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Ato III

 
Sala regularmente mobiliada.

 

Cena I

 
LUÍSA e EULÁLIA.

 

EULÁLIA.-   (A LUÍSA.)  Deste modo a menina está se matando. Não dormiu à noite, não comeu nada... Olhe que não vale a pena. A vida é tão curta que, quando a gente menos espera, está a viajar deitada, sem chapéu e de barriga para o ar. Venha comer alguma coisita, sim?

LUÍSA.-  Não quero nada.

EULÁLIA.-  Olhe, vou preparar-lhe uma gemada, ou então um mingau de tapioca daqueles que eu costumava fazer quando a menina era pequena, lembra-se?

LUÍSA.-  Já te disse, não quero nada.

EULÁLIA.-  A senhora está zangada comigo?

LUÍSA.-  Não estou.

EULÁLIA.-  Aquela maldita seringa depravada é que foi a causa de tudo.

 
(Batem.)

 

LUÍSA.-  Vai ver quem é.

 
(EULÁLIA vai mas volta logo.)

 

EULÁLIA.-  O Senhor Doutor Martins.

LUÍSA.-  Manda-o entrar.

EULÁLIA.-  Então a menina não quer tomar nada?

LUÍSA.-  Já te disse que não. Deixa-nos sós.

 
(EULÁLIA introduz MARTINS e sai.)

 


Cena II

 
LUÍSA e MARTINS.

 

MARTINS.-   (Apertando a mão de LUÍSA.)  Minha senhora!

LUÍSA.-   (Indicando-lhe uma cadeira.)  Doutor, tenha a bondade de se sentar.

MARTINS.-  Recebi ontem a sua carta.

LUÍSA.-  Abusando das nossas antigas relações de família, relações que muito prezo e venero, tomei a liberdade de pedir-lhe que viesse a esta sua casa para tratar de negócio que me diz respeito.

MARTINS.-  Estou às suas ordens, minha senhora! Questões relativas talvez à profissão que tão brilhantemente está desempenhando. Algum executivo por honorários médicos...

LUÍSA.-  Oh! por isto não valia a pena incomodá-lo.

MARTINS.-  Como não valia a pena? Invocando há pouco as nossas relações, creia que eu sentir-me-ia profundamente magoado se a senhora precisando de serviços da profissão que exerço, ainda os mais insignificantes, fosse bater à porta de outro advogado. Trata-se então de negócio grave?

LUÍSA.-  Trata-se do meu divórcio.

MARTINS.-  Do seu divórcio?

LUÍSA.-  Sim.

MARTINS.-  Vamos lá, minha senhora, está gracejando!

LUÍSA.-  A minha existência e a de meu marido tornaram-se incompatíveis. Vivermos juntos por mais tempo sob o mesmo teto, fora prolongar uma situação humilhante para a qual me não sinto com forças e que terminaria pelo aniquilamento completo da minha individualidade, é impossível.

MARTINS.-  Seja-me lícito dar-lhe um conselho, minha senhora; não como advogado, mas como amigo dedicado da casa.

LUÍSA.-  Se vem falar-me em reconciliação, doutor, digo-lhe que entre nós dois, ela é um impossível. Conhece-me há muitos anos. Sabe que sou uma mulher superior a caprichos e a paixões e que não daria semelhante passo se não tivesse calculado bem uma a uma todas as conseqüências.

MARTINS.-  É então do Doutor Martins advogado, e não do amigo, que precisa?

LUÍSA.-  Preciso de ambos, porém, mais do advogado que do amigo. Uma simples separação amigável não me convém. Amanhã reunir-se-ão os parentes, os íntimos, os oficiosos que costumam aparecer em tais ocasiões e viria depois a comédia da reconciliação! Não. Para que a nossa situação se defina por uma vez, é preciso que ela seja pleiteada, embora com escândalo, nos tribunais.

MARTINS.-  Bem. A sua resolução pois, é...

LUÍSA.-  Inabalável.

MARTINS.-  Tenha a bondade então, minha senhora, de expor os fatos em que se baseia para dar este passo.

LUÍSA.-  Baseio-me apenas em um; mas este por si só é bastante para justificar o meu procedimento.

MARTINS.-  Qual é?

LUÍSA.-  A minha autonomia médica.

MARTINS.-  As causas do divórcio pelo nosso Direito, minha senhora, resumem-se em duas: adultério e sevícias.

LUÍSA.-  Então fora deste antediluviano adultério e destas sevícias que deveriam antes fazer parte do Código Criminal, não existe para a mulher nas minhas condições outro recurso de desagravo de direitos?

MARTINS.-  O legislador não conhecia Doutoras, minha senhora. Imaginava que as mulheres fossem sempre as mesmas em todos os tempos e lugares.

LUÍSA.-  Sou casada com um homem que exerce profissão igual à minha. Ele aufere os lucros do meu trabalho, alegando, como o Leão da fábula, a posição de chefe. Não satisfeito com isto, procura por meio de subterfúgios e tricas ignóbeis afastar-me do plano em que me coloquei pela capacidade de profissional. Pois bem: hei de cruzar os braços, sofrer resignada todas as humilhações, só porque não posso alegar contra este homem procedimentos brutais para com minha pessoa e ele não pode lançar-me em rosto a infâmia de haver manchado o leito conjugal? Que lei é esta, Doutor? A que vêm este adultério e estas sevícias para o caso em que eu me acho?

MARTINS.-  O caso em que Vossa Excelência se acha, minha senhora, é todo excepcional. O Direito não podia prever estas lutas de interesses e autonomias científicas nas sociedades conjugais. O amor foi sempre a base da família.

LUÍSA.-  O amor, sempre esse eterno amor a humilhar a mulher, a transformá-la em máquina de procriação.

MARTINS.-  Ah! minha senhora, por mais que inovem, por maiores larguezas que dêem às aspirações do eterno feminino, ele há de girar fatalmente em torno do círculo do amor, porque não tem outro caminho a percorrer.

LUÍSA.-  Somos então as condenadas de Dante?! Fora desta órbita de ferro traçada por estúpidas convenções sociais -Lasciate ogni speranza...

MARTINS.-  Depende do ponto de vista, minha senhora!... O que Vossa Excelência chama Inferno, eu chamo Paraíso.

LUÍSA.-  Enfim, senhor, nesse Direito que o senhor estuda não há um remédio para o meu mal? Combatem-se as moléstias as mais violentas, o escapelo da cirurgia decepando partes gangrenadas do corpo humano, faz surgir das podridões dessa gangrena a vida, que é tudo quanto pode haver de mais precioso. Lutamos braço a braço contra a morte à cabeceira do doente e vencemos. E o senhor não tem na sua ciência um bálsamo, um alívio sequer para os meus sofrimentos.  (Caindo num choro convulso nos braços de MARTINS.)  Ah! Doutor, Doutor!... Não pode avaliar que dor pungente é a humilhação.



Cena III

 
Os mesmos e MARIA Praxedes.

 

MARTINS.-  Acalme-se, minha senhora, acalme-se!

MARIA.-   (Entrando de chapéu.)  Luísa! Luísa!...

LUÍSA.-  Bom-dia, minha mãe!

 
(MARIA abraça-a.)

 

MARIA.-  Estás tão fraca, tão abatida! Por que não vais descansar?

LUÍSA.-  Não tenho nada.



Cena IV

 
Os mesmos e EULÁLIA.

 

EULÁLIA.-   (Entrando.)  Lá está no consultório um doente à espera da senhora!... Eu quis dizer-lhe que a menina não estava em casa, mas se não quer ir vê-lo olhe que ainda está em tempo. Graças a Deus até hoje ainda ninguém me pilhou em mentira; mas sendo preciso, prega-se uma e até duas. Lá por isso não seja a dúvida. Olhe, vou dizer-lhe que a patroa não está. Está dito?

LUÍSA.-  Não, vou vê-lo.

MARTINS.-   (A LUÍSA, que se despede dele.)  Calma e resignação.

LUÍSA.-  É o único remédio que me dá? Bem. Verei o partido que cumpre tomar.  (Sai.) 

EULÁLIA.-  Ai! meu Deus! que desgraça.

 
(Sai.)

 


Cena V

 
MARIA Praxedes e Doutor MARTINS.

 

MARIA.-  Acabo de certificar-me pelas suas últimas palavras, Doutor, que procedeu como um verdadeiro amigo! Nem era de esperar outra coisa de sua inteligência e sobretudo do caráter nobre e elevado.

MARTINS.-  O fato que me foi comunicado, minha senhora, encheu-me das mais tristes apreensões.

MARIA.-  Não há então possibilidade de uma reconciliação, Doutor?

MARTINS.-  Se as rixas fossem da natureza daquelas que se dão naturalmente entre marido e mulher; se se tratasse de um desses temporais originados pelo ciúme e que se desfazem aos primeiros beijos em aguaceiros de lágrimas, compreendo que a felicidade pudesse raiar hoje mesmo debaixo deste teto, mas o que foi exposto por sua filha...

MARIA.-  São rixas ocasionadas por choques de vaidade e interesses, bem o sei, Doutor!

MARTINS.-  E nestas rixas, minha senhora, não encontrei a mulher. Vi apenas uma criatura híbrida, que não é por certo a companheira do homem.

MARIA.-  Tem razão, Doutor!

MARTINS.-  E no entanto, eu, que assim penso e que assim falo, amo nas mesmas condições.

MARIA.-  A Bacharela Carlota de Aguiar! Já o tinha desconfiado!

MARTINS.-  Aquele demoninho pernóstico com os seus ares enfatuados de homem, mas em que a mulher transparece cheia de encantos, tem-me transtornado por tal forma a cabeça que, confesso, ainda mesmo vendo as barbas do vizinho a arder, não me sinto com forças de pôr as minhas de molho.

MARIA.-  Está então como vulgarmente se diz, chumbado?

MARTINS.-  Chumbadíssimo. Amarrou-me para sempre, não há dúvida, aconteça o que acontecer.



Cena VI

 
Os mesmos e MANUEL Praxedes.

 

MANUEL.-   (Entrando.)  Venho do seu escritório. Então, está resolvida a situação da minha doutora?

MARTINS.-  Uma situação daquelas não se resolve assim.

MANUEL.-  Aquilo não é nada, absolutamente nada! Minha mulher faz de qualquer coisa um bicho-de-sete-cabeças e vê tudo neste mundo pelo lado pior.

MARIA.-  O divórcio! A desgraça de uma mulher. Não é nada?

MANUEL.-  Qual divórcio! Qual desgraça de uma filha! O que houve, Doutor, foi uma briga mais forte, mas uma briga muito natural. O rapaz, novo, formado há pouco tempo, a rapariga formada no mesmo dia... Ambos inteligentes, muito estudiosos e com o sangue na guelra. Um não quer ficar por baixo, a outra quer ficar por cima. Dizem-se muitas coisas reciprocamente. Engalfinham-se com todos aqueles termos técnicos; mas passada a trovoada voltam de novo à vida calma e serena do lar... como se nada tivesse acontecido.

MARTINS.-  O Senhor Manuel Praxedes é otimista!

MANUEL.-  Vejo as coisas como são.

MARIA.-  Como são? Como um verdadeiro doente; é o que tu deves dizer.

MANUEL.-  Ah! Ah! Ah! Pois minha mulher não está a fazer trocadilhos, Doutor?... Tem graça... Tem graça... Ora, pois, estamos todos alegres; isto é o que eu quero!

MARIA.-  Alegres?!...

MANUEL.-  Alegres, sim! Deixa o divórcio!  (A MARTINS.)  Sabe, Doutor, que tenho uma idéia, um ideão?

MARTINS.-  Não é para admirar, com o seu gênio empreendedor!...

MANUEL.-  Chi!... Que empresa! que empresa, Doutor!

MARIA.-  Há de ser igual à da fábrica de papel.

MANUEL.-  Já tardava. A senhora em vez de me admirar...

MARTINS.-  O que vem a ser então?

MANUEL.-  Imagine lá o que é.

MARTINS.-  Não sei.

MANUEL.-  Uma companhia galinicultura.  (Abrindo um rolo de papel que traz na mão e mostrando a MARTINS.)  Aqui estão os modelos dos fornos. Segundo os cálculos feitos, com meia dúzia de capões apenas, um galo vigilante e dois procriadores, estou habilitado a inundar de galinhas os mercados de toda a América!

MARIA.-  E da Europa.

MANUEL.-  E não diga a senhora brincando; porque se até aqui temos importado ovos de Portugal, doravante, com a minha empresa, tomaremos a desforra exportando para lá galinhas. O lucro é certíssimo! Olhe, vou explicar-lhe.  (Tirando do bolso um papel.) 

MARTINS.-   (Tirando o relógio.)  Esperam-me no escritório...

MANUEL.-  Vai para baixo ou para cima?

MARTINS.-  Para baixo.

MANUEL.-  Acompanho-o.

MARTINS.-  Enganei-me, vou para cima!

MANUEL.-  Acompanho-o também. É indiferente. Em caminho mostrar-lhe-ei que isto é negócio que não falha. Está tudo calculado, muito bem calculado.

MARIA.-   (A MANUEL.)  Pois então abandonas tua filha no estado em que ela está?

MANUEL.-  Que estado? Pois eu já te disse que isto não é nada. Eu volto logo. Adeus.

 
(Despedem-se os dois de MARIA e saem.)

 


Cena VII

 
MARIA e EULÁLIA.

 

EULÁLIA.-  A senhora ainda de chapéu!  (Tira-lho.)  A menina lá está a dar consultas, coitadinha! Olhe que é forte! Benza-a Deus!  (Tocam a campainha.)  Estão batendo. Há de ser algum doente. Vou dizer-lhe que a menina não está em casa. Isto assim não pode continuar. A coitadita passou a noite no sofá do consultório a dar de vez em quando suspiros, muito ansiada...  (Tocam.)  Espere lá, não tenha pressa. Olhe, senhora, eu não devo meter-me nestas coisas, porque quem se mete nos negócios alheios sai sempre mal. O defunto meu pai, que Deus haja, costumava dizer: cada um deve tratar da sua vida, que já não faz tão pouco. Mas, se numa comparação, eu fosse casada com um homem que me estimasse como o patrão estima a patroa, não estava cá a brigar todos os dias por causa desta cambada de doentes.  (Tocam.)  Espere lá, tem muita pressa? A senhora não acha que...

MARIA.-  Vai ver quem bate!  (Tocam.) 

EULÁLIA.-  Lá vou, lá vou!...  (Sai.) 

MARIA.-   (Suspirando.)  Ai! Ai!

 
(Segura o chapéu que EULÁLIA pôs sobre a mesa e sai.)

 


Cena VIII

 
EULÁLIA e CARLOTA.

 

EULÁLIA.-  A Senhora Bacharela tenha a bondade de assentar-se. Vou chamar meu amo.

 
(Sai. CARLOTA que deve vir elegantemente vestida mira-se no espelho, endireita a rosa que traz no peito do casaco. LUÍSA entra, fica à porta a observá-la, por algum tempo. CARLOTA vendo-a pelo espelho volta-se para falar-lhe.)

 


Cena IX

 
CARLOTA e LUÍSA.

 

CARLOTA.-  Apresento à ilustre Doutora a curvatura dos meus sinceros respeitos.

LUÍSA.-   (Secamente.)  Bom-dia, minha senhora!

CARLOTA.-  Recebi ontem uma intimação do meu amigo Doutor Pereira.

LUÍSA.-  O seu amigo já vem.

CARLOTA.-  Creio que se trata de negócio pertencente à minha profissão.

LUÍSA.-  Ou outro qualquer, a senhora deve sabê-lo melhor do que eu!



Cena X

 
Os mesmos e DR. PEREIRA.

 

DR. PEREIRA.-   (A CARLOTA.)  Doutora. Esperava-a ansiosamente.  (Cumprimentando secamente LUÍSA.) 

CARLOTA.-  Se fui serôdia, ou para servir-me da linguagem vulgar, se não cheguei à hora estipulada, peço-lhe mil desculpas.

DR. PEREIRA.-   (Para LUÍSA que não deixou de olhar CARLOTA.)  Preciso conferenciar nesta sala com a minha advogada.

 
(LUÍSA sai olhando sempre CARLOTA e esconde-se atrás da cortina da porta do fundo à esquerda, conservando-se ali durante o diálogo.)

 


Cena XI

 
DR. PEREIRA e CARLOTA.

 

DR. PEREIRA.-  Sentemo-nos.

CARLOTA.-  Trata-se...

DR. PEREIRA.-  Do meu divórcio.

CARLOTA.-  Um divórcio!!

DR. PEREIRA.-  Em duas palavras, resumo-lhe a situação! Sou médico da ponta dos pés até a raiz dos cabelos: minha mulher é médica da raiz dos cabelos até a ponta dos pés. Viver, para mim, é clinicar, clinicar, para ela, é viver. Não podemos clinicar juntos, o que quer dizer que juntos não podemos viver. Diga-me agora o que a sua ciência do Direito pensa a respeito.

CARLOTA.-  Difficelem rem postulasti. O nosso Direito, eivado de arcaísmos, não cogitou propriamente da hipótese.

DR. PEREIRA.-  Se não cogitou, estamos aqui a perder tempo.

CARLOTA.-  Perdão; eu disse não cogitou propriamente; mas a toda a lei se interpreta...

DR. PEREIRA.-  Se torce, é o que quer dizer.

CARLOTA.-  Scire leges non est verba carum tenere sed vim ac potestatem. Para prosseguir na concatenação lógica das linhas de clinicar, originavam-se rixas ou doestos domésticos?

DR. PEREIRA.-  Constantes. E é por causa deles...

CARLOTA.-  Bem. Nestas rixas trocaram-se talvez verbos incandescentes que escoriavam pelo menos a epiderme do amor próprio de cada um.

DR. PEREIRA.-  O amor próprio e os interesses.

CARLOTA.-  O legislador assinalou apenas duas causas para o divórcio: adultério e sevícias. Há ainda uma causa que os canonistas chamam impedimentos derimentes, mas... está fora da questão.

DR. PEREIRA.-  Não posso alegar a primeira.

CARLOTA.-  Mas havemos de ganhar a demanda pela segunda. Pela segunda, sim, porque constituindo injúrias esses verbos incandescentes das rixas, o que são essas injúrias senão verdadeiras sevícias morais?... O seu caso é o que os canonistas cognominam no idioma vernáculo -incompatibilidade de caracteres.

DR. PEREIRA.-  Aconselha-me então...

CARLOTA.-  Que proponha a ação. E havemos de ganhá-la.

DR. PEREIRA.-  Bem.  (Levanta-se.) 

CARLOTA.-  Que sucesso piramidal! Vai ver como vou aureolar de glória o meu nome. Hei de mostrar a esses miseráveis apedeutas o que há debaixo desta arcada craniana.  (Bate na testa.) 

DR. PEREIRA.-  Decidido porém o divórcio, ficarei numa posição anômala.

CARLOTA.-  Anômala?

DR. PEREIRA.-  Quero dizer que não serei nem solteiro, nem casado, nem viúvo!

CARLOTA.-  Pode casar perfeitamente.

DR. PEREIRA.-  E a indissolubilidade do contrato?

CARLOTA.-   (Com indiferença.)  Desaparecerá... com uma simples mudança de religião.

DR. PEREIRA.-  Ah!  (Fica pensativo.) 

CARLOTA.-  E uma vez desembaraçado, o meu amigo escolherá para esposa não outra médica; mas sim uma engenheira... uma advogada...

 
(LUÍSA tem um ímpeto de indignação, quer entrar em cena mas, arrepende-se, e esconde-se de novo.)

 

DR. PEREIRA.-  Então, Doutora, posso dar uma lição em minha mulher?

CARLOTA.-  Pode.

DR. PEREIRA.-  A que horas está amanhã no seu escritório?

CARLOTA.-  Amanhã é... Logo escrever-lhe-ei mandando dizer-lhe qual o dia e a hora em que deve procurar-me.  (Apertando-lhe a mão.)  Adeus!

 
(DR. PEREIRA aperta-lhe a mão e ela sai.)

 


Cena XII

 
DR. PEREIRA e LUÍSA.

 

LUÍSA.-   (Sofreando a raiva.)  Esteve com a sua advogada?

DR. PEREIRA.-  Sim, senhora.

LUÍSA.-  Uma advogada é sempre preferível a um advogado.

DR. PEREIRA.-  As mulheres são mais inteligentes que os homens.

LUÍSA.-  Obrigada... pela parte que me toca!

DR. PEREIRA.-  Não há de quê!

LUÍSA.-  Sobretudo quando a advogada vem à casa do constituinte toda coquete, de rosa ao peito.

DR. PEREIRA.-  Isto então é ouro sobre azul.

LUÍSA.-  E que sem o menor pudor ou respeito para com o decoro do seu sexo, aconselha ao cliente que mude de religião.  (DR. PEREIRA olha para ela admirado.)  Ouvi tudo daquela porta. E só Deus sabe o esforço que fiz, a luta que travei comigo para não esbofetear essa mulher e pô-la fora desta casa que ainda é minha.

DR. PEREIRA.-  A senhora esquece-se de que na posição em que nos achamos...

LUÍSA.-  Ah! ela queria vê-lo livre e desembaraçado... Para isto bastavam duas coisas apenas, duas coisas insignificantes, na opinião daquela miserável, torcer a lei e renegar as crenças!

DR. PEREIRA.-  A minha resolução está tomada, minha senhora, não posso nem devo ouvi-la neste terreno.

 
(Sai.)

 


Cena XIII

 
LUÍSA, EULÁLIA e MARIA.

 
 
(LUÍSA acompanha-o quase rompendo; detém-se e desce, caindo na cadeira à esquerda do sofá.)

 

EULÁLIA.-  Um chamado para a senhora! Creio que é negócio urgente! O homem está lá embaixo. É um sujeito gordo, coitado! Muito esbaforido, quase que nem pode falar.

MARIA.-   (Entrando e vendo LUÍSA a soluçar.)  Minha filha!  (Abraçando-se ambas.) 

LUÍSA.-  Ah! minha mãe! minha mãe! Sou uma desgraçada!

EULÁLIA.-  O que é isto, a menina está a chorar?

LUÍSA.-  Passa-se dentro de mim qualquer coisa de estranho, de anormal, que eu não sei explicar!

EULÁLIA.-  Isto é flato, senhora: vou lá dentro, enquanto o diabo esfrega um olho, fazer-lhe um chazito de capim-limão. Esfregue-lhe os pulsos, patroa, esfregue-lhe os pulsos enquanto eu vou preparar-lhe o chá! Ai! Ai! Meu Deus, que desgraça! O que há de acontecer mais nesta casa.

 
(Sai.)

 


Cena XIV

 
MARIA e LUÍSA.

 

LUÍSA.-   (Agitada.)  Meu marido tem uma advogada.

MARIA.-  A Carlota de Aguiar?

LUÍSA.-  Uma miserável, uma infame, uma mulher sem pudor.

MARIA.-   (Alegre.)  Bravo, minha filha!...

LUÍSA.-  Que lhe aconselha que se divorcie, que mude de religião, que se lhe oferece até para substituir-me. Ouvi tudo daquela porta, minha mãe... Não sei como não morri. A minha cabeça estala!

 
(Senta-se à esquerda.)

 


Cena XV

 
Os mesmos e EULÁLIA.

 

EULÁLIA.-   (Entrando com o chá.)  Aqui está o chazito. Tome, patroa, enquanto está quente.

MARIA.-  Leva isto para dentro!

EULÁLIA.-  Tome o chá que é muito bom.

MARIA.-  Leva, já te disse...

 
(EULÁLIA sai.)

 


Cena XVI

 
LUÍSA e MARIA Praxedes.

 

LUÍSA.-  Eu imaginava que não pudesse haver neste mundo sofrimento mais terrível que a humilhação. Todos os golpes, porém, que me feriram a vaidade, são mil vezes mais ligeiros do que este que me fere diretamente aqui.  (Aponta o coração.)  É o coração da mulher, minha mãe.

MARIA.-  Não é um músculo oco, como dizias, Luísa?!

LUÍSA.-  Não: há dentro dele sentimentos que eu fingia ignorar. Eu enlouqueço! Ai! minha cabeça! minha cabeça!



Cena XVII

 
As mesmas, DR. PEREIRA e depois EULÁLIA.

 

DR. PEREIRA.-   (De chapéu na mão para LUÍSA.)  Disse-me há pouco, minha senhora, que esta casa ainda era sua... Fique em paz nos seus domínios. Eu me retiro.

LUÍSA.-   (Tomando-lhe a frente.)  Há então outra mulher que pretende substituir-me?

EULÁLIA.-   (Entrando.)  Oh! patroa, que resposta devo dar ao homem que está lá todo esbaforido? Além deste chegaram mais dois com chamados urgentes.

LUÍSA.-   (Agitada.)  Manda-os embora, todos, entendes? Vai lá embaixo, arranca da porta da rua a placa que anuncia o meu nome. Já não sou a Doutora Luísa Pereira. Sou uma miserável mulher que não tem a dignidade precisa para repelir um homem que a repudia. Vai.

 
(Eulália sai.)

 


Cena XVIII

 
Os mesmos, menos EULÁLIA, e MANUEL Praxedes.

 

MANUEL.-   (Com uma carta.)  Deram-me esta carta da Doutora Carlota de Aguiar para entregar-lhe.

LUÍSA.-  Esta carta pertence-me.  (Arranca-lhe a carta e lê.)  Espero-o amanhã no meu escritório à uma hora da tarde. Estarei só.  (Atirando a carta ao chão; ao DR. PEREIRA.)  Saia, senhor... saia!  (Desata em pranto convulso e tem um ataque.) 

DR. PEREIRA.-  Luísa!  (Segura-a e leva-a para o sofá.) 

MARIA.-  Eulália! Eulália!  (A MANUEL.)  Vai ver qualquer coisa lá dentro depressa!

DR. PEREIRA.-  Não lhe dêem nada. Ela está no seu estado interessante.  (Ajoelha-se e beija-lhe a mão.)  Luísa!

MARIA.-   (A MANUEL.)  Ouviste? Ah! Praxedes! que alegria! Estamos salvos!  (Segura-lhe o rosto e dá-lhe uma porção de beijos.) 



Cena XIX

 
Os mesmos e EULÁLIA.

 

EULÁLIA.-   (Entrando com a placa onde se lê o seguinte letreiro: Doutora Luísa Pereira, médica. Especialidade: Moléstias de senhoras e crianças.)  Aqui está a placa!  (Vendo MARIA beijar o marido, puxa o avental e tapa a cara.)  Oh! patroa!... Cruz! Credo!.

 
(Cai o pano.)

 


 
 
FIM DO TERCEIRO ATO
 
 



ArribaAbajo

Ato IV

 
Sala regularmente mobiliada. Ao lado um berço.

 

Cena I

 
LUÍSA e EULÁLIA.

 

LUÍSA.-   (Ninando ao colo uma criança, cantarolando.)  Tu, tu, ru, tu, tu, ru!

EULÁLIA.-  Deixe-me carregá-lo um poucochinho, a senhora deve estar cansada!

LUÍSA.-  Não sei o que ele tem hoje, está tão impertinente!

EULÁLIA.-   (Tirando a criança do colo de LUÍSA e carregando-a.)  Não é nada, patroa!...  (Olhando-a.)  Como é bonitinho! Olhe, isto daqui para cima é a mãe, sem tirar nem pôr.  (Mostrando o nariz e a testa.)  Daqui para baixo, é o pai, escarradinho,  (Mostrando a boca e o queixo.)  e as mãozinhas então, Jesus! Nunca vi nada tão parecido.

LUÍSA.-  De quem são as mãos?...

EULÁLIA.-  Do avô, patroa. Até tem as unhas fêmeas como as dele.

LUÍSA.-  Neste andar acabarás por achá-lo parecido até com o meu defunto bisavô que nunca viste.  (Segurando no queixo da criança e fazendo-lhe festas.)  Estão caçoando com você, não é, meu negrinho?

EULÁLIA.-  Olhe lá como ele ri!... Ai que gracinha!



Cena II

 
As mesmas e MARIA.

 

MARIA.-  Dá cá, dá cá este ladrãozinho, que ainda não segurei nele hoje!  (Tira-o do colo de EULÁLIA e carrega-o.) 

LUÍSA.-  Não o acha um pouco abatido, minha mãe?

MARIA.-  Qual, menina! Está tão coradinho!

EULÁLIA.-  A patroa permite que eu meta o meu bedelho onde não sou chamada?

LUÍSA.-  O que é?

EULÁLIA.-  Eu acho que dão banhos demais nesta criança!

MARIA.-  Querias então que ele não se lavasse?

EULÁLIA.-  Não, ora, mas é que esses banhos de corpo esfregado, zás, zás, que te zás, com uma esponja tiram muito a sustância duma pobre criatura. O que convém é um banho de sopapos.

LUÍSA.-  Mas que história é essa de banhos de sopapos?

EULÁLIA.-  Pois a patroa não sabe? Deita-se o pequenino dentro da bacia e a gente de longe, com a mão aberta, vai-lhe jogando água em cima.  (Imitando o barulho d'água.)  Xoque! Xoque! Xoque!

LUÍSA.-  Tens cada lembrança...

EULÁLIA.-  Eu cá nunca tomei banhos senão de sopapos e olhe a senhora que tenho-me dado muito bem com eles!



Cena III

 
Os mesmos e MANUEL Praxedes.

 

MANUEL.-   (Entrando e querendo tirar a criança.)  Vem para o colo de vovô, meu bem!

MARIA.-  Deixa-o aqui. Ele está tão bem!

MANUEL.-  Mas há dois dias que não lhe faço uma festinha.

MARIA.-   (Falando com a criança.)  Com quem você quer ir? Com o vovô ou com a vovó?

EULÁLIA.-  Está rindo outra vez! Olhe que gracinha!

MANUEL.-  Se está rindo é por que quer vir comigo.  (Tira-o e carrega-o.) 

MARIA.-  És muito desajeitado! Não é assim que se carrega uma criança!

MANUEL.-  Então como é?! Quem é que carregava aquela quando era pequenina?  (Indica LUÍSA.) 

EULÁLIA.-  Lá isso é verdade, senhora! O patrão sempre teve muito jeito para ninar a menina. Todas as vezes que a carregava ao colo ela principiava a berrar que era um Deus nos acuda!

MANUEL.-  O que é isto lá?

EULÁLIA.-  A verdade manda Deus que se diga, patrão. De uma feita ainda me lembro que até lhe arranhou o nariz!

MANUEL.-  Não é tal, tu é que foste sempre muito bruta!

LUÍSA.-  Oh! papai, cuidado que está quase a cair. Não o segure assim.



Cena IV

 
Os mesmos e DR. PEREIRA.

 

DR. PEREIRA.-   (Entrando.)  Venha cá, seu Luizinho...  (Tira a criança dos braços de MANUEL.)  Ainda não tomou hoje a bênção a seu papai. Como passou?

MANUEL.-  Não se pode estar aqui dois minutos com o menino.

MARIA.-  É verdade! Vem um puxa, vem outro pega, vem outra segura...

EULÁLIA.-  É a alegria desta casa, patroa!

DR. PEREIRA.-  O pior, é que ele já começa a ficar manhoso.

MARIA.-  Coitadinho.

DR. PEREIRA.-  E quem lhe está pondo as manhas é a senhora!  (A MARIA.)  A senhora, sim! Por que é que ele quando está chorando no berço, cala a boca apenas o carregam ao colo? Por que é que quando está no colo chora e sossega logo que a pessoa que o está ninando começa a passear?

MARIA.-  Ora, isto é próprio de toda a criança!

DR. PEREIRA.-  Não é tal. É porque a senhora habituou-o a dormir no colo e passeando.

MARIA.-  São os avós que perdem sempre os netos.

LUÍSA.-  Neste ponto, minha mãe, o Pereira tem razão!

DR. PEREIRA.-  Hoje foi isto; amanhã há de ser outra coisa.

LUÍSA.-   (Tomando a criança do colo de o DR. PEREIRA.)  Deixa-me levá-lo para o berço!

MARIA.-   (Apontando para LUÍSA.)  Aquela que ali está foi educada por mim!

DR. PEREIRA.-  Aquela não era neta, era filha. É muito diferente.

MARIA.-  Quer dizer que agora sou sogra!

DR. PEREIRA.-  Não se zangue comigo, minha mamãezinha, mas creia que daria o mais solene cavaco se a senhora, carinhosa e desarrazoada, como são em geral todas as avós, começasse desde já a contrariar o programa da educação que imaginei para o meu rapaz.

MANUEL.-  Então tem um programa já feito?

DR. PEREIRA.-  Por que não?

MANUEL.-  Bravo! Bravo!... Muito bem! Eu também assim o entendo. De pequenino é que se torce o pepino. Olhe, se eu não me metesse, é verdade que já foi um pouco tarde, na educação de Luísa...

MARIA.-  Cala a boca, cala a boca, que é melhor!

EULÁLIA.-   (Ao lado de LUÍSA, junto ao berço.)  Não acha que a cabecinha dele está um pouco alta? coitadito, é capaz de ficar com o pescoço torto.  (Endireita o travesseiro.) 

DR. PEREIRA.-  Enfim o meu programa é fazer deste rapaz um verdadeiro homem.

MANUEL.-  Foi o que eu fiz com a Luísa.

MARIA.-  Lá isso é verdade. Felizmente porém, a Divina Providência meteu-se no meio e ela hoje é uma mulher...

DR. PEREIRA.-  Veja se tenho ou não razão. A senhora começa a habituá-lo agora a dormir no calor do colo, mais tarde quando ele quiser saltar, pular, desenvolver-se, cumprir enfim as justas reclamações da natureza, há de dizer: menino, fica quieto, menino, passa para aqui, há de amarrá-lo ao pé da mesa, prendê-lo na sala de costura. E não satisfeita com isto, incutir-lhe-á o medo do papão do quarto escuro, do pobre cego, do saci, do zumbi!... A criança educada nesta escola, onde, infelizmente, aliás, se tem formado muita gente, acabará por tornar-se um verdadeiro poltrão. Não quero isto. Meu filho há de ser um homem; mas um homem no rigor da palavra, preparado para as lutas físicas e morais da vida.

MANUEL.-  Sim, senhor!

EULÁLIA.-  Parece-me que ele quer mamar, senhora.

LUÍSA.-   (Tirando-o do berço.)  Vamos dar um passeio.  (Vai saindo com EULÁLIA.) 

DR. PEREIRA.-  Até logo.

LUÍSA.-  Vais sair já?

DR. PEREIRA.-  Tenho dois doentes na vizinhança!

LUÍSA.-   (Falando para o menino.)  Dá um beijinho em papai!

DR. PEREIRA.-   (Beijando-o.)  Adeus seu Luís, veja lá como se porta.

LUÍSA.-   (Falando pelo menino.)  Deixe estar, papai, que eu hei de portar-me muito bem. Eu já sou um homem de juízo.

 
(DR. PEREIRA sai.)

 

EULÁLIA.-   (Acompanhando LUÍSA, que vai a sair.)  Olhe como ele abre a boca! Está-se espreguiçando, coitadinho.

 
(Saem.)

 


Cena V

 
MARIA e MANUEL Praxedes.

 

MANUEL.-  Deves estar contente. Já és sogra!

MARIA.-  Contentíssima!

MANUEL.-  Mas vamos a saber de uma coisa, e isto para mim é o mais importante: Luísa deixou definitivamente a clínica?

MARIA.-  Ainda o duvidas?

MANUEL.-  Pois então por um mero capricho, por uma fantasia, por uma caraminhola que se encaixou na cabeça, ela atira sem mais nem menos pela janela fora o seu futuro?

MARIA.-  Que futuro?

MANUEL.-  Ora que futuro! O futuro dela. Está visto que não há de ser o teu nem o meu.

MARIA.-  Mas o futuro dela é o presente que estamos vendo.

MANUEL.-  Carregar o filho e dar-lhe de mamar?...

MARIA.-  Sim.

MANUEL.-  Mas, para amamentar uma criança não era preciso cursar seis anos uma Academia. Se eu a tivesse destinado para isso tinha dado outra orientação à sua vida.

MARIA.-  Que queres? As leis da natureza são mais fortes que a vontade dos reformadores.

MANUEL.-  Não! Isto não pode continuar assim. A menina tinha uma carreira brilhante diante de si. O seu nome principiava a ser conhecido, a clínica aumentava de dia para dia, e com ela o interesse do casal.

MARIA.-  O que pretendes fazer?

MANUEL.-  O que pretendo fazer?

MARIA.-  Sim.

MANUEL.-  Vou ter uma conferência com Luísa.

MARIA.-  Para quê?

MANUEL.-  Para dizer-lhe que não seja tola, que mande recolocar a placa na porta da rua e continue a clinicar, porque este é o seu meio de vida.

MARIA.-  E quem dá de mamar ao filho, ao teu neto, pelo qual és um verdadeiro babão?

MANUEL.-  Ora, mulher, pois faltam por aí amas-de-leite para o netinho?

MARIA.-  E achas isso natural? Olha, meu amigo, se a galinicultura, com todos os seus galos vigilantes e procriadores não é bastante para satisfazer a tua atividade, trata de arranjar outra empresa. Há tanta coisa por aí. Um elevador para o Pão de Açúcar por exemplo, um túnel submarino para a Praia Grande, um restaurante no Bico do Papagaio, uma nova fábrica de papel, se quiseres... Mas pelo amor de Deus, deixa em paz a vida de Luísa.

MANUEL.-  Paz! Paz! A vida é a luta, senhora. E o que a senhora chama de paz, não é paz!

MARIA.-  O que é então?

MANUEL.-  É pasmaceira. Não posso nem devo consentir que a Doutora Luísa Pereira, ou antes, que a Doutora Luísa Praxedes, como é conhecida, sacrifique a posição brilhante que já tinha conquistado.

MARIA.-  Aos deveres... de mãe!

MANUEL.-  Aí vem a senhora com a cantilena de todos os dias; os deveres de mãe... Pois ela não pode ser mãe e médica ao mesmo tempo? Não quer chamar uma ama, quer dar de mamar ao pequeno... Pois que dê de mamar e clinique... uma coisa não impede a outra...

MARIA.-  Com esta lógica prática...

MANUEL.-  E além disso sendo a especialidade dela moléstias de crianças, nada mais natural do que ser chamada para a clínica daquelas enfermidades a médica que tem filhos. Pelo menos está mais experimentada.

MARIA.-  Queres então fazer reviver nesta casa as lutas de outrora! Há um ano, pouco mais ou menos, quando me disseste: se eles tivessem um filho, não entrava em tua mente o sonho de felicidade que presenciamos? O que sonhavas então?

MANUEL.-  Não sonhava coisa alguma; não tenho por hábito sonhar. Desejei-lhe um filho, porque sempre ouvi dizer que os filhos apertam mais os laços conjugais. Mas o que eu nunca podia prever, é que ele desse este resultado. Isto não está direito.



Cena VI

 
Os mesmos e LUÍSA, carregando o filho.

 

MANUEL.-  Não largas esse menino?

LUÍSA.-  Estou muito aflita, papai. Coitadinho! Esteve lá dentro a chorar, tão inquieto. Veja se ele tem febre!

MANUEL.-  A mim é que tu o perguntas?

LUÍSA.-  Veja, mamãe: a Eulália disse-me que o pulso estava regular.

MANUEL.-  Pois também foste consultar a Eulália! Ora, louvado seja Deus!!!



Cena VII

 
Os mesmos e EULÁLIA.

 

EULÁLIA.-   (Entrando com um pires na mão.)  Cá está, patroa, cá está. Isto não é nada: o que o pequeno tem é uma dor de barriga.

MARIA.-  O que é que trazes aí no pires?

EULÁLIA.-  Algodão queimado com óleo de amêndoas doces, senhora! É um santo remédio. Chimpa-se isto no umbigo da criança e não há dor de barriga que lhe resista.

LUÍSA.-  Vamos, Eulália, vamos!

EULÁLIA.-  O melhor é levá-lo para o berço!

 
(LUÍSA leva a criança para o berço.)

 

MARIA.-   (Baixo a MANUEL.)  Vai ali junto àquele berço e se és capaz convence a tua doutora de todas essas belas teorias que pregaste há pouco. Anda, vai, meu reformador!

MANUEL.-  Parece incrível!

LUÍSA.-  Dir-se-ia que está mais aliviadinho.

EULÁLIA.-   (Aplicando o curativo.)  Ora, ora! Daqui a pouco está a dormir que é um gosto. É santo remédio, senhora! Quisera de contos de réis às vezes que fomentei o umbigo da menina com isto. Uma ocasião ainda me lembro.

LUÍSA.-  Não faças barulho, ele está dormindo!

MANUEL.-   (Consigo.)  Contado não se acredita!

LUÍSA.-  Psiu! Papai! Pode acordá-lo...  (A MARIA, dirigindo-se para a esquerda.)  Não faça barulho, mamãe!

 
(MARIA sai nas pontas dos pés pela esquerda. MANUEL senta-se pensativo. EULÁLIA e LUÍSA embalam o berço.)

 


Cena VIII

 
LUÍSA, EULÁLIA, MANUEL Praxedes e DR. PEREIRA.

 

DR. PEREIRA.-  Acabo de estar neste instante com o Doutor Martins.

MANUEL.-  Ia com a senhora, a Carlota de Aguiar?

DR. PEREIRA.-  Com a senhora e uma ama toda cheia de fitas e carregando o primeiro bebê.

LUÍSA.-  Já tem um filho a Carlota?

DR. PEREIRA.-  Ora que admiração! Estão casados há um ano e tanto.

LUÍSA.-  É rapaz, ou menina?

DR. PEREIRA.-  Uma menina e muito bonitinha. Quando me lembro que tiveste ciúmes...  (LUÍSA baixa a cabeça.)  Confessa, vamos lá, que foste uma grande tolinha.

LUÍSA.-  Ainda está muito pedante?

DR. PEREIRA.-  A mesma coisa.

MANUEL.-  Era uma rapariga inteligente.

DR. PEREIRA.-  Viva...

MANUEL.-  E creio que abandonou o foro, porque há muito tempo não lhe tenho visto o nome nos jornais.

DR. PEREIRA.-  Vive para a sua Luisinha. Ah! a pequena chama-se Luísa, é tua xará.

LUÍSA.-  E o nosso, Luís.

DR. PEREIRA.-  É verdade, que coincidência!

MANUEL.-   (Pensando.)  Então abandonou tudo?

DR. PEREIRA.-  Tudo. O marido foi nomeado Presidente para o Amazonas.

MANUEL.-  O Doutor Martins mandou-me participação de casamento. Eu e minha mulher não o fomos visitar... Também depois das cenas que se deram...

DR. PEREIRA.-  Comuniquei que estávamos morando juntos. Mostrou grande desejo de ver-nos. «Por que não vai até lá em casa» disse-lhe eu. «Ora, não sei!» balbuciou. Afinal, disse-lhe a mulher: «Vamos, mas há de ser hoje, porque partimos amanhã». Daqui a pouco, portanto, devem estar aí. Fiz bem ou mal?

LUÍSA.-  Fizeste bem.

DR. PEREIRA.-  És um anjo!  (Tocam a campainha fora. A EULÁLIA.)  Vê quem toca.

LUÍSA.-   (Mostrando o pequeno a DR. PEREIRA.)  Olha como está gordinho... Vou pôr-lhe ao pescoço duas figas.

DR. PEREIRA.-   (Rindo.)  Para livrá-lo do mau olhado?! Pois acreditas também nisso?!

LUÍSA.-  Não sei!

DR. PEREIRA.-   (Rindo.)  Aposto que acreditas!

LUÍSA.-  Acredito.  (Esconde o rosto no peito de o DR. PEREIRA.) 

DR. PEREIRA.-  Tolinha.

 
(Saem os dois.)

 


Cena IX

 
MANUEL e EULÁLIA.

 
 
(MANUEL fica pensativo por instantes; depois levanta-se, vai ao berço e embala a criança.)

 

EULÁLIA.-   (Entrando.)  Um chamado para a patroa.

MANUEL.-   (Levantando-se.)  Para Luísa?

EULÁLIA.-  Sim, senhor...

MANUEL.-  Vai já avisá-la.

EULÁLIA.-  Avisá-la? Nessa não caio eu!

MANUEL.-  Vai avisá-la, já te disse.

EULÁLIA.-  Quem eu vou chamar é o patrão, esse sim.

MANUEL.-  Mas o doente é para ela ou para ele?

EULÁLIA.-  Agora não há aqui mais para ela, nem para ele! E admira-me bastante que o patrão morando nesta casa ainda não saiba que a menina abandonou de uma vez todos os doentes.

MANUEL.-  De uma vez não. Ficou assentado, logo que ela se sentiu no seu estado interessante, que deixaria a clínica por algum tempo.

EULÁLIA.-  Pois deixou para sempre, senhor! O único doente que ela tem agora é estezinho.  (Aponta para o berço.)  E creia que este dá-lhe mais que fazer que todos os outros juntos.



Cena X

 
Os mesmos e LUÍSA.

 

MANUEL.-  Se o chamado é para Luísa, não tens o direito de pregar uma mentira.

EULÁLIA.-  Mas eu não minto, senhor, nunca menti. Menos essa!

LUÍSA.-   (Que tem entrado e está junto ao berço.)  O que é isto, Eulália?

EULÁLIA.-  E o senhor que está aqui a dizer que eu minto. A senhora algum dia apanhou-me em mentira?

LUÍSA.-  Mas o que foi?

MANUEL.-  Nada mais, nada menos, que um chamado para ti.

LUÍSA.-  Para mim?

EULÁLIA.-  Sim, senhora!

LUÍSA.-  Então vai já avisar meu marido!

EULÁLIA.-  Era o que eu ia fazer. Mas o patrão pôs-se aqui com uma lenga-lenga muito grande, e sem mais nem menos, zás! chimpa-me na bochecha: -Você é uma mentirosa! Ora, senhora, isto dói, é preciso confessar que dói muito, sim, porque, no fim de contas por mais baixa que seja uma pobre criatura de Deus...

LUÍSA.-  Está bem, vai chamar meu marido.

EULÁLIA.-  Se eu já tivesse sido apanhada em mentira.

LUÍSA.-  Tens razão.

EULÁLIA.-  Eu sou uma mulher honrada.

LUÍSA.-  Sim, sim.

EULÁLIA.-  Fique a patroa sabendo que no Porto rejeitei propostas muito vantajosas e não era cá meia dúzia de mequetrefes. Eram viscondes e barões, sujeitos apatacados. Se quisesse escorregar, senhora, podia estar hoje muito bem!

LUÍSA.-  Já sei, já sei, Eulália.

EULÁLIA.-  As injustiças doem.

LUÍSA.-  Sim, sim, sim; mas vai chamar teu amo!

 
(Eulália sai resmungando.)

 


Cena XI

 
LUÍSA e MANUEL Praxedes.

 

LUÍSA.-  Coitada! É uma boa alma! E ultimamente tem sido tão carinhosa para meu filho!

MANUEL.-  Ora! Até dá-lhe remédios!

LUÍSA.-  É verdade!

MANUEL.-  O que me admira é que os aceites.

LUÍSA.-  E por que não?

MANUEL.-  Não valia a pena surrar durante 6 anos os bancos de uma Academia e encetar brilhantemente a clínica, afrontando estúpidos preconceitos sociais para chegar a este triste resultado!

LUÍSA.-  Triste resultado?

MANUEL.-  Sim. Queres nada de mais triste, para uma mulher em tuas condições! Que papel representas hoje?

LUÍSA.-  O único, meu pai, que pode e deve representar uma mulher.

MANUEL.-  Então o juramento que prestaste no dia do teu grau de socorrer todos aqueles que te viessem bater à porta...

LUÍSA.-  Meu pai: dizem que o cérebro da mulher é fraco. Pois bem, por um sentimento de vaidade, que dizem também ser inato em nosso sexo, eu enchi esse cérebro de tudo quanto a ciência pode ter de mais grandioso e mais útil. Percorri com coragem inaudita toda a escala do saber humano na minha especialidade. Calquei ódios e vaidades dos colegas, ergui a cabeça, sem corar, acima desses preconceitos sociais de que falou há pouco e que eu também considerava estúpidos! Venci. Entrei na sociedade triunfante com o meu título. O prestígio que se formou em torno do meu nome fez-me esquecer de que era uma mulher... A glória atordoava-me... Dentro de mim sentia, porém, qualquer coisa de vago, de estranho, que não sabia explicar! Eu que muitas vezes no anfiteatro havia apalpado o coração humano, que o tinha dissecado fibra por fibra, que pretendia conhecer-lhe a fundo a fisiologia! Desconhecia entretanto, o sentimento mais sublime que enche todo esse órgão. Tudo quanto aprendi nos livros, tudo quanto a ciência podia dar-me de conforto, não vale o poema sublime do amor que se encerra neste pequeno berço!

MANUEL.-  Então esta criança...

LUÍSA.-  É bastante, meu pai, para encher toda a minha alma.

MANUEL.-  Mas minha filha, já não te falo em glórias, no prestígio do teu nome, nos compromissos que tomaste para com a sociedade, olha um pouco para os teus interesses, que não podes desprezar, por amor mesmo deste que aqui está  (Aponta o berço.)  e diz-me com toda a franqueza: é justo que abandones por um falso ponto de vista, a missão sublime que tinhas no teu casal, cooperando honestamente para a formação e o aumento do pecúlio dele?

LUÍSA.-  O pecúlio do casal, pelas leis naturais, meu pai, compete ao marido...

MANUEL.-  Então abandonas todos os teus direitos, todas as tuas obrigações, todos os teus deveres?

LUÍSA.-  Tudo; exceto a felicidade de criar e educar meu filho.



Cena XII

 
Os mesmos e o DR. PEREIRA.

 

DR. PEREIRA.-   (Dirigindo-se ao berço.)  Este maganão ainda está dormindo?

LUÍSA.-  Ainda. Não o acordes. Recebeste um chamado?

DR. PEREIRA.-  Já vou. É para o Luís Maria, o dispéptico mais maçante que tenho na minha clínica!



Cena XIII

 
Os mesmos e EULÁLIA.

 

EULÁLIA.-  Oh! patroa, sabe quem está aí? Aposto que não adivinha.

LUÍSA.-  Quem é?

DR. PEREIRA.-  É o Martins com a mulher.

EULÁLIA.-  É verdade. A senhora não imagina como está engraçada a ama da menina. Tem uma touca deste tamanho,  (Indica.)  com duas fitas enormes que arrastam até o chão. Mando-os entrar para aqui mesmo?

DR. PEREIRA.-  Sim.

 
(Eulália sai.)

 

LUÍSA.-   (Para o DR. PEREIRA.)  Aposto em como a filhinha dele não é mais bonita que o nosso Luís.

DR. PEREIRA.-  Vaidosa!



Cena XIV

 
Os mesmos, MARTINS, CARLOTA e a ama, com uma criança.

 

MARTINS.-   (Apertando a mão de o DR. PEREIRA.)  Já vês que cumprimos a nossa palavra!

DR. PEREIRA.-  E que eu os recebo como amigos antigos, sem a menor cerimônia nesta sala onde Luísa passa os dias a namorar o seu bebê.

CARLOTA.-  Quero vê-lo! Quero vê-lo!

 
(LUÍSA leva-a ao berço.)

 

LUÍSA.-  Está acordado, felizmente.  (Tira-o do berço e entrega-o a CARLOTA.) 

CARLOTA.-   (Com a criança ao colo.)  É um querubim rafaelesco! Como está gordo e anafado! Dir-se-ia uma rósea aurora de maio!

DR. PEREIRA.-  Gosta muito de crianças?

CARLOTA.-  Adoro-as!  (Mostra a MARTINS.)  Olha, meu Lacinho.

MANUEL.-  Seu Lacinho?

MARTINS.-  É o poético diminutivo por que sou hoje conhecido em casa.

LUÍSA.-  Deixe-me ver agora a sua. Já sei que é uma menina.

CARLOTA.-  É verdade.

LUÍSA.-   (Tirando a criança do colo da ama.)  Oh! É muito bonitinha!

MARTINS.-  Sai ao pai!

CARLOTA.-  Tem paciência, meu Lacinho, mas todos dizem que ela é sem tirar nem pôr a minha efígie.

LUÍSA.-   (Mostrando ao DR. PEREIRA.)  Olha!

DR. PEREIRA.-  E muito galante!...

LUÍSA.-   (A CARLOTA.)  E a senhora que a está amamentando?

CARLOTA.-  Sim, e a senhora também cria o seu?

LUÍSA.-  Também!

CARLOTA.-  Coitadinha! A minha veio chorando tanto no bonde. Creio que tem fome. Se me permitisse...

LUÍSA.-  Que lhe dê de mamar? Pois não! Vou fazer o mesmo ao meu.

 
(Trocam as crianças: LUÍSA senta-se de um lado e dá de mamar ao filho; CARLOTA faz o mesmo do outro lado.)

 

MANUEL.-   (A CARLOTA.)  Então o foro, a candidatura, a Deputação Geral pela corte, os projetos grandiosos da reforma da nossa legislação...

CARLOTA.-  Chi!... Está toda molhada!  (Para a ama.)  Vê aí um cueiro.

 
(A ama tira um cueiro que deve trazer dentro de uma cesta e entrega-o a CARLOTA que vai pô-lo na criança, entregando o molhado à ama.)

 

MARTINS.-   (A MANUEL Praxedes.)  Quer resposta mais eloqüente? O senhor pergunta-lhe pelos sonhos de ontem, ela responde-lhe com o cueiro da sua Luisinha.

MANUEL.-  Afinal tudo isto acabou em cueiros!



Cena XV

 
Os mesmos, MARIA e EULÁLIA.

 

MARIA.-  Bravo! Bravo! As duas doutoras amamentando os filhinhos!  (Para CARLOTA que quer levantar-se para falar-lhe.)  Não se incomode.  (A MARTINS.)  Dê-me um abraço.  (MARTINS abraça-a.)  É, na realidade, feliz!

EULÁLIA.-   (Entrando.)  Ele não quer mamar, senhora! Eu o carrego!  (Toma do colo de LUÍSA a criança.) 

MARIA.-   (A MANUEL.)  Olha, meu amigo, em que deu o teu programa filosófico, político, moral e social, a tua evolução do futuro.

MANUEL.-  Sim, mas não perdi de todo o meu latim.  (Tomando a criança e mostrando-a a todos.)  Aqui está um médico de raça!  (Dá-lhe muitos beijos.) 

EULÁLIA.-  De raça! Ai que reinação! Ah! Ah! Ah!

 
(Cai o pano.)

 




 
 
FIM
 
 





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