publicidad

 

Página principal
    Hispania [Publicaciones periódicas]. Volume 73, Number 1, March 1990
    
Página principal Enviar comentarios Ficha de la obra Marcar esta página Índice de la obra Anterior Abajo Siguiente



––––––––   66   ––––––––


ArribaAbajo Angústia e Zero: depoimentos da repressão

Ronald M. Harmon


California State University, Fullerton


Ao empreendermos um estudo comparativo de Angústia (1936), de Graciliano Ramos, e Zero (1974), de Ignácio de Loyola Brandão, ou mesmo de quaisquer obras de teor sócio-político, convém ficarmos conscientes de que enfrentamos uma problemática dupla69. Primeiro, os estudos comparativos em si são problemáticos, tanto no delineamento de características viáveis para a comparação, como na determinação de graus de paralelismo ou divergência, e, sobretudo, na análise do significado das comparações dentro dum contexto mais amplo da crítica literária. Mais complexo ainda um estudo comparativo entre duas obras separadas por quase quarenta anos na sua data de publicação e de feitios tão aparentemente diferentes ao nível superficial, como é o caso dos dois romances em questão aqui. Segundo, a análise e interpretação de supostos conteúdos ideológicos ou mensagens políticas nas obras literárias é um terreno cheio de ciladas e atoleiros para quem queira conservar qualquer conceito de sensibilidade estética.

Mas as obras literárias são é o efeito que têm em nós, leitores sensíveis, e se reconhecemos um teor ideológico ou se percebemos um depoimento político, cabe-nos explorá-lo e registrá-lo. Quando se trata da moderna ficção da América latina, cuja triste realidade social, econômica e política tem-se prestado bem a tais abordagens, não surpreende enxergar atitudes e afirmações ideológicas da parte do autor sobre a organização da sociedade. Ao contrário, seria mais surpreendente depararmos com uma obra em que tais atitudes estivessem de todo ausentes, especialmente se escrita numa época de repressão descomunal, como o foram Angústia e Zero.

No caso de Zero, o aspeto político está patente, tratado abertamente de várias maneiras. Com Angústia, no entanto, tem havido uma polêmica sobre o tema da feição política que o romance possa ter. Vários críticos conceituados, entre eles Otto Maria Carpeaux (12), Álvaro Lins (12-13) e Wilson Martins (16-17), não quiseram ver tal feição em nenhum dos romances de Graciliano, mas sim a trágica luta do indivíduo perante as cruéis circunstâncias e vicissitudes da vida, preferindo, portanto, identificar esses romances como obras essencialmente filosóficas e universais. É claro que estes livros têm uma grande universalidade, especialmente na sua sondagem psicológica dos personagens e na sua empolgadura estilística. Parece-nos, porém, e aos críticos Antônio Cândido (53), Miécio Táti (122-23), e Fránklin de Oliveira (3), entre outros, que os romances de Graciliano também são «sociais», «políticos», «engajados» ou qualquer outro termo que se quiser aplicar-lhes para identificá-los como acusações revolucionárias do autor contra a ordem sócio-econômico-política do seu Brasil. O próprio Graciliano deixou claros indícios de que quis incorporar tais atitudes nos seus livros (embora isso em si não nos possa servir como prova de que assim fez). Disse, por exemplo, que «o conformismo exclui a arte, que só pode vir da insatisfação» (Maia 8) e, em outra ocasião, que os escritores brasileiros «de hoje e de amanhã têm que ser os escritores da revolução» (Mendes 17).

Convém, antes de empreender uma comparação analítica de Angústia e Zero, enquadrá-los brevemente no seu contexto histórico. Depois, realizar-se-á a comparação seguindo a identificação e análise de paralelos na caracterização dos protagonistas, o elemento central nas duas obras. Veremos como essa caracterização

––––––––   67   ––––––––

influi na estrutura dos romances, no seu ambiente, e nos temas que os protagonistas expõem. Daí tiraremos conclusões quanto à semelhança de temas, atitudes, e mensagens que os dois autores quereriam comunicar e que poderiam ser característicos da moderna ficção escrita sob regimes repressivos em geral.

Graciliano Ramos escreveu Angústia entre fins de 1934 e começos de 1936 (Sodré 114), uma época de engajamento literário da parte dos romancistas brasileiros em geral. Também era uma época de uma crescente repressão política no regime de tendências fascistas de Getúlio Vargas, que tomou o poder na Revolução de Outubro de 1930. Era uma época péssima para os intelectuais e liberais, descrita por Graciliano como «uma ditadura sem freio» (1970b I, 20). Essa repressão ficou especialmente severa após a falhada insurreição comunista de novembro de 1935. A prisão de numerosas pessoas consideradas inimigos de Vargas atingiu Graciliano Ramos em março de 1936. Consciente do perigo que corria, Graciliano se apressurou a terminar Angústia e entregou o manuscrito à dactilógrafa na manhã do dia em que ficou preso. O romance se publicou durante a sua prisão, que durou dez meses, apesar de sua apreensão em vê-lo sair à luz sem consideráveis cortes e emendas (1970b I, 229). Graciliano ficou decepcionado com as primeiras críticas da obra, que só notaram seu lado sensacional, porque, segundo ele, o que tinha tentado fazer era «fixar a decadência da família rural, a ruína da burguesia, a imprensa corrupta, a malandragem política» e «estudar a loucura e o crime» (1970b II, 244).

Zero também se escreveu numa época de repressão e perseguição dos intelectuais e liberais. Loyola terminou o livro em 1969, depois do arrocho político do Ato Institucional 5 do ano anterior, imposto pelos militares que fizeram a Revolução de 1964. Nos próximos cinco anos o autor não encontrou uma editora brasileira que se atrevesse a publicá-lo. Finalmente saiu em tradução na Itália em 1974, e no ano seguinte no Brasil. Em 1976, porém, foi censurado pelo governo, e liberado só em 1979 (Lancellotti).

Estes dois romances, portanto, foram escritos nas épocas mais repressivas do Brasil deste século. Não se pode deixar de levar em consideração, ao examinar de perto o conteúdo ideológico dos dois livros, o fato de que ambos escritores sofreram por causa da ameaça que representavam para as autoridades -o encarceramento, no caso de Graciliano, e a censura dum romance, no caso de Loyola.

Ambos Angústia e Zero se estruturam ao redor de um portagonista complexo, frustrado, desajustado, vitimizado por uma sociedade defeituosa, e que, no seu desespero, se revolta e vitimiza a outros. Então, centralizando-se num personagem nada convencional, a estrutura externa nos dois romances é caracterizada por um completo desprendimento do convencional. Só muito liberalmente se poderia designar as suas unidades narrativas como «capítulos». Em Angústia estas unidades, que variam muito em comprimento, se demarcam apenas com alguns espaços em branco com uma linha de asteriscos no meio. Em Zero, onde sua extensão também varia muito, são designadas por títulos, mas estes amiúde são irônicos e desnorteantes. Também a estrutura externa de Zero inclui elementos inéditos como desenhos (por exemplo, da anatomia de um homem desnutrido), gráficos, colunas duplas com narrativas independentes, e notas ao pé da página, a maioria delas irônicas. Estas divisões nos dois romances só esporadicamente se relacionam a mudanças convencionais de tempo, espaço, ação ou tema. Em Angústia marcam muitas vezes modificações na disposição mental do protagonista/narrador. Em Zero também servem esta função, mais a de introduzir narrações ou mesmo comentários de um outro narrador sobre assuntos freqüentemente desconexos. Nenhum dos dois livros se desenvolve com uma cronologia completamente linear, havendo em ambos freqüentes flashbacks e confusões de planos de consciência e realidade. Então, com cada romance o leitor se encontra ante uma narração tensa, fragmentada, desconexa, às vezes oprimente, como o é o estado mental e espiritual do protagonista. Mas essa estrutura também reflete a estrutura da sociedade que condicionou o protagonista, e nos dois livros os aspetos políticos, sociais e econômicos que pesam na vida dos personagens ficam retratados também como desarrazoados e opressores.

A perspectiva do protagonista, então, é que orienta a estrutura e desenvolvimento dos romances, como também o ambiente e tom. Em

––––––––   68   ––––––––

Angústia, narrado completamente na primeira pessoa por Luís da Silva, o livro todo está sujeito a essa perspectiva. Tudo que o leitor vê e sente é uma função da fragmentada observação e dos doentios valores dele. Uma porção substancial de Zero, também, é narrada pelo protagonista José Gonçalves, e de modo semelhante, o leitor presencia a realidade pela sofrida perspectiva dele. Mesmo os episódios sobre José narrados na terceira pessoa mantém essencialmente essa perspectiva, e as partes do romance não ligadas à história de José se narram com a mesma tensão, desequilíbrio e falta de fiabilidade. Estes narradores íntimos desempenham o importante papel de criar no leitor uma suscetibilidade para considerações ideológicas ao deixarem-no acompanhar de perto o pesadelo que vivem os protagonistas, seja a frustração e desespero interior de Luís da Silva ou a dolorosa busca de dignidade social de José Gonçalves.

A caracterização destes e outros personagens nos dois romances é essencial para o retrato crítico da sociedade que cada autor procura pintar. Os dois protagonistas, por exemplo, compartem certas características mais específicas. dentro da insatisfação geral de sua malograda vida que os permitem apontar os males sociais. Os dois são da classe média baixa e levam uma existência banal com empregos pouco dignos que mal servem para afastar a miséria. Luís da Silva é um pequeno funcionário público mandado por um chefe insensível e escreve artigos de jornal que louvam ou criticam outras pessoas de acordo com as encomendações dos que lhe pagam. Está consciente de que pratica «muita safadeza» (62). José Gonçalves primeiro é matador de ratos num cinema decrépito, logo escritor de adivinhanças e fatos interessantes para tampas de Coca-Cola, e depois entrevistador de candidatos para o bairro onde se exibem anormais e deformados. São as ocupações disponíveis para eles e nelas se frustram e se degradam.

Chegam a ser homens desajustados, mentalmente instáveis, beirando a loucura. O autoconceito que têm reflete a degradação que sentem. Luís, que se apresenta pela primeira vez como «um Luís da Silva qualquer» (32), se descreve com o «uma criaturinha insignificante, um percevejo social» (37) e «um cachorro, um ninguém» (200). José, de modo semelhante, se considera «pequeno, medíocre, bostífero» (163). Se Luís vive «acanhado, encolhido para não ser empurrado» (37), José confessa que «as pessoas, me fazem medo. Penso que alguém vai me agredir» (22). Mas segundo o outro narrador, José é um «infraherói» que «passa despercebido, inatacado, desprezado» (206).

Ambos protagonistas sofrem súbitas mudanças de humor e arrancos de cólera, e a linguagem desmesurada e os atos violentos deles e dos que os rodeiam manifestam em grande medida o condicionamento negativíssimo da sociedade. A linguagem dos romances, uma função da psique dos protagonistas (excetuando certas partes de Zero narradas na terceira pessoa), estabelece e mantém o tom de tensão e mal-estar que sensibiliza -e talvez choque-o leitor. Os dois livros estão cheios de palavrões, xingações, repreensões violentas e descrições feias. Zero está infundido da linguagem mais chula, e se Angústia não carrega uma dose tão forte de palavrões, não deixa de ser tão chocante quanto Zero em termos relativos a sua época de publicação. A violência nos livros tem um efeito afim no leitor. Como ocaso da linguagem, em Angústia a violência não está tão exteriorizada e física como em Zero, com a importante exceção do agitante enforcamento praticado por Luís no seu rival Julião Tavares. Em Angústia, com a íntima narração do protagonista, o leitor testmunha principalmente a violência emocional contra o menino Luís abandonado, o jovem Luís desprezado, e o homem Luís humilhado. Em Zero a violência brutal, como a linguagem brutal, e ubíqua. Vê-se sobretudo nas surras que José dá em Rosa, sua esposa, na matança freqüentemente indiscriminada que pratica, e nas torturas realizadas pelas autoridades. Os atos violentos de José muitas vezes se precipitam quando ele sente um forte clarão amarelo, que lhe dá tonturas e lhe faz subir a raiva. E importante notar que essa linguagem e violência brutal não são só dos protagonistas, e que estão no seu caráter como conseqüência lógica das circunstâncias brutalizadoras em que vivem.

Outra manifestação de tais circunstâncias é a onipresência do sujo e do grosseiro, com o qual ambos protagonistas têm uma constante e doentia preocupação. Eles enumeram em longas listas tudo quanto é feio, fétido, deformado e nojento. Luís, por exemplo, descreve o ambiente do quintal da sua casa: «Tudo

––––––––   69   ––––––––

feio, pobre, sujo... Monturos próximos, águas estagnadas, mandavam para cá emanações desagradáveis» (50). E, num bairro pobre, vê «lixo... casas sujas... mendigos, crianças barrigudas e amarelas... os filhos, roídos pelos vermes» (174-75). José também vê ao seu redor, além dos ratos que mata e dos deformados mais estrambóticos no bairro dos anormais, que «havia um terrível mau cheiro onde o povo tinha excrementado... crianças que remexiam a sujeirada. Cachorros sarnentos... Brigavam as crianças, os cachorros e também as mulheres que tinham vindo buscar papel. Os aproveitadores do lixo estavam pondo fogo nos montes e a fumaça era fedida» (32). E em outro bairro vê «vagabundos... um bêbado vomitava, crianças remexiam nas latas de lixo, um guarda-civil mijava... a escada. Lavada a mijo, vômito, cachaça» (137).

Mesmo os outros personagens que os protagonistas conhecem, e que constituem o seu relacionamento social mais imediato, são pessoas marginalizadas e problemáticas. As amizades de Luís da Silva (não se pode dizer que ele tenha propria mente «amigos») são um judeu estrangeiro e marxista e um mendigo débil mental. Seus vizinhos são pessoas vencidas pela vida. Luís lamenta a transformação da vizinha, que fora uma jovem sã e dona de si: «Depois transformaram a senhora nisso, D. Adélia. Um trapo, uma velha sem-vergonha... Fizeram da senhora uma bola de bilhar, uma coisa que vai para onde a empurram» (149-50). Marina, a filha dos vizinhos, a noiva de Luís, e o objeto de sua paixão (ou melhor, de sua concupiscência), é uma moça frívola que se deixa seduzir pelo rico Julião Tavares, aborta o filho, e acaba um trapo como os pais. E uma situação semelhante com José Gonçalves. Seu único «amigo», Átila, é um marginal maconheiro e desordeiro, e sua esposa Rosa, cuja atração para José, como a de Marina para Luís, é sexual, tem uma obsessão pelos valores pequeno-burgueses, vistos como vácuos e ridículos no ambiente em que vive. Ela também tem um passado sexual suspeitoso.

Junto com a linguagem forte e a violência, o ambiente retratado com descrições nojentas e populado de seres humanos fracassados nos dois romances não pode deixar de incomodar o leitor, criando nele uma reação de repugnância pela sociedade aí retratada. Um observador associou Zero à «literatura de inquietação» e vê no título-símbolo «o círculo fechado que encerra, prende, sufoca» («Loyola»), e uma comentarista de Angústia escreveu em 1937 que era «um livro que se lê sem prazer ou mais precisamente numa contínua sensação de mal-estar» [Graça 115] (é duvidoso que essa pessoa pudesse agüentar hoje uma leitura de Zero). Até Jorge Amado notou na época que «o romancista de Angústia nos arranca o estômago» (42). Embora estes dois romances não se leiam por prazer, na aceitação mais convencional da palavra, cumprem a sua missão ao evocar reações fortes no leitor, ao forçá-lo a considerar a miserável realidade que lhe é apresentada.

O aspeto talvez mais político e revolucionário da caracterização dos protagonistas é o da sua conscientização e revolta. Os dois se sentem vitimizados pela sociedade. Luís, bem instruído, sabe o que são a luta de classes e as metas dos revolucionários de esquerda. Em várias ocasiões se pergunta que fim levaria se estes tomassem o poder, pois confessa suas «safadezas» jornalísticas e seu servilismo na repartição. Mas só começa a sentir um ódio revolucionário e a pensar em envolver-se pessoalmente quando é humilhado pela sedução de Marina por Julião Tavares e quando vê o sofrimento que isso acarreta para ela e seus pais. Ele associa Tavares, filho de ricos negociantes que Luís considera «ratos», com a camada detestável que dirige o país: «Uma pátria dominada por Dr. Gouveia, Julião Tavares, o diretor da minha repartição, o amante de D. Mercedes, outros desta marca, era chinfrim. Tudo odioso e estúpido...» (178). E quando imagina o que seria de Tavares depois de uma revolução, dá com a inevitável solução: «Julião Tavares estaria expatriado, fuzilado ou enforcado. Enforcado, Julião Tavares enforcado» (130-31). Luís não questiona a sua conclusão de que Tavares devia morrer, pois a moralidade é muito relativa nessa sociedade: «Um crime, uma ação boa, dá tudo no mesmo. Afinal já não sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embota dos vivemos» (168). Vai repetindo para si, «"Bemaventurados os que têm sede de justiça..."» (186). Depois, ao crescer a sua «raiva de cangaceiro emboscado» (199), estrangula Tavares e, num deslumbramento, vê-se transformado: «O homenzinho da repartição e do jornal não era eu... Uma alegria enorme encheume... Tinham-me enganado. Em trinta e cinco anos haviam-me convencido de que só me podia mexer pela vontade dos outros»

––––––––   70   ––––––––

(202). Embora sua ação não seja pura politicamente, pois foi precipitada por um motivo pessoal, não deixa de ter relevância ideológica. Não foi um simples assassinato porque Julião Tavares chegou a representar algo maior para Luís. E, se lembramos que um passatempo de Luís era fazer anagramas, o fato de que o nome Julião Tavares é uma anagrama quase perfeita do nome Getúlio Vargas nos conduz a considerar a intenção ideológica de Angústia em bem o utro plano.

Em Zero vemos a mesma progressão básica na vida de José Gonçalves. Embora ele não intelectualize o processo tanto como Luís da Silva, passa também por uma conscientização, um ódio e uma revolta pessoal contra a base do poder da sociedade. No começo, simples mata-ratos de cinema, é apático: «Eu não quero é ter a mínima preocupação por nada em minha vida» (19). Depois, morando num velho depósito de livros, lê tudo, começando com romances e terminando com tratados políticos. O narrador na terceira pessoa lhe adverte: «Você não é mais aquele José que entrou nesse depósito!... Não deixe as milícias repressivas saberem que estes livros existem aqui!» (53). José começa a odiar discriminadamente; referindo-se aos filhos dos dirigentes duma cidade no interior, descobre que «odiava o que eles eram, e eles não eram a cidade, eram o país», concluindo que «é preciso romper e violentar o mundo, se a gente quiser começar de novo alguma coisa boa, melhor» (81). Começa a sua revolta roubando e matando. No início nem sempre se explica a sua seleção de vítimas, mas depois vê que «me sinto melhor quando mato alguém das patrulhas ou da polícia, do que quando atiro em alguém que não conheço» (163). Chega a pôr em palavras as noções que traz lá dentro: «Sempre quis o mundo arrumadinho para não me machucar muito... De repente, descubro: é a gente que arruma o mundo, do nosso jeito. E preciso arrumá-lo todos os dias, remonta-lo, reorganizá-lo... se a gente tem guerra, vamos guerrear, porque se é guerra, a paz não tem sentido» (179-80). Finalmente se alia com o líder dos revolucionários, Gê, para praticar a sua revolta, mas, como Luís da Silva, não o faz por motivos políticos puros. Ainda há o ódio, infundido nele pelas suas condições de vida, que o dirige.

Embora haja diferenças óbvias entre Angústia e Zero, também há paralelos substanciais, e estes talvez apontem características que outras obras de ficção escritas sob circunstâncias semelhantes possam compartir. Ambos romances se estruturam usando como base a perspectiva de um protagonista sofrido, mas capaz de odiar e revoltar-se. Essa perspectiva é central para retratar a ordem sócio-política que rege as circunstâncias de vida que condicionam o personagem. E com a linguagem que o protagonista escolhe e o tom que estabelece, essa perspectiva fixa um ambiente que faz o leitor reagir, incomodando-o e comovendo-o. Pouco valeria um protagonista só patético, resignado, pois o leitor não testemunharia nem compartiria a raiva e o processo de conscientização que os protagonistas de Angústia e Zero experimentam, elementos críticos para uma obra de base ideológica.

Pode parecer que colocar protagonistas assim, que são do povo e surgem como uma espécie de herói na luta de classes, cumpre os critérios do realismo social a la Lukács e, grosso modo, os cumpre. Mas seria muito simplista e injusto supor que Graciliano Ramos e Ignacio de Loyola Brandão, ou qualquer ficcionista em circunstâncias afins, escrevessem sob fórmula por motivos ideologicamente interesseiros. O que melhor explica o teor político dos romances destes dois brasileiros é que a sua estética ficcional inclui o imperativo de retratar a dura e injusta realidade que eles observam ao redor de si e como essa realidade lesa os que nela lutam para viver. Nisto são obras que depõem contra o que reprime a integridade do indivíduo como ser social e, conseqüentemente, contra o que reprime a sociedade toda.


OBRAS CITADAS

Amado, Jorge. «Notícia de dois romances». Boletim de Ariel 6.2 (1936): 42.

Cândido, Antônio. «Ficção e confissão» (1956). Reimpresso em São Bernardo. Graciliano Ramos. 14ª ed. São Paulo: Martins, 1971. 8-58.

Carpeaux, Otto Maria. «Visão de Graciliano Ramos» (1943). Reimpresso em Angústia. Graciliano Ramos. 13ª ed. São Paulo: Martins. 1970. 5-16.

Graça, Lydia de Alencastro. «Angústia». Boletim de Ariel 6.4 (1937): 115.

Lancellotti, Silvio. Introdução a Zero. Ignacio de Loyola

––––––––   71   ––––––––

Brandão. 4ª ed. Rio: Codecri, 1979. Orelha.

Lins, Álvaro. «Valores e misérias das vidas secas» (1943). Reimpresso em Vidas secas. Graciliano Ramos. 28ª ed. São Paulo: Martins, 1971. 7-40.

«Loyola, autor de Zero e da literatura de inquietação». Apud Malcolm Silverman. «A ficção de Ignácio de Loyola Brandão». Em Moderna ficção brasileira. Trad. João Guilherme Linke. Rio: Civilização Brasileira, 1978. 212.

Loyola Brandão, Ignácio de. Zero 4ª ed. Rio: Codecri, 1979.

Maia, Ernesto Luiz. «Os chamados romances sociais não atingiram as massas». Renovação 7.13 (1944): 7-8, 33.

Martins, Wilson. «Graciliano Ramos: o Cristo e o grande inquisidor» (1948). Reimpresso em Caetés. Graciliano Ramos. 8ª ed. São Paulo: Martins, 1969. 9-21.

Mendes, José Guilherme. «Graciliano Ramos: "O romance é tudo nesta vida"». Manchete (Rio) 15 nov. 1952. 14-17.

Oliveira, Fránklin de. «Graciliano: o duplo testamunho». Correio da manhã (Rio) 27 out. 1971. Anexo, 3.

Ramos, Graciliano. Angústia. 13ª ed. São Paulo: Martins, 1970a.

___. Memórias do cárcere. 6 ed. 2 vols. São Paulo: Martins, 1970h.

Sodré, Nelson Werneck. «Graciliano Ramos». Orientações do pensamento brasileiro. Rio: Vecchi, 1942.

Táti, Miécio. «Aspectos do romance de Graciliano Ramos». Estudos e notas críticas. Rio: Instituto Nacional do Livro, 1958.






    Hispania [Publicaciones periódicas]. Volume 73, Number 1, March 1990
    
Página principal Enviar comentarios Ficha de la obra Marcar esta página Índice de la obra Anterior Arriba Siguiente
Marco legal