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Segunda parte


Cena I

 
Praça. Entram DOM GILVAZ e SIMICÚPIO.

 

DOM GILVAZ.-  Ainda não sei cabalmente aplaudir a tua indústria, ó insigne Simicúpio.

SIMICÚPIO.-  Nem aplaudir, nem agradecer, senhor dom Gilvaz.

DOM GILVAZ.-  As tuas idéias são tão impossíveis de aplaudir, como de agradecer; pois todo o prêmio é diminuto, e todo o louvor é limitado.

SIMICÚPIO.-  Visto isso, eu mesmo tenho a culpa de não ser premiado; porque se eu não servira tão bem, estaria mais bem servido. Senhor meu, eu nunca fui amigo de palanfrórios110: mais obras e menos palavras; que quero que me ajuste a minha conta.

DOM GILVAZ.-  Para que?

SIMICÚPIO.-  Para pôr-me no olho da rua, que serei mais bem visto.

DOM GILVAZ.-  Simicúpio, nem sempre o diabo há de estar atrás da porta.

SIMICÚPIO.-  Sim, porque entrará para dentro de casa.

DOM GILVAZ.-  Cala-te, que se consigo a dona Cloris com seu dote e arras111, eu te prometo que andes numa boléia112.

SIMICÚPIO.-  Senhor, não me ande com a cabeça à roda com essas promessas; era melhor que os prêmios andassem a rodo.

 
(Entra FAGUNDES.)

 

FAGUNDES.-  Lá deixo a dom Fuas metido numa caixa, para o introduzir com dona Nize em casa sem sustos, como da outra vez; tomara achar um homem que ma carregasse.

DOM GILVAZ.-  Lá vem a velha, criada de dona Cloris.

SIMICÚPIO.-  Retire-se vossa mercê e deixe-me com ela.

DOM GILVAZ.-  Pois eu aqui te espero.  (Vai-se.) 

FAGUNDES.-  Ó filho, por vida vossa quereis levar-me uma caixa?

SIMICÚPIO.-  Com que achou-me vossa mercê com ombros de mariola113?

FAGUNDES.-  Pois perdoe-me, que cuidei que era homem de ganhar.

SIMICÚPIO.-  Todos nesta vida somos homens de ganhar; porém o modo é que desautoriza.

FAGUNDES.-  Isto não era mais que levar uma caixa às costas.

SIMICÚPIO.-  Pois se não é mais do que isso, entendo que não estará mal à minha pessoa.

FAGUNDES.-  Qual mal? Antes lhe estará muito bem.

SIMICÚPIO.-  Mas advirta que isto em mim não é ofício; é uma mera curiosidade.

FAGUNDES.-  Ora Deus lhe dê saúde; olhe, ela pesa pouco e vai aqui para casa de Lancerote.

SIMICÚPIO.-  E de quem é a caixa?

FAGUNDES.-  É minha, que a que eu tinha, toda se desfaz em caruncho114.

SIMICÚPIO.-  Pois esta não se livrará da traça, que intento usar com ela.  (À parte.)  Vamos, senhora.  (Vai-se.) 

FAGUNDES.-  Ande, meu filho.  (Vai-se.) 

 
(Entra DOM GILVAZ.)

 

DOM GILVAZ.-  Aonde irá Simicúpio com a velha? O maldito não perde ocasião: com semelhante jardineiro não murchará o alecrim de dona Cloris; porém ele lá vem com uma caixa às costas.

 
(Entra SIMICÚPIO com uma caixa às costas e logo a põe no chão.)

 

SIMICÚPIO.-  Desencontrei-me da velha, que andará tonta por mim.

DOM GILVAZ.-  Que é isto, Simicúpio?

SIMICÚPIO.-  Não lhe importe, vá-se enrolando, que se há de meter aqui dentro, e hei de levar esse corpinho à casa de dona Cloris.

DOM GILVAZ.-  Isso é quimera: como posso eu caber aí?

SIMICÚPIO.-  Isso não me importa a mim; abata as presunções, que logo caberá em toda a parte.

DOM GILVAZ.-  E como havemos de abri-la, que está fechada?

SIMICÚPIO.-  Não sabe que a irmã gazua115 sempre me acompanha? Eu a abro.  (Abre.) 

DOM GILVAZ.-  Esta tramóia é muito arriscada: que tem dentro?

SIMICÚPIO.-  Eu vejo uns trapos estendidos. Ande, ande, que nos importa a nós.

DOM GILVAZ.-  Ora vamos a isso: ai Cloris, quanto me custas!

 
(Mete-se DOM GILVAZ na caixa e a fecha SIMICÚPIO e logo a põe às costas e dentro também virá DOM FUAS.)

 

SIMICÚPIO.-  Não há de ser má esta encaixação. Arre o que pesa a criança!

DOM FUAS.-  Ai que me esmagam os narizes!

DOM GILVAZ.-  Quem está aqui? Espere, vejamos o que é.

SIMICÚPIO.-  O que for lá se achará.

DOM GILVAZ.-  Espera, que isto é traição

DOM FUAS.-  Homem dos diabos, não me esborraches.

DOM GILVAZ.-  A que d'el rei, não há quem me acuda?

SIMICÚPIO.-  Cale-se, tamanhão, que para boa casa vai.

 
(Vão-se.)

 


Cena II

 
Sala. Entram DOM TIBÚRCIO e SEVADILHA.

 

DOM TIBÚRCIO.-  Sevadilha, agora que estamos sós, quero-te pedir um conselho.

SEVADILHA.-  Se vossa mercê acha que lhos posso dar, proponha, que eu resolverei.

DOM TIBÚRCIO.-  Tu bem sabes, que eu vim para casar com uma destas duas primas minhas: ambas são belas, ao que eu entendo; só me resta saber as manhas de cada uma, para que escolha do mal o menos.

SEVADILHA.-  Senhor, ambas são mui bastantes moças, a senhora dona Cloris é mui perfeita, sabe fazer os ovos moles muito bem; a senhora dona Nize tem melhor juízo; muito assento, quando não está de levante; grande capacidade; e tanto, que sendo tão rapariga, já lhe nasceu o dente do siso; porém na condição é uma víbora assanhada.

DOM TIBÚRCIO.-  Não sei, Sevadilha, o que faça neste caso.

SEVADILHA.-  Não casar com nenhuma.

DOM TIBÚRCIO.-  Pois eu vim cá por besta de pau?

SEVADILHA.-  Eu digo o que entendo em minha consciência.

DOM TIBÚRCIO.-  Oh se pudera eu casar contigo, Sevadilha, porque só tu me caíste em graça!

SEVADILHA.-  Ai que graça! Diga-me isso outra vez.

DOM TIBÚRCIO.-  Não zombo, que não estou fora de fazer eu mesmo uma parvoice116.

SEVADILHA.-  Não será a primeira.

DOM TIBÚRCIO.-  Queres tu que fujamos? Olha, que estou com minhas tentações de te fazer dona da minha casa.

SEVADILHA.-  Diga-me destas, que gosto disso.

DOM TIBÚRCIO.-  Sevadilha, não percas esta fortuna.

SEVADILHA.-  Quem é a fortuna?

DOM TIBÚRCIO.-  Sou eu, que te quero.

SEVADILHA.-  Se é fortuna, será inconstante.

DOM TIBÚRCIO.-  Ai que a moça me fala por equívocos! És discreta.

SEVADILHA.-  Ora vá-se com a fortuna.

 
Entra SIMICÚPIO com a caixa às costas.

 

SIMICÚPIO.-  Quem toma conta deste arcaz117?

DOM TIBÚRCIO.-  Quem a manda?

SIMICÚPIO.-  Uma mulher já de dias grandes, porque era bastantemente velha.

DOM TIBÚRCIO.-  A mim me melem, se isto não é já alguma preparação para o casamento.

SIMICÚPIO.-  Vossa mercê parece que adivinha, pois para casamento é, segundo ouvi dizer a um terceiro.

DOM TIBÚRCIO.-  Sabes o que virá aí dentro?

SIMICÚPIO.-  Cuido que é um vestido.

DOM TIBÚRCIO.-  E que tal?

SIMICÚPIO.-  Belo na verdade, bordado com uns vivos brancos, e de cores tão vivas, que estão saltando.

DOM TIBÚRCIO.-  É de mulher, ou de homem?

SIMICÚPIO.-  Tudo o que vem aqui é para mulher.

DOM TIBÚRCIO.-  Cuidei que era para mim.

SEVADILHA.-   (À parte.)  Aquele é Simicúpio; ele que carrega a caixa, não é sem causa.

SIMICÚPIO.-   (À parte.)  Sevadilha lá me está deitando uns olhos, que se vão os meus atrás deles.

DOM TIBÚRCIO.-  Já te pagaram?

SIMICÚPIO.-  Não, senhor; mas eu esperarei pela velha.

DOM TIBÚRCIO.-  Pois, Sevadilha, em que ficamos? Ajustemos o negócio!

SEVADILHA.-   (À parte.)  É boa esta, ouvindo-me Simicúpio!

DOM TIBÚRCIO.-  Olha, Sevadilha, eu te quero tanto, que fecharei os olhos a tudo, só por casar contigo.

SIMICÚPIO.-   (À parte.)  Tome-se lá o que estavam ajustando os dois! Eu os estorvarei.

DOM TIBÚRCIO.-  Que dizes, rapariga?

SIMICÚPIO.-  Ah senhor, pague-me o carreto da caixa.

DOM TIBÚRCIO.-  Espera, que logo vem a velha.

SIMICÚPIO.-   (À parte.)  Sim, pois a moça logo vai.

DOM TIBÚRCIO.-  Tu ainda és menina, não sabes o que te convém.

SEVADILHA.-  Eu não necessito de tutores.

DOM TIBÚRCIO.-  Olha que eu sou morgado118 na minha terra, e terás tantos, e quantos.

SIMICÚPIO.-  Senhor, pague-me o carreto da caixa, que não posso esperar.

DOM TIBÚRCIO.-  Logo, espera: ora, Sevadilha, isso há de ser, dá-me um abraço.

SIMICÚPIO.-  Venha o carreto da caixa; é boa essa!

SEVADILHA.-  É boa teima!

DOM TIBÚRCIO.-  Pois dá-me ao menos esse malmequer por prenda tua.

SIMICÚPIO.-  Ora venha já esse carreto, senão tudo vai cos diabos.

DOM TIBÚRCIO.-  Espera, homem: ouve, mulher.

SEVADILHA.-

Vá-se daí, malcriado, aleivoso, maligno; é o que me faltava!

 (Canta SEVADILHA a seguinte ária:) 

Que um tonto jarreta119,
Que um néscio pateta,
Me fale em amor,
Ou é para rir,
Ou para chorar.
Não cuide em amores,
Que nesses ardores,
Só pode frigir120,
Se pode abrasar.

 (Vai-se.) 


SIMICÚPIO.-  Regalou-me esta ária: vou dizer a Sevadilha, diga a dona Cloris, que ali está meu amo; e finjo que me vou. Senhor, adeus: eu virei noutra ocasião.  (Vai-se.) 

 
(Entra DOM LANCEROTE com um castiçal e vela acesa e a porá encima da caixa, donde ao depois se assentarão.)

 

DOM LANCEROTE.-  Sobrinho, vós bem sabeis que um hóspede, passados os três dias logo fede, como cavalo morto; isto não é dizer que fedeis, mas vos afirmo que não me cheira bem essa vossa irresolução, vendo que indeciso ainda não elegestes qual de vossas primas há de ser vossa consorte.

DOM TIBÚRCIO.-  Senhor, as perfeições de cada uma são tão peregrinas121, que vacila a vontade na eleição dos sujeitos; pois quando me vejo entre Cloris e Nize, me parece que estou entre Cila e Caribdis122.

DOM LANCEROTE.-  Pois, sobrinho, resolver, resolver logo e já.

DOM TIBÚRCIO.-  Pois, senhor, se a um enforcado se dão três dias, eu que no casar noto a mesma propriedade, pois bem se enforca, quem mal se casa, peço três dias também para me resolver.

DOM LANCEROTE.-  Três dias peremptórios concedo; e para que não haja dúvidas no dote, assentai-vos e sabereis o que haveis de levar.

 
(Assentam-se.)

 

DOM TIBÚRCIO.-  Isso é santo e bom, para que não seja a noiva de contado, e o dote de prometido.

DOM LANCEROTE.-  Eu, meu sobrinho, suposto tenha corrido muito mundo, com tudo me acho alcançado.

DOM TIBÚRCIO.-  Isso é bonito!

DOM LANCEROTE.-  Primeiramente cada uma de minhas sobrinhas tem muito boa limpeza.

DOM TIBÚRCIO.-  Sim, senhor, são muito asseadas, nisso não há dúvida.

DOM LANCEROTE.-  Além disso: estai atento, meu sobrinho, não deis salabancos123 com a caixa, que isso é manha de bestas.

 
(Bole a caixa.)

 

DOM TIBÚRCIO.-  Eu estou com os cinco sentidos bem quietos.

DOM LANCEROTE.-  Como digo, sabereis que todo o meu cabedal124 anda sobre as ondas do mar. Não estareis quieto! (Bole a caixa)

DOM TIBÚRCIO.-  Não sou eu por vida minha.

DOM LANCEROTE.-  Não vês a caixa a saltar?

DOM TIBÚRCIO.-  É verdade; será de contente.

 
(Cai a caixa com os dois.)

 

DOM LANCEROTE.-  Isto agora é mais comprido.

DOM TIBÚRCIO.-  E isto é mais estirado.

DOM LANCEROTE.-  Ai,quem me acode com uma luz!

 
(Entram DONA CLARA, DONA NIZE, FAGUNDES e SEVADILHA com luz.)

 

TODOS.-  Que sucedeu?

DOM TIBÚRCIO.-  O maior caso que viram as idades.

DOM LANCEROTE.-  Eu, que na maior idade vi o maior caso.

DONA NIZE.-  Pois que foi?

DONA CLORIS.-  Que sucedeu, senhores?

SEVADILHA.-  Que é isto?

FAGUNDES.-  Que foi? Que sucedeu! Que é isto?

DOM TIBÚRCIO.-  Esta caixa.

DOM LANCEROTE.-  Esta arca.

DOM TIBÚRCIO.-  Que em torcicolos.

DOM LANCEROTE.-  Que em bamboleios.

DOM TIBÚRCIO.-  Com pulos.

DOM LANCEROTE.-  Com saltos.

DOM TIBÚRCIO.-  Deitou-me no chão.

DOM LANCEROTE.-  No chão me estendeu.

DONA NIZE.-  E raro caso!

DONA CLORIS.-  E caso raro!

SEVADILHA.-  E, não há dúvida: ai, que ela torna a bulir! Fujamos, senhores.

FAGUNDES.-   (À parte.)  Valha-te o diabo, dom Fuas, que tão inquieto és!

DOM LANCEROTE.-  Esta caixa tem algum encanto, abramo-la.

DOM TIBÚRCIO.-  Diz bem; abra-se a caixa.

DONA NIZE.-   (À parte.)  Ai de mim, que será de dom Fuas!

DONA CLORIS.-   (À parte.)  Que será de dom Gil!

DOM TIBÚRCIO.-  Vá o tampo dentro.

SEVADILHA.-  Tenham mão, que pode vir dentro algum diamante que nos mate aqui a todos.

FAGUNDES.-  Ai santo breve da marca125!

DONA NIZE.-  Senhor, se se abre a caixa, desmaiamos todos aqui.

DOM LANCEROTE.-  Vamo-nos, que a prudência é melhor que o valor.  (Vai-se.) 

DOM TIBÚRCIO.-  Pois só não quero ser valente.  (Vai-se e leva a luz.) 

SEVADILHA.-  Ai! Não sei que pés me hão de levar! Ande, senhora.

DONA CLORIS.-  Fazes bem em disfarçar até ao depois.  (Vai-se.) 

FAGUNDES.-  A caixa parece que tocou a recolher.

DONA NIZE.-  E não foi o pior o ficarmos às escuras, que assim terão todos medo de vir aqui: ora abre a caixa e dize a dom Fuas que saia.

FAGUNDES.-  Ai a caixa está aberta! Seria com os salabancos: saia, meu senhor, e perdoe o descômodo.

 
(Abre a caixa e sai DOM GILVAZ.)

 

DOM GILVAZ.-  Ó tu noturna deidade126, eu no caliginoso127 bosque destas sombras brilhas carbúnculo128 da formosura, aqui tens segunda vez no teatro de tua beleza representante a minha constância na tragicomédia de meu amor.

FAGUNDES.-  Senhora, quem às escuras é tão discreto, que fará às claras?

DONA NIZE.-  Já vou acreditando, meu bem, as tuas finezas, porém...

 
(Sai DOM FUAS da caixa.)

 

DOM FUAS.-  Porém o teu engano, falsa, inimiga, segunda vez se repete pra meu desengano e tua afronta.

DONA NIZE.-  Que é isto, Fagundes? Que tramóias são estas?

FAGUNDES.-  Eu estou besta, pois só a dom Fuas meti na caixa!

DONA NIZE.-  Pois como aqui há outro, fora dom Fuas?

FAGUNDES.-  Eu não sei, em minha consciência, que não é má.

DOM FUAS.-  Senhora dona Nize, para que são esses fingimentos? Peleje agora com Fagundes, para se mostrar inocente.

DOM GILVAZ.-  Esta é dona Nize; eu me recolho ao vestuário, até que venha dona Cloris.

 
(Mete-se DOM GILVAZ na caixa.)

 

DONA NIZE.-  Já disse, senhor dom Fuas, que a minha constância vive isenta dessas calúnias.

DOM FUAS.-  A que d'el-rei, senhora, quereis que dê com a cabeça por essas paredes? É possível que ainda intentais negar o que tão repetidas vezes tenho experimentado?

DONA NIZE.-  Senhor, é pouca fortuna de minha firmeza, encontrar sempre com acidentes de falsidade.

FAGUNDES.-  Senhor dom Fuas, não cuide vossa mercê que somos cá nenhumas mulheres de cacaracá129: mas ali vem gente.

DONA NIZE.-  Recolha-se outra vez, que eu em tanto aqui me retiro. Anda, Fagundes.  (Vai-se.) 

FAGUNDES.-  Senhor, nós já tornamos.  (Vai-se.) 

DOM FUAS.-  Mais à minha conservação, que ao teu respeito, obedeço.

 
(Esconde-se DOM FUAS na caixa e entra DONA CLORIS.)

 

DONA CLORIS.-  Que se expusesse dom Gil ao perigo de vir em uma caixa a meu respeito! Ora, o certo é que não há mais extremoso amante; porém os sumos de alecrim têm a mesma virtude que o incenso nos pombos, que os faz tornar ao pombal. Mas adonde estará aqui a caixa? Esta suponho que é. Já meu bem podes sair sem susto.

 
(Sai DOM FUAS da caixa.)

 

DOM FUAS.-  Sim, tirana, pois já me não assustam as tuas falsidades.

DONA CLORIS.-  Que falsidades? Que dizes? Enlouqueceste, ou ignoras com quem falas?

DOM FUAS.-  Contigo falo, que com outro amante duas vezes infiel te encontrou a minha felicidade130.

DONA CLORIS.-  Cuido que não são tantos os encontros que temos tido.

DOM GILVAZ.-   (À parte.)  Aquela é a voz de dona Cloris: estou ardendo com zelos131!

DOM FUAS.-  Já estou desenganado da tua falsidade, já sei que estoutro amante, que vive encerrado nessa caixa, é o que só merece os teus agrados.

DOM GILVAZ.-  E como que o merece; pois só ele é digno desse favor; e a quem o impedir, lhe meterei esta espada até as guarnições.

DOM FUAS.-  Vês, ingrata, se é certa a minha suspeita?

DONA CLORIS.-  Eu estou confusa e não sei a quem satisfaça.

DOM GILVAZ.-  Ainda continua, insolente? Não sabe que esta dama á coisa minha?

DOM FUAS.-  Já agora por capricho, apesar das suas aleivosias132, hei de dar a vida por minha dama.

DONA CLORIS.-  Senhores, que desgraça!

DOM GILVAZ.-  Se não estivera às escuras, tu serias o alvo de minhas iras.

DOM FUAS.-  Pois se não fora a escuridade, eu te fizera ver o meu brio; mas ainda assim, eu vou dando, dê donde der.

DONA CLORIS.-  Senhores, dêem de manso, não os ouça meu tio.

 
(Cantam DOM FUAS, DOM GILVAZ e DONA CLORIS a seguinte ária a três:)

 
DOM GILVAZ.-
Se não fora por não sei que,
Te matara mesmo aqui.

DOM FUAS.-
Se não fora o velho ali.
Te fizera um não sei que.

DONA CLORIS.-
De mansinho, pouca bulha133
Calte134 gralha, calte grulha135
Porque o velho há de acordar.

DOM GILVAZ.-
Pois aqui mui mansamente
Matarei este insolente.

DOM FUAS.-
Também eu pela calada
Meterei a minha espada.

DONA CLORIS.-
De vagar, não dêem de rijo,
Porque o velho há de acordar.

TODOS.-
Quem pudera em tanta luta
Sua dor desabafar!

DOM FUAS E
DOM GILVAZ.-
Se não grito neste caso, sou capaz de rebentar.

DONA CLORIS.-
Mais que estalem, e arrebentem,
Não se há de aqui falar.

TODOS.-
Não se pode isto aturar!

 
(Vão-se.)

 
 
(Entra SIMICÚPIO pela mão de SEVADILHA.)

 

SIMICÚPIO.-  Donde me levas, Sevadilha?

SEVADILHA.-  Ande, não me faça perguntas.

SIMICÚPIO.-  Não há uma candeia nesta casa, que se me meta na mão, que estou morrendo por te ver?

SEVADILHA.-  Melhor fineza é amar por fé.

SIMICÚPIO.-  Como, se eu não dou fé de ti?

SEVADILHA.-  Anda, que o amor se pinta cego.

SIMICÚPIO.-  Muito vai do vivo ao pintado.

SEVADILHA.-  Assim estamos mais à nossa vontade.

SIMICÚPIO.-  Andar, suponho que tenho o meu amor na Noruega: mas ainda assim isto de estar às escuras, não é grande coisa para um homem dizer à sua dama quatro hipérboles136, pois se não vejo, como poderei dizer-te que és estátua de alabastro137 sobre plintos138 de jaspe139, neve vivente, e racional sorvete, mas só carapinhada, pois negra te considero nesta Etiópia: oh negregada ocasião, em que por falta de uma candeia não sai à luz a tua formosura!

SEVADILHA.-  Pois o fogo de teu amor não basta para alumiar esta casa?

SIMICÚPIO.-  Se a luz excessiva faz cegar, também a minha chama por excessiva não alumia; mas com tudo isto não nos metamos no escuro; falemos claro: como estamos nós daquilo que chamamos amor?

SEVADILHA.-  E como estamos nós do malmequer, que esse é o ponto?

SIMICÚPIO.-  Cada vez está mais viçoso com a copiosa inundação de meu pranto.

SEVADILHA.-  E teu amo com o alecrim?

SIMICÚPIO.-  Isso são contos largos, o homem anda doido; tudo quanto vê lhe parece que é Alecrim; estoutro dia estava teimoso, em que havia de cear salada de alecrim, mais que o levasse o diabo. Olha, para contar-te as loucuras que faz, assentemo-nos, que isto se não pode levar de pé.

 
(Assenta-se SIMICÚPIO na caixa, que estará com o tampo levantado e cai dentro da caixa, que se fechará com a dita queda.)

 

SIMICÚPIO.-  Mas aí, Sevadilha, que caí num poço sem fundo!

SEVADILHA.-  Aonde estás, Simicúpio?

SIMICÚPIO.-  Não sei aonde estou; só sei que estou aqui.

SEVADILHA.-  Aonde é aqui?

SIMICÚPIO.-  É aqui.

SEVADILHA.-  Aqui aonde?

SIMICÚPIO.-  É boa pergunta! Eu sei cá donde são os aquís na casa alheia? Sei que estou aqui num fole como criança, que nasce impelicada, mas sem ventura140.

SEVADILHA.-  Pois sai daí e anda para aqui.

SIMICÚPIO.-  Isso é, se eu soubera ir daqui para aí.

SEVADILHA.-  Quem te impede?

SIMICÚPIO.-  Estou entupido.

SEVADILHA.-  Dá dois espirros.

SIMICÚPIO.-  Falta-me a Sevadilha, que a não acho, por mais que ando ao cheiro dela. Ora, filha, tira-me daqui, tu não ouves?

SEVADILHA.-  Eu bem ouço; porém não vejo aonde estás.

SIMICÚPIO.-  Busca-me fora de mim, porque não estou dentro de mim, metido nesta sepultura, donde só campa por infeliz a minha desventura.

SEVADILHA.-  Calte, Simicúpio, que aí vem gente com luzes; adeus até logo.  (Vai-se.) 

SIMICÚPIO.-  Estou no mais apertado lance, que ninguém se viu!

 
(Entram DOM LANCEROTE com uma luz e DOM TIBÚRCIO.)

 

DOM LANCEROTE.-  Apuremos este encanto. Sobrinho, nós havemos ver o que se encerra nesta caixa, ainda que o cabelo se arrepie.

DOM TIBÚRCIO.-  Se for coisa desta vida, ficará sem ela e se for da outra, a mandarei para o outro mundo.

DOM LANCEROTE.-  Pois sobrinho, abri esta caixa com intrépito valor.

DOM TIBÚRCIO.-  Abra vossa mercê, que é mais velho e em tudo tem o primeiro lugar.

DOM LANCEROTE.-  Deixai cumprimentos, que a ocasião não é para cerimônias.

DOM TIBÚRCIO.-  Por nenhum modo: não tem que se cansar, que lhe não quero tirar a glória desta empresa.

DOM LANCEROTE.-   (À parte.)  O magano141 contralogrou-se142; pois eu confesso que estou tremendo de medo.

DOM TIBÚRCIO.-   (À parte.)  Queria arrumar-me o gigante? É bem esperto.

DOM LANCEROTE.-  Ora pois, hei de ir eu, ou haveis de ir vós?

DOM TIBÚRCIO.-  Vá, não haja cumprimentos, que eu sou de casa.

DOM LANCEROTE.-  Não há mais remédio, que eu ir em corpo e alma, a ver esta alma sem corpo ou este corpo sem alma. Deus vá comigo, anjo da minha guarda, e todo o Flos Sanctorum143 me defenda.

DOM TIBÚRCIO.-  Ande tio, não tenha medo, que eu estou aqui.

DOM LANCEROTE.-   (À parte.)  Pois se não fora isso, já eu deitava a correr.

SIMICÚPIO.-  Ai! que sem dúvida estou na caixa, em que trouxe a dom Gil, e segundo o que aqui ouço dizer, me intentam reconhecer: eu lhes tocarei a caixa.

 
(Chega-se DOM LANCEROTE à caixa e tanto que a abre, deita SIMICÚPIO a cabeça de fora, e dá um assopro na vela.)

 

DOM LANCEROTE.-  Ó tu quem quer que és, que estás nesta caixa... mas ai, que me apagaram a vela com um assopro!

DOM TIBÚRCIO.-  Assopra!

SIMICÚPIO.-  Mui fraca era aquela luz, pois de um assopro a derribei.

DOM LANCEROTE.-  Sobrinho, vós estás aí?

DOM TIBÚRCIO.-  Como se não estivera.

DOM LANCEROTE.-  Quem seria o cruel que tão aleivosamente matou uma inocente luz a assopros frios!

SIMICÚPIO.-  Deus lhe perdoe, que era uma luz a todas as luzes boa: mas eu quero safar-me daqui, e temo marrar144 de narizes com alguém; mas que remédio?

DOM LANCEROTE.-  Agora vós chegais para mim, covarde sobrinho! Ide, que por vossa culpa não acabei de desencantar este encanto.

DOM TIBÚRCIO.-  Veja vossa mercê como chama covarde?

DOM LANCEROTE.-  Calai-vos, abóbora145, que degenerais de quem sois.

DOM TIBÚRCIO.-  A mim abóbora?

DOM LANCEROTE.-  Ó mal ensinado, pondes mãos violentas em vosso tio?

SIMICÚPIO.-  Eu abrirei caminho desta sorte, dando a trouxe mouxe146.

 
(Dá.)

 

DOM TIBÚRCIO.-  É boa essa, senhor tio, assim se dá num barbado?

DOM LANCEROTE.-  Calai-vos, maganão, que não haveis de casar: mas ai, que me destes uma bofetada com a mão aberta? A que d'el-rei sobre este magano de meu sobrinho!  (Vai-se.) 

DOM TIBÚRCIO.-  A que d'el-rei sobre este caduco de meu tio!  (Vai-se.) 

SIMICÚPIO.-  A que d'el-rei que já me deixaram.

 
(Vai-se.)

 


Cena III

 
Câmera. Entram DOM GILVAZ e DONA NIZE.

 

DOM GILVAZ.-  Senhora dona Nize, se acaso em vossa piedade pode achar amparo um desgraçado, peço-vos que me oculteis; pois já a rubincuda147 Aurora148 em risonhas vozes nos avis da chegada do Sol, assim a vossa manjerona se veja coroada de louro no capitólio149 do amor.

DONA NIZE.-  Já o alecrim pede favores à mangerona?

DOM GILVAZ.-  Se dona Cloris não aparece, que quereis que faça?

DONA NIZE.-  Pois escondei-vos nessa alcova, enquanto a vou chamar.

 
(Esconde-se DOM GILVAZ e entra DOM FUAS.)

 

DOM FUAS.-  Aonde vais, tirana? Procuras acaso o teu amante? Oh murcha seja a tua manjerona, que como planta venenosa me tem morto.

DONA NIZE.-  Homem do demônio, ou quem quer que és, que em negra hora te vi, e amei, que desconfianças são essas? que amante é esse, com quem me andas aqui apurando a paciência, e sem que, nem para que, descompondo a minha manjerona?

DOM FUAS.-  Pois quem era aquele que saiu da caixa a dizer-te mil colóquios?

DONA NIZE.-  Que sei eu quem era; salvo fosse... Mas retira-te, que aí vem gente.

DOM FUAS.-  Esconder-me-ei aonde for.

 
(Quer esconder-se onde está DOM GILVAZ.)

 

DONA NIZE.-   (À parte.)  Não te escondas aí. Ai de mim que se dom Fuas vê a dom Gil, fará o seu ciúme verdadeiro!

DOM FUAS.-  Não queres que me esconda aí? Agora por isso mesmo.

DONA NIZE.-  Tem mão, adverte...

DOM FUAS.-  Que adverte? Tens aí acaso escondido o teu amante?

DONA NIZE.-  Não, dom Fuas, porque só tu....

DOM FUAS.-  Que é isso? Mudas de cor?

DONA NIZE.-  Se a cor é acidente, estou para desmaiar, vendo a sem razão com que me criminas.

 
(Entra DONA CLORIS.)

 

DONA CLORIS.-  Nize, que alarido é esse? Queres que venha o tio, e ache aqui este estafermo?

DONA NIZE.-  São loucuras de um zeloso sem causa.

DOM FUAS.-  São zelos de uma causa sem loucura, e senão diga-me, senhora dona Cloris, por vida do senhor seu alecrim, não é para ter zelos ver repetidas vezes a um sujeito procurar a dona Nize com tão repetidos extremos, que uma coisa é vê-lo e outra dize-lo; e suponho o tem agora escondido naquela alcova de donde me desvia para esconder-me?

DONA CLORIS.-  Isso verei eu, que também me importa essa averiguação.

DONA NIZE.-   (À parte.)  Cloris, não te canses, que não hás de ver quem aí está. Estou perdida!

DOM FUAS.-  É para que veja, senhora, a razão que tenho. Ah tirana!

DONA CLORIS.-  Já agora por capricho hei de ver quem aí está. Vossa mercê é, senhor dom Gilvaz? Que é isso? Quer enxertar o meu alecrim com a manjerona de dona Nize?

DOM GILVAZ.-  Há caso semelhante!

DOM FUAS.-  Falso, traidor amigo, como sabendo que eu pretendo a dona Nize, te expões a embaraçar o meu emprego?

DOM GILVAZ.-  Dona Cloris, dom Fuas, para que são esses extremos, quando a senhora dona Nize nem a vós ofende, nem a mim me corresponde?

DOM FUAS.-  Ninguém se esconde sem delito.

DONA CLORIS.-  Ninguém se oculta sem motivo.

DONA NIZE.-  Ora agora não quero dar satisfações, nem a uma louca, nem a um temerário: é muita verdade; escondi a dom Gil, porque lhe quero bem; pois que temos?

DOM FUAS.-  Que isto sofra a minha paciência! Ah ingrata!

DONA CLORIS.-  Que isto tolerem os meus zelos! Ah falso amante!

DOM GILVAZ.-  A senhora dona Nize está zombando, e aquilo nela é galantaria.

DONA NIZE.-  Não é senão realidade e tenho dito.  (Vai-se.) 

DOM FUAS.-  Não se viu mais descarado rigor! Espera, cruel, e verás com os teus olhos os ultrajes que faço à tua manjerona.  (Vai-se.) 

DONA CLORIS.-  Senhor dom Gil, venha depressa o meu alecrim.

DOM GILVAZ.-  O teu alecrim é inseparável de meu peito.

DONA CLORIS.-  Deixemos graças, que eu não zombo.

DOM GILVAZ.-  Pois entendes que dona Nize fala de veras?

DONA CLORIS.-  Quer falasse de veras, quer não, venha, o meu alecrim.

DOM GILVAZ.-

De que sorte queres que te satisfaça? Ignoras acaso as firmezas de meu amor?

 (Canta DOM GILVAZ a seguinte ária:) 

Borboleta namorada
Que nas luzes abrasada,
Quando espira nos incêndios
Solicita o mesmo ardor.
Tal, ó Clóris, me imagino,
Pois parece, que o destino
Quer, por mais que tu me mates,
Que apeteça o teu rigor.

 
(Entram SIMICÚPIO e SEVADILHA.)

 

SIMICÚPIO.-  Senhor dom Gilvaz, nunca Simicúpio se viu em calças mais pardas.

DOM GILVAZ.-  Por que?

SEVADILHA.-  Porque o velho já aí vem caminhando como uma centopéia.

DONA CLORIS.-  Anda, dom Gil, para dentro, até que haja ocasião para saíres.

DOM GILVAZ.-  Vais ainda com escrúpulos na minha constância?

DONA CLORIS.-  Cá dentro apuraremos essas finezas.  (Vai-se.) 

DOM GILVAZ.-  Ó Simicúpio, vê como havemos sair daqui, que bem sabes que tenho de escrever hoje para o correio.  (Vai-se.) 

SIMICÚPIO.-  Tomara que o fizessem em postas, o levasse barzabú150 às vinte151.

SEVADILHA.-  E se lhes não dizemos, que vinha o velho, ainda se não iam.

SIMICÚPIO.-  E ia-se a história, sem nós fazermos nosso papel de Alfazema152 por causa do alecrim.

SEVADILHA.-  Não me dirás, Simicúpio, em que há de parar toda essa barafunda153?

SIMICÚPIO.-  Em algum casamento, isso já se sabe; tomara eu também que me dissesses em que havemos nós parar?

SEVADILHA.-  Em correr, que se paramos aqui, talvez que nos envidem o resto.

SIMICÚPIO.-  Não embaralhes o sentido em que te falo. Ai Sevadilha, que não só me chegaste ao coração, mas também aos narizes! E assim não ponhas por estanque os teus favores: antes afável, dá-me alguma amostrinha de tua inclinação.

SEVADILHA.-  Quem te meteu esses fumos154 na cabeça?

SIMICÚPIO.-  O dó que tenho de te ver tão matadora155.

SEVADILHA.-  Vai-te daí, que tenho nojo de chegar-me a ti.

SIMICÚPIO.-  Eu não te mereço que me descomponhas o carinho com que te trato. Ai Sevadilha, que sinto assar-me nos espetos quentes dos teus olhos, aonde os repetidos espirros de meu incêndio...

SEVADILHA.-  Não me disseras isso em dois dedos de papel, ainda te crera.

SIMICÚPIO.-

Não só em dois dedos, mas em toda a mão da solfa156, donde verás de teu Simicúpio as finas cláusulas e suas simicopadas157.

 (Canta SIMICÚPIO, espirando no fim de casa verso a seguinte ária:) 

Não posso, ó Sevadi...
Dizer-te, o que padê...
Que o meu amor tavê...
Chegando-me aos nari...
Num moto contínuo me faz espirrar.
Mas se é tafularia158
Este vício de querer-te,
Toda inteira hei de sorver-te,
Por mais que me veja morrer e estalar.

 (Vai-se.) 


SEVADILHA.-  Ora Deus o ajude com tanto espirrar.

 
(Entram DOM LANCEROTE e DOM TIBÚRCIO.)

 

DOM LANCEROTE.-  Basta, sobrinho, que não fostes vós o que me derreastes?

DOM TIBÚRCIO.-  Pois acha vossa mercê que havia pôr as mãos violentas nas reverendas barbas de vossa mercê? Igual eu me podia com mais razão queixar de vossa mercê, que me fez em estilhas159.

DOM LANCEROTE.-  Eu, sobrinho? Isso é engano; eu havia erguer a mão para vós, quando só as devo levantar ao Céu, para dar-lhe graças, por dar-me para uma de minhas sobrinhas um noivo tão gentil-homem?

DOM TIBÚRCIO.-  Não vai a dar quebranto160.

SEVADILHA.-   (À parte.)  E ele, que é mui belo.

DOM TIBÚRCIO.-  Pois se nenhum de nós reciprocamente deu um no outro, quem seria?

DOM LANCEROTE.-  Eu também não posso atinar; o que sei é que a caixa para nós foi de guerra.

SEVADILHA.-   (À parte.)  E para o noivo de tartaruga do Alentejo161.

DOM LANCEROTE.-  Sevadilha, anda cá, não o negues: quem andará nesta casa; há um par de noites que sinto grande reboliço?

SEVADILHA.-  Senhor, eu tenho para mim que esta casa às escuras é assombrada.

DOM LANCEROTE.-  Tens visto alguma coisa?

SEVADILHA.-  Ai senhor, tenho visto tantas coisas que não me atrevo a dize-las.

DOM LANCEROTE.-  Dize, rapariga.

SEVADILHA.-  Só em cuidar no que vi, estou para me desmaiar.

DOM LANCEROTE.-  Era coisa do outro mundo?

SEVADILHA.-  Qual do outro mundo, se eu a vi neste?

DOM LANCEROTE.-  Era fantasma?

SEVADILHA.-  O que é fantasma?

DOM LANCEROTE.-  É uma coisa branca que põe os olhos em alvo.

SEVADILHA.-  Senhor, eu não sei o que é; sei somente que vi sair de uma caixa uma coisa como furacão de vento, que me deu muita pancada.

DOM LANCEROTE.-  Vêdes, sobrinho? É o mesmo que nos sucede em carne.

DOM TIBÚRCIO.-  Na carne aliás.

DOM LANCEROTE.-  Aqui não há outro remédio mais que safares logo, e já, e levares vossa mulher convosco, que eu ponho escritos nas casas e mudo-me às carreiras.

DOM TIBÚRCIO.-  Isso é o verdadeiro.

DOM LANCEROTE.-  Sevadilha, vai chamar as raparigas que venham cá depressa.

SEVADILHA.-   (À parte.)  Genro e sogro não os vi mais bestas!  (Vai-se.) 

DOM TIBÚRCIO.-  Para que manda vossa mercê chamar as minhas primas tão depressa?

DOM LANCEROTE.-  Logo vereis.

 
(Entram DONA CLORIS e DONA NIZE.)

 

AMBAS.-  Que nos ordenas, senhor?

DOM LANCEROTE.-  Sobrinho, elas aí estão, escolhei uma das duas para vossa esposa.

DONA CLORIS.-  Eu fiz voto de ser freira e assim não posso casar.

DOM LANCEROTE.-  Pois case dona Nize.

DONA NIZE.-  Eu menos, que quero ser donzela.

DOM LANCEROTE.-  Isso já não pode ser, que dei a minha palavra, que vale162 mais que tudo.

DOM TIBÚRCIO.-  Eu já me resolvera a aturar a ríspida condição de dona Nize, mas sem receber o dote não me recebo.

DOM LANCEROTE.-  Andai, que sois um impolítico: algum homem que tem brio, fala em dote?

DOM TIBÚRCIO.-  E algum homem, que quer dote, atenta em brio?

 
(Entram DOM FUAS, DOM GILVAZ e SIMICÚPIO vestidos de mulher com mantos.)

 

SIMICÚPIO.-  Senhor, esta indústria nos valha, que para sair, sempre foi boa uma saia.

DOM GILVAZ.-   (À parte.)  Quem serve a Cupido, não é muito que se afemine.

DOM FUAS.-   (À parte.)  Até nisto mostra o amor que é covarde.

DOM LANCEROTE.-  Que mulheres são essas, que saem da nossa alcova?

DONA CLORIS.-   (À parte.)  Estou tremendo não se descubra a tramóia.

SIMICÚPIO.-  Senhor dom Tibúrcio, as mulheres honradas, como eu, se não tratam desta sorte.

DOM TIBÚRCIO.-  Senhora, vossa mercê vem enganada.

DOM LANCEROTE.-  Que é isto, sobrinho?

DOM TIBÚRCIO.-  Eu o não sei em minha consciência.

DOM LANCEROTE.-  Senhoras, como entrastes nesta casa?

SIMICÚPIO.-  Este senhor sobrinho de vossa mercê merecia que lhe dessem duas facadas, pois sem alma, nem consciência, depois de o introduzir na minha casa, para casar com uma de minhas filhas, que vossa mercê aqui vê; teve tais ardis, que enganou a ambas e de ambas triunfou; e para mais penas sentir esta madrugada nos mandou viéssemos a esta casa, que disse era sua, e no cabo sei que não é e está para casar com uma sobrinha de vossa mercê. Ah traidor, ladrão, não sei como te não esgadanho163 e te arranco essas goelas.

DOM LANCEROTE.-  É notável caso! Sobrinho desalmado, que é o que fizestes?

DOM TIBÚRCIO.-  Senhor, eu estou tolo de ver mentir esta mulher!

DOM GILVAZ.-  Ah falso dom Tibúrcio, o céu me vingue de tuas falsidades.

DOM FUAS.-  Ainda nega o magano? Tal estou, que lhe arrancara estas barbas.

SIMICÚPIO.-  Deixai, filhas, deixai, que ainda no céu há raios e no inferno a caldeira de Pero Botelho164 para castigo de velhacos. Vamos, meninas.  (Vai-se.) 

DONA CLORIS.-   (À parte.)  Já estamos livres deste susto.

DONA NIZE.-   (À parte.)  O criado vale um milhão.

DOM LANCEROTE.-  Senhor sobrinho, vossa mercê a tem feito como os seus narizes; basta que vossa mercê é useiro e vezeiro165 a enganar moças?

DOM TIBÚRCIO.-  Senhor, eu não conheço tais mulheres.

DOM LANCEROTE.-  Se não tendes outra desculpa, essa não me satisfaz, e agora vejo que por isso dilatáveis o casar com vossas primas, fingindo irresoluções e regateando o dote.

DOM TIBÚRCIO.-  Senhor, permita Deus que se eu...

DOM LANCEROTE.-  Não jureis falso; dizei-me, e tivestes atrevimento de meteres mulheres em casa, sem atenção ao decoro de vossas primas?

DOM TIBÚRCIO.-  Primas do meu coração, eu estou para enlouquecer, pois estou tão inocente...

DONA CLORIS.-  Cale-se, tenha juízo; basta, que com esse feitio nos queria lograr?

DONA NIZE.-  É o senhor sizudo, que não aprova os ranchos de alecrim e manjerona!

DOM TIBÚRCIO.-  Ora basta, que diga eu, que não conheço tais mulheres.

DONA CLORIS.-  Cale-se, tonto.

DONA NIZE.-  Cale-se, simples.

DONA CLORIS.-  Basbaque166.

DONA NIZE.-  Insolente.

AMBAS.-  Que? Agora casar? Aqui para trás.

 
(Vão-se.)

 

DOM TIBÚRCIO.-  Senhor tio, dê-me atenção, senão desesperarei.

DOM LANCEROTE.-

 (Canta DOM LANCEROTE a seguinte ária:) 

Eis aqui: eu estou perdido,
Gasto feito, noiva pronta,
Porta aberta, e casa tonta;
Ah sobrinho! Mas que digo?
Emprestai-me a vossa espada,
Que me quero degolar.
Oh prudência desgraçada,
Pois não faço uma salada
Por ninguém me ouvir gritar.

DOM TIBÚRCIO.-  Que isto a mim me suceda? Não há homem mais infeliz!



Cena IV

 
Praça. Entram DOM GILVAZ e SIMICÚPIO.

 

DOM GILVAZ.-  Uma e muitas vezes te considero, Simicúpio, prodigioso artífice de meu amor, pois com as tuas máquinas vais erigindo o retorcido tálamo167 que há de ser trono do mais ditoso himeneu168.

SIMICÚPIO.-  Já disse a vossa mercê, que mais obras e menos palavras: Simicúpio, senhor, já se acha mui cansado, tomara que me aposentasse com meio soldo, que este oficio de alcofa169 é mui perigoso; que suposto tenha asas para fugir, também as asas tem penas para sentir.

DOM GILVAZ.-  Simicúpio, já o pior é passado: acabemos de deitar esta nau ao mar, que então teremos enchentes.

SIMICÚPIO.-  E no cabo de tantas enchentes tudo nada.

DOM GILVAZ.-  Anda, não desmaies, que hoje havemos de mostrar ao mundo os triunfos de alecrim.

SIMICÚPIO.-  E a manjerona todavia não menos viçosa com os borrifes de Fagundes.

DOM GILVAZ.-  Mas a galantaria é que todas as suas idéias redundam em nosso proveito.

SIMICÚPIO.-  Aí é que está a filigrana170 do jogo, Fagundes a semear e nós a colher.

 
(Entra SEVADILHA com a mantilha.)

 

DOM GILVAZ.-  Aquela que lá vem, não é Sevadilha?

SIMICÚPIO.-  Pelo cheiro assim me parece.

DOM GILVAZ.-  Que novidade é essa, Sevadilha? Tu só por aqui?

SEVADILHA.-  Que há de ser? A maior desgraça do mundo.

DOM GILVAZ.-  Que? Morreu o velho!

SEVADILHA.-  Isso então seria fortuna.

DOM GILVAZ.-  Pois que foi?

SEVADILHA.-  Foi que dom Tibúrcio com a pena de se ver acometido de três mulheres, como vossa mercê sabe, à vista das noivas e do sogro, tomou tal paixão, que lhe deu esta noite uma cólica, e está quase indo-se por um fio; e assim eu por uma parte, Fagundes, e o Galego por ambas, vamos a chamar o médico. Adeus, que não me poso deter.

DOM GILVAZ.-  Espera.

SEVADILHA.-  Não posso, que dom Tibúrcio está morrendo por instantes.

SIMICÚPIO.-  Não te canses, que já o achas morto: ande cá, tenha feição, e faça palestra com os amigos.

DOM GILVAZ.-  Que faz dona Cloris?

SEVADILHA.-  Não me detenhas, adeus.

SIMICÚPIO.-  Diz-me primeiro, que tal te pareci em trajes de mulher?

SEVADILHA.-  Não estou para isso, deixe-me ir, que estou depressa.

SIMICÚPIO.-  Há tal pressa! Como se estivera alguém para morrer!

SEVADILHA.-  Não vê que vou acudir a esta grande necessidade.

SIMICÚPIO.-  Vai-te, filha; vai-te, não te sofras.

SEVADILHA.-  Bem puderas tu poupar-me dessas passadas e ir chamar um médico às carreiras.

SIMICÚPIO.-  Vai descansada; que eu chamarei o médico.

DOM GILVAZ.-  Sim com muito gosto.

SEVADILHA.-  Ora faça-me esse favor, e adeus.  (Vai-se.) 

DOM GILVAZ.-  Anda depressa, vai chamar o médico.

SIMICÚPIO.-  Que médico? Cuide noutra coisa.

DOM GILVAZ.-  Isso é zombaria? Não permita Deus que o homem morra por nossa omissão.

SIMICÚPIO.-  Vamos, que eu e vossa mercê havemos de ser os médicos na enfermidade de dom Tibúrcio.

DOM GILVAZ.-  Estás louco? Pois nós sabemos medicina?

SIMICÚPIO.-  Assim como há filosofia natural, por que não haverá natural medicina?

DOM GILVAZ.-  E se o doente morrer por falta de remédio?

SIMICÚPIO.-  Mais depressa morrerá por muitos remédios.

DOM GILVAZ.-  E que lhe havemos de aplicar?

SIMICÚPIO.-  Tudo o que não for veneno; porque o que não mata, engorda.

DOM GILVAZ.-  Isso é temeridade.

SIMICÚPIO.-  Vamos, senhor, e Deus sobre tudo.

 
(Entra DOM FUAS.)

 

DOM FUAS.-  Espera, traidor dom Gil.

SIMICÚPIO.-  Ai, que isto é alguma espera!

DOM GILVAZ.-  Que me quereis, dom Fuas?

DOM FUAS.-  Que metais a mão a essa espada.

DOM GILVAZ.-  Para que?

SIMICÚPIO.-  É boa pergunta! Para que será? É para fazer alféloa magana171.

DOM FUAS.-  Vereis que sabe o meu valor castigar ofensas de um amigo desleal; pois sabendo vós, que dona Nize era o ídolo da minha veneração, chegastes a profanar o meu culto com os sacrílegos votos de vossos sacrifícios, a quem suavizaram os odoríferos hálitos da manjerona.

SIMICÚPIO.-  Com os diabos!

DOM FUAS.-  E assim metei a mão a essa espada, para que se conserve dona Nize, ou segura no templo de meu peito, ou no de vosso coração.

SIMICÚPIO.-  Senhor, aqui não é lugar de desafios, vamos para val de cavalinhos172 a jogar os coices.

DOM GILVAZ.-  Dom Fuas, estais louco? Vêde, que sem causa é a vossa queixa.

DOM FUAS.-  Não quero satisfações, vamos puxando.

SIMICÚPIO.-  Este homem vem puxando.

DOM GILVAZ.-  Pois para que vejais que o satisfazer-vos não é temer-vos...

 
(Entra FAGUNDES com mantilha.)

 

FAGUNDES.-  Cé, ah senhor, dom Fuas, uma palavrinha depressa, que importa.

DOM FUAS.-  Aquela é Fagundes; que me quererá? Esperai, dom Gil, enquanto falo a esta mulher.

SIMICÚPIO.-  Senhor, não consinto, ou falar, ou brigar.

DOM GILVAZ.-  Deixai mulheres e brigai, que estou pronto a satisfazer-vos por este modo.

FAGUNDES.-  Senhor, venha já depressa.

SIMICÚPIO.-  Já vai, que quer aqui primeiro meter a espada pelo olho a um amigo.

FAGUNDES.-  Ande senão vou-me.

DOM FUAS.-  Espera, que eu vou.

DOM GILVAZ.-  Briguemos, dom Fuas.

SIMICÚPIO.-  Vamos a isso, antes que se acabe a cólera.

DOM FUAS.-  Dom Gil, se tendes brio, esperai; que eu venho já.

 
(Vai para FAGUNDES.)

 

SIMICÚPIO.-  Ora vá de seu vagar, que esta pendência não é de cerimônia. Senhor dom Gil, abalemos com os cachimbos que brigar com loucos é ser mais louco.  (Vai-se.) 

DOM GILVAZ.-  Tomo o teu conselho.  (Vai-se.) 

FAGUNDES.-  Sim, senhor, a casa está revolta; dom Tibúrcio nos artículos da morte, e quase moribundo; o velho banzando173 e tudo banzeiro174; e à vista isto pode vossa mercê introduzir-se em casa o mais depressa que puder, em alguma forma que inventar a sua indústria e adeus.

DOM FUAS.-  Ouça cá.

FAGUNDES.-  Não posso, que vou à botica175.

DOM FUAS.-  Pois essa ingrata de dona Nize ainda...

FAGUNDES.-  Não estou para ouvir nada.

DOM FUAS.-  Espere, tome lá esses vinténs pelo trabalho.

FAGUNDES.-  Mostre cá depressa.

DOM FUAS.-  Ora diga-me, pois dona Nize...

FAGUNDES.-  Noutra ocasião falaremos, venha isso depressa.

DOM FUAS.-  Tome lá: mas diga-me, enquanto tiro a bolsa, essa falsa, essa cruel...

FAGUNDES.-  Ai, mostre cá, não me detenha.

DOM FUAS.-  Espere, que tenho o boldrié176 por cima da algibeira.

FAGUNDES.-  Pois senhor, se a sua bolsa está aferrolhada, a minha língua está ferrugenta177.  (Vai-se.) 

DOM FUAS.-

Muito interesseira é esta velha! Mas onde está dom Gil? Dom Gil? Foi-se o covarde; mas à fé de quem sou, que as não há de perder comigo; e tu, ingrata Nize, hoje irei a ver-te disfarçado; que à vista das tuas falsidades é justo que me revista não só de outro hábito, mas também de outro afeto.

 (Canta DOM FUAS a seguinte ária:) 

De um amigo, e de uma ingrata
Ofendido e ultrajado?
Quem me dera ser vingado!
Oh não sei como ainda cabe
No meu peito tanta dor!
Mas sim cabe, porque as penas
Nos estragos repartidas
Pelas bocas das feridas
Sairá com mais vigor.

 
(Vai-se.)

 

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