por motivos principalmente
econômicos e de preferência popular, a produção de
hoje em dia é do livrinho de oito páginas (a grande
exceção sendo da única editora grande do país, a
Editora Luzeiro de São Paulo, com seus livros de romances antigos de 32
páginas). Normalmente a poesia assume forma de estrofes de seis ou sete
versos, chamadas
sextilhas ou
septilhas com rima consoante nos versos
pares (xaxaxa) ou também consoante (abcbddb) nas septilhas. Rara
é a estrofe de dez versos, a décima, forma mais utilizada na
poesia oral ou improvisada dos cantadores. Vale notar aqui que o cordel
original tinha estrofes de quatro versos ou «pés» (como
certos folhetos vindos de Portugal), mas a quadra desapareceu do cordel ao
começo do século XX. Cabe notar também que existe a forma
mnemônica do ABC, poema de vinte e quatro estrofes, cada estrofe
começando com uma letra correlativa do alfabeto português.
A questão de autoria é importante, especialmente
para o cordel antigo quando muitos poetas vendiam os direitos autorais de seus
poemas a editores que livremente tomavam para si a autoria. Freqüentemente
o autor verdadeiro recebia apenas uma pequena quantia de dinheiro, ou, mais
provável, exemplares do folheto impresso. O problema se complicou com a
morte do mestre Leandro Gomes de Barros, pois a viúva dele vendeu uma
parte significante de sua produção para João Martins de
Ataíde. Quando Ataíde morreu uns trinta anos depois, sua
produção tipográfica (a maior do cordel) foi vendida para
um poeta em Juazeiro do Norte, Ceará chamado José Bernardo da
Silva. Este processo se repetiu e, como conseqüência, o senhor Silva
ficou com as melhores obras de Leandro Gomes de Barros, de João Martins
de Ataíde (e de outros autores que ele empregava na sua empresa no
Recife, comprando-lhes os direitos devidos), além de algumas de sua
própria região no Ceará. Mas, graças aos
esforços dos pesquisadores como Sebastião Nunes Batista da
Fundação Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro e Atila de Almeida
e José Alves Sobrinho em Campina Grande, Paraíba, hoje em dia uma
grande parte dos títulos do cordel se conhecem pelos autores verdadeiros
(Batista, Almeida e Sobrinho). Felizmente, uma das características do
folheto de cordel desde o começo do século XX é o uso do
acróstico ou assinatura em verso com a primeira palavra de cada verso da
estrofe final que começa com letras sucessivas do nome do autor,
técnica agora não tão necessária, mas ainda
utilizada.
Outro fator importante e característico da literatura
de cordel brasileira, pelo menos até tempos recentes, era a maneira
pitoresca e viva pela qual se vendia o folheto. Tradicionalmente o cordel se
vendia nos mercados e nas feiras das pequenas cidades do interior do Nordeste e
depois nas cidades do litoral desta parte do país. O mercado, ou seja, a
feira semanal, claro, era instituição basicamente rural que data
pelo menos da Idade Média, veículo não só de
distribuição da produção de pequenos agricultores,
mas, também, ponto alto da vida social das famílias do
interior.
O poeta costumava atrair um público de camponeses
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para escutar seu folheto e, oxalá, comprá-lo e
levá-lo a casa para, talvez, ser lido a outros membros da família
ou ao pessoal da vizinhança. Chegando bem cedinho de manhã ao
mercado ou à feira, o poeta levava seus folhetos em uma pequena mala,
talvez de papel de cartão, ou ainda de couro. Colocava os folhetos em
cima de uma grande folha de papel ou de lona (ou ainda de plástico em
anos mais recentes), ou ainda em cima da mesma mala, ou de um tabuleiro, como
cartas de baralho. Quando aparecia gente suficiente, o poeta anunciava que ia
«cantar» ou talvez declamar tal ou qual poema. Se
«cantado», saía em voz de canto, monótono e
não muito «bonito» para o ouvido pouco acostumado às
toadas dos cantadores do Nordeste (é o conteúdo, o
que diz o folheto, e o ritmo que
são importantes). Alguns vendedores de cordel, poetas ou folheteiros,
declamavam os versos em voz alta. Era uma verdadeira
apresentação, parecida ao desafio do poeta oral, o cantador de
feira, e com parentesco dramático também.
O bom poeta sabia usar a voz e os gestos, o sorriso e as
lágrimas, em fim, as emoções para dramatizar sua
estória. Tinha, como a representação teatral de parentesco
dramático, seus apartes, quando o poeta deixava de declamar ou cantar e
comentava (às vezes de maneira engraçada, empregando palavras de
sentido duplo) episódios da estória. Era comum a esta altura que
o pessoal menos tímido do público também fizesse seus
comentários. Ao chegar ao momento máximo da
performance, ou seja, o
clímax da estória, o poeta era capaz de deixar de narrar, dizendo
que os que quisessem saber o fim da estória, poderiam, comprando um
exemplar do folheto. Este processo todo é descrito em uma pequena
monografia editada no Recife (Curran,
Lit. de Cordel 42-45) e pode ser
observado ainda hoje em algumas feiras e mercados no Brasil, apesar das
mudanças já mencionadas. Apesar de não ser a única
maneira de vender o cordel (outros vendiam pelo correio, distribuiam nos
ônibus ou até nos aviões) continua sendo a mais
interessante. O falecido Rodolfo Coelho Cavalcante de Salvador da Bahia era
mestre na declamação na feira, e José João dos
Santos («Azulão») na feira nordestina no Rio fazia papel
igual para «cantar» o folheto com apartes engenhosos e
divertidos.
Como seria um «típico» autor do cordel?
Temos que distinguir entre o cordel «antigo» de, digamos, seus
princípios até 1950, e os poetas do passado recente, alguns dos
quais que continuam na atualidade. O autor antigo provavelmente era de poucos
estudos formais, talvez um ou dois anos de escola primária. Existem
anedotas sobre poetas analfabetos que pediam a outros letrados que lhes
«pusessem no papel» seus versos orais, mas claro que eram uma
pequena minoria. De raízes rurais nordestinas (uma das
características do cordel tradicional é o sabor da terra com os
costumes da mesma, isto visto nos temas e ainda no léxico utilizados),
raízes católicas e conservadoras, o poeta geralmente via o mundo
de um ponto de vista «folclórico», isto é, de uma
cosmovisão incluindo a luta do Bem e do Mal (tal como descreve
Luís da Câmara Cascudo no seu livro
Cinco Livros do Povo); não era,
ainda, «politizado». Era, na terminologia atual, da classe
dominada, mas, não via o mundo de uma perspectiva conscientizada.
Sofrimento, sim, pobreza e miséria, com certeza; estes os autores bem
conheciam. Podia culpar os ricos, os donos de terra (o que os poetas
folclóricos já fazem há séculos no folclore
mundial), mas ainda não se expressavam em termos de uma luta concreta de
classe.
Somente os poetas principais
viviam do cordel -os
«profissionais», como diria Rodolfo Coelho Cavalcante, recém
falecido Líder dos Poetas (Curran, A
Presença). Os de mais sucesso de
vendas logo descobriam que se pudessem imprimir além de escrever seus
livrinhos, a coisa se melhorava. Leandro Gomes de Barros primeiro, e depois o
grande «empresário de cordel», João Martins de
Ataíde, são casos concretos. Mas, os mais conhecidos do velho
cordel tinham em comum a crença de que, para escrever poesia, era
necessário ter o dom do verso, e isso veio normalmente do berço.
Distinguiam entre a
arte de escrever versos (utilizar as
formas métricas, as estrofes, as sílabas, a rima) e o
talento ou
inspiração do poeta.
Portanto eles ficavam conscientes de seu lugar, seu papel especial como
«poeta do povo». O poeta escrevia com uma visão comum a seus
leitores (e compradores de seus livrinhos!), uma visão essencialmente
moral no sentido do Bem e do Mal como forças motrizes a seus
protagonistas. (Com o passar do tempo, com o contato mais ou menos constante
com pesquisadores do cordel com seus gravadores e perguntas, com o
esforço de «profissionalizar» a «carreira» de
poeta de cordel por líderes como Rodolfo Coelho Cavalcante entre 1955 e
1985, o moderno poeta de cordel chegava a não só acreditar no seu
«papel de poeta», mas a propagá-lo em entrevistas e
declarações à imprensa, até o ponto de convencer-se
a si mesmo de que era um verdadeiro representante
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das massas, uma
voz do povo, e responsável em um sentido um tanto vago até para
ele!)
Ligado à ideia de ser a «voz do povo»
é o fato de que muitos dos poetas principais do cordel brasileiro eram e
ainda são conscientes da tarefa nada fácil de agradar às
massas, ao povo leitor. Muitos admitiam que se não agradecessem com seus
versos, tampouco iriam vender os livrinhos. E, se não vendessem bem,
teriam, por força, de «sair do ramo». Os pesquisadores
recentes debatem bastante o assunto: se o poeta verdadeiramente representa o
seu público, ou, pelo contrário, se é, antes de mais nada,
artista e dono de seu próprio destino poético (Slater,
Stories). O fato é que o poeta que
vive de sua produção nunca se esquece de seu público
porque dele vive e escreve, utilizando temas, assuntos e uma linguagem que sabe
que vão agradar ao público comprador. Pode ser que escreva,
raramente, uma coisa, digamos, um tanto subjetiva, e talvez a publique, mas
é raro, fato que se confirma nas próprias
declarações dos poetas (Slater,
Stories; Curran,
«Literatura de Cordel» Today;
Folk-Popular Literature).
Assim chegamos à questão de quê ou quem
determina se o poema é bom ou se o poeta é um mestre. Os poetas
mesmos, gente fiel a seu público, não dão
importância às pesquisas científicas nem às
abordagens teóricas. Simplesmente e quase unanimemente dizem que o poema
é bom se o povo gosta dele. Não há nada que prove o valor
de uma história mais do que repetidas
«edições» ou tiragens, e Orígenes Lessa conta
casos de mais de um milhão de vendas de um título, como por
exemplo
O Cachorro dos Mortos de Leandro Gomes de
Barros (1955). Outro fator, admitido com certeza entre os poetas
«tradicionais», é que o
bom poeta «não quebra a
métrica». Descobre-se logo na primeira página do folheto se
sabe compor poesia. E o bom poeta sempre se esforça por melhorar-se no
sentido de sua expressão poética total.
Mas, o (d)escrito até este ponto sobre o poeta
tradicional já é «História», material para
arquivo. Sobrevivem poucos deste tipo (pensamos ainda em Minelvino Francisco
Silva, do Sul da Bahia). O que passou a existir, há pouco tempo, era uma
nova geração de escritores de cordel, a maior parte gente urbana
das grandes cidades. Encontrava-se já nos anos 70 e 80 um poeta de
cordel mais facilmente na zona norte do Rio de Janeiro ou na Praça da
República em São Paulo do que no sertão do Nordeste. E
havia autores de folhetos até de faculdade, bacharéis de direito,
de jornalismo e o mais. Bem como o aspecto de estudos formais ou lugar de
residência, já mudou também a visão do poeta
recente. Reside provavelmente em uma enorme cidade com todos os problemas da
mesma; vive precariamente no sentido econômico; provavelmente escreve e
publica cordel quando pode, vivendo mesmo de outro trabalho. Vê
televisão diariamente e está ciente dos problemas da vida moderna
num país de terceiro mundo nos anos 90. Pode ser que seja pouco
idealista, melhor um tanto cínico, esperando pouco de seus
líderes, seu governo ou seu país (embora esteja o otimismo
presente nas histórias sobre um presidente recém inaugurado com
um novo plano econômico). Pode ser que o poeta seja católico, mas
seu catolicismo não proíbe que abra a boca ante a realidade
tão cruel que todos enfrentam na luta para sobreviver.
Para entender, o típico poeta de cordel aplaudiu em
1985 o fim da ditadura militar de vinte e um anos no Brasil e sonhou com a Nova
República do presidente-eleito Tancredo Neves depois da campanha
incrivelmente popular de «eleições diretas já»
de 1984. Chorou a tragédia subseqüente da morte tão injusta
do mesmo Tancredo, depois de compartilhar a
jamais sentida solidariedade nacional do
povo brasileiro nos dias de espera antes da morte desta grande figura (a morte
de um presidente sempre era tema importante para o cordel, antes com
Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek e agora ainda mais com Tancredo
Neves). Lançou suas «vivas» ante o «presidente
acidental» José Sarney e vibrou com o Plano Cruzado I e a
vigilância do povo na campanha para prender os «tubarões do
comércio» que chupavam o sangue do povo no começo de 1986.
E viveu a horrível inflação, a falta de emprego, de
comida, de dinheiro como resultado do caos econômico ao fim do regime de
Sarney com a sua administração de marajás. E, depois da
campanha de Lula do PT e Collor do PRN, ficou felicíssimo com o golpe
nos «ricos» e depois desesperado quando o desemprego e a fome ainda
aumentaram com o «Plano Cruzélia» da Ministra de
Finanças do jovem Collor.
A literatura de cordel existe há cem anos para seu
público original, o
povo do Nordeste do Brasil. Os artistas
sofistica dos apreciam e recriam o cordel nas suas obras para outras classes
sociais para o povo urbano brasileiro. O cordel documenta cem anos de realidade
brasileira. Mas hoje em dia o cordel não é o que era. Os tempos
mudaram. A produção ativa caiu muito e muitos dos poetas
desapareceram. Mas o cordel não pode ser esquecido, porque já se
tornou uma parte íntegra da herança
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popular
brasileira e do patrimônio nacional. Os bons acervos ficam e na sua
totalidade documentam um século de vida e literatura popular
brasileira.
OBRAS CITADAS
Almeida, Atila A. de e José
Alves Sobrinho.
Dicionário Bio-Bibliográfico
de Repentistas e Poetas de Bancada. João Pessoa: Editora
Universitária da UFEPB, Vols. 1-2, 1978.
Barroso, Gustavo.
Ao Som da Viola. 2a ed. Rio de Janeiro:
Departamento de Imprensa Nacional, 1949.
Calasans, José Brandão.
Canudos na Literatura de Cordel.
São Paulo: Editora Atica, 1984.
Cascudo, Luís da Câmara.
Cinco Livros do Povo. Rio de Janeiro:
José Olympio Edta., 1953.
_____.
Flor dos Romances Trágicos. Rio
de Janeiro: Editora do Autor, 1966.
_____.
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