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Carmen Chaves
McClendon University of Georgia
Estas palavras de Autran Dourado, por ocasião do lançamento de seu último romance, Violetas e Caracóis, me chegaram as mãos justamente quando começava a preparar este trabalho em homenagem a Maria Isabel Abreu. Ocorreu-me então que uma paráfrase desta citação poderia servir-me bem como eixo deste ensaio:
Aliás, a leitura da obra de Dourado, com ou sem interpretação espelha em muitos aspectos a vida acadêmica. Para ilustrar esta idéia, vamos analisar Violetas e caracóis. Quarenta anos depois de publicar o seu primeiro romance, Têia, Dourado continua apresentando textos estruturados geometricamente. Sabemos pelo próprio autor que é um «arquiteto frustrado» e que arma quadros visuais mesmo antes de escrever a primeira lauda (História de uma História 168). Todos os textos do autor mineiro podem ser desmontados estruturalmente até chegarmos à planta baixa imaginada por ele. Em Violetas e Caracóis, vemos uma versão madura da estrutura já encontrada em outros textos -o labirinto. Neste texto, porém, o labirinto aparece na forma de um caracol tanto no tempo como no espaço. O caracol passa a ser o eixo do texto. A forma espiralada do caracol aparece tanto na estrutura da narrativa como no significado da narração. Até certo ponto parece que Dourado encontro u uma maneira de explicar o dilema apresentado em O meu mestre imaginario: «Quando se conhece a planta-baixa do labirinto, tudo fica mais claro e facil. A planta-baixa é o princípio e o fim da codificação. O resto é acidente. Mas a chave, onde está a chave? Dentro, no centro ordenador, na matriz mesma do labirinto. Para se achar a chave, tem-se que entrar no labirinto. Mas sem a chave, como entrar? Como sair?» (66). Como base para a nossa análise, devemos explicar a definição de um termo que vamos utilizar dentro desta leitura -a espiral. O Novo Dicionário Aurélio define a palavra «espiral» como «Qualquer curva plana gerada por um ponto móvel que gira em torno de um ponto fixo, ao mesmo tempo que dele se afasta ou se aproxima segundo uma lei determinada» (706). Cirlot, no seu Dictionary of Symbols continua a definição da seguinte maneira, «... the spiral can be found in three main forms: expanding (as in the nebula), contracting (like the whirlwind or whirlpool) or ossified (like the snail's shell)» [305]. Cirlot chega a conclusão de que a espiral «may symbolize the relationship between the circle and the centre» (306). Dentro do nosso contexto, então, usaremos a palavra espiral significando todos os relacionamentos entre um centro e aquilo que gira em torno dele de maneira aumentativa, diminutiva e ossificada. Podemos encontrar os tres tipos de espirais
Violetas e Caracóis, como muitos textos de Dourado, é um conjunto de blocos ligados pela intertextualidade. Os nove blocos, cada um conto em si, tem como cenário a cidade de Duas Pontes, já conhecida de outros livros de Dourado. Os personagens que já conhecemos bem, passam de bloco a bloco sem nenhuma linearidade temporal. Assim vemos por exemplo o seu Bê P. Lima em seis dos blocos, o Juiz Saturnino Bezerra em quatro, o Lucas Procórpio Honório Cota em quatro, o João Fonseca Nogueira em quatro, o Vítor Macedônio em tres, o Dr. Alcebíades em tres, e o Dr. Viriato em tres. Cada um destes personagens, além de já conhecidos pelo leitor de Dourado, apresenta um tipo dentro da sociedade -o médico, o psicanalista, o poeta, o juiz, o patriarca, o escritor. Com eles temos uma espiral interna. A evolução do texto faz viravoltas em torno destes personagens como se eles fossem pontos numa planta baixa -pontos pelos quais a fio da narrativa percorre. Dentro desta espiral narrativa, dentro deste labirinto, um personagem que aparece em todos os blocos apresenta o centro narrativo -Donga Novais. Donga Novais, «sapiência viva do nosso tempo e história», «macróbio cidadão» (52), «pantemporal» aparece em todos os blocos. De sua janela ele vigia a narrativa e dá a ela a confusão temporal necessária para o desenvolvimento do texto. «Todo artista deforma o real, faz dele símbolo, disse João [Nogueira da Fonseca]. O que me interessa é o real simbólico -as coisas são o que são e significam» (126). Estas palavras do nosso escritor fictício são repetidas por Autran Dourado numa entrevista para o Jornal do Brasil, «Os que leem minhas narrativa devem ir com cuidado, porque não estou fazendo realismo simbólico, em que as coisas, heracliticamente, são o que são e significam. Eu escrevo nas entrelinhas e quero ser lidos nas entrelinhas!» (8) Assim sendo, a posição de Donga Novais sempre lembrando o leitor da falta de linearidade e realismo na narrativa, nos parece chave. Donga Novais então fica sendo o centro fixo ao redor do qual os círculos da espiral se expandem. Dentro do bloco «Os Mínimos Carapinhas do Nada», encontramos a metáfora chave que Dourado emprega na interpretação da loucura. Esta metáfora, na minha opinião ilustra nitidamente também a loucura acadêmica. Trata-se aqui da descrição da arte dos caracóis, o ofício dos «puristas, or cultores do absoluto, os escribas da idéia, dos protótipos e arquétipos ideáis, os minúsculos carapinas do nada» (52). Estes são os que se dedicam «à nobre arte de desbastar e trabalhar a madeira com o simples canivete e um ou outro instrumento auxiliar feito as latinhas que faziam as vezes do compasso» (52). São tres as categorias deste puro ofício. Os primeiros desbastavam a madeira com algum objetivo, embora inútil, como, por exemplo fazendo mobilinha de bonecas e carrinhos de bois. «Em geral exerciam a sua ocupação ociosa em casa, se serviam de instrumentos caseiros para auxiliar o trabalho do canivete...» (53). Os da segunda categoria, são os «que literalmente enfeitavam cabo de colher de pau» (53). A terceira categoria é composta de membros, «peripatética academia [aos quais] se podia aplicar estes qualificativos: divinos e luminosos, aristocráticos artífices do absurdo. Eram como poetas puros, narradores perfeitos, cepilhando e polindo as vazias estruturas do nada» (54). «Para atingir esse estágio, o noviço carece de muita paciência, aplicação, humildade, modéstia. É preciso enfrentar a maledicência dos ocupados, vencer a delicadez e timidez, correr o risco de se ferir» (54). É nesta descrição que encontramos a espiral em contração -um pedaço de madeira vai diminuindo, «de caracol em caracol» (55) até atingir o nada. O nada aqui seria a chave deste labirinto -o ponto central diminutivo justaposto com o seu Donga Novais, ponto central aumentativo. No último bloco do livro, «Violetas e
caracóis», encontramos a espiral ossificada na forma de
caracóis, «seres hermafroditas, não tendo porém a
capacidade de se autofecundarem» (184). Com a descrição de
Luizinha cuidando dos seus caracóis -ela se torna helicultora, enquanto
balança os seus caracóis louros que lhe caem aos
ombros- encontramos a ossificação de todas as espirais do
texto.
Neste bloco encontramos outra vez o seu Donga Novais quando o Dr. Alcebíades procura a razão do ser «a dor do existir» (177). «E se procurasse o fantástico e pantemporal Dona Novais? Outro absurdo, ele não acreditava no mito, não levaria seus problemas à janela do sábio, proverbial e insone, memória e antevisão do futuro, à que todos recorriam para que Donga lhes recontasse os seus casos e desse uma nova ordenação à vida» (177). Assim Dourado desloca um dos centros da espiral -Donga Novais não resolve este caso. Vemos tambem a revisão dos carapinas do nada- o médico que já atingiu a sublime academia dos iniciados. No entanto, o nada também é deslocado e outro centro da espiral fica inútil. Finalmente, a espiral ossificada -o caracol- juntando todos os fios das espirais do texto, também desloca a sua concha espiralada deixando onde passa «um risco de verniz» (184). Voltando à interpretação de Cirlot, vemos as espirais deste texto sempre simbolizando o relacionamento dos círculos com um centro. Concluimos esta análise do texto voltando a tres proposições de Dourado sobre o labirinto em O Meu Mestre Imaginário: O labirinto para Dourado é a planta baixa que une o tempo e o espaço dentro de uma estrutura circular. A circularidade explica a narrativa. Violetas e caracóis apresenta um outro passo no projeto literário de Autran Dourado -projeto que tem como objetivo entender e interpretar a loucura humana. Estruturalmente, Dourado nos auxilia neste trajeto com uma planta baixa espiralada. Simbolicamente, a espiral aumenta, dimunue, e se ossifica perante o desenvolvimento da narrativa. Quando Milton Azevedo me convidou para participar nesta sessão, ele insistiu que o trabalho apresentado fosse um ensaio de crítica literária -este foi o meu objetivo principal neste ensaio. No entanto como mencionei no início, este é um trabalho em homenagem a Maria Isabel Abreu. Ao invéz de somente mencionar as ligações óbvias -Maria Isabel e Autran são dois mineiros (como aliás, foi a minha avó)- gostaria de mencionar brevemente alguns paralelos da nossa vida acadêmica com a planta baixa espiralada de Autran. A nossa vida acadêmica (diga-se o nosso texto) é também composta de blocos espaciais e temporais. Os personagens reaparecem numa intertextualidade impressionante seja no bloco AATSP ou no bloco Kentucky Foreign Language Conference ou no bloco ACTFL ou nos blocos SAMLA, SCMLA, NEMLA e outros LA. Os personagens representam tipos entre nós -poetas, críticos, juizes, psicanalistas, escritores. O nosso ofício, como o dos carapinas do nada é lento, prazeroso e muitas vezes absurdo. Quando nos reunimos em algum ponto dentro da nossa espiral, as vezes até temos rituais semelhantes ao do seu Bê P. Lima. «Como num circo ou num concero, após sustenida atenção, a respiração suspensa, a roda prorrompeu num coro de palmas» (55). Talvez um dos maiores paralelos seja que dentro da nossa loucura também temos centros -um Donga Novais, uma Maria Isabel Abreu- ao redor dos quais giramos dentro dos nossos círculos. Como os centros do nosso autor mineiro, os nossos centros também se deslocam e com eles as nossas espirais. Dentro das espirais algumas crescentes e algumas decrescentes aparecem novos personagens que conosco dão as suas viravoltas nesta loucura que chamamos o mundo acadêmico. OBRAS CITADAS
Buarque de Holanda Ferreira, Aurélio. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 2a. Edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira 1986. Cirlot, J. E. A Dictionary of Symbols. Trans. Jack Sage. London: Routledge & Kegan Paul, 1962. Dourado, Autran. «História de uma História». Uma Vida em Segredo. Rio de Janeiro: DIFEL, 1977. ___. O Meu Mestre Imaginário. Rio de Janeiro: Record, 1982. ___. Violetas e Caracóis. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. Neto, Geneton Moraes. «Intérprete da Loucura». Jornal do Brasil. 21 Novembro 1987: 8-9.
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