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- XIV -

Ai, quanto me custou a levar a cabo aquela singular conferência com meu futuro genro!... Como devia eu parecer-lhe caprichosa e ridícula!... Mas está claro que não havia de sacrificar minha filha a um falso escrúpulo de momento, a um miserável egoísmo de minha vaidade pessoal. Seria covardia indigna de mim -abandonar, à primeira dificuldade da campanha, todo o meu trabalho de tanto tempo, e comprometer para sempre a felicidade de Palmira e por conseguinte a minha própria.

Depois do pedido, principiamos logo a cuidar dos aprestos para o casamento. Mandei preparar a casa do noivo, e dispus com todo o esmero, lá em minha residência, os aposentos destinados à noiva. Eu e minha filha acompanhamos as obras com igual empenho e dedicação. Tanto em uma casa como na outra, tudo se fez para o completo conforto de um par; dir-se-ia que se tratava da acomodação, não de um, mas de dois casais.

Para meu futuro genro destaquei um pequeno e galante prédio que possuíamos em Botafogo. Ficou excelente depois de bem mobiliado e guarnecido com esmero. Para minha filha mandei arranjar, lá em nossa casa nas Laranjeiras, onde ela nascera e onde eu habitava havia vinte e dois anos, uma sala, uma larga alcova de casados, um quarto de estudo e oratório, outro de vestir, e um cômodo de toucador e banho; tudo isso independente, por modo que ela ficasse em liberdade e pudesse ter as suas entrevistas com o marido, quando as não realizasse em casa dele. Ficou tudo muito bom.

Os enxovais também foram aviados em duplicata, à exceção, bem visto, do vestido da noiva. Em qualquer das duas habitações podia um casal instalar-se comodamente. Minha filha palpitava de alegria no antegozo do seu amor, e eu sentia-me feliz por vê-la feliz; mas ninguém poderá calcular a dose de energia e a constância de caráter que tive de por em ação, para impedir que o noivo interferisse e se intrometesse nestes arranjos domésticos, e não estivesse sempre encarapichado às nossas saias. O pobre rapaz queria também, como é de costume no Brasil, vir todas as noites visitar a noiva e pespegar-se ao lado dela durante o serão até ao momento de servir-se o chá. Não faltava mais nada! desalojei-o logo dessa pretensão, declarando que a ninguém recebíamos senão às quartas-feiras; mas, o demônio insistiu, recorrendo para vencer-me a todos os carinhosos recursos da adulação; e afinal, reforçando suas súplicas com as de Palmira, conseguiram os dois apanhar-me mais um dia na semana, que ficou sendo o domingo.

Só nas vésperas do casamento permiti que se vissem todos os dias.

Por essa ocasião realizamos os três, e mais o meu velho amigo César, um belo passeio à Floresta da Tijuca.

Ao despontar de sol estávamos já á raiz da serra. Levávamos farnel e um criado para tomar conta dele. Deixamos na cocheira daquele ponto o carro que nos conduziu até aí, e tomamos, para subir a formosa cordilheira, uma vitória de dois lugares, onde eu iria com César, e em cuja boléia o criado se arranjaria com o farnel. Palmira e Leandro tinham, prontos à sua espera, dois cavalos escolhidos.

Era outubro, e a manhã saíra-nos encantadora. Foi deliciosa a subida até o alto da serra, por entre as vegetações e os penhascos da estrada, ao primeiro transbordamento do dia. A quaresma e a sucupira abriam já, na sombra azul das matas, flores roxas e amarelas. Inebriava o espírito a deslizar suavemente naquele vasto recender de aromas resinosos, ao hino matinal dos campos, que se iam, ainda mal acordados dos seus sonhos cor de opala, preguiçosamente desnevoando à dourada fulguração da luz nascente.

Não nos quisemos deter na cascatinha, e continuamos a subir para a Floresta.

A Floresta! Ah! quantas recordações não tinha eu desses lugares, onde tantas vezes passeei pelo braço de Virgílio, antes do nosso casamento, antes da nossa desilusão, quando eu ainda o amava com amor de mulher! César, ao meu lado, no carro, parecia também esquecido nas suas saudades, porque ia abstrato e mudo, olhando fixamente o misterioso horizonte de verdura, com as mãos subpostas a queixo e firmadas no castão da sua bengala.

Palmira e Leandro seguiam adiante cavalgando emparelhados, a rir e a conversar, gárrulos e donairosos. Ah! esses não ficam quietos e calados um só instante, porque iam vivendo do presente e do futuro. Avançavam a galope, resplendentes e soberbos no orgulho do seu amor e da sua mocidade, sem volver para trás os olhos enamorados; alheios a tudo, encarando com desdém o resto do mundo, como do alto da montaria olhavam no caminho as pobres cambaxilras, que esvoaçavam escorraçadas fugindo e gralheando à sua vitoriosa passagem.

Penetramos no coração da Floresta. Minha alma, de comovida, abriu-se de par em par, num êxtase contrito, num doce e profundo enlevo religioso. Tive vontade de ajoelhar-me à sombra das velhas árvores, e chorar.

Como eu te amava ainda, casto paraíso das minhas saudades! Ó minha querida floresta! Não tinhas, como eu, envelhecido, odorante e sombrio templo de verdura! encontrei-te moça e garrida como te deixara, e como a mim tinhas visto, dantes, muito dantes, à flor da minha juventude; o que agora te não achei foi tão minha amiga, tão minha confidente e tão comunicativa como dantes. Eras alegre, paraíso! achei-te triste!

Não! já não eras para mim o mesmo éden carinhoso e sorridente, que com todas as tuas vozes me falavas de amor e de vida! Reconheci as tuas místicas estradas murmurantes; os teus brancos caminhos serpeados entre montanhas de veludo verde; as tuas árvores patriarcais, de longas barbas venerandas, em que se engrimpam e dependuram orquídeas e parasitas; o teu lago quieto e melancólico, em que as taquaras e samambaias se miram furtivamente, por entre a esparsa e mergulhada cabeleira das algas e nenúfares; reconheci a música plangente das tuas águas rebatidas, de cascata em cascata, a sombra amorável e doce das tuas grutas escondidas; reconheci tudo isso, todas essas paragens encantadas; mas já não eras a mesma para mim, Floresta, que me embalaste os sonhos de esperança!

Oh! como Palmira nesse mesmo instante devia achar-te alegre, triste Floresta! Triste e morto paraíso de saudades!

-Em que cisma, minha amiga?... perguntou-me César, tomando-me uma das mãos.

-No mesmo em que você pensava ainda há pouco -no passado... Cismas de velho!...

E suspiramos ambos, desconsoladamente.

Voltei desse longo passeio, de um dia inteiro, com uma fria impressão de tristeza, que se não dissolveu em lágrimas, mas que enlutou de sombras dolorosas o meu velho coração de mulher.

E comigo foi sempre assim, muito antes mesmo da velhice. A contemplação de belas paisagens como a da Floresta, as grandes obras de arte, a música principalmente, deixavam-me na alma um amargo ressaibo de melancolia insolúvel. Atribuía isso, então, ao fato de nunca ter sido, em nenhum tempo de minha vida, completamente feliz. Essa tristeza era como que, não a saudade, mas a desconsolação de quem entreviu, compreendeu e sentiu a ventura natural do viver inteiro e completo, sem nunca poder atingi-la sem nunca lograr desfrutá-la; e que, depois, já na velhice, se acha afinal sem esperanças de gozá-la ainda algum dia, nesta, ou noutra qualquer existência. Era o flébil ressentimento de um pobre coração espoliado e vencido.

E já agora confesso tudo: cheguei a ter uma incogitável ponta de inveja por minha filha... Mas não invejava a noiva, invejava a felicidade de mulher que a esperava, feita e preparada por mim. Ah! eu não tivera mãe, como ela me possuía!...

Entretanto, não me fartava de contemplá-la, embevecida de amor materno; e não me cansava de rever-me na sua paradisíaca ventura, achando-a mais feliz com seu amado, neste paraíso, do que no outro extinto os primitivos amantes, que esses, ai deles! só chegaram a conhecer o amor pelo prisma da maldição e do pecado. Contemplei-os feliz na minha inveja, belos como estavam, minha filha e meu genro, naquele passeio à Floresta da Tijuca! Como a inteira segurança da ventura os fazia monarcas absolutos da vida! Ainda agora, enquanto escrevo estas linhas à luz do meu candeeiro de trabalho, tenho-os nitidamente defronte dos olhos, como os vi nessa linda tarde, depois do almoço na gruta dos Dois Irmãos. Como eram um lindo par! Ele, com a sua roupa de montaria, assentado ao lado dela, fustigava com o chicote a pedra em que estavam ambos; Palmira, mais esbelta na sua amazona azul-ferrete, escutava-o sorrindo com os olhos fitos nos dele. E entre seus lábios que nunca até então se tinham juntado, havia sempre, no murmúrio das palavras um sussurrar de beijos.

E vendo-os assim, tão íntimos, tão confiantes um no outro, tão seguros da sua eterna felicidade e do seu eterno amor, lembrei-me do meu tempo de noiva, lembrei-me das minhas esperanças, e logo também das negras decepções que sobrevieram ao meu casamento. Oh! se eu não estivesse ali, para interpor-me entre eles e separá-los quando fosse preciso, aquele par, tão harmonioso, tão sinceramente unido pelo amor; aqueles dois entes, tão talhados um para o outro, como eu parecia ter sido para meu marido, seriam no fim de algum tempo, se não tivessem reagido logo, fugindo cada um para seu lado, dois míseros infelizes, dois perdidos para a vida, dois inimigos rancorosos, condenados a viver na mesma casa, e comer na mesma mesa, a dormir na mesma cama!

Quão diferente fora a minha existência, se eu tivera possuído alguém capaz de fazer pela minha felicidade um pouco do que eu fazia pela felicidade de minha filha! Oh! mas só mesmo um coração de mãe seria capaz de tanto, e só ele conseguiria as coisas extraordinárias, que ainda tenho a revelar nestas sagradas páginas.




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- XV -

Já próximos do casamento, consultei Leandro a respeito do seu futuro e aconselhei-o que deixasse o emprego público pelo comércio. Eu me comprometia a ajudá-lo e me encarregaria de encaminhar as coisas, no caso que ele aceitasse o meu alvitre. César, que dispunha de boas relações na praça, tomou a seu cargo descobrir um sócio que conviesse ao rapaz. Eu entraria com a metade do capital, escondida atrás da firma de meu genro; a outra metade sairia do dote de Palmira.

O generoso médico, para quem minha família não tinha segredos, tomava crescente interesse pelos noivos. Seria ele um dos padrinhos de Palmira. Entusiasmava-o aquele casamento, assim levado a efeito contra todas as danosas praxes convencionais; prefigurava-se-lhe o meu original proceder alta lição doméstica, e dizia que a minha firmeza, em realizar o difícil plano concebido, dava uma bela cópia da energia do meu caráter, e havia de produzir obra de grande alcance sobre a futura orientação da vida conjugal. Fazia-me vaidosa o bom amigo! E começou a empenhar-se por Leandro com tão boa vontade, que o rapaz podia dizer encontrar nele um pai melhor que o verdadeiro. Foi César, enfim, quem moralmente o preparou para representar, junto de Palmira, o papel que eu lhe havia designado; sem essa inteligente e perseverante ajuda, não sei se teria conseguido chegar, vitoriosa, ao fim da minha empresa.

Leandro pediu a sua exoneração do emprego público na mesma semana do casamento.

Este foi num sábado, às cinco horas da manhã, sem pompas e sem ruídos; era nada mais que o meio de coonestar o namoro com minha filha. O seu estado de noivos continuava por bem dizer como dantes; simplesmente, já desposados, gozavam de mais liberdade entre si, e poderiam, à sorrelfa, ir mais longe nos seus galanteios. Quis, intencionalmente, criar-lhes um transitivo período de beijos furtados e desejos mal contidos. Isso era necessário. Seria preferível essa iniciação da sexualidade a deixá-los, conforme o costume, promiscuamente encerrados numa alcova, durante muitos dias seguidos.

É torpe lançar na mesma cama, sem transição, um rapaz e uma donzela, que horas antes se tratavam ainda com certa cerimônia e só se amavam por palavras, olhares e sorrisos. O salto é muito brusco; há de fatalmente perturbá-los. Reinará sempre mais vexame do que felicidade entre o casal que se vê duramente entalado na decantada lua-de-mel.

Não penso, todavia, como o Conde de Tolstoi, que o noviciado do amor seja análogo ao noviciado do vício de fumar, e produza no iniciante as mesmas náuseas e os mesmos incômodos; males terríveis, que os pacientes, não obstante, disfarçam em ambos os casos, sem coragem para dizer francamente que a lua-de-mel é uma repugnante tortura, e que o fumar não merece as honras de um belo prazer. Não! o amor é natural, e por isso não deve causar náuseas, no começo, como no fim. A lua-de-mel, consoante nossas práticas, é que não é natural, e deve constranger tanto a noiva como o noivo. Ela fica mortalmente ferida no seu ingênito decoro de mulher, e no seu congenial pudor de donzela; e ele, naturalmente ainda mais tímido que a sua companheira de suplício, pois todo o homem, em questões de amor, é sempre mais tímido que qualquer mulher, sofre revoltado pelo grosseiro e agressivo papel de verdugo, que tem de representar contra uma virgem, pela qual, no seu enlevo de amante, daria a vida se fosse reclamada.

Além disso, nas cruentas vicissitudes do iniciamento conjugal, revelam-se na esposa naturais manifestações que, por decoro, devem ser escondidas aos olhos de todo e qualquer homem, ainda mesmo que seja este o próprio consorte.

É preciso, em hora da moral e do respeito à natureza, que a consumação do amor, venha, não ex-abrupto, mas como o fatal e último elo de uma deliciosa e progressiva cadeia de ternuras; é preciso que ela seja a extrema nota de um crescendo de beijos; é preciso que esse momento supremo chegue naturalmente, chamado por todo o corpo, reclamado por todos os sentidos, e não decretado friamente por uma lei sacramental, numa situação adrede preparada pela família dos noivos. Para que tão transcendente destino fisiológico se cumpra, sem detrimento do pejo feminil e da dignidade virginal, é indispensável que os dois agentes não tenham, no ato, absoluta consciência, nem a menor preocupação de o consumarem; é preciso que seu arroubo amoroso haja chegado à loucura, depois de vibrada toda a escala de carícias, e lhes roube, nesse súbito instante delicioso, a luz do julgamento e da razão; e que os dois, na insânia do seu desejo, sem juízo para refletir, sem olhos para ver, esquecidos de tudo e cada um de si mesmo, se confundam num só desvairamento de volúpia, e só acordem do seu transporte, e só dêem acordo do seu espírito, depois da ampla consumação carnal.

A crise amorosa, levada pelas carícias ao auge do desejo, atinge às proporções do delírio; e esse delírio, essa momentânea inconsciência dos atos praticados, é o véu providencial com que a natureza esconde, castamente, no supremo instante da vitória da carne, a nudez do homem aos olhos da mulher, a nudez da mulher aos olhos homem.

Sem esse véu, que os envolve e os oculta à vergonha um do outro, o primeiro amor de uma donzela fica tão prostituído como esses frios amores que os libertinos compram no regaço das perdidas. Ao contrário de que disse S. Mateus, do versículo 28 do seu livro, e com o que Tolstoi fecha o seu duro libelo niilista contra a propagação da espécie, todo o contato carnal, que não vier precedido de um desejo invencível, é imoral e vicioso. E, pois, todo o enlace de sexo, produzido exclusivamente pela fatalidade dos instintos, sem intervenção absoluta da vontade moral, não é obra da criatura, e sim da natureza, ou de Deus, e como tal deve ser respeitável e sagrado, seja ele na vida dos homens, ou na vida dos brutos, ou na vida das plantas; ou, quem sabe? na vida dos astros!

Haverá coisa mais repugnante e mais estúpida do que esse velho costume de preparar a cama dos noivos? e cobri-la de flores, e cercá-la de obscenos cuidados? E mais: depois de um baile, depois de escandalosas fórmulas e cerimônias, em que entram véus brancos e grinaldas de flores simbólicas e depois da vexatória exposição das duas vítimas a todos os olhares e íntimos juízos dos convidados, conduzir a pobre noiva, toda paramentada, para o quarto que lhe destinam, para o toro do defloramento, no meio de um cerimonial de palavras e gestos, trocados entre madrinhas e padrinhos; e depois -abandoná-la ao noivo, de quem se presume não haja nunca recebido uma carícia sensual; e deixá-los a sós, presos na mesma alcova, forçosamente distraídos do seu desejo, a olharem-se um para o outro, sem ter nenhum o que dizer, que não seja afetado e banal; ela a tremer, intimidada pelo desconhecido e pelo terror do que a espera; ele constrangido e aflito, por sentir-se fora de seus hábitos regulares e longe do seu bem-estar, e tendo de despir-se ali mesmo, defronte de uma virgem, e deitar-se com ela na mesma cama, e, afinal, tomá-la convencionalmente nos braços, enquanto a paciente, com toda a lucidez do seu espírito, entanguida e sarapantada de susto, em vez de pensamentos de amor, em vez do apócrifo «Enfin seuls», só rumina e babuja entredentes esta frase ridícula e medrosa: «É agora!»

Então, haverá coisa mais repulsiva e mais bárbara do que isto?

Ainda hoje me doem amargamente no coração as angústias que sofri na minha primeira noite de casamento, e juro, não obstante, que amava muito meu marido, e que, muito e muito, o desejei antes, nos meus enganosos sonhos de felicidade. Mas, quando me vi a sós com ele, fechada no mesmo quarto, o meu desejo único foi fugir e pedir socorro.

Toda aquela indecorosa encenação de amor; todo aquele cerimonial de que cercaram o meu tálamo; todo aquele desusado e insociável luxo de que sobrecarregaram o aposento, iluminado por uma lâmpada de vidro azul; e o luxo afetado e espetaculoso da cama, e o luxo intencional de rendas e fitas na camisa que me vestiram, e os calculados perfumes que me puseram no corpo; tudo isso, tudo me sobressaltava e me fazia nervosa. Demais, o ar de Virgílio também me constrangia: ele não tinha nessa ocasião as suas maneiras simples, o seu ar franco e simpático de bom rapaz; estava até esquerdo, desajeitado, procurando disfarçar o seu invencível embaraço.

A verdade é que nos sentíamos corridos e vexados, comparecendo assim, um defronte do outro, naquele isolamento de alcova, mais que os dois criminosos do paraíso, no momento do pecado capital. Prenderam-nos ali dentro, para quê? Para uma coisa inconfessável e ridícula, desde que não era naturalmente provocada pelos transportes da nossa mocidade, posta em jogo pelo amor. Não tínhamos palavras um para o outro. Virgílio, todavia, caiu-me aos pés, beijou-me as mãos e agradeceu-me com bonitos termos -aquela felicidade- que lhe era, afinal, concedida, depois de tanto desejada.

Aquela felicidade! mas eu sentia perfeitamente que tudo isso, afirmado por ele nessa ocasião, não era sincero; dizia-o para dizer alguma coisa, para dar qualquer solução àquela cena difícil; e o que eu lhe respondi foi tão falso como o que ele me mentiu. Se eu lhe pudesse falar com franqueza, se não fosse ofendê-lo confessar-lhe a verdade, dir-lhe-ia que, naquele momento, o meu desejo era só, e só, que ele se retirasse da minha presença; dir-lhe-ia que, naquele instante, tudo desejaria, menos fazer a consumação carnal do amor que eu lhe dedicava.

E percebi claramente que Virgílio ia lançar-se nos meus braços, não por impulso do seu amor, aliás forte e verdadeiro, mas porque era essa a sua obrigação de noivo; percebi claramente, e afianço, que, se ele pudesse saltar por cima dessa noite difícil, sem tocar-me no corpo, e acordar no dia seguinte já familiarizado comigo, e já desoprimido do constrangimento que a nós ambos vexava -aceitaria essa graça como um presente do céu. E, no entanto, ia se despindo, afetando um grande empenho em achar-se ao meu lado, na cama...

Pobre de nós! começamos a mentir um para o outro desde o primeiro dia do nosso consórcio.

E eu já não tremia; sentia-me agora revoltada, sentia raiva! contra quem, não sei; mas sentia ódio, sentia cólera. Não que me repugnasse a idéia do primeiro contato com um homem; não que tanto me apavorasse o segredo nupcial; mas porque não caminhara até ali arrebatada pelas garras do meu desejo; arrastada pelos impulsos do meu sexo, e porque tudo aquilo grosseiramente desrespeitava o meu direito de vontade, rebaixava o meu caráter e ofendia o meu pudor.

A minha noite de núpcias foi, pois, uma noite de sacrifícios, nem só para mim, como sem dúvida para meu marido. Não lhe compensara, decerto, tamanho constrangimento o complicado prazer, que porventura lhe proporcionou o nosso primeiro contato, no formal desempenho daquele grosseiro enlace.

Não tive o menor gozo; tudo me fez sofrer, sofrer deveras; não só no moral, como fisicamente, e muito. Sofri e padeci, porque, na preocupação sobressaltada de esperar aquela noite, e no constrangimento e no choque daquele primeiro encontro, assim tão cerimonioso, tão previsto e tão festejado, meu corpo, sem atingir o necessário grau de apetite sexual, privou-se da indispensável e benéfica lubrificação com que a natureza protetoramente habilita e prepara, em tais casos, os nossos delicados órgãos do amor. E essa falta transformou um ato, que devia ser bom e natural, em verdadeira violência. Fez-me doer; fez-me chorar.

Apesar de toda a minha ingenuidade de donzela, compreendi que não era aquilo, com certeza, o que a natureza queria desempenhar; não era aquilo que todo o meu corpo adivinhava depois da puberdade, reclamando-o com delícia, e enchendo-me os sonhos de amorosos enleios voluptuosos, em que o espírito se me aniquilava e só a matéria palpitava de gozo. Não! ali, naquela terrível noite, a minha razão não sucumbiu, nem os meus próprios sentidos tomaram parte na vergonhosa pugna; fiz-me paciente resignada, cônscia de estar cumprindo uma obrigação penosa, aflita por ver-me livre de semelhante sacrifício. Que fosse o verdugo meu marido, fosse Virgílio ou qualquer outro homem, ser-me-ia igual, porque não era o amor que lhe votava o que me retinha pregada àquela cruz, crucificada naquele pomposo leito de dores.




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- XVI -

Só mais tarde comecei a achar prazer nas ligações com meu marido; os primeiros dias foram horríveis. Ainda me lembro do calafrio de medo que tive na segunda noite, quando ele quis recomeçar a campanha da véspera.

Para evitar à minha filha todo esse ridículo infortúnio, entendi e resolvi que ela devia entrar na sua vida de casada sem «pagar patente» com a clássica «lua-de-mel». De sorte que, na mesma manhã do casamento, achando-se já tudo disposto, carreguei com os noivos para a fazenda de um amigo meu, no interior da província, a qual de antemão me fora franqueada. A fazenda estava entregue apenas aos cuidados do feitor e da escravatura, enquanto os senhores passeavam na Europa.

Acomodamo-nos por lá como nos foi possível, sem arranjos especiais de quarto de noivos. Nada disso! Cada um tomou conta de seu aposento e tratou de si.

Durante a viagem de trem, e principalmente depois de chegados à fazenda, meu genro, que não deixava a mulher um só instante, furtava-lhe beijos sempre que eu me afastava deles, ou quando me supunham muito distraída. Não os perseguia nem rondava, mas também não lhes facilitava ocasiões para os arrulhos. A gente da casa não sabia se eles eram irmãos, ou primos, ou casados, ou noivos, ou simplesmente namorados. O quarto de Palmira era distante do quarto do marido, e entre os dois estava o meu. Esta disposição foi intencionalmente estabelecida por mim: se eles com efeito se sentissem arrebatados um para o outro, o próprio desejo havia de aproximá-los de qualquer modo, não era absolutamente necessário que os fechasse eu dentro da mesma prisão, como fizeram comigo e Virgílio, e como se faz com as cadelas e os cães de raça que têm de procriar.

Como eles se uniram pela primeira vez, em que ocasião e em que circunstâncias, só vim a saber meses depois, narrado comovidamente por minha filha, que até hoje guarda a mais doce, a mais poética e consoladora impressão desse momento de completa felicidade.

Nem foi em casa, foi num sombrio, ignorado canto da mata deserta, sítio protetor de outros amores, de cujos suspensos ninhos partiam bíblicos duetos de ternura. Não foi sobre colchas bordadas, nem lençóis de renda adrede preparados, mas no regaço carinhoso da floresta, ao casto e lascivo respirar da natureza, na confidência maternal da terra.

Tínhamos chegado à fazenda às onze horas da manhã, com tal fome, que, mal nos desfizemos do pó da viagem, atiramo-nos ao almoço vorazmente. Almoço de roça, que são os melhores, porque são os que se comem com mais apetite. Depois, não pude resistir ao cansaço daquele dia tão cheio, deitei-me, e quando acordei soube que minha filha tinha ido dar um giro pelo campo com o -namorado. Achei natural, e nada lhes notei na fisionomia quando os vi de volta às cinco horas da tarde. Apenas uma coisa me impressionou suavemente, é que Leandro, ao entrar em casa, tomou-me as mãos com meiguice e deu-me um beijo na testa. Com esse beijo quis ele naturalmente dizer que já era meu filho, mas na ocasião não dei por isso, notei sim que as suas roupas, como os cabelos de Palmira, respiravam cheiro de folhas verdes esmagadas.

Se eu reproduzisse aqui a descrição que dela ouvi desse furtivo passeio ao fundo da mata virgem, deixaria entre estas pobres linhas uma vivida página de romance, mas como não sou romancista, nem estou fazendo literatura, mas tão-somente escrevendo uma justificação de meus atos de mãe e sogra, destinada a dois únicos leitores -minha filha e meu genro, nada direi do que então se passou entre eles, mesmo porque, a respeito de tal cena, é o caso de afirmar com segurança que os meus leitores a conhecem já melhor do que eu.

Foi no mesmo dia, e eu tola, que sou! imaginava ainda que os brejeiros esperassem ao menos pela noite. E o mais curioso é que nunca percebi, mesmo depois, as vezes em que eles se uniram. Durante o dia estávamos quase sempre juntos; às horas de recolher cada um ia para seu quarto, depois de enchermos o serão a fazer música ou canto, ou jogando cartas, até a ocasião do chá; e durante a noite nunca ouvi o ruído de uma porta que se abrisse ou fechasse, nem senti passos na varanda, nem rumor de cochichos abafados nos aposentos dela ou dele. Podem gabar-se, os matreiros, de terem sido umas verdadeiras abelhas do amor.

Nessa ocasião, o meu empenho único a respeito deles era não deixar que faltassem ao preceito imposto pela Bíblia no Levítico, vers. 19, do seu cap. XV, ficando ao lado um do outro durante o período condenado. E assim foi. Logo que percebi a aproximação da crise, mandei fazer as malas e determinei levantarmos acampamento na manhã seguinte, sem dar ouvidos às súplicas e às reclamações dos dois.

Meu genro parecia ter endoidecido com o fato, amuou-se, resmungou, não quis jantar; contentei-me pela minha parte em lembrar-lhe as condições do casamento.

Ele, sem se resignar de todo, recorreu então aos meios humildes; tomou-me nos braços, beijou-me, pediu-me por amor de Deus que lhe concedesse mais uma semana de lua-de-mel, apenas uma semana!

Fui inflexível; se cedesse logo à primeira vez, estaria desmoralizado para sempre o meu programa.

A volta da fazenda foi por conseguinte quase muda e muito triste. Palmira chorava em silêncio ao canto de um banco do vagão; o marido, ao lado dela, de pernas cruzadas, sobrolho franzido e dentes cerrados, não emitia palavra, nem desviava os olhos de um só ponto, a não ser para desferir de vez em quando, contra mim, um fulminante olhar de ressentimento e raiva. Ia furioso!

E, já na cidade, lá em casa nas Laranjeiras, as despedidas foram dolorosas.

Uma cena violenta! --frases de maldição! Houve soluços por parte de minha filha; lágrimas por parte de Leandro. Sim, eu vi as suas lágrimas, ele é que não viu as minhas, porque lhas não mostrei. No entanto o meu pobre coração chorava: doía-me separá-los tão depressa. E quando os contemplei abraçados, a despedirem-se, com os rostos escondidos no pescoço um do outro, o corpo de minha Palmira sacudido pelos soluços, sem ânimo nenhum dos dois de largar dos braços o consorte, apertou-se-me tanto a alma, que, por pouco, não fraquejo e abro a mão da disciplina, deixando-os ficar juntos o tempo que entendessem.

Felizmente, porém, não sucumbi à momentânea fraqueza e tive alento para dizer ao rapaz em tom sereno e já com a voz segura:

-Bom! O caso não é assim também para tão grandes despedidas! A separação não é tamanha! Agora vai o senhor, meu estimável filho, para a sua casa, e nós cá ficamos em nosso canto. Pode visitar-nos uma vez por dia, até nova ordem. Não durará muito a interdição -descanse! Olhe: venha jantar amanhã conosco... O Dr. César deve estar aí, e temos de conversar os três sobre interesses comerciais. Não venha antes das três horas da tarde. Adeus, adeus.

E Leandro destacou-se com efeito para sua casa, acompanhado pelos olhos da esposa, que não saiu da janela enquanto ele não dobrou a esquina da rua, depois de repetidos sinais de adeus de parte a parte.

Como passara meu genro essas primeiras horas de isolamento depois de quase um mês de convivência com a sua amada, só o soube muito mais tarde, repetido por minha filha, a quem ele no dia seguinte descreveu os seus tormentos. Ela também estava então inconsolável; chegou a fazer-me biquinho. Eu, porém, tinha de sobra no meu amor materno segredos para o desarmar contra mim. Consolei-a o melhor que pude.

Mas que alegrão no outro dia, quando os dois se encontraram de novo! Dir-se-ia que a ausência não fora de vinte e tantas horas, mas de vinte e tantos meses! Leandro acudiu pontualmente à hora marcada por mim. Palmira, ao perceber da janela que ele chegava, lançara-se com tal ímpeto pelo corredor, que não sei como não rolou a escada. Recebeu-o nos braços, chorando de alegria.

Ele trouxe-nos flores; beijou-me a face, como sinal de que já não estava agastado comigo, e abraçou expansivamente o Dr. César, que também fora ao seu encontro com um calmo sorriso e uma amorável frase paterna.

E o nosso jantar foi o mais alegre que tivemos até aí. Abriu-se uma garrafa de champanha.

Foi bastante a separação de um dia para que voltasse ao casal todos os arrulhos de antes do matrimônio. Meu genro tocava com os pés, por debaixo da mesa, os pés de Palmira, e segurava-lhe furtivamente a mão, e dizia-lhe em voz baixa sedutoras palavras de amor, requestando-a de novo para um novo casamento.

Eram felizes. E eu me sentia também feliz, ao reflexo da ventura dos dois; e sorria para César, que esse bem compreendia o alcance da minha felicidade e orgulhava-se de ter contribuído para ela.

À meia-noite dissolveu-se a roda. Leandro retirou-se com o médico, ficando ajustado que voltariam ambos no dia seguinte às mesmas horas. O meu velho e querido amigo disse-me, ao sair, por ocasião de dar-me a mão:

-Vai muito bem! Vai muito bem!... Continue, Olímpia!

-Creio que consigo fazer o milagre... segredei-lhe, abraçando-o.

-Consegue, consegue tudo! Você é uma santa, minha amiga! Adeus.




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- XVII -

Foi uma bela inspiração ter feito Leandro entrar para o comércio. Entrou com o pé direito. A casa a que ele se reuniu começou, com o novo capital, a prosperar de um modo admirável. Tornou-se rapidamente conhecido na praça e conquistou logo bonito crédito. A sua atividade e a sua inteligência, aliás comuns, encontraram bom campo para exercitar-se, sem o menor prejuízo do seu sistema nervoso.

Agora, já não lamentava eu que ele não fosse oficial de marinha. Reformara todo o meu julgamento a esse respeito, por deduções que exporei mais adiante.

Ao contrário do que sucederia se Leandro fosse meu filho e não meu genro, alegrava-me com ser ele simples negociante e não notável artista, o afamado escritor, ou vulto ilustre na ciência. No exclusivismo do meu amor de mãe, teria até um grande desgosto se o marido de minha filha se revelasse, de um dia para outro, homem de talento singular e começasse a ser aclamado pelo público. Deus me livre! -seria uma desgraça!

Nem falar nisso é bom! o homem de talento não pertence à família, pertence à multidão, pertence à sua pátria, pertence ao mundo, pertence ao século; que sei eu? pertence ao diabo, pertence a tudo, a tudo, menos à pobre mulher com quem caiu na perniciosa asneira de casar. Além do que, o constante esforço encefálico, para conceber e produzir grandes obras de arte, traz fatalmente consigo o precoce esgotamento nervoso; o que, suponho, não preciso dizer que é de suma importância na felicidade conjugal.

Se eu fosse homem, sacrificaria de bom grado boa parte de minha força nervosa pela glória de ser um grande escritor, ou grande artista, ou um grande sábio; se eu tivesse filho daria prontamente, nem só minha saúde, mas a vida, se em troca de tal sacrifício alcançasse ele aquela glória; mas o que eu tinha não era um filho, era uma filha; logo precisava de um «bom genro», de um bom marido para ela; e queria pois que esse meu genro fosse talhado pelas conveniências particulares de sua mulher e não pelas conveniências gerais de qualquer homem.

Parece absurdo, mas não é. Absurdo é o protesto que alguns artistas fazem contra as competentes sogras, porque estas, na vigilância de seu amor materno, se revoltam em guerra aberta contra o absorvente egoísmo do talento deles e contra a absorvedoura preocupação das suas glórias individuais, cônscias de que nisso reside o terrível inimigo da felicidade doméstica da filha.

Não é raro ouvirem-se deles exclamações desta ordem:

«Vejam o que é ser sogra! A minha já me declarou, face a face, que preferia fosse eu um homem vulgar, mas -bom marido- a ser quem sou, causando à filha, apesar do meu nome e do meu talento, as contrariedades de que ela se queixa! Já particularizou até com toda a franqueza que preferia para genro um taverneiro estúpido, porém exemplar como esposo, a mim ou ao mais ilustre artista do universo!»

Decerto! Elas têm toda a razão. Não compreendem esses senhores sonhadores de glória que a sogra, assim praticando, está perfeitamente dentro do seu programa de mãe amorosa, ao passo que eles, contraindo casamento, traíram o programa do seu ideal artístico, aceitando um novo ideal incompatível com o primeiro. É impossível viver de corpo e alma para a arte e para a glória e viver ao mesmo tempo para a família! Desses dois ideais um triunfará em sacrifício do outro. Há uma coisa pior do que ficar eternamente solteiro -é casar, sem sentir aptidão para ser um bom chefe de família.

«Quem não pode com o tempo não inventa modas» diz a sabedoria do povo.

A boa sogra, ou, por outra, a boa mãe, quer que seu genro seja um bom marido de sua filha e nada mais. Não é o talento, nem são as glórias dele que a interessam, mas é só a felicidade dela. Para isso a boa mãe ou a boa sogra procura agradar o genro, fazer-lhe as vontades, não contrariá-lo, adulá-lo até, levar-lhe a papinha à cama; mas não por ele próprio, e sim porque tudo isso se traduz em benefício da filha.

Leandro, pois, ao meu ver, nada por si só representava; valia muito, porém, desde que eu o julgasse como auxiliar indispensável à felicidade de Palmira. Por conseguinte, sob o ponto de vista do meu egoístico e extremoso amor materno, meu genro, quanto menos individualidade intelectual tivesse, tanto melhor para mim, porque tanto mais seria ele absorvido pela esposa.

A um genro basta a inteligência apenas necessária para não ser ridículo e para não fazer maldades conjugais por estupidez. Na família, em que ele entra, e à qual fica adido, nunca poderá atingir no amor dos pais o primeiro plano, que este pertence aos filhos. É um auxiliar do amor, como certos artistas de ordem subalterna são os auxiliares dos artistas criadores, ou de primeira ordem. Um genro é para nossa filha o que o gravador é para o pintor original, de cujo quadro ele tira o seu desenho; o que o cantor é para o compositor musical; é o que o ator é para o autor; o que o executor de estátuas é para o estatuário que as concebeu; o que o mestre de obras é para o arquiteto, e o que o tradutor ou o compositor tipográfico é para o escritor. Do mesmo modo que o artista criador não pode dispensar o artista auxiliar, porque precisa dele para o desempenho da sua produção, assim, nós sogras, não podemos dispensar o genro. Não o desprezamos, ao contrário -tratamo-lo com todo o carinho; mas o seu papel em nosso amor e em nosso interesse, nunca será o primeiro e sim o segundo, porque o primeiro pertence à sua mulher, que é nossa filha.

O que uma boa sogra tem a pedir ao genro não é estima, nem carinho para ela; não é tampouco que tenha talento ou seja um grande homem, é pura e simplesmente que lhe faça a filha feliz. Se o genro fizer isto, a sogra nada mais tem a exigir dele, e há de ser boa por força de regra.

A sogra só e má quando a filha é infeliz com o marido, ou quando, o que é normal, não sinta amor de mãe.

Não! para esposo de minha filha não quereria nunca um gênio, nem algum herói glorioso, fosse ele lá de que espécie fosse; para meu genro queria simplesmente um homem -um bom marido.

Pois bem: o negociante, segundo o meu novo modo de julgar, é quem melhor preenche esse ideal.

Vejamos por quê:

O negociante, na comunhão do trabalho e da luta pela vida, representa apenas o cômodo papel de uma máquina de especulação movendo-se tão-somente pela avidez do lucro pecuniário. Para abraçar e exercer a sua carreira, ele não precisou pôr em contribuição as suas forças nervosas, estudando um curso difícil e fatigante; precisou nada mais do que exercitar-se materialmente na prática do comércio. O indivíduo, sem técnica ou habilitação para produzir qualquer trabalho, o indivíduo intelectualmente nulo, pode abraçar, de um dia para outro, a carreira comercial, e pode ser feliz. Não são raros os exemplos de negociantes ricos, considerados e poderosos, absolutamente analfabetos e rasos de inteligência.

A ignorância e a vulgaridade intelectual são até requisitos indispensáveis ao bom êxito dessa carreira, tanto quanto a ilustração e o talento são qualidades negativas, porque os escrúpulos, as suscetilidades, a fidalga e generosa linha moral de um espírito superior e cultivado, representam sérios impedimentos para o pronto alcance de sucesso na vida comercial.

E, se descermos à análise do mercador de baixa escala, esse que por aí se chama «negociante a retalho», então poderemos dizer que o homem de negócio é o que menos se gasta nervosamente no atrito do esforço comum, o único que nada produz absolutamente, o único por conseguinte que não trabalha, e no entanto o que mais ganha e acumula dinheiro. Esses formam uma classe especial, e especial é o prisma por que tudo vêem. Até a sua suposta honradez é singular: Não pagar, por exemplo, uma conta ao dia e à hora certa, é para um negociante o ato mais desonesto que se pode cometer, mas furtar no custo de qualquer objeto vendido, ou enganar o comprador, impingindo gato por lebre, isso é simplesmente fazer bom negócio.

E tanto assim é que, esse mesmo traficante, que leva a iludir ao próximo todos os dias, a toda hora, a todo o instante, quando encontra um mais velhaco, caso raro, que por sua vez consiga enganá-lo, comprando-lhe qualquer objeto a crédito e não pagando no prazo ajustado, revolta-se furioso e quer brigar, em vez de, por coerência e por honra aos seus princípios, atirar-se-lhe nos braços, exclamando: «Ora até que afinal, entre tantos tolos, encontro um esperto dos meus! Sejamos amigos!»

A honra do negociante é diferente da honra dos outros homens. O militar, por exemplo, que não solver uma letra no dia do vencimento, não fica por isso desonrado, como não fica desonrado o negociante que levar um par de bofetadas; mas, se invertermos os casos, tão desonrado fica um como o outro. Isto quer dizer que a chamada honra do negociante não reside, como a de toda a gente honesta, na consciência do respeito a si mesmo e na imputabilidade pessoal, mas no crédito abstrato da sua firma ou da sua casa de comércio; por isso que ele, mesmo sem levar bofetadas, mas cometendo toda a sorte de baixezas, enganando, mentindo, adulando o freguês para lesá-lo, continuará a ser um «homem honrado», desde que pague em dia as suas contas.

O mais interessante, porém, é que a sociedade brasileira, nem só lhe dá acesso, como ainda o coloca no primeiro plano da sua primeira camada, emprestando-lhe, como para justificar-se desse erro, aos olhos dos que não são traficantes comerciais, o título das duas qualidades que ele menos possui: -trabalhador e honrado.

Honrado trabalhador! Mas trabalho quer dizer técnica e quer dizer produção; e o negociante não produz e só tem uma ciência -a de enganar o incauto consumidor, para apanhar-lhe, como as cocotes, o dinheiro que puder. E eu, cá por mim, nesta questão de exploração e gatunagem, prefiro, com franqueza, e acho menos nocivo e mais sincero, o gatuno que rouba o relógio ao transeunte ou arrebata um queijo da porta do sucio, porque esse é castigado pelo seu próprio aviltamento e arrisca a liberdade quando furta; ao passo que o outro a nada se expõe e, em vez de castigo correcional, recebe em prêmio da sua próspera ganância todas as honras e todas as considerações da nossa melhor sociedade.

Ninguém será capaz de apresentar-me o exemplo de um taverneiro que não furte ou não tenha furtado; no entanto os proprietários prediais, desta aristocrática cidade, preferem, para a indispensável garantia dos aluguéis das suas casas, a qualquer outra firma, a firma de um vendeiro.

Isto tudo para explicar que eu, quando falo da conveniência de ser o marido negociante, não quero dizer que desejaria para esposo de minha filha um taverneiro ou coisa que o valha; mas um desses homens de ação e de atividade, que conseguem fazer da inteligente especulação do capital ou do crédito um bom e rendoso meio de vida e de riqueza. Em abono da classe em geral, afirmarei que esses são incapazes de pequenos furtos e jamais sujam as mãos no cobre alheio, porque só tocam em ouro, e ouro não suja, como eles dizem, ainda mesmo que não seja o nosso. São homens limpos, afáveis, em geral de boas maneiras, vivos, penetrantes muita vez inteligentes. A um conheci eu, muito polido e galante, que conseguia casar com o seu hebraico e frio entusiasmo pelo rei dos metais certo calor de imaginação poética. Esse dizia, sorrindo de volúpia, que «o juro é o perfume do capital» e outras tantas coisas assim bonitas e inspiradas. Era um encanto ouvi-lo nos seus sonoros devaneios.

Na sua qualidade de mero especulador parasitário da produção científica, industrial, artística, literária ou agrícola, não passando nunca de ávido intermediário entre o produtor e o consumidor, o negociante não se esgota nervosamente, sem todavia deixar-se ficar em completa ociosidade, tão enervante e perniciosa como o excesso de trabalho intelectual; e por isso deve ser um excelente procriador. A mulher tem sempre a lucrar fisiologicamente todas as vezes que o marido, em vez de trabalhos intelectuais, execute serviços materiais. O espírito perde, mas o animal aproveita. E a felicidade doméstica, a despeito de tirar da imaginação o segredo de manter o entusiasmo do amor, baseia-se menos no espírito que na matéria.

Não se supunha que, por ser material a vida do comércio, sejam materialistas os negociantes e sejam incapazes das ilusões do amor. Não! o fato justamente do positivismo forçado da sua profissão, leva-os, por uma simples lei de contrastes, a buscar nas coisas idealizáveis o necessário repouso do pensamento. Os artistas, os filósofos e os poetas, esses sim, é que, fazendo do ideal matéria de trabalho e cabedal de ofício, precisam ser materialistas nas horas de descanso.

O poeta, quanto mais sublime e elevado for na sua obra, tanto mais prosaico e terrestre será na vida privada; ao passo que o burguês do comércio depois de deixar o estúpido serviço, começa a viver para a fantasia e para o coração.

O poeta sonha quando trabalha e animaliza-se para descansar. O comerciante trabalha como animal e repousa com o sonho. Aquele precisa deixar folgar o cérebro com a vida do corpo, e o outro dá folga ao corpo com a vida do pensamento.

É por isso que todo homem de vida material detesta, em questões de arte, o naturalismo e a verdade, encontre-os na estatuária, na pintura, no romance ou no teatro, e adora o maravilhoso e o fantástico. São como as crianças.

O mercador do Brasil, quando não sonhe outras quimeras, com uma nunca deixar de sonhar -é a da comenda. E, mal a suponha realizada, começa a sonhar com o título de barão, e depois com o de visconde ou conde.

Ora, se o poeta, ou qualquer homem de talento só tem ilusões dentro do seu ideal artístico ou científico, ao contrário do que sucede ao homem de vida prática, e, se para a felicidade doméstica da mulher, é indispensável a ilusão do amor por parte do marido, segue-se para que este fim é preferível entre aqueles o segundo e não o primeiro. E, como nos diversos ramos da atividade material, o comércio leva grandes vantagens sobre todas as outras ocupações desse gênero, conclui-se que o negociante é quem melhor preenche o ideal do esposo.

-Então, a mulher só pode ser feliz casando-se com um negociante? perguntar-me-ão talvez.

-Não digo isso; mas, com efeito, nessa ordem de casamentos, é onde relativamente aparece menor número de desgraças conjugais.

Há porém um ponto desta questão que jamais foi atendido e que merece todavia ser estudado de perto, porque destrói em parte as vantagens do negociante como esposo. Vem a ser o seguinte:

O tipo do negociante em geral não é o de um homem fascinador. Além da falta de talento que o atirou para a vida material, faltam-lhe o hábito e as boas maneiras da gente fina; falta-lhe elegância, bom gosto; falta-lhe educação. Ora, sucede quase sempre que a gentil rapariga, ao passar das mãos dos seus parentes para os braços dele, entende fazer com isso um sacrifício à família, porque, de si para si, já tinha naturalmente criado na fantasia um ideal de noivo muito diferente do que lhe deram; quando já não o tenha escolhido real e palpável, mas em silêncio, entre os estudantes acadêmicos ou entre os poetas e artistas pobres.

O noivo adotado pela família é claro que será o prevalecente, e mais se o pai da moça for comendador.

Pois vejamos agora quais são as tristes conseqüências desse casamento, feito assim, só com a vontade do comendador pai e só com a vontade do futuro comendador genro. Admitamos, antes de mais nada, que a desposada é virtuosa e compreende perfeitamente os deveres do seu novo estado, o que a torna incapaz de trair o marido. É esta a melhor hipótese. Ainda assim, o que sucede?

Sucede que ela, desiludida por aquele casamento, que em nada veio realizar os seus sonhos de felicidade, resigna-se, mas sem fazer o menor empenho para tornar melhor e mais feliz do que a dela a vida do esposo. Não o desonra, mas também não lhe dá um só momento de verdadeira alegria e de verdadeiro amor. Ele, pelo seu lado, que esperava achar no matrimônio a realização de uma contínua felicidade, honesta e calma, fica por sua vez desiludido e desesperançado, e começa a ser desde então nada mais que um burro de carga daquela casa, que nunca foi o seu lar ou o seu ninho, pois que não se compreende ninho ou lar sem amor.

Vem o filho, e a desventura doméstica dos pais transforma-se então em novos elementos de desgraça para a geração inteira: A mãe, que até aí conservou intacto o cabedal de meiguice feminil com que veio ao mundo, põe-se a adorar o bebê e despeja-lhe de uma só vez, na terna moleira, todo esse inestimável tesouro de ternura, que ela trazia no coração para gastar durante toda a sua vida de mulher; o marido, por outro lado, não tendo tido também até aí com quem aproveitar o seu farnel de dedicação e de amor, porque encontrou a esposa sempre de peito fechado para recebê-lo, recorre ao filho, e começa a fazer dele o exclusivo objeto de todos os seus carinhos e exagerados desvelos. Se o pimpolho não desmedra e morre logo no berço, sufocado de beijos e abraços, qual será a conseqüência desse excesso de mimos? Será que a criança fica irremessivelmente estragada e perdida para todos os efeitos, fica malcriada, voluntariosa, insuportável de gênio; fica reduzida a um mimalho adulado pelo papá e pela mamã. E como o desvelo por ele foi até ao ponto de o não deixarem correr e brincar em liberdade, e como sempre o trouxeram afogado em ondas de rendas e de fitas, e de fraldas e cueiros; e como lhe não deixaram descansar o estômago das balas de açúcar e confeitos e bonecas meladas, fica ainda o desgraçadinho tão minguado de corpo como de espírito.

E que homem pode vir desse mimanso? O pai, comendador, destina-o para doutor, está claro! mas, à proporção que o filho for crescendo, os mimos vão aumentando, e o infeliz ir-se-á tornando pior, cada vez mais insuportável para os estranhos, e cada vez mais adulado pelo papá e pela mamã. Como até então ninguém o constrangeu ao menor esforço ou dever de trabalho, ninguém obterá também dele que consiga aprender alguma coisa; ficará condenado a ser um belo tolo; adquirirá vícios antes de ser homem; o seu curso acadêmico, se chegar à academia, o que é natural porque é fácil, será um curso de bebedeiras, de pândegas e de aprovações obtidas à custa do aviltamento de seu caráter, ou do caráter dos pais. E o mimalho acabará fatalmente por apresentar ao mundo mais uma espécie desses milhões de bacharéis inúteis, pretensiosos e tristes, incapazes da obra mais insignificante, mantendo-se à custa da família ou da herança até à velhice, e só vivendo para desorganizar o meio em que vegetam.

Eis por que o negociante nem sempre convém para marido de nossas filhas.

E eis por que, para sintetizar a escala geral da família brasileira feita pelos portugueses, formei este axioma:

Pais -comendadores; filhos -bacharéis; netos -mendigos.

Se outras razões não ocorressem para promover eu a todo o transe a conservação do amor sexual entre minha filha e meu genro, só o fato de que o contrário seria nocivo a meus netos, mereceria de mim todos os sacrifícios que àquela causa tenho até hoje dedicado.




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- XVIII -

Com orgulho e com prazer declaro que a vida conjugal de minha filha ia por diante, desenrolando-se feliz. Meu genro continuava a morar sozinho em Botafogo e nós duas no bairro de Laranjeiras. Ao fim de vinte meses de casados, Leandro era para a sua adorada Palmira o mesmo amante dos primeiros dias.

Mas é que nunca se aproximou dela nos períodos em que a Bíblia manda que homem se afaste da mulher -por imunda; nem jamais demorada promiscuidade deu-lhes margem e vagar a que se estudassem em silêncio, no enojo de bocejados lazeres, ao lado um do outro na mesma cama, quando o corpo cansado de amar, deixa que só o pensamento trabalhe por sua conta própria, enquanto ele repousa. Nunca enfim tiveram ocasião de enfastiar-se juntos, consorcialmente, porque o tempo de que dispunham nas suas desejadas entrevistas era pouco para os interesses de seu amor e para o muito que cada um, de parte a parte, tinha para dizer ao companheiro, com respeito à felicidade de ambos.

Eram felizes. Contudo, mais de uma vez, tentou Leandro imbecilmente revoltar-se contra mim, queixando-se com amargura da suposta falsa posição que eu lhe impusera ao lado da esposa. Chamei-o à razão e ao bom desempenho da sua palavra de honra, sem lhe dar todavia segura explicação do meu modo de proceder, porque me não convinha ainda que ele alcançasse por inteiro o secreto espírito das minhas intenções. Palmira também, a princípio, não parecia muito disposta a conformar-se com o meu regime estabelecido, mas tal carinho pus no que lhe disse, e tal eloqüência emprestou a meu amor de mãe as minhas palavras, que se ela em verdade não se deu por convencida, pelo menos entregou-me os pulsos resignada.

Não me desgostava ouvir-lhe as queixas; sinal era de que amava fisicamente o marido, virtude esta que se vai fazendo rara em nossos dias.

-Olha, minha filha, disse-lhe uma vez, enquanto costurávamos à mesma mesa -o que não poderás negar são as vantagens, que tens sobre as outras esposas, com este sistema de vida conjugal que te arranjei... O casamento, longe de roubar-te aos prazeres que dantes desfrutavas na sociedade, veio trazer-te novos, sem falar no inestimável gozo de satisfação do amor instintivo que ainda não conhecias. Continuas a ter hoje, em minha companhia, os teus bailes, os teus passeios e os teus teatros, como no tempo de solteira; teu marido, sempre enamorado te ti, nunca falta aos pontos onde saiba que estejas. Entre os homens que te galanteiam é sempre ele o mais solícito em merecer-te as graças, em requestar-te, em perseguir-te como verdadeiro apaixonado.

Ora, quero que me digas quantas senhoras casadas encontras tu por aí nestas condições a respeito dos competentes maridos?...

-Nenhuma...

-Pudessem eles e nunca em público compareceriam ao lugar onde elas se acham, ainda mesmo quando as amem.

E isso por quê? porque sabe cada qual de antemão que, ao recolher-se à casa, há de invariavelmente encontrar a mulher à sua espera, e que terá a sua companhia por toda a noite, e por todo o dia seguinte, e pelos outros depois, e por todos os que seguirem, e enfim, por toda a vida! «Estamos unidos para sempre!» suspira o desgraçado.

E vê, minha filha, repara quanto esta frase é terrivelmente assustadora! repara como é ela em tudo oposta a essa outra frase, que teu marido repete todas as vezes que tão amargamente se queixa de mim: «Nunca estou com minha mulher todo o tempo que desejo!» sem se lembrar, o ingrato! que nisso consiste justamente o segredo da felicidade de vocês dois! Vamos, confessa qual das duas esposas é a mais feliz -aquela, cujo marido se preocupa com a irremediável eternidade da sua união; ou tu, minha tolinha, cujo marido lamenta a cada instante que as horas passadas contigo nunca são tantas e tão longas quanto ele desejava?...

-Mas, observou Palmira -eu amo tanto meu marido!... Não me cansaria em estar ao lado dele...

-É o que te parece agora, como a todo o sujeito, atormentado pelo apetite, parece que se não cansaria de comer! Estivessem vocês sempre e sempre juntos, e haverias de dar razão às minhas palavras...

-Ora, mamãe, não há de ser tanto assim... murmurou ela.

-E, se não podes responder por ti, quanto mais por ele!...

-Oh! Ele me ama deveras! Disso tenho eu certeza!

-E eu também. E justamente para que essa bela chama não se extinga, dou-me ao cuidado de reformar-lhe o combustível!

Palmira soltou uma risada e não insistiu no assunto. Mas, à noite desse mesmo dia, a questão voltou com mais força. Meu genro, quando veio para jantar, trazendo, como de costume, flores para a mulher e uma pequena lembrança literária para mim (creio que dessa vez foi um livro de Olavo Bilac), percebeu logo, pela conversa travada entre nós duas, que ele essa noite iria para Botafogo, pois havia já três seguidas que ficava com Palmira.

Não protestou logo, apenas franziu o nariz. À sobremesa, porém, começou a lamentar-se sozinho em casa -e que, com fraqueza, antes não tivesse casado -e que era preferível não amar a esposa com ele a amava -e não sei que muitas outras frases deste gênero.

Fingi não perceber a sua rabugice e, para mudar de conversa, falei-lhe de interesses comerciais, atirando-lhe perguntas sobre perguntas sobre perguntas, a que tinha ele de responder a todas. Mas Leandro, que se conservava ao lado da mulher, não descia da sua preocupação e, por meias palavras em segredo e gestos dissimulados, instigava Palmira a protestar contra meu arbítrio. Palmira, a furto, olhava-me suplicante.

Findo o jantar fomos jogar o pôquer, e ele durante o jogo parecia cada vez mais contrariado. Ao chá mostrou-se ainda carinhoso com minha filha, não obstante ir visivelmente se agravando o seu mau humor à medida que se aproximava a hora da separação. E depois do chá deixou-se ficar conversando, sem se resolver a tomar o chapéu e a bengala.

Levantei-me e chamei o criado para dizer-lhe que se preparasse para apagar as luzes e fechar a casa, porque o senhor Leandro ia sair. Palmira então veio ter comigo, com o ar embaraçado, as mãos um tanto frias; deu-me um beijo, e pediu-me, hesitante, comovida, e em segredo, que eu consentisse, ao marido passar com ela ainda aquela noite.

Durante isto, meu genro, sem abalar donde estava, sacudia com impaciência a perna que tinha dobrada sobre a outra. E olhava-me à esconsa.

-Não! não! respondi à minha filha.

-Mamãe!...

-Ele já cá ficou três noites seguidas... É preciso que se vá embora.

Palmira ia insistir a fazer-me novas carícias, mas o marido interrompeu-a secamente, erguendo-se.

-Não insistas! disse. Para quê?... Deixa lá tua mãe! Ela não quer! Acabou-se!

Não dei palavra. E ele acrescentou, sem se poder conter: -Ora! afinal isto é humilhante e ridículo para mim! Não sei agora que me parece ser preciso andar eu solicitando, como um grande favor, uma coisa que no fim de contas é do meu direito!

Era a primeira vez que meu genro me falava com semelhante aspereza. Até aí sempre me guardara respeito, fugindo até a discutir comigo. Produziram-me pois má impressão o tom e a forma do seu protesto; mas, no íntimo dos meus interesses maternais, ria de gozo por ver aquele desespero com que o pobre rapaz disputava mais uma noite ao lado da esposa, e a comoção e ardor com que esta o acompanhava nesse empenho.

Definitivamente o suspirado milagre do amor matrimonial tinha-o eu realizado em benefício de minha filha!

Mas Leandro prosseguiu entredentes:

-Afinal, por menos que se pareçam as sogras, hão de ser sempre sogras!

-Que quer meu genro dizer com isso?... perguntei, agora ressentida, a despeito de tudo.

Aquela terrível palavra «Sogra», tão mal reputada e tão corrompida pelo mau gosto dos zombeteiros da imprensa, lançada assim à queima-roupa, produziu-me o efeito do mais feio insulto.

Ele respostou:

-Ora, que quero dizer!... Quero dizer que a senhora minha sogra abusa do pacto feito entre nós quando me casei! E abusa da sua posição de minha benfeitora, contrariando-me e torturando-me só pelo gostinho de ser sogra!

Palmira interveio a favor dele, mas em tom modesto.

-Leandro tem razão, mamãe! Que mal faz que ele fique hoje comigo? Ele é meu marido!...

-E a senhora que gosta tanto de citar a Bíblia, reforçou meu genro, devia saber que ela manda à mulher deixar pai e mãe para seguir o marido.

-É, mamãe! A Bíblia manda!... confirmou minha filha com uma carinha brejeira. Lembre-se de que Deus disse a Eva para obedecer a Adão e acompanhá-lo por todo lugar onde ele fosse!

-Mas, observei-lhe, Eva não tinha mãe, a seu lado, que, se a tivesse, não daria ouvidos à serpente...

-Oh! exclamou Leandro agastado. Dir-se-ia que a senhora me chamou «Serpente!» Serpente! Tem graça!... Eu é que sou a serpente!... Pois, minha senhora, se aqui temos pomo de discórdia, não sou eu com certeza que o promovo. E, quanto ao fato de Eva não ter mãe, digo-lhe então, francamente que Adão, esse é que era deveras um felizardo, porque não tinha sogra! Ouviu, minha senhora? -Não tinha sogra.

E depois de passear agitado pela sala, respingou ainda, enquanto eu, assentada junto à mesa, percorria as páginas de uma ilustração:

-Serpente! Ora esta! -Serpente!

-Eu lhe não chamei de serpente, homem de Deus! disse afinal, fitando-o através das minhas lunetas. O senhor não tem razão! Creio que até agora ainda não exorbitei dos meus direitos ajustados antes do casamento! O senhor é que se está excedendo, meu genro!

E tornei ao jornal.

Ele serenou um pouco e prosseguiu depois, sem deixar de espacear pela sala:

-Mas enfim, queria que me dissessem que mal viria ao mundo, se eu ficasse hoje ao lado da Palmira!...

E parou defronte de mim, para me falar em voz mais baixa: -Quer que lhe diga então uma coisa, Sra. D. Olímpia? A senhora, com essas suas exigências, faz-me ter idéias que me repugnam! Eu amo muito minha mulher; sou homem, sinto-me comovido ao lado dela; desejo-a; (E creio que com isso não cometo um crime!) mas, depois de jantarmos juntos e juntos passarmos algumas horas tenho de retirar-me e meter-me sozinho em casa? Ora diga-me: parece-lhe que seria muito censurável, se eu, ao sair daqui, fosse procurar onde não tenho direito às consolações de que a senhora me priva ao lado da única mulher que legitimamente mas pode dar?...

-Leandro! Leandro, não digas isso! exclamou minha filha, correndo a lançar-se nos braços do marido. Ouça, mamãe! ouça o que ele está dizendo!...

-Não te podes queixar de mim, filhinha! respondeu meu genro, triunfante com o seu estratagema. Queixa-te de tua própria mãe!

-Não! protestou ela, passando-lhe os braços em volta do pescoço e beijando-o. Não quero que digas isso, mesmo sabendo que serias incapaz de semelhante deslealdade!

E correndo de novo para mim, já com as lágrimas a quebrarem-lhe a voz: -Vamos, mamãe, diga-lhe por amor de Deus que fique! Bem vê que estas coisas me põem nervosa! -E batendo com o pé: -Eu não consinto que Leandro vá hoje daqui sozinho! Se mamãe não o deixa ficar, sou eu que me vou com ele! Sozinho já o não deixo hoje!

-Pois fiquem juntos! fiquem! respondi finalmente, erguendo-me, disposta a retirar-me para o quarto. Vocês no fim de contas não passam de duas crianças, e fazem-me a mim também criança!

Palmira pôs-se a saltar, batendo palmas; e, assim aos saltos, veio até a mim, apanhou-me o rosto com ambas as mãos e cobriu-me de beijos estalados.

Leandro, cuja fisionomia fora a pouco e pouco se abrindo e alegrando, chegou-se também para despedir-se de mim.

Notei, no seu olhar, que ele me agradecia sinceramente aquela concessão.

-Vá! Vá! disse-lhe eu, batendo-lhe uma amigável palmada no ombro. Mas fica para outra vez prevenido desde já de que, quanto mais longe forem as suas ameaças, tanto pior para o senhor... Deus lhes dê muita boa noite!

Apertei-lhe a mão, beijei inda uma vez Palmira e retirei-me para o meu quarto.

Bem ouvi ainda resmungar meu genro com a mulher. Queixava-se de mim, naturalmente. Compreendi que nesse momento estava sendo amaldiçoada por ele, mas sentia-me radiante, porque tinha ampla convicção de que minha filha, apesar de casada havia já quase dois anos, ia ser feliz, muito feliz, nos braços do esposo.

Recolhida, depois da minha habitual oração, em que pedia a Deus continuasse a dar-nos, a ela a felicidade e a mim forças para poder zelar por esta, deitei-me e adormeci, com a alma nadando em júbilo.

Tinha eu conseguido boa parte do meu ideal. À custa daqueles dúbios enfados e arrufos passageiros, a grande ilusão do amor instinto, a deliciosa quimera da felicidade sexual, mantinha-se equilibrada, sem cair por terra como desalada mentira, nem perder-se no vago como desvairado sonho.

Mas, dentro em pouco, uma grande ocorrência vinha alterar nossa vida, tão custosamente bem feita, e revolucionar-nos a casa, abrindo entre minha filha e meu genro uma cena cruel, cena de lágrimas e soluços, agora verdadeiros, de verdadeira dor.




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- XIX -

Manifestaram-se em Palmira os sintomas de gravidez. Isto, que em outra família seria motivos de regozijo, lá conosco foi razão de sérias lutas por mim travadas contra meu genro e minha filha.

Declarei logo que ela, desde esse dia, deixava de coabitar com o marido, e que este seguiria no primeiro paquete a sair para a Europa, ou partiríamos nós duas. Se ele fosse, todas as despesas da sua viagem correriam por minha conta, mas Leandro só tornaria a ver a mulher, quando esta pudesse apresentar-lhe nos braços o filhinho, já dignamente livre dos cueiros e das cuecas, todo enfeitado, coberto de rendas e fitas e cheirando como um botão de rosa.

Uma bomba de dinamite não causaria maior explosão do que este meu decreto. Foi fulminante: minha filha quase perde os sentidos ao recebê-lo: meu genro, que acabava de almoçar conosco, enterrou o chapéu na cabeça desgalgou de casa como um raio, exclamando que fugia -para não fazer ali mesmo uma loucura.

Eu, porém, estava resolvida a não ceder um passo. E não cedi.

Em vão minha filha recorreu a todos os modos da súplica; em vão chorou e jurou que morreria se tivesse o filho longe de Leandro; em vão ameaçou-me de que seria capaz de um infanticídio para não sofrer aquela minha exigência -assim tão dura, tão desumana e tão ridícula.

-Nunca pensei, mamãe, disse-me ela, que a senhora levasse tão longe a sua mania de separar-me de meu marido! Nem parece que vosmecê é mãe e já esteve grávida, porque então devia saber que uma mulher, quando está neste estado e tem de dar à luz, o primeiro filho principalmente, quem mais deseja perto de si é o esposo!...

-É justamente porque já estive grávida; é porque te dei à luz; é porque sou mãe; e é porque também fiz grande questão em que teu pai acompanhasse todo o período da minha gravidez, e assistisse, do começo ao fim, o parto donde nasceste -que agora não consinto, por forma nenhuma, sucede contigo a mesma coisa! Sei o que faço, minha filha! E, desde já, previne teu marido de que, se se opuser às minhas determinações, não conte ele comigo mais para nada, a não ser perseguição e vingança!

Desta vez não fui pedir à Bíblia o outro versículo do Levitíco, em que o Senhor, muito expressamente, dá a Moisés e Aarão, para que a transmitam aos filhos de Israel, a lei especial do afastamento durante o nojo da parturição e da prenhez. Já me não animava a citar a Bíblia; tal firmeza mostrei porém na minha vontade, que meu genro compreendeu a inutilidade de abrir luta, a não ser com um rompimento completo e brusco.

O pobre rapaz ficou aflito, bem o vi, e na realidade causava-me pena. Parecia ter perdido a cabeça; não se animava a romper comigo por sua vez, nem se queria resignar tampouco à minha inflexível ditadura de sogra; não que o preocupasse a sua declaração escrita, creio eu, mas porque um rompimento comigo seria a sua desgraça comercial, ou pelo menos violento golpe dardejado na sua nova carreira até aí tão próspera.

Reconheci que desta vez o sacrifício imposto ao coração de ambos era, com efeito, muito mais sério que das outras, e por isso procurei suavizá-lo não me agastando com as impertinências dele, nem com os ressentimentos de minha filha. A tudo resisti serenamente, e, com boas palavras e maneiras calmas, fiz ver a meu genro que ao lado de sua mulher -ficava eu; e ao lado da enferma -ficava um bom médico, que era o Dr. César.

Ele pois que embarcasse tranqüilo e confiante: a competência profissional do meu velho amigo e os meus desvelos de mãe não deixariam sentir a nossa Palmira a falta dos seus cuidados.

Leandro começou daí por diante a evitar a minha presença; a falar-me secamente e o menos que podia; começou a não me tratar senão por «Minha sogra», dando a esta palavra uma expressão tão agressiva e tão dura, que por fim já me doía e magoava bem cruelmente.

Urgia contudo não perder tempo. Era preciso que meu genro partisse quanto antes, e, uma vez que ele me não queria falar, fui ter humilhada ao seu encontro. Animei-o, como a um filho malcriado e caprichoso, e, apesar da ofensiva secura com que me ouviu, achei meios de dizer-lhe que não visse no meu ato uma ridícula pirraça de velha rabugenta, dominada pelo espírito de contradição; fiz-lhe sentir que, se ele dentro de poucos dias não despregasse do Rio de Janeiro, nos obrigava, a mim e a minha filha, duas senhoras -uma idosa e a outra pejada, a aventurarmo-nos numa viagem, onde Palmira não encontraria decerto o conforto e os socorros que o seu estado reclamava. Além disso, da Europa ele apenas mal conhecia Londres, através de um colégio. Precisava agora vê-la e estudá-la como homem. Que melhor ocasião para fazer esse passeio?... Iria descansar um pouco, espairecer, instruir-se, ganhar novas idéias e novos pontos de vista, cujo bons frutos seriam aproveitados em favor da educação de seu filho.

-Sim, replicou Leandro, desejo ir à Europa, e muito, mas em companhia de minha mulher!

-Irá depois com ela... correspondi -e eu mesma os acompanharei, e mais o nosso herdeirozinho... É até muito mais conveniente que o senhor primeiro realize sozinho essa viagem, para poder ensinar depois sua mulher a ver e apreciar aquilo que o senhor já tenha visto. É mais correto! Num casal bem constituído, o chefe deve sempre levar vantagens sobre a esposa, tanto no seu grau de cultura intelectual, como no seu conhecimento prático da vida e do mundo...

-Mas abandonar minha mulher quando a vejo naquele estado?!

-O senhor não a abandona, meu genro; o senhor a deixa entregue aos meus desvelos e ao meu amor de mãe. Quanto ao estado dela -não queira também exagerar as coisas! a gravidez e o parto, em boa normalidade de circunstâncias, são funções naturais e quase tão simples como o próprio amor que os produziu.

-Mas é o primeiro parto!

-O que lhe não impedirá de ser muito benigno, porque o filho foi concebido nas melhores condições que é possível desejar. Fique certo, meu genro, que em geral -os filhos gerados com todo o amor e com todo o desejo, nem só são os únicos perfeitos, como ainda são os que nascem com a maior e mais lisonjeira facilidade. É preciso desconfiar sempre da harmonia e boa ventura doméstica de um casal, cujos filhos encontrem dificuldades em entrar na vida, a não ser que haja vício orgânico por parte da mulher ou vício no sangue por parte do homem. Entre os dois instintos garantidores da vida -o amor e a fome, existem as mais estreitas analogias: Da mesma forma que -comer sem apetite produz má digestão, conceber sem amor -produz má gravidez e mau parto; quando não produz o aborto, que é a legítima indigestão do amor. Meu neto há de ter um nascimento feliz, sou eu quem lho assegura! E imagine agora o prazer que lhe está reservado para a sua volta, meu amigo! Prefigure-se tornando a casa depois de alguns meses de ausência e vindo encontrar o seu filhinho nos braços da nossa Palmira! Hein? não lhe parece que o prazer da volta compensa um pouco os sacrifícios da ausência?

-Ausência de quase um ano!...

-Qual! Ela está grávida de três meses, creio. Ponhamos um para a viagem -quatro! Ao senhor basta demorar-se lá seis ou sete, quando muito... Ora, seis meses passam depressa, principalmente em passeio pela Europa, vendo coisas bonitas!...

-Bonitas! Bonito será se, daqui em diante, mal perceba que a mulher está grávida, tenha de entrouxar as malas a toda a pressa e fugir para Europa!

-Ora deixe lá o futuro, que a Deus pertence, meu filho, e cuidemos do presente, que é a nossa obrigação. E já não fazemos pouco!

Quando nos separamos essa noite, depois do chá, meu genro estava resignado a fazer a viagem. Faltava-me, porém, a outra, que me parecia mais difícil de ceder, sem ficar prostrada pelo sacrifício.

E, com efeito, maior resistência encontrei em Palmira do que em Leandro. Mas com prazer descobri logo que semelhante reação não vinha tanto dos seus terrores do parto, como dos seus mal disfarçados ciúmes pelo marido, que se ia ausentar assim por tanto tempo.

Desde que percebi isto, tinha por ganha a vitória.

Fiz ver-lhe logo que aquela ausência de Leandro, longe de ser desfavorável à esposa, era uma nova garantia para o amor e para a felicidade de ambos. Deixando-o ir agora, surpreendido assim violentamente no auge do seu enlevo amoroso, ela podia ficar segura de que o marido iria resguardado pela saudade e nada cometeria que pudesse ser lesivo ao ente estremecido que ele deixava tão distante. Leandro honraria seu voto sagrado e guardaria fidelidade, justamente por se achar então a contragosto separado da sua «pobre e querida mulherzinha».

-Ficando aqui, disse-lhe eu, vendo-te ele todos os dias, sem aliás aproximar-se de ti para o matrimônio, haveria de trair-te, fatalmente, durante os resguardos da prenhez e do parto, porque a consciência lhe descobriria absolvição para tal delito nas supostas necessidades do seu organismo de homem e na tua acidental inutilidade de mulher. Ser-te-ia infiel, convencido de que com isso não cometeria baixeza, nem maldade, porque havia de resgatar a sua culpa junto à tua cama de doente, à força de constante dedicação, à força de desvelos de enfermeiro e pequeninos cuidados de bom amigo. Ao passo que, por mim arrancado barbaramente dos teus braços e repelido para longe, hão de a ausência e a saudade envolver-te, à proporção que os dias se passarem, num prestigioso véu de poesia e desgraça; hão de dar-te irresistível e fascinante auréola de vítima resignada, a quem seria baixa perfídia enganar traiçoeiramente.

A tua ausência será pois a garantia do seu amor e da sua fidelidade. Ele terá medo de pecar, porque já saberá de antemão que a sua consciência lhe não perdoará semelhante injustiça. Aquilo mesmo que aqui, ao teu lado, seria por ele admitido como fatal conseqüência do resguardo da crise puerperal, lá atingirá no seu foro íntimo às negras proporções de torpe covardia. Lá, sem elementos de resgate do crime, para fazer calar a consciência, sem poder de resto prestar socorros à tua gravidez, nem poder consolar-te do teu estado, ele não terá ânimo de faltar à fé conjugal, porque todo o seu coração será pouco para lembrar de ti! Todo ele, minha filha, será pouco para ter um só ideal -tornar a ver-te, e beijar o filho! Todo o seu corpo só terá um desejo, uma preocupação constante, uma necessidade expansiva: -o de cair-te nos braços, soluçando palavras de amor, e matar com os teus beijos a grande saudade que o devorava longe da tua ternura e longe do teu corpo!

E, vamos lá... acrescentei, tomando as mãos de minha filha, que me escutava imobilizada, com o olhar ferrado num só ponto. Falemos com franqueza: achas tu que as coisas correriam deste modo, continuando ele aqui ao teu lado? Sabes tu, porventura como permanecerás gravada no seu espírito durante a ausência necessária à tua parturição?... ficarás gravada como ele te veja pela última vez no momento do beijo da despedida; aparecer-lhe-ás no espírito como te tenho agora defronte dos meus olhos -com o corpo ainda não deformado como estará daqui a poucos meses. Por enquanto, Palmira, a gravidez te não prejudicou a beleza, ao contrário: vai bem ao teu rosto essa cor misteriosa e pálida e essa tristeza de sorrir; não te fica mal ainda essa languidez do andar, como essa vaga expressão que tens nos olhos e nos gestos. Mas, quando o teu feto atingir ao seu último período de gestação, sabes tu, minha filha, como estarás diferente e como serás outra? -abatida, desbotada, sem cintura, com os pés inchados, a cara intumescida, as pernas trôpegas, o ventre enorme, e o estômago em revolta, o que seguro te produzirá engulhos e mau hálito!...

Palmira interrompeu o seu silêncio, sem interromper o seu olhar, para responder com um suspiro profundo:

-Ora! meu marido me amará de qualquer modo!... Não faço questão de ser bonita para ele!...

-Então para quem fazes tu questão de ser bonita, se não é para teu marido? A mim é que agradarás do mesmo modo em qualquer estado, porque sou tua mãe; mas a ele, e só a ele, te convém seduzir como mulher. E acredita, minha Palmira, que nesse erro consiste boa parte das comuns infelicidades domésticas! Em geral, por aí, a esposa só se enfeita e faz bonita, para sair à rua, quando dentro de sua casa, é que ela precisa ser sedutora, porque é dentro de sua casa que ela tem um homem a quem agradar por toda a vida!

-Sim, mas a gravidez também não dura eternamente. Eu voltaria a ser o que era dantes...

-Não! Para teu marido nunca mais, depois do parto, volverias a ser o que dantes foras! Dantes foste o que agora continuas ainda a ser no espírito de Leandro -a encantadora e mimosa criatura que se fez mulher nos braços dele; e depois do parto serias e continuarias a ser para sempre -a mulher que nos seus braços se fez mãe! Todos os teus encantos feminis, todas as graças da tua mocidade em flor, desapareceriam, para só ficar o ventre sagrado, que se abriu defronte de seus olhos e lhe despejou um filho nos braços! Bem vês que não é a mesma coisa!

-Não deve ser tanto assim! Mamãe exagera com certeza!

-Exagero?! Sabes lá que impressão deixa um parto ao homem que o assiste?... Impressão que escandaliza os olhos, os ouvidos e o olfato! Sangrento drama, que comove e repugna! que faz dó e faz náuseas! Nele a mulher perde inconscientemente a noção do seu mais cativante e natural instinto, a sua única superioridade sobre o homem, o seu único meio de dominá-lo e prendê-lo -o pudor!

No parto, em presença do esposo amado, o pudor, como todas as outras seduções da mulher, desfazem-se-lhe na lama infecta e generosa do seu sangue de mãe, para só prevalecer o filho que, de um salto, imediatamente, se apodera do principal lugar até aí ocupado por ela no coração do marido. E este, embriagado com a felicidade daquele novo amor, começa desde então a viver só em reviver no entezinho recém-nascido e melindroso, que é agora todo o encantamento do seu lar; enquanto a mulher, ainda mesmo que recupere as graças primitivas, fica, nos intervalos de resfriado matrimônio, encostada a um canto, esquecida como uma máquina em descanso.

Palmira soltou um suspiro mais longo que o outro, e continuou a fixar o mesmo ponto, com os olhos imóveis.

Eu prossegui:

-E depois!... logo depois do parto?... Enquanto o filho, nos seus primeiros dias de vida, com o seu primeiro choro, vai roubando à mãe todos os carinhos sensuais do marido dela, o que é a mulher?... É uma pouca de carne dolorida e mole que ali está sobre a cama! E é preciso defumar o quarto, mudar constantemente as roupas sujas! Ela, coitada! num resguardo absoluto, sem se poder lavar completamente, nem pentear-se, nem desinfetar os cabelos e o corpo, só vive para a sua recente maternidade e para o gozo animal do seu estado de alívio, depois que despejou a carga que a oprimia por tantos meses e que lhe fazia sofrer dores físicas e sobressaltos morais. Dos beijos de compaixão e de reconhecimento que o esposo lhe dá durante esse período do cheiro de alfazema, nasce entre os dois uma doce amizade, uma respeitosa estima de bons companheiros, um sentimento muito bonito, muito sério, muito duradouro, mas que é o inimigo mortal do amor genésico.

A sexualidade que entre eles vier depois, já nada tem que ver com o poderoso instinto, que os arrastou abraçados ao leito conjugal, e será mero produto do hábito, uma preguiçosa permuta de carícias frouxas, obra quase inconsciente da matéria, sem o menor concurso do espírito ou da imaginação, donde faz entretanto o amor fecundo a sua gloriosa força.

Não! não! não, minha filha! teu esposo não te verá de ventre crescido, não te sentirá mau hálito, não ouvirá teus gemidos e gritos de parturiente, nem assistirá a sair-te das entranhas, entre as viscosas esponjosidades da placenta e a nauseante fedentina dos humores puerperais, um ensangüentado feto, uma posta vermelha de lodo vivo! Teu esposo não te verá amolentada, entre os mornos travesseiros, impregnada de cheiro de alfazema, parida! Não! não há de ver! não quero!

Ela soltou um novo suspiro e mudou de mira, sem alterar a fixidez dos olhos.

-Não! arrematei. Hás de conservar-te integralmente sedutora na imaginação de teu marido! Quero que ele te deixe fresca e bonita, como ainda estás agora, e te venha encontrar depois, ainda mais interessante do que te deixou, com uma linda e cheirosa criancinha ao colo. O teu parto não há de inutilizar aos seus olhos a mulher que ele em ti ama. Não quero que ele se converta no teu amigo extremoso; quero que ele continue a ser o teu amante apaixonado. Quero enfim que Leandro se não desiluda contigo, como homem, para que ele não precise nunca substituir-te secretamente por outra mulher!

E, depois de uma pausa, terminei carinhosamente com estas palavras: -Ora aí tens tu, minha filha, a razão do meu procedimento. Agora a ti compete apreciá-lo bem ou mal...

Palmira levantou-se, beijou-me, e caiu soluçando nos meu braços.

-Minha boa mãe!... disse ela.

A pobre criança tinha compreendido tudo, e a sua singela frase pagou-me nesse instante de todos os desgostos que sofri e de todos os desvelos que por seu amor mantive até aí com tanta luta.

-De hoje em diante, segredei-lhe eu, enxugando-lhe as lágrimas, dormirás comigo no meu quarto, meu amor, ao lado de mim, na mesma cama, até à volta de teu marido. Está dito?

-Sim, sim, mamãe!




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- XX -

E assim foi. Durante os poucos dias que precederam a viagem de meu genro, minha filha dormiu todas as noites comigo.

Imagine-se o que dele não tive de sofrer por semelhante fato. Quando soube da minha resolução, desesperou-se; dessa vez chegou a chamar-se «jararaca!». Mas Palmira estava bem convencida das minhas razões e tanto me bastava, porque era todo o meu empenho não lhe irritar os nervos, contrariando-a. Quanto ao marido -que esbravejasse à vontade, contanto que se pusesse ao largo.

Também era só o que faltava -que fosse eu agora impressionar-me com o infantil egoísmo de meu genro! Procurava, é exato, esconder aos olhos de Palmira a minha superioridade sobre ele, fingindo até respeitá-lo e temê-lo, mas só pelo receio de que a compreensão justa da verdade viesse a prejudicar o juízo que minha filha mantinha com respeito ao valor moral de seu marido. Em uma palavra -receava que ele se amesquinhasse aos olhos dela.

Convém notar que Leandro, depois que aceitara, resmungando, a minha ditadura de sogra intransigente, começou a ter impertinências e rabugices de uma verdadeira criança. Ia ao ponto de fazer manha, para que a mulher o consolasse com carinhos e se fizesse zangada, de mentira, contra mim, fingindo-se revoltada e afetando indignação nas suas palavras, como a ama que, para engodar o bebê, diz injúrias à cadeira em que ele por acaso deu uma pancada com o corpo.

Nestas coisas de dentro de casa, no segredo do cofre doméstico, o marido quase sempre é muito mais pueril e piegas que a mulher. Esta só aparenta infantilidade na rua ou na exibição social, para se fazer inocente e cândida, porque assim dela exige o público; e aquele, para o efeito contrário, é aí que sustenta, ou simplesmente afeta, a rija linha do seu sexo forte. Da porta da rua para fora, ela é criança e ele é gente grande; mas da porta da rua para dentro, é o homem quem dá a nota infantil, ao passo que a mulher em geral é quem garante a tranqüila seriedade do lar, com a sua moral e o seu bom senso prático, com a sua perspicácia e com a sua constância, resignação e força de paciência.

Receosa de que semelhantes pieguices em meu genro viessem a deprimir sobremaneira a ilusão do amor que minha filha consagrava, tratei em tempo de providenciar neste sentido, mas dei logo pouco depois pelo meu erro, percebendo que as mesmas pequenas separações por mim impostas aos dois, como preservativo contra o tédio, longe de extinguirem as infantilidades de Leandro, ainda mais lhes davam vida. E acabei por convencer-me de que o fato era natural e próprio do caráter mesmo do amor, e que por conseguinte nunca poderia ser ele desagradável à mulher amada.

Parece, à primeira vista que o homem, quando se faz piegas e submisso ao lado de uma mulher, deve tornar-se ridículo aos olhos dela e pois incompatível com o seu amor; assim não acontece, porém, desde que tal pieguice e tal humilhação sejam praticadas só e exclusivamente com essa mulher e rigorosamente escondidas a todos mais. E se esse homem assim pueril e mimalho para com essa mulher amada, for opostamente para os outros como muita vez sucede, um caráter enérgico e um espírito respeitável, então a coisa é completa no interesse do amor de ambos.

Está bem claro que tudo isso só se pode bem verificar quando o casal goza a felicidade de ter parentes mais velhos que o dominem, e contra os quais possam o esposo e a esposa queixarem-se entre si. Esta é uma das vantagens de ter sogra; enquanto o genro briga com a sogra não briga com a mulher; antes pelo contrário mais se chega para esta; e os frescos e surdos laços da conspiração que os reúne e religa, conseguem em muitos e muitos casos o que os afrouxados laços do instinto sexual já não podiam obter entre eles.

Bem diferente, pois, é no homem o seu modo de amar comparado com o modo de amar da mulher, como bem diferentes são as manifestações do amor de cada um.

O homem tem o jogo franco no amor; a mulher tem o jogo encoberto. O homem, desde que ame deveras não pode guardar segredos para a mulher amada; tem, por uma lei congênita à sua própria ternura, de abrir defronte dela o seu coração, de par em par, como uma carteira, que ele todavia para outros trouxesse avaramente oculta e bem fechada; tem de expor-lhe a alma toda nua, e nu todo o seu mais recôndito pensamento. Não lhe esconderá nada do que se passa dentro dele, cavando e desencerrando até às mais íntimas e fundas circunstâncias, ainda mesmo aquelas que possam ser deprimentes do seu caráter, nocivas ao seu amor, e até mesmo desagradáveis e humilhantes para a mulher que as ouve.

O homem, que ama sinceramente, começa logo por contar à sua amada todas as particularidades de sua vida, chegando sempre a ser ridículo pela insistência em despejar aos pés dela todo o seco e frio bagaço do seu passado. Não se esquece do menor episódio; diz-lhe tudo, tudo, tudo! E a mulher suporta isto a sorrir, e recolhe o inútil despejo com sua condescendência de que o homem não seria capaz para com ela.

Ao passo que a mulher, por maior amor que consagre a um homem, nunca lhe mostra a alma por inteiro, nunca lhe franqueia totalmente o coração e nunca lhe confia de todo, nas suas confidências mais íntimas, o resíduo do seu passado. A mulher é amiga apaixonada do mistério, apesar de ser a eterna inimiga do segredo.

A mulher ama sempre de emboscada, armando laços e esparrelas; quer apanhar de surpresa o homem amado, sem que ele dê pela armadilha e possa a tempo defender-se. E daí o ela conhecer sempre tão profundamente o homem que ama e com quem vive; fato de grande desvantagem para ele, porque não há homem, por superior, capaz de resistir sem ridículo a semelhante análise; o que ainda constitui, a meu ver, mais um escolho para a convivência matrimonial.

Entretanto, o homem nunca chega a conhecer de todo a mulher que lhe pertence, por mais que ela o ame. Assim sucede que muita vez, na intimidade de um casal já de muitos anos constituído, lá uma bela ocasião o esposo fica admirado de ouvir falar à mulher de um fato, já velho na vida dela, e no entanto perfeitamente desconhecido para ele.

-Como, diz o homem, pois isso aconteceu?... Não sabia! ignorava-o até agora! Tu nunca mo disseste!...

-E por que havia de ter dito?... argumenta a mulher. Nunca tive ocasião de falar-te em semelhante coisa... Nunca me perguntaste nada a esse respeito...

E aqui está justamente a grande diferença no modo de amar dos dois sexos. O homem diz -espontaneamente, e a mulher confessa -interrogada.

Algumas há, casadas, que põem melindroso empenho em nunca mentir ao marido, e, sem jamais mentir com efeito, escondem-lhe tudo o que lhes convém ocultar, e às vezes coisas que são a desonra dele. Mas não mentiram.

O homem, em conclusão, dada mesmo a melhor hipótese da sua altivez e energia de caráter, pode ser banal e piegas no seu amor. E meu genro era assim, com a circunstância, porém, de que a sua puerilidade era toda cariciadora e amorosa para minha filha e era para mim só feita de impertinências e rabugens de criança malcriada. Como, não obstante, eu sabia pesar e dar o verdadeiro valor a tudo isso, não o responsabilizava por tais misérias, e íamos vivendo. De resto, como eu só o amava pelo efeito reflexivo do muito que eu queria a Palmira, achava-o ridículo, sem contudo sentir por ele ódio, nem desprezo, como nos sucede comumente acharmos ridículas, nos outros, muitas coisas que são naturais e que observamos em nós mesmos e em nós mesmos lhes reconhecemos a utilidade.

Todavia, a sua partida comoveu-me bastante. Fomos levá-lo a bordo. O Dr. César não pôde ir conosco, porque tinha em casa a irmã muito mal com uma pneumonia aguda.

Era em abril, num belo dia de sol. Palmira estava encantadora; fiz-lhe pôr, intencionalmente, um vestido preto enfeitado de rendas valencianas, porque assim convinha à sua palidez, que se agravara naquela última quinzena; o chapéu, muito simples e também preto, guardava-lhe apenas uma parte da cabeça, envolvido, com o rosto, num vaporoso véu cor-de-rosa, que à luz da manhã fazia realçar o tom magoado da sua formosura.

Na lancha, assentada ao lado do marido, com o busto destacando nitidamente do fundo brilhante e verde do mar, parecia-me mais bonita do que nunca. Durante a ida, Leandro conservou por toda a viagem uma das mãos dela entre as suas, lançando sobre mim, de vez em quando, olhares de feroz ressentimento. Eu fingia não perceber o seu ódio, e era toda ouvidos para o que os dois conversavam em voz baixa, esquecidos um no outro, num alheio egoísmo de amantes sobressaltados.

Percebi que minha filha lhe murmurava dos ciúmes que ia sentir por ele durante a ausência e ouvi distintamente a resposta de meu genro:

-Se tu soubesses como levo este coração despedaçado, não me falarias isso... Maldita a hora em que empenhei minha palavra!...

E, depois de desferir contra mim mais um olhar colérico, tirou o lenço da algibeira, para esconder o rosto, resmungando com azedume alguma coisa, no que senti ferir-me ainda a ponta de uma desconhecida injúria.

-Ora, coitado! pensei, julga-me mal e me não perdoa o mal que me julga... Mais tarde me fará justiça!...

E larguei tudo isso de mão, para só pensar no valor daquele vivo e palpitante ciúme de minha Palmira, tão amada e tão desejada pelo esposo...

Ah! esse espetáculo fazia lembrar-me de que eu, infeliz que fui! nunca tivera tido ciúmes de meu marido!

Há muita gente que diz do ciúme o que os franceses ainda não se lembraram de dizer contra os alemães, e eu mesma estou de acordo em que, na maior parte dos casos, ele nada mais seja do que uma grosseira manifestação do despeito e da vaidade. Mas, quando em vez de vir do orgulho ou do amor-próprio, ele vem objetivamente do nosso terno e vivedouro entusiasmo por certo e determinado ente querido, é uma das mais legítimas expansões do amor. Todo o indivíduo que ama de qualquer modo, cerca de zelos vivos a pessoa amada.

Entre marido e mulher, como o casamento não é natural nem lógico, o ciúme complica-se e torna-se ridículo. Ao marido não assiste sequer o direito de mostrar ciúmes pela esposa, porque, das duas uma: -ou ele tem razão para revelá-los, ou não tem. Se tem razão não deve contentar-se com expô-los, deve por dignidade romper imediatamente os laços que a ela o prendem; e, se não tem razão, para que pois ofender e ferir em cheio na honra uma mulher inocente?

Sei, e posso afiançar, é que minha filha me fez inveja inda uma vez. Eu nunca senti, nem causei ciúmes em toda a minha existência; e isso faz muita falta na vida de uma mulher! A nossa felicidade não é como a do homem, compõe-se de um conjunto infinito de pequeninas alegrias e pequeninas mágoas. A vida de uma mulher feliz é complicadíssimo mosaico de lágrimas, beijos, suspiros e sorrisos; mas tudo isso ligeiro e passageiro, que não chegue nunca a prostrar pelo sofrimento, nem pelo gozo.

Eis o que me veio ao espírito, quando, já a bordo do paquete inglês que tinha de levar Leandro, vi saltarem dos olhos de Palmira as lágrimas que ela dava em sacrifício da conservação do seu amor conjugal.

Ah! tomara eu aquelas lágrimas, na minha mocidade! Quem me dera tê-las um dia chorado!...

Meu genro chorou também, e isso me comoveu, a despeito do modo frouxo por que ele, por mera formalidade, me abraçou em despedida. Antes assim, porém, do que ter abraços seus bem apertados e sinceros sabendo que os outros, dados à esposa, haviam de afrouxar em breve. Deplorável que és tu, meu pobre coração de mulher! nesse momento, em que meus olhos choravam tanto como os de Palmira, tive vontade de chamar para meu peito de mãe aquele criançola resmungão e aquietá-lo com carícias: No fim de contas, apesar de tudo, era ele, sem consciência disso, o meu associado na obra da felicidade de minha filha. E esta o amava tanto, que seria impossível deixar de amá-lo eu também. Contudo, Leandro me detestava o ingrato!

E a dor forte daquela separação de minha filha e meu genro, lembrou-me outra separação também entre dois casados, quando meu marido se ausentou de mim por oito meses. Éramos ainda bem moços e também choramos no abraço da despedida, mas ai! as nossas lágrimas foram bem diferentes daquelas, e não recendiam àquele triste e poético aroma de amor ainda cego!... foram lágrimas de dois bons amigos incompatibilizados pelo casamento! Meu marido antevia que a viagem, e depois a estada num país estranho, seriam alegre e salutar variante na sua existência trabalhosa e monótona do Brasil; e eu por mim, confesso, não fazia o menor sacrifício com aquele apartamento de Virgílio. Já não nos amávamos sexualmente -eis a verdade!

Palmira, ah! essa ficou inconsolável... Voltamos tristes de bordo. Por longo tempo, da nossa lancha, agitamos os lenços no ar, em resposta a uma pequenina asa branca que palpitava, lá ao longe, no tombadilho do vapor.

Uma vez em terra, dentro do carro, mandei tocar com força para Laranjeiras, compreendendo que Palmira, no seu silêncio ameaçador, reprimia a explosão de soluços que ameaçavam sufocá-la. E a tempestade desencadeou-se com efeito, mal me recolhi a casa com minha filha. Foi um longo transbordar de soluços, que lhe sacudiam nervosamente o corpo inteiro. Ela não quis almoçar, enfiou pelo quarto, arrojando o chapéu, as luvas, a sombrinha, e atirou-se em seguida à cama, com o rosto escondido nos braços e nos travesseiros, a chorar, a chorar, a chorar!

E eu vi tudo, sorrindo no íntimo ao contemplar satisfeita aquela cena transcendente. Deixei-a soluçar por longo tempo, assim estendida sobre a cama, bela naquele desespero de saudade. Ah! -não se sustenta o amor sem o elemento dramático, e não há drama sem lágrimas!

Mas, pouco a pouco, o temporal foi serenando, descaindo em longos e espaçados suspiros de desabafo, e, quando à noite nos recolhemos ao mesmo aposento, Palmira tomou-me o rosto entre as mãos e, sem uma palavra, beijou-me as faces repetidas vezes, e pousou depois a sua cabeça no meu ombro, abraçando-me em silêncio.

Na oração que fizemos juntas antes de tomar o leito agradeci a Deus ter-me concedido a realização daquele milagre de amor conjugal, e pedi-lhe do fundo da alma, que continuasse a proteger a poética felicidade daquelas duas pobres criaturas, que eu aninhava sob as asas da minha experiência de mulher e do meu amor de mãe.




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- XXI -

No dia seguinte o assunto exclusivo da conversa de Palmira foi só o marido, mas nos subseqüentes, sem se esquecer dele por um instante, pensou também um pouco no filhinho esperado; até que, daí a algumas semanas, a sua preocupação se dividia por ambos em partes iguais. E o seu ventre foi tranqüilamente crescendo, e ela foi cada vez mais se fazendo mãe, no meio dos cuidados do enxoval, que a nós duas traziam ocupadas de manhã até à noite. O Dr. César, agora que supunha a irmã fora do perigo, aparecia-nos com mais freqüência e ficava às vezes palestrando conosco durante o serão, entre o jantar e o chá. A progressiva marcha da gravidez de minha filha era fiscalizada por ele com especial solicitude.

Chegou a primeira carta de Leandro. Que alegrão para nós três! Não era uma carta de marido, era uma longa, sentida e despejada confidência de amante infeliz; comovia a força de expressão e de sinceridade, sem cair jamais no sentimentalismo patético; era simples, forte e natural, como o mesmo amor que a inspirava. Assim de longe sob o domínio absoluto de uma dor verdadeira, meu genro volvia-se homem, e nem uma só vez recorria às manhas e pieguices que tinha dantes ao lado da família. Referia-se ao filho secamente, quase com azedume, como se falasse de um importuno que viera intrometer-se na sua felicidade. E não dizia nunca «meu filho» ou «nosso filho», dizia «essa criança».

Isto perturbou-me um pouco. Teria eu, quem sabe? preparado com aquela separação uma desgraça terrível, prejudicando meu neto no seu direito de filho ao amor de seu pai?... Não seria indispensável, para a boa formação, desenvolvimento e completo remate do amor paterno, que o pai acompanhasse de perto, lado a lado, todos os fenômenos patológicos que na mulher precedem o nascimento do filho, e os que ocorrem durante e depois da parturição?... Não teria eu talvez, para conservar o amor de Leandro por minha filha e impedir que se quebrasse entre estes o encanto do desejo, roubado ao meu pobre netinho a parte que de direito lhe tocava no coração de seu pai?... Não estaria eu maquinando contra a pobre criaturinha uma tremenda maldade, com fazer que ficasse todo inteiro o coração de meu genro em posse da esposa?... Não estaria eu cometendo um crime?...

Consultei nesse sentido o Dr. César.

-Não! respondeu-me ele, sem hesitar. Não, minha amiga! Afaste do juízo semelhante apreensão. O amor de pai não se pronuncia antes do nascimento do filho e só é formado e desenvolvido com a convivência entre os dois. O amor materno, sim: existe desde a vida uterina do feto, com ele cresce, avulta quando ele nasce, e vai aumentando sempre na proporção do crescimento do filho. E está nisto a razão por que o amor de mãe é sempre, até que o filho atinja à puberdade, maior e mais intenso que ao amor paterno; é que ele, na sua carreira, sai com grande avanço. O outro, quando acorda, encontra-o já vigoroso e adiantado.

A natureza foi muito previdente na constituição destas coisas: o filho só poderia ser privado do amor de sua mãe, se alguém conseguisse de uma mulher fazê-la conceber e dar à luz sem que ela tivesse consciência disso, e ainda assim não conseguiria privá-lo dos desvelos e dos cuidados maternais: a doida concebe e tem filhos sem sentir por eles o menor vislumbre de amor, mas sem nunca aliás se descuidar, guiada só pelo seu instinto de fêmea, de prestar-lhe os socorros maternos. Faz tudo isso como qualquer bruto -pare, corta com os dentes o cordão umbilical, prepara o filho para a vida: assopra-lhe na boca, se for preciso dar-lhe aos pulmões o primeiro ar; bate-lhe nas palmas dos pés e das mãos; depois cria-o, e defende-o dos perigos materiais que o ameacem; mas não o ama. Aquele bocado de carne viva e palpitante é uma pouca da sua própria carne; e a carne, essa nunca enlouquece! Considere agora, minha amiga, que, pelo lado paterno, não há sequer esta circunstância material do desdobramento do corpo, do desdobramento da carne. Na mulher, aquele poderoso instinto animal, associado à razão e à consciência não menos poderosas, produz o que se chama o amor materno. E tudo isso se dá antes de chegar o amor paterno, que pode até nunca chegar, se não houver convivência entre o pai e o filho. Não é banal dizer que todo o homem é muito mais filho da mulher do que do homem; o que me leva a sustentar que na sociedade ele devia apresentar-se com o nome da mãe e não do pai!

Fiquei perfeitamente tranqüila com estas palavras e pus o coração à larga.

Na segunda carta, Leandro enviava o retrato à mulher, e uma poesia inspirada na saudade, acompanhando tudo um amor-perfeito colhido em certo jardim, na ocasião em que, diziam os versos, «no meio da alegria geral e do riso dos convivas -seu coração sangrava o martírio daquela terrível ausência, que o privava do estremecido objeto do seu amor...» Li e reli essa composição poética; não era um primor da arte, mas Palmira chorou de emoção ao lê-la. E comparei mentalmente aquela carta do marido de minha filha com as cartas que meu marido me escreveu na sua ausência dos oito meses. Que diferença! Que contraste!

E vamos lá! tinha eu ou não a razão para estar orgulhosa com a minha obra? Qual é aí o marido que até à presente data já escreveu versos de amor à sua mulher, durante o desgracioso período da gravidez ou da parturição? Qual é ele? Versos ao filho conseqüente, sim, muitos o têm feito, esquecidos da pobre criatura enfeiada pelo parto, que jaz molemente sobre uma cama de colchões mornos, entre mornos travesseiros, defumados de alfazema!

Na carta, onde havia uma página, toda inteira, dedicada ao Dr. César, que aliás da primeira remessa tinha já recebido uma particularmente a ele dirigida, só uma fria frase me cabia. Era esta: «Apresenta meus cordiais respeitos a tua mãe e pede-lhe, em nosso nome, que me escreva por ti, quando porventura já não possas fazer». A única frase, pois, que ele me concedia fora ainda assim determinada pelo amor de Palmira. Não me revoltei: Era o caso do doente que, desvairado pela dor, morde a mão do médico que o opera. Pois me mordesse! que me mordesse quando quisesse! contanto que aquela mesma boca, que me mordia a mão, continuasse no futuro a beijar com duplicado ardor a boca de minha filha!

Não me agastei, nem me senti menos feliz por isso.

A natureza é boa amiga! Como sabe ela dar a todas as estações da existência novos interesses de vida! novas dores e novos prazeres! Nunca pensei que fosse tão intensa a felicidade de ser avó!...

À proporção todavia que se aproximava o grande acontecimento, comecei a palpitar de impaciência e sobressalto. Desfazia-me em pequenos cuidados com a enferma; afigurava-se-me que era eu a única responsável pelo que viesse a suceder; sentia-me tão dentro daquela situação, que era como se eu fosse o pai e tivesse de ser mãe daquele filho! Talvez não acreditem, mas juro que me impressionei ainda mais do que quando eu própria estive para dar à luz pela primeira vez!

E agora, inesperadas apreensões vinham perturbar a confiança que eu até aí depositava cegamente nas ótimas circunstâncias em que fora aquele filho concebido. Não descansava um instante, não me descuidava um momento da minha Palmira. De madrugada era eu a primeira a levantar-me e vencer-lhe a indolência, e obrigá-la a vestir-se e a sair comigo, para os passeios matutinos. Arrependia-me agora de lhe ter falado tão abertamente do parto, porque ia começando a descobrir nela também receios e sobressaltos. Mas animava-a com tanto carinho e habilidade, que a boa criança nunca se atreveu a fazer-me a mais leve queixa, mesmo indireta, contra a ausência do marido.

Minha gaveta da secretária estava cheia de livros de medicina, concernentes ao assunto que inteiro me possuía. Sempre que eu pilhava alguma folga ou quando podia roubar algumas horas ao sono, devorava o Traité de l'art des accouchments de Gazeaux, e tomava notas para discutir depois com o Dr. César, que nesses últimos tempos não nos deixava de visitar todos os dias. Devia já parecer ridícula aos olhos do bom médico com as fumaças de doutora que eu agora me dava na conversa.

E a crise aproximava-se.

Eu já me não pertencia; não tinha cabeça no lugar; comia sem apetite; passava noites de insônia. Estava tão abatida, ou mais, que minha própria filha, e juro que dentro do meu coração palpitava o feto que ela trazia no ventre.

Mas afinal chegou o dia supremo. A casa revolucionou-se. César estava conosco, felizmente. Não posso afiançar que sofresse eu as dores puerperais, mais sei que sofri muito e que não abandonei minha filha um só instante, até receber nos meus braços um belo menino, perfeito, forte, com o crânio coberto já de cabelo preto.

Oh! Vitória! Vitória completa!

Saltaram-me as lágrimas dos olhos. Tive vontade de misturar meus cansados soluços de avó com aquele angelical vagido, que meu netinho me trazia do mistério da antevida, alguma coisa de um balbuciar divino, que ainda não é voz humana e também já não é simples eco de puro cântico de anjos! Minha filha, quase morta de prostração, branca e fria, como se todo o sangue e toda a vida lhe tivessem escorrido pelo ventre aberto, gemia ainda, devagarinho, e seus gemidos cortavam a alma.

Entreguei a criança ao médico e a uma parteira que nos acompanhava, e dei-me toda aos cuidados da puérpera. Não me despeguei mais do seu lado, até que ela serenou de todo.

Ah! correu tudo muito bem: confirmou-se a minha convicção de que o bom parto depende das boas circunstâncias de amor em que o filho é concebido. Transbordava-me agora o coração de alegria. Quando vi minha filha fora de perigo e prestados a meu neto os primeiros cuidados, corri ao quarto do oratório, ajoelhei-me defronte da Virgem-Mãe, e aí, com a alma também parturiente e aliviada das ânsias e sobressaltos que a pejavam, agradeci os céus, entre lágrimas consoladoras a ventura que eles nos enviavam.

Mas tornei logo para junto da enferma. Tomei-lhe a cabeça no regaço, e foi assim que Palmira adormeceu, como nos outros tempos, quando eu era moça e ela pequenina.




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- XXII -

Mês e meio depois do nascimento de meu lindo netinho, recebia Leandro na Europa uma carta que o chamava para junto da esposa.

Fomos buscá-lo a bordo e César foi conosco.

A mulher que restituí aos braços e aos lábios sequiosos de meu genro era de novo a formosa criatura que ele deixara oito meses antes; se não é que, com cumprir o seu mais alto destino de mulher, ganhara geral e do riso dos convivas -seu coração sangrava verdadeiramente belas e viçosas depois de darem o seu primeiro fruto.

Ele também vinha mais forte e bem disposto. Notei, no seu primeiro olhar trocado comigo, depois que cobriu de beijos sôfregos as faces, as mãozinhas e os pezinhos de seu filho, que Leandro me não guardava rancor, e estive quase a acreditar que ele já tivesse afinal chegado a compreender-me. Mas percebi logo o meu engano: ainda era muito cedo para tanto. Um homem vulgar não compreende assim tão facilmente as complicadas delicadezas de um coração de mãe.

César, esse é que me compreendia bem e tomava parte direta nas minhas alegrias e nas minhas vitórias. Com que ar de satisfação acompanhou o meu bom amigo, essa tarde, a reentrada de meu genro em casa da mulher, e com que sinceridade de contentamento se tornaram a ver!

O nosso jantar foi uma festa. Houve brindes, dirigidos quase todos ao pequerrucho, que compareceu à mesa nos braços da ama, e que, valha a verdade, se portou muito incorretamente. Ainda não vi criança para berrar tão forte, nem para ensopar cueiros daquele modo!

À noite vieram visitas; tocou-se, cantou-se e dançou-se. Atentando para uma das amigas de Palmira, acompanhada à nossa casa pelo marido, a qual também, havia poucos meses antes, tivera o seu primeiro filho, não me pude eximir de comparar esse casal com o meu casal, e reconhecer quão diferente era nos dois pares o modo por que se mantinha e conduzia cada um de per si. No entanto, o casamento daqueles era sem dúvida muito mais recente que o de Leandro com minha filha...

Não me contive e disse ao ouvido desta:

-Olha! ali tens uma infeliz, cujo parto foi com certeza fiscalizado de perto pelo marido. Vê como os dois nunca se aproximam francamente um do outro, e repara como só conversam quando há uma terceira pessoa que forneça o assunto. -Estão separados pelo filho!...

E, porque Palmira fizesse um vivo gesto de surpresa com esta última frase, acrescentei em segredo, para bem lhe explicar minha sentença: -O filho, desde que o pai assista ao seu nascimento, é um traço de união moral, um laço de amizade, que se estabelece entre os dois indivíduos donde ele nasce, mas é ao mesmo tempo uma fria linha isoladora, que se cava para sempre entre o corpo de um homem e o corpo de uma mulher, que sensualmente até aí se amavam e se queriam.

Ela teve para mim um sorriso inteligente, em que lhe veio ao rosto toda a sua gratidão pelos meus desvelos, e o seu sorriso desabotoou-se num beijo que recebi na face. Quis detê-la ainda um instante, Leandro, porém acercou-se de nós, com o seu ar de namorado feliz, passou-lhe o braço na cintura, e os dois afastaram-se, rindo e conversando intimamente.

Sentia-me um pouco fatigada. As canseiras daqueles últimos tempos deixaram-me abatida. Doíam-me as costas e o peito. Levantei-me com intenção de ir lá dentro tomar um copo de leite quente com uma gota de conhaque, quando um fato, em extremo desagradável, veio interromper a nossa festa: Acabava de chegar da casa do Dr. César um recado exigindo que ele seguisse imediatamente para lá, porque a irmã, que nesse dia se mostrara aliás muito melhor, fora, ao cair da noite, acometida por uma terrível hemoptise e parecia agora em perigo de vida.

O bom homem não esperou segunda ordem para tomar às pressas o sobretudo, o chapéu e a bengala. Corri a ter com ele e pedi-lhe, enquanto agitado me apertava a mão, que, se o caso fosse com efeito grave, me mandasse prevenir logo ao chegar a casa.

Infelizmente era. O mesmo cocheiro do nosso carro, em que fora o Dr. César, voltou com a notícia de que D. Etelvina agonizava. Entreguei logo a casa a meus filhos, agasalhei-me, tomei o meu livro de orações, despedi-me das visitas, e segui por minha vez, mandando puxar bem pelos cavalos.

César morava na praia do Flamengo. Quando cheguei lá, a pobre senhora expirava nos braços do irmão. Muito magra, muito descorada, com os olhos imóveis e sem fito, a boca ressequiada babando sangue, o nariz luminoso e com um brilho sinistro, ela era apenas uma fugitiva sombra humana, que se exinania em soluços de morte.

Havia algumas pessoas presentes, mulheres e homens. Ajoelhei-me ao lado da cabeceira da cama, abri o meu livro de orações e pus-me a rezar em silêncio. A moribunda já não dava acordo do que se passava em torno do seu aniquilamento. Um colega de César, que com este lhe acompanhara a moléstia, sacudia os ombros desanimado, pronto já para sair.

E ali, dentro daquele quarto, defronte dos nossos olhos, uma vida apagou-se, deixando vazia e fria a quebradiça lâmpada de argila. Ninguém dava palavra, e todos, em volta, contemplavam o cadáver, como, se a força de fitá-lo, procurassem compreender, alguma coisa daquele fato tão comum e sempre tão extraordinário e tão comovedor.

Eu já não rezava, fitava-o também, como os outros, pensando nesse misterioso destino de todos nós. E lembrei-me de meu neto, que, com o mesmo mistério daquela retirada, havia pouco antes entrado na vida. Um a chegar e outro a sair!... Donde baixava ele?... e ela, para onde descia?... De que vívido manancial e para que fundo e soturno depósito -vinham e iam essas pobres almas, que vemos passar ruidosamente no cenário da existência, entrando e saindo pelos bastidores de treva?... O que haveria lá dentro, na misteriosa caixa desse teatro, onde talvez não repercuta uma só gargalhada ou um único soluço da comédia ou da tragédia que representamos cá fora?... Por que seria que os atores não voltavam nunca à cena, mesmo depois de muito aplaudidos?... Ou quem sabe se voltariam, mas já descaracterizados e já irreconhecíveis para aqueles que em vida os vitoriaram com o seu amor ou com o seu ódio!...

Trevas e trevas!

Uma velha amiga da morta interrompeu o seu pranto, para pedir aos homens que se retirassem dali: ia preparar-se o cadáver para entrar na terra. Nessa ocasião, César encarregava um amigo de cuidar do enterro. E nenhuma de nós descansou um instante até que o corpo de Etelvina, depois de lavado, vestido, penteado e calçado, foi posto sobre um sofá da sala próxima, com as ósseas mãos cruzadas sobre a carcaça do peito, e com o escaveirado queixo seguro por um lenço de seda branca. E, à cabeceira do sofá, armou-se uma mesa, coberta por uma toalha de rendas, com a imagem de Cristo crucificado, entre duas velas de cera, que ardiam com uma luz amarela e fumegante.

Então, assentaram-se todos em volta do cadáver, e continuaram a contemplá-lo. E o silêncio foi de novo se condensando, numa oprimidora harmonia com o frio da madrugada e com o longínquo ladrar dos cães lá fora na rua. E mais e mais pesada e úmida se foi fazendo a tristeza. As velas, ao lado do crucifixo, pareciam chorar com aquelas suas quentes e longas lágrimas de cera, a escorrerem-lhe em vagarosos fios e a pingarem, gota a gota.

A primeira mosca pousou no lábio da defunta.

Em torno, numa desolação muda, ouvia-se de longe em longe, um longo suspiro. E tristes figuras, negras de luto, permaneciam imóveis, com o queixo apoiado na mão -a fitar o cadáver.

Eu também o fitava sempre, irresistivelmente, sem saber por quê.

Serviu-se café. Tomei a chávena que me levaram e continuei a encarar o cadáver... Mas, de súbito, uma idéia, que nunca até então me viera ao espírito, atravessou-me o coração de lado a lado, como com aquela mesma agulha que eu vira pouco antes coser o lençol da defunta: «E se a minha hora estivesse também a bater?... Sim, nada mais natural!... Achava-me velha, fraca; sentia-me doente... podia pois morrer de um momento para outro!... E minha filha?! ficaria para sempre abandonada à imprevidência moral do marido, sem ter quem lhes dirigisse a vida?... Mas assim, os dois acabariam fatalmente por cair na vulgaridade do casamento e no tédio da promiscuidade sexual!... E a minha obra, tão penosamente levada ao ponto em que se achava, seria perdida, completamente perdida!...»

Esta idéia fez-me fechar os olhos, para não ver o cadáver. Compreendi que outras pessoas que lá estavam em redor dele e pareciam dormir, tinham apenas, como eu, fechado os olhos, também para não ver a morte.

Como me sucedia sempre ao preocupar-me qualquer idéia sem pronta solução, pensei em César, e lembrei-me de que, havia talvez mais de duas horas, notara eu a sua ausência da sala, e não tivera por conseguinte trocado com ele senão algumas frases de pêsame oficial, em presença de estranhos; e que, pois, não lhe havia recolhido ainda uma só palavra de dor, quando aliás devia o meu pobre amigo estar mortalmente ferido no coração: -Aquela sua irmã, agora ali finda e putrescente, era toda a sua última família, era a sua extinta comunhão doméstica!... E eu sabia perfeitamente quão extremoso fora o amor que os ligara por mais de vinte anos. Ainda não lhe tinha visto uma lágrima -devia sofrer muito! Precisava ir para junto dele...

Levantei-me à sua procura. Talvez estivesse no seu gabinete de trabalho. Fui ver.

O gabinete tinha luz e o reposteiro estava corrido. O pobre homem lá se achava com efeito, sozinho, assentado à secretária, o rosto escondido entre as mãos, de costas voltadas para a porta de entrada. Os seus cabelos brancos, cortados à escovinha, brilhavam argentinamente ao reflexo da luz do gás que lhes batia de cima.

-Posso entrar, César?...

Ele ergueu-se com sobressalto e veio receber-me. Tomou-me as mãos, puxou-me para junto de si, fechou-me nos braços sobre o peito, e desatou a soluçar, como se só esperasse por mim para dar curso àquela explosão de desabafo.

Eu compreendi -cerrei-o forte no meu colo e pousei a cabeça no seu peito generoso, procurando fazê-lo sentir, bem no fundo do coração, que ainda lhe ficava neste mundo de misérias -uma irmã, uma amiga, uma camarada fiel, para o amor estremecidamente como a outra o amara durante a vida inteira.

E assim estivemos muito tempo, estreitados nos braços um do outro, a chorarmos ambos, sem achar nenhum de nós uma palavra, dele para mim, ou de mim para ele.

Ia, no entanto, naquela ocasião, decidir-se entre nós dois o fato mais extraordinário de toda a nossa existência.




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- XXIII -

Ele afinal fez-me tomar uma cadeira e assentou-se perto de mim. Nunca lhe tinha visto a fisionomia que lhe vi nesse momento: Ela dizia ao mesmo tempo todos os velhos, intermináveis desgostos do seu passado roto e sem fundo, e todo o desespero do seu presente restrito e sem saída. Num relance veio-me ao espírito a síntese da sua longa existência de sessenta e tantos anos -um rosário de lutos: Mulher, filhos e genros foram todos pouco a pouco caindo em torno da sua velha dor sobrevivente, até que a última da família, aquela retardatária irmã que o estremecia, lhe fugia também agora, depois de uma tossegosa e sofrida existência de hética!

-Acabou-se tudo!... murmurou o infeliz, como se seguisse o rápido vôo do meu pensamento.

Tomei-lhe as mãos.

-Não... disse em segredo, que minha lágrimas tornavam mais abafado e íntimo, ainda lhe resta uma amiga, uma irmã, uma companheira...

Ele levou à boca as minhas mãos, que se orvalharam nas suas barbas úmidas de pranto.

-Mas como hei de viver agora?... prosseguiu. Como hei de viver sozinho aqui, neste frio hospital abandonado, donde vi saírem, um a um, para o cemitério, todos os entes que me pertenciam?... Diga, minha amiga, diga-me como hei de suportar esta miséria? -E cobriu o rosto com o lenço, soluçando mais forte. -Ah, destino injusto e perverso!... levar-me a morte os outros todos e deixar-me a mim, o mais velho e o mais necessitado de morrer! O que fico eu fazendo aqui... O que fico fazendo?...

A sua agonia retalhava-me o coração. Chamei-lhe a encanecida cabeça para o meu colo de amiga, e assim ficamos longo tempo, calados ambos.

As moscas, acordadas essa noite com a presença de um cadáver na casa, zumbiam alegres no silêncio do quarto.

César desviou-se do meu colo e deixou-se ficar cabisbaixo, com as mãos nas minhas. Compreendi que nesse instante o meu pensamento ia caminhando ao lado dele, em silêncio, como dois velhos e tristes companheiros inseparáveis; e por fim o nosso pensamento foi se derretendo apenas em palavras, apenas balbuciadas. César começou a falar em voz muito baixa, soturnamente, como se temesse acordar a irmã, que dormia lá na sala, no seu leito frio. Falava em segredo, com o rosto quase unido ao meu, numa surda conspiração contra a vida. Era o resíduo do seu pobre coração, já de muito tempo despedaçado, que vinha agora assim diluído pelas lágrimas.

E ele murmurou, como num sonho:

-Ultimamente, minha Olímpia, uma estranha amargura me persegue... a nosso respeito -uma dor secreta, penosa como um arrependimento tardio... alguma coisa da mágoa de não ter colhido a felicidade, no bom momento em que ela nos passou cantando diante dos olhos... um irremissível desgosto de não ter sido em tempo o teu marido ou me ter feito teu amante...

Abaixei os olhos. Era a primeira vez que falávamos abertamente do nosso velho amor.

César prosseguiu no mesmo tom: -Sim, sim, minha amiga... nós nascemos um para o outro!... Foi uma tremenda infelicidade não nos termos encontrados antes dos nossos loucos casamentos... ou não termos então rompido com todas as conveniências e com todas as convenções -para nos unirmos para sempre; para nos pertencermos, exclusivamente, sem o menor desvio da nossa ternura; e para que enfim pudéssemos ser agora, minha amada, inseparáveis companheiros neste fim de vida!...

-Não... respondi, não meu querido amigo, não seria a mesma coisa; não seríamos ainda hoje moralmente e virtualmente consorciados como somos. O matrimônio carnal é incompatível com a amizade, com a verdadeira dedicação, porque vive dos sentidos e não do sentimento... se tivéramos algum dia unido os nossos corpos, as nossas almas estariam hoje separadas! Se algum dia tivéramos tido em nosso consórcio, que foi tão claro e tão casto, outros laços que não o desta profunda e delicada afeição que nos irmana; hoje, que somos velhos ambos e pois inúteis para a sensualidade, não teríamos -tu em mim a tua consoladora amiga; eu em ti o meu derradeiro amor...

César encarou-me surpreso:

Como assim? Pois eu negava o amor dos sentidos ligados ao sentimento do amor?...

-Certamente. Na língua não há palavras para exprimir essas duas coisas tão diversas e até tão opostas: -o amor produzido pelo instinto sensual e o amor produzido pela simpatia a atração moral de dois espíritos, que se procuram e se casam. O grande erro do casamento vulgar, o que o torna insuportável, é pretender aliar o instinto da procriação com o sentimento do amor ou da amizade, que nada tem a ver com ele e até o repele. O irracional também é como o homem suscetível de apego de amizade, nunca porém se preocupa com isso, quando trata de cumprir o seu mister procriador. O homem não deve ter comunicação carnal com a mulher que ama!

César mostrava-se cada vez mais surpreso.

-E tua filha!... interpelou ele; tua filha não ama e não é amada pelo marido?...

-Ama sensualmente, respondi; mas, para o outro amor, para este que nos ligou até hoje, ela está perfeitamente incompatibilizada com ele. O marido não pode ser nunca o amigo. O esposo do corpo não pode ser ao mesmo tempo o esposo da alma; e nisto estava a razão de ser e a grande força dos confessores primitivos. Mas o padre não era amigo sincero e nem sempre foi leal e foi casto; daí, a causa única por que ele não persistiu e não ficou para sempre nos caudais junto à mulher e ao lado do marido.

César meditou um instante, e disse depois:

-Tens razão talvez... O que não impede que, apesar de nos amarmos sempre e apesar de termos nascido um para o outro, e apesar dos meus sessenta e cinco anos, e apesar de que sejas agora uma avó de cabelos brancos, não possamos viver juntos, como eu vivi até hoje com minha irmã, porque não somos casados... E, se aqui te detenho comigo, assim neste gabinete, se te cingi ao meu peito e te guardei um instante nos meus braços já trêmulos, é porque há aí a pequena distância de nós um cadáver que tudo justifica; ao contrário nem isso mesmo seria razoável!... Vê tu que escravidão a nossa!

-É a convenção social, meu amigo... Sofra-se tudo; suportem-se todas as misérias, mas não se falte nunca aos seus preceitos! Mas, antes de aparecer esse mesquinho código arranjado pelo homem, já um outro existia, imposto pela natureza, muito mais sábio, mais justo e mais generoso; e esse mesmo homem que reclama, sob pena dos maiores castigos, o bom cumprimento do seu código, calca aos pés, a cada momento, as leis do outro, sem receber por isso, dos seus semelhantes, a menor punição! De sorte que eu, tenho uma amiga a quem estremeço, com quem poderia arrastar menos tristemente o sudário da minha velhice, não hei de valer-me da companhia dela, nem usar livremente da sua casta amizade, porque o tal código social não mo permite! É caso para lamentar não seres tu homem, ou não ser eu mulher!

-Não, César, nada aproveitaríamos com ser do mesmo sexo... Nunca houve equilíbrio perfeito de qualquer amor senão entre pessoas do sexo diferente. O amor que te tenho, apesar de ideal, nunca poderia eu senti-lo por outra mulher, fosse esta minha mãe, minha irmã ou minha filha...

-Mas, meu Deus, isso é a negação das tuas teorias sobre o casamento...

-Não... Por quê?...

-Segundo o que acabas de dizer, duas pessoas de sexo diferente podem então, sem incompatibilidade, viver eternamente juntas...

-Decerto, desde que se amem castamente como nós dois nos amamos, e não tenham entre si a menor aproximação carnal. O que incompatibiliza moralmente os cônjuges é o amor físico. Se dois amigos de sexo diferente pudessem, na plenitude da mocidade, realizar um consórcio naquelas condições, e vivessem juntos sem a menor preocupação dos sentidos, seriam eternamente felizes e cada vez mais se amariam, porque para eles a convivência constante, ao contrário do que sucede aos que se unem pelo sexo, longe de enfraquecer-lhes o amor, havia de ir cristalizando-o lentamente, até fazê-lo atingir o supremo estado de pureza, inquebrantável e límpido como um diamante. Seria esse o único casamento eterno!

-E os filhos?...

-Que filhos? Acaso figuraste semelhante hipótese, quando há vinte anos te uniste eternamente a essa tua pobre irmã, que acaba de morrer, deixando-te a alma viúva do seu amor?...

-Eu a amava, justamente porque ela era minha irmã...

-E nós somos irmãos, justamente porque nos amamos. E assim deve ser entre todos os homens e todas as mulheres que se amam.

-Oh! seria isso a extinção da espécie... a não ser que, em tal casamento, a cada um dos consortes assistisse o direito de ir buscar fora do casal, onde melhor o levassem os seus apetites carnais, a satisfação do instinto procriador!...

-E por que não? O instinto materialíssimo da procriação nada tem que ver com o amor, isto é, com o verdadeiro sentimento de humanidade elevado ao seu mais alto grau de comoção. A fêmea é para o macho -produzem; a mulher é para o homem -amam-se. Entre os que se ajustam instintivamente, não pode existir o amor, só há sensualidade! É o caso de minha filha e meu genro; é o contrário do nosso caso!

-Então, para que fazer questão de sexo?...

-Porque, repito, entre duas pessoas do mesmo sexo, a não ser no caso particular do amor materno, que é um desdobramento do amor-próprio, só pode haver ligeiras relações de estima e simpatia. Amor, verdadeiramente amor, só pode existir entre o homem e a mulher; só entre estes se fará inteira confiança de parte a parte; inteiro equilíbrio de espíritos e de corações. A sexualidade física refletindo-se no moral é tão poderosa que se estendem até aos pais com relação aos próprios filhos, ou vice-versa. A filha ama sempre mais o pai do que a mãe, e o filho mais a mãe do que o pai. Pode-se afirmar que não é só o corpo que tem sexo, a alma também o tem, e só a alma de uma mulher pode compreender a alma de um homem e só por esta pode ser compreendida. Há muita coisa que um homem não confia ao espírito de outro homem nem uma mulher ao de outra mulher. Eu, por exemplo, em caso nenhum teria jamais revelado a outra pessoa do meu sexo tudo que até hoje te relatei da minha vida íntima e dos meus íntimos pensamentos; e tu, meu velho amigo, juro que também não serias capaz nunca de pôr a alma nua defronte de nenhum homem, como tantas e tantas vezes a exibiste defronte dos meus olhos. Por quê? porque sempre nos amamos sinceramente, e muito, tanto quanto é possível, sem nunca todavia depravarmos o nosso amor humano com a rasteira preocupação de nossos instintos bestiais! Se o tivéramos feito, não te poderia eu falar agora deste modo, nem tu me ouvirias a sério e de boa-fé, como me estás ouvindo: Rir-nos-íamos um do outro; achar-nos-íamos ridículos!... Os indivíduos, sujeitados e unidos pela sensualidade, quando se acham a só os dois, só podem falar com empenho dos interesses do próprio instinto que os uniu, seja dos interesses do gozo sexual, ou seja dos interesses dos filhos; no mais, as poucas e frias palavras que trocam entre si são concernentes a coisas chatas, caseiras e materiais como o mesmo amor que os liga. E nós, desde o primeiro dia em que nos conhecemos até hoje, conservamos um para o outro a mesma poesia de amor?

Calei-me, e só então notamos que o dia acabava de invadir o gabinete por uma larga janela envidraçada.

César ergueu-se, e eu também. Ele, lívido com aquela noite de insônia e de lágrimas, parecia um espetro.

Adiantou-se lentamente para mim, estendendo-me as mãos trêmulas.

-Se assim é... disse-me comovido e suplicante; não nos separaremos mais!... Vivamos juntos este resto de vida, unidos por este elevado amor de que me falas!... Posto nossas almas há muito se esposaram, casemo-nos, já que assim o quer a sociedade; e que eu te possa ter a meu lado, e que eu te fale e te veja todos os dias, a qualquer instante; e que eu possa contar contigo, minha amiga, perto do meu leito, quando este pobre corpo morrer de todo!

Abaixei a cabeça.

Depois de uma longa pausa, tartamudeei muito triste:

-Ninguém nos compreenderia... Seríamos cobertos de ridículo, por todos, por minha família, até por minha filha!

-Não! insistiu ele. Não acontecerá assim: Já todos se habituaram a ver em ti um espírito superior, emancipado de preconceitos mesquinhos. Casar-nos-emos para poder viver perto um do outro, mas separados de corpo, como dois irmãos. Lembras-te de que hoje tua família é o meu único herdeiro e eu preciso justificar publicamente esse fato. Não me abandones aqui com as minhas saudades, sem ter eu um coração onde aqueça esta velha alma tua amiga! Casando-me contigo, minha querida irmã, não é só uma companhia que trarei para meu lado; Palmira será também minha filha e Leandro será meu filho... E eu terei o direito de amá-los e de importuná-los um pouco com as minhas rabugices de velho... E terei, para se rir de mim, para puxar-me as barbas e trepar-me pelas pernas, o teu netinho, Olímpia! Ele, o diabrete, vendo-me todos os dias a teu lado e habituando-se a brincar comigo, acabará por amar-me, como se com efeito fosse neto de nós dois... e só a idéia de que lhe ouvirei ainda chamar-me «Vovô»! só com esta idéia... vês tu, minha filha?... correm-me já as lágrimas pelo rosto!

Aproximei-me dele, para cingi-lo nos meu braços.

-Descansa, respondi-lhe. Não ficarás abandonado, meu bom amigo! Mesmo nestes pesados dias de nojo serei desde já a tua companheira. Logo mais voltarei com Palmira, para passarmos três dias contigo. Leandro ficará lá em casa durante esse tempo.

César amparou-se em mim, soluçando. Entre as suas lágrimas só uma palavra compreendi das que me disse: «Obrigado! Obrigado!» Depois tomou-me a cabeça entre as mãos e beijou-me na testa. Eu lhe respondi com um beijo igual.

Foi o primeiro beijo que trocamos em toda a nossa longa vida de amor.

Ao sair do gabinete, dirigi-me logo para a sala em que estava o cadáver. Em volta dele pareceu-me tudo ainda mais triste com aquela deslavada luz do amanhecer. As raras pessoas que ficaram a guardar a morta dormiam nas suas cadeiras, com a cabeça pendida sobre o peito. As velas choravam sempre, e mais sinistras achei agora as suas lágrimas. O corpo, já completamente rijo, fazia mais frio o ambiente, e um ligeiro fedor úmido evolava-se dele.




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- XXIV -

Quando, pela manhã, cheguei a casa, sentia-me muito mal disposta. Era sem dúvida a reação de todas aquelas canseiras acumuladas ultimamente. -Mas tudo isso passaria com algumas horas de absoluto repouso. -Recolhi-me ao quarto, quase sem forças para despir-me. Despedi a criada, recomendando-lhe que não me chamasse enquanto eu estivesse na cama.

Deitei-me, e comecei a pensar, à espera do sono; teria eu ânimo de realizar a boa ação que vinha de prometer ao meu amigo?... Teria a coragem de afrontar com o ridículo, que porventura iria despertar aquele casamento feito entre dois velhos?... Compreenderiam essa ligação moral; esse esposório de duas almas amigas, que se estremecem e se buscam, através, de uma existência inteira; e afinal se abraçam, não para a satisfação do amor, mas para afugentar o medo que, separadas e sozinhas, sentiria cada uma no frio resto do seu caminho já ensombrado pela morte?...

Não, com certeza, ninguém compreenderia! Não obstante, esse casamento, singular embora, era perfeitamente lógico e era essencialmente humano! Em que e por que o amor e os reclamos da alma valem e merecem menos que as sensuais necessidades do corpo?... Acaso a solidariedade da carne, instinto de todo animal, é mais digna que a solidariedade do espírito, privilégio exclusivo do homem?... Pois tão facilmente aceitavam todos e compreendiam a conveniência de um companheiro para os nossos sentidos inconscientes, e não compreenderiam a razão de um companheiro para o nosso espírito, que é a parte racional do ser humano, o que o sobreleva dos brutos e o que o aproxima de Deus?...

Não, ninguém compreenderia!... Entretanto, aquele casamento seria de grande utilidade, nem só para meu velho amigo, como para mim própria. Cansada já, precisava ter mais perto o meu auxiliar na obra da felicidade matrimonial de Palmira; precisava de um substituto imediato para as faltas, que eu seguro iria fazer agora no meu posto de vigia. De resto, e talvez principalmente, a expectativa de ter César a meu lado neste último quartel da vida, enchia-me o coração de uma inefável esperança de completa felicidade moral.

Mas, que diria meu genro?... que pensaria minha filha?...

Oh! para esses ficaria tudo, mais tarde, explicado neste manuscrito, que em tempo lhes chegaria às mãos! E, quanto ao mais -já muito fazia eu em dar-lhes a pública satisfação do casamento!

Sim! estava resolvido -César viria acabar seus dias a meu lado!

E comecei a pensar na disposição da casa para acomodá-lo convenientemente, e até em nosso futuro modo de viver.

Havia um aposento magnífico para ele, e o meu quarto de trabalho, que era vasto, passaria a ser comum entre nós dois. Seria o nosso ponto principal de convivência: Enquanto César aí estivesse ocupado lá com os seus trabalhos, estaria eu costurando, lendo ou escrevendo; e isso não impediria que minha filha continuasse a passar nessa mesma sala, as horas que costumava passar comigo.

E via já o meu velho camarada, ao almoço e ao jantar, assentado ao lado de meu neto, a rirem-se os dois um com o outro, a brincarem, como duas crianças. E via-o depois passeando conosco, nas belas manhãs de Petrópolis, levando-me pelo braço, feliz com aquela família toda inteira e completa, que eu lhe dava, como um presente de bodas, para consolação do resto da sua existência. E via-o à noite, na sala, de cabeça coberta e lenço ao pescoço, jogando comigo antes do chá; enquanto Palmira ao piano acompanhava o enamorado e choroso bandolim do marido. E via-o afinal, estendido no seu leito extremo, já prestes a deixar a vida, guardando minhas mãos nas suas, e entregando-me o último suspiro da sua alma irmã da minha, tão generosa, tão adorável e tão pura.

Mas o sono não vinha e a minha indisposição crescia vivamente. Dolorosos calefrios obrigavam-me a encolher-me toda debaixo dos cobertores. Sentia doer-me o lado da cintura, a boca seca, o estômago ansiado. Compreendi que não podia dormir. Tateei o tímpano, vibrei-o e pedi à criada uma chávena de chá bem quente. Ao tomar os primeiros goles, vomitei logo, e senti dores no estômago.

Quando minha filha, alvoroçada com a notícia do meu incômodo, me procurou aflita, eu ardia em febre e não podia conter os gemidos. Meu genro veio também pouco depois, todo de luto, já preparado para o enterro de D. Etelvina, que seria à tarde. Apesar do sofrimento, falei-lhes no abandono em que ia ficar o nosso Dr. César e no estado de desconsolo em que eu o deixara ao lado do cadáver da irmã, último parente que lhe fugia para debaixo da terra.

Leandro prometeu-me que lhe faria uma visita logo em seguida ao almoço e ficaria com ele até as horas do saimento. Pedi-lhe mais que, depois do enterro, o não deixasse sozinho naquele casarão triste e solitário; que, em meu nome, o persuadisse de vir para junto de nós, ao menos por esses primeiros dias; e lhe dissesse que eu não podia ir lá com Palmira, como prometera e tencionava, mas que viesse ele; entregasse a casa aos serventes e trouxesse de companhia o seu velho criado Antônio. Era isso o bastante.

Recebidas estas disposições, Leandro saiu do quarto, e minha filha começou a tratar de mim, convencida, como eu, de que era passageiro o mal. Não valia a pena chamar médico; César viria à tarde ou à noite e daria as providências necessárias. A despeito da minha crescente indisposição, perguntei a Palmira que tal lhe parecia a idéia de convidarmos o meu velho amigo para ficar morando indefinidamente conosco. Ela não se abalou com o alvitre, como esperava eu.

-Ali, disse, todos queriam e estimavam tanto o Dr. César, que este era para a família menos um estranho que um parente.

Recomendei-lhe então falasse a esse respeito com Leandro e desse-me depois sincera conta da impressão que semelhante idéia produzisse no ânimo dele.

-Ora! respondeu minha filha. Leandro é deveras amigo do velho César. Mamãe bem sabe que ele o estima e respeita como a um pai! Há de sem dúvida ficar satisfeito com a notícia...

-Sim, mas fala-lhe, porque talvez não fiquem as coisas neste ponto.

O pior é que o meu padecimento aumentava, e do meio para o fim do dia, tão mal me achei e tão pouco acordo de mim, que não posso agora render cópia exata do que se passou. Caí em modorra de febre; creio que delirei. Sei apenas que César veio logo ao fechar da noite; que me receitou; deu-me a tomar os remédios e não me abandonou até o momento em que, já tarde, Palmira o constrangeu a recolher-se ao quarto que lhe destinávamos.

E eu, que o tinha chamado para aliviá-lo das suas penas, recebia agora dele os desvelos de amigo e os cuidados de médico e de enfermeiro. O que supúnhamos febre passageira era nada menos que uma inflamação de fígado. A moléstia caracterizou-se nessa mesma noite com a alteração da glândula, e o Dr. César fez logo o seu diagnóstico: «Hepatite intersticial, proveniente de impaludismo.»

E tive de guardar o leito no dia seguinte e nos outros imediatos, mostrando-se César ao meu lado de uma solicitude sem igual.

Mas, ao fim da primeira semana, reconhecíamos já que a nossa posição era falsa. Desde que constou a minha enfermidade, começara as visitas, algumas de mera cerimônia, outras de verdadeira estima; e o meu pobre amigo confessava-se constrangido ali, à vista dos estranhos. Além disso, era natural que ele, sem estar de todo transferido lá para casa, sentisse falta dos seus velhos hábitos; homem, como sempre foi dado metodicamente a longos estudos e a trabalhos científicos. Não me animava contudo a propor-lhe a mudança absoluta, sem a justificativa do casamento. E a situação dentro em pouco, complicou-se ainda mais, pela contingência em que me vi de ter, para segurança de cura, de aproveitar, ainda no primeiro período da moléstia, a estação das águas de Caxambu.

Foi assim que se resolveu em família, e logo se apressou, o nosso singular casamento.

Como ainda não podia eu sair à rua, tivemos de solicitar uma licença da Igreja para realizá-lo em casa. Não foi difícil, e a formalidade religiosa durou pouco tempo, sem grande escândalo na vizinhança.

As pessoas de nossa amizade receberam a comunicação do fato nos seguintes termos:

«Olímpia da Câmara e o Dr. César Veloso participam a V. Ex.ª que contraíram o direito de passar juntos a sua velhice, aparentando-se legalmente pelos vínculos conjugais.»

Não sei se a novidade foi muito comentada lá fora, nos vários grupos das nossas relações; não mo disseram, nem eu tampouco a ninguém perguntei. Quanto a lá por casa -Ah! isso foi diferente: O senhor meu genro não procurou sequer disfarçar o riso que o fato lhe provocava! O leviano, sem atingir o alcance do meu proceder, só nele via o ridículo casamento de dois velhos. Perdoei-lhe, não obstante, ainda essa descortesia, porque ela não era obra da maldade do seu coração, mas só da sua inferioridade moral.

Palmira, essa não riu logo, pelo menos em minha presença; ficou a cismar, sem ânimo de interpelar-me, e daí por diante evitava até de entrar em conversa comigo sobre este assunto. Mas, com César, já não foi tão generosa, porque um dia a surpreendi a faceciar contra o padrasto a respeito do caso. Ele, não sei o que tinha dito, que ela com aqueles seus modos de rapariga travessa, pois nunca os perdeu de todo, tomou-lhe as lunetas, armou-as no nariz e começou a arremedar os meus gestos e a minha voz, exclamando comicamente, com o dedo no ar e a cabecinha empertigada:

-Casaram-se?... Está muito bem! mas não consinto que fiquem juntos muitos dias seguidos... Não! não! a felicidade conjugal, meu caro Dr. César, é nisto que se baseia! E se duvida, vou já buscar-lhe a Bíblia!...

César pôs-se a rir, e eu não pude deixar de fazer o mesmo. Ela, ao dar comigo, que a espreitava, ficou desapontada e corrida: desprendeu as lunetas do nariz, entregou-as ao dono; e o diabrete veio correndo atirar-se-me ao pescoço e pedir-me com seus beijos o beijo do meu perdão.

Todavia, eu continuava doente. Realizou-se a mudança definitiva de César lá para casa, e daí a dois dias arribamos todos para Caxambu. Fui bem prostrada.

No fim de um mês de águas estava de pé, mas compreendi que me havia empolgado a moléstia que terá de matar-me. Alguma coisa se modificou no meu ser físico, alguma coisa em mim se quebrou para sempre. Reconheci que um novo marco divisório se firmara na minha existência, separando o último período vivido de um novo período que começava. Este deve ser naturalmente o último, porque em minha família nunca vamos além dos sessenta anos.

Agora, porém, que me importava a idéia de morrer, se estava tudo bem disposto para garantir a felicidade dos entes queridos que eu deixava no mundo?

Depois de três meses em Caxambu voltamos à nossa casa de Laranjeiras, e de novo entrou definitivamente nos seus eixos a nossa vida doméstica, mais completa agora com a presença de César. Pouco a pouco, à vista da atitude que guardávamos, eu e meu esposo, Leandro foi compreendendo a nossa verdadeira situação. Deixou de rir; e, tanto ele como Palmira começaram a envolver o meu venerável companheiro na mesma atmosfera de carinhoso respeito em que ela sempre me teve e em que aquele ultimamente me firmava.

A minha aliança com César era a de dois velhos irmãos amoráveis; e o exemplo do nosso mútuo respeito, da inalterável delicadeza de palavras e maneiras que mantínhamos um pelo outro, e principalmente a ação constante daquela nossa profunda amizade, casta, sagrada, e puramente espiritual, não tardaram a dar de si os frutos que eu pressupunha, refletindo-se diretamente no ânimo de minha filha e de meu genro. Foi para eles tão eficaz e poderoso o efeito desse exemplo de amor impoluto, que no fim de alguns meses se tornava de todo desnecessária a minha intervenção para obrigá-los a cumprir o regime de vida que eu lhes impusera, sem haver, não obstante, desfalecimento de amor sensual por parte de nenhum dos dois. Ou porque tivessem afinal se habituado às periódicas separações de leito, ou porque compreendessem já o seu valor e eficácia; ou fosse enfim que o alto exemplo da nossa calma ternura lhes apurasse o espírito e lhes aperfeiçoasse o coração, o certo é que eles iam agora, sem esforço, naturalmente, vivendo como lhes ensinara eu a viver, e confessavam-se felizes; e, pela primeira vez, mostravam-se gratos ao meu maternal desvelo.

Com a convivência Leandro foi cada vez mais se fazendo filho de César; afinal muitas vezes, nos seus regulares afastamentos do tálamo, meu genro dormia no mesmo quarto com o padrasto, e Palmira e meu neto dormiam comigo. E iam-se assim os dias passando, sem a mais ligeira nuvem de desarmonia, sem o menor atrito de caracteres, nem sombras de descontentamento, porque, ao contrário do que em geral sucede nas famílias ainda mesmo pouco numerosas, não formávamos pequenos grupos conspiradores; não havia segredos entre todos nós, nem por conseguinte podia haver ressentimento.

A liberdade moral e física de cada um era completa, sem despertar nos outros o vislumbre de uma ofensiva suspeita. Leandro entrava e saía de nossa casa livremente; ora dormia, ora não dormia perto da mulher, e deixava de aparecer-lhe nos dias que lhe convinha, sem que isso nela despertasse ciúmes ou enfados de despeito.

Sem o preclaro exemplo da minha comovida e amorosa castidade, não sei se poderia, apesar do empenho que pus em dirigir a felicidade de Palmira, ter evitado entre ela e o marido as ridículas contendas e as enervantes misérias do matrimônio. E com efeito -que bela lição de amor e que virtuoso exemplo de ventura não era esse casal de velhos, assim vivendo unidos só pelo coração e pelo espírito, sem jamais se fatigarem da presença um do outro, sem nunca precisar nenhum dos dois fingir nos seus sorrisos e nas suas palavras de ternura!... Ah! tínhamos sempre o que conversar, porque bem pouco falávamos de nós mesmos, o que eqüivale a falar dos nossos instintos ou dos nossos interesses materiais. Podíamos penetrar desassombradamente em todos os assuntos, discutir os pontos mais elevados da moral e da razão porque não nos tínhamos jamais incompatibilizado intelectualmente pelas grosseiras animalidades do corpo. Podíamos olhar-nos bem de face um para o outro, sem corar ou sem rir, porque éramos igualmente puros aos nossos olhos, porque nunca entre nós esvoaçou a asa do mais fugitivo menoscabo, e porque tínhamos sido sempre, na mocidade, e éramos e continuávamos a sê-lo na velhice, os mesmos amigos castos, os mesmos irmãos amorosos, cujas idéias e cujas revelações de gestos e palavras jamais foram postas entre nós ao serviço da luxúria e das vergonhosas e inconfessáveis imundícias da carne!

Oh! juro que eu era, como esposa, ainda mais feliz que minha filha, para cuja felicidade trabalhei eficazmente durante toda a minha vida de mulher.

Sim, fui e sou feliz, apesar da moléstia que me vai minando a existência. Sou agora, neste momento em que escrevo estas palavras, a mais venturosa das mães, a mais enternecida das avós e a mais bem-aventurada das esposas. Enquanto escrevo isto, sinto perto, bem perto de mim, o meu amigo amado, que aí está a dois passos, descansando numa poltrona, a fumar o seu charuto, enquanto lê um jornal. Ouço-lhe com volúpia o fraco e curto resfolegar de velho, afinado pela minha respiração de enferma e pela débil respiração do meu netinho. Sinto, pensando nisto, invadirem minha alma a paz e o amor que cercam os meus gemidos e os meus cabelos brancos... Sei que Palmira é feliz e sei que ela me ama; sei que meu genro me fará justiça e me amará um dia tanto quanto minha filha; sei que morrerei abençoada por eles e...

Mas não posso continuar a escrever: César acaba de levantar-se e vir ter comigo. Tomou-me a mão esquerda e disse-me com autoridade de médico:

-Bem! por hoje basta! Qualquer abuso de trabalho, minha amiga, pode prostrar-te de cama... Vamos antes dar um passeio pela chácara... A tarde está magnífica!




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- XXV -

São passados nada menos de um ano e dois meses depois que escrevi as últimas palavras que aí ficam para trás; só agora pude voltar ao meu manuscrito e talvez, quem sabe? para me despedir dele, porque é já com bastante custo que ainda lanço no papel estas linhas, trêmulas e pálidas como a própria mão que as traça.

Como estou desfeita e abatida!

Depois das enganadoras melhoras granjeadas com os ares e águas de Caxambu, o mal acordou de novo, para seguir vitoriosamente e seu negro curso. O meu terrível fígado, apesar dos cuidados médicos, aumentou sempre durante o segundo período da moléstia; e agora, já no terceiro, sinto que me matará este depauperamento geral de forças e esta cruel ascite, que me dá o absurdo aspecto de uma tísica em último grau e grávida.

Todavia, durante esse tempo fizemos uma excursão pela Europa; já de volta ao Rio de Janeiro, operei a minha hidropisia abdominal, e só hoje, consigo, ainda sem deixar a cama, tentar sobre a mesa de cabeceira esta página difícil... Ai! dói-me todo o lado direito; doem-me os pulmões e sinto falta de ar!

Mas é preciso arrastar-me até ao fim das minhas revelações. Vamos: Palmira está pejada de novo; o marido, sem que ninguém lhe falasse nisso, declarou já que iria aos Estados Unidos durante o resguardo puerperal. Recomendei-lhe que não deixasse de visitar Salt Lake City, capital do território de Utah e procurasse, como o Afonso Celso, conversar com os prosélitos e secretários de José Smith, patriarca dos mórmons. A convicção filosófica dessa tribo de homens fortes pode preparar-lhe o espírito para a metade da existência que lhe falta viver ainda com a mulher.

Meu esposo goza da melhor saúde que é dado gozar a um velho, e seria completamente feliz se não fossem os meus padecimentos. Creio que só aos seus desvelos de amigo e de médico, tenho ainda conseguido viver; pelo menos...

Ai! senti agora mesmo nos pulmões uma dor aguda! Não posso continuar a escrever... Bem me dizia César que seria imprudência dar-me a este trabalho...

E terminava aqui o curioso manuscrito, que Leandro me deu para ler na sua pitoresca vivenda da Tijuca. As últimas páginas não pareciam escritas pelo mesmo punho que traçara as primeiras com letra tão firme e corrente. As frases finais eram quase ininteligíveis.

Devorei-o em duas seções: uma à noite, antes de dormir, até às duas horas da madrugada seguinte, e a outra entre o almoço e o jantar desse mesmo dia. Mal o terminei, corri ao meu amigo para pedir-lhe os pormenores da morte dessa inteligente e singular senhora, a quem tão mal julgara eu até aí e por quem, depois daquela leitura, sentia a mais profunda admiração e o mais enternecido respeito; e eis em substância o que me narrou Leandro:

D. Olímpia, depois que interrompeu com um gemido aquela sua página interminada, nunca mais levantou a cabeça dos travesseiros, vindo a falecer da moléstia que a prostrava.

Durou muitos dias a sua agonia mortal. Durante esse tempo, César fez todos os milagres da dedicação e do amor para salvá-la. Jamais amante nenhum foi tão extremoso e digno desse nome; nem jamais noivo de vinte anos chorou com tamanha paixão o desviver da noiva virginal e formosa.

A casta companheira da sua velhice morreu-lhe nos braços e recebeu o seu beijo derradeiro entre as lágrimas dos filhos. Poucos momentos antes de expirar, chamou estes dois para bem junto dela e, tomando uma das mãos de Leandro, e tomando uma das mãos de Palmira, falou-lhes com a flébil sombra de voz que ainda lhe restava:

-Logo que eu feche os olhos, disse-lhes compassadamente, abram aquela gaveta da minha secretária, cuja chave está debaixo deste travesseiro, e tirem de lá o manuscrito que fui escrevendo depois que Palmira se casou. Encontrarão aí a justificação plena de todos os meus atos e de todas as minhas palavras. Foi por amor de ti, minha filha, que concebi aquelas idéias, e foi para ti, meu genro, que as escrevi. Leiam-no ambos com atenção e procurem seguir à risca os preceitos que lá se acham estabelecidos, porque essa é a minha derradeira e única vontade, ao deixar este mundo. Se o fizerem, hão de ser eternamente felizes como animais humanos: terão a felicidade material que se funda a vida orgânica da nossa espécie; mas, se quiserem desfrutar a outra felicidade, a melhor, a mais alta e mais perfeita; essa, que nenhum dos dois conhece ainda; essa que gozei longe ao lado deste meu atual esposo; essa que se baseia e garante a vida moral -tenha cada um de vocês dois o seu amigo, o amado do seu espírito, o eleito da sua inteligência, porque todo o homem, como toda a mulher, precisa tanto de um companheiro para a sua carne, como de um companheiro para sua alma! A vida é o amor, e o amor não é só a procriação. Cristo não deixou filhos, mas a semente de seu amor vive e frutifica até hoje no coração dos homens... É possível que a ideal melancolia do seu beijo imaculado, chorando eternamente através dos séculos, secasse muitos ventres, esterilizasse muitos homens, mas fecundou de imorredoura ternura muitos e muitos corações!... A carne é egoísta -temam o despotismo da carne! A carne é irmã degenerada -é o Caim da alma! Afastem um do outro esses dois irmãos irreconciliáveis, para que o ideal não caia assassinado pela besta! Vá cada um de vocês dois, meus filhos, buscar o esposo da sua alma, fora e bem longe do leito matrimonial, com os olhos bem limpos de luxúria, com a boca despreocupada de beijos terrenos, com o sangue tranqüilo e o corpo deslodado das lubrificações carnais! Minha filha -toma um amante -para teu espírito! Meu filho -elege uma amiga -para o teu coração de homem!

E calou-se.

Foram estas as suas últimas palavras. Depois de balbuciá-las, deixou pender a cabeça sobre o colo do esposo, e morreu sem um gemido.








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