  Memórias póstumas de Brás
Cubas
Machado de Assis
Ao verme que primeiro roeu as frias
carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas
memórias póstumas
  Ao leitor
Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem
leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem
provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver
os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito,
dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu,
Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de
Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser.
Obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e
não é difícil antever o que poderá sair desse
conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas
aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola
não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado
da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas
colunas máximas da opinião.
Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o
primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e
longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o
que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o
processo extraordinário que empreguei na composição destas
Memórias, trabalhadas cá no outro
mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, aliás desnecessário
ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino
leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e
adeus.
Brás Cubas
  Capítulo 1
Óbito do Autor
Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo
princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu
nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo
nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente
método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor
defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a
segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.
Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no
intróito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o
Pentateuco.
Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira
do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha
uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro,
possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério
por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem
anúncios. Acresce que chovia -peneirava- uma chuvinha miúda,
triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um
daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa
idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova:
-«Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer
comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um
dos mais belos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas
gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe
funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói
à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um
sublime louvor ao nosso ilustre finado.»
Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte
apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à
cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o
undiscovered country de Hamlet, sem as
ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado
e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e
aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três
senhoras, minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, -a filha, um
lírio-do-vale, - e... Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi
quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima,
ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É
verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se
deixasse rolar pelo chão, convulsa. Nem o meu óbito era coisa
altamente dramática... Um solteirão que expira aos sessenta e
quatro anos, não parece que reúna em si todos os elementos de uma
tragédia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era
aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos
estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha
extinção.
-Morto! morto! dizia consigo.
É a imaginação dela, como as cegonhas que um
ilustre viajante viu desferirem o vôo desde o Ilisso às ribas
africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, -a
imaginação dessa senhora também voou por sobre os
destroços presentes até às ribas de uma África
juvenil... Deixá-la ir; lá iremos mais tarde; lá iremos
quando eu me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer
tranqüilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as
falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da
chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador
está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes
que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De
certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito,
com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a
consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o
corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.
Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a
pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha
morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia
é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.
  Capítulo 2
O emplasto
Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na
chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha
no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as
mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu
deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto,
estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X:
decifra-me ou devoro-te.
Essa idéia era nada menos que a invenção de um
medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar
a nossa melancólica humanidade. Na petição de
privilégio que então redigi, chamei a atenção do
governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia,
não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam
resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão
profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da
vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver
impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas
do remédio, estas três palavras:
Emplasto Brás Cubas. Para que
negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do
foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio,
porém, que esse talento me hão de reconhecer os
hábeis.
Assim, a minha idéia trazia duas faces, como as medalhas,
uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e
lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: -amor da glória.
Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o
amor da glória temporal era a perdição das almas, que
só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro
tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da
glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem,
e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.
Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao
emplasto.
  Capítulo 3
Genealogia
Mas, já que falei nos meus dois tios, deixa-me fazer aqui um
curto esboço genealógico.
O fundador de minha família foi um certo Damião
Cubas, que floresceu na primeira metade do século XVIII. Era tanoeiro de
ofício, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penúria
e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se
lavrador, plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas,
até que morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado
Luís Cubas. Neste rapaz é que verdadeiramente começa a
série de meus avós -dos avós que a minha família
sempre confessou-, porque o Damião Cubas era afinal de contas um
tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o Luís Cubas estudou em
Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos particulares do vice-rei conde
da Cunha.
Como este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria,
alegava meu pai, bisneto do Damião, que o dito apelido fora dado a um
cavaleiro, herói nas jornadas da Africa, em prêmio da
façanha que praticou arrebatando trezentas cubas aos mouros. Meu pai era
homem de imaginação; escapou à tanoaria nas asas de um
calembour. Era um bom caráter,
meu pai, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns
fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo?
Releva notar que ele não recorreu à inventiva senão depois
de experimentar a falsificação; primeiramente, entroncou-se na
família daquele meu famoso homônimo, o capitão-mor
Brás Cubas, que fundou a vila de São Vicente, onde morreu em
1592, e por esse motivo é que me deu o nome de Brás.
Opôs-se-lhe, porém, a família do capitão-mor, e foi
então que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas.
Vivem ainda alguns membros da minha família, minha sobrinha
Venância, por exemplo, o lírio-do-vale, que é a flor das
damas do seu tempo; vive o pai, o Cotrim, um sujeito que... Mas não
antecipemos os sucessos; acabemos de uma vez como nosso emplasto.
  Capítulo 4
A idéia fixa
A minha idéia, depois de tantas cabriolas,
constituíra-se idéia fixa. Deus te livre, leitor, de uma
idéia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho. Vê o
Cavour; foi a idéia fixa da unidade italiana que o matou. Verdade
é que Bismarck não morreu; mas cumpre advertir que a natureza
é uma grande caprichosa e a história uma eterna loureira.
Por exemplo, Suetônio deu-nos um Cláudio, que era um
simplório, -ou «uma abóbora» como lhe chamou
Sêneca, e um Tito, que mereceu ser as delícias de Roma. Veio
modernamente um professor e achou meio de demonstrar que dos dois
césares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi o
«abóbora» de Sêneca. E tu, madama Lucrécia,
flor dos Bórgias, se um poeta te pintou como a Messalina
católica, apareceu um Gregorovius incrédulo que te apagou muito
essa qualidade, e, se não vieste a lírio, também
não ficaste pântano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o
sábio.
Viva pois a história, a volúvel história que
dá para tudo; e, tomando à idéia fixa, direi que é
ela a que faz os varões fortes e os doidos; a idéia móbil,
vaga ou furta-cor é a que faz os Cláudios, -fórmula
Suetônio.
Era fixa a minha idéia, fixa como... Não me ocorre
nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pirâmides
do Egito, talvez a finada dieta germânica. Veja o leitor a
comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja
daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos
à parte narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio que
prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores, seus
confrades, e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa
dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem
já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente
filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona,
coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela,
e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.
Vamos lá; retifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto.
Deixemos a história com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de
nós pelejou a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão de
Augsburgo; pela minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é
só pela idéia de que Sua Alteza, com a mesma mão que
trancara o parlamento, teria imposto aos ingleses o emplasto Brás Cubas.
Não se riam dessa vitória comum da farmácia e do
puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande,
pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras
bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e flutuam à sombra
daquela, e não poucas vezes lhe sobrevivem? Mal comparando, é
como a arraia-miúda, que se acolhia à sombra do castelo-feudal;
caiu este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e
castelã... Não, a comparação não presta.
  Capítulo 5
Em que aparece a orelha de uma Senhora
Senão quando, estando eu ocupado em preparar e apurar a
minha invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e
não me tratei. Tinha o emplasto no cérebro; trazia comigo a
idéia fixa dos doidos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do
chão das turbas, e remontar ao céu, como uma águia
imortal, e não é diante de tão excelso espetáculo
que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia estava pior; tratei-me
enfim, mas incompletamente, sem método, nem cuidado, nem
persistência; tal foi a origem do mal que me trouxe à eternidade.
Sabem já que morri numa sexta-feira, dia aziago, e creio haver provado
que foi a minha invenção que me matou. Há
demonstrações menos lúcidas e não menos
triunfantes.
Não era impossível, entretanto, que eu chegasse a
galgar o cimo de um século, e a figurar nas folhas públicas,
entre macróbios. Tinha saúde e robustez. Suponha-se que, em vez
de estar lançando os alicerces de uma invenção
farmacêutica, tratava de coligir os elementos de uma
instituição política, ou de uma reforma religiosa. Vinha a
corrente de ar, que vence em eficácia o cálculo humano, e
lá se ia tudo. Assim corre a sorte dos homens.
Com esta reflexão me despedi eu da mulher, não direi
mais discreta, mas com certeza mais formosa entre as contemporâneas suas,
a anônima do primeiro capítulo, a tal, cuja
imaginação à semelhança das cegonhas do Ilisso...
Tinha então 54 anos, era uma ruína, uma imponente ruína.
Imagine o leitor que nos amamos, ela e eu, muitos anos antes e que um dia,
já enfermo, vejo-a assomar à porta da alcova...
  Capítulo 6
Chimène, qui l' eût dit? Rodrigue,qui
l'eût cru?
Vejo-a assomar à porta da alcova, pálida, comovida,
trajada de preto, e ali ficar durante um minuto, sem ânimo de entrar ou
detida pela presença de um homem que estava comigo. Da cama, onde jazia,
contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum
gesto. Havia já dois anos que nos não víamos, e eu via-a
agora não qual era, mas qual fora, quais fôramos ambos, porque um
Ezequias misterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Recuou o
sol, sacudi todas as misérias, e este punhado de pó, que a morte
ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que o tempo, que é
o ministro da morte. Nenhuma água de Juventa igualaria ali a simples
saudade.
Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da
felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e
cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras,
porque entre uma e outra dessas duas ilusões, melhor é a que se
gosta sem doer.
Não durou muito a evocação; a realidade
dominou logo; o presente expeliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em
algum canto deste livro, a minha teoria das edições humanas.O que
por agora importa saber é que Virgília -chamava-se
Virgília -entrou na alcova, firme, com a gravidade que lhe davam as
roupas e os anos, e veio até o meu leito. O estranho levantou-se e saiu.
Era um sujeito, que me visitava todos os dias para falar do câmbio, da
colonização e da necessidade de desenvolver a
viação férrea; nada mais interessante para um moribundo.
Saiu; Virgília deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos
a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dois grandes
namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos
depois; havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida
e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim
saciados.Virgília tinha agora a beleza da velhice, um ar austero e
maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela última vez, numa
festa de São João, na Tijuca; e porque era das que resistem
muito, só agora começavam os cabelos escuros a intercalar-se de
alguns fios de prata.
-Anda visitando os defuntos? Disse-lhe eu. -Ora, defuntos!
respondeu Virgília com um muxoxo. E depois de me apertar as mãos:
-Ando a ver se ponho os vadios para a rua.
Não tinha a carícia lacrimosa de outro tempo; mas a
voz era amiga e doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples
enfermeiro; podíamos falar um ao outro, sem perigo.Virgília
deu-me longas notícias de fora, narrando-as com graça, com um
certo travo de má língua, que era o sal da palestra; eu, prestes
a deixar o mundo, sentia um prazer satânico em mofar dele, em
persuadir-me que não deixava nada.
-Que idéias essas! Interrompeu-me Virgília um tanto
zangada. -Olhe que eu não volto mais. Morrer! Todos nós havemos
de morrer; basta estarmos vivos.
E vendo o relógio:
-Jesus! são três horas. Vou me embora
-Já?
-Já; virei amanhã ou depois.
-Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um
solteirão e a casa não tem senhoras...
-Sua mana?
-Há de vir cá passar uns dias, mas não pode
ser antes de sábado.
Virgília refletiu um instante, levantou os ombros e disse
com gravidade:
-Estou velha! Ninguém mais repara em mim. Mas, para cortar
dúvidas, virei com o Nhonhô.
Nhonhô era um bacharel, único filho de seu casamento,
que, na idade de cinco anos, fora cúmplice inconsciente de nossos
amores. Vieram juntos, dois dias depois, e confesso que, ao vê-los ali,
na minha alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu corresponder
logo às palavras afáveis do rapaz. Virgília adivinhou-me e
disse ao filho:
-Nhonhô, não repares nesse grande manhoso que
aí está; não quer falar para fazer crer que está
à morte.
Sorriu o filho, eu creio que também sorri, e tudo acabou em
pura galhofa, Virgília estava serena e risonha, tinha o aspecto das
vidas imaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse denunciar
nada; uma igualdade de palavra e de espírito, uma
dominação sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras.
Como tocássemos, casualmente, nuns amores ilegítimos, meio
secretos, meio divulgados, via-a falar com desdém e um pouco de
indignação da mulher de que se tratava, aliás sua amiga. O
filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquela palavra digna e forte, e eu
perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões, se Buffon
tivesse nascido gavião...
Era o meu delírio que começava.
  Capítulo 7
O delírio
Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio
delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o
leitor não é dado à contemplação destes
fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direito
à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe
digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça
durante uns vinte a trinta minutos.
Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo,
destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões
e confeitos: caprichos de mandarim.
Logo depois, senti-me transformado na
Suma Teologica de São Tomás,
impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e
estampas; idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e
ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e
cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília
decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.
Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um
hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se
por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se
tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe
disse que a viagem me parecia sem destino.
-Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos
séculos.
Insinuei que deveria ser muitíssimo longe; mas o
hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu, se é
que não fingiu uma dessas coisas; e, perguntando-lhe, visto que ele
falava, se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão,
retorquiu-me com um gesto peculiar a estes dois quadrúpedes: abanou as
orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura.
Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou
quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos
séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo
se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos
mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo. Como ia de
olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a
sensação de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma
ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com
efeito, abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa planície
branca de neve, com uma ou outra montanha de neve, vegetação de
neve, e vários animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos
um sol de neve. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta
ansiosa:
-Onde estamos?
-Já passamos o Éden.
-Bem; paremos na tenda de Abraão.
-Mas se nós caminhamos para trás! redargüiu
motejando a minha cavalgadura.
Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e
extravagante, o frio incômodo, a condução violenta, e o
resultado impalpável. E depois -cogitações de enfermo-
dado que chegássemos ao fim indicado, não era impossível
que os séculos, irritados com lhes devassarem a origem, me esmagassem
entre as unhas que deviam ser tão seculares como eles. Enquanto assim
pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos
nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais
tranqüilamente em torno de mim. Olhar somente; nada vi, além da
imensa brancura da neve, que desta vez invadira o próprio céu,
até ali azul. Talvez, a espaços, me aparecia uma ou outra planta,
enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O silêncio
daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das
coisas ficara estúpida diante do homem.
Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto
imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos
rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas
selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano,
porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita
vez diáfano. Estupefato, não disse nada, não cheguei
sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei
quem era e como se chamava: curiosidade de delírio.
-Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.
Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de
susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o
efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a
mudez das coisas externas.
Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata;
é sobretudo pela vida que se afirma. Vives: não quero outro
flagelo.
-Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para
certificar-me da existência.
-Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que
é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da
dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e
se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás
que queres viver.
Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me
pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só
então, pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto;
nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de
ódio ou ferocidade; a feição única, geral,
completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da
vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no
coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial,
havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual
me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.
-Entendeste-me? disse ela, no fim de algum tempo de mútua
contemplação.
-Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda,
tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é
verdade que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de
alienado, isto é, uma coisa vã, que a razão ausente
não pode reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu
conheço é só mãe e não inimiga; não
faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o
sepulcro E por que Pandora?
-Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos,
a esperança, consolação dos homens. Tremes?
-Sim; o teu olhar fascina-me.
-Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte,
e tu estás prestes a devolver
me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do
nada.
Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso
vale, afigurou-me que era o último som que chegava a meus ouvidos;
pareceu-me sentir a decomposição súbita do mim mesmo.
Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.
-Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes
de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do
espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos
torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a
quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior
benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime
idiota?
-Viver somente, não te peço mais nada. Quem me
pôs no coração este amor da vida, se não tu? e, se
eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?
-Porque já não preciso de ti. Não importa ao
tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é
forte, jocundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e
perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim,
egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo,
conservação. A onça mata o novilho porque o
raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho
é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.
Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os
olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe,
através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma
redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as
raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a
guerra dos apetites e dos ódios, a destruição
recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e
curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim
uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação
nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a
imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a
condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria
preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num
turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio
são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, -flagelos e
delícias,- desde essa coisa que se chama glória até essa
outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria,
e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça
que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a
pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a
melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho,
até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de
um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava
eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A
dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono
sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem,
flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de
uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de
impalpável, outro de improvável, outro de invisível,
cosidos todos a ponto precário, com a agulha da
imaginação; e essa figura, -nada menos que a quimera da
felicidade,- ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o
homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e
sumia-se, como uma ilusão.
Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de
angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e
não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, -de
um riso descompassado e idiota.
-Tens razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a
pena, -talvez monótona- mas vale a pena. Quando Job amaldiçoava o
dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de
cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me;
a coisa é divertida, mas digere-me.
A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver
os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as
gerações que se superpunham às gerações,
umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de
Cômodo, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma
força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo:
-«Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e
passará também, até o último, que me dará a
decifração da eternidade.» E fixei os olhos, e continuei a
ver as idades, que vinham chegando e passando, já então
tranqüilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre.
Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de
apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de
idéias novas, de novas ilusões; em cada um deles rebentavam as
verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais
tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário,
fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e
desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o
palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência,
que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecânico,
filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia
à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que
entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar,
enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e
atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio
de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável
como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma
rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia
enfim ver o último, -o último!; mas então já a
rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao
pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso
entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros
perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo, -menos o hipopótamo
que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir,
a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato.
Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da
alcova, com uma bola de papel...
  Capítulo 8
Razão contra Sandice
Já o leitor compreendeu que era a Razão que voltava
à casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as
palavras de Tartufo:
|
La maison est à moi, c'est à vous
d'en sortir.
|
Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas
alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha farão
despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que
lhe calejou a vergonha. Agora, se advertirmos no imenso número de casas
que ocupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas,
concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos
proprietários. No nosso caso, houve quase um distúrbio à
porta do meu cérebro, porque a adventícia não queria
entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o
que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no
sótão.
-Não, senhora, replicou a Razão, estou cansada de lhe
ceder sótãos, cansada e experimentada, o que você quer
é passar mansamente do sótão à sala de jantar,
daí à de visitas e ao resto.
-Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de
um mistério...
-Que mistério?
-De dois, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe
só uns dez minutos.
A Razão pôs-se a rir.
-Hás de ser sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa...
sempre a mesma coisa.
E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora;
depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas súplicas,
grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a língua de
fora, em ar de surriada, e foi andando...
  Capítulo 9
Transição
E vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a maior
transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou
em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão
pecado da juventude; não há juventude sem meninice; meninice
supõe nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem
esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma
juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor:
nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método,
sem a rigidez do método. Na verdade, era tempo. Que isto de
método, sendo, como é, uma coisa indispensável, todavia
é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco
à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da
vizinha fronteira, nem do inspetor de quarteirão. E como a
eloqüência, que há uma genuína e vibrante, de uma arte
natural e feiticeira, e outra tesa, engomada e chocha.Vamos ao dia 20 de
outubro.
  Capítulo 10
Naquele dia
Naquele dia, a árvore dos Cubas brotou uma graciosa flor.
Nasci; recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira minhota, que
se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de
fidalgos. Não é impossível que meu pai lhe ouvisse tal
declaração; creio, todavia, que o sentimento paterno é que
o induziu a gratificá-la com duas meias dobras. Lavado e enfaixado, fui
desde logo o herói da nossa casa. Cada qual prognosticava a meu respeito
o que mais lhe quadrava ao sabor. Meu tio João, o antigo oficial de
infantaria, achava-me um certo olhar de Bonaparte, coisa que meu pai não
pôde ouvir sem náuseas; meu tio Ildefonso, então simples
padre, farejava-me cônego.
-Cônego é o que ele há de ser, e não digo
mais por não parecer orgulho; mas não me admiraria nada se Deus o
destinasse a um bispado... É verdade, um bispado; não é
coisa impossível. Que diz você, mano Bento?
Meu pai respondia a todos que eu seria o que Deus quisesse; e
alçava-me ao ar, como se intentasse mostrar-me à cidade e ao
mundo; perguntava a todos se eu me parecia com ele, se era inteligente,
bonito...
Digo essas coisas por alto, segundo as ouvi narrar anos depois;
ignoro a mor parte dos pormenores daquele famoso dia. Sei que a
vizinhança veio ou mandou cumprimentar o recém-nascido, e que
durante as primeiras semanas muitas foram as visitas em nossa casa. Não
houve cadeirinha que não trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito
calção. Se não conto os mimos, os beijos, as
admirações, as bênçãos, é porque, se
os contasse, não acabaria mais o capítulo, e é preciso
acabá-lo.
Item, não posso dizer nada do meu batizado, porque nada me
referiram a tal respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas
festas do ano seguinte, 1806; batizei-me na Igreja de São Domingos, uma
terça-feira de março, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos
o coronel Rodrigues de Matos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas
famílias do norte e honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias,
outrora derramado na guerra contra Holanda. Cuido que os nomes de ambos foram
das primeiras coisas que aprendi; e certamente os dizia com muita graça,
ou revelava algum talento precoce, porque não havia pessoa estranha
diante de quem me não obrigassem a recitá-los.
-Nhonhô, diga a estes senhores como é que se chama seu
padrinho.
-Meu padrinho? é o Excelentíssimo Senhor coronel Paulo
Vaz Lobo César de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos; minha madrinha
é a Excelentíssima Senhora Dona Maria Luisa de Macedo Resende e
Sousa Rodrigues de Matos.
-É muito esperto o seu menino, exclamavam os ouvintes.
-Muito esperto, concordava meu pai; e os olhos babavam-lhe de
orgulho, e ele espalmava a mão sobre a minha cabeça, fitava-me
longo tempo, namorado, cheio de si.
Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do
tempo. Talvez por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar às
cadeiras, pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de pau.
-Só só, nhonhô, só só, dizia-me a
mucama. E eu, atraído pelo chocalho de lata, que minha mãe
agitava diante de mim, lá ia para a frente, cai aqui, cai acolá;
e andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.
  Capítulo 11
O menino é pai do homem
Cresci; e nisso é que a família não interveio;
cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os
gatos são menos matreiros, e, com certeza, as magnólias
são menos inquietas do que eu era na minha infância. Um poeta
dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos
alguns lineamentos do menino.
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de «menino
diabo»; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais
malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por
exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma
colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o
malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito
da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que
estragara o doce «por pirraça»; e eu tinha apenas seis anos.
Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha
as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de
freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o,
dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, -algumas vezes gemendo,- mas
obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um -«ai,
nhonhô!»- ao que eu retorquia: -«Cala a boca, besta!»-
Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves,
puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das
matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um
gênio indócil, mas devo crer que eram também
expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em
grande admiração; e se às vezes me repreendia, à
vista de gente, fazia o por simples formalidade: em particular dava-me
beijos.
Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha
vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os
chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor dos
homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os
chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras.
Outrossim, afeiçoei-me à contemplação
da injustiça humana, inclinei-me a atenuá-la, a
explicá-la, a classificá-la por partes, a entendê-la,
não segundo um padrão rígido, mas ao sabor das
circunstâncias e lugares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo,
fazia-me decorar alguns preceitos e orações; mas eu sentia que,
mais do que as orações, me governavam os nervos e o sangue, e a
boa regra perdia o espírito, que a faz viver, para se tomar uma
vã fórmula. De manhã, antes do mingau, e de noite, antes
da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como eu perdoava aos meus
devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma grande maldade, e meu
pai, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na cara, e exclamava a rir:
Ah! brejeiro! ah! brejeiro!
Sim, meu pai adorava-me. Minha mãe era uma senhora fraca, de
pouco cérebro e muito coração, assaz crédula,
sinceramente piedosa, -caseira, apesar de bonita, e modesta, apesar de
abastada; temente às trovoadas e ao marido. O marido era na terra o seu
deus. Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha
educação, que, se tinha alguma coisa boa, era no geral viciosa,
incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio cônego fazia às vezes
alguns reparos ao irmão; dizia-lhe que ele me dava mais liberdade do que
ensino e mais afeição do que emenda; mas meu pai respondia que
aplicava na minha educação um sistema inteiramente superior ao
sistema usado; e por este modo, sem confundir o irmão, iludia-se a si
próprio.
De envolta com a transmissão e a educação,
houve ainda o exemplo estranho, o meio doméstico. Vimos os pais; vejamos
os tios. Um deles, o João, era um homem de língua solta, vida
galante, conversa picaresca. Desde os onze anos entrou a admitir-me às
anedotas reais ou não, eivadas todas de obscenidade ou imundície.
Não me respeitava a adolescência, como não respeitava a
batina do irmão; com a diferença que este fugia logo que ele
enveredava por assunto escabroso. Eu não; deixava-me estar, sem entender
nada, a princípio, depois entendendo e enfim achando-lhe graça.
No fim de certo tempo, quem o procurava era eu; e ele gostava muito de mim,
dava-me doces, levava-me a passeio. Em casa, quando lá ia passar alguns
dias, não poucas vezes me aconteceu achá-lo, no fundo da
chácara, no lavadouro, a palestrar com as escravas que batiam roupa;
aí é que era um desfiar de anedotas, de ditos, de perguntas, e um
estalar de risadas, que ninguém podia ouvir, porque o lavadouro ficava
muito longe de casa. As pretas, com uma tanga no ventre, a
arregaçar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do tanque, outras
fora, inclinadas sobre as peças de roupa, a batê-las, a
ensaboá-las, a torcê-las, iam ouvindo e redargüindo às
pilhérias do tio João, e a comentá-las de quando em quando
com esta palavra:
-Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo!
Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e
pureza; tais dotes, contudo, não realçavam um espírito
superior, apenas compensavam um espírito medíocre. Não era
homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado externo, a
hierarquia, as preeminências, as sobrepelizes, as circunflexões.
Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do
que uma infração dos mandamentos. Agora, a tantos anos de
distância, não estou certo se ele poderia atinar facilmente com um
trecho de Tertuliano, ou expor, sem titubear, a história do
símbolo de Nicéia; mas ninguém, nas festas cantadas, sabia
melhor o número e caso das cortesias que se deviam ao oficiante.
Cônego foi a única ambição de sua vida; e dizia de
coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso,
severo nos costumes, minucioso na observância das regras, frouxo,
acanhado, subalterno, possuía algumas virtudes, em que era exemplar, mas
carecia absolutamente da força de as incutir, de as impor aos
outros.
Não digo nada de minha tia materna, Dona Emerenciana, e
aliás era a pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa
diferençava-se grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa
companhia, uns dois anos. Outros parentes e alguns íntimos não
merecem a pena de ser citados; não tivemos uma vida comum, mas
intermitente, com grandes claros de separação. O que importa
é a expressão geral do meio doméstico, e essa aí
fica indicada, -vulgaridade de caracteres, amor das aparências
rutilantes, do arruído, frouxidão da vontade, domínio do
capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta
flor.
  Capítulo 12
Um episódio de 1814
Mas eu não quero passar adiante, sem contar sumariamente um
galante episódio de 1814; tinha nove anos.
Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o
esplendor da glória e do poder; era imperador e granjeara inteiramente a
admiração dos homens. Meu pai, que à força de
persuadir os outros da nossa nobreza acabara persuadindo-se a si
próprio, nutria contra ele um ódio puramente mental. Era isso
motivo de renhidas contendas em nossa casa, porque meu tio João,
não sei se por espírito de classe e simpatia de oficio, perdoava
no déspota o que admirava no general, meu tio padre era
inflexível contra o corso, os outros parentes dividiam-se; daí as
controvérsias e as rusgas.
Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de
Napoleão, houve naturalmente grande abalo em nossa casa, mas nenhum
chasco ou remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo público,
julgaram mais decoroso o silêncio; alguns foram além e bateram
palmas. A população, cordialmente alegre, não regateou
demonstrações de afeto à real família; houve
iluminações, salvas,
Te Deum, cortejo e
aclamações. Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu
padrinho me dera no dia de Santo Antônio; e, francamente, interessava-me
mais o espadim do que a queda de Bonaparte. Nunca me esqueceu esse
fenômeno. Nunca mais deixei de pensar comigo que o nosso espadim é
sempre maior do que a espada de Napoleão. E notem que eu ouvi muito
discurso, quando era vivo, li muita página rumorosa de grandes
idéias e maiores palavras, mas não sei por que, no fundo dos
aplausos que me arrancavam da boca, lá ecoava alguma vez este conceito
de experimentado:
-Vai-te embora, tu só cuidas do espadim.
Não se contentou a minha família em ter um
quinhão anônimo no regozijo público; entendeu oportuno e
indispensável celebrar a destituição do imperador com um
jantar, e tal jantar que o ruído das aclamações chegasse
aos ouvidos de Sua Alteza, ou quando menos, de seus ministros. Dito e
feito.Veio abaixo toda a velha prataria, herdada do meu avô Luís
Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras da Índia;
matou-se um capado; encomendaram-se às madres da Ajuda as compotas e
marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas, escadas,
castiçais, arandelas, as vastas mangas de vidro, todos os aparelhos do
luxo clássico.
Dada a hora, achou-se reunida uma sociedade seleta, o juiz de fora,
três ou quatro oficiais militares, alguns comerciantes e letrados,
vários funcionários da administração, uns com suas
mulheres e filhas, outros sem elas, mas todos comungando no desejo de atolar a
memória de Bonaparte no papo de um peru. Não era um jantar, mas
um
Te Deum, foi o que pouco mais ou menos
disse um dos letrados presentes, o Doutor Vilaça, glosador insigne, que
acrescentou aos pratos de casa o acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse
ontem, lembra-me de o ver erguer-se, com a sua longa cabeleira de rabicho,
casaca de seda, uma esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse
o mote, e, repetido o mote, cravar os olhos na testa de uma senhora, depois
tossir, alçar a mão direita, toda fechada, menos o dedo
índice, que apontava para o teto; e, assim posto e composto, devolver o
mote glosado. Não fez uma glosa, mas três; depois jurou aos seus
deuses não acabar mais. Pedia um mote, davam-lho, ele glosava-o
prontamente, e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras
presentes não pôde calar a sua grande admiração.
-A senhora diz isso, retorquia modestamente o Vilaça, porque
nunca ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do século, em Lisboa. Aquilo
sim! que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no
botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Imenso talento o
do Bocage! Era o que me dizia, há dias, a Senhora duquesa de
Cadaval...
E estas três palavras últimas, expressas com muita
ênfase, produziram em toda a assembléia um frêmito de
admiração e pasmo. Pois esse homem tão dado, tão
simples, além de pleitear com poetas, discreteava com duquesas! Um
Bocage e uma Cadaval! Ao contato de tal homem, as damas sentiam-se superfinas;
os varões olhavam-no com respeito, alguns com inveja, não raros
com incredulidade. Ele, entretanto, ia caminho, a acumular adjetivo sobre
adjetivo, advérbio sobre advérbio, a desfiar todas as rimas de
tirano e de usurpador. Era à sobremesa;
ninguém já pensava em comer. No intervalo das glosas, corria um
burburinho alegre, um palavrear de estômagos satisfeitos; os olhos moles
e úmidos, ou vivos e cálidos, espreguiçavam-se ou
saltitavam de uma ponta à outra da mesa, atulhada de doces e frutas,
aqui o ananás em fatias, ali o melão em talhadas, as compoteiras
de cristal deixando ver o doce de coco, finamente ralado, amarelo como uma
gema, -ou então o melado escuro e grosso, não longe do queijo e
do cará. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado, um riso
de família, vinha quebrar a gravidade política do banquete. No
meio do interesse grande e comum, agitavam-se também os pequenos e
particulares. As moças falavam das modinhas que haviam de cantar ao
cravo, e do minuete e do solo inglês; nem faltava matrona que prometesse
bailar um oitavado de compasso, só para mostrar como folgara nos seus
bons tempos de criança. Um sujeito, ao pé de mim, dava a outro
notícia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo cartas que
recebera de Luanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia ter já
negociado cerca de quarenta cabeças, e outra carta em que...Trazia-as
justamente na algibeira, mas não as podia ler naquela ocasião. O
que afiançava é que podíamos contar, só nessa
viagem, uns cento e vinte negros, pelo menos.
-Trás... trás... trás... fazia o Vilaça
batendo com as mãos uma na outra. O rumor cessava de súbito, como
um estacado de orquestra, e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem
ficava longe aconcheava a mão atrás da orelha para não
perder palavra; a mor parte, antes mesmo da glosa, tinha já um meio riso
de aplauso, trivial e cândido.
Quanto a mim, lá estava, solitário e deslembrado, a
namorar uma certa compota da minha paixão. No fim de cada glosa ficava
muito contente, esperando que fosse a última, mas não era, e a
sobremesa continuava intacta. Ninguém se lembrava de dar a primeira voz.
Meu pai, à cabeceira, saboreava a goles extensos a alegria dos convivas,
mirava-se todo nos carões alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se
com a familiaridade travada entre os mais distantes espíritos, influxo
de um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota para ele e
dele para a compota, como a pedir-lhe que ma servisse; mas fazia-o em
vão. Ele não via nada; via-se a si mesmo. E as glosas
sucediam-se, como bátegas d'água, obrigando-me a recolher o
desejo e o pedido. Pacientei quanto pude; e não pude muito. Pedi em voz
baixa o doce; enfim, bradei, berrei, bati com os pés. Meu pai, que seria
capaz de me dar o sol, se eu lho exigisse, chamou um escravo para me servir o
doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancara-me da cadeira e entregara-me a
uma escrava, não obstante os meus gritos e repelões.
Não foi outro o delito do glosador: retardara a compota e
dera causa à minha exclusão. Tanto bastou para que eu cogitasse
uma vingança, qualquer que fosse, mas grande e exemplar, coisa que de
alguma maneira o tornasse ridículo. Que ele era um homem grave o Doutor
Vilaça, medido e lento, quarenta e sete anos, casado e pai. Não
me contentava o rabo de papel nem o rabicho da cabeleira; havia de ser coisa
pior. Entrei a espreitá-lo, durante o resto da tarde, a segui-lo, na
chácara aonde todos desceram a passear. Vio-o conversando com Dona
Eusébia, irmã do sargento-mor Domingues, uma robusta donzelona,
que se não era bonita, também não era feia.
-Estou muito zangada com o senhor, dizia ela.
-Por quê?
-Porque... não sei por quê... porque é a minha
sina...creio às vezes que é melhor morrer...
Tinham penetrado numa pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O
Vilaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volúpia.
-Deixe-me, disse ela.
-Ninguém nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéias
são essas! Você sabe que eu morrerei também... que digo?...
morro todos os dias, de paixão, de saudades...
Dona Eusébia levou o lenço aos olhos. O glosador
vasculhava na memória algum pedaço literário e achou este,
que mais tarde verifiquei ser de uma das óperas do Judeu:
-Não chores, meu bem; não queiras que o dia
amanheça com duas auroras.
Disse isto; puxou-a para si; ela resistiu um pouco, mas deixou-se
ir; uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais
medroso dos beijos.
-O Doutor Vilaça deu um beijo em Dona Eusébia! bradei
eu correndo pela chácara.
Foi um estouro esta minha palavra; a estupefação
imobilizou a todos; os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se
sorrisos, segredos, à socapa, as mães arrastavam as filhas,
pretextando o sereno. Meu pai puxou-me as orelhas, disfarçadamente,
irritado deveras com a indiscrição; mas, no dia seguinte, ao
almoço, lembrando o caso, sacudiu-me o nariz, a rir: Ah! brejeiro! ah!
brejeiro!
  Capítulo 13
Um salto
Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola, a
enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas,
apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde
quer que fosse propício a ociosos.
Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as
lições árduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui
leve. Só era pesada a palmatória, e ainda assim... Ó
palmatória, terror dos meus dias pueris, tu que foste o
compelle intrare com que um velho
mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a
prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória,
tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com
a minha alma imberbe, as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele
espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que
querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição
de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que
é a mestra das últimas letras; com a diferença que tu, se
me metias medo, nunca me meteste zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com
as tuas chinelas de couro branco, capote, lenço na mão, calva
à mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma
pitada inicial, e chamar-nos depois à lição. E fizeste
isto durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual, metido numa
casinha da Rua do Piolho, sem enfadar o mundo com atua mediocridade, até
que um dia deste o grande mergulho nas trevas, e ninguém te chorou,
salvo um preto velho, -ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos da
escrita.
Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta
página: Ludgero Barata, -um nome funesto, que servia aos meninos de
eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era
cruel com o pobre homem. Duas, três vezes por semana, havia de lhe deixar
na algibeira das calças, -umas largas calças de enfiar-, ou na
gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se ele a
encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos
chamejantes, dizia-nos os últimos nomes: éramos sevandijas,
capadócios, malcriados, moleques. -Uns tremiam, outros rosnavam; o
Quincas Borba, porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no
ar.
Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha infância, nunca em
toda a minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era a
flor, e não já da escola, senão de toda a cidade. A
mãe, viúva, com alguma coisa de seu, adorava o filho e trazia-o
amimado, asseado, enfeitado, com um vistoso pajem atrás, um pajem que
nos deixava gazear a escola, ir caçar ninhos de pássaros, ou
perseguir lagartixas nos morros do Livramento e da Conceição, ou
simplesmente arruar, à toa, como dois peraltas sem emprego. E de
imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do
Espírito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele escolhia sempre
um papel de rei, ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha
garbo o traquinas, e gravidade, certa magnificência nas atitudes, nos
meneios. Quem diria que... Suspendamos a pena; não adiantemos os
sucessos. Vamos de um salto a 1822, data da nossa independência
política, e do meu primeiro cativeiro pessoal.
  Capítulo 14
Primeiro beijo
Tinha dezessete anos; pungia-me um buçozinho que eu forcejava
por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha
feição verdadeiramente máscula. Como ostentasse certa
arrogância, não se distinguia bem se era uma criança com
fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo
garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas,
chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo,
veloz, como o corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar ao
castelo medieval, para dar com eles nas ruas do nosso século. O pior
é que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à
margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por
compaixão, o transportou para os seus livros.
Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e
facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte
pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas
porém a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga;
este livro é casto, ao menos na intenção; na
intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou
se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola.
Marcela, a «linda Marcela», como lhe chamavam os rapazes do tempo.
E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das
Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a
opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri,
vítima da invasão francesa, ferido, encarcerado, espingardeado,
quando ela tinha apenas doze anos.
Cosas de España. Quem quer que
fosse, porém, o pai, letrado ou hortelão, a verdade é que
Marcela não possuía a inocência rústica, e mal
chegava a entender a moral do código. Era boa moça,
lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do
tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e
berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano,
ela morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico,
-uma pérola.
Via-a, pela primeira vez, no Rossio Grande, na noite das
luminárias, logo que constou a declaração da
independência, uma festa de primavera, um amanhecer da alma
pública. Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da
infância, com todos os arrebatamentos da juventude. Via-a sair de uma
cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma
coisa que nunca achara nas mulheres puras. -Segue-me, disse ela ao pajem. E eu
seguia-a, tão pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada,
deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho,
chamaram-lhe «linda Marcela», lembrou-me que ouvira tal nome a meu
tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.
Três dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria
ir a uma ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcela. O
Xavier, com todos os seus tubérculos, presidia ao banquete noturno, em
que eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para a dona da casa.
Que gentil que estava a espanhola! Havia mais uma meia dúzia de
mulheres, -todas de partido-, e bonitas, cheias de graça, mas a
espanhola... O entusiasmo, alguns goles de vinho, o gênio imperioso,
estouvado, tudo isso me levou a fazer uma coisa única; à
saída, à porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante,
e tornei a subir as escadas.
-Esqueceu alguma coisa? perguntou Marcela de pé no
patamar.
-O lenço.
Ela ia abrir-me caminho para tornar à sala; eu segurei-lhe
nas mãos, puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ela
disse alguma coisa, se gritou, se chamou alguém; não sei nada;
sei que desci outra vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como
um ébrio.
  Capítulo 15
Marcela
Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração
de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno
da paciência, a um tempo manhoso e teimoso. Que, em verdade, há
dois meios de granjear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de
Europa, e o insinuativo, como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Dânae,
três inventos do padre Zeus, que, por estarem fora da moda, aí
ficam trocados no cavalo e no asno. Não direi as traças que urdi,
nem as peitas, nem as alternativas de confiança e temor, nem as esperas
baldadas, nem nenhuma outra dessas coisas preliminares. Afirmo-lhes que o asno
foi digno do corcel, -um asno de Sancho, deveras filósofo, que me levou
à casa dela, no fim do citado período; apeei-me, bati-lhe na anca
e mandei-o pastar.
Primeira comoção da minha juventude, que doce que me
foste! Tal devia ser, na criação bíblica, o efeito do
primeiro sol. Imagina tu esse efeito do primeiro sol, a bater de chapa na face
de um mundo em flor. Pois foi a mesma coisa, leitor amigo, e se alguma vez
contaste dezoito anos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.
Teve duas fases a nossa paixão, ou ligação, ou
qualquer outro nome, que eu de nomes não curo; teve a fase consular e a
fase imperial. Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que ele
jamais acreditasse dividir comigo o governo de Roma; mas, quando a credulidade
não pôde resistir à evidência, o Xavier depôs
as insígnias, e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi
a fase cesariana. Era meu universo; mas, ai triste! não o era de
graça. Foi-me preciso coligir dinheiro, multiplicá-lo,
inventá-lo. Primeiro explorei as larguezas de meu pai; ele dava-me tudo
o que eu lhe pedia, sem repreensão, sem demora, sem frieza; dizia a
todos que eu era rapaz e que ele o fora também. Mas a tal extremo chegou
o abuso, que ele restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais.
Então recorri a minha mãe, e induzi-a a desviar alguma coisa, que
me dava às escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso
último; entrei a sacar sobre a herança de meu pai, a assinar
obrigações, que devia resgatar um dia com usura.
Em verdade, dizia-me Marcela, quando eu lhe levava alguma seda,
alguma jóia; em verdade, você quer brigar comigo... Pois isto
é coisa que se faça... um presente tão caro...
E, se era jóia, dizia isto a contemplá-la entre os
dedos, a procurar melhor luz, a ensaiá-la em si, e a rir, e a beijar-me
com uma reincidência impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-lhe
a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vê-la assim. Gostava
muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia obter;
Marcela juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro, cuja chave
ninguém nunca jamais soube onde ficava; escondia-a por medo dos
escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era própria. Eram
sólidos e bons os móveis, de jacarandá lavrado, e todas as
demais alfaias, espelhos, jarras, baixela, -uma linda baixela da Índia,
que lhe doara um desembargador. Baixela do diabo, deste-me grandes
repelões aos nervos. Disse-o muita vez à própria dona;
não lhe dissimulava o tédio que me faziam esses e outros despojos
dos seus amores de antanho. Ela ouvia-me e ria, com -expressão
cândida,- cândida e outra coisa, que eu nesse tempo não
entendia bem, mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso misto, como
devia ter a criatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare com
um serafim de Klopstock. Não sei se me explico. E porque tinha
notícia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os açular
mais. Assim foi que um dia, como eu lhe não pudesse dar certo colar, que
ela vira num joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que o nosso
amor não precisava de tão vulgar estímulo.
-Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste
idéia, concluiu ameaçando-me com o dedo.
E logo, súbita como um passarinho, espalmou as mãos,
cingiu-me com elas o rosto, puxou-me a si e fez um trejeito gracioso, um momo
de criança. Depois, reclinada na marquesa, continuou a falar daquilo,
com simplicidade e franqueza. Jamais consentiria que lhe comprassem os afetos.
Vendera muita vez as aparências, mas a realidade, guardava-a para poucos.
Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ela amara deveras, dois anos antes,
só a custo conseguia dar-lhe alguma coisa de valor, como me acontecia a
mim; ela só lhe aceitava sem relutância os mimos de escasso
preço, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de festas.
-Esta cruz...
Dizia isto, metendo a mão no seio e tirando uma cruz fina,
de ouro, presa a uma fita azul e pendurada ao colo.
-Mas essa cruz, observei eu, não me disseste que era teu pai
que...
Marcela abanou a cabeça com um ar de lástima:
-Não percebeste que era mentira, que eu dizia isso para te
não molestar? Vem cá,
chiquito, não sejas assim desconfiado
comigo... Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos
separarmos...
-Não digas isso! bradei eu.
-Tudo cessa! Um dia...
Não pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a
voz; estendeu as mãos, tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e
sussurrou-me baixo ao ouvido:
-Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lho com os olhos úmidos.
No dia seguinte levei-lhe o colar que havia recusado.
-Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.
Marcela teve primeiro um silêncio indignado, depois fez um
gesto magnífico: tentou atirar o colar à rua. Eu retive-lhe o
braço; pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que
ficasse com a jóia. Sorriu e ficou.
Entretanto, pagava-me à farta os sacrifícios;
espreitava os meus mais recônditos pensamentos; não havia desejo a
que não acudisse com alma, sem esforço, por uma espécie de
lei da consciência e necessidade do coração. Nunca o desejo
era razoável, mas um capricho puro, uma criancice, vê-la trajar de
certo modo, com tais e tais enfeites, este vestido e não aquele, ir a
passeio ou outra coisa assim, e ela cedia a tudo, risonha e palreira.
-Você é das Arábias, dizia-me.
E ia pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma
obediência de encantar.
  Capítulo 16
Uma Reflexão Imoral
Ocorre-me uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo
uma correção de estilo. Cuido haver dito, no capítulo 14,
que Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia.Viver
não é a mesma coisa que morrer; assim o afirmam todos os
joalheiros desse mundo, gente muito vista na gramática. Bons joalheiros,
que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um
terço ou um quinto do universal comércio dos
corações. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia
fazer, a qual é ainda mais obscura do que imoral, porque não se
entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bela
testa do mundo não fica menos bela, se a cingir um diadema de pedras
finas; nem menos bela, nem menos amada. Marcela, por exemplo, que era bem
bonita, Marcela amou-me...
  Capítulo 17
Do trapézio e outras coisas
...Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de
réis; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos,
sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho
juvenil.
Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar uma
universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem sério e
não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:
-Gatuno, sim, senhor; não é outra coisa um filho que me faz
isto...
Sacou da algibeira os meus títulos de dívida,
já resgatados por ele, e sacudiu-mos na cara. -Vês, peralta?
é assim que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e
meus avós ganhamos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas?
Pelintra! Desta vez ou tomas juízo, ou ficas sem coisa nenhuma.
Estava furioso, mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado,
e nada opus à ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava a
idéia de levar Marcela comigo. Fui ter com ela; expus-lhe a crise e
fiz-lhe a proposta. Marcela ouviu-me com os olhos no ar, sem responder logo;
como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a
Europa.
-Por que não?
-Não posso, disse ela com ar dolente; não posso ir
respirar aqueles ares, enquanto me lembrar de meu pobre pai, morto por
Napoleão...
-Qual deles: o hortelão ou o advogado?
Marcela franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes;
depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lho a
mucama, numa salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos. Marcela
ofereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar com a mão no
copo e na salva; entornou-lhe o líquido no regaço, a preta deu um
grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a sós, derramei todo o
desespero de meu coração; disse-lhe que ela era um monstro, que
jamais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a
desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos
descompostos. Marcela deixara-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes,
fria como um pedaço de mármore. Tive ímpetos de a
estrangular; de a humilhar ao menos, subjugando-a a meus pés. Ia talvez
fazê-lo; mas a ação trocou-se noutra; fui eu que me atirei
aos pés dela, contrito e súplice; beijei-lhos, recordei aqueles
meses da nossa felicidade solitária, repeti-lhe os nomes queridos de
outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos dela,
apertando-lhe muito as mãos; ofegante desvairado, pedi-lhe com
lágrimas que me não desamparasse... Marcela esteve alguns
instantes a olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me
desviou e, com um ar enfastiado:
-Não me aborreça, disse.
Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a
alcova. -Não! bradei eu; não hás de entrar... não
quero... Ia a lançar-lhe as mãos: era tarde; ela entrara e
fechara-se.
Saí desatinado; gastei duas mortais horas em vaguear pelos
bairros mais excêntricos e desertos, onde fosse difícil dar
comigo. Ia mastigando o meu desespero, com uma espécie de gula
mórbida; evocava os dias, as horas, os instantes de delírio, e
ora me comprazia em crer que eles eram eternos, que tudo aquilo era um
pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo, tentava rejeitá-los de mim,
como um fardo inútil. Então resolvia embarcar imediatamente para
cortar a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a idéia de que
Marcela, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e remorsos. Que ela
amara-me a tonta, devia de sentir alguma coisa, uma lembrança qualquer,
como do alferes Duarte... Nisto, o dente do ciúme enterrava-me no
coração; e toda a natureza me bradava que era preciso levar
Marcela comigo.
-Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com
uma punhada.
Enfim, tive uma idéia salvadora... Ah! trapézio dos
meus pecados, trapézio das concepções abstrusas! A
idéia salvadora trabalhou nele, como a do emplasto (capítulo 2).
Era nada menos que fasciná-la, fasciná-la muito,
deslumbrá-la, arrastá-la; lembrou-me pedir-lhe por um meio mais
concreto do que a súplica. Não medi as conseqüências:
recorri a um derradeiro empréstimo; fui à Rua dos Ourives,
comprei a melhor jóia da cidade, três diamantes grandes,
encastoados num pente de marfim; corri à casa de Marcela.
Marcela estava reclinada numa rede, o gesto mole e cansado, uma das
pernas pendentes, a ver-lhe o pezinho calçado de meia de seda, os
cabelos soltos, derramados, o olhar quieto e sonolento.
-Vem comigo, disse eu, arranjei recursos... temos muito dinheiro,
terás tudo o que quiseres... Olha, toma.
E mostrei-lhe o pente com os diamantes. Marcela teve um leve
sobressalto, ergueu metade do corpo, e, apoiada num cotovelo, olhou para o
pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha-se
dominado. Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabelos, coligi-os,
enlacei-os à pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e
rematei-o com o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhes
as madeixas, abaixei-as de um lado, busquei alguma simetria naquela desordem,
tudo com uma minuciosidade e um carinho de mãe.
-Pronto, disse eu.
-Doido! foi a sua primeira resposta.
A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrifício com
um beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a
matéria e o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a
cabeça, com um ar de repreensão:
-Ora você! dizia.
Vens comigo?
Marcela refletiu um instante. Não gostei da expressão
com que passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a jóia;
mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ela me respondeu
resolutamente:
-Vou. Quando embarcas?
-Daqui a dois ou três dias.
-Vou.
Agradeci-lho de joelhos. Tinha achado a minha Marcela dos primeiros
dias, e disse-lho; ela sorriu, e foi guardar a jóia, enquanto eu descia
a escada.
  Capítulo 18
Visão do corredor
No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns
instantes para respirar, apalpar-me, convocar as idéias dispersas,
reaver-me enfim no meio de tantas sensações profundas e
contrárias. Achava-me feliz. Certo é que os diamantes
corrompiam-me um pouco a felicidade; mas não é menos certo que
uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes. E depois eu
confiava na minha boa Marcela; podia ter defeitos, mas amava-me...
-Um anjo! murmurei eu olhando para o teto do corredor.
E aí, como um escárnio, vi o olhar de Marcela, aquele
olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual
chispava de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o
meu. Pobre namorado das
Mil e uma noites! Vi-te ali mesmo correr
atrás da mulher do vizir, ao longo da galeria, ela a acenar-te com a
posse, e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde
saíste à rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram.
Então pareceu-me que o corredor de Marcela era a alameda, e que a rua
era a de Bagdá. Com efeito, olhando para a porta, vi na calçada
três dos correeiros, um de batina, outro de libré, outro à
paisana, os quais todos três entraram no corredor, tomaram-me pelos
braços, meteram-me numa sege, meu pai à direita, meu tio
cônego à esquerda, o da libré na boléia, e lá
me levaram à casa do intendente de polícia, donde fui
transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se resisti;
mas toda a resistência era inútil.
Três dias depois segui barra fora, abatido e mudo. Não
chorava sequer, tinha uma idéia fixa... Malditas idéias fixas! A
dessa ocasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de
Marcela.
  Capítulo 19
A bordo
Éramos onze passageiros, um homem doido, acompanhado pela
mulher, dois rapazes que iam a passeio, quatro comerciantes e dois criados. Meu
pai recomendou-me a todos, começando pelo capitão do navio, que
aliás tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais, levava
a mulher tísica em último grau.
Não sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu
fúnebre projeto, ou se meu pai o pôs de sobreaviso; sei que
não me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda a parte. Quando
não podia estar comigo, levava-me para a mulher. A mulher ia quase
sempre numa camilha rasa, a tossir muito, e a afiançar que me havia de
mostrar os arredores de Lisboa. Não estava magra, estava transparente;
era impossível que não morresse de uma hora para outra. O
capitão fingia não crer na morte próxima, talvez por
enganar-se a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que me importava a
mim o destino de uma mulher tísica, no meio do oceano? O mundo para mim
era Marcela.
Uma noite, logo no fim de uma semana, achei ensejo propício
para morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que, junto
à amurada, tinha os olhos fitos no horizonte.
-Algum temporal? disse eu.
-Não, respondeu ele estremecendo; não; admiro o
esplendor da noite. Veja; está celestial!
O estilo desmentia da pessoa, assaz rude e aparentemente alheia a
locuções rebuscadas. Fitei-o; ele pareceu saborear o meu espanto.
No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua,
perguntando-me por que não fazia uma ode à noite; respondi-lhe
que não era poeta. O capitão rosnou alguma coisa, deu dois
passos, meteu a mão no bolso, sacou um pedaço de papel, muito
amarrotado; depois, à luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a
liberdade da vida marítima. Eram versos dele.
-Que tal?
Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que ele me apertou a
mão com muita força e muitos agradecimentos; logo depois
recitou-me dois sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da parte
da mulher: -Lá vou, disse ele; e recitou-me o terceiro soneto, com
pausa, com amor.
Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do
espírito os pensamentos maus; preferi dormir, que é modo interino
de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que meteu medo a
toda a gente, menos ao doido; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o
mandava buscar, numa berlinda; a morte de uma filha fora a causa da loucura.
Não, nunca me há de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no
meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a
bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pálido, cabelo arrepiado e
longo. Às vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia umas
cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito,
desesperadamente. A mulher não podia já cuidar dele; entregue ao
terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu. Enfim, a
tempestade amainou. Confesso que foi uma diversão excelente à
tempestade do meu coração. Eu, que meditava ir ter com a morte,
não ousei fitá-la quando ela veio ter comigo.
O capitão perguntou-me se tivera medo, se estivera em risco,
se não achara sublime o espetáculo: tudo isso com um interesse de
amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do mar; o capitão
perguntou-me se não gostava de idílios piscatórios; eu
respondi-lhe ingenuamente que não sabia o que era.
-Vai ver, respondeu.
E recitou-me um poemazinho, depois outro, -uma égloga,- e
enfim cinco sonetos, com os quais rematou nesse dia a confidência
literária. No dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o
capitão que só por motivos graves abraçara a
profissão marítima, porque a avó queria que ele fosse
padre, e com efeito possuía algumas letras latinas; não chegou a
ser padre, mas não deixou de ser poeta, que era a sua
vocação natural. Para prová-lo, recitou-me logo, de corpo
presente, uma centena de versos. Notei um fenômeno: os ademanes que ele
usava eram tais, que uma vez me fizeram rir; mas o capitão, quando
recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo, que não viu nem
ouviu nada. Os dias passavam, e as águas, e os versos, e com eles ia
também passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois
do almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não
chegasse ao fim da semana.
-Já! exclamei.
-Passou muito mal a noite.
Fui vê-la; achei-a, na verdade, quase moribunda, mas falando
ainda de descansar em Lisboa alguns dias, antes de ir comigo a Coimbra, porque
era seu propósito levar-me à universidade. Deixei-a consternado;
fui achar o marido a olhar para as vagas, que vinham morrer no costado do
navio, e tratei de o consolar; ele agradeceu-me, relatou-me a história
dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicação da mulher,
relembrou os versos que lhe fez, e recitou-mos. Neste ponto vieram
buscá-lo da parte dela; corremos ambos; era uma crise. Esse e o dia
seguinte foram cruéis; o terceiro foi o da morte; eu fugi ao
espetáculo, tinha-lhe repugnância. Meia hora depois encontrei o
capitão, sentado num molho de cabos, com a cabeça nas
mãos; disse-lhe alguma coisa de conforto.
-Morreu como uma santa, respondeu ele; e, para que estas palavras
não pudessem ser levadas à conta de fraqueza, ergueu-se logo,
sacudiu a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo.
-Vamos, continuou, entreguemo-la à cova que nunca mais se abre.
Efetivamente, poucas horas depois, era o cadáver
lançado ao mar, com as cerimônias do costume. A tristeza murchara
todos os rostos; o do viúvo trazia a expressão de um
cabeço rijamente lascado pelo raio. Grande silêncio. A vaga abriu
o ventre, acolheu o despojo, fechou-se, -uma leve ruga,- e a galera foi
andando. Eu deixei-me estar alguns minutos, à popa, com os olhos naquele
ponto incerto do mar em que ficava um de nós... Fui dali ter com o
capitão, para distraí-lo.
-Obrigado, disse-me ele compreendendo a intenção;
creia que nunca me esquecerei dos seus bons serviços. Deus é que
lhos há de pagar. Pobre Leocádia! tu te lembrarás de
nós no céu.
Enxugou com a manga uma lágrima importuna; eu busquei um
derivativo na poesia, que era a paixão dele. Falei-lhe dos versos, que
me lera, e ofereci-me para imprimi-los. Os olhos do capitão animaram-se
um pouco. -Talvez aceite, disse ele; mas não sei... são bem
frouxos versos. Jurei-lhe que não; pedi que os reunisse e mos desse
antes do desembarque.
-Pobre Leocádia! murmurou ele sem responder ao pedido. Um
cadáver... o mar... o céu... o navio...
No dia seguinte veio ler-me um epicédio composto de fresco,
em que estavam memoradas as circunstâncias da morte e da sepultura da
mulher; leu-mo com a voz comovida deveras, e a mão trêmula; no fim
perguntou-me se os versos eram dignos do tesouro que perdera.
-São, disse eu.
-Não haverá estro, ponderou ele, no fim de um
instante, mas ninguém me negará sentimento, se não
é que o próprio sentimento prejudicou a
perfeição...
-Não me parece; acho os versos perfeitos.
-Sim, eu creio que... Versos de marujo.
-De marujo poeta.
Ele levantou os ombros, olhou para o papel, e tornou a recitar a
composição, mas já então sem tremuras, acentuando
as intenções literárias, dando relevo às imagens e
melodia aos versos. No fim, confessou-me que era a sua obra mais acabada; eu
disse-lhe que sim; ele apertou-me muito a mão e predisse-me um grande
futuro.
  Capítulo 20
Bacharelo-me
Um grande futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido,
devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte misterioso e vago. Uma
idéia expelia outra, a ambição desmontava Marcela. Um
grande futuro? Talvez naturalista, literato, arqueólogo, banqueiro,
político ou até bispo, -bispo que fosse,- uma vez que fosse um
cargo, uma preeminência, uma grande reputação, uma
posição superior. A ambição, dado que fosse
águia, quebrou nessa ocasião o ovo, e desvendou a pupila fulva e
penetrante. Adeus, amores! adeus, Marcela! dias de delírio, jóias
sem preço, vida sem regime, adeus. Cá me vou às fadigas e
à glória; deixo-vos com as calcinhas da primeira idade.
E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A
universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as
muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a
solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa que me encheu
de orgulho e de saudades, -principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em
Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico
estróina, superficial, tumultuário e petulante, dado às
aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico,
vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições
escritas. No dia em que a universidade me atestou, em pergaminho, uma
ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro,
confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o
diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a
responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por ali fora
assaz desconsolado, mas sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade,
um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver, -de
prolongar a universidade pela vida adiante...
  Capítulo 21
O almocreve
Vai então, empacou o jumento em que eu vinha montado;
fustiguei-o, ele deu dois corcovos, depois mais três, enfim mais um, que
me sacudiu fora da sela, e com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou
preso no estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já
então, espantado, disparou pela estrada afora. Digo mal: tentou
disparar, e efetivamente deu dois saltos, mas um almocreve, que ali estava,
acudiu a tempo de lhe pegar na rédea e detê-lo, não sem
esforço nem perigo. Dominado o bruto, desvencilhei-me do estribo e
pus-me de pé.
-Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve. E era
verdade; se o juramento corre por ali fora, contundia-me deveras, e não
sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça partida,
uma congestão, qualquer transtorno cá dentro, e lá se me
ia a ciência em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo;
eu sentia-o no sangue que me agitava o coração. Bom almocreve!
Enquanto eu tornava à consciência de mim mesmo, ele cuidava de
consertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi dar-lhe
três moedas de ouro das cinco que trazia comigo; não porque tal
fosse o preço da minha vida, -essa era inestimável; mas porque
era uma recompensa digna da dedicação com que ele me salvou.
Está dito, dou-lhe as três moedas.
-Pronto, disse ele, apresentando-me a rédea da
cavalgadura.
-Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em
mim...
-Ora qual!
-Pois não é certo que ia morrendo?
-Se o jumento corre por aí fora, é possível;
mas, com a ajuda do Senhor, viu vosmecê que não aconteceu
nada.
Fui aos alforjes, tirei um colete velho, em cujo bolso trazia as
cinco moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva
a gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma.
Com efeito, uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de
alegria. Examinei-lhe a roupa; era um pobre-diabo, que nunca jamais vira uma
moeda de ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, via-a reluzir à luz do sol;
não a viu o almocreve, porque eu tinha lhe voltado as costas; mas
suspeitou-o talvez, entrou a falar ao jumento de um modo significativo;
dava-lhe conselhos, dizia-lhe que tomasse juízo, que o «senhor
doutor» podia castigá-lo; um monólogo paternal. Valha-me
Deus! até ouvi estalar um beijo: era o almocreve que lhe beijava a
testa.
-Olé! exclamei.
-Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a
olhar para a gente com tanta graça...
Ri-me, hesitei, meti-lhe na mão um cruzado em prata,
cavalguei o jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um
pouco incerto do efeito da pratinha. Mas a algumas braças de
distância, olhei para trás, o almocreve fazia-me grandes
cortesias, com evidentes mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim
mesmo; eu pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez demais. Meti os dedos no bolso do
colete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os vinténs
que eu devera ter dado ao almocreve, em lugar do cruzado em prata. Porque,
enfim, ele não levou em mira nenhuma recompensa ou virtude, cedeu a um
impulso natural, ao temperamento, aos hábitos do ofício; acresce
que a circunstância de estar, não mais adiante nem mais
atrás, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituí-lo
simples instrumento de Providência; e de um ou de outro modo, o
mérito do ato era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta
reflexão, chamei-me pródigo, lancei o cruzado à conta das
minhas dissipações antigas; tive (por que não direi
tudo?), tive remorsos.
  Capítulo 22
Volta ao Rio
Jumento de uma figa, cortaste-me o fio às reflexões.
Já agora não digo o que pensei dali até Lisboa, nem o que
fiz em Lisboa, na península e em outros lugares da Europa, da velha
Europa, que nesse tempo parecia remoçar. Não, não direi
que assisti às alvoradas do romantismo, que também eu fui fazer
poesia efetiva no regaço da Itália; não direi coisa
nenhuma.Teria de escrever um diário de viagem e não umas
memórias, como estas são, nas quais só entra a
substância da vida.
Ao cabo de alguns anos de peregrinação, atendi
às súplicas de meu pai: -«Vem, dizia ele na última
carta; se não vieres depressa acharás tua mãe
morta!» Esta última palavra foi para mim um golpe. Eu amava minha
mãe; tinha ainda diante dos olhos as circunstâncias da
última bênção que ela me dera, a bordo do navio.
«Meu triste filho, nunca mais te verei», soluçava a pobre
senhora apertando-me ao peito. E essas palavras ressoavam-me agora, como uma
profecia realizada.
Note-se que eu estava em Veneza, ainda recendente aos versos de
lord Byron; lá estava, mergulhado
em pleno sonho, revivendo o pretérito, crendo-me na Sereníssima
República. É verdade; uma vez aconteceu-me perguntar ao
locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.
-Que doge,
signor mio? Caí em mim, mas
não confessei a ilusão; disse-lhe que a minha pergunta era um
gênero de charada americana; ele mostrou compreender, e acrescentou que
gostava muito das charadas americanas. Era um locandeiro. Pois deixei tudo
isso, o locandeiro, o doge, a Ponte dos Suspiros, a gôndola, os versos do
lord, as damas do Rialto, deixei tudo e
disparei como uma bala na direção do Rio de Janeiro.
Vim... Mas não; não alonguemos este capítulo.
Às vezes, esqueço-me a escrever, e a pena vai comendo papel, com
grave prejuízo meu, que sou autor. Capítulos compridos quadram
melhor a leitores pesadões; e nós não somos um
público
in-folio, mas
in-12, pouco texto, larga margem, tipo
elegante, corte dourado e vinhetas... principalmente vinhetas... Não,
não alonguemos o capítulo.
  Capítulo 23
Triste, mas curto
Vim. Não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma
sensação nova. Não era efeito da minha pátria
política, era-o do lugar da infância, a rua, a torre, o chafariz
da esquina, a mulher de mantilha, o preto do ganho, as coisas e cenas da
meninice, buriladas na memória. Nada menos que uma renascença. O
espírito, como um pássaro, não se lhe deu da corrente dos
anos, arrepiou o vôo na direção da fonte original, e foi
beber da água fresca e pura, ainda não mesclada do enxurro da
vida.
Reparando bem, há aí um lugar-comum. Outro
lugar-comum, tristemente comum, foi a consternação da
família. Meu pai abraçou-me com lágrimas. -Tua mãe
não pode viver, disse-me ele. Com efeito, não era já o
reumatismo que a matava, era um cancro no estômago. A infeliz padecia de
um modo cru, porque o cancro é indiferente às virtudes do
sujeito; quando rói, rói; roer é o seu ofício.
Minha irmã Sabina, já então casada com o Cotrim, andava a
cair de fadiga. Pobre moça! dormia três horas por noite, nada
mais. O próprio tio João estava abatido e triste. Dona
Eusébia e algumas outras senhoras lá estavam também,
não menos tristes e não menos dedicadas.
-Meu filho!
A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o rosto
da enferma, sobre o qual a morte batia a asa eterna. Era menos um rosto do que
uma caveira: a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que
não emagrecem nunca. Mal poderia conhecê-la; havia oito ou nove
anos que nos não víamos. Ajoelhado, ao pé da cama, com as
mãos dela entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar falar, porque
cada palavra seria um soluço, e nós temíamos
avisá-la do fim. Vão temor! Ela sabia que estava prestes a
acabar; disse-mo; verificamo-lo na seguinte manhã.
Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria,
repisada, que me encheu de dor e estupefação. Era a primeira vez
que eu via morrer alguém. Conhecia a morte de oitiva; quando muito
tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadáver, que
acompanhei ao cemitério, ou trazia-lhe a idéia embrulhada nas
amplificações de retórica dos professores de coisas
antigas, -a morte aleivosa de César, a austera de Sócrates, a
orgulhosa de Catão. Mas esse duelo do ser e do não-ser, a morte
em ação, dolorida, contraída, convulsa, sem aparelho
político ou filosófico, a morte de uma pessoa amada, essa foi a
primeira vez que a pude encarar. Não chorei; lembra-me que não
chorei durante o espetáculo: tinha os olhos estúpidos, a garganta
presa, a consciência boquiaberta. Quê? uma criatura tão
dócil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera
verter uma lágrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa imaculada,
era força que morresse assim, trateada,mordida pelo dente tenaz de uma
doença sem misericórdia? Confesso que tudo aquilo me pareceu
obscuro, incongruente, insano...
Triste capítulo; passemos a outro mais alegre.
  Capítulo 24
Curto, mas alegre
Fiquei prostrado. E contudo era eu, nesse tempo, um fiel
compêndio de trivialidade e presunção. Jamais o problema da
vida e da morte me oprimira o cérebro; nunca até esse dia me
debruçara sobre o abismo do Inexplicável; faltava-me o essencial,
que é o estímulo, a vertigem...
Para lhes dizer a verdade toda, eu refletia as opiniões de
um cabeleireiro, que achei em Modena, e que se distinguia por não as ter
absolutamente. Era a flor dos cabeleireiros; por mais demorada que fosse a
operação do toucado, não enfadava nunca; ele intercalava
as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de um sabor...
Não tinha outra filosofia. Nem eu. Não digo que a universidade me
não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as
fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o
latim: embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio,
uma dúzia de locuções morais e políticas, para as
despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história
e a jurisprudência. Colhi de todas as coisas a fraseologia, a casca, a
ornamentação.
Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e
realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira
virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos
interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos,
a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao
mundo as revelações que faz à consciência; e o
melhor da obrigação é quando, à força de
embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal
caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a
hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que
diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a
capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se,
desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em
suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem
conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da
opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos
o território da morte; não digo que ele se não estenda
para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é
que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos,
não há nada tão incomensurável como o desdém
dos finados.
  Capítulo 25
Na Tijuca
Ui! lá me ia a pena a escorregar para o enfático.
Sejamos simples, como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as
primeiras semanas depois da morte de minha mãe.
No sétimo dia, acabada a missa fúnebre, travei de uma
espingarda, alguns livros, roupa, charutos, um moleque, -o Prudêncio do
capítulo 11,- e fui meter-me numa velha casa de nossa propriedade. Meu
pai forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que
não podia nem queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar
com ela algum tempo -duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me
levar à fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passara de
estróina a circunspecto. Agora comerciava em gêneros de estiva,
labutava de manhã até a noite, com ardor, com
perseverança. De noite, sentado à janela, a encaracolar as
suíças, não pensava em outra coisa. Amava a mulher e um
filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns anos depois. Diziam que
era avaro.
Renunciei tudo; tinha o espírito atônito. Creio que por
então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria,
essa flor amarela, solitária e mórbida, de um cheiro inebriante e
sutil. -«Que bom que é estar triste e não dizer coisa
nenhuma!» -Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a
atenção, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso.
Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta
aberto nas mãos, e o espírito ainda mais cabisbaixo do que a
figura, -ou jururu, como dizemos das galinhas tristes. Apertava ao peito a
minha dor taciturna, com uma sensação única, uma coisa a
que poderia chamar volúpia do aborrecimento. Volúpia do
aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se
não chegares a entendê-la, podes concluir que ignoras uma das
sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo.
Agrave;s vezes caçava, outras dormia, outras lia, -lia
muito,- outras enfim não fazia nada; deixava-me atoar de idéia em
idéia, de imaginação em imaginação, como uma
borboleta vadia ou faminta. As horas iam pingando uma a uma, o sol caía,
as sombras da noite velavam a montanha e a cidade. Ninguém me visitava;
recomendei expressamente que me deixassem só. Um dia, dois dias,
três dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra, era
bastante para sacudir-me da Tijuca fora e restituir-me ao bulício. Com
efeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor aplacara; o
espírito já se não contentava com o uso da espingarda e
dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu.
Reagia a mocidade, era preciso viver. Meti no baú o problema
da vida e da morte, os hipocondríacos do poeta, as camisas, as
meditações, as gravatas, e ia fechá-lo, quando o moleque
Prudêncio me disse que uma pessoa do meu conhecimento se mudara na
véspera para uma casa roxa, situada a duzentos passos da nossa.
-Quem?
-Nhonhô talvez não se lembre mais de Dona
Eusébia...
-Lembra-me... É ela?
Ela e a filha. Vieram ontem de manhã.
Ocorreu-me logo o episódio de 1814, e senti-me vexado; mas
adverti que os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fora
impossível evitar as relações íntimas do
Vilaça com a irmã do sargento-mor; antes mesmo do meu embarque,
já se boquejava misteriosamente no nascimento de uma menina. Meu tio
João mandou-me dizer depois que o Vilaça, ao morrer, deixara um
bom legado a Dona Eusébia, coisa que deu muito que falar em todo o
bairro. O próprio tio João, guloso de escândalos,
não tratou de outro assunto na carta, aliás de muitas folhas.
Tinham-me dado razão os acontecimentos. Ainda porém que ma
não dessem, 1814 lá ia longe, e, com ele, a travessura, e o
Vilaça, e o beijo da moita; finalmente, nenhumas relações
estreitas existiam entre mim e ela. Fiz comigo essa reflexão e acabei de
fechar o baú.
-Nhonhô não vai visitar sinhá Dona
Eusébia? Perguntou-me o Prudêncio. Foi ela quem vestiu o corpo da
minha defunta senhora.
Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por ocasião da
morte e do enterro; ignorava porém que ela houvesse prestado a minha
mãe esse derradeiro obséquio. A ponderação do
moleque era razoável; eu devia-lhe uma visita; determinei fazê-la
imediatamente, e descer.
  Capítulo 26
O autor hesita
Súbito ouço uma voz: -Olá, meu rapaz, isto
não é vida! Era meu pai, que chegava com duas propostas na
algibeira. Sentei-me no baú e recebi-o sem alvoroço. Ele esteve
alguns instantes de pé, a olhar para mim; depois estendeu-me a
mão com um gesto comovido:
-Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.
-Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a
mão.
Não tinha almoçado; almoçamos juntos. Nenhum de
nós aludiu ao triste motivo da minha reclusão. Uma só vez
falamos nisso, de passagem, quando meu pai fez recair a conversa na
Regência: foi então que aludiu à carta de pêsames que
um dos Regentes lhe mandara. Trazia a carta consigo, já bastante
amarrotada, talvez por havê-la lido a muitas outras pessoas. Creio haver
dito que era de um dos Regentes. Leu-ma duas vezes.
-Já lhe fui agradecer este sinal de
consideração, concluiumeu pai, e acho que deves ir
também...
-Eu?
-Tu; é um homem notável, faz hoje as vezes de
Imperador. Demais trago comigo uma idéia, um projeto, ou... sim, digo-te
tudo; trago dois projetos, um lugar de deputado e um casamento.
Meu pai disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando
às palavras um jeito e disposição, cujo fim era
cavá-las mais profundamente no meu espírito. A proposta,
porém, desdizia tanto das minhas sensações últimas,
que eu cheguei a não entendê-la bem. Meu pai não fraqueou e
repetiu-a; encareceu o lugar e a noiva.
-Aceitas?
-Não entendo de política, disse eu depois de um
instante; quanto à noiva... deixe-me viver como um urso, que sou.
-Mas os ursos casam-se, replicou ele.
-Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa Maior...
Riu-se meu pai, e depois de rir, tornou a falar sério.
Era-me necessária a carreira política, dizia ele, por vinte e
tantas razões, que deduziu com singular volubilidade, ilustrando-as com
exemplos de pessoas do nosso conhecimento.Quanto à noiva, bastava que eu
a visse; se a visse, iria logo pedi-la ao pai, logo, sem demora de um dia.
Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão,
depois a intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta
de um palito ou fazia bolas de miolo de pão, a sorrir ou a refletir; e,
para tudo dizer, nem dócil nem rebelde à proposta. Sentia-me
aturdido. Uma parte de mim mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma
posição política eram bens dignos de apreço; outra
dizia que não; e a morte de minha mãe me parecia como um exemplo
da fragilidade das coisas, dasafeições, da família...
-Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pai.
De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as sílabas com o dedo.
Bebeu o último gole de café; repotreou-se, e entrou a
falar de tudo, do Senado, da Câmara, da Regência, da
restauração, do Evaristo, de um coche que pretendia comprar, da
nossa casa de Matacavalos... Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever
desvairadamente num pedaço de papel, com uma ponta de lápis;
traçava uma palavra, uma frase, um verso, um nariz, um triângulo,
e repetia-os muitas vezes, sem ordem, ao acaso, assim:
|
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Arma virumque Cano |
A Arma virumque
cano |
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arma
virumque cano |
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arma
virumque |
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arma virumque cano |
|
virumque |
|
Maquinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa
lógica, certa dedução; por exemplo, foi o
virumque que me fez chegar ao nome do
próprio poeta, por causa da primeira sílaba; ia a escrever
virumque, -e sai-me Virgílio,
então continuei:
| Vir |
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Virgílio |
| Virgílio |
|
Virgílio |
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Virgílio |
|
|
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|
Virgílio |
Meu pai, um pouco despeitado com aquela indiferença,
ergueu-se, veio a mim, lançou os olhos ao papel...
-Virgílio! exclamou. Es tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se
justamente Virgília.
  Capítulo 27
Virgília?
Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns
anos depois...? A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir
aos meus últimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas
minhas mais íntimas sensações. Naquele tempo contava
apenas uns quinze ou dezesseis anos; e era talvez a mais atrevida criatura da
nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que
já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque
isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha
os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe
maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca,
saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço,
precário e eterno, que o indivíduo passa a outro
indivíduo, para os fins secretos dacriação. Era isto
Virgília, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de
uns ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma
devoção, -devoção, ou talvez medo; creio que
medo.
Aí tem o leitor, em poucas linhas, o retrato físico e
moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida; era aquilo com
dezesseis anos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas
páginas vierem à luz, -tu que me lês, Virgília
amada, não reparas na diferença entre a linguagem de hoje e a que
primeiro empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero
então como agora; a morte não me tornou rabugento, nem
injusto.
-Mas, dirás tu, como é que podes assim discernir a
verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?
Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos
faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a
instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa
lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante.
Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação
da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que
será corrigida também, até a edição
definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.
  Capítulo 28
Contanto que...
Virgília? interrompi eu.
-Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo
sem asas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e
uns olhos... filha do Dutra...
-Que Dutra?
-O Conselheiro Dutra, não conheces; uma influência
política. Vamos lá, aceitas?
Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do
botim; declarei depois que estava disposto a examinar as duas coisas, a
candidatura e o casamento, contanto que...
-Contanto quê?
-Contanto que não fique obrigado aceitar as duas; creio que
posso ser separadamente homem casado ou homem público...
-Todo o homem público deve ser casado, interrompeu
sentenciosamente meu pai. Mas seja como queres; estou por tudo; fico certo de
que a vista fará fé! Demais, a noiva e o parlamento são a
mesma coisa... isto é, não... saberás depois...Vá;
aceito a dilação, contanto que...
Contanto quê?... interrompi eu, imitando-lhe a voz.
-Ah! brejeiro! Contanto que não te deixes ficar aí
inútil, obscuro, e triste; não gastei dinheiro, cuidados,
empenhos, para te não ver brilhar, como deves, e te convém, e a
todos nós; é preciso continuar o nosso nome, continuá-lo e
ilustrá-lo ainda mais. Olha, estou com sessenta anos, mas se fosse
necessário começar vida nova, começava, sem hesitar um
só minuto. Teme a obscuridade, Brás; foge do que é
ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais
seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens.
Não estragues as vantagens da tua posição, os teus
meios...
E foi por diante o mágico, a agitar diante de mim um
chocalho, como me faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da
hipocondria recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarela,
e nada mórbida, -o amor da nomeada, o emplasto Brás Cubas.
  Capítulo 29
A visita
Vencera meu pai; dispus-me a aceitar o diploma e o casamento,
Virgília e a Câmara dos Deputados. -As duas Virgílias,
disse ele num assomo de ternura política. Aceitei-os; meu pai deu-me
dois fortes abraços. Era o seu próprio sangue que ele, enfim,
reconhecia.
-Desces comigo?
-Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a
Dona Eusébia...
Meu pai torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e
desceu. Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar Dona Eusébia. Achei-a
a repreender um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir falar-me, com um
alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo. Creio
que chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez-me sentar
ao pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de
contentamento:
-Ora, o Brasinho! Um homem! Quem diria, há anos...Um
homenzarrão! E bonito! Qual! Você não se lembra bem de
mim...
Disse-lhe que sim, que não era possível esquecer uma
amiga tão familiar de nossa casa. Dona Eusébia começou a
falar de minha mãe, com muitas saudades, com tantas saudades, que me
cativou logo, posto me entristecesse. Ela percebeu-o nos meus olhos, e torceu a
rédea à conversação; pediu-me que lhe contasse a
viagem, os estudos, os namoros... Sim, os namoros também; confessou-me
que era uma velha patusca. Nisto recordei-me do episódio de 1814, ela, o
Vilaça, a moi-ta, o beijo, o meu grito; e estando a recordá-lo,
ouço um ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:
-Mamãe... mamãe...
  Capítulo 30
A flor da moita
A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve
à porta, alguns instantes, ao ver gente estranha. Silêncio curto e
constrangido. Dona Eusébia quebrou-o, enfim, com resolução
e franqueza:
-Vem cá, Eugênia, disse ela, cumprimenta o Doutor
Brás Cubas, filho do Senhor Cubas; veio da Europa.
E voltando-se para mim:
-Minha filha Eugênia.
Eugênia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortesia
que lhe fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira
da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabelo, cuja
ponta se desmanchara. -Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que
isto é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me comoveu um
pouco; lembrou-me minha mãe, e -direi tudo,- tive umas cócegas de
ser pai.
-Travessa? disse eu. Pois já não está em idade
própria, ao que parece.
-Quantos lhe dá?
-Dezessete.
-Menos um.
-Dezesseis. Pois então! é uma moça.
Não pôde Eugênia encobrir a
satisfação que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se
logo, e ficou como dantes, ereta, fria e muda. Em verdade, ela parecia ainda
mais mulher do que era; seria criança nos seus folgares de moça;
mas assim quieta, impassível, tinha a compostura da mulher casada.
Talvez essa circunstância lhe diminuía um pouco da graça
virginal. Depressa nos familiarizamos; a mãe fazia-lhe grandes elogios,
eu escutava-os de boa sombra, e ela sorria, com os olhos fúlgidos, como
se lá dentro do cérebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de
asas de ouro e olhos de diamante...
Digo lá dentro, porque cá fora o que esvoaçou
foi uma borboleta preta, que subitamente penetrou na varanda, e começou
a bater as asas em derredor de Dona Eusébia. Dona Eusébia deu um
grito, levantou-se, praguejou umas palavras soltas:
-T'esconjuro!... sai, diabo!... Virgem Nossa Senhora!...
-Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expeli
a borboleta. Dona Eusébia sentou-se outra vez, ofegante, um pouco
envergonhada; a filha, pode ser que pálida de medo, dissimulava a
impressão com muita força de vontade. Apertei-lhes a mão e
sai, a rir comigo da superstição das duas mulheres, um rir
filosófico, desinteressado, superior. De tarde, vi passar a cavalo a
filha de Dona Eusébia, seguida de um pajem; fez-me um cumprimento com a
ponta do chicote; e confesso que me lisonjeei com a idéia de que, alguns
passos adiante, ela voltaria a cabeça para trás; mas não
voltou.
  Capítulo 31
A borboleta preta
No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou
no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do
que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na
filha de Dona Eusébia, no susto que tivera e na dignidade que, apesar
dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de
mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque
eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu
pai. Era negra como a noite.O gesto brando com que, uma vez posta,
começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu
muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos
depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos,
lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da
cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la
no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos.
Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.
-Também por que diabo não era ela azul? disse eu
comigo.
E esta reflexão, -uma das mais profundas que se tem feito
desde a invenção das borboletas,- me consolou do
malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o
cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do
mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora,
modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula
de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela
minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem;
não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em
torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos,braços, pernas,
um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: «Este
é provavelmente o inventor das borboletas.» A idéia
subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo,
insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na
testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na
vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é
impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai
do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.
Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a
imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes,
contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom
ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela
fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não
era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos
olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a
consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o
cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as
próvidas formigas... Não, volto à primeira idéia;
creio que para ela era melhor ter nascido azul.
  Capítulo 32
Coxa de nascença
Fui dali acabar os preparativos da viagem. Já agora
não me demoro mais. Desço imediatamente; desço, ainda que
algum leitor circunspecto me detenha para perguntar se o capítulo
passado é apenas uma sensaboria ou se chega a
empulhação... Ai, não contava com Dona Eusébia.
Estava pronto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a
descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas instou tanto,
tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais, era-lhe devida
aquela compensação; fui.
Eugênia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que
foi por minha causa, -se é que não andava muita vez assim. Nem as
bichas de ouro, que trazia na véspera, lhe pendiam agora das orelhas,
duas orelhas finamente recortadas numa cabeça de ninfa. Um simples
vestido branco, de cassa,sem enfeites, tendo ao colo, em vez de broche, um
botão de madrepérola, e outro botão nos punhos, fechando
as mangas, e nem sombra de pulseira.
Era isso no corpo; não era outra coisa no espírito.
Idéias claras, maneiras chãs, certa graça natural, um ar
de senhora, e não sei se alguma outra coisa; sim, a boca, exatamente a
boca da mãe, a qual me lembrava o episódio de 1814, e
então dava-me ímpetos de glosar o mesmo mote à
filha...
-Agora vou mostrar-lhe a chácara, disse a mãe, logo
que esgotamos o último gole de café.
Saímos à varanda, dali à chácara, e foi
então que notei uma circunstância. Eugênia coxeava um pouco,
tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. A
mãe calou-se; a filha respondeu sem titubear:
-Não, senhor, sou coxa de nascença.
Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado,
grosseirão. Com efeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante
para lhe não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez
que a vi -na véspera- a moça chegara-se lentamente à
cadeira da mãe, e que naquele dia, já a achei à mesa de
jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; mas porque razão o
confessava agora? Olhei para ela e reparei que ia triste.
Tratei de apagar os vestígios de meu desazo; -não me
foi difícil, porque a mãe era, segundo confessara, uma velha
patusca, e prontamente travou de conversa comigo. Vimos toda a chácara,
árvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de
coisas, que ela me ia mostrando, e comentando, ao passo que eu, de soslaio,
perscrutava os olhos de Eugênia...
Palavra que o olhar de Eugênia não era coxo, mas
direito, perfeitamente são; vinha de uns olhos pretos e tranqüilos.
Creio que duas ou três vezes baixaram, um pouco turvados; mas duas ou
três vezes somente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade,
nem biocos.
  Capítulo 33
Bem-aventurados os que não descem
O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos,
uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse
contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso
escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a
pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem
atinar com a solução do enigma. O melhor que há, quando se
não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu
fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que
me adejava no cérebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que
é uma fresta do espírito, deixou novamente entrar o bichinho, e
ai fiquei eu a noite toda a cavar o mistério, sem explicá-lo.
Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a
manhã era límpida e azul, e apesar disso deixei-me ficar,
não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana.
Manhãs bonitas, frescas, convidativas; lá embaixo a
família a chamar-me, e a noiva, e o arlamento, e eu sem acudir a coisa
nenhuma, enlevado ao pé da minha Vênus Manca. Enlevado é
uma maneira de realçar o estilo; não havia enlevo, mas gosto, uma
certa satisfação física e moral.Queria-lhe, é
verdade; ao pé dessa criatura tão singela, filha espúria e
coxa, feita de amor e desprezo, ao pé dela sentia-me bem, e ela creio
que ainda se sentia melhor, ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples
égloga. Dona Eusébia vigiava-nos, mas pouco; temperava a
necessidade com a conveniência. A filha, nessa primeira explosão
da natureza, entregava-me a alma em flor.
-O senhor desce amanhã? Disse-me ela no sábado.
-Pretendo.
-Não desça.
Não desci, e acrescentei um versículo ao Evangelho:
-Bem-aventurados os que não descem, porque deles é o primeiro
beijo das moças. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo de
Eugênia, -o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomara, e
não furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor
honesto paga uma dívida. Pobre Eugênia! Se tu soubesses que
idéias me vagavam pela mente fora naquela ocasião! Tu,
trêmula de comoção, com os braços nos meus ombros, a
contemplar em mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita,
no Vilaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue,
à tua origem...
D. Eusébia entrou inesperadamente, mas não tão
súbita, que nos apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até a
janela. Eugênia sentou-se a consertar uma das tranças. Que
dissimulação graciosa! que arte infinita e delicada! que
tartufice profunda! e tudo isso natural, vivo, não estudado, natural
como o apetite, natural como o sono. Tanto melhor! Dona Eusébia
não suspeitou nada.
  Capítulo 34
A uma alma sensível
Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me
lêem, há aí uma alma sensível, que está
decerto um tanto agastada com o capítulo anterior, começa a
tremer pela sorte de Eugênia, e talvez..., sim, talvez, lá no
fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma
sensível? Pela coxa de Diana! Esta injúria merecia ser lavada com
sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. Não, alma
sensível, eu não sou cínico, eu fui homem; meu
cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo
gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia
louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um
pandemônio, alma sensível, uma barafunda de coisas e pessoas, em
que podias ver tudo, desde a rosa de Smirna até a arruda do teu quintal,
desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da
praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de
vária casta e feição. Não havia ali a atmosfera
somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do
sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensível, castiga os
nervos, limpa os óculos, -que isso às vezes é dos
óculos,- e acabemos de uma vez com esta flor da moita.
  Capítulo 35
O caminho de Damasco
Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho
de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura
(Act., IX, 7): «Levanta-te, e entra na cidade.» Essa voz saia de
mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da
pequena, e o terror de vir a amar deveras, e desposá-la. Uma mulher
coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não há duvidar que
ela o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao
anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. -Adeus, suspirou
ela estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem. -E como eu nada
dissesse, continuou:
-Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo. Ia dizer-lhe
que não; ela retirou-se lentamente, engolindo as lágrimas.
Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do céu que
eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito;
tudo hipérboles frias, que ela escutou sem dizer nada.
-Acredita-me? perguntei eu no fim.
-Não, e digo-lhe que faz bem.
Quis retê-la, mas o olhar que me lançou não foi
já de súplica, senão de império. Desci da Tijuca,
na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito.Vinha
dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai, que era conveniente
abraçar a carreira política... que a
constituição... que a minha noiva... que o meu cavalo...
  Capítulo 36
A propósito de botas
Meu pai, que me não esperava, abraçou-me cheio de
ternura e agradecimento. -Agora é deveras? disse ele. Posso
enfim...?
Deixei-o nessa reticência, e fui descalçar as botas,
que estavam apertadas. Uma vez aliviado, respirei à larga, e deitei-me a
fio comprido, enquanto os pés, e todo eu atrás deles,
entrávamos numa relativa bem-aventurança. Então considerei
que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque,
fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar.
Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí
tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Enquanto esta
idéia me trabalhava no faoso trapézio, lançava eu os olhos
para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do pretérito,
e sentia que o meu coração não tardaria também a
descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. Quatro ou
cinco dias depois, saboreava esse rápido, inefável e
incoercível momento de gozo, que sucede a uma dor pungente, a uma
preocupação, a um incômodo... Daqui inferi eu que a vida
é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a
fome, com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os
calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em
verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas
curtas.
Tu, minha Eugênia, é que não as
descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da
perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada,
laboriosa, até que vieste também para esta outra margem... O que
eu não sei é se a tua existência era muito
necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos
fizesse patear a tragédia humana.
  Capítulo 37
Enfim!
Enfim! eis aqui Virgília. Antes de ir à casa do
Conselheiro Dutra, perguntei a meu pai se havia algum ajuste prévio de
casamento.
-Nenhum ajuste. Há tempos, conversando com ele a teu
respeito, confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo
falei, que ele prometeu fazer alguma coisa, e creio que o fará. Quanto
à noiva, é o nome que dou a uma criaturinha, que é uma
jóia, uma flor, uma estrela, uma coisa rara... é a filha dele;
imaginei que, se casasses com ela, mais depressa serias deputado.
-Só isto?
-Só isto.
Fomos dali à casa do Dutra. Era uma pérola esse
homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado com os males
públicos, mas não desesperando de os curar depressa. Achou que a
minha candidatura era legítima; convinha, porém, esperar alguns
meses. E logo me apresentou à mulher, -uma estimável senhora,- e
à filha, que não desmentiu em nada o panegírico de meu
pai. Juro-vos que em nada. Relede o capítulo 27. Eu, que levava
idéias a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ela, que não
sei se as tinha, não me fitou de modo diferente; e o nosso olhar
primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mês
estávamos íntimos.
  Capítulo 38
A quarta edição
-Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma
noite.
Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse
no Largo de São Francisco de Paula, e fui dar várias voltas.
Lembra-vos ainda a minha teoria das edições humanas? Pois sabei
que, naquele tempo, estava eu na quarta edição, revista e
emendada, mas ainda inçada de descuidos e barbarismos; defeito que,
aliás, achava alguma compensação no tipo, que era
elegante, e na encadernação, que era luxuosa. Dadas as voltas, ao
passar pela Rua dos Ourives, consulto o relógio e cai-me o vidro na
calçada. Entro na primeira loja que tinha à mão; era um
cubículo, -pouco mais,- empoeirado e escuro.
Ao fundo, por trás do balcão, estava sentada uma
mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo à
primeira vista; mas logo que se destacava era um espetáculo curioso.
Não podia ter sido feia; ao contrário, via-se que fora bonita, e
não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce
destruíram-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido
terríveis; os sinais, grandes e muitos, faziam saliências e
encarnas, declives e aclives, e davam uma sensação de lixa
grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e
aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou,
entretanto, logo que eu comecei a falar. Quanto ao cabelo, estava ruço e
quase tão poento como os portais da loja. Num dos dedos da mão
esquerda fulgia-lhe um diamante. Crê-eis, pósteros? essa mulher
era Marcela.
Não a conheci logo; era difícil; ela porém
conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a
expressão usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento
como para esconder-se ou fugir; era o instinto da vaidade, que não durou
mais de um instante. Marcela acomodou-se e sorriu.
-Quer comprar alguma coisa? disse ela estendendo-me a
mão.
Não respondi nada. Marcela compreendeu a causa do meu
silêncio (não era difícil), e só hesitou, creio eu,
em decidir o que dominava mais, se o assombro do presente, se a memória
do passado. Deu-me uma cadeira, e, com o balcão permeio, falou-me
longamente de si, da vida que levara, das lágrimas que eu lhe fizera
verter, das saudades, dos desastres, enfim das bexigas, que lhe escalavraram o
rosto, e do tempo, que ajudou a moléstia, adiantando-lhe a
decadência. Verdade é que tinha a alma decrépita. Vendera
tudo, quase tudo; um homem, que a amara outrora, e lhe morreu nos
braços, deixara-lhe aquela loja de ourivesaria, mas, para que a
desgraça fosse completa, era agora pouco buscada a loja -talvez pela
singularidade de a dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lhe contasse a
minha vida. Gastei pouco tempo em dizer-lha; não era longa, nem
interessante.
-Casou? disse Marcela no fim de minha narração.
-Ainda não, respondi secamente.
Marcela lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem
reflete ou relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das
recordações e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo
fizera tanto desatino. Não era esta certamente a Marcela de 1822; mas a
beleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrifícios?
Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcela. O rosto dizia-me
que não; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, já outrora,
como hoje, ardia neles a flama da cobiça. Os meus é que
não souberam ver-lha; eram olhos da primeira edição.
-Mas por que entrou aqui? Viu-me da rua? Perguntou ela, saindo
daquela espécie de torpor.
-Não, supunha entrar numa casa de relojoeiro; queria comprar
um vidro para este relógio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho
pressa.
Marcela suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia
pungido e aborrecido, ao mesmo tempo, e ansiava por me ver fora daquela casa.
Marcela, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relógio, e, apesar da
minha oposição, mandou-o, a uma loja na vizinhança,
comprar o vidro. Não havia remédio; sentei-me outra vez. Disse
ela que desejava ter a proteção dos conhecidos de outro tempo;
ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e
afiançou que me daria finas jóias por preços baratos.
Não disse
preços baratos, mas usou uma
metáfora delicada e trans-parente. Entrei a desconfiar que não
padecera nenhum desastre (salvo a moléstia), que tinha o dinheiro a bom
recado, e que negociava com o único fim de acudir à paixão
do lucro,que era o verme roedor daquela existência; foi isso mesmo que me
disseram depois.
  Capítulo 39
O vizinho
Enquanto eu fazia comigo mesmo aquela reflexão, entrou na
loja um sujeito baixo, sem chapéu, trazendo pela mão uma menina
de quatro anos.
-Como passou de hoje de manhã? disse ele a Marcela.
-Assim, assim. Vem cá, Maricota.
O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a
para dentro do balcão.
-Anda, disse ele; pergunta a Dona Marcela como passou a noite.
Estava ansiosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido
vesti-la... Então, Maricota? Toma a bênção... Olha a
vara de marmelo! Assim... Não imagina o que ela é lá em
casa; fala na senhora a todos os instantes, e aqui parece uma pamonha. Ainda
ontem... Digo, Maricota?
-Não diga, não, papai.
-Então foi alguma coisa feia? perguntou Marcela batendo na
cara da menina.
-Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um
padre-nosso e uma ave-maria, oferecidos a Nossa Senhora; mas a pequena ontem
veio pedir-me com voz muito humilde... imagine o quê?... que queria
oferecê-los a Santa Marcela.
-Coitadinha! disse Marcela beijando-a.
-É um namoro, uma paixão, como a senhora não
imagina... A mãe diz que é feitiço...
Contou mais algumas coisas o sujeito, todas mui agradáveis,
até que saiu levando a menina, não sem deitar-me um olhar
interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcela quem era ele.
-É um relojoeiro de vizinhança, um bom homem; a
mulher também; e a filha é galante, não? Parecem gostar
muito de mim... é boa gente.
Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de
Marcela; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura...
  Capítulo 40
Na sege
Nisto entrou o moleque trazendo o relógio com o vidro novo.
Era tempo; já me custava estar ali; dei uma moedinha de prata ao
moleque; disse a Marcela que voltaria noutra ocasião, e saí a
passo largo. Para dizer tudo, devo confessar que o coração me
batia um pouco; mas era uma espécie de dobre de finados. O
espírito ia travado de impressões opostas. Notem que aquele dia
amanhecera alegre para mim. Meu pai, ao almoço, repetiu-me, por
antecipação, o primeiro discurso que eu tinha de proferir na
Câmara dos Deputados; rimo-nos muito, e o sol também, que estava
brilhante, como nos mais belos dias do mundo; do mesmo modo que Virgília
devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço. Vai
senão quando, cai-me o vidro do relógio; entro na primeira loja
que me fica à mão; e eis me surge o passado, ei-lo que me lacera
e beija; ei-lo que me interroga, com um rosto cortado de saudades e
bexigas...
Lá o deixei; meti-me às pressas na sege, que me
esperava no Largo de São Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que
rodasse pelas ruas fora. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a
sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara
a chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não há,
às vezes, um certo vento morno, não forte nem áspero, mas
abafadiço, que nos não leva o chapéu da cabeça, nem
rodomoinha nas saias das mulheres, e todavia é ou parece ser pior do que
se fizesse uma e outra coisa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os
espíritos? Pois eu tinha esse vento comigo; e, certo de que ele me
soprava por achar-me naquela espécie de garganta entre o passado e o
presente, almejava por sair à planície do futuro. O pior é
que a sege não andava.
-João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não
anda?
-Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de
sinhô Conselheiro.
  Capítulo 41
A alucinação
E era verdade. Entrei apressado; achei Virgília ansiosa, mau
humor, fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ela. No
fim dos cumprimentos disse-me a moça com sequidão:
-Esperávamos que viesse mais cedo.
Defendi-me do melhor modo; falei do cavalo que empacara, e de um
amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos lábios, fico
tolhido de assombro. Virgília... seria Virgília aquela
moça? Fitei-a muito, e a sensação foi tão penosa,
que recuei um passo e desviei a vista. Tomei a olhá-la. As bexigas
tinham-lhe comido o rosto; a pele, ainda na véspera tão fina,
rosada e pura, aparecia-me agora amarela, estigmada pelo mesmo flagelo que
devastara o rosto da espanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se
murchos; tinha o lábio triste e a atitude cansada. Olhei-a bem;
peguei-lhe na mão, e chamei-a brandamente a mim.Não me enganava;
eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.
Virgília afastou-se, e foi sentar-se no sofá. Eu
fiquei algum tempo a olhar para os meus próprios pés. Devia sair
ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e
encaminhei-me para Virgília, que lá estava sentada e calada.
Céus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virgília. Em
vão procurei no rosto dela algum vestígio da doença;
nenhum havia; era a pele fina e branca do costume.
-Nunca me viu? perguntou Virgília, vendo que a encarava com
insistência.
-Tão bonita, nunca.
Sentei-me, enquanto Virgília, calada, fazia estalar as
unhas. Seguiram-se alguns segundos de pausa. Falei-lhe de coisas estranhas ao
incidente; ela porém não me respondia nada, nem olhava para mim.
Menos o estalido, era a estátua do Silêncio. Uma só vez me
deitou os olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do
lábio, contraindo as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse
conjunto de coisas dava-lhe ao rosto uma expressão média entre
cômica e trágica.
Havia alguma afetação naquele desdém; era um
arrebique do gesto. Lá dentro, ela padecia, e não pouco, -ou
fosse mágoa pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula
dói mais, é mui provável que Virgília padecesse em
dobro do que realmente devia padecer. Creio que isto é
metafísica.
  Capítulo 42
Que escapou a Aristóteles
Outra coisa que também me parece metafísica é
isto: -Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra
outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a
primeira rolou. Suponhamos que a primeira bolan se chama... Marcela,- é
uma simples suposição; a segunda, Brás Cubas; -a terceira,
Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou
até tocar em Brás Cubas,- o qual, cedendo à força
impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em Virgília,
que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela
simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e
se estabelece uma coisa que poderemos chamar -solidariedade do aborrecimento
humano. Como é que este capítulo escapou a
Aristóteles?
  Capítulo 43
Marquesa, porque eu serei marquês
Positivamente, era um diabrete Virgília, um diabrete
angélico, se querem, mas era-o, e então...
Então apareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais
esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e
todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura, dentro de poucas
semanas, com um ímpeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu
nenhum despeito; não houve a menor violência de família.
Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura
de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. Cedi; tal foi o
começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgília perguntou ao
Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro.
-Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um
ano.
Virgília replicou:
-Promete que algum dia me fará baronesa?
-Marquesa, porque eu serei marquês.
Desde então fiquei perdido. Virgília comparou a
águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão
com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera.
Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma.
O lábio do homem não é como a pata do cavalo de
Átila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o
contrário.
  Capítulo 44
Um Cubas!
Meu pai ficou atônito com o desenlace, e quer-me parecer que
não morreu de outra coisa. Eram tantos os castelos que engenhara, tantos
e tantíssimos os sonhos, que não podia vê-los assim
esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A princípio
não quis crê-lo. Um Cubas! um galho da árvore ilustre dos
Cubas! E dizia isto com tal convicção, que eu, já
então informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a volúvel
dama, para só contemplar aquele fenômeno, não raro, mas
curioso: uma imaginação graduada em consciência.
-Um Cubas! Repetia-me ele na seguinte manhã, ao
almoço.
Não foi alegre o almoço; eu próprio estava a
cair de sono.Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossível;
não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquela,
tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro
vínculo, além de uma fantasia passageira, alguma obediência
e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigília; era despeito, um
despeitozinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos,
murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranqüila
das auroras.
Mas eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai
é que não pôde suportar facilmente a pancada. Pensando bem,
pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre
lhe complicou as últimas dores, é positivo. Morreu daí a
quatro meses, -acabrunhado, triste, com uma preocupação intensa e
contínua, à semelhança de remorso,um desencanto mortal que
lhe substituiu os reumatismos e tosses. Teve ainda uma meia hora de alegria;
foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe, -lembra-me bem,- vi-lhe o grato
sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de luz, que
era, por assim dizer, o último lampejo da alma expirante. Mas a tristeza
tomou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum lugar alto, como
aliás me cabia.
-Um Cubas!
Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de
maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado.
Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos, nem o nosso
amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer,
morreu.
-Um Cubas!
  Capítulo 45
Notas
Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos
portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do
caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que
entravam. Lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à
família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e
sacristão, rezas, aspersões d'água benta, o fechar do
caixão a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o
levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos,
soluços e novas lágrimas da família, e vão
até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam
as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto que parece
um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um
capítulo triste e vulgar que não escrevo.
  Capítulo 46
A herança
Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pai,
-minha irmã sentada num sofá,- pouco adiante, o Cotrim, de
pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o
bigode, -eu a passear de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto
pesado. Profundo silêncio.
-Mas afinal, disse Cotrim; esta casa pouco mais pode valer de trinta
contos; demos que valha trinta e cinco...
-Vale cinqüenta, ponderei; a Sabina sabe que custou
cinqüenta e oito...
-Podia custar até sessenta, tornou Cotrim; mas não se
segue que os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as
casas, aqui há anos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os
cinqüenta contos, quantos não vale a que você deseja para si,
a do Campo?
-Não fale nisso! Uma casa velha.
-Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao teto.
-Parece-lhe nova, aposto?
-Ora, mano, deixe-se dessas coisas, disse Sabina, erguendo-se do
sofá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, o
Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papai e o
Paulo...
-O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei
de ir comprar outro.
-Bem, fico com o Paulo e o Prudêncio.
-O Prudêncio está livre.
-Livre?
-Há dois anos.
-Livre? Como seu pai arranjava estas coisas cá por casa, sem
dar parte a ninguém! Está direito. Quanto à prata... creio
que não libertou a prata?
Tínhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de Dom
José I, a porção mais grave da herança, já
pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade;
dizia meu pai que o Conde da Cunha, quando vice-rei do Brasil, a dera de
presente a meu bisavô Luís Cubas.
-Quanto à prata, continuou o Cotrim, eu não faria
questão nenhuma, se não fosse o desejo que sua irmã tem de
ficar com ela; e acho-lhe razão. Sabina é casada, e precisa de
uma copa digna, apresentável. Você é solteiro, não
recebe, não...
-Mas posso casar.
-Para quê? interrompeu Sabina.
Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me
fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe
levemente na palma, tudo isso com tão boa sombra,que o Cotrim
interpretou o gesto como de aquiescência, e agradeceu-mo.
-Que é lá? redargüi; não cedi coisa
nenhuma, nem cedo.
-Nem cede?
Abanei a cabeça.
-Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se ele
quer ficar também com a nossa roupa do corpo, é só o que
falta.
-Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a
prata, quer tudo. Olhe, é muito mais sumário citar-nos a
juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua
irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é
Deus. Faça isto, enão perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu
amigo, outro oficio!
Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi
oferecer um meio de conciliação: dividir a prata. Riu-se e
perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o açucareiro; e depois desta
pergunta, declarou que teríamos tempo de liquidar a pretensão,
quando menos em juízo. Entretanto, Sabina fora até a janela que
dava para a chácara, -e depois de um instante, voltou, e propôs
ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com a prata;
eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e disse a
mesma coisa.
-Isso nunca! não faço esmolas! disse ele.
Jantamos tristes. Meu tio cônego apareceu à sobremesa,
e ainda presenciou uma pequena altercação.
-Meus filhos, disse ele, lembrem-se que meu irmão deixou um
pão bem grande para ser repartido por todos.
Mas Cotrim:
-Creio, creio. A questão, porém, não é
de pão, é de manteiga. Pão seco é que eu não
engulo.
Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estávamos
brigados. E digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina.
Éramos tão amigos! Jogos pueris, fúrias de
crianças, risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez esse
pão da alegria e da miséria, irmamente, como bons irmãos
que éramos. Mas estávamos brigados. Tal qual a beleza de Marcela,
que se esvaiu com as bexigas.
  Capítulo 47
O recluso
Marcela, Sabina, Virgília... aí estou eu a fundir
todos os contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do
que modos de ser da minha afeição interior. Pena de maus
costumes, ata uma gravata ao estilo, veste-lhe um colete menos sórdido;
e depois sim, depois vem comigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me
embalou a melhor parte dos anos que decorreram desde o inventário de meu
pai até 1842.Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não
cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N.
ou da Z. ou da U. -que todas essas letras maiúsculas embalaram aí
a sua elegante abjeção. Mas, se além do aroma, quiseres
outra coisa, fica-te com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem
cartas, nem memórias; a mesma comoção esvaiu-se e
só me ficaram as letras iniciais.
Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou teatro,
ou palestra, mas a maior parte do tempo passei-a comigo mesmo. Vivia;
deixava-me ir ao curso e recurso dos sucessos e dos dias, ora buliçoso,
ora apático, entre a ambição e o desânimo. Escrevia
política e fazia literatura. Mandava artigos e versos para as folhas
públicas e cheguei a alcançar certa reputação de
polemista e de poeta. Quando me lembrava do Lobo Neves, que era já
deputado, e de Virgília, futura marquesa, perguntava a mim mesmo por que
não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves,
-eu, que valia mais, muito mais do que ele,- e dizia isto a olhar para a ponta
do nariz...
  Capítulo 48
Um primo de Virgília
-Sabe quem chegou ontem de São Paulo? Perguntou-me uma noite
Luis Dutra.
Luís Dutra era um primo de Virgília, que também
privava com as musas. Os versos dele agradavam e valiam mais do que os meus;
mas ele tinha necessidade da sanção de alguns, que lhe
confirmasse o aplauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a
ninguém; mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço;
então criava novas forças e arremetia juvenilmente ao
trabalho.
Pobre Luís Dutra! Apenas publicava alguma coisa, corria
à minha casa, e entrava a girar em volta de mim, à espreita de um
juízo, de uma palavra, de um gesto, que lhe aprovasse a recente
produção, e eu falava-lhe de mil coisas diferentes, -do
último baile do Catete, da discussão das câmaras, de
berlindas e cavalos,- de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Ele
respondia-me, a princípio com animação, depois mais
frouxo, torcia a rédea da conversa para o assunto dele, abria um livro,
perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que
não, mas torcia a rédea para o outro lado, e lá ia ele
atrás de mim, até que empacava de todo e saía triste.
Minha intenção era fazê-lo duvidar de si mesmo,
desanimá-lo, eliminá-lo. E tudo isto a olhar para a ponta do
nariz...
  Capítulo 49
A ponta do nariz
Nariz, consciência sem remorsos, tu me valeste muito na
vida... Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A
explicação do Doutor Pangloss é que o nariz foi criado
para uso dos óculos, -e tal explicação confesso que
até certo tempo me pareceu definitiva; mas veio um dia, em que, estando
a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia,atinei com a única,
verdadeira e definitiva explicação.
Com efeito, bastou-me atentar no costume do faquir. Sabe o leitor
que o faquir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim
único de ver a luz celeste. Quando ele finca os olhos na ponta do nariz,
perde o sentimento das coisas externas, embeleza-se no invisível,
apreende o impalpável, desvincula-se da terra, dissolve-se, eteriza-se.
Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o
fenômeno mais excelso do espírito, e a faculdade de a obter
não pertence ao faquir somente: é universal. Cada homem tem
necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz, para o fim de ver
a luz celeste, e tal contemplação, cujo efeito é a
subordinação do universo a um nariz somente, constitui o
equilíbrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente
uns aos outros, o gênero humano não chegaria a durar dois
séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.
Ouço daqui uma objeção do leitor: -Como pode
ser assim, diz ele, se nunca jamais ninguém não viu estarem os
homens a contemplar o seu próprio nariz?
Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cérebro de
um chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapéus; é a
loja de um rival, que a abriu há dois anos; tinha então duas
portas, hoje tem quatro; promete ter seis e oito. Nas vidraças
ostentam-se os chapéus do rival; pelas portas entram os fregueses do
rival; o chapeleiro compara aquela loja com a sua, que é mais antiga e
tem só duas portas, e aqueles chapéus com os seus, menos
buscados, ainda que de igual preço.
Mortifica-se naturalmente; mas vai andando, concentrado, com os
olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade do outro
e do seu próprio atraso, quando ele chapeleiro é muito melhor
chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos se
fixam na ponta do nariz.
A conclusão, portanto, é que há duas
forças capitais: o amor, que multiplica a espécie, e o nariz, que
a subordina ao indivíduo. Procriação,
equilíbrio.
  Capítulo 50
Virgília casada
-Quem chegou de São Paulo foi minha prima Virgília,
casada com o Lobo Neves, continuou Luis Dutra.
-Ah!
-E só hoje é que eu soube uma coisa, seu
maganão...
-Que foi?
-Que você quis casar com ela.
-Idéias de meu pai. Quem lhe disse isso?
-Ela mesma. Falei-lhe muito em você, e ela então
contou-me tudo.
No dia seguinte, estando na Rua do Ouvidor, à porta da
tipografia do Plancher, vi assomar, a distância, uma mulher
esplêndida. Era ela; só a reconheci a poucos passos, tão
outra estava, a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o último
apuro. Cortejamo-nos; ela seguiu; entrou com o marido na carruagem, que os
esperava um pouco acima; fiquei atônito.
Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegamos a trocar
duas ou três palavras. Mas noutro baile, dado daí a um mês,
em casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e
não desornava então os do segundo, a aproximação
foi maior e mais longa, porque conversamos e valsamos. A valsa é uma
deliciosa coisa. Valsamos; e não nego que, ao conchegar ao meu corpo
aquele corpo flexível e magnífico,tive uma singular
sensação, uma sensação de homem roubado.
-Está muito calor, disse ela, logo que acabamos. Vamos ao
terraço?
-Não; pode constipar-se. Vamos à outra sala.
Na outra sala estava Lobo Neves, que me fez muitos cumprimentos,
acerca dos meus escritos políticos, acrescentando que nada dizia dos
literários, por não entender deles; mas os políticos eram
excelentes, bem pensados e bem escritos. Respondi-lhe com iguais esmeros de
cortesia, e separamo-nos contentes um do o outro.
Cerca de três semanas depois recebi um convite dele para uma
reunião íntima. Fui; Virgília recebeu-me com esta graciosa
palavra: -O senhor hoje há de valsar comigo.
-Em verdade, eu tinha fama e era valsista emérito; não
admira que ela me preferisse. Valsamos uma vez, e mais outra vez. Um livro
perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que nessa noite
apertei-lhe a mão com muita força, e ela deixou-a ficar, como
esquecida, e eu a abraçá-la e todos com os olhos em nós, e
nos outros que também se abraçavam e giravam... Um
delírio.
  Capítulo 51
É minha!
É minha! disse eu comigo, logo que a passei a outro
cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-me a idéia
entranhando no espírito, não à força de martelo,
mas de verruma, que é mais insinuativa.
-É minha! dizia eu ao chegar à porta de casa.
Mas aí, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que
fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessórios,
luziu-me no chão uma coisa redonda e amarela. Abaixei-me; era uma moeda
de ouro, uma meia dobra.
-É minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.
Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte,
recordando o caso, senti uns repelões da consciência, e uma voz
que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu não herdara
nem ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente não era minha; era
de outro, daquele que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum
operário que não teria com que dar de comer à mulher e aos
filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a
moeda e o melhor meio, o único meio, era fazê-lo por
intermédio de um anúncio ou da polícia. Enviei um carta ao
chefe de polícia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios
a seu alcance, fizesse devolvê-lo às mãos do verdadeiro
dono.
Mandei a carta e almocei tranqüilo, posso até dizer que
jubiloso. Minha consciência valsara tanto na véspera, que chegou a
ficar sufocada, sem respiração; mas a restituição
da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral; entrou
uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou à larga. Ventilai as
consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de
quaisquer outras circunstâncias, o meu ato era bonito, porque exprimia um
justo escrúpulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a
minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ela
me dizia, reclinada ao peitoril da janela aberta.
-Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não
é só puro, é balsâmico, é uma
transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste,
Cubas?
E a boa dama sacou um espelho e abriu-mo diante dos olhos. Vi,
claramente vista, a meia dobra da véspera, redonda, brilhante,
nítida, multiplicando-se por si mesma, -ser dez -depois trinta -depois
quinhentas, -exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na
morte o simples ato da restituição. E eu espraiava todo o meu ser
na contemplação daquele ato, revia-me nele, achava-me bom, talvez
grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um pouquinho
mais. Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da
equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela
fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a
consciência. Talvez não entendas o que aí fica; talvez
queiras uma coisa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho
misterioso. Pois toma lá o embrulho misterioso.
  Capítulo 52
O embrulho misterioso
Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo, tropecei num
embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos
tropeção que pontapé. Vendo um embrulho, não
grande, mas limpo e corretamente feito, atado com um barbante rijo, uma coisa
que parecia alguma coisa, lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por
experiência, e bati, e o embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta
de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam, -um pescador
curava as redes ainda mais longe,- ninguém que pudesse ver a minha
ação; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.
Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes.
Tive idéia de devolver o achado à praia, mas apalpei-o e rejeitei
a idéia. Um pouco adiante, desandei o caminho e guiei para casa.
-Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.
E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra
vez o receio da pulha. E certo que não havia ali nenhuma testemunha
externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assobiar,
guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me visse abrir
o embrulho e achar dentro um dúzia de lenços velhos ou duas
dúzias de goiabas podres. Era tarde; a curiosidade estavaa
guçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi... achei...
contei... recontei nada menos de cinco contos de réis. Nada menos.
Talvez uns dez mil réis mais. Cinco contos em boas notas e dobras, tudo
asseadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar
pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam
espreitado? Interroguei-os discretamente, e concluí que não.
Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos
meus cuidados maternais a respeito de cinco contos,-eu, que era abastado.
Para não pensar mais naquilo fui de noite à casa do
Lobo Neves, que instara muito comigo não deixasse de freqüentar as
recepções da mulher. Lá encontrei o chefe de
polícia; fui-lhe apresentado; ele lembrou-se logo da carta e da meia
dobra que eu lhe remetera alguns dias antes. Aventou o caso; Virgília
pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar
uma anedota análoga, que eu ouvi com impaciências de mulher
histérica.
De noite, no dia seguinte, em toda aquela semana pensei o menos que
pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos na
gaveta da secretária. Gostava de falar de todas as coisas, menos de
dinheiro, e principalmentede dinheiro achado; todavia não era crime
achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da
Providência. Não podia ser outra coisa. Não se perdem cinco
contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com
trinta mil sentidos, apalpam-se a miúdo, não se lhes tiram os
olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim
totalmente, numa praia, é necessário que... Crime é que
não podia ser o achado; nem crime, nem desonra, nem nada que embaciasse
o caráter de um homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte
grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo honesto e
até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me
sentia mau, nem indigno dos benefícios da Providência.
-Estes cinco contos, dizia eu comigo, três semanas depois, hei
de empregá-los em alguma ação boa, talvez um dote a alguma
menina pobre, ou outra coisa assim... hei de ver...
Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. Lá me receberam
com muitas e delicadas alusões ao caso da meia dobra, cuja
notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento;
respondi enfadado que a coisa não valia a pena de tamanho estrondo;
louvaram-me então a modéstia, -e porque eu me encolerizasse,
replicaram-me que era simplesmente grande.
  Capítulo 53
Virgília é que já se não lembrava da
meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida,
no meu pensamento; -era o que dizia, e era verdade.
Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras
são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal
ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e
exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os
dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite,
abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela
me deu, trêmula, -coitadinha,- trêmula de medo, porque era ao
portão da chácara. Uniu-nos esse beijo único, -breve como
a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de
delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de
aflições que desabrochavam em alegria,- uma hipocrisia paciente e
sistemática, único freio de uma paixão sem freio, -vida de
agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes,
que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia
aquela, como tudo mais, para deixar à tona as agitações e
o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o
livro daquele prólogo.
  Capítulo 54
A pêndula
Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir;
estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas
todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula
fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco, parecia dizer a
cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um
velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, a tirar as
moedas da vida para dá-las à morte, e a contá-las
assim:
-Outra de menos...
-Outra de menos...
-Outra de menos...
-Outra de menos...
O mais singular é que, se o relógio parava, eu
dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu pudesse
contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há, que
se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o
relógio é definitivo e perpétuo; o derradeiro homem, ao
despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na
algibeira, para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite não padeci essa triste sensação
de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias tumultuavam-me cá
dentro, vinham umas sobre outras, à semelhança de devotas que se
abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os
instantes perdidos, mas os minutos ganhados; de certo tempo em diante
não ouvi coisa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas,
saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da casa de
Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela o pensamento de
Virgília, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na
cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali postos, a
repetirem o velho diálogo de Adão e Eva.
  Capítulo 55
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O velho diálogo de Adão e Eva
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BRÁS CUBAS.-
...?
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VIRGÍLIA.-
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BRÁS CUBAS.-
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VIRGÍLIA.-
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BRÁS CUBAS.-
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VIRGÍLIA.-
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. . . . . . . . . . . . . . ? . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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BRÁS CUBAS.-
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VIRGÍLIA.-
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BRÁS CUBAS.-
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. . . . . . . . . . . . . ! . . . . . . . ! . . . . . . . . . . .
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. . . . .!
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VIRGÍLIA.-
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BRÁS CUBAS.-
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VIRGÍLIA.-
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  Capítulo 56
O momento oportuno
Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta
diferença?
Um dia vimo-nos, tratamos o casamento, desfizemo-o e separamo-nos, a
frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me
apenas algum despeito e nada mais.Correm anos, torno a vê-la, damos
três ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com
delírio. A beleza de Virgília chegara, é certo, a um alto
grau de apuro, mas nós éramos substancialmente os mesmos, e eu,
à minha parte, não me tornara mais bonito nem mais elegante. Quem
me explicará a razão dessa diferença?
A razão não podia ser outra senão o momento
oportuno. Não era oportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de
nós estava verde para o amor, ambos o estávamos para o nosso
amor; distinção fundamental. Não há amor
possível sem a oportunidade dos sujeitos. Esta explicação
achei-a eu mesmo, dois anos depois do beijo, um dia queVirgília se me
queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava.
-Que importuno! dizia ela fazendo uma careta de raiva.
Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera;
então ocorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquela mesma
careta, e compreendi logo toda a grandeza da minha evolução.
Tinha vindo de importuno a oportuno.
  Capítulo 57
Destino
Sim senhor, amávamos. Agora, que todas as leis sociais no-lo
impediam, agora é que nos amávamos deveras. Achávamo-nos
jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no
Purgatório:
Di pari, come buoi, che vanno a giogo;
e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós éramos outra
espécie de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a
caminhar sem saber até onde, nem por que estradas escusas; problema que
me assustou, durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei
ao destino. Pobre Destino!Onde andarás agora, grande procurador dos
negócios humanos? Talvez estejas a criar pele nova, outra cara, outras
maneiras, outro nome, e não é impossível que... Já
me não lembra onde estava... Ah! nas estradas escusas. Disse eu comigo
que já agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se
assim não fora, como explicaríamos a valsa e o resto?
Virgília pensava a mesma coisa. Um dia, depois de me confessar que tinha
momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos, é
porque me não tinha amor, Virgília cingiu-me com os seus
magníficos braços, murmurando:
-Amo-te, é a vontade do céu.
E esta palavra não vinha à toa; Virgília era
um pouco religiosa. Não ouvia missa aos domingos, é verdade, e
creio até que só ia às igrejas em dia de festa, e quando
havia lugar vago em alguma tribuna. Mas rezava todas as noites, com fervor, ou,
pelo menos, com sono. Tinha medo às trovoadas; nessas ocasiões,
tapava os ouvidos, e resmoneava todas as orações do catecismo. Na
alcova dela havia um oratoriozinho de jacarandá, obra de talha, de
três palmos de altura, com três imagens dentro; mas não
falava dele às amigas; ao contrário, tachava de beatas as que
eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nela certo vexame
de crer, e que a sua religião era uma espécie de camisa de
flanela preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.
  Capítulo 58
Confidência
Lobo Neves, a princípio, metia-me grandes sustos. Pura
ilusão! Como adorasse a mulher, não se vexava de mo dizer muitas
vezes; achava que Virgília era a perfeição mesma, um
conjunto de qualidades sólidas e finas, amorável, elegante,
austera, um modelo. E a confiança não parava aí. De fresta
que era, chegou à porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma
triste carcoma na existência; faltava-lhe a glória pública.
Animei-o; disse-lhe muitas coisas bonitas, que ele ouviu com aquela
unção religiosa de um desejo que não quer acabar de
morrer; então compreendi que a ambição dele andava cansada
de bater as asas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os
seus tédios e desfalecimentos, as amarguras engolidas, as raivas
sopitadas; contou-me que a vida política era um tecido de invejas,
despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades. Evidentemente
havia aí uma crise de melancolia; tratei de combatê-la.
-Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não pode
imaginar o que tenho passado. Entrei na política por gosto, por
família, por ambição, e um pouco por vaidade. Já
vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à
vida pública; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o
teatro pelo lado da platéia; e, palavra, que era bonito! Soberbo
cenário, vida, movimento e graça na representação.
Escriturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar com
isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho
passado horas e dias... Não há constância de sentimentos,
não há gratidão, não há nada... nada...
nada...
Calou-se profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo
não ouvir coisa nenhuma, a não ser o eco de seus próprios
pensamentos. Após alguns instantes, ergueu-se eestendeu-me a mão:
-O senhor há de rir-se de mim, disse ele; mas desculpe aquele desabafo;
tinha um negócio, que me mordia o espírito. E ria, de um jeito
sombrio e triste; depois pediu-me que não referisse a ninguém o
que se passara entrenós; ponderei-lhe que a rigor não se passara
nada. Entraram dois deputados e um chefe político da paróquia.
Lobo Neves recebeu-os com alegria, a princípio um tanto postiça,
mas logo depois natural. No fim de meia hora, ninguém diria que ele
não era o mais afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e
riam todos.
  Capítulo 59
Um encontro
Deve ser um vinho bem enérgico a política, dizia eu
comigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até
que na Rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo
companheiro de colégio. Corteja-nos afetuosamente, a sege seguiu, e eu
fui andando... andando... andando...
-Por que não serei eu ministro?
Esta idéia, rútila e grande, -trajada ao bizarro, como
diria o padre Bernardes,- esta idéia começou uma vertigem de
cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nela, a achar-lhe graça.
Não pensei mais na tristeza de Lobo Neves; senti a atração
do abismo. Recordei aquele companheiro de colégio, as correrias nos
morros, as alegrias e travessuras, e comparei o menino com o homem, e perguntei
a mim mesmo por que não seria eu como ele. Entrava então no
Passeio Público, e tudo me parecia dizer a mesma coisa.
-Por que não serás ministro, Cubas? -Cubas, por que
não serás ministro de Estado? Ao ouvi-lo, uma deliciosa
sensação me refrescava todo o organismo. Entrei, fui sentar-me
num banco, a remoer aquela idéia. E Virgília que havia de gostar!
Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que me não
pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse donde fosse.
-Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e
pálido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao cativeiro de
Babilônia; o chapéu era contemporâneo do de Gessler.
Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes, -ou,
literalmente, os ossos da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo
sem brilho; o pêlo desaparecia aos poucos; dos oito primitivos
botões restavam três. As calças, de brim pardo, tinham duas
fortes joelheiras, enquanto as bainhas eram roídas pelo tacão de
um botim sem misericórdia nem graxa. Ao pescoço flutuavam as
pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um colarinho
de oito dias. Creio que trazia também colete, um colete de seda escura,
roto a espaços, e desabotoado.
-Aposto que me não conhece, Senhor Doutor Cubas? disse
ele.
-Não me lembra...
-Sou o Borba, o Quincas Borba.
Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet
ou de Vieira, para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba,
o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de colégio,
tão inteligente e abastado. O Quincas Borba! Não;
impossível; não pode ser. Não podia acabar de crer que
essa figura esquálida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho
avelhentado, que toda essa ruína fosse o Quincas Borba. Mas era. Os
olhos tinham um resto da expressão de outro tempo, e o sorriso
não perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, ele
suportava com firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se
a figura repelia, a comparação acabrunhava.
-Não é preciso contar-lhe nada, disse ele enfim; o
senhor adivinha tudo. Uma vida de misérias, de
atribulações e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu
figurava de rei? Que trambolhão! Acabo mendigo...
E alçando a mão direita e os ombros, com um ar de
indiferença, parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei
até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassível.
Não havia nele a resignação cristã, nem a
conformidade filosófica.Parece que a miséria lhe calejara a alma,
a ponto de lhe tirar a sensação de lama. Arrastava os andrajos,
como outrora a púrpura: com certa graça indolente.
-Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma coisa.
Um sorriso magnífico lhe abriu os lábios. -Não
é o primeiro que me promete alguma coisa, replicou, e não sei se
será o último que não me fará nada. E para
quê? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro sim, porque
é necessário comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as
quitandeiras. Uma coisa de nada, uns dois vinténs de angu, nem isso fiam
as malditas quitandeiras... Um inferno, meu... ia dizer meu amigo... Um
inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.
-Não?
-Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No
terceiro degrau das escadas de São Francisco, à esquerda de quem
sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois
saí cedo, e ainda não comi...
Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis, -a
menos limpa,- e dei-lha. Ele recebeu-ma com os olhos cintilantes de
cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a entusiasmado.
-In hoc signo vinces! bradou.
E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão
ruidosa expansão, que me produziu um sentimento misto de nojo e
lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério,
grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era
alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil
réis.
-Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse
eu.
-Sim? acudiu ele, dando um bote para mim.
-Trabalhando, conclui eu.
Fez um gesto de desdém; calou-se alguns instantes; depois
disse-me positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa
abjeção tão cômica e tão triste, e
preparei-me para sair.
-Não vá sem eu lhe ensinar a minha filosofia da
miséria, disse ele, escarranchando-se diante de mim.
  Capítulo 60
O abraço
Cuidei que o pobre-diabo estivesse doido, e ia afastar-me, quando
ele me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que eu trazia
no dedo. Senti-lhe na mão uns estremeções de
cobiça, uns pruridos de posse.
-Magnífico! disse ele.
Depois começou a andar à roda de mim e a examinar-me
muito.
-O senhor trata-se, disse ele. jóias, roupa fina, elegante
e... Compare esses sapatos aos meus; que diferença! Pudera, não!
Digo-lhe que se trata. E moças? Como vão elas? Está
casado?
-Não.
-Nem eu.
-Moro na rua...
-Não quero saber onde mora, atalhou Quincas Borba. Se alguma
vez nos virmos, dê-me outra nota de cinco mil réis; mas permita-me
que não a vá buscar à sua casa. É uma
espécie de orgulho... Agora, adeus; vejo que está impaciente.
-Adeus!
-E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?
E dizendo isto abraçou-me com tal ímpeto que
não pude evitá-lo. Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com
a camisa amarrotada do abraço, enfadado e triste. Já não
dominava em mim a parte simpática da sensação, mas a
outra. Quisera ver-lhe a miséria digna. Contudo, não pude deixar
de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora, entristecer-me e
encarar o abismo que separa as esperanças de um tempo da realidade de
outro tempo...
-Ora adeus! Vamos jantar, disse comigo.
Meto a mão no colete e não acho o relógio.
Última desilusão! o Borba furtara-mo no abraço.
  Capítulo 61
Um projeto
Jantei triste. Não era a falta do relógio que me
pungia, era a imagem do autor do furto, e as reminiscências de
criança, e outra vez a comparação, e a conclusão...
Desde a sopa, começou a abrir em mim a flor amarela e mórbida do
capítulo 25, e então jantei depressa, para correr à casa
de Virgília. Virgília era o presente; eu queria refugiar-me nele,
para escapar às opressões do passado, porque o encontro do
Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, não qual fora deveras, mas
um passado roto, abjeto, mendigo e gatuno.
Saí de casa, mas era cedo; iria achá-los à
mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba, e tive então um desejo de
tornar ao Passeio Público, a ver se o achava; a idéia de o
regenerar surgiu-me como uma forte necessidade. Fui; mas já não o
achei. Indaguei do guarda; disse-me que efetivamente «esse sujeito»
ia por ali às vezes.
-A que horas?
-Não tem hora certa.
Não era impossível encontrá-lo noutra
ocasião; prometi a mim mesmo lá voltar. A necessidade de o
regenerar, de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchia-me o
coração; eu começava a sentir um bem-estar, uma
elevação, uma admiração de mim próprio...
Nisto caia a noite; fui ter com Virgília.
  Capítulo 62
O travesseiro
Fui ter com Virgília; bem depressa esqueci o Quincas Borba.
Virgília era o travesseiro do meu espírito, um travesseiro mole,
tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas. Era ali que
ele costumava repousar de todas as sensações más,
simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. E, bem pesadas as coisas,
não era outra a razão da existência de Virgília;
não podia ser. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o
Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação mútua,
com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E
lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrófula da
vida, andrajo do passado, que me importa que exista, que molestes os olhos dos
outros, se eu tenho dois palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos
e dormir?
  Capítulo 63
Fujamos!
Ai! nem sempre dormir. Três semanas depois, indo à casa
de Virgilia, -eram quatro horas da tarde,- achei-a triste e abatida. Não
me quis dizer o que era; mas, como eu instasse muito:
-Creio que o Damião desconfia alguma coisa. Noto agora umas
esquisitices nele... Não sei... Trata-me bem, não há
dúvida; mas o olhar parece que não é o mesmo. Durmo mal;
ainda esta noite acordei, aterrada; estava sonhando que ele me ia matar. Talvez
seja ilusão, mas eu penso que ele desconfia...
Tranqüilizei-a como pude; disse que podiam ser cuidados
políticos. Virgília concordou que seriam, mas ficou ainda muito
excitada e nervosa. Estávamos na sala de visitas, que dava justamente
para a chácara, onde trocáramos o beijo inicial. Uma janela
aberta deixava entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas, e eu fiquei
a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhara o binóculo da
imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa,
um mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral,
nem nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta
idéia embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido,
bastava penetrar naquela habitação dos anjos.
-Virgília, disse, eu proponho-te uma coisa.
-Que é?
-Amas-me?
Oh! suspirou ela, cingindo-me os braços ao
pescoço.
-Virgília amava-me com fúria; aquela resposta era a
verdade patente. Com os braços ao meu pescoço, calada, respirando
muito, deixou-se ficar a olhar para mim, com os seus grandes e belos olhos, que
davam uma sensação singular de luz úmida; eu deixei-me
estar a vê-los, a namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e
insaciável como a morte. A beleza de Virgília tinha agora um tom
grandioso, que não possuíra antes de casar. Era dessas figuras
talhadas em pentélico, de um lavor nobre, rasgado e puro,
tranqüilamente bela, como as estátuas, mas não
apática nem fria. Ao contrário, tinha o aspecto das naturezas
cálidas, e podia-se dizer que, na realidade, resumia todo o amor.
Resumia-o sobretudo naquela ocasião, em que exprimia mudamente tudo
quanto pode dizer a pupila humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as
mãos, peguei-lhe nos pulsos, e, fito nela, perguntei-lhe se tinha
coragem.
-De quê?
-De fugir. Iremos para onde nos for mais cômodo, uma casa
grande ou pequena, à tua vontade, na roça ou na cidade, ou na
Europa, onde te parecer, onde ninguém nos aborreça, e não
haja perigos para ti, onde vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou
cedo, ele pode descobrir alguma coisa, e estarás perdida... ouves?
perdida... morta... e ele também, porque eu o matarei, juro-te.
Interrompi-me; Virgília empalidecera muito, deixou cair os
braços e sentou-se no canapé. Esteve assim alguns instantes, sem
me dizer palavra, não sei se vacilante na escolha, se aterrada com a
idéia da descoberta e da morte. Fui-me a ela, insisti na proposta,
disse-lhe todas as vantagens de uma vida a sós, sem zelos, nem terrores,
nem aflições. Virgília ouvia-me calada; depois disse:
-Não escaparíamos talvez; ele iria ter comigo e
matava-me do mesmo modo. Mostrei-lhe que não. O mundo era assaz vasto, e
eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; ele
não chegaria até lá; só as grandes paixões
são capazes de grandes ações, e ele não a amava
tanto que pudesse ir buscá-la, se ela estivesse longe. Virgília
fez um gesto de espanto e quase indignação; murmurou que o marido
gostava muito dela.
-Pode ser, respondi eu; pode ser que sim...
Fui até a janela, e comecei a rufar com os dedos no
peitoril. Virgília chamou-me; deixei-me estar, a remoer os meus zelos, a
desejar estrangular o marido, se o tivesse ali à mão...
Justamente, nesse instante, apareceu na chácara o Lobo Neves. Não
tremas assim, leitora pálida; descansa, que não hei de rubricar
esta lauda com um pingo de sangue. Logo que apareceu na chácara, fiz-lhe
um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virgília retirou-se
apressadamente da sala, onde ele entrou daí a três minutos.
-Está cá há muito tempo? Disse-me ele.
-Não.
Entrara sério, pesado, derramando os olhos de um modo
distraído, costume seu, que trocou logo por uma verdadeira
expansão de jovialidade, quando viu chegar o filho, o Nhonhô, o
futuro bacharel do capítulo; tomou-o nos braços, levantou-o ao
ar, beijou-o muitas vezes. Eu, que tinha ódio ao menino, afastei-me de
ambos. Virgília tornou à sala.
-Ah! respirou Lobo Neves, sentando-se preguiçosamente no
sofá.
-Cansado? perguntei eu.
-Muito; aturei duas maçadas de primeira ordem, uma na
câmara e outra na rua. E ainda temos terceira, acrescentou, olhando para
a mulher.
-Que é? perguntou Virgília.
-Um... Adivinha!
Virgília sentara-se ao lado dele, pegou-lhe numa das
mãos, compôs-lhe a gravata, e tomou a perguntar o que era.
-Nada menos que um camarote.
-Para a Candiani?
-Para a Candiani.
Virgília bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho,
com um ar de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se
o camarote era de boca ou do centro,consultou o marido, em voz baixa, acerca da
toilette que faria, da ópera que se cantava, e de não sei que
outras coisas.
-Você janta conosco, doutor, disse-me Lobo Neves.
-Veio para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possui
o melhor vinho do Rio de Janeiro.
-Nem por isso bebe muito.
Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim,
menos do que era preciso para perder a razão. Já estava excitado,
fiquei um pouco mais. Era a primeira grande cólera que eu sentia contra
Virgília. Não olhei uma só vez para ela durante o jantar;
falei de política, da imprensa, do ministério, creio que falaria
de teologia, se a soubesse, ou se me lembrasse. Lobo Neves acompanhava-me com
muita placidez e dignidade, e até com certa benevolência superior;
e tudo aquilo me irritava também, e me tornava mais amargo e longo o
jantar. Despedi-me apenas nos levantamos da mesa.
-Até logo, não? perguntou Lobo Neves.
-Pode ser.
E saí
  Capítulo 64
A transação
Vaguei pelas ruas e recolhi-me às nove horas. Não
podendo dormir, atirei-me a ler e escrever. Às onze horas estava
arrependido de não ter ido ao teatro, consultei o relógio, quis
vestir-me, e sair. Julguei, porém, que chegaria tarde; demais, era dar
prova de fraqueza. Evidentemente, Virgília começava a
aborrecer-se de mim, pensava eu. E esta idéia fez-me sucessivamente
desesperado e frio, disposto a esquecê-la e a matá-la. Via-a dali
mesmo, reclinada no camarote, com os seus magníficos braços nus,
-os braços que eram meus, só meus- fascinando os olhos de todos,
com o vestido soberbo que havia de ter, o colo de leite, os cabelos postos em
bandós, à maneira do tempo, e os brilhantes, menos luzidios que
os olhos dela... Via-a assim, e doía-me que a vissem outros. Depois,
começava a despi-la, a pôr de lado as jóias e sedas, a
despenteá-la com as minhas mãos sôfregas e lascivas, a
torná-la, -não sei se mais bela, se mais natural,- a
torná-la minha, somente minha, unicamente minha.
No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo à casa
deVirgília; achei-a com os olhos vermelhos de chorar.
-Que houve? perguntei.
-Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a
menor soma de amor. Tratou-me ontem como se me tivesse ódio. Se eu ao
menos soubesse o que é que fiz! -Mas não sei. Não me
dirá o que foi?
-Que foi o quê? Creio que não houve nada.
-Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro...
A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas
lágrimas rebentaram-lhe dos olhos.
-Acabou, acabou, disse eu.
Não tive ânimo de argüir, e, aliás,
argüi-la de quê? Não era culpa dela se o marido a amava.
Disse-lhe que não me fizera coisa nenhuma, que eu tinha necessariamente
ciúmes do outro, que nem sempre o podia suportar de cara alegre;
acrescentei que talvez houvesse nele muita dissimulação, e que o
melhor meio de fechar a porta aos sustos e às dissensões era
aceitar a minha idéia da véspera.
-Pensei nisso, acudiu Virgília; uma casinha só nossa,
solitária, metida num jardim, em alguma rua escondida, não
é? Acho a idéia boa; mas para que fugir?
Disse isto com o tom ingênuo e preguiçoso de quem
não cuida em mal, e o sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia
a mesma expressão de candidez. Então, afastando-me, respondi:
-Você é que nunca me teve amor.
-Eu?
-Sim, é uma egoísta! prefere ver-me padecer todos os
dias... é uma egoísta sem nome!
Virgília desatou a chorar, e para não atrair gente,
metia o lenço na boca, recalcava os soluços; explosão que
me desconcertou. Se alguém a ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para
ela, travei-lhe dos pulsos, sussurrei-lhe os nomes mais doces da nossa
intimidade; mostrei-lhe o perigo; o terror apaziguou-a.
-Não posso, disse ela daí a alguns instantes;
não deixo meu filho; se o levar, estou certa de que
ele me irá buscar ao fim do mundo.
Não posso; mate-me você, se o quiser,ou deixe-me morrer... Ah! meu
Deus! meu Deus!
-Sossegue; olhe que podem ouvi-la.
-Que ouçam! Não me importa.
Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me
perdoasse, que eu era um doido, mas que a minha insânia provinha dela e
com ela acabaria. Virgília enxugou os olhos e estendeu-me a mão.
Sorrimos ambos; minutos depois, tornávamos ao assunto da casinha
solitária, em alguma rua escusa...
  Capítulo 65
Olheiros e Eescutas
Interrompeu-nos o rumor de um carro na chácara. Veio um
escravo dizer que era a baronesa X. Virgília consultou-me com os
olhos.
-Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu,
parece que o melhor é não receber.
-Já se apeou? perguntou Virgília ao escravo.
-Já se apeou; diz que precisa muito de falar com
sinhá!
-Que entre!
A baronesa entrou daí a pouco. Não sei se contava
comigo na sala; mas era impossível mostrar maior alvoroço.
-Bons olhos o vejam! explodiu ela. Onde se mete o senhor que
não aparece em parte nenhuma? Pois olhe, ontem admirou-me não o
ver no teatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani?
É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia
ontem, no camarote, que uma só italiana vale por cinco brasileiras. Que
desaforo! e desaforo de velho, que é pior. Mas por que é que o
senhor não foi ontem ao teatro?
-Uma enxaqueca.
-Qual! Algum namoro; não acha, Virgília? Pois, meu
amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta anos... ou perto
disso... Não tem quarenta anos?
-Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me
dá licença vou consultar a certidão de batismo.
-Vá, vá... E estendendo-me a mão: -Até
quando?Sábado ficamos em casa; o barão está com umas
saudades suas...
Chegando à rua, arrependi-me de ter saído. A baronesa
era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Cinqüenta e cinco
anos, que pareciam quarenta, macia, risonha, vestígios de beleza, porte
elegante e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuía a
grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na
cadeira, desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os
outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo
que ela olhava só, ora fixa, ora móbil, levando a astúcia
ao ponto de olhar às vezes para dentro de si, porque deixava cair as
pálpebras; mas, como as pestanas eram rótulas, o olhar continuava
o seu oficio, remexendo a alma e a vida dos outros.
A segunda pessoa era um parente de Virgília, o Viegas, um
cangalho de setenta invernos, chupado e amarelado, que padecia de um reumatismo
teimoso, de uma asma não menos teimosa e de uma lesão do
coração: era um hospital concentrado. Os olhos porém
luziam de muita vida e saúde. Virgília, nas primeiras semanas,
não lhe tinha medo nenhum; dizia-me que, quando o Viegas parecia
espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando dinheiro. Com efeito,
era um grande avaro.
Havia ainda o primo de Virgília, o Luís Dutra, que eu,
agora desarmava à força de lhe falar nos versos e prosas, e de o
apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome à pessoa, se
mostravam contentes da apresentação, não há
dúvida que Luís Dutra exultava de felicidade; mas eu curava-me da
felicidade com a esperança de que ele nos não denunciasse nunca.
Havia, enfim, umas duas ou três senhoras, vários gamenhos, e os
fâmulos, que naturalmente se desforravam assim da condição
servil, e tudo isso constituía uma verdadeira floresta de olheiros e
escutas, por entre os quais tínhamos de resvalar com a tática e
maciez das cobras.
  Capítulo 66
As pernas
Ora, enquanto eu pensava naquela gente, iam-me as pernas levando,
ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei à porta do Hotel
Pharoux. De costume jantava aí; mas, não tendo deliberadamente
andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às
pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas! E há quem vos trate com
desdém ou indiferença. Eu mesmo, até então,
tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigáveis, quando
não podíeis ir além de certo ponto, e me deixáveis
com o desejo a avoaçar, à semelhança de galinha atada
pelos pés.
Aquele caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas,
vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar
emVirgília, e dissestes uma à outra: -Ele precisa comer,
são horas de jantar, vamos levá-lo ao Pharoux; dividamos a
consciência dele, uma parte fique lá com a dama, tomemos
nós a outra, para que ele vá direito, não abalroe as
gentes e as carroças, tire o chapéu aos conhecidos, e finalmente
chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes à risca o vosso
propósito, amáveis pernas, o que me obriga a imortalizar-vos
nesta página.
  Capítulo 67
A casinha
Jantei e fui a casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me
mandara o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas
cor-de-rosa. Entendi, abria-a, e tirei este bilhete:
«Meu B...
Desconfiam de nós; tudo está perdido;
esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus;
esqueça-se da infeliz
V... a.»
Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite,
corri à casa de Virgília. Era tempo; estava arrependida. Ao
vão de uma janela, contou-me o que se passara com a baronesa. A baronesa
disse-lhe francamente que se falara muito, no teatro, na noite anterior, a
propósito da minha ausência do camarote do Lobo Neves; tinham
comentado as minhas relações na casa; em suma, éramos
objeto da suspeita pública. Concluiu dizendo que não sabia que
fazer.
-O melhor é fugirmos, insinuei.
-Nunca, respondeu ela abanando a cabeça.
Vi que era impossível separar duas coisas que no
espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a
consideração pública. Virgília era capaz de iguais
e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens, e a fuga
só lhe deixava uma. Talvez senti alguma coisa semelhante a despeito; mas
as comoções daqueles dois dias eram já muitas, e o
despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.
Com efeito, achei-a, dias depois, expressamente feita num recanto
da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro janelas na frente e
duas de cada lado todas com venezianas cor de tijolo, -trepadeira nos cantos,
jardim na frente; mistério e solidão. Um brinco!
Convencionamos que iria morar ali uma mulher, conhecida de
Virgília, em cuja casa fora costureira e agregada. Virgília
exercia sobre ela verdadeira fascinação. Não se lhe diria
tudo; ela aceitaria facilmente o resto.
Para mim era aquilo uma situação nova do nosso amor,
uma aparência de posse exclusiva, de domínio absoluto, alguma
coisa que me faria adormecer a consciência e resguardar o decoro.
Já estava cansado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do
canapé, de todas essas coisas, que me traziam aos olhos constantemente a
nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares freqüentes, o chá
de todas as noites, enfim a presença do filho deles, meu cúmplice
e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria à
porta -dali para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional,
nosso, somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronesas,
sem olheiros, sem escutas,- um só mundo, um só casal, uma
só vida, uma só vontade, uma só afeição, -a
unidade moral de todas as coisas pela exclusão das que me eram
contrárias.
  Capítulo 68
O vergalho
Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por
aqueleValongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um
ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro
não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras:
-«Não, perdão, meu senhor; meu senhor,
perdão!» Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada
súplica, respondia com uma vergalhada nova.
-Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!
-Meu senhor! gemia o outro.
-Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... justos céus! Quem havia de ser o do vergalho?
Nada menos que o meu moleque Prudêncio, -o que meu pai libertara alguns
anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a
bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
-É, sim nhonhô.
-Fez-te alguma coisa?
-É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei
ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a
quitanda para ir na venda beber.
-Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
-Pois não, nhonhô manda, não pede. Entra para
casa, bêbado!
Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas
conjeturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que
sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um
bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres;
é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo;
mas só exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do
raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino e até profundo. Era um
modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas,
transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio
na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora,
porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das
pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga
condição, agora é que ele se desbancava: comprou um
escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera.
Vejam as sutilezas do maroto!
  Capítulo 69
Um grão de sandice
Este caso faz-me lembrar um doido que conheci. Chamava-se Romualdo
e dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e única mania, e tinha uma
curiosa maneira de a explicar.
-Eu sou o ilustre Tamerlão, dizia ele. Outrora fui Romualdo,
mas adoeci, e tomei tanto tártaro, tanto tártaro, tanto
tártaro, tanto tártaro, que fiquei Tártaro, e até
rei dos Tártaros. O tártaro tem a virtude de fazer
Tártaros.
Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas é
provável que o leitor não se ria, e com razão; eu
não lhe acho graça nenhuma. Ouvida, tinha algum chiste; mas assim
contada, no papel, e a propósito de um vergalho recebido e transferido,
força é confessar que é muito melhor voltar à
casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudêncios.
  Capítulo 70
Dona Plácida
Voltemos à casinha. Não serias capaz de lá
entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu, apodreceu, e o
proprietário deitou-a abaixo para substituí-la por outra,
três vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era
estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para
as andorinhas.
E vê agora a neutralidade deste globo, que nos leva,
através dos espaços, como uma lancha de náufragos, que vai
dar à costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de
chão que sofreu um casal de pecados. Amanhã pode lá dormir
um eclesiástico, depois um assassino, depois um ferreiro, depois um
poeta, e todos abençoarão esse canto de terra, que lhes deu
algumas ilusões.
Virgília fez daquilo um brinco; designou as alfaias mais
idôneas, e dispô-las com a intuição estética
da mulher elegante; eu levei para lá alguns livros, e tudo ficou sob a
guarda de Dona Plácida, suposta, e, a certos respeitos, verdadeira dona
da casa. Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejara a intenção,
e doía-lhe o ofício; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a
princípio: tinha nojo de si mesma. Ao menos, é certo que
não levantou os olhos para mim durante os primeiros dois meses;
falava-me com eles baixos, séria, carrancuda, às vezes triste. Eu
queria angariá-la, e não me dava por ofendido, tratava-a com
carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a benevolência, depois a
confiança. Quando obtive a confiança, imaginei uma
história patética dos meus amores com Virgília, um caso
anterior ao casamento, a resistência do pai, a dureza do marido, e
não sei que outros toques de novela. Dona Plácida não
rejeitou uma só página da novela; aceitou-as todas. Era uma
necessidade da consciência. Ao cabo de seis meses quem nos visse a todos
três juntos diria que Dona Plácida era minha sogra.
Não fui ingrato; fiz-lhe um pecúlio de cinco contos,
-os cinco contos achados em Botafogo,- como um pão para a velhice. Dona
Plácida agradeceu-me com lágrimas nos olhos, e nunca mais deixou
de rezar por mim, todas as noites, diante de uma imagem da Virgem que tinha no
quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.
  Capítulo 71
O senão do livro
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me
canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros
capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da
eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa
contração cadavérica; vício grave, e aliás
ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens
pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração
direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo
são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda,
andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu,
escorregam e caem...
E caem! -Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair,
como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-ia uma
lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se
não deixa boca para rir, também não deixa olhos para
chorar... Heis de cair.
  Capítulo 72
O bibliômano
Talvez suprima o capítulo anterior; entre outros motivos,
há aí, nas últimas linhas, uma frase muito parecida com
despropósito, e eu não quero dar pasto à crítica do
futuro.
Olhai: daqui a setenta anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho,
que não ama nenhuma outra coisa além dos livros,inclina-se sobre
a página anterior, a ver se lhe descobre o despropósito;
lê, relê, treslê, desengonça as palavras, saca uma
sílaba, depois outra, mais outra, e as restantes, examina-as por dentro
e por fora, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no
joelho, lava-as, e nada; não acha o despropósito.
É um bibliômano. Não conhece o autor; este nome
de Brás Cubas não vem nos seus dicionários
biográficos. Achou o volume, -por acaso, no pardieiro de um
alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou, pesquisou,
esgaravatou, e veio a descobrir que era um exemplar único...
Único! Vós, que não só amais os livros,
senão que padeceis a mania deles, vós sabeis mui bem o valor
desta palavra, e adivinhais, portanto, as delícias de meu
bibliômano. Ele rejeitaria a coroa das Índias, o papado, todos os
museus da Itália e da Holanda, se os houvesse de trocar por esse
único exemplar; e não porque seja o das minhas
Memórias, faria a mesma coisa com o
Almanac de Laemmert, uma vez que fosse
único.
O pior é o despropósito. Lá continua o homem
inclinado sobre a página, com uma lente no olho direito, todo entregue
à nobre e áspera função de decifrar o
despropósito. Já prometeu a si mesmo escrever uma breve
memória, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade,
se a houver por baixo daquela frase obscura. Ao cabo, não descobre nada
e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se à
janela e mostra-o ao sol. Um exemplar único! Nesse momento passa-lhe por
baixo da janela um César ou um Cromwell, a caminho do poder. Ele
dá de ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia o livro
devagar, com amor, aos goles... Um exemplar único!
  Capítulo 73
O luncheon
O despropósito fez-me perder outro capítulo. Que
melhor não era dizer as coisas lisamente, sem todos estes solavancos!
Já comparei o meu estilo ao andar dos ébrios. Se a idéia
vos parece indecorosa, direi que ele é o que eram as minhas
refeições com Virgília, na casinha da Gamboa, onde
às vezes fazíamos a nossa patuscada, o nosso
luncheon. Vinho, frutas, compotas.
Comíamos, é verdade, mas era um comer virgulado de palavrinhas
doces, de olhares ternos, de criancices, uma infinidade desses apartes do
coração, aliás o verdadeiro, o ininterrupto discurso do
amor. Às vezes vinha o arrufo temperar o nímio adocicado da
situação. Ela deixava-me, refugiava-se num canto do
canapé, ou ia para o interior ouvir as denguices de Dona Plácida.
Cinco ou dez minutos depois, reatávamos a palestra, como eu reato a
narração, para desatá-la outra vez. Note-se que, longe de
termos horror ao método, era nosso costume convidá-lo, na pessoa
de Dona Plácida, a sentar-se conosco à mesa; mas Dona
Plácida não aceitava nunca.
-Você parece que não gosta mais de mim, disse-lhe um
dia Virgília.
-Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alçando as
mãos para o teto. Não gosto de Iaiá! Mas então de
quem é que eu gostaria neste mundo? E, pegando-lhe nas mãos,
olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, até molharem-lhe os olhos, de
tão fixo que era.Virgília acariciou-a muito; eu deixei-lhe uma
pratinha na algibeira do vestido.
  Capítulo 74
História de Dona Plácida
Não te arrependas de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma
confidência de Dona Plácida, e conseguintemente este
capítulo. Dias depois, como eu a achasse só em casa, travamos
palestra, e ela contou-me em breves termos a sua história. Era filha
natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces
para fora. Perdeu o pai aos dez anos. Já então ralava coco e
fazia não sei que outros trabalhos de doceira, compatíveis com a
idade. Aos quinze ou dezesseis casou com um alfaiate, que morreu tísico
algum tempo depois, deixando-lhe uma filha.Viúva e moça, ficaram
a seu cargo a filha, com dois, e a mãe, cansada de trabalhar. Tinha de
sustentar a três pessoas. Fazia doces, que era o seu ofício, mas
cosia também, de dia e de noite, com afinco, para três ou quatro
lojas e ensinava algumas crianças do bairro, a dez tostões por
mês. Com isto iam-se passando os anos, não, não a beleza,
porque não a tivera nunca. Apareceram-lhe alguns namoros, propostas,
seduções, a que resistia.
-Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ela, creia que me
teria casado; mas ninguém queria casar comigo.
Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; não sendo,
porém, mais delicado que os outros, Dona Plácida despediu-o do
mesmo modo, e, depois de o despedir, chorou muito. Continuou a coser para fora
e a escumar os tachos. A mãe tinha a rabugem do temperamento, dos anos e
da necessidade; mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de
empréstimo e de ocasião que lha pediam. E bradava:
Queres ser melhor do que eu? Não sei donde te vem essas
fidúcias de pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja
à toa; não se come vento. Ora esta! Moços tão bons
como o Policarpo da venda, coitado... Esperas algum fidalgo, não
é?
Dona Plácida jurou-me que não esperava fidalgo
nenhum. Era gênio. Queria ser casada. Sabia muito bem que a mãe o
não fora, e conhecia algumas que tinham só o seu moço
delas; mas era gênio e queria ser casada. Não queria também
que a filha fosse outra coisa. Trabalhava muito, queimando os dedos ao
fogão, e os olhos ao candeeiro, para comer e não cair. Emagreceu,
adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscrição, e
continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze anos; mas era muito
fraquinha, e não fazia nada, a não ser namorar os
capadócios que lhe rondavam a rótula. Dona Plácida vivia
com imensos cuidados, levando-a consigo, quando tinha de ir entregar costuras.
-A gente das lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ela a
levava para colher marido ou outra coisa. Alguns diziam graçolas, faziam
cumprimentos; a mãe chegou a receber propostas de dinheiro...
Interrompeu-se um instante, e continuou logo:
-Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber...
Deixou-me só, mas tão triste, tão triste, que pensei
morrer. Não tinha ninguém mais no mundo e estava quase velha e
doente. Foi por esse tempo que conheci a família de Iaiá: boa
gente, que me deu que fazer, e até chegou a me dar casa. Estive
lá muitos meses, um ano, mais de um ano, agregada, costurando.
Saí quando Iaiá casou. Depois vivi como Deus foi servido. Olhe os
meus dedos, olhe estas mãos... E mostrou-me as mãos grossas e
gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha. -Não se cria isto
à toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria...
Felizmente, Iaiá me protegeu, e o senhor doutor também... Eu
tinha um medo de acabar na rua, pedindo esmola...
Ao soltar a última frase, Dona Plácida teve um
calafrio. Depois, como se tornasse a si, pareceu atentar na
inconveniência daquela confissão ao amante de uma mulher casada, e
começou a rir, a desdizer-se, a chamar-se tola, «cheia de
fidúcias», como lhe dizia a mãe; enfim, cansada do meu
silêncio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a ponta do
botim.
  Capítulo 75
Comigo
Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o
capítulo anterior, observo que é preciso lê-lo para
entender o que eu disse comigo, logo depois que Dona Plácida saiu da
sala. O que eu disse foi isto:
-Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando
à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de
Dona Plácida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou,
disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares,
nos dias de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa
conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plácida. E
de crer que Dona Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se
falasse podia dizer aos autores de seus dias: -Aqui estou. Para que me
chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe
responderiam: -Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na
costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina,
adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste
agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos
no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no
hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.
  Capítulo 76
O estrume
Súbito deu-me a consciência um repelão,
acusou-me de ter feito capitular a probidade de Dona Plácida,
obrigando-a a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e
privações. Medianeira não era melhor que concubina, e eu
tinha-a baixado a esse ofício, à custa de obséquios e
dinheiros. Foi o que me disse a consciência; fiquei uns dez minutos sem
saber que lhe replicasse. Ela acrescentou que eu me aproveitara da
fascinação exercida por Virgília sobre a ex-costureira, da
gratidão desta, enfim da necessidade. Notou a resistência de Dona
Plácida, as lágrimas dos primeiros dias, as caras feias, os
silêncios, os olhos baixos, e a minha arte em suportar tudo isso,
até vencê-la. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e
nervoso.
Concordei que assim era, mas aleguei que a velhice de Dona
Plácida estava agora ao abrigo da mendicidade: era uma
compensação. Se não fossem os meus amores, provavelmente
Dona Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas; donde se
poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude.
O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã. A
consciência concordou, e eu fui abrir a porta a Virgília.
  Capítulo 77
Entrevista
Virgília entrou risonha e sossegada. Os tempos tinham levado
os sustos e vexames. Que doce que era vê-la chegar, nos primeiros dias,
envergonhada e trêmula! Ia de sege, velado o rosto, envolvido numa
espécie de mantéu, que lhe disfarçava as
ondulações do talhe. Da primeira vez deixou-se cair no
canapé, ofegante, escarlate, com os olhos no chão; e, palavra! em
nenhuma outra ocasião a achei tão bela, talvez porque nunca me
senti mais lisonjeado.
Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e
vexames; as entrevistas entravam no período cronométrico.A
intensidade de amor era a mesma; a diferença é que a chama
perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de
raios, tranqüilo e constante, como nos casamentos.
-Estou muito zangada com você, disse ela sentando-se.
-Por quê?
-Por que não foi lá ontem, como me tinha dito. O
Damião perguntou muitas vezes se você não iria, ao menos,
tomar chá. Por que é que não foi?
Com efeito, eu havia faltado à palavra que dera, e a culpa
era toda de Virgília. Questão de ciúmes. Essa mulher
esplêndida sabia que o era, e gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta
ou baixa. Na antevéspera, em casa da baronesa, valsara duas vezes com o
mesmo peralta, depois de lhe escutar as cortesanices, ao canto de uma janela.
Estava tão alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando
descobriu, entre as minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e
ameaçadora, não teve nenhum sobressalto, nem ficou subitamente
séria; mas deitou ao mar o peralta e as cortesanices. Veio depois a mim,
tomou-me o braço, e levou-me a outra sala, menos povoada, onde se me
queixou de cansaço, e disse muitas outras coisas, com o ar pueril que
costumava ter, em certas ocasiões, e eu ouvi-a quase sem responder
nada.
Agora mesmo, custava-me responder alguma coisa, mas enfim
contei-lhe o motivo da minha ausência... Não, eternas estrelas,
nunca vi olhos mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas,
uma estupefação visível, tangível,que se não
podia negar, tal foi a primeira réplica de Virgília; abanou a
cabeça com um sorriso de piedade e ternura, que inteiramente me
confundiu.
-Ora você!
E foi tirar o chapéu, lépida, jovial, como a menina
que torna do colégio; depois veio a mim, que estava sentado, deu-me
pancadinhas na testa, com um só dedo, a repetir: -Isto,isto;- e eu
não tive remédio senão rir também, e tudo acabou em
galhofa. Era claro que me enganara.
  Capítulo 78
A presidência
Certo dia, meses depois, entrou Lobo Neves em casa, dizendo que
iria talvez ocupar uma presidência de província. Olhei para
Virgília, que empalideceu; ele, que a viu empalidecer,
perguntou-lhe:
-A modo que não gostaste, Virgília?
Virgília abanou a cabeça.
-Não me agrada muito, foi a sua resposta.
Não se disse mais nada; mas de noite Lobo Neves insistiu no
projeto, um pouco mais resolutamente do que de tarde; dois dias depois declarou
à mulher que a presidência era coisa definitiva. Virgília
não pôde dissimular a repugnância que isto lhe causava. O
marido respondia a tudo com as necessidades políticas.
-Não posso recusar o que me pedem; é até
conveniência nossa, do nosso futuro, dos teus brasões, meu amor,
porque eu prometi que serias marquesa, e nem baronesa estás.
Dirás que sou ambicioso? Sou-o deveras, mas é preciso que me
não ponhas um peso nas asas da ambição.
Virgília ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste,
na casa da Gamboa, à minha espera; tinha dito tudo a Dona
Plácida, que buscava consolá-la como podia. Não fiquei
menos abatido.
-Você há de ir conosco, disse-me Virgília.
-Está doida? Seria uma insensatez.
-Mas então...?
-Então, é preciso desfazer o projeto.
-É impossível.
-Já aceitou?
-Parece que sim.
Levantei-me, atirei o chapéu a uma cadeira, e entrei a
passear de um lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e
não achei nada. Enfim, cheguei-me a Virgília, que estava sentada,
e travei-lhe da mão; Dona Plácida foi à janela.
-Nesta pequenina mão está toda a minha
existência, disse eu; você é responsável por ela;
faça o que lhe parecer.
Virgília teve um gesto aflitivo; eu fui encostar-me ao
consolo fronteiro. Decorreram alguns instantes de silêncio;
ouvíamos somente o latir de um cão, e não sei se o rumor
da água que morria na praia. Vendo que não falava, olhei para
ela. Virgília tinha os olhos no chão, parados, sem luz, as
mãos deixadas sobre os joelhos, com os dedos cruzados, na atitude de
suprema desesperança. Noutra ocasião, por diferente motivo,
é certo que eu me lançaria aos pés dela, e a ampararia com
a minha razão e a minha ternura; agora, porém, era preciso
compeli-la ao esforço de si mesma, ao sacrifício, à
responsabilidade da nossa vida comum, e conseguintemente desampará-la,
deixá-la, e sair; foi o que fiz.
-Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse
eu.
Virgília quis agarrar-me, mas eu já estava fora da
porta. Cheguei a ouvir um prorromper de lágrimas, e digo-lhes que estive
a ponto de voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e
saí.
  Capítulo 79
Compromisso
Não acabaria se houvesse de contar pelo miúdo o que
padeci nas primeiras horas. Vacilava entre um querer e um não querer,
entre a piedade que me empuxava à casa de Virgília e outro
sentimento, -egoísmo, suponhamos,- que me dizia: -Fica; deixa-a a
sós com o problema, deixa-a que ela o resolverá no sentido do
amor. Creio que essas duas forças tinham igual intensidade, investiam e
resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia
definitivamente. Às vezes sentia um dentezinho de remorso; parecia-me
que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada sacrificar nem
arriscar de mim próprio; e, quando ia capitular, vinha outra vez o amor,
e me repetia o conselho egoísta, e eu ficava irresoluto e inquieto,
desejoso de a ver, e receoso de que a vista me levasse a compartir a
responsabilidade da solução.
Por fim interveio um compromisso entre o egoísmo e a piedade;
eu iria vê-la em casa, e só em casa, em presença do marido,
para lhe não dizer nada, à espera do efeito da minha
intimação. Deste modo poderia conciliar as duas forças.
Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que o compromisso era uma burla, que
essa piedade era ainda uma forma de egoísmo, e que a
resolução de ir consolar Virgília não passava de
uma sugestão de meu próprio padecimento.
  Capítulo 80
De secretário
Na noite seguinte fui efetivamente à casa do Lobo Neves;
estavam ambos, Virgília muito triste, ele muito jovial. Juro que ela
sentiu certo alívio, quando os nossos olhos se encontraram, cheios de
curiosidade e ternura. Lobo Neves contou-me os planos que levava para a
presidência, as dificuldades locais, as esperanças, as
resoluções; estava tão contente! tão
esperançado! Virgília, ao pé da mesa, fingia ler um livro,
mas por cima da página olhava-me de quando em quando, interrogativa e
ansiosa.
-O pior, disse-me de repente o Lobo Neves, é que ainda
não achei secretário.
-Não?
-Não, e tenho uma idéia.
-Ah!
-Uma idéia... Quer você dar um passeio ao Norte?
Não sei o que lhe disse.
-Você é rico, continuou ele, não precisa de um
magro ordenado; mas se quisesse obsequiar-me, ia de secretário
comigo.
Meu espírito deu um salto para trás, como se
descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente,
imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto... Nem sombra
disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural,
não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não
tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página
o olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que
iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era
resolver as coisas de um modo administrativo.
  Capítulo 81
A reconciliação
Contudo, ao sair de lá, tive umas sombras de dúvida;
cogitei se não ia expor insanamente a reputação de
Virgília, se não haveria outro meio razoável de combinar o
Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia seguinte, ao levantar-me da
cama, trazia o espírito feito e resoluto a aceitar a
nomeação. Ao meio-dia, veio o criado dizer-me que estava na sala
uma senhora, coberta com um véu. Corro; era minha irmã
Sabina.
-Isto não pode continuar assim, disse ela; é preciso
que, de uma vez por todas, façamos as pazes. Nossa família
está acabando; não havemos de ficar como dois inimigos.
-Mas se eu não te peço outra coisa, mana! bradei eu
estendendo-lhe os braços.
Sentei-a ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos
negócios, de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O
marido viria mostrar-ma, se eu consentisse.
-Ora essa! irei eu mesmo vê-la.
-Sim?
-Palavra.
-Tanto melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com
isto.
Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte
anos, e contava mais de trinta. Graciosa, afável, nenhum acanhamento,
nenhum ressentimento. Olhávamos um para o outro, com as mãos
seguras, falando de tudo e de nada, como dois namorados. Era a minha
infância que ressurgia, fresca, travessa e loura; os anos iam caindo como
as fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno, e
deixavam-me ver a nossa casa, a nossa família, as nossas festas.
Suportei a recordação com algum esforço; mas um barbeiro
da vizinhança lembrou-se de zangarrear na clássica rabeca, e essa
voz -porque até então a recordação era muda, -essa
voz do passado, fanhosa e saudosa, a tal ponto me comoveu, que...
Os olhos dela estavam secos. Sabina não herdara a flor
amarela e mórbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um
pedaço de minha mãe, e eu disse-lho com ternura,com
sinceridade... Súbito, ouço bater à porta da sala; vou
abrir; era um anjinho de cinco anos.
-Entra, Sara, disse Sabina.
Era minha sobrinha. Apanhei-a do chão, beijei-a muitas vezes;
a pequena, espantada, empurrava-me o ombro com a mãozinha, quebrando o
corpo para descer... Nisto, aparece-me à porta um chapéu, e logo
um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão comovido, que
deixei a filha e lancei-me aos braços do pai. Talvez essa efusão
o desconcertou um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples
prólogo. Daí a pouco falávamos como bons amigos velhos.
Nenhuma alusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de
jantarmos em casa um do outro. E não deixei de dizer que essa troca de
jantares podia ser que tivesse uma curta interrupção, porque eu
andava com idéias de uma viagem ao Norte. Sabina olhou para o Cotrim, o
Cotrim para Sabina; ambos concordaram que essas idéias não tinham
senso comum. Que diacho podia eu achar no Norte? Pois não era na corte,
em plena corte, que devia continuar a luzir, a meter num chinelo os rapazes do
tempo? Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; ele, Cotrim,
acompanhava-me de longe, e, não obstante uma briga ridícula, teve
sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triunfos. Ouvia o que se dizia a
meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de louvores e
admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns meses na
província, sem necessidade, sem motivo sério? A menos que
não fosse política...
-Justamente política, disse eu.
-Nem assim, replicou ele daí a um instante. -E depois de
outro silêncio: -Seja como for, venha jantar hoje conosco.
-Certamente que vou; mas, amanhã ou depois, hão de vir
jantar comigo.
-Não sei, não sei, objetou Sabina; casa de homem
solteiro... Você precisa casar, mano. Também eu quero uma
sobrinha, ouviu?
Cotrim reprimiu-a com um gesto, que não entendi bem.
Não importa; a reconciliação de uma família vale
bem um gesto enigmático.
  Capítulo 82
Questão de botânica
Digam o que quiserem dizer os hipocondríacos: a vida é
uma coisa doce. Foi o que eu pensei comigo, ao ver Sabina, o marido e a filha
descerem de tropel as escadas, dizendo muitas palavras afetuosas para cima,
onde eu ficava -no patamar,- a dizer-lhes outras tantas para baixo. Continuei a
pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me uma mulher, tinha a
confiança do marido, ia por secretário de ambos, e
reconciliava-me com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro
horas?
Nesse mesmo dia, tratando de aparelhar os ânimos, comecei a
espalhar que talvez fosse para o Norte como secretário de
província, a fim de realizar certos desígnios políticos,
que me eram pessoais. Disse-o na Rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no
Pharoux e no teatro. Alguns, ligando a minha nomeação à do
Lobo Neves, que já andava em boatos, sorriam maliciosamente, outros
batiam-me no ombro. No teatro disse-me uma senhora que era levar muito longe o
amor da escultura. Referia-se às belas formas de Virgília.
Mas a alusão mais rasgada que me fizeram foi em casa de
Sabina, três dias depois. Fê-la um certo Garcez, velho
cirurgião, pequenino, trivial e grulha, que podia chegar aos setenta,
aos oitenta, aos noventa anos, sem adquirir jamais aquela compostura austera,
que é a gentileza do ancião. A velhice ridícula é,
porventura, a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana.
-Já sei, desta vez vai ler Cícero, disse-me ele, ao
saber da viagem.
-Cícero! exclamou Sabina.
-Pois então? Seu mano é um grande latinista. Traduz
Virgílio de relance. Olhe que é Virgílio e não
Virgília... não confunda...
E ria, de um riso grosso, rasteiro e frívolo. Sabina e olhou
para mim, receosa de alguma réplica; mas sorriu, quando me viu sorrir, e
voltou o rosto para disfarçá-lo. As outras pessoas olhavam-me com
um ar de curiosidade, indulgência e simpatia: era transparente que
não acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava
mais público do que eu podia supor. Entretanto sorri, um sorriso curto,
fugitivo e guloso, -palreiro como as pegas de Sintra.Virgília era um
belo erro, e é tão fácil confessar um belo erro! Costumava
ficar carrancudo, a princípio, quando ouvia alguma alusão aos
nossos amores; mas, palavra de honra! sentia cá dentro uma
impressão suave e lisonjeira. Uma vez, porém, aconteceu-me
sorrir, e continuei a fazê-lo das outras vezes. Não sei se
há alguém que explique o fenômeno. Eu explico-o assim: a
princípio, o contentamento, sendo interior, era por assim dizer o mesmo
sorriso, mas abotoado; andando o tempo, desabotoou-se em flor, e apareceu aos
olhos do próximo. Simples questão de botânica.
  Capítulo 83
13
Cotrim tirou-me daquele gozo, levando-me à janela.
-Você quer que lhe diga uma coisa? perguntou ele; -não faça
essa viagem; é insensata, é perigosa.
-Por quê?
Você bem sabe porque, tornou ele: é, sobretudo,
perigosa, muito perigosa. Aqui na corte, um caso desses perde-se na
multidão da gente e dos interesses; mas na província muda de
figura; e tratando-se de personagens políticos, é realmente
insensatez. As gazetas de oposição, logo que farejarem o
negócio, passam a imprimi-lo com todas as letras, e aí
virão as chufas, os remoques, as alcunhas...
-Mas não entendo...
-Entende, entende. Em verdade, seria bem pouco amigo nosso, se me
negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso há longos meses. Repito,
não faça semelhante viagem; suporte a ausência, que
é melhor, e evite algum grande escândalo e maior desgosto...
Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no
lampião da esquina, -um antigo lampião de azeite,- triste,
obscuro e recurvado, como um ponto de interrogação. Que me
cumpria fazer? Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me à fortuna, ou lutar
com ela e subjugá-la. Por outros termos: embarcar ou não
embarcar. Esta era a questão. O lampião não me dizia nada.
As palavras do Cotrim ressoavam-me aos ouvidos da memória, de um modo
mui diverso do das palavras do Garcez. Talvez Cotrim tivesse razão; mas
podia eu separar-me de Virgília?
Sabina veio ter comigo, e perguntou-me em que estava pensando.
Respondi que em coisa nenhuma, que tinha sono e ia para casa. Sabina esteve um
instante calada. -O que você precisa, sei eu; é uma noiva. Deixe,
que eu ainda arranjo uma noiva para você. Saí de lá
opresso, desorientado. Tudo pronto para embarcar, -espírito e
coração,- e eis aí me surge esse porteiro das
conveniências, que me pede o cartão de ingresso. Dei ao diabo as
conveniências, e com elas a constituição, o corpo
legislativo, o ministério, tudo.
No dia seguinte, abro uma folha política e leio a
notícia de que, por decreto de 13, tínhamos sido nomeados
presidente e secretário da província de *** o Lobo Neves e eu.
Escrevi imediatamente a Virgília, e segui duas horas depois para a
Gamboa. Coitada de Dona Plácida! Estava cada vez mais aflita;
perguntou-me se esqueceríamos a nossa velha, se a ausência era
grande e se a província ficava longe. Consolei-a; mas eu próprio
precisava de consolações; a objeção do Cotrim
afligia-me. Virgília chegou daí a pouco, lépida como uma
andorinha; mas, ao ver-me triste, ficou muito séria.
-Que aconteceu?
-Vacilo, disse eu; não sei se devo aceitar...
-Virgília deixou-se cair, no canapé, a rir. -Por
quê? disse ela.
-Não é conveniente, dá muito na vista...
-Mas nós já não vamos.
-Como assim?
Contou-me que o marido ia recusar a nomeação, e por
motivo que só lhe disse, a ela, pedindo-lhe o maior segredo; não
podia confessá-lo a ninguém mais. -É pueril, observou ele,
é ridículo; mas em suma, é um motivo poderoso para mim.
Referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e que esse número
significava para ele uma recordação fúnebre. O pai morreu
num dia 13, treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas. A casa
em que morrera a mãe tinha o nº 13.
Et coetera. Era um algarismo
fatídico. Não podia alegar semelhante coisa ao ministro; dir-ia
que tinha razões particulares para não aceitar. Eu fiquei como
há de estar o leitor, -um pouco assombrado com esse sacrifício a
um número; mas, sendo ele ambicioso, o sacrifício devia ser
sincero...
  Capítulo 84
O conflito
Número fatídico, lembras-te que te abençoei
muitas vezes? Assim também as virgens ruivas de Tebas deviam
abençoar a égua, de ruiva crina, que as substituiu no
sacrifício de Pelópidas, -uma donosa égua, que lá
morreu, coberta de flores, sem que ninguém lhe desse nunca uma palavra
de saudade. Pois dou-ta eu, égua piedosa, não só pela
morte havida, como porque, entre as donzelas escapas, não é
impossível que figurasse uma avó dos Cubas... Número
fatídico, tu foste a nossa salvação. Não me
confessou o marido a causa da recusa; disse-me também que eram
negócios particulares, e o rosto sério, convencido, com que eu o
escutei, fez honra à dissimulação humana. Ele é que
mal podia encobrir a tristeza profunda que o minava; falava pouco, absorvia-se,
metia-se em casa, a ler. Outras vezes recebia, e então conversava e ria
muito, com estrépito e afetação. Oprimiam-no duas coisas,
-a ambição, que um escrúpulo desasara, e logo depois a
dúvida, e talvez o arrependimento,- mas um arrependimento, que viria
outra vez, se se repetisse a hipótese, porque o fundo supersticioso
existia. Duvidava da superstição, sem chegar a rejeitá-la.
Essa persistência de um sentimento, que repugna ao mesmo
indivíduo, era um fenômeno digno de alguma atenção.
Mas eu preferia a pura ingenuidade de Dona Plácida, quando confessava
não poder ver um sapato voltado para o ar.
-Que tem isso? perguntava-lhe eu.
-Faz mal, era a sua resposta.
Isto somente, esta única resposta, que valia para ela o livro
dos sete selos. Faz mal. Disseram-lhe isso em criança, sem outra
explicação, e ela contentava-se com a certeza do mal. Já
não acontecia a mesma coisa quando se falava de apontar uma estrela com
o dedo; aí sabia perfeitamente que era caso de criar uma verruga.
Ou verruga ou outra coisa, que valia isso, para quem não
perde uma presidência de província? Tolera-se uma
superstição gratuita ou barata; é insuportável a
que leva uma parte da vida. Este era o caso do Lobo Neves com o
acréscimo da dúvida e do terror de haver sido ridículo. E
mais este outro acréscimo, que o ministro não acreditou nos
motivos particulares; atribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos
políticos, ilusão complicada de algumas aparências;
tratou-o mal, comunicou a desconfiança aos colegas; sobrevieram
incidentes; enfim, com o tempo, o presidente resignatário foi para a
oposição.
  Capítulo 85
O cimo da montanha
Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade. Entrei a
amar Virgília com muito mais ardor, depois que estive a pique de a
perder, e a mesma coisa lhe aconteceu a ela. Assim, a presidência
não fez mais do que avivar a afeição primitiva; foi a
droga com que tornamos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado
também. Nos primeiros dias, depois daquele incidente, folgávamos
de imaginar a dor da separação, se houvesse
separação, a tristeza de um e de outro, à
proporção que o mar, como uma toalha elástica, se fosse
dilatando entre nós; e, semelhantes às crianças, que se
achegam ao regaço das mães, para fugir a uma simples careta,
fugíamos do suposto perigo, apertando-nos com abraços.
-Minha boa Virgília!
-Meu amor!
-Tu és minha, não?
-Tua, tua...
E assim reatamos o fio da aventura, como a sultana Scheherazade o
dos seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto máximo do nosso amor, o
cimo da montanha, donde por algum tempo divisamos os vales de leste e de oeste,
e por cima de nós o céu tranqüilo e azul. Repousado esse
tempo, começamos a descer a encosta, com as mãos presas ou
soltas, mas a descer, a descer...
  Capítulo 86
O mistério
Serra abaixo, como eu a visse um pouco diferente, não sei se
abatida ou outra coisa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de
enfado, de mal-estar, de fadiga; ateimei, ela disse-me que... Um fluido sutil
percorreu todo o meu corpo: sensação forte, rápida,
singular, que eu não chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das
mãos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza
de zéfiro e uma gravidade de Abraão. Ela estremeceu, colheu-me a
cabeça entre as palmas, fitou-me os olhos, depois afagou-me com um gesto
maternal... Eis aí um mistério; deixemos ao leitor o tempo de
decifrar este mistério.
  Capítulo 87
Geologia
Sucedeu por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas
passou aí de relance, num capítulo, com os seus setenta anos,
abafados de asma, desconjuntados de reumatismo, e uma lesão de
coração por quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa
aventura. Virgília nutria grandes esperanças em que esse velho
parente, avaro como um sepulcro, lhe amparasse o futuro do filho, com algum
legado; e, se o marido tinha iguais pensamentos, encobria-os ou
estrangulava-os. Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade
fundamental, uma camada de rocha, que resistia ao comércio dos homens.
As outras, as camadas de cima, terra solta e areia, levou-lhes a vida, que
é um enxurro perpétuo. Se o leitor ainda se lembra do
capítulo 23, observará que é agora a segunda vez que eu
comparo a vida a um enxurro; mas também há de reparar que desta
vez acrescento-lhe um adjetivo -perpétuo. E Deus sabe a força de
um adjetivo, principalmente em países novos e cálidos.
O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo
Neves, e provavelmente a do cavalheiro, que me está lendo. Sim, essas
camadas de caráter, que a vida altera, conserva ou dissolve, conforme a
resistência delas, essas camadas mereciam um capítulo, que eu
não escrevo, por não alongar a narração. Digo
apenas que o homem mais probo que conheci em minha vida foi um certo Jacob
Medeiros ou Jacob Valadares, não me recorda bem o nome. Talvez fosse
Jacob Rodrigues; em suma, Jacob. Era a probidade em pessoa; podia ser rico,
violentando um pequenino escrúpulo, e não quis; deixou ir pelas
mãos fora nada menos de uns quatrocentos contos; tinha a probidade
tão exemplar, que chegava a ser miúda e cansativa. Um dia, como
nos achássemos, a sós, em casa dele, em boa palestra, vieram
dizer que o procurava o Doutor B., um sujeito enfadonho. Jacob mandou dizer que
não estava em casa.
-Não pega, bradou uma voz do corredor; cá estou de
dentro.
E, com efeito, era o Doutor B., que apareceu logo à porta da
sala. O Jacob foi recebê-lo, afirmando que cuidava ser outra pessoa, e
não ele, e acrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos
rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo porque o Jacob tirou o
relógio; o Doutor B. perguntou-lhe então se ia sair.
-Com minha mulher, disse o Jacob.
Retirou-se o Doutor B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao
Jacob que ele acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas: a
primeira, negando-se; a segunda, alegrando-se com a presença do
importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, acrescentando que com a
mulher. Jacob refletiu um instante, depois confessou a justeza da minha
observação, mas desculpou-se dizendo que a veracidade absoluta
era incompatível com um estado social adiantado, e que a paz das cidades
só se podia obter à custa de embaçadelas
recíprocas... Ah! lembra-me agora: chamava-se Jacob Tavares.
  Capítulo 88
O enfermo
Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa
doutrina, com os mais elementares argumentos; mas ele estava tão vexado
do meu reparo, que resistiu até o fim, mostrando certo calor
fictício, talvez para atordoar a consciência.
O caso de Virgília tinha alguma gravidade mais. Ela era
menos escrupulosa que o marido; manifestava claramente as esperanças que
trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortesias,
atenções e afagos que poderiam render, pelo menos, um codicilo.
Propriamente, adulava-o; mas eu observei que a adulação das
mulheres não é a mesma coisa que a dos homens. Esta orça
pela servilidade; a outra confunde-se com a afeição. As formas
graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma fraqueza física dão
à ação lisonjeira da mulher uma cor local, um aspecto
legítimo. Não importa a idade do adulado; a mulher há de
ter sempre para ele uns ares de mãe ou de irmã, -ou ainda de
enfermeira, outro ofício feminil, em que o mais hábil dos homens
carecerá sempre de um quid, um fluido, alguma coisa.
Era o que eu pensava comigo, quando Virgília se desfazia toda
em afagos ao velho parente. Ela ia recebê-lo à porta, falando e
rindo, tirava-lhe o chapéu e a bengala, dava-lhe o braço e
levava-o a uma cadeira, ou até à cadeira, porque havia lá
na casa a «cadeira do Viegas», obra especial, conchegada, feita
para gente enferma ou anciã. Ia fechar a janela próxima, se havia
alguma brisa, ou abri-la, se estava calor, mas com cuidado, combinando de modo
que lhe não desse um golpe de ar.
-Então? hoje está mais fortezinho...
-Qual! Passei mal a noite; o diabo da asma não me deixa.
E bufava o homem, repousando a pouco e pouco do cansaço da
entrada e da subida, não do caminho, porque ia sempre de sege. Ao lado,
um pouco mais para a frente, sentava-se Virgília, numa banquinha, com as
mãos nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonhô chegava à
sala, sem os pulos do costume, mas discreto, meigo, sério. Viegas
gostava muito dele.
-Vem cá, nhonhô, dizia-lhe; e a custo introduzia a
mão na ampla algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas, metia uma na
boca e dava outra ao pequeno. Pastilhas antiasmáticas. O pequeno dizia
que eram muito boas.
Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar
damas, Virgília cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a
mover as pedras com a mão frouxa e tarda. Outras vezes, desciam a
passear na chácara, dando-lhe ela o braço, que ele nem sempre
aceitava, por dizer-se rijo e capaz de andar uma légua. Iam,
sentavam-se, tornavam a ir, a falar de coisas várias, ora de um
negócio de família, ora de uma bisbilhotice de sala, ora enfim de
uma casa que ele meditava construir, para residência própria, casa
de feitio moderno, porque a dele era das antigas, contemporânea de el-rei
Dom João VI, à maneira de algumas, que ainda hoje (creio eu) se
podem ver no Bairro de São Cristóvão, com as suas grossas
colunas na frente. Parecia-lhe que o casarão em que morava podia ser
substituído, e já tinha encomendado o risco a um pedreiro de
fama. Ah! então sim, então é que Virgília chegaria
a ver o que era um velho de gosto.
Falava, como se pode supor, lentamente e a custo, intervalado de
uma arfagem incômoda para ele e para os outros. De quando em quando,
vinha um acesso de tosse; curvo, gemendo, levava o lenço à boca,
e investigava-o; passado o acesso, tornava ao plano da casa, que devia ter tais
e tais quartos, um terraço, cocheira, um primor.
  Capítulo 89
In extremis
-Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ela uma
vez. Coitado! não tem ninguém...
Viegas caíra na cama, definitivamente; a filha, casada,
adoecera justamente agora, e não podia fazer-lhe companhia.
Virgília ia lá de quando em quando. Eu aproveitei a
circunstância para passar todo aquele dia ao pé dela. Eram duas
horas da tarde quando cheguei. Viegas tossia com tal força que me fazia
arder o peito; no intervalo dos acessos debatia o preço de uma casa, com
um sujeito magro. O sujeito oferecia trinta contos, o Viegas exigia quarenta. O
comprador instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas
Viegas não cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois mais
dois, depois mais três, enfim teve um forte acesso, que lhe tolheu a fala
durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o muito, arranjou-lhe os
travesseiros, ofereceu-lhe trinta e seis contos.
-Nunca! gemeu o enfermo.
Mandou buscar um maço de papéis à escrivaninha;
não tendo forças para tirar a fita de borracha que prendia os
papéis, pediu-me que os deslaçasse: fi-lo. Eram as contas das
despesas com a construção da casa: contas de pedreiro, de
carpinteiro, de pintor; contas do papel da sala de visitas, da sala de jantar,
das alcovas, dos gabinetes; contas das ferragens; custo do terreno. Ele
abria-as, uma por uma, com a mão trêmula, e pedia-me que as lesse,
e eu lia-as.
-Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a peça.
Dobradiças francesas... Veja, é de graça, concluiu ele
depoisde lida a última conta.
-Pois bem... mas...
-Quarenta contos; não lhe dou por menos. Só os
juros... faça a conta dos juros... Vinham tossidas estas palavras,
às golfadas, às sílabas, como se fossem migalhas de um
pulmão desfeito. Nas órbitas fundas rolavam os olhos lampejantes,
que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob o lençol
desenhava-se a estrutura óssea do corpo, pontudo em dois lugares, nos
joelhos e nos pés; a pele amarelada, bamba, rugosa, revestia apenas a
caveira de um rosto sem expressão; uma carapuça de algodão
branco cobria-lhe o crânio rapado pelo tempo.
-Então? disse o sujeito magro.
Fiz-lhe sinal para que não insistisse, e ele calou-se por
alguns instantes. O doente ficou a olhar para o teto, calado, a arfar muito:
Virgília empalideceu, levantou-se, foi até a janela. Suspeitara a
morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras coisas. O sujeito magro contou
uma anedota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.
-Trinta e oito contos, disse ele.
-Am?... gemeu o enfermo.
O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e
sentiu-a fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma coisa,
se queria tomar um cálice de vinho.
-Não... não... quar... quaren... quar... quar...
Teve um acesso de tosse, e foi o último; daí a pouco
expirava ele, com grande consternação do sujeito magro, que me
confessou depois a disposição em que estava de oferecer os
quarenta contos; mas era tarde.
  Capítulo 90
O velho colóquio de Adão e Caim
Nada. Nenhuma lembrança testamentária, uma pastilha
que fosse, com que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido.
Nada. Virgília tragou raivosa esse malogro, e disse-mo com certa
cautela, não pela coisa em si, senão porque entendia com o filho,
de quem sabia que eu não gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que
não devia pensar mais em semelhante negócio. O melhor de tudo era
esquecer o defunto, um lorpa, um cainho sem nome, e tratar de coisas alegres; o
nosso filho por exemplo...
Lá me escapou a decifração do mistério,
esse doce mistério de algumas semanas antes, quando Virgília me
pareceu um pouco diferente do que era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta
era a minha preocupação exclusiva daquele tempo. Olhos do mundo,
zelos do marido, morte do Viegas, nada me interessava por então, nem
conflitos políticos, nem revoluções, nem terromotos, nem
nada. Eu só pensava naquele embrião anônimo, de obscura
paternidade, e uma voz secreta me dizia: é teu filho. Meu filho! E
repetia estas duas palavras, com certa voluptuosidade indefinível, e
não sei que assomos de orgulho. Sentia-me homem.
O melhor é que conversávamos os dois, o
embrião e eu, falávamos de coisas presentes e futuras. O maroto
amava-me, era um pelintra gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as
mãozinhas gordas, ou então traçava a beca de bacharel,
porque ele havia de ser bacharel, e fazia um discurso na câmara dos
deputados. E o pai a ouvi-lo de uma tribuna, com os olhos rasos de
lágrimas. De bacharel passava outra vez à escola, pequenino,
lousa e livros debaixo do braço, ou então caia no berço
para tornar a erguer-se homem. Em vão buscava fixar no espírito
uma idade, uma atitude: esse embrião tinha a meus olhos todos os
tamanhos e gestos: ele mamava, ele escrevia, ele valsava, ele era o
interminável nos limites de um quarto de hora, -baby e deputado, colegial e pintalegrete.Às vezes,
ao pé de Virgília, esquecia-me dela e de tudo; Virgília
sacudia-me, reprochava-me o silêncio; dizia que eu já lhe
não queria nada. A verdade é que estava em diálogo com o
embrião; era o velho colóquio de Adão e Caim, uma conversa
sem palavras entre a vida e a vida, o mistério e o mistério.
  Capítulo 91
Uma carta extraordinária
Por esse tempo recebi uma carta extraordinária, acompanhada
de um objeto não menos extraordinário. Eis o que a carta
dizia:
«Meu caro Brás Cubas,
»Há tempos, no Passeio Público, tomei-lhe de
empréstimo um relógio. Tenho a satisfação de
restituir-lho com esta carta. A diferença é que não
é o mesmo, porém outro, não digo superior, mas igual ao
primeiro.
Que voulez-vous, monseigneur -como dizia
Figaro,-
c'est la misère. Muitas coisas se
deram depois do nosso encontro; irei contá-las pelo miúdo, se me
não fechar a porta. Saiba que já não trago aquelas botas
caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas abas se perdiam na noite dos
tempos. Cedi o meu degrau da escada de São Francisco; finalmente,
almoço.
»Dito isto, peço licença para ir um dia destes
expor-lhe um trabalho, fruto de longo estudo, um novo sistema de filosofia, que
não só explica e descreve a origem e a consumação
das coisas, como faz dar um grande passo adiante de Zenon e Sêneca, cujo
estoicismo era um verdadeiro brinco de crianças ao pé da minha
receita moral. E singularmente espantoso este meu sistema; retifica o
espírito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, enche de imensa
glória o nosso país. Chamo-lhe Humanitismo, de
Humanitas, princípio das coisas.
Minha primeira idéia revelava uma grande enfatuação; era
chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação vaidosa, além
de rude e molesta. E com certeza exprimia menos. Verá, meu caro
Brás Cubas, verá que é deveras um monumento; e se alguma
coisa há que possa fazer-me esquecer as amarguras da vida, é o
gosto de haver enfim apanhado a verdade e a felicidade. Ei-las na minha
mão, essas duas esquivas; após tantos séculos de lutas,
pesquisas, descobertas, sistemas e quedas, ei-las nas mãos do
homem. Até breve, meu caro
Brás Cubas. Saudades do
Velho amigo
Joaquim Borba dos Santos.»
Li esta carta sem entendê-la. Vinha com ela uma boceta
contendo um bonito relógio com as minhas iniciais gravadas, e esta
frase: Lembrança do velho Quincas. Voltei à carta, reli-a com
pausa, com atenção. A restituição do relógio
excluía toda a idéia de burla; a lucidez, a serenidade, a
convicção, -um pouco jactanciosa, é certo,- pareciam
excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum
dos seus parentes de Minas, e a abastança devolvera-lhe a primitiva
dignidade. Não digo tanto; há coisas que se não podem
reaver integralmente; mas enfim a regeneração não era
impossível. Guardei a carta e o relógio, e esperei a
filosofia.
  Capítulo 92
Um homem extraordinário
Já agora acabo com as coisas extraordinárias. Vinha
de guardar a carta e o relógio, quando me procurou um homem magro e
meão, com um bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador
era casado com uma irmã do Cotrim,chegara poucos dias antes do Norte,
chamava-se Damasceno,e fizera a revolução de 1831. Foi ele mesmo
que me disse isto, no espaço de cinco minutos. Saíra do Rio de
Janeiro, por desacordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que
os ministros que serviram com ele. De resto, a revolução estava
outra vez às portas. Neste ponto, conquanto trouxesse as idéias
políticas um pouco baralhadas, consegui organizar e formular o governo
de suas preferências: era um despotismo temperado, -não por
cantigas, como dizem alhures,- mas por penachos da guarda nacional. Só
não pude alcançar se ele queria o despotismo de um, de
três, de trinta ou de trezentos. Opinava por várias coisas, entre
outras, o desenvolvimento do tráfico dos africanos e a expulsão
dos ingleses. Gostava muito de teatro; logo que chegou foi ao teatro de
São Pedro, onde viu um drama soberbo, a
Maria Joana, e uma comédia muito
interessante,
Kettly ou a volta à Suíça.
Também gostara muito da Deperini, na
Safo, ou na
Ana Bolena, não se lembrava bem. Mas a
Candiani! sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o
Ernani, que a filha dele cantava em casa, ao
piano:
Ernani, Ernani, involami... -E dizia
isto levantando-se e cantarolando a meia voz. -No Norte essas coisas chegavam
como um eco. A filha morria por ouvir todas as óperas. Tinha uma voz
muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! ele estava ansioso por voltar
ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a cidade toda, com umas saudades...
Palavra! em alguns lugares teve vontade de chorar. Mas não embarcaria
mais. Enjoara muito a bordo, como todos os outros passageiros, exceto um
inglês... Que os levasse o diabo os ingleses! Isto não ficava
direito sem irem todos eles barra fora. Que é que a Inglaterra podia
fazer-nos? Se ele encontrasse algumas pessoas de boa vontade, era obra de uma
noite a expulsão dos tais
godemes... Graças a Deus, tinha
patriotismo, -e batia no peito,- o que não admirava porque era de
família; descendia de um antigo capitão-mor muito patriota. Sim,
não era nenhum pé-rapado. Viesse a ocasião, e ele havia de
mostrar de que pau era a canoa... Mas fazia-se tarde, ia dizer que eu
não faltaria ao jantar, e lá me esperava para maior palestra.
-Levei-o até a porta da sala; ele parou dizendo que simpatizava muito
comigo. Quando casara, estava eu na Europa. Conheceu meu pai, um homem
às direitas, com quem dançara num célebre baile da Praia
Grande... Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se tarde, tinha de ir levar a
resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a porta...
  Capítulo 93
O jantar
Que suplício que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me
sentar ao pé da filha do Damasceno, uma Dona Eulália, ou mais
familiarmente Nhã-loló, moça bem graciosa, um tanto
acanhada a princípio, mas só a princípio. Faltava-lhe
elegância, mas compensava-a com os olhos, que eram soberbos e só
tinham o defeito de se não arrancarem de mim, exceto quando desciam ao
prato; mas Nhã-loló comia tão pouco, que quase não
olhava para o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pai, «muito
mimosa». Não obstante, esquivei-me. Sabina veio até
à porta, e perguntou-me que tal achara a filha do Damasceno.
-Assim, assim.
-Muito simpática, não é? acudiu ela; falta-lhe
um pouco mais de corte. Mas que coração! é uma
pérola. Bem boa noiva para você.
-Não gosto de pérolas.
-Casmurro! Para quando é que você se guarda? Para
quando estiver a cair de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você
queira quer não, há de casar com Nhã-loló. E dizia
isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo
intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo da
reconciliação? Fiquei um pouco desconsolado com a idéia,
mas uma voz misteriosa chamava-me à casa do Lobo Neves; disse adeus a
Sabina e às suas ameaças.
  Capítulo 94
A causa secreta
Como está a minha querida mamãe?
-A esta palavra, Virgília amuou-se, como sempre. Estava ao
canto de uma janela, sozinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas
quando lhe falei no nosso filho, amuou-se. Não gostava de semelhante
alusão, aborreciam-lhe as minhas antecipadas carícias paternais.
E eu, para quem ela era já uma pessoa sagrada, uma âmbula divina,
deixava-a estar quieta. Supus a princípio que o embrião, esse
perfil do incógnito, projetando-se na nossa aventura, lhe restituira a
consciência do mal. Enganava-me. Nunca Virgília me parecera mais
expansiva, mais sem reservas, menos preocupada dos outros e do marido.
Não eram remorsos. Imaginei também que a concepção
seria um puro invento, um modo de prender-me a ela, recurso sem longa
eficácia, que talvez começava de oprimi-la. Não era
absurda esta hipótese; a minha doce Virgília mentia às
vezes com tanta graça!
Naquela noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e
vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro filho; e essa
hora, feita de minutos de vida e minutos de morte, dava-lhe já
imaginariamente os calafrios do patíbulo. Quanto ao vexame,
complicava-se ainda da forçada privação de certos
hábitos da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lho a
entender, repreendendo-a,um pouco em nome dos meus direitos de pai.
Virgília fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um jeito
incrédulo.
  Capítulo 95
Flores de antanho
Onde estão elas, as flores de antanho? Uma tarde,
após algumas semanas de gestação, esboroou-se todo o
edifício das minhas quimeras paternais. Foi-se o embrião, naquele
ponto em que se não distingue Laplace de uma tartaruga. Tive a
notícia por boca do Lobo Neves, que me deixou na sala, e acompanhou o
médico à alcova da frustrada mãe. Eu encostei-me à
janela, a olhar para a chácara, onde verdejavam as laranjeiras sem
flores. Onde iam elas as flores de antanho?
  Capítulo 96
A carta anônima
Senti tocar-me no ombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns
instantes, mudos, inconsoláveis. Indaguei de Virgília, depois
ficamos a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma
carta; ele leu-a, empalideceu muito, e fechou-a com a mão trêmula.
Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quisesse atirar-se sobre mim; mas
não me lembra bem. O que me lembra claramente é que durante os
dias seguintes recebeu-me frio e taciturno. Enfim Virgília contou-me
tudo, daí a dias na Gamboa.
O marido mostrou-lhe a carta, logo que ela se restabeleceu. Era
anônima e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por
exemplo, das nossas entrevistas externas; limitava-se a precavê-lo contra
a minha intimidade, e acrescentava que a suspeita era pública.
Virgília leu a carta e disse com indignação que era uma
calúnia infame.
-Calúnia? perguntou Lobo Neves.
-Infame.
O marido respirou; mas, tomando à carta, parece que cada
palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo, cada letra bradava contra
a indignação da mulher. Esse homem, aliás
intrépido, era agora a mais frágil das criaturas.Talvez a
imaginação lhe mostrou, ao longe, o famoso olho da opinião
a fitá-lo sarcasticamente, com um ar de pulha; talvez uma boca
invisível lhe repetiu ao ouvido as chufas que ele escutara ou dissera
outrora. Instou com a mulher que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe
perdoaria. Virgília compreendeu que estava salva; mostrou-se irritada
com a insistência, jurou que da minha parte só ouvira palavras de
gracejo e cortesia. A carta havia de ser de algum namorado sem ventura. E citou
alguns, -um que a galanteara francamente, durante algumas semanas, outro que
lhe escrevera uma carta, e ainda outros e outros. Citava-os pelo nome, com
circunstâncias, estudando os olhos do marido, e concluiu dizendo que,
para não dar margem à calúnia, tratar-me-ia de maneira que
eu não voltaria lá.
Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo acréscimo
de dissimulação que era preciso empregar de ora em diante,
até afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela
tranqüilidade moral de Virgília, pela falta de
comoção, de susto, de saudades, e até de remorsos.
Virgília notou a minha preocupação, levantou-me a
cabeça, porque eu olhava então para o soalho, e disse-me com
certa amargura:
-Você não merece os sacrifícios que lhe
faço.
Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de
desespero e terror daria à nossa situação o sabor
cáustico dos primeiros dias; mas se lho dissesse, não é
impossível que ela chegasse lenta e artificiosamente até esse
pouco de desespero e terror. Não lhe disse nada. Ela batia nervosamente
com a ponta do pé no chão; aproximei-me e beijei-a na
testa.Virgília recuou, como se fosse um beijo de defunto.
  Capítulo 97
Entre a boca e a testa
Sinto que o leitor estremeceu, -ou devia estremecer. Naturalmente a
última palavra sugeriu-lhe três ou quatro reflexões. Veja
bem o quadro: numa casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam há muito
tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a outra a
recuar, como se sentisse o contato de uma boca de cadáver. Há
aí, no breve intervalo, entre a boca e a testa antes do beijo e depois
do beijo, há aí largo espaço para muita coisa, -a
contração deum ressentimento-, a ruga da desconfiança -ou
enfim o nariz pálido e sonolento da saciedade...
  Capítulo 98
Suprimido
Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a
situação. A carta anônima restituía à nossa
aventura o sal do mistério e a pimenta do perigo; e afinal foi bem bom
que Virgília não perdesse naquela crise a posse de si mesma. De
noite fui ao Teatro de São Pedro; representava-se uma grande
peça, em que a Estela arrancava lágrimas. Entro; corro os olhos
pelos camarotes; vejo em um deles Damasceno e a família. Trajava a filha
com outra elegância e certo apuro, coisa difícil de explicar,
porque o pai ganhava apenas o necessário para endividar-se; e
daí, talvez fosse por isso mesmo.
No intervalo fui visitá-los. O Damasceno recebeu-me com
muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-loló,
não tirou mais os olhos de mim. Parecia-me agora mais bonita que no dia
do jantar. Achei-lhe certa suavidade etérea casada ao polido das formas
terrenas: -expressão vaga, e condigna de um capítulo em que tudo
há de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não
me senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido
fino, um vestido que me dava cócegas de Tartufo. Ao contemplá-lo,
cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta sutil, a
saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição
necessária ao desenvolvimento da nossa espécie. A nudez habitual,
dada a multiplicação das obras e dos cuidados do
indivíduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao
passo que o vestuário, negaceando a natureza, aguça e atrai as
vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a
civilização. Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes
transatlânticos!
Estou com vontade de suprimir este capítulo. O declive
é perigoso. Mas enfim eu escrevo as minhas memórias e não
as tuas, leitor pacato. Ao pé da graciosa donzela, parecia-me tomado de
uma sensação dupla e indefinível. Ela exprimia
inteiramente a dualidade de Pascal,
l'ange et la bête, com a
diferença que o jansenista não admitia a simultaneidade das duas
naturezas, ao passo que elas aí estavam bem juntinhas, -l'ange, que dizia algumas coisas do céu, -et la bête, que... Não; decididamente suprimo
este capítulo.
  Capítulo 99
Na platéia
Na platéia achei Lobo Neves, de conversa com alguns amigos;
falamos por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervalo seguinte,
prestes a levantar o pano, encontramo-nos num dos corredores, em que não
havia ninguém. Ele veio a mim, com muita afabilidade e riso, puxou-me a
um dos óculos do teatro, e falamos muito, principalmente ele, que
parecia o mais tranqüilo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher;
respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversação para
assuntos gerais, expansivo, quase risonho. Adivinhe quem quiser a causa da
diferença; eu fujo ao Damasceno que me espreita ali da porta do
camarote.
Não ouvi nada do seguinte ato, nem as palavras dos atores,
nem as palmas do público. Reclinado na cadeira, apanhava de
memória os retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia
as maneiras dele, e concluía que era muito melhor a nova
situação. Bastava-nos a Gamboa. A freqüência da outra
casa aguçaria as invejas. Rigorosamente podíamos dispensar-nos de
falar todos os dias; era até melhor, metia a saudade de permeio nos
amores. Ao demais, eu galgara os quarenta anos, e não era nada, nem
simples eleitor de paróquia. Urgia fazer alguma coisa, ainda por amor de
Virgília, que havia de ufanar-se quando visse luzir o meu nome... Creio
que nessa ocasião houve grandes aplausos, mas não juro; eu
pensava em outra coisa.
Multidão, cujo amor cobicei até a morte, era assim que
eu me vingava às vezes de ti; deixava burburinhar em volta do meu corpo
a gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de Esquilo fazia aos seus
verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua
indiferença, ou da tua agitação? Frágeis cadeias,
amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar coisa é ir
considerar no ermo.O voluptuoso, o esquisito, é insular-se o homem no
meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se
alheado, inacessível, ausente. O mais que podem dizer, quando ele tomar
a si, -isto é, quando toma aos outros,- é que baixa do mundo da
lua; mas o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do
cérebro, que outra coisa é senão a afirmação
desdenhosa da nossa liberdade espiritual? Vive Deus! eis um bom fecho de
capítulo.
  Capítulo 100
O caso provável
Se esse mundo não fosse uma região de
espíritos desatentos, era escusado lembrar ao leitor que eu só
afirmo certas leis quando as possuo deveras; em relação a outras
restrinjo-me à admissão da probabilidade. Um exemplo da segunda
classe constitui o presente capítulo, cuja leitura recomendo a todas as
pessoas que amam o estudo dos fenômenos sociais. Segundo parece, e
não é improvável, existe entre os fatos da vida
pública e os da vida particular uma certa ação
recíproca, regular, e talvez periódica, -ou, para usar de uma
imagem, há alguma coisa semelhante às marés da Praia do
Flamengo e de outras igualmente marulhosas. Com efeito, quando a onda investe a
praia, alaga-a muitos palmos a dentro; mas esta mesma água tornar ao
mar, com variável força, e vai engrossar a onda que há de
vir, e que terá de torna como a primeira. Esta é a imagem;
vejamos a aplicação.
Deixei dito noutra página que o Lobo Neves, nomeado
presidente da província, recusou a nomeação por motivo da
data do decreto, que era 13; ato grave, cuja conseqüência foi
separar do ministério o marido da Virgília. Assim, o fato
particular da ojeriza de um número produziu o fenômeno da
dissidência política. Resta ver como, tempos depois, um ato
político determinou na vida particular uma cessação de
movimento. Não convindo ao método deste livro descrever
imediatamente esse outro fenômeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo
Neves, quatro meses depois de nosso encontro no teatro, reconciliou-se com o
ministério; fato que o leitor não deve perder de vista, se quiser
penetrar a sutileza do meu pensamento.
  Capítulo 101
A Revolução Dálmata
Foi Virgília quem me deu notícia da viravolta
política do marido, certa manhã de outubro, entre onze e
meio-dia; falou-me de reuniões, de conversas, de um discurso...
-De maneira que desta vez fica você baronesa, interrompi
eu.
Ela derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro
lado; mas esse gesto de indiferença era desmentido por alguma coisa
menos definível, menos clara, uma expressão de gosto e de
esperança. E não sei por que, imaginei que a carta imperial da
nomeação podia atrai-la à virtude, não digo pela
virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido. Que ela amava
cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de nossa vida foi o
aparecimento de certo pelintra de legação, -de
legação da Dalmácia, suponhamos,- o conde B.V., que a
namorou durante três meses. Esse homem, vero fidalgo de raça,
transtornara um pouco a cabeça de Virgília, que, além do
mais, possuía a vocação diplomática. Não
chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na
Dalmácia uma revolução, que derrocou o governo e purificou
as embaixadas. Foi sangrenta revolução, dolorosa,
formidável; os jornais, a cada navio que chegava da Europa, transcreviam
os horrores, mediam o sangue, contavam as cabeças; toda a gente fremia
de indignação e piedade... Eu não; eu abençoava
interiormente essa tragédia, que me tirara uma pedrinha do sapato. E
depois a Dalmácia era tão longe!
  Capítulo 102
De repouso
Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro,
praticou daí a tempos... Não, não hei de contá-lo
nesta página; fique esse capítulo para repouso do meu vexame. Uma
ação grosseira, baixa, sem explicação
possível... Repito, não contarei o caso nesta página.
  Capítulo 103
Distração
-Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me,
istodnão se faz.
Tinha razão Dona Plácida. Nenhum cavalheiro chega uma
hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido;
Virgília tinha ido embora. Dona Plácida contou-me que ela
esperara muito, que se irritara, que chorara, que jurara votar-me ao desprezo,
e outras mais coisas que a nossa caseira dizia com lágrimas na voz,
pedindo-me que não desamparasse Iaiá, que era ser muito injusto
com uma moça que me sacrificaia tudo. Expliquei-lhe então que um
equívoco... E não era; cuido que foi simples
distração. Um dito, uma conversa, uma anedota, qualquer coisa;
simples distração.
Coitada de Dona Plácida! Estava aflita deveras. Andava de um
lado para outro, abanando a cabeça, suspirando com estrépito,
espiando pela rótula. Coitada de Dona Plácida! Com que arte
conchegava as roupas, bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor!
que imaginação fértil em tornar as horas mais
aprazíveis e breves! Flores, doces, -os bons doces de outros dias,- e
muito riso, muito afago, um riso e um afago que cresciam com o tempo, como se
ela quisesse fixar a nossa aventura; ou restituir-lhe a primeira flor. Nada
esquecia a nossa confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro
referia suspiros e saudades que não presenciara; nada, nem a
calúnia, porque uma vez chegou a atribuir-me uma paixão nova.
-Você sabe que não posso gostar de outra mulher, foi a minha
resposta, quando Virgília me falou em semelhante coisa. E esta só
palavra, sem nenhum protesto ou admoestação, dissipou o aleive de
Dona Plácida, que ficou triste.
-Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora;
Virgília há-de reconhecer que não tive culpa nenhuma...
Quer você levar-lhe uma carta agora mesmo?
-Ela há-de estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não
desejo a morte de ninguém; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a
casar com Iaiá, então sim, é que há-de ver o anjo
que ela é!
Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão.
Recomendo este gesto às pessoas que não tiverem uma palavra
pronta para responder, ou ainda as que recearem encarar a pupila de outros
olhos. Em tais casos, alguns preferem recitar uma oitava dos
Lusíadas, outros adotam o recurso de
assobiar a
Norma; eu atenho-me ao gesto indicado; é
mais simples, exige menos esforço.
Três dias depois, estava tudo explicado. Suponho que
Virgília ficou um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das
lágrimas que derramara naquela triste ocasião. Nem me lembra se
interiormente as atribuí a Dona Plácida. Com efeito, podia
acontecer que Dona Plácida chorasse, ao vê-la desapontada, e, por
um fenômeno da visão, as lágrimas que tinha nos
próprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgília. Fosse
como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda
esquecido. Virgília dizia-me uma porção de coisas duras,
ameaçava-me com a separação, enfim louvava o marido. Esse
sim, era um homem digno, muito superior a mim, delicado, um primor de cortesia
e afeição; é o que ela dizia, enquanto eu, sentado, com os
braços fincados nos joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca
arrastava uma formiga que lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre
formiga!
-Mas você não diz nada, nada? perguntou
Virgília, parando diante de mim.
-Que hei-de dizer? Já expliquei tudo; você teima em
zangar-se; que hei-de dizer?
-Sabe o que me parece? Parece-me que você está
enfastiada, que se aborrece, que quer acabar...
-Justamente!
Foi dali pôr o chapéu, com a mão trêmula,
raivosa... -Adeus, Dona Plácida, bradou ela para dentro. Depois foi
até a porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura.
-Está bom, está bom, disse-lhe. Virgília ainda forcejou
por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, que esquecesse; ela afastou-se da
porta e foi cair no canapé. Sentei-me ao pé dela, disse-lhe
muitas coisas meigas, outras humildes, outras graciosas. Não afirmo se
os nossos lábios chegaram à distância de um fio de cambraia
ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me, sim, que na
agitação caiu um brinco de Virgília, que eu inclinei-me a
apanhá-lo, e que a mosca de há pouco trepou ao brinco, levando
sempre a formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um
homem do nosso século, pus na palma da mão aquele casal de
mortificados; calculei toda a distância que ia da minha mão ao
planeta Saturno, e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver num
episódio tão mofino. Se concluis daí que eu era um
bárbaro, enganas-te,porque eu pedi um grampo a Virgília, a fim de
separar os dois insetos; mas a mosca farejou a minha intenção,
abriu as asas e foi-se embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto
era bom, como se diz na Escritura.
  Capítulo 104
Era ele!
Restitui o grampo a Virgília, que o repregou nos cabelos, e
preparou para sair. Era tarde; tinham dado três horas. Tudo estava
esquecido e perdoado. Dona Plácida, que espreitava a ocasião
idônea para a salda, fecha subitamente a janela e exclama:
-Virgem Nossa Senhora! aí vem o marido de Iaiá!
O momento de terror foi curto, mas completo. Virgília fez-se
da cor das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; Dona
Plácida, que fechara a rótula, queria fechar também a
porta de dentro; eu dispus-me a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante
passou. Virgília tornou a si, empurrou-me para a alcova, disse a Dona
Plácida que voltasse à janela; a confidente obedeceu.
Era ele. Dona Plácida abriu-lhe a porta com muitas
exclamações de pasmo: -O senhor por aqui! honrando a casa de sua
velha! Entre, faça favor. Adivinhe quem está cá...
Não tem que adivinhar, não veio por outra coisa...
Apareça, Iaiá.
Virgília, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu
espreitava-os pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente,
pálido, frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou
um olhar em volta da sala.
-Que é isto? exclamou Virgília. Você por
aqui?
-Ia passando, vi Dona Plácida à janela, e vim
cumprimentá-la.
-Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas não valem
alguma coisa... Olhai, gentes! Iaiá parece estar com ciúmes. E
acariciando-a muito: -Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha
Plácida. Coitadinha! é mesmo a cara da mãe... Sente-se,
senhor doutor...
-Não me demoro.
-Você vai para casa? disse Virgília. Vamos juntos.
-Vou.
-Dê cá o meu chapéu, Dona Plácida.
-Está aqui.
Dona Plácida foi buscar um espelho, abriu-o diante
dela.Virgília punha o chapéu, atava as fitas, arranjava os
cabelos, falando ao marido, que não respondia nada. A nossa boa velha
tagarelava demais; era um modo de disfarçar as tremuras do corpo.
Virgília, dominado o primeiro instante, tornara à posse de si
mesma.
-Pronta! disse ela. Adeus, Dona Plácida; não se
esqueça de aparecer, ouviu? A outra prometeu que sim, e abriu-lhes a
porta.
  Capítulo 105
Equivalência das janelas
Dona Plácida fechou a porta e caiu numa cadeira. Eu deixei
imediatamente a alcova, e dei dois passos para sair à rua, com o fim de
arrancar Virgília ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse,
porque Dona Plácida deteve-me por um braço. Tempo houve em que
-cheguei a supor que não dissera aquilo senão para que ela me
detivesse; mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos dez
minutos da alcova, o gesto mais genuíno e cordial não podia ser
senão esse. E isto por aquela famosa lei da equivalência das
janelas, que eu tive a satisfação de descobrir e formular, no
capítulo 51. Era preciso arejar a consciência. A alcova foi uma
janela fechada; eu abri outra com o gesto de sair, e respirei.
  Capítulo 106
Jogo perigoso
Respirei e sentei-me. Dona Plácida atroava a sala com
exclamações e lástimas. Eu ouvia, sem lhe dizer coisa
nenhuma; refletia comigo se não era melhor ter fechado Virgília
na alcova e ficado na sala; mas adverti logo que seria pior; confirmaria a
suspeita, chegaria o fogo à pólvora, e uma cena de sangue... Foi
muito melhor assim. Mas depois? que ia acontecer em casa de Virgília?
matá-la-ia o marido? espancá-la-ia? encerrá-la-ia?
expulsá-la-ia? Estas interrogações percorriam lentamente o
meu cérebro, como os pontinhos e vírgulas escuras percorrem o
campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e vinham, com o seu aspecto
seco e trágico, e eu não podia agarrar um deles e dizer:
és tu, tu e não outro.
De repente vejo um vulto negro; era Dona Plácida, que fora
dentro, enfiara a mantilha, e vinha oferecer-se-me para ir à casa do
Lobo Neves. Ponderei-lhe que era arriscado, porque ele desconfiaria da visita
tão próxima.
-Sossegue, interrompeu ela; eu saberei arranjar as coisas. Se ele
estiver em casa não entro.
Saiu; eu fiquei a ruminar o sucesso e as conseqüências
possíveis. Ao cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a
mim mesmo se não era tempo de levantar e espairecer. Sentia-me tomado de
uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a vida. Por que não?
Meu coração tinha ainda que explorar; não me sentia
incapaz de um amor casto, severo e puro. Em verdade, as aventuras são a
parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a exceção;
eu estava enfarado delas; não sei até se me pungia algum remorso.
Mal pensei naquilo, deixei-me ir atrás da imaginação;
vi-me logo casado, ao pé de uma mulher adorável, diante de um
baby, que dormia no rega&cced |