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—654→
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| Espanhol | Português |
| i /i/ piso «piso» | i /i/ piso |
| e /e/ peso «peso» | e /e/ peso |
| - - | é / / peço |
| a /a/ paso «passo» | a /a/ passo |
| o /o/ pozo «poço» | o /o/ poço |
| - - | ó / / posso |
| u /u/ puso «pôs» | u /u/ puxo |
Uma das características mais importantes do sistema
vocálico do espanhol é a estabilidade relativa das vogais que
resiste em espanhol desde épocas medievais. Essa estabilidade se
mantém mesmo quando há mudanças de tonicidade, o que
não vem a ser o caso em português especialmente em
posição postônica. As vogais semiabertas «é,
ó» não existem como fonemas no espanhol, embora possam ser
observadas foneticamente. Em português as vogais semi-abertas
«é, ó» são fonemas que aparecem em
posição tônica e também em posição
pretônica devido ao fenômeno fonológico de harmonia
vocálica. Alguns exemplos dessa harmonia vocálica vêm
mencionados no trabalho de Abaurre-Gnerre (1981) que cita as palavras
«perereca», «pororoca», «abóbora»
comumente pronunciadas como [p
.r
. 'r
.ka], [p
.r
.'r
.ka], [a.'b
.b
.ra].
Em posição átona, o sistema vocálico do
português limita-se a cinco vogais /i, e, a, o, u/ como em «citado», «cevada»,
«lacuna», «coroa» e «urgente». Em
posição postônica esse sistema reduz-se a três
vogais: /i, a, u/ como nas palavras «come»,
«coma», «como». Vale observar que embora palavras como
«come» e «como» sejam escritas com as letras
«e» e «o», essas letras são, na realidade,
pronunciadas como «i» e «u». O espanhol, por outro
lado, apresenta essa estabilidade que o caracteriza e que mantém o mesmo
sistema de cinco vogais, seja em posição pretônica,
tônica ou postônica. Uma ilustração divertida dessa
estabilidade pode ser observada no filme «The Milagro Beanfield
War» onde a atriz brasileira Sônia Braga abre o filme com um
envolvente «Listos?», deixando escapulir uma redução
e conseqüentemente um levantamento vocálico da postônica
«o», realizando assim uma transferência negativa comum entre
nós, brasileiros, ou seja ['lis.tus] ao invés de ['lis.tos].
Observe-se que muitas palavras em português diferem semanticamente apenas no timbre das vogais semi-abertas e semi-fechadas:
| /e/ | / | /o/ | / / |
| sexta | sesta | avô | avó |
| seu céu | piloto | piloto | |
| este | este | corte | corte |
| meta | meta | gosto | gosto |
| pê | pé | poço | posso |
Estes exemplos servem para ilustrar como estudantes de português como língua estrangeira que não dominam este aspecto do componente fonológico do português terão dificuldades em fazer-se compreender em português. Observe-se que as letras «e» e «o» em espanhol geralmente correspondem ao timbre fechado como nas palavras «mesa, mozo». Há exceções, é claro, em certos ambientes fonéticos, mas como regra, o timbre fechado predomina. Por essa razão, o estudante cuja língua materna é o espanhol tende a transferir negativamente essas características do espanhol. Na língua inglesa, por outro lado, quando a letra «e» recebe o acento principal em uma palavra, esta letra corresponde, via de regra, a uma vogal semi-aberta, como nas palavras «let, mess». Assim, no caso do estudante, cuja língua materna é o inglês, a tendência é de fazer sempre uso de um timbre aberto ao pronunciar uma letra «e» em posição acentuada. As alternâncias entre as articulações semi-abertas «é, ó» e as semifechadas «e, o» do português são problemáticas para estudantes fluentes em espanhol. Em nossa experiência, é curioso notar, temos observado que mesmo estudantes cuja língua materna é o inglês sentem dificuldades com essas vogais, uma vez que o espanhol esteja bem enraizado nesses estudantes.
As letras «e, o» do espanhol têm apenas
uma pronúncia, ao passo que em português encontramos até
mesmo quatro pronúncias, como nas palavras «demente»
[de.'me.ti], «sete» ['s
.ti], «Botafogo» [b
.ta.'fo.gu]. Se consideramos em
português os fatores: instabilidade vocálica, inconsistência
da relação entre ortografia e pronúncia, número de
vogais orais e nasais, que além desses fatores ainda existe muita
semelhança, em nível abstrato (ing. «underlying level»), entre as duas
línguas, podemos ver porque uma pessoa cuja língua materna
é o português tem mais facilidade para compreender espanhol do que
uma pessoa cuja língua materna é o espanhol teria para comprender
português.
Nas Figuras 1 e 2 (AB) apresentamos um exemplo do tipo de análise que vimos fazendo para observar o progresso de cada estudante. A imagem acústica na Figura 1 corresponde à gravação do informante brasileiro; na Figura 2 temos as imagens acústicas das gravações no começo e final do semestre de um dos estudantes que participaram no experimento. Como indicam os segundos formantes nestes espectrogramas, a distância entre o modelo e a imitação é ainda enorme neste estudante. Isto confirma os resultados dos tratamentos estatísticos. —660→ Em outras palavras, a questão do aprendizado das vogais semi-abertas persiste nos dois grupos. Assim sendo, nos dois grupos há estudantes que fizeram progresso, mas sem nenhuma indicação de que um dos grupos estivesse melhor que o outro, em termos geral. Ambos os grupos de controle e experimental apresentaram um progresso similar.



Apesar destes resultados não apresentarem valor estatístico significativo, estamos lidando com resultados altamente sugestivos. Poderemos entender as possibilidades de alcance que têm os estudos desta natureza se compararmos, por exemplo, os resultados deste estudo com o estudo de Nobre e Ingemann (1987). A freqüência média dos dois primeiros formantes (F1 and F2) no português (brasileiro), segundo o estudo de Nobre e Ingemann, é a que citamos abaixo:
| F1 | F2 | F1 | F2 | ||
/ / | 516 | 1779 | / / | 538 | 1066 |
| /e/ | 424 | 1916 | /o/ | 424 | 1030 |
Estes números indicam que o timbre fechado tem uma influência muito grande na realização adequada do timbre aberto. Por razões práticas, não foi possível incluir nesta investigação, uma análise acústica das vogais semi-fechadas correspondentes, porém estamos conscientes de que esse tipo é de comparação será necessário em futuros estudos nessa área. O contraste entre os dois pares de vogais médias é realizado dentro de um espaço articulatório muito restringido, como indicam os formantes acima, no estudo de Nobre e Ingemann (op. cit.). Em outras palavras, o grupo experimental está em desvantagem em relação ao grupo de controle. Além dessa desvantagem vir confirmada nos números acima, já havíamos mencionado no início deste trabalho, que os testes de percepção também indicaram a necessidade de corrigir esta desvantagem do grupo experimental. Isso nos permite sugerir que talvez a elaboração de materiais didáticos dirigidos à correção deste problema seja o caminho certo apesar dos resultados presentes. Possivelmente, um semestre talvez não seja suficiente para que o método funcione. Dentro desta mesma linha de raciocínio podemos concluir que este estudo poderia ser expandido para incluir medidas e análise das vogais semi-fechadas correspondentes, o que abriria campo para interpretações que pudessem comprovar a necessidade desses materiais.
Lembramos que a preparação de materiais de ensino para minimizar uma falta de precisão do estudante em certas questão de pronúncia não deve, de nenhuma forma, levar a concluir que estamos propondo a criação de materiais de ensino que dêem ênfase à precisão na pronúncia. Deve-se sempre ter em mente que o presente trabalho trata de um caso de ensino de língua estrangeira que não é comum na área de ensino. Esta análise concentra-se no caso de estudantes que usam um conhecimento bastante enraizado do espanhol para chegar ao português. A língua que internalizaram tem a vantagem de estar muito próxima da língua que vão aprender, mas essa mesma proximidade faz com que o domínio apropria do português seja um processo muito mais difícil do que o inglês, por exemplo. A proximidade das duas línguas deixa a falsa impressão —662→ de que se pode aprender a falar português com um esforço mínimo. Essa falsa expectativa leva os estudantes a uma surpresa muitas vezes desagradável e daí a um abandono da empreitada.
A aquisição das vogais abertas é apenas um dos muitos pontos de dificuldades desse tipo de estudante. Seria prematuro num estudo piloto como o que fizemos, esperar resultados definitivos. Buscou-se com o presente trabalho uma contribuição ao ensino do português do Brasil, que a nosso entender pode estender-se a outras áreas de estudos lingüísticos. A necessidade de tal estudo assim como da preparação de materiais que permitam ao estudante preparar-se era algo que todo professor que tenha lidado com essa questão na sala de aula pode reconhecer por experiência e intuição. O que nos faltava era comprovar essa necessidade empiricamente e quanto a isso achamos que nosso trabalho já cumpriu o seu objetivo, como vimos nos estudos preliminares de percepção aqui realizados. Encontramo-nos agora no estágio do trabalho em que lidamos com soluções para um problema já comprovado. Acreditamos que estamos bem mais próximos de uma solução do que estávamos antes do início desta pesquisa. A proposta de solução do manuscrito Com licença! nos parece ainda válida. Para os propósitos deste estudo, o livro foi reinterpretado, em parte, na sua orientação. Trata-se de um livro que propõe que pelo menos 80% das atividades na sala de aula sejam dedicadas ao uso da língua, um objetivo que, na prática, muitas vezes não chega a ser alcançado.
Mantemos nossa posição de que a questão das vogais semi-abertas é um dos fatores que os materiais didáticos para o ensino do português como língua estrangeira têm que levar em consideração. Sem contar com os componentes sintático, semântico, morfológico e discurso, há no componente fonético-fonológico do português, com o qual lidamos nesta investigação, um sem-número de princípios e características que o distinguem do espanhol. Neste artigo tratamos apenas de uma dessas características e princípios.
Portanto, as direções aqui tomadas são
muito significativas, mas outros fatores na comparação das duas
línguas têm que ser levados em conta. Entre esses, podemos prever,
limitandonos ao componente fonético-fonológico, estudos e
aplicações de materiais que tratem da instabilidade
vocálica do português, e por conseguinte, da estabilidade
vocálica e instabilidade consonântica do espanhol. Exemplos dessa
instabilidade consonântica no espanhol são muitos, especialmente
no espanhol andaluz, e no espanhol das regiões planas ou baixas da
América Latina onde as consoantes perdem suas características
como vemos nos casos de debilitamento de consoante oclusiva em
posição intervocálica (/ku.ña.do/
[ku.'ña.Ðo]),146 aspiração de
consoante fricativa alveolar surda em posição final de
sílaba (/'es.tes/
['eh.teh]), lateralização
de consoante líquida vibrante simples em final de silaba (/per.der/
[pel.'del]), velarização de
consoante nasal alveolar em posição final de palavra (/'pan/
['pa
]. Vemos não somente um
debilitamento ou instabilidade consonântica como também uma
redução que pode chegar a um desaparecimento completo dessas
consoantes nesses mesmos ambientes fonológicos: /ku.ña.do/
[ku.'ña.o], /'es.tes/
['e.te]), /per.der/
[pel.'de], /'pan/
['pã].
A título de conclusão, gostaríamos de examinar algumas idéias de aplicação didática sobre o timbre das vogais semi-abertas e semi-fechadas. Existem muitas alternâncias entre as vogais semiabertas e semi-fechadas que são idiosincráticas. Existem algumas tendências do português que ajudam na identificação do timbre vocálico e conseqüentemente, esperamos, na produção adequada desses sons do português. No correr do semestre os estudantes do grupo experimental receberam lições dirigidas ao ensino dessas tendências. Como vemos na proposta do livro Com licença!, essas orientações são dirigidas ao professor, para que faça uso dessa informação tendo em mente o seguinte. Como muitos educadores, acreditamos que o aprendizado de uma língua, seja a língua materna ou uma língua estrangeira, se faz por meio de dois processos: um processo natural e um processo consciente. Atualmente vemos uma grande tendência no uso exclusivo de um ensino «natural» (Krashen and Terrell 1983) nas salas de aula de língua estrangeira. Porém, o processo consciente também tem um papel relevante no aprendizado de uma língua materna ou estrangeira. As instruções abaixo são instruções daquilo que consideramos parte do processo consciente do aprendizado de línguas e que no livro Com licença! vem sugerido com o objetivo de ser usado sem nunca ultrapassar mais do que 20% de qualquer preparação de uma aula. São instruções dirigidas mais ao professor do que ao aluno. O professor pode, com essa informação levar ao estudante um conhecimento consciente da língua, através de qualquer atividade pedagógica. Alguns exemplos desse conhecimento consciente são os seguintes:
—663→A. Em português as vogais semi-abertas só aparecem em posição tônica, como já foi indicado acima, na comparação dos sistemas vocálicos do espanhol e do português. Com este tipo de conhecimento, os estudantes podem, de uma maneira geral, eliminar o timbre semi-aberto em palavras como «c[e]vada», «inv[e]joso», «m[o]rada», e «d[o]sagem»;
B. Há em português um sem-número de pares mínimos que podem ser agrupados segundo a classe gramatical dos membros desses pares. Assim, sabemos que em pares como «piloto» (subst.), «piloto» (v.) e «enterro» (subst.), «enterro» (v.), a tendência é a de que o substantivo leve o timbre semi-fechado enquanto que o verbo tem um timbre semi-aberto;
C. Também é comum as vogais semi-abertas
[
] []
em português terem nas palavras correspondentes em espanhol os ditongos
crescentes «ie» e «uo» respectivamente: (port.)
f[
]sta e
(esp.) «fiesta», (port.)
«d[
]rme» e (esp.)
«duerme»;
Há outros grupos de palavras onde pode-se tentar descrições em benefício do aluno, como os grupos de adjetivos terminados em «-oso» («famoso, gostoso») onde somente a forma masculina singular dessas terminações apresenta uma vogal semi-fechada. Porém em um programa de primeiro ano o uso exagerado dessas descrições podem tomar muito tempo útil. Os casos apresentados acima em A. B. e C. parecem ser suficientes para um programa de primeiro ano. Os estudantes são informados sobre essas características através de lições variadas e contextualizadas que contêm pares mínimos, frases, parágrafos ou textos com os quais trabalham na percepção e produção dessas vogais.
Vemos a seguir as instruções e lista de palavras usadas nos testes preliminares de percepção. O interesse está na vogais semi-abertas «é, ó» /', ø/. Por essa razão, somente os grupos de palavras com asteriscos são utilizados no experimento. Naturalmente, a cópia que o estudante recebe não contém nem os asteriscos, nem os sinais de acentuação, nem tampouco a indicação da pronúncia. Os outros grupos de palavras compõem uma estratégia de apresentação em relação a cada informante, ou seja apenas figuram no experimento. Naturalmente, este protocolo pode ser melhorado, se eliminamos por completo algumas indicações ortográficas que ainda permaneceram, como em «sesta/sexta» e «cassete/cacete». No entanto, durante as análises do corpus levamos em conta todos esses elementos do experimento.
| A | B | C | D | |
| santo | urubu x | santo | santo | |
| 1. | cama | cama | cama | cana |
| 2. | dia | tia | dia | dia |
| 3. | botar | votar | votar | votar |
| 4. | casa | casa | caça | casa |
| 5. | fala | fala | falam | fala |
| 6.* | sesta | sexta | sexta | sexta |
| 7.* | avó | avó | avó | avô |
| 8.* | céu | céu | seu | céu |
| 9. | tudo | tudo | tudo | todo |
| 10.* | olho «ó» | olho | olho | olho |
| 11. | uva | luva | luva | luva |
| 12.* | pê | pé | pê | pê |
| 13. | tato | tato | tanto | tato |
| 14.* | gosto «ó» | gosto «ó» | gosto «ó» | gosto |
| 15.* | cassete | cacete | cassete | cassete |
| 16.* | pode | pôde | pôde | pôde |
As orações abaixo foram primeiro escutadas e
em seguida, repetida pelos informantes. Somente as vogais semi-abertas
«é, ó» /
,
/ nas orações
indicadas com um asterisco foram analisadas e medidas. Como se pode observar,
só medimos os monotongos e os casos de abertura vocálica
distintiva, ou seja em sílaba tônica. Na oração 5,
por exemplo, a harmonia vocálica faz com que o «e»
pretônico em «Pelé» tenha,
muitas vezes, uma abertura similar à vogal «e» tônica,
porém incluir vogais semi-abertas por harmonia acarretaria em
complicações desnecessárias a essa altura do nosso estudo
devido a questões de interpretação dos resultados
estatísticos.
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