O rapaz acordou muito bem disposto no outro dia, estava, ou pelo menos parecia, restabelecido completamente. Os ares tonificantes de Santa Teresa produziram-lhe efeitos miraculosos.
-Até que enfim podia mandar ao diabo os xaropes e as tisanas que, de tempos a essa parte, lhe melancolizavam a vida e relaxavam o estômago. E, ainda metido entre lençóis, na matinal preguiça das sete e meia, dispunha-se a filosofar sobre o ridículo episódio da véspera, quando um leve rumor na porta do quarto lhe desviou o curso das idéias. Era a menina que trazia o café.
Viu-lhe a pálida mãozinha medrosamente surdir por entre a fisga da porta mal cerrada, para depor no chão, como era de costume, a chávena de porcelana. Amâncio, porém, desta vez saltou da cama e, correndo de gatinhas, a empolgou nas suas.
A mãozinha quis fugir, ele não consentiu, e com ela veio um braço que as folhas da porta arremangavam.
Começou a beijá-lo sofregamente, desde a ponta dos dedos até os bíceps; enquanto Amélia, sempre escondida ia consentindo, toda ela arrepiada em cócegas.
-Um beijinho... pediu ele, mostrando o rosto.
-Logo!
-Com certeza?...
-Com certeza!
E a pequena desapareceu muito ligeira -tique, tique, tique, pela escada.
Pouco depois combinaram a primeira entrevista. Ela subiria ao sótão, logo que a casa estivesse completamente recolhida. Amâncio que a esperasse no escuro e com a porta do quarto apenas cerrada.
O rapaz não pôde ficar tranqüilo mais um instante.
As horas nunca lhe pareceram tão longas e as conversas tão intermináveis. Um sobressalto feliz perturbava-o todo, tirava-lhe o apetite e não lhe permitia um pensamento que não fosse cair aos pés de Amélia.
Por maior caiporismo, Dr. Tavares tinha essa noite uma visita que parecia disposta a não largá-lo. Era um velho de sua província muito falador de política, apaixonado pelas eleições, pelos conservadores, mas que, nem à mão de Deus Padre, pronunciava os rr e os ss e dizia: «Os partido liberá, os senado», e outras barbaridades.
-Quando se irá este cacete?... pensava Amâncio, trêmulo de impaciência.
E Tavares a puxar pelo demônio do homem, a fazer-lhe perguntas sobre perguntas e a despejar contra ele a sua retórica inexaurível.
Até o guarda-livros que às vezes passava dias e dias sem dar uma palavra, estava essa noite disposto a falar pelos cotovelos. Ainda pilharia o chá e, repimpado na cadeira, com um brilhante a luzir num dedo, o ar satisfeito, os punhos bem engomados, taramelava a respeito dos seus projetos de casamento. «Sim, que ele, havia coisa de ano e meio, estava para desposar uma linda menina e de educação esmeradíssima. Já há que tempos a pedira!...» Só esperava que a casa, onde trabalhava desde os seus quinze anos, desse sociedade, como, aliás, havia já prometido. -Ah! Toda a sua ambição era fazer família! Quer vidinha melhor que a do casado?... o matrimônio era um complemento do homem... A gente enquanto moço não sentia a falta da esposa, mas depois... quando chegasse a velhice?... Aí é que seriam elas! Não! não podia admitir um eterno celibato!... A vida de solteiro tinha seus encantos, tinha, para que negar?... os espinhos, porém eram em maior número; se eram!...
E citava os casos.
Amâncio retirou-se da varanda, sufocado de raiva. Preferia esperar no quarto.
Deu doze horas. Amelinha pediu licença e também se recolheu. Mme. Brizard, à cabeceira da mesa, já bocejava, entretendo os dedos a fazer pílulas das migalhas de pão que ficaram do chá; o marido, ao lado dela, estudava mecânica racional.
Veio finalmente o copeiro levantar a mesa e buscar César para a cama. O guarda-livros apertou as mãos de todos e sumiu-se; o sujeito dos partido liberá, a despeito das insistências do amigo, despediu-se igualmente e, quando o advogado, que o fora acompanhar até o portão da chácara voltou à varanda, já não encontrou ninguém.
Em pouco a casa era toda silêncio e trevas. Então, Amelinha deixou o quarto sorrateiramente, tirou as botinas, apanhou as saias e galgou a escada do sótão.
Amâncio, que a esperava na porta, logo que a teve ao alcance da mão, puxou-a para dentro, e deu uma volta à fechadura.
Desde esse momento, a vida em casa de Mme. Brizard tornou-se para ele uma coisa muito agradável. Ninguém mostrava desconfiar, ao menos, de suas intimidades com Amélia, pelo seu lado parecia satisfeita com o estado das coisas.
Só uma ligeira circunstância covardemente o arreceava: é que a pequena não lhe exibira amor em quarta ou quinta edição, como dizia Paiva, mas em comprometedoras primícias, com todos os cruentos requisitos de uma estréia.
Fugiu o primeiro mês da lua-de-mel, sem o menor eclipse. Contudo, ele agora puxava um pouco mais pela bolsa: a família estava em crise; a pensão de Nini absorvia os proventos que se obtinham de Tavares e do guarda-livros; o casarão da Rua do Resende apenas conseguiria alugar em parte; os gêneros de primeira necessidade eram mais caros em Santa Teresa.
Mas que valia tudo isso posto em confronto aos gozos que lhe proporcionava a deliciosa rapariga?
Ela parecia viver exclusivamente para lhe dar carinhos e afagos. Era como se fora sua esposa; deixava tudo de mão para só cuidar do amante. -Ele estava em primeiro lugar! Agora a pequena lhe fazia a cama; levava-lhe ao quarto o moringue d'água, penteava-lhe os cabelos, e exigia que o rapaz lhe dissesse os passos que dava, por onde estivera, com quem falara e o dinheiro que gastara. Revistava-lhe conjugalmente as algibeiras, lia-lhe as cartas e, sempre desconfiada, cheirava-lhe as roupas.
Amâncio sorria de tais ciúmes, com o ar seguro de quem desfruta em paz uma felicidade legítima e abençoada por todos. Já não furtavam beijinhos assustados por detrás das portas; não roçavam os joelhos por debaixo da mesa, e não se serviam das mãos como instrumento de amor; guardavam-se para as liberdades da noite, para a independência do quarto. Na ocasião, porém, em que ele saía para as aulas ou à noite para o passeio, beijocavam-se, sempre, como dois bons casados.
Entretanto, as épocas de exame batiam à porta. Amâncio vivia em desassossego com os seus estudos tão mal apercebidos; mas Coqueiro dava-lhe coragem, ensinam-lhe como devia proceder, dizendo-lhe o que devia estudar de preferência, aconselhando-o a que não tivesse medo. «Amâncio que se apresentasse de cabeça erguida: o bom êxito nos exames dependia quase sempre do desembaraço mais ou menos atrevido do concorrente!» E citava exemplos: «Fulano, que apenas conhecia dois pontos de tal matéria, chimpara distinção, só porque era de um descaramento imperturbável; ao passo que sicrano, apesar de muito bem preparado, não conseguiria passar com a sua vozinha trêmula e o seu todo raquítico e assustado!»
Um novo acontecimento veio, porém, desviar Amâncio daquela preocupação: por telegrama de sua província, constou-lhe que o velho Vasconcelos morrera de beribéri fulminante.
Os pormenores chegaram no primeiro vapor: «Vasconcelos fora atacado como hoje e morrera como depois de amanhã. Ia pela rua, muito senhor de si, quando, de repente sentiu afrouxarem-se-lhe as pernas e teria desabado no chão, se dois homens que passavam não o socorressem prontamente.»
Foi recolhido à primeira casa, que era felizmente de um amigo. Meia hora depois já lhe principiava a faltar a respiração: a moléstia subia, ameaçando-lhe o estômago. Fez-se uma junta de médicos; ficou resolvido que o doente devia seguir, sem perda de tempo, para qualquer parte, -Caxias, Rosário, mesmo Alcântara, a Vila do Paço, que fosse, contanto que saísse da cidade quanto antes, até aparecer um vapor que o levasse para mais longe.
«Partiu nesse mesmo dia, dentro de uma rede, com direção à Vila Paço. Mas o terrível beribéri subia sempre; os membros por onde ele atravessava iam ficando paralisados e frios como membros de defunto. A onda maldita galgara finalmente a caixa torácica, Vasconcelos não pôde respirar de todo e morreu.»
Amélia, ao receber a inesperada notícia, rebentou num berreiro e tratou de cobrir-se de luto fechado.
O irmão também se vestiu de preto, fez cerrar as portas e as janelas de casa por sete dias e, durante esse tempo, andou tristonho e anojado.
***
Amâncio perturbou-se deveras com a morte do pai. Há bastante tempo mentalizava projetos de, em voltando à província, tratá-lo de modo tão carinhoso e tão amigo, que sua consciência, ficasse por uma vez, tranqüila a esse respeito. Havia no segredo de tal intenção o sabor inefável de um voto religioso. E seus planos, assim malogrados de repente, enchiam-lhe agora o coração de tristeza e as noites de sonhos tormentosos.
Mas Amelinha lá estava para o consolar, para lhe reprimir os gemidos com a polpa vermelha de seus lábios e espantar-lhe os negrumes do desgosto com a luz voluptuosa de seus olhos e com a doçura cristalina de suas palavras.
Veio Campos. Trataram longamente do «triste acontecimento»: Amâncio queria dar um pulo ao Norte: a mãe com certeza precisava dele ao seu lado, quando mais não fosse para tratar do inventário.
O negociante já não compreendia assim: «Estavam a chegar os exames; Amâncio, se saísse da Corte naquele momento, perderia o ano; o melhor, por conseguinte, seria esperar pelas férias. Pois então! eram mais alguns dias de demora que não prejudicavam a ninguém!...»
Coqueiro pensava do mesmo modo. «Nem o colega encontraria alguém com um bocadinho de juízo que lhe aconselhasse uma semelhante viagem antes do ato. Era até loucura pensar nisso.»
Cruzaram-se cartas entre o Rio de Janeiro e Maranhão. Amâncio foi considerado maior pelo Juiz de Órfãos podia receber o que lhe tocava na herança. Mas a firma liquidante ofereceu-lhe sociedade em comandita; ele aceitou, a conselho de Campos, e instituiu na província um advogado de confiança para lhe curar dos bens. Escolheu-se o Dr. Silveira, o dos cabelos pintados, aquele mesmo que, no dia do exame de português, se mostrara tão entusiasmado pelo rapaz.
Até que enfim estava Amâncio livre e senhor de sua bolsa; podia gastar à farta, sem sofrer daí em diante as peias da mesada. E não o amedrontava igualmente o risco de cair na penúria, porque ainda havia para reserva o que tinha a herdar da mãe e da avó.
Os carinhos e as solicitudes da família Coqueiro inflamaram-se, já se vê, com os últimos acontecimentos. O estudante era cada vez mais adulado e em compensação mais explorado. Agora, o irmão de Amélia não punha o menor escrúpulo em lhe aceitar os obséquios e a casa ia ficando a pouco e pouco às costas do provinciano.
Era sempre por intermédio de Amélia que ele sofria a cardadura. Hoje tratava-se do aluguel da casa, amanhã seria a conta do Eiras, depois a dos fornecedores; se entrava um barril de vinho para a despesa, ou um saco de feijão, se aparecia um novo aparelho de porcelana à mesa do almoço ou do jantar, Amâncio ficava à espera da fatura que, à noite, impreterivelmente, passava das mãos da rapariga para as suas.
Amelinha, essa então, já não procurava rodeios para lhe arrancar as coisas. Quando precisava de um vestido, de uma jóia, de um chapéu, dizia-lhe secamente: «Deixa-me tanto, que amanhã tenho de fazer compras.»
E as despesas da casa recrudesciam, à proporção que minguavam os lucros. O guarda-livros despedira-se porque afinal chegara a época do seu casamento, e ninguém o substituiu; só ficou o advogado que deixaria por mês, quando muito, uns duzentos mil-réis.
Amâncio ia suportando a carga silenciosamente, certo de que não encontraria dificuldade em despejá-la, assim que a coisa lhe cheirasse mal.
Todavia, o dinheiro era já o único recurso de que dispunha para fazer calar a amante, quando esta lhe falava em casamento. Em tais ocasiões, a rapariga chorava quase sempre; dizia-se infeliz; queixava-se da sorte. «Que Amâncio fora a sua perdição! que ela cedera aos rogos dele na persuasão de que era amada e de que mais tarde seria sua esposa!»
-Ora, filha! Nós, antes de cairmos na asneira em que caimos, não tocamos uma só vez em casamento; E, se queres que te diga com franqueza, eu até nem supunha ser o primeiro com quem tivesses relações!...
Ela irritava-se ao ponto de ameaçá-lo com um escândalo. Amâncio que se não enganasse, pois que havia ainda um João Coqueiro sobre a terra! Ele que não caísse no descoco de querer desampará-la, porque então as coisas lhe sairiam mais atravessadas!
Estas rezingas terminavam sempre por uma nova exigência de Amélia. E já se não contentava com um chapéu ou com um par de botinas, queria vestidos de seda, jóias de valor e dinheiro para gastar.
Uma noite, Amâncio ficou abismado por lhe ouvir falar na compra de um chalé nas Laranjeiras.
-Sim! reforçou ela, ao perceber que o rapaz não tomava a sério suas palavras. -Despedia-se Tavares e ficaríamos à vontade por uma vez! Eu não estou satisfeita aqui!...
Ele tornou a sorrir. -Amélia com certeza estava gracejando...
Mas a rapariga jurou que não, recorrendo a todos os segredos de sua ternura. Afinal, vendo que o amante não cedia, zangou-se como de costume.
-Tu assim o queres; disse, arrancando-se dos braços dele -pois bem, tu assim o terás! Amanhã hás de ver o que sai nesta casa!
Amâncio encolheu os ombros.
-Não te importas?! Pois veremos quem tem razão!
E limpando os olhos:
-Ingrato! Porque sabe que a gente o estima, abusa deste modo! Tola fui eu em me deixar seduzir!...
-Eu não a seduzi! Ora essa!
-Até fez mais, replicou ela -desonrou-me!
-Pois desonrada ou seduzida, não tenho dinheiro para comprar casas!
Amélia saiu essa noite do quarto do estudante ameaçando fazer estourar a bomba no dia seguinte.
E, pela manhã, quando Amâncio, ao seguir para as aulas, lhe foi dar o beijo favorito, ela muito amuada, voltou o rosto, resmungando «que a deixasse».
O rapaz prometeu que «ia pensar» e à noite daria uma resposta.
Mas nessa noite, Amélia, pela primeira vez, depois do seu novo estado, não se apresentou às horas habituais no quarto do estudante.
Amâncio, sem perder as esperanças de a ver surgir de um momento para outro e precipitar-se-lhe nos braços, não conseguiria ficar tranqüilo. Aquele procedimento, vindo de quem vinha, o revoltava como a mais infame das ingratidões!
Ouviu dar três horas, quatro, cinco. Não se conteve, levantou-se, pisando forte, desceu à varanda e foi bater à porta de Amélia.
Nada.
Bateu mais rijo.
-Que é? perguntou ela asperamente.
-Preciso falar-lhe.
-Não são horas próprias para isso!
-Ouça! Quero dizer-lhe uma coisa...
-Não tenho negócios! Entenda-se com meu irmão!
Amâncio voltou ao quarto, desesperado. Não que o acovardassem as ameaças da rapariga; bem percebia que as suas relações com ela não eram em casa nenhum segredo e, além disso, desde que aceitavam o pagamento, -ora adeus! nada podiam dizer! mas apoquentavam-se com a falta que já lhe fazia o diabrete da pequena. Habituara-se a dormir ao calor perfumado daquele corpinho branco, ajeitara-se ao cômodo amor daquela mulherzinha nova e palpitante e, agora, não podia voltar, assim sem mais nem menos, às suas tristes noites desacompanhadas de outro tempo.
Acordou muito tarde no dia seguinte. Amélia, quando ele saiu do quarto, não lhe deu palavra; estava arrumando uma caixa de retalhos, e arrumando ficou. Mme. Brizard havia saído para ver Nini. -Coqueiro e os hóspedes achavam-se também na rua.
-Então a senhora não me quer falar? perguntou Amâncio, fitando-lhe as costas.
Ela interrompeu o que cantarolava e, sem se voltar, disse friamente:
-A culpa é sua...
E continuou a cantarejar, muito embebida nos seus retalhos de fazenda.
Aquele desdém, namorador e artístico, a tornava ainda mais desejável aos olhos do rapaz.
Parecia-lhe até mais bela esse dia; como se os seus encantos, intervindo na perrice, florejassem caprichosamente durante aquela noite de soledade.
Amâncio nunca lhe achou a pele tão fina, os dentes tão brancos, os olhos tão vivos e tão formosos. O pálido e ondulante pescoço da menina jamais lhe pareceu tão misterioso: a sua garganta, macia e doce, jamais o cativara tão despoticamente. Ele, enfim, nunca a sentira tão necessária, tão indispensável.
E as cenas venturosas dos seus primeiros dias de amor lhe perpassaram vertiginosamente diante dos olhos, derramando-lhe por todo o corpo um apetite brutal que lhe fugia por entre os dedos, como um vinho precioso que se derramava.
-Então a culpa é minha?... disse ele, afinal apalpando com a vista a carne esperta dos quadris e dos braços da amante.
-Pois você não vê, respondeu ela, voltando-se espevitada -que as coisas não podem continuar como até aqui?! É uma canseira insuportável! Quase que já não durmo! Preciso esperar de olho aberto que toda a casa se recolha e recolher-me ao quarto antes que o mais se levantem! O resultado é que não descanso; ando tresnoitada; estou enfraquecendo! Já tenho até uma dor do lado. Quem pode com esta vida?! Ah! você não sente, bem certo! porque muita vez o encontro a dormir, e dormindo o deixo quando saio! Mas eu?! se quero que não aconteça como outro dia (que nem sei como não deram pela coisa!) o remédio que tenho é ficar alerta e não deixar que o dia me surpreenda a dormir no seu quarto! Vê você?!
-Mas daí?... perguntou Amâncio, no fundo compenetrado de que «a pobre menina» não deixava de ter o seu bocadinho de razão.
-Daí... esclareceu Amélia -é que nessa tal casa de que lhe falei, e que está para se vender muito em conta, há, além dos cômodos necessários para Loló e Janjão dois quartos magníficos, com entradas independentes e comunicáveis entre si por uma pequena alcova. Ora, um dos quartos dá para a sala de visitas e o outro para a sala de jantar; no caso que arranjássemos o negócio, você ficaria com um e eu ficaria com o outro, e dessa forma acabavam-se os sustos e as canseiras; porque durante o dia abriam-se as do lado de fora e fechavam-se as de dentro, mas à noite praticava-se justamente o contrário, e ficávamos nós em completa liberdade! Compreende você agora?...
-Sim. Amâncio compreendia e até achava o plano muito bem lembrado, mas a questão é que não via necessidade de comprar a casa, era bastante alugá-la...
-Sim, sim! mas é que o dono não a aluga, quer vendê-la. E onde você encontra outra casa nessas condições?...
-Hei de passar por lá...
-Não. Vamos hoje mesmo, à tarde. Loló já prometeu que nos acompanha.
-Pois sim.
E Amâncio puxou Amélia pelo braço, para lhe dar um beijo.
-Deixe-me... rezingou ela, ainda com um restinho de arrufo. -Você só cuida de si e das suas comodidades... Egoísta!
-Não digas isso, meu bem!
-Pois não é assim?! Qual foi a vontade séria que você já me fez? É bastante que eu mostre gosto numa coisa, para você fazer justamente o contrário... Entretanto, eu, por sua causa, sacrifiquei tudo que possuía!
E começou a chorar, muito infeliz, a dizer que Amâncio tinha razão! -Ninguém lhe mandara ser tola! Ela nunca deveria ter-se entregado senão depois do casamento!
E as suas lágrimas enxugavam-se nos lábios dele.
E assim ficaram alguns minutos, até que Amélia de repente, se lhe tirou dos braços e, abrindo distância, declarou de longe em plena atração de seus encantos, que «não faria nenhum caso de Amâncio enquanto não possuísse o chalé.»
Nessa mesma noite ficou assentado que o rapaz, em nome da amante, compraria a casa de Laranjeiras.
***
Com efeito, uma semana depois, tratava-se da escritura de compra. O negócio correu a galope, visto que a propriedade era de um pândego sequioso por dinheiro.
Podiam cuidar logo da nova mudança; Amélia, porém, não consentiu em tal, sem que se realizasse umas tantas benfeitorias que a «sua» casa reclamava; substituir, por exemplo, o papel da sala de visitas, que era de mau gosto; meter-lhe água, que não havia,e fazer esteirar os aposentos destinados para si junto com seu homem.
Mas Amâncio não podia distrair tempo com essas coisas: andava muito absorvido pela idéia dos exames que se aproximavam.
Ultimamente, viera-lhe uma febre de formatura, queria a todo o custo «passar» no primeiro ano. -Também era só do que fazia questão, «passar no primeiro», porque quanto aos outros, tinha certeza de preparar-se melhor e com mais antecedência. Agora, lamentava o tempo perdido na preguiça e na moléstia, dava aos diabos os seus amores, e vivia numa dobadoura a arranjar empenhos e cartas de proteção. Agarrou-se ao Campos; agarrou-se àquele Dr. Freitinhas (do baile do Melo) que era unha com carne de um dos examinadores. E furou, e virou, e percorreu amigos desconhecidos, até se julgar «garantido». Então, pagou a segunda matrícula e entregou-se de olhos fechados ao destino. «Seria o que Deus quisesse.»
Era, pois, Coqueiro quem dirigia as obras da casa da irmã. O metódico rapaz sempre tivera paixão por esse gênero de trabalho.
-Se fosse rico, afirmava ele -muito prédio havia de fazer só pelo gostinho de acompanhar as obras!
Chegou, finalmente, a véspera do amaldiçoado exame.
Que ansiedade! Que dia de angústias para o pobre Amâncio! E que noite, a sua! -Não descansou um segundo; apenas, já quase ao amanhecer, conseguir passar pelo sono; antes, porém, não dormisse, tais eram os pesadelos e bárbaros sonhos que o perseguiam.
Via-se entalado num enorme rosário de vértebras que se enroscava por ele, como uma cobra de ossos; grandes tíbias dançavam-lhe em derredor, atirando-lhe pancadas nas pernas; as fórmulas mais difíceis da química e da física individualizavam-se para o torturar com a sua presença; os examinadores surgiam-lhe terríveis, ríspidos, armados de palmatória, todos com aquela feia catadura do seu ex-professor de português no Maranhão.
Pelo incoerente prisma do sonho, o concurso acadêmico amesquinhava-se às ridículas proporções do exame de primeiras letras. Era a mesma salinha do mestre-escola, a mesma banca de paparaúba manchada de tinta, o mesmo fanhoso Sotero dos Reis presidindo a mesa. João Coqueiro, Paiva e Simões, vestidos de menino, fitavam o examinando com um petulante riso de escárnio. Amâncio sentia correr-lhe o suor por todo o corpo e agulhas visíveis penetrarem-no até a medula. O professor, transformado em juiz e ostentando as feições do falecido Vasconcelos, inquiria-o com asperezas de senhor; mas as suas perguntas, em vez de concernirem às matérias do ato, só se referiam à Amélia.
-Por que matou você a pobre menina?! bramia o pai cravando-lhe olhares de fogo: -Responda, seu canalha! responda! Ah! Pensa que ainda não sei de que você, para melhor a seduzir, lhe havia prometido casamento e jurado olhar sempre por ela, seu cachorro?!
Coqueiro, lá do canto, sacudia a cabeça afirmativamente e enviava a Amâncio caretas de vingança. Ao lado deste, o cadáver de Amélia fazia-se todo vermelho com o sangue que lhe golpejava de um dos seus seios rasgados de alto a baixo.
O réu queria responder, justificar-se, expor a verdade; eram, porém, baldados os seus esforços: não conseguia articular uma palavra; gelatinava-se-lhe a voz na garganta, empacando-lhe a fala.
-Bem! gritou o velho Vasconcelos à meia dúzia de soldados que escoltavam Amâncio. -Conduzam esse miserável ao cepo e cortem-lhe a cabeça!
O estudante atirou-se de joelhos, com as mãos postas, chorando, suplicando que o não o matassem. Mas os soldados apoderaram-se dele com violência e ataram-lhe os braços. o Juiz, Coqueiro, Simões, Paiva, sumiram de repente, soltando gargalhadas. Amâncio foi conduzido por um corredor muito escuro e apertado; os soldados, quando o viam vacilar, batiam-lhe no ombro com a coronha das espingardas. Chegou a um pátio lajeado e úmido, onde milhares de homens armados formavam alas; no centro, sobre um toro de madeira conspurcada de sangue, reluzia um manchado à sua espera; e, de joelhos, abraçado a um crucifixo, um padre velho, de longos cabelos brancos, engrolava latim.
Fizeram silêncio.
No meio das respirações abafadas, só se ouviam os passos trôpegos e o aflitivo resfolegar do condenado que, à ponta da baioneta, subia os degraus do cadafalso.
Veio o carrasco, despiu-lhe a camisa, tosou-lhe os cabelos, e empunhou o ferro.
Amâncio não se resolvia a entregar o pescoço, mas o velho Vasconcelos, que surgira por detrás dele, atirou-lhe um murro à nuca e fê-lo cair de bruços contra o cepo.
Então, para lhe abafar os gemidos, romperam todos os soldados num rufo estridente de tambores.
Amâncio sentiu o aço frio entrar-lhe na carne de toutiço, espipar o sangue, e o corpo, de um salto, arrojar-se às lajes.
Havia saltado, com efeito, mas da cama. E o despertador, que ficara de véspera com toda a corda para as seis da manhã, continuava o rufo penetrante dos tambores.
O estudante abriu os olhos e passou em sobressalto a mão pela testa; os dedos voltaram ensopados de suor.
Com a perceptibilidade das coisas foi aos poucos saindo daquele estado de excitação, mas voltando lentamente à taciturna agonia da véspera.
Vestiu-se quase sem consciência do que fazia: esqueceu-se até de escovar os dentes, porque, mal voltou a si, correu aos livros, sem aliás, conseguir firmar a atenção sobre coisa alguma.
E Amâncio tremia todo só com a idéia de sua inabilidade. À medida que as horas se esgotavam e o momento fatal se lhe antepunha, um langor covarde e mulheril crescia dentro dele, produzindo-lhe arrepios que principiavam na ponta dos pés e iam-se estendendo pela espinha dorsal, até lhe interessar a cabeça, depois de percorrer as regiões abdominais.
Mas embaixo, na varanda, em presença de Amélia e Mme. Brizard, fazia-se forte, a despeito da palidez que lhe alterava as feições. Nem de leve falou nos sonhos dessa noite, e Coqueiro, a título de metê-lo em brios, contou várias anedotas de examinandos ridículos.
Os dois tomaram café e por fim saíram. O trajeto de casa à escola foi um martírio para Amâncio, afigurava-se-lhe, como no sonho, que se dirigia ao patíbulo.
Chegou às dez horas. Alguns companheiros de ato já lá estacionavam em magotes de quatro e cinco pelos corredores ou à porta da secretaria; fumavam-se cigarros consecutivos, discreteavam-se os assuntos da ocasião. Amâncio cumprimentou os conhecidos, parando aqui e ali, falando sobre os pontos do exame; -qual preferia que saísse, em qual se presumia menos fraco e capaz de fazer figura.
Agora sim, estava mais animado; a presença dos colegas o robustecia com um vago espírito de coletividade. Sentia-se mais forte e resoluto ao lado dos companheiros de perigo, como se a vitória dependesse do número de combatentes.
Entretanto, faziam-se horas. Os examinadores estavam já reunidos na sala de exames, em torno da sua mesa forrada de pano verde. Amâncio lobrigava-os pela frincha da porta entreaberta e ouvia-lhes o murmurar descuidoso da conversa, intercalada de risotas e baforadas de charuto.
À vista daqueles homens resfriaram-lhe de novo as mãos e voltaram-lhe os calafrios do terror, algum resto de confiança, que ainda teria em si, evaporou-se de todo.
E, para não sucumbir, procurava acreditar na eficácia dos empenhos que arranjara; seu espírito, como o náufrago que braceja na agonia da morte, já não escolhia os pontos a que se agarrava; tudo servia naqueles apuros, tudo era um pretexto de esperança; mas a consciência da verdadeira situação vinha meter-se de permeio, arrancando, uma por uma, todas as tábuas de salvação.
E Amâncio arquejava, desorientado, perdido.
-Que diabo viera fazer ali?! Para que se apresentara? por que não se guardou para o ano seguinte ou quando menos para março? Antes não tivesse pago a segunda matrícula! Oh! se o arrependimento salvasse!...
E, à proporção que se avizinhava o momento supremo, mais e mais imprudente lhe parecia a sua temeridade.
-Naquela ocasião, pensava ele -bem podia estar na província, à testa dos seus negócios, ao lado de sua querida mãe, passeando, rindo, gozando, como nos outros tempos!... Era rico, era já tão estimado antes da academia, para que então sofrer semelhantes torturas, passar por aqueles maus quartos de hora, que ali estava curtindo?...
E vinham-lhe venetas de fugir, abandonar tudo aquilo, sem dar satisfações a ninguém, correr à casa do Campos, encher-se de dinheiro e arribar para a Europa, para o inferno! contanto que se livrasse da obrigação de expor uma ciência que não tinha, escrever idéias de que não dispunha!
Mas o bedel havia surgido e principiava a «chamada», e, a cada nome, recitado pausadamente, o seu olhar mórbido, de funcionário público no cumprimento de um velho dever enfadonho, consultava a multidão de estudantes, que em sussurros se apinhava pelo esvaziamento das portas, empurrando-se una aos outros, impacientes, curiosos, o pescoço espichado, a boca aberta, o calcanhar suspenso.
-Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos, disse aquele arrastando a voz.
Amâncio sentiu uma pontada no coração e tartamudeou:
-Presente.
Os companheiros, que lhe ficavam por diante, arredaram-se logo, dando-lhe passagem, e ele foi ocupar uma das banquinhas que havia na sala.
A chamada ainda durou algum tempo, porque Amâncio era dos primeiros; afinal, o bedel mastigou o último nome; fechou-se a porta da sala; e um silêncio formalista espalhou-se entre a turma dos estudantes e o grupo dos examinadores.
O presidente da mesa tomou a lista dos examinandos, arranjou os óculos, tossicou e, com um bocejo, chamou pelo que estava em primeiro lugar.
Um rapazote louro, de buço, ergueu-se e foi ter com ele. O presidente, com um segundo bocejo e um gesto de cabeça, ordenou-lhe que tomasse um dos pontos da urna.
Amâncio ofegava. -Ia decretar-se o ponto!
-Qual seria?... E se, por caiporismo, fosse justamente um dos mais crus?
E o sangue trepava-lhe à cabeça, pondo-lhe latejos nas fontes.
O rapazote louro meteu enfim a mão na urna e tirou com as ponta dos dedos trêmulos uma pequena torcida de papel, que passou ao presidente.
Este desenrolou-a e leu: «Hidrogênio».
Amâncio respirou: o ponto não podia ser melhor para ele do que era! talvez fosse até entre todos o menos mal sabido; ainda essa manhã lhe passara uma vista de olhos. Contudo, uma vez imposto o Hidrogênio, quis lhe parecer vagamente que havia outros pontos preferíveis.
Estava, porém, mais tranqüilo, que era o principal; já quase nada lhe tremia a mão ao receber das do bedel uma folha de papel almaço, rubricada pelos lentes, das que ia aquele distribuindo por todas as banquinhas dos examinandos.
-Ali, naqueles miseráveis dois vinténs de papel, tinha ele de determinar o seu futuro, a sua posição na sociedade, talvez a própria vida de sua mãe, dizendo o que sabia a respeito do tal Hidrogênio!...
Experimentou a pena, endireitou-se na cadeira, e escreveu, caprichando na letra e procurando obter estilo.
A areia da ampulheta esgotava-se defronte da calva e dos bocejos do senhor presidente. Correu meia hora; Amâncio ergueu-se afinal, entregou a sua prova e saiu da sala, a esfregar, muito preocupado, os dedos da mão direita contra a palma da esquerda.
À porta, mal acendera sofregamente o cigarro, contava já aos amigos o que havia exposto pouco mais ou menos. -Ah! com certeza pilhava uma -nota boa! -Não era por querer falar, mas a sua prova saíra limpa. «Assim não fosse o ponto tão ingrato!...»
E ficaria a prosar sobre o caso, se Coqueiro, aguilhoado pela ausência do almoço, não o arrancasse dali.
A nota foi boa, efetivamente.
Soube-o Amâncio no dia seguinte, logo que correu à secretaria. Não contava, porém, ficar tranqüilo, senão depois do resultado de sua prova oral.
Novos sobressaltos foram se agravando durante os dias que era preciso esperar. Voltavam-lhe as aflições; no fim de algum tempo já não podia comer, não podia ligar duas idéias sobre qualquer coisa e não conseguia repousar duas horas seguidas. Ficou ainda mais desnorteado que da primeira vez.
Amelinha, então, o estimulava com as suas garrulices de pomba que já fez ninho. Puxava por ele, tentando arrancá-lo daquele estado, mas não conseguia despertar-lhe um só dos antigos momentos de bom humor, nem lhe merecer uma de suas primitivas carícias.
O rapaz andava tonto, cheio de pressentimentos e de sustos. Tornou-se até supersticioso. -Não podia ver entrar no quarto uma borboleta de cor mais escura; não podia suportar o uivar dos cães, nem queria que a amante prognosticasse «um bom resultado nos exames».
-É melhor não falar!... dizia ele, muito esmalmado.
Mas que prazer o seu voltar pronto da escola! Jamais tivera um contentamento tão agudo. Ria sem motivo, sentia ímpetos de abraçar a toda gente, pulava, cantava, parecia doido.
Soubera do resultado no mesmo dia da prova oral, por intermédio de um dos professores. -Saíra aprovado plenamente.
Vencera!
Colegas o acompanharam até a casa. Lá ia Paiva, sempre com o seu olhinho irrequieto e mexeriqueiro, o seu todo enfrenesiado e farto «desta porcaria de mundo». Lá ia o triste Salustiano Simões, encasmurrado no seu ar incrédulo e bamba, a mascar o cigarro, a aba do chapéu encostada à gola sebosa do fraque.
Abriram-se garrafas de champanha; fizeram-se brindes. João Coqueiro desmanchava-se em sorrisos, como se partilhasse diretamente de todas aquelas manifestações.
Foi muito elogiado o exame de Amâncio, tocaram-se os copos, entre fervorosas palavras de animação: falou-se em «filhos diletos da ciência», em «liberdade», em «geração nova», em «mineiros do progresso».
Todavia, Amâncio em ar feliz e pretensioso, confessava o pouco que estudara e gabava-se de sua fortuna. -Podia dar a palavra de honra em como mal havia tocado nos livros durante o ano. -Coqueiro e a família estavam ali, que dissessem!...
E bazofiava a respeito de sua presença de espírito, particularizando circunstâncias comprobativas de uma sagacidade a toda a prova.
-Cá o menino não se aperta! dizia ele, muito satisfeito consigo.
Expediu-se um telegrama para o Maranhão, dando notícia do grande «acontecimento». Simões e Paiva ficaram para jantar. Já estavam todos à mesa, quando apareceu o copeiro com uma carta que um portuguesito acabava de trazer.
Era de Campos. O bom negociante queria festejar o êxito feliz do jovem acadêmico -com «uma pequena reunião familiar. Pena era que o Dr. Amâncio estivesse de luto».
«Não há festa», explanava a carta, «apenas se reúnem alguns amigos para lhe beber à saúde; e o doutor bem pode trazer em sua companhia mais alguns».
Amâncio declarou logo que não dispensava Simões e Paiva Rocha e exigiu que o Coqueiro levasse consigo a família.
Pois iriam, iriam todos, até César. Mas o festejado teve de franquear o seu guarda-roupa àqueles dois colegas que não queriam apresentar-se mal amanhados em uma casa, onde entravam pela primeira vez.
Coqueiro, em particular, exprobrou-lhe essa franqueza:
-Foge da boêmia!... disse-lhe, no seu diapasão de homem sério. -Foge da boêmia rapaz! Esses tipos não merecem que se lhes faça a menor coisa!... Metem os pés -sempre! Já os conheço; não seria eu quem os convidaria para a casa de ninguém! É gentinha que só está habituada a cafés e botequins, não respeitam família! Para eles as mulheres são todas iguais!...
Amâncio sorriu.
-Ora Deus queria que não tenhamos de nos arrepender!... acrescentou o outro. -E, quanto àquela roupa, podes rezar-lhe por alma... o que ali cai, fica!
O provinciano afastou-se sem responder e lamentando interiormente que, logo nessa tarde, não estivesse em casa o eloqüente Dr. Tavares, que seria uma excelente perna dos brindes da sobremesa.
Mandarem-se vir dois carros. Num iria Coqueiro mais a família e no outro Amâncio com os dois amigos.
Partiram às oito horas, alegremente, num alvoroço gárrulo de festa. Mme. Brizard dera toda força à sua elegância: atirou-se ao decote, pôs a pedraria ainda do tempo do primeiro marido, e exibiu aquele rico pescoço, «que ela não trocava pelo de ninguém!»
Amelinha estreou um belo vestido de escumilha azul que lhe dera o amante. No seu colo, cor de camélia fanada, assentavam muito bem as pérolas e os rubis; seus braços, levemente dourados de penugem, sabiam, no meio da confusão caprichosa das rendas valencianas, fazer tilintar com graça os braceletes que se enroscavam nas compridas e transparentes luvas de retrós.
A cunhada, ao vê-la sair do quarto, dissera:
-Não parece uma brasileira!... Tão linda está!
***
Foram recebidos com transportes de júbilo por toda a família do negociante. Campos entregou a casa ao festejado, «que a este competia, naquela noite, obsequiar às pessoas presentes; fazer as honras da copa e da mesa; promover quadrilhas e prender as moças até pela manhã. Era o dono da festa, que se arranjasse!»
Amâncio tomou posse do cargo, sem caber em si de contente. Muito o sensibilizava tudo aquilo que, de qualquer modo, lhe pudesse afagar o amor-próprio.
E em suas mãos a festa tomou um caráter assustador: o pianista não tinha tempo para fumar um cigarro; os convidados eram constrangidos a beber nos intervalos da dança e a dançar nos intervalos das libações. Paiva Rocha e Salustiano, a despeito de todas as suas garantias de filósofos, intransigentes e péssimos dançadores, tiveram de entrar, por mais de uma vez, nas intermináveis contradanças.
Ao inverso do que pressagiara Coqueiro a respeito destes dois, tanto um como o outro se houveram admiravelmente. Ninguém melhor que eles para respeitar senhoras; um espesso acanhamento os encascava e tolhia, que nem a concha ao molusco. Salustiano, principalmente, estava mais tenro e inofensivo que uma criança; na quadrilha, mal ousava erguer os olhos para a sua dama e, querendo ser muito delicado, apenas lograva, com os exageros da cortesia, trair a sua nenhuma freqüência nas salas.
Para os intimidar bastava a cerimoniosa presença de senhoras de boa sociedade. Aqueles dois pândegos, tão céticos em teoria a respeito da mulher, ali, governados pelo meio, eram os homens mais tolerantes deste mundo; seriam capazes de defender a existência de Deus ou do diabo, se elas o entendessem. Fato é que o dono da casa gostou deles em extremo e pediu-lhes que aparecessem aos domingos, uma vez por outra, para jantar.
A festa correu sempre animada até as três horas da manhã, quando Amâncio convidou as senhoras a tomarem lugar à mesa. Ao desrolhar do champanhe ergueu-se este resolutamente e exigiu que o acompanhassem num brinde.
Abstiveram-se da bulha, e o estudante grupou em torno do nome inteiro de Campos todo o velho arsenal de retórica aplicável à situação. Em substância nada afirmou, mas a sua palavra sonora e cheia; as frases gorgolhavam-lhe dos lábios com essa verbosidade oca e retumbante que se observa nos filhos do Norte do Brasil, e que, aliás tem valido a muitos posição eminente na política. Aquela voz, estalada e aberta, ferindo as vogais, tinha um sabor muito picante de ironia, vibrava no ar como uma flecha selvagem e feria os tímpanos como um insulto em verso.
As damas interessaram-se pelo discurso e alguns homens o ouviram sem pestanejar. E todos eram de acordo que Amâncio estava talhado para o Direito e que havia de fazer «uma brilhante figura», quer na advocacia, quer na política, se por acaso abraçasse uma dessas carreiras.
-É rapaz de talento!... diziam já as senhoras cochichando.
-A mim comoveu tanto o demônio do moço, que chorei!... segredou uma quarentona de chinó, que passava entre os conhecidos por mulher de maus bofes.
E principiaram a olhar com certa submissão para o esperançoso Amâncio.
E, com efeito, o seu tipo nervoso e moreno de nortista, o seu modo sem-cerimônia de abrir muito a boca, mostrando num gesto de pasmo a dentadura, o desembaraço de sua gesticulação, sempre que entornava para dentro um pouco mais de vinho, e principalmente o metal daquela voz enfática e encrespada pelo tal sotaque da província; tudo isso, sem dúvida alguma, agravava depois de uma boa ceia, quando cada um não exige de ninguém senão que lhe deixe tomar em paz o seu café e lhe permita acender o seu charuto.
O caso é que Amâncio se converteu num espécie de presidente de mesa. Era a ele que se dirigiam os que propunham novos brindes; era para ele que mais se voltavam durante o discurso, e, tal e qual no jantar de seu pai por ocasião do célebre exame de primeiras letras, ainda era ele o alvo das melhores felicitações; com a diferença de que, neste agora, em vez de consultar de instante a instante o famoso relógio alcançado naquele dia, o que Amâncio consultava eram os olhos de Hortênsia, nele igualmente presos, mas por uma cadeia de outra espécie.
E, ainda como na primeira festa, o estudante abusou um pouco dos licores; mas, agora, em vez de pegar no sono, deu-lhe a bebedeira para se abrir às francas com a dona da casa, logo que a pilhou sozinha no terraço, ao fundo do segundo andar.
Hortênsia não se indignou com isso, mas também não se mostrou satisfeita; não repeliu com energia as palavras do sedutor, mas não se pode dizer que as acolhesse de boa cara; não deu, enfim, os beijos que ele pedia, mas por outro lado não retirou a mão que o rapaz agarrara entre as suas.
-Eu te adoro, meu amor, minha vida! dizia-lhe o velhaco, cheirando-lhe os grossos braços revestidos de filó. -Não te disse há mais tempo por falta de coragem, juro-te, porém, que é verdade! Amo-te, minha Hortênsia, amo-te com todo o entusiasmo, com toda a paixão de que sou capaz.
Ela o ouvia em silêncio, a pensar, os olhos ferrados a um ponto, o ar todo caído e acabrunhado como por uma espécie de desgosto; não se mexia, apenas, quando Amâncio teimava muito em querer beijá-la, desviava o corpo, sem voltar a cabeça.
-Mas, então?... perguntou ele.
-Então, o que?... fez o outro como interrompendo um longo pensamento.
-Não aceita o meu amor?...
-Não, decerto, não posso aceitar semelhante coisa!
-Por que, minha santa?...
-Não tenho esse direito; conheço os meus deveres e a minha responsabilidade. O mais que lhe posso dar é uma afeição de irmã, de amiga, uma afeição sagrada e pura!
Amâncio declarou que pensava desse modo justamente, mas agora queria um beijo, um só! o primeiro e último! -Nada mais sagrado e puro do que um beijo!...
-Nunca! disse ela, fugindo com o rosto.
Ele a tomou à força e a senhora ficou ressentida, chegou a ter um gesto de impaciência e teria fugido, se o estudante não a segurasse pela cintura.
-Solte-me!
-Perdoa, perdoa, meu amor! segredava ele, quase ajoelhado. -Bem quisera ser para contigo o mais respeitoso dos homens, mas não me pude conter, não me pude dominar... Perdoa!
-E jura que, de hoje em diante, não cairá noutra?...
-Juro! juro! mas não te revoltes contra mim!...
-E que nunca mais me faltará ao respeito?...
Amâncio fez um gesto afirmativo, no qual seus olhos, agora mais estrábicos sob a influência do vinho e do desejo, luziam suplicantes, como os olhos de um cão que tem fome.
-Pois bem, murmurou ela, meio compadecida. -Vá lá por esta vez! Está perdoado, mais fique prevenido de que, se repetir a graça, não respondo pelas conseqüências.
Amâncio ia fazer novos protestos, quando sentiu que alguém se aproximava; ergueram-se ambos, instintivamente, e, fugindo ao rumor, seguiram de braço dado para a sala.
Tocava-se uma valsa. Ele, sem consultar Hortênsia, enlaçou-lhe a cintura, e puseram-se os dois a rodar, a rodar, tão certos e tão leves, que prendiam a atenção de quantos lá se achavam. E Coqueiro, encostado à ombreira de uma porta, acompanhava-os com um sorriso de felicidade, no qual havia alguma coisa de orgulho de pai que se revê num filho prodigioso.
Mas o querido estudante, para o fim da festa, já não parecia o mesmo: as bebidas e o cansaço davam-lhe um ar grosseiro e desalinhado; já se lhe não via o colarinho, nem os punhos; a roupa empastava-lhe com o suor e a cabeleira desguedelhava-se sobre a testa. E vinham-lhe então pilhérias de mau gosto; tratava Amelinha quase licenciosamente e regamboleava as pernas e os braços no meio da quadrilha, como se estivesse num baile público. Já não dava excelência a ninguém e queria, por força, que Simões e Paiva, depois da festa, o acompanhassem a um passeio ao alto da Tijuca.
-Que diabo! rosnava ele, cuspilhando para os lados. -Ou bem que a gente se mete na pândega ou bem que não se mete!
Só se retiraram ao despontar da aurora. César, que adormecera desde as onze horas da noite, ficou para passar o dia com a família de Campos. Amâncio pôs um carro à disposição de Paiva e de Simões e seguiu no outro com as duas senhoras e Coqueiro.
Este toscanejava durante a viagem, ao lado da mulher que sumia na abundância de uma formidável capa de lã; enquanto que Amâncio, a charutar derreado para um canto da carruagem, adormecia com a mão direita esquecida entre as de Amélia.
Recebeu no dia seguinte uma carta de Ângela; era a segunda que ela escrevia ao filho depois da morte do marido.
Já da primeira lhe suplicava que a fosse ver, logo ao entrar das férias, pois agora estava muito só e acabrunhada de desgostos; além disso, os seus padecimentos se agravavam. Amâncio que se demorasse; a infeliz tinha para si que a presença do filho substituiria com vantagem todos os remédios da botica.
Na segunda carta ainda se mostrava mais impaciente e mais aflita pelo rapaz. Falava até no receio de morrer sem abraçá-lo, caso Amâncio não se apressasse a ir em seu socorro. -A presença dele tornava-se precisa, mesmo com referências aos interesses do inventário; porquanto D. Ângela começava a desconfiar de Silveira, que não fazia outra coisa senão lhe pedir dinheiro e mais dinheiro para as tais custas. -Enfim, por todos os motivos, era urgente que Amâncio desse, quanto antes, um pulo ao Maranhão.
Amelinha, que já não ficara muito tranqüila com a primeira carta, assustou-se deveras quando o amante lhe mostrou a segunda.
-Eu não consinto nessa viagem! disse-lhe terminantemente.
-Mas não vês que se trata de um caso urgente, que se trata de defender meus interesses, que se trata de salvar a vida de minha mãe?... Ou queres tu que eu a mate, hein?...
Amélia não tinha nada que ver com isso!... A sua questão resumia-se no seguinte: «Dera-se a um homem porque o amava e porque se supunha amada por ele; esse homem a possuiu como bem quis, gozou-a como muito bem entendeu, e, um belo dia, talvez por já estar farto, resolvia meter-lhe os pés e pôr-se ao fresco!»... Boas! Não havia de ser com ela! Amâncio que não caísse em semelhante asneira, porque então veria o bom e o bonito! Quem o afiançava era «a Amelinha dos camarões»!
-Mas, filha, que queres tu que eu faça?... Bem vês que esta viagem ao Norte é inevitável!
-Pois então vamos juntos... Casa-te primeiro comigo!
A idéia foi tão intempestiva que o estudante respondeu com uma gargalhada. Mas o demônio da rapariga, tornando às boas de repente, saltou-lhe ao pescoço e disse-lhe, entre beijos:
-E por que não?... Por que não te casas logo comigo, meu amor?...
-Porque era impossível!... explica ele. «Casar não é casaca!» Era ainda muito cedo para cuidar nisso!... Primeiro tinha de formar-se, praticar algum tempo em Paris, e depois então... sim senhor, não dizia o contrário e havia de ser o mais empenhado em que a coisa se realizasse! Mas por ora... «Deus nos acuda!» era até loucura pensar em semelhante história!...
Amélia fez-se logo de mau humor; vieram os remoques e os reviretes do costume; houve palavras duras de parte a parte e, afinal, como estabelecido imposto de reconciliação, ficou assentado que Amâncio arranjaria mobília nova para o chalezinho das Laranjeiras.
E o rapaz lá foi comprar os trastes.
Dois dias depois, realizava-se a terceira mudança. Dr. Tavares, o último hóspede da famigerada Mme. Brizard, pagou a sua última conta e recebeu da francesa um abraço de despedida.
-Ah! suspirou ela. -Até que enfim se podia descansar um pouco! Já não era sem tempo!
O chalezinho de Amélia ficou muito catita: parecia um ninho de noivos. Estava a pedir lua-de-mel!
A cachorra da pequena tinha gosto. Exigiu tapetes, espelhos, cortinas de chita indiana para a sala de jantar, cortinas de renda para a sala de visitas; quis moldura dourada nos quadros, estatuetas pelas paredes; não dispensou nos aparadores e nos consolos jarras de porcelana das mais à moda; jardineiras aqui e ali, vasos caprichosos com begônias e tinhorões sobre a mesa de jantar; cestinhas artísticas, com parasitas, para dependurar nas janelas; e ainda fez substituir na cozinha, nos arranjos da comida e no arranjo dos quartos, tudo aquilo que lhe parecia em condições de reforma.
E só com essas coisas e só com a satisfação de tanta exigência é que Amâncio conseguia paliar as revoltas da amante. O desgraçado já não tinha ânimo de contratariá-la, porque bem conhecia o preço das resingas e, sem achar meio de reagir, via claramente que as reconciliações se tornavam mais caras de dia para dia.
***
Entretanto, depois da mudança, o amor dos dois tomou um caráter mais digno e decente. Já não era necessário que a rapariga andasse à noite em ponta de pés pela casa, tateando a escuridão para ir ter com o seu homem. Agora dormiam à vontade, seguros de sua independência, com as portas bem fechadas por dentro.
E só se despregavam, do lado um do outro, quando tinham que abandonar o quarto. Então, cada um se servia da porta competente: Amélia tomava a da varanda e Amâncio a da sala de visitas!
Não podiam desejar melhor!
Melhor, bem certo, para o descanso do corpo e repouso do espírito; não, porém, para garantia do amor, essa estranha função psicológica que só alimenta as suas raízes nos sobressaltos e no perigo. Tamanha segurança e tamanha liberdade de ação deviam fatalmente levantar a ponta de tédio, cujo novelo existe, mais ou menos escondido, no fundo de todas as coisas.
Não vinha longe a saciedade; Amâncio já lhe ouvia o bocejar. Iam-se-lhe pouco a pouco amortecendo os primitivos arrebatamentos do desejo; os dois tinham-se já frouxamente, sem lumes de entusiasmo, sem os esforçadores auxílios da imaginação. Assuntos práticos, positivos agora se lhes intercalavam nas carícias, puxando-os grosseiramente à calma realidade da vida.
Amelinha já lhe não surgia no quarto com aquele trêfego ruçar-se de pomba assustada, o que lhe enchia as feições e os movimentos de uma graça tão maliciosa e provocadora; agora se apresentava com um ar muito tranqüilo, de casada, a arrastar os chinelos, o roupão desabotoado e solto num farto abandono de alcova.
Despia-se defronte de Amâncio, coçando negligentemente as partes do corpo que estiveram comprimidas durante o dia, como a cinta, o lugar das ligas e dos canos das botinas. Despenteava-se ali mesmo, ao lado da cama do rapaz, sacundindo o cabelo com ambas as mãos, num movimento de traços erguidos que lhe mostrava a grenha das axilas; ele, também, parecia não dar por isso, era todo do livro que lia à luz de uma vela pousada no criado-mudo.
E os assuntos de suas conversas materializavam-se completamente. Já só discutiam interesses práticos, arranjos de vida e conveniências domésticas: «Era preciso arranjar um jardineiro, que viesse uma vez por semana cuidar das plantas e limpar os tanques. -Era preciso chamar o homem do gás para consertar tal candeeiro que não dava boa luz. -Era conveniente alugar uma criada que soubesse lavar; porque a ladra da lavadeira trocava as camisas e encardia a roupa, que fazia lástima!»
E, às vezes, na intimidade dessas conversas, criticavam os atos de Mme. Brizard e de Coqueiro; censuravam-lhe umas tantas coisas, com, por exemplo: a negligência destes para com César. «O pequeno ia por um tal caminho, que, se não abrissem os olhos, havia de amargar mais tarde! -Que diabo custava ao Janjão arranjá-lo aí em qualquer casa de comércio ou, pelo menos, fazê-lo aprender um ofício?... Em casa mesmo já lhe podiam ter metido nas unhas a carta do ABC e já lhe podiam ter ensinado alguma coisa... Mas Loló não se queria incomodar! E senão, vissem o que se passava a respeito de Nini; outra fosse a boa da mãe, que a pobre rapariga não levaria semanas e semanas lá na casa de saúde, sem ter uma pessoa que olhasse por ela.»
Eram sempre deste teor os motivos de sua conversa. Amélia, não obstante, fazia-lhe muito ligada aos menores interesses do amigo: queria saber o que ele gastava por fora, com quem estivera; reprovava-lhe certas relações, certas companhias «que não punham ninguém pra diante», e aconselhava-o a que se não descuidasse de outras que lhe podiam ainda vir a servir; pregava-lhe sermões a respeito de economias. «O mundo estava cheio de espertos: ele que desconfiasse de todos; cada um só procurava chamar a brasa para a sua sardinha!» Queria estar a par de como iam os negócios do amante na província. «Se o dinheiro ficara em boas mãos; se não havia risco de uma quebra ou de alguma ladroeira.» E muito egoísta, muito mulher, muito agarrada ao que lhe pertencia, desde Amâncio até ao pó de suas gavetas, fazia justamente como fazem os sócios comerciais que, parecendo tratar dos interesses abstratos de uma firma, estão mas é tratando dos próprios interesses.
Outras vezes boquejavam sobre os conhecidos, sobre as pessoas de amizade. Uma noite em que, durante o serão da varanda, se conversou muito a respeito de Hortênsia, Amélia, já no quarto, em fralda, com um joelho dobrado em cima da cama, enquanto tirava grampos da cabeça e os arremessava para o velador, disse, como se continuasse um pensamento:
-Ela, no fim de contas, não passa de uma mulher como as outras!... Loló e Janjão, é que, quando gostam de uma pessoa tiram tudo dos outros para enfeitá-la!
-Quem? D. Maria Hortênsia? perguntou Amâncio, procurando num livro o lugar em que na véspera deixara a leitura. E, depois de um movimento afirmativo da rapariga:
-Não, Coqueiro tem razão -a mulher de Campos é uma excelente senhora. Muito honesta!
-Ora! É uma mulher como as outras!... sustentou Amélia, galgando a cama por cima do amante, para se aninhar do lado da parede.
-Como as outras, como? Em que sentido?
-Não é lá essas purezas que a querem fazer! Não é nenhuma santa!
-Estás enganada, filha! A Hortênsia é uma mulher muito séria!...
-Quando não ri...
-Pelo menos até aqui, que me conste, ninguém ainda se animou a dizer nada de sua conduta!
Amélia, então, possuída de um rancor instintivo de classe, de uma surda antipatia de mulher suspeita por mulher honesta, desencadeou os seus argumentos e as suas razões. Trouxe a lume conversas inteiras, que bispara na tal noite do exame. «Amâncio via cara e não via coração!... Aquele -meu bem para cá, meu bem para lá -que todos notavam entre Campos e a mulher, era só dos dentes para fora! No íntimo, Hortênsia detestava o marido! Achava-o muito bom homem, é verdade, muito generoso, não podia se queixar de que lhe faltasse nada -boa mesa, boa casa, criados para servir, teatros, bailes, seu bom carro, seu vestido de preço -sim senhor! mas só! Quanto a carinhos -nicles! A respeito de certos confortos de que uma mulher precisa -era uma miséria! Às vezes, passavam-se meses sem que o marido a procurasse! O pobre homem andava lá com os seus negócios, coitado! E a doida, em lugar de conformar-se com a sorte, punha a boca no mundo e eram queixas e mais queixas pra frente! Que ela, Amélia, não soubera de tudo isso por parte deste ou daquele -escutara com seus próprios ouvidos!»
-Pois bem, ainda me ajudas!... volveu Amâncio, tomando extremo interesse pela conversa -ainda me ajudas, porque, se é como dizes, o bom comportamento de D. Hortênsia torna-se muito mais digno de admiração!...
-Sim!... retrucou a rapariga ironicamente. -Também acho bom, mas moro longe! -De um, quando mais não seja, sei eu, por quem o tal «anjo de pureza» seria capaz de dar uma perna ao diabo! E olha que, se ainda não a deu, foi porque ainda não teve ocasião para isso! vontade não lhe falta! Ele que se apresentasse e veríamos!
Amâncio quis logo saber quem era o sujeito.
-Um tipo! Não o conheces.
-Mas como se chama?
Amélia, depois de alguma hesitação, confessou. -Era Sousa Antunes... Aí tinha!
-Que Antunes, homem! Aquele sujeito da Câmara. Alto, de cavanhaque, aquele de castor branco, que uma vez encontramos nas regatas, em Botafogo.
-Ah!... Já sei, já sei...
E Amâncio procurou disfarçar a sua contrariedade, fingindo que se abismava na leitura. E parecia muito preso à página, enquanto, aliás, o seu pensamento buscava descobrir no tipo de Sousa Antunes os atrativos que cativaram a mulher de Campos. -Impossível! O tal Antunes era um viúvo talvez de quarenta anos, pai de filhos, e vulgar, sem talento de espécie alguma, vivendo de um ordenado oficial de secretaria, nem tendo, ao menos, qualidades físicas que inspirassem paixão a qualquer mulher, quanto mais àquela! aquela que não pôs dúvida em lhe atirar com uma recusa pelas ventas!...
-Não! Isso deve ser história!... considerou ele em voz alta.
-Qual história, o quê! retorquiu logo Amélia. -É louca por ele! Quando o avista, fica tonta! Eu vi! (E arregalou um dos olhos com o dedo.) Ainda outro dia, no São Pedro -que escândalo! Não lhe tirava o binóculo de cima! O que a cegou, sei eu...
-Mas como vieste tu a saber disto?...
-Ora! Loló é toda das Fonsecas, que estão agora de cama e mesa com a Hortênsia!...
-Fonsecas?...
-Aquelas moças esquisitas, aquelas que foram à soirée!... Lembras-te? Ó homem! as Fonsecas... as de Catumbi!...
A Amâncio pouco lhe importavam as Fonsecas, o que ele desejava eram mais algumas informações a respeito do escândalo. Não podia suportar a idéia de que Hortênsia, a mesma Hortênsia que lhe repelira os beijos, tivesse um fraco pelo Antunes, o Antunes do cavanhaque! -Que horror!
E, depois dessa conversa, principiou a freqüentar a casa de Campos com mais assiduidade. Aparecia regularmente duas vezes por semana e quase se demorava até as horas do chá.
Mas Hortênsia -qual! Não atava, nem desatava. Era sempre a mesma criatura incompreensível; sempre aquela mesma ambigüidade, a mesma dúvida, o mesmo querer e não querer! Hoje -um sorriso de esperanças; amanhã- uma frieza esmagadora; depois -suspiros, meias palavras de ressentimento, olhares misteriosos, vagos, ora muito colorido de ternura, ora pulados de orgulho; tão depressa altiva e sobranceira, como suplicante e humilde; tão depressa risonha como triste, generosa como sovina, dando com uma das mãos para tomar logo com a outra.
O rapaz impacientava-se: -Fossem lá compreender semelhante mulher! Um dia -toda condescendência, toda interesse por ele, no outro -gestos desabridos, ameaças, palavras duras. -Sebo! -Já passava a debique! No fim de contas não valia a pena!
Mas o ladrão da mulher tinha uns olhos tão doces, uns dentes tão brancos, uma pele tão viçosa!... «Não! não senhor! Era preciso acabar com aquilo! Ele estava fazendo um papel ridículo!»...
E deliberava não pensar mais na mulher de Campos. «Que diabo! Se se queria divertir, comprasse um boneco de engonços!»... Quando, porém, dava por si no dia imediato, já os passos o tinham conduzido para a casa do negociante.
«Entraria, mas lá dentro havia de ser forte, inabalável!» E trepava pelas escadas, imaginando improvisar um namoro com a Carlotinha estudando os assuntos de que teria de usar na conversa, calculando os efeitos que a sua afetada indiferença devia produzir no espírito da caprichosa. Bastava, porém, um sorriso de Hortênsia, uma palavra mais terna, um gesto mais amoroso para o fazer ficar caído, desarmado, seguro como nunca. -Era o diabo!
Voltava para casa furioso, atirando com as portas, respondendo de má vontade às perguntas que lhe dirigiam.
Amélia o estranhava, sem dar, contudo, a perceber coisa alguma. Apenas lhe perguntava, aliás, como sempre, onde estivera e, quando o rapaz dizia secamente: «Com Campos», ela fazia:
-Ah!...
E não tocava mais em semelhante coisa.
Uma noite ele entrou ainda pior que das outras. Não quis ir à varanda, meteu-se no quarto, abriu um livro e aí ficou, junto à secretária, com a fisionomia fechada sobre a página.
Todavia, seu pensamento trabalhava: «Era preciso acabar com aquilo, custasse o que custasse! Era preciso definir as posições! -Ou a mulher de Campos se explicava, ou ele não poria lá mais os pés!»
E resolveu que o melhor seria escrever-lhe uma carta, uma carta enérgica, decisiva, exigindo um «sim» ou um «não». Fosse a resposta qual fosse, contanto que viesse, contanto que Hortênsia desembuchasse por uma vez!
Mas não queria escrever enquanto Amélia não pegasse no sono. -Ele bem sabia o quanto era a rapariga desconfiada e fina. Só quando a pilhou quieta e presumiu que já estivesse dormindo, foi que se animou a minutar a carta.
Frases e frases desesperadas e cheias de fogo acavalavam-se umas pelas outras, falando em martírios infernais, em suplícios dantescos e terríveis aniquilamentos. E Amâncio, no seu epicurismo estrepitoso e brutal, declarava que «já não podia suportar as meias promessas, os dúbios sorrisos e lentas torturas que ao sangue recalcado lhe impunham as atitudes perplexas, de Hortênsia. Preferia a dor por inteiro, completa, de um só golpe. Ela que tomasse uma resolução, que despachasse! Se lhe não convinha o amor que ele propunha, declarasse-o com franqueza: -ficaria o dito por não dito! E assim, escusavam de prosseguir naquele encarniçamento desabrido, de cujo oscilante resultado as dúvidas e incertezas o acabrunhavam e consumiam, mais dolorosamente do que tudo que pudesse haver de terrível e cruel em uma solução desfavorável!»
Quando deu por bem correto e limado o que escrevera, tirou a limpo uma cópia, sobrescritou-a e, para que Amélia não descobrisse nada, escondeu todos os corpos de delito no fundo de uma das gavetas da secretária. Depois, como se tivesse alijado um novelo da garganta, respirou desafrontadamente, amorteceu o bico de gás e, abafando os passos e desfazendo-se em cautelas, foi meter-se nos lençóis, muito empenhado em não acordar a amante.
Não levou dez minutos a cair no sono.
Então, Amélia ergueu-se, ainda com mais cuidado do que ele se recolhera, foi pé ante pé à secretária, tirou a carta e, depois de guardá-la em lugar seguro, tornou de novo à cama, e desta vez adormeceu deveras.
***
Leu-a precatadamente no banho, às oito horas da manhã, enquanto esperava que o tanque de mármore se enchesse.
Amâncio ainda ficara no quarto.
Ela, já despida, encostada ao rebordo da banheira, os ombros curvos, uma perna sobre a outra, a cabeça descaída molemente para os ombros polposos do seio, tinha em uma das mãos a pequena folha de papel e, de tal modo a fitava, que parecia disposta a consumi-la com o brilho iracundo de seus olhos.
Aquela carta a revoltava muito; não por ele, mas por si mesma; não pelo afeto que teria ao estudante, mas pelo ressentimento de seu amor-próprio ofendido. Não lhe podia sofrer a vaidade que um homem, a quem, por merecer, ela fizera tudo que estava em suas mãos; um homem por quem lançara em jogos os recursos de sua feminilidade; um homem por quem barateara todo o valimento do seu corpo, tivesse ânimo de desprezá-la por uma outra mulher!
E, com o olhar imóvel sobre a nudez oriental de seus membros, a boca entreaberta, o colo palpitante, Amélia se concentrava toda na idéia de uma vingança completa, tão completa, tão grande que lhe atulhasse o rombo cavado no seu orgulho de mulher traída.
A água, que escorria da torneira com um trapejar, monótono, punha no ambiente desagasalhado do banheiro uma impressão ainda fria de umidade e desconforto; e aquele corpo nu destacava-se ali como uma bela estátua desprezada. Sua carne tersa e maciça contraía-se, empinando os lóbulos do peito e enrijando a vermicular protuberância dos quadris.
Nisto, uma abelha voejou à roda da cabeça de Amélia, tentando pousar-lhe nos cabelos; ela agachou-se toda, fugindo logo num movimento medroso de caça que se assusta. Em seguida, puxou a toalha do cabide e pôs-se a dardejá-la contra o dourado importuno.
Foi uma luta. O inseto fugia; ela trepava-se à borda do tanque, equilibrando-se, ora num pé, ora no outro, segurando-se à parede, vindo, recuando, a despedir para todos os lados golpes perdidos na toalha.
Mas a abelha não se deixara prender. Ia e revinha no ar, zumbindo, a sacudir as suas trêmulas asas de escumilha; até que o sol, por uma frincha do telhado, veio buscá-la numa aresta de luz, ainda mais dourada do que ela.
***
Nessa ocasião, Amâncio, no quarto, perdia a cabeça à procura da carta.
-Pois se eu a guardei aqui, com estas minutas!... resmungava ele sozinho, depois de ter já desarrumado toda a gaveta.
Imaginar que Amélia desse com ela, não! não era possível! Não descobriria o lugar, onde Amâncio, tão previdentemente, sepultara a maldita carta; além disso, quando ele se meteu na cama, já a pequena dormia a bom dormir e, pela manhã, bem a viu acordar e escafeder-se para o banho... Que diabo teria então mexido ali?... As portas ficavam sempre fechadas por dentro!... Supor que tivesse guardado o demônio da carta em outra parte... mas como? se a deixara justamente dentro das minutas, e as minutas lá estavam?...
Mas Amélia vinha de entrar no quarto ao pé.
-Ó Amelinha! viste por caso por aí alguma carta?... perguntou o rapaz indo ao seu encontro.
-Que carta? fez ela com o ar mais calmo e mais natural deste mundo.
-Uma carta que nem é minha!... Guardei-a naquela gaveta, -desapareceu!... Agora não sei que contas prestar ao dono! É uma entalação! uma verdadeira entalação! queixava-se o rapaz convictamente.
-Mas, onde a puseste?
-Na gaveta da secretária; estou-te a dizer!
-Então deve estar lá. Procura bem.
-Já vi. Não está!
-Pois aqui não entra mais ninguém... Eu cá por mim, não mexo nunca nos teus papéis, e ainda nem abri, uma vez sequer, qualquer dessas gavetas... Se puseste a carta aí, aí deve estar por força!
-Qual está o quê! Já despejei a gaveta! Já remexi tudo.
E a desordem em que se achava o quarto dizia isso mesmo.
-Então não sei... concluiu Amélia, sacudindo os ombros. E continuou tranqüilamente a enxugar os cabelos, cujo serviço havia interrompido para atender às perguntas do amante.
-Mas a carta também não podia voar! declarou este em tom áspero.
-Sei lá! replicou a outra. -Comigo que não a tenho... isso afianço!
-Diabo! praguejou Amâncio, sem se poder dominar. -Pois, nem uma miserável carta posso ter nesta casa?! Arre! que inferno!
-Inferno são esses modos que tens ultimamente! De certo tempo para cá é esta boniteza! Parece que falas ao Sabino! Ora quem sabe!... quem sabe se tenho aqui algum senhor?!...
-Está bom! Basta!
-Basta vá ele! seu atrevido! Quero saber que culpa têm os mais com os sumiços que levam as cartas, para ouvir impropérios desta ordem!
-Eu não me dirigi a ninguém! Sebo! Falo cá comigo! Creio que ao menos tenho o direito de zangar-me quando entender!
-Sim, mas é que os outros também não estão dispostos a aturar desses repelões a todo o instante!
-Pois que não aturem!
-Malcriado! Agora, por qualquer coisinha é isso que se vê! -Qualquer coisinha não! berrou Amâncio. -É que ontem pus aqui uma carta (soltou um murro na secretária) e a carta desapareceu! Irra!
-Mas quem é que te podia vir aqui tirar a carta, criatura de Deus?! perguntou Amélia mais branda, encaminhando-se para o amante, a modos de querer chamá-lo à razão.
-Não sei! O fato é que a pus aqui, e ela cá não está!
-Há de estar, homem! Não a encontras agora porque já não tens cabeça, mas, logo que te acalmes, hás de descobri-la...
-Mas onde? Já corri tudo!
-Deixa estar; eu me encarrego de procurá-la assim que saíres.
-Mas é que eu precisava levá-la comigo! É negócio urgente!
Amélia, como em resposta à última frase do rapaz, abaixou-se sobre os papéis espalhados no chão e começou a examiná-los, um por um.
-Não está aí! observou Amâncio zangado, a passear de um lado para outro. -Já revistei tudo isso mais de cem vezes! Furtaram a carta, não tem que ver!
Amélia já não respondia e continuava, muito afoita, a esquadrinhar o que havia pelo quarto.
-Se me lembro perfeitamente que a meti naquela gaveta, ao fundo, dentro destas minutas!... acrescentou Amâncio, depois de um silêncio colérico.
-Mas quando a trouxeste?... disse Amélia, sem tirar os olhos do que rebuscava.
-Ontem à noite.
-Mas eu não te vi com ela...
-Já estavas dormindo, guando a pus na gaveta.
-Quem sabe se ficou naquela algibeira?...
E a manhosa, com um vislumbre, largou tudo de mão para correr a examinar a roupa de cabide.
-Ó filha! Eu não estava bêbado quando me recolhi! observou Amâncio.
E tocou para o banheiro traçando furioso o lençol em volta do corpo, num gesto melodramático.
Quando tornou ao quarto, Amélia já havia arrumado as gavetas e dispunha sobre a cama a roupa que o rapaz devia vestir á volta do banho.
-Então?... perguntou ele, ao entrar.
-Nada! volveu ela, com admiração na voz.
-Com efeito! Isto contado não se acredita!... rosnou Amâncio, enfiando as meias.
E gritou para fora:
-Ó Sabino! Olha essas botas, moleque!
Amélia, ao lado, metia-lhe os botões numa camisa engomada.
E depois, a escovar-lhe o paletó no corpo, quando o estudante já estava ao ponto:
-E a carta, de quem era?...
-De Campos, respondeu ele, sem hesitar.
E saiu. Amélia acompanhou-o pelas costas com um riso de asco.
E logo que se viu só, tirou do seio o seu furto e releu-o mais uma vez.
-Que devia fazer daquela carta?... como se devia servir daquela arma?... Denunciar o infame? -atirar-lhe à cara a prova de sua vilania e nunca mais o procurar para nada, ou devia simplesmente fingir que não sabia de coisa alguma, e em segredo, tomar a vingança que lhe parecesse melhor?
Despedi-lo por uma vez -não convinha! isso nem por sonhos! Ficar, porém, eternamente resignada e submissa, também seria asneira!
Seu amor-próprio estava mordido e sangrava. O procedimento desleal de Amâncio assumia no tribunal egoístico de seu espírito ignorante e mal-educado as proporções jurídicas de um crime, de um monstruoso abuso de confiança, um estelionato. Não se podia conformar com a idéia daquela tremenda injúria, lançada contra os seus direitos de mulher nova e bonita.
-Canalha! murmurava consigo, a esmoer o fato. -Bem me dizia o coração!... Agora, o que precisavas que te fizesse, sei eu! Ah! Mas descansa que hás de pagar com a língua de palmo! para não seres cão, meu safardana!
Foi-se, porém, todo o dia, sem que Amélia deliberasse o destino que deveria dar à carta. Só na manhã seguinte apareceu-lhe uma resolução.
For ter com o mano, chamou-o de parte e entregou-lhe.
-Vê isto, disse.
Coqueiro abismou-se logo desde as primeiras palavras: «Minha adorada e incompreensível Hortênsia.»
-Que vem a ser isto?... perguntou ele intrigado.
-Lê! Respondeu ela.
E, enquanto o irmão devorava o que vinha escrito:
-Vê tu só a hipocrisia daquele sonso!...
-Ele já sabe que esta carta está em teu poder? interrogou Coqueiro depois da leitura.
-Qual! nem pode descobrir!
-Ainda não deu pela falta?
-Já. Zangou-me um bocado, arrepelou-se, mas afinal creio que se convenceu de que a tinha perdido.
-E agora o que tencionas fazer disto?
-Não sei... Que achas tu?...
-Acho que por ora não convém fazer nada.
-Calar-me?!
-Por ora, decerto! Esta carta pode vir ainda a servir-te de muito, mas é preciso que, em primeiro lugar, apareça a ocasião. Se quiseres, deixa-a comigo, que eu sei o destino que lhe devo dar.
E guardou-a no bolso depois de um gesto aprobativo da irmã.
-Ele a teria escrito de novo e feito chegar às mãos de Hortênsia, sabes?...
-Não sei, mas posso ver.
-Bem. em todo o caso, não te dês por achada! Nem uma palavra a este respeito! Precisamos dar tempo ao tempo... podes, todavia, ficar desde já tranqüila, que o que tem de ser -traz força! A justiça não se fez para os cães!...
-É por isso mesmo que eu não confio muito na tal justiça! observou a rapariga.
Mas, no fundo, João Coqueiro principiava a «cismar com o negócio». Segundo os seus cálculos, a irmã, por aquela época, já deveria estar pejada: circunstância esta que daria oportunidade a um escândalo, de antemão preparado, forçando Amâncio a «reparar sua falta».
E, no entanto, Amelinha «nada de aviar»! O bom irmão sentia até como um peso na consciência por haver contribuído diretamente para aquela situação.
-Era sempre assim!... pensava ele enraivecido. -Se não precisássemos de um filho, é que os pestinhas haviam de aparecer aí de enfiada!
E o receio amargo de ter sacrificado a menina, talvez sem os belos resultados que esperava para si e para ela, invadia-lhe o coração e punha-lhe momentos maus na vida.
Mme. Brizard já não pensava do mesmo modo. Aquela existência pronta, inteiramente desocupada, lhe viera muito a propósito. «Ela, coitada de si! bem precisava de um bocado de descanso!»
As coisas, de fato, iam-lhe agora admiravelmente: Tinha a sua mesa boa e farta, um bom quarto de dormir, a mucama para lavar-lhe e engomar-lhe a roupa, um camarote no teatro de quando em quando, aos domingos um passeio à cidade, e lá uma vez por outra uma «soirée»1 em casa de alguma amiga. «Ah! Não se podia comparar a existência que levava agora com a peste de vida que curtira na Rua do Resende!»
É que então não havia a menor folga; não se podia arredar pé do serviço! E todo o dia reclamações! E todo o dia -o banho morno de fulano! O chocolate de beltrano! Este queria ir sem pagar a conta; o outro se entendia no direito de dizer desaforos porque pagava! Arre! Assim também não era viver! Seu corpo há muito tempo que pedia aquele repouso! Se continuasse a labutar como dantes -credo!- estourava por aí um dia, esfalfada!
E, com medo de perder a «pepineira», cercava Amâncio de adulações. Tinha-o na conta de um patrão, de um amo, com direito a todos os carinhos e desvelos. Assim jamais o contrariava, nunca lhe opunha censuras. -Aquilo que o rapaz fizesse estava sempre muito bem feito!
No seu entendimento mercantil de locandeira, Amâncio não aparecia «como isto ou como aquilo», representava pura e simplesmente «um bom arranjo». Ali não havia favores, havia negócio, ninguém ficava a dever obrigações. -Ele despendia tanto em dinheiro, mas recebia em carícias e bom trato um valor correspondente. -Estavam quites!
Apenas, como o negócio era rendoso e agradava a boa mulher, esta fazia o que estava ao seu alcance por agüentá-lo o maior tempo possível, como de resto, qualquer um procedia com referência a um bom emprego. Quanto à posição de Amélia, Mme. Brizard a dava por natural e coerente. Não via na cunhada uma vítima ou coisa que o valha, mas tão-somente um membro solidário naquela empresa, envidando os esforços de sua competência para o comum interesse da associação.
Isto, já se deixa ver, era o que pensava a francesa, mas não o que ela expunha; de sorte que o marido ficou muito espantado, quando, falando sobre a necessidade de tratar do casamento de Amélia com o hóspede, lhe ouvia dizer:
-Homem... para falar com franqueza... acho que o melhor é deixar seguir o barco como vai!...
-Como vai!...
E Coqueiro engoliu a frase indignado:
-Ora essa! Tu, com certeza, não estás falando a sério!
-Às vezes, quem tudo quer tudo perde!... sentenciou a mulher.
-Mas que diabo quero eu?! retrucou aquele. -Eu não quero senão o que é de justiça! Quero apenas que eles se casem!
A outra, para quem o casamento de Amélia não trazia vantagens imediatas e podia, aliás, comprometer o estado feliz das coisas, saltou logo com uma bateria de opiniões contrárias: «Coqueiro faria muito mal em precipitar os acontecimentos! Naquela situação o mais razoável e o mais prudente era sem dúvida esperar! A natureza não dava saltos! as coisas haviam de atingir um bom resultado, sem ser preciso lançar mão de meios violentos!»...
-Mas é que ele nos pode escapar!... argumentou Coqueiro.
-Não creias! retorquiu a velha com um gesto arraigado na experiência.
-Mas filha, vem cá! -Não vês como o Amâncio está ultimamente? Já não é o mesmo! Amelinha já não tem sobre ele domínio de espécie alguma! O maroto já não pensa nela, é todo da Hortênsia!
-E que tem isso? O que tem que ele farisque a Hortênsia? Está no seu direito -é moço, tem dinheiro!
-Ora essa!... exclamou de novo Coqueiro, ainda mais indignado que da outra vez. -O que tem isso?!...
E cruzando os braços:
-É muito boa!...
Mas tornou logo:
-Tem, que ele deve uma reparação à minha irmã! Tem, que ele, apaixonado pela Hortênsia, pode virar as costas à pobre menina e abandoná-la no estado em que a pôs! -desonrada, perdida! «Que tem isso?!» Ora faça-me o favor!
-Tolo! disse a francesa com um riso cheio de filosofia, cuja tranqüilidade contrastava com as irritações do marido. -Tolo! Bem que se vê que não conheces os homens!... Pois acredites lá que o Amâncio despreze a rapariga por ter agora um capricho pela outra?... Não sabes que a única mulher capaz de prender o homem é aquela com quem ele convive dia e noite; aquela com quem ele se habituou; aquela que já lhe conhece as fraquezas, os ridículos, as pequeninas misérias da intimidade?! Abandoná-la!... Digo-te mais: -Hortênsia é até necessária! Deixa que ele a persiga, que ele a conquiste à força de mil sacrifícios e de mil sofrimentos; deixe que ele a possua, que a tenha inteira na mão! Deixa, porque ele há de voltar, e voltar farto!... Meu amigo, paixão é fogo de palha! -não dura! Nas ocasiões de fadiga e abatimento é com o amorzinho de casa que a gente se acha! E, fica então sabendo que, para um homem amar deveras uma mulher, é preciso que ele se tenha já desiludido com muitas outras! Tristes de nós, se assim não fosse! Há maridos que, ao voltar de suas correrias, apaixonam-se pelas mesmas esposas, a quem dantes só se chegavam por obrigação!
E a francesa velha, saboreando o silêncio que cavara no adversário, concluiu depois de tomar fôlego:
-O rapaz quer, por graça, dar cabeçadas?... Pois deixa-as dar! Que ele, quando partir a cabeça, há de fazer justiça à tua irmã. Este fato da mulher de Campos, crê tu, foi uma providência, foi um atalho que se abriu nos teus planos!
***
E o fato é que Coqueiro acabou por concordar com a mulher. «Amélia, desde que se convertesse numa necessidade para a vida de Amâncio, este, com certeza seria o mais interessado em fazer dela sua esposa; por conseguinte, agora o que convinha era que a rapariga também ajudasse de sua parte, empregando todo o jeito e boa vontade de que pudesse dispor: devia mostrar-se cordata, simples nos seus gostos, bem arranjadinha, amiga do asseio, honesta, digna, enfim, de um marido!»
E dominado por esta idéia, aconselhou logo à irmã que se fizesse meiga com o «noivo», dócil, boa companheira e fiel principalmente, fiel quanto possível, que todo o futuro dela, bom ou mau, só disso dependia!
Mas a rapariga, com uma pontinha de desânimo, contrapunha-lhe o feio procedimento de Amâncio para com ela naqueles últimos tempos. Apontou as cenas de altercação que mais a humilharam; disse as frases grosseiras que ouvira do amante, as ameaças que recebera, as palavras que lhe escaparam, a ele, na febre das contendas; palavras, onde se enxergavam claramente o fastio e a má vontade!
-Não faças caso! discreteou o irmão. -Isto não vale nada!... fecha por enquanto os olhos a todas essas coisas! Não convém o menor espalhafato antes que o tenha seguro de pés e mãos! Nada de espantar a caça!... Lembra-te, minha rica, de que, no estado em que te achas, só ele te poderá proporcionar uma posição legítima e definida!
Depois desta conferência, Coqueiro ficou mais tranqüilo. Agora, a sua maior preocupação era o sobrado da Rua do Resende. -Já lá se iam meses, sem que o conseguisse alugar; o diabo do prédio era grande demais para família e, na disposição em que estavam os quartos só mesmo podia servir para casa de pensão.
Nesta conjuntura, resolveu alugá-lo a várias pessoas; mas, para isso, tinha de fazer obras e faltava-lhe um homem de confiança, que estivesse disposto a ir para lá e tomar conta de tudo. -Ah! Se não fora a família!... ninguém mais se encarregava disso senão o próprio Coqueiro! E fá-lo-ia até por gosto!
Encontrou, porém, o seu homem num velho conhecido empregado no correio e que, já em algum tempo, tomara a seu cargo, nas mesmas condições, a casa de um outro amigo. Chamava-se Damião -bom rapaz, ativo e zeloso. Estava talhado para a coisa.
Damião, mediante a faculdade de não pagar a parte que ocupasse na casa, comprometia-se a cobrar o aluguel dos outros inquilinos e entregá-lo pontualmente ao senhorio; obrigava-se a fiscalizar a conservação do prédio, a pregar escritos quando houvesse cômodos desabitados e administraria enfim o serviço da pessoa que se encarregasse de fazer a limpeza dos quartos, de varrer os corredores, encher os jarros e moringues, tomar conta da chavaria e ter olho sobre quem entrasse e quem saísse.
Para estes últimos cuidados arranjou-se um homenzinho meio corcunda, português, rafeiro, esperto como um rato, um pouco falador, mas muito experimentado naqueles serviços. Coqueiro dar-lhe-ia alguma coisa por mês e um canto da casa para dormir. «Uma pechincha!»
Fechado o negócio, tratou o proprietário de dividir a sala de visitas e a varanda do sobrado em pequenos repartimentos de tabique, forrados de papel nacional. É inútil dizer que neste ponto foi indispensável a intervenção pecuniária de Amâncio, que ficou por conseguinte com direito sobre uma parte dos rendimentos do prédio.
E também não é menos útil declarar que o provinciano, nem de longe, sentiu jamais o cheiro de tais rendimentos.
***
Mas o certo é que as obras se fizeram, e a célebre casa de pensão de Mme. Brizard, outrora tão animada e concorrida, transformou-se num desses melancólicos sobradões de alugar quartos, que se observam a cada canto do Rio de Janeiro e onde, promiscuamente, se aninha toda a sorte de indivíduo, mas de indivíduos que já foram alguma coisa ou de indivíduos que ainda são nada.
Aí, as mais belas e atrevidas ilusões vivem paredes-meias com o mais denso e absoluto ceticismo. Velhos boêmios, curtidos no veneno de todos os vícios e no segredo de todas as misérias, encontram-se diariamente, ombro a ombro, com os visionários estudantes de preparatórios.
É nessas praias desamparadas à ventania da sorte que a sociedade costuma arrevessar o destroço dos que naufragam nas suas águas, mas é daí também que ela pesca às vezes novas pérolas para o seu diadema. Há de tudo -homens de todas as nacionalidades, sujeitos de vida misteriosa, solteiros libertinos e neutralizados pelo venéreo, artistas completamente desconhecidos que se imaginam vítimas do meio, e supostos talentos que vivem para amaldiçoar a fortuna dos que conseguiram vencer a onda.
Quase todos eles têm na sua vida um fato, uma época, uma coisa extraordinária, para contar: um, apresenta a honra de lhe haver morrido nos braços tal homem célebre; outro, diz que foi amante da senhora condessa de tal; outro, afiança e jura ser o verdadeiro, se bem que obscuro, promotor de tal acontecimento histórico; outro revela um romance de amor que lhe cortou a carreira, mas que o imortalizará em vendo a luz da publicidade; outro, confia numa invenção, «é o seu segredo», um projeto mecânico, ou industrial ou econômico-político; outro, não aceita emprego nenhum do atual governo, e espera a ocasião de «pegar numa espingarda e fuzilar as velhas instituições de seu miserando país»; outros, enfim (e são os menos raros), têm apenas para exibir em honra própria a circunstância de algum parentesco ilustre.
Ah! Não se encontram aí notabilidades de nenhuma espécie, mas sim os parentes. Este, é o sobrinho de tal poeta ilustre; aquele é irmão do ministro tal, que deu o nome a tal rua; este outro, cunhado ou primo em terceiro grau do glorioso artista Fulano dos anzóis.
E os tipos, quando lhe tocam nisso, enchem-se de orgulho, como se participassem das glórias do festejado parente; pelo menos, ninguém os apresenta a qualquer pessoa, sem acrescentar logo, com assombro: «Irmão de Sicrano!... cunhado de Beltrano!»...
Então o apresentado costuma abaixar os olhos, sorrindo modestamente, como se dissesse: «Ó senhor! Por quem é... não me confunda!»
É também desses viveiros sombrios e malcheirosos que surgem certas figuras que, às vezes, nos espantam na rua -a tossicar dentro de um sobretudo enorme, um xale-manta em volta do pescoço, um bengalão entre os dedos e na fisionomia um ar melancólico e ao mesmo tempo irritado.
É daí, desses quartos silenciosos, úmidos e tristonhos, como sepulturas vazias, que surgem com o seu passo inalterável e pausado os sinistros aranhões, que vemos passar estranhamente pelos jardins públicos, ao sol das boas manhãs de inverno.
Coitados! São em geral homens sem meios de vida, protegidos por algum figurão qualquer, de quem, ou foram colegas na academia, ou ainda continuam a ser parentes com a mais cruel pertinácia. Quando falam desse protetor feliz e rico não se animam a dizer mal, mas a sua fisionomia acode um invencível sorriso cheio de velha bílis acumulada e sôfrega por transbordar. Uns vão regularmente comer a certas casas comerciais, outros se arranjam pelas impossíveis casa de pasto da Cidade Nova, os «freges», onde as refeições não passam de duzentos réis. Alguns têm almoço seguro à mesa de um velo amigo de melhores tempos, o jantar em casa de outro; às sextas-feiras são infalíveis nas comezainas gratuitas dos frades de São Bento. Uns, passam a noite na jogatina, percorrendo espeluncas, tomando café nos quiosques às quatro e meia da manhã e então, durante o dia seguinte, dormem a fartar; outros, recebem donativos de alguma irmandade religiosa, à qual se filiaram em épocas de prosperidade.
São sempre vistos, em horas determinadas, no jardim do Rocio, no Passeio Público, assentados no banco de pedra, lendo jornais à sombra das amendoeiras, às vezes têm ao lado a botina que descalçaram por amor dos calos; são vistos igualmente nos edifícios públicos em construção, acompanhando as obras com interesse, como se estivessem encarregados disso, fazendo perguntas, ralhando com os operários, numa necessidade irresistível de aplicar, seja como fôr, a sua atividade desocupada e vadia. Não há motim, não há incidente de rua, por mais ligeiro, em que eles não intervenham, tomando logo a parte principal na coisa, repreendendo o agressor, conciliando o agredido, fazendo enfim acreditar que ali está uma autoridade civil em pleno exercício de suas funções.
São violentos quando lhes falam de política e só se referem aos homens de poder com palavrões brutais e desabridos; a alguns nomeiam sempre com alcunhas determinadas e todos os outros, que ainda não receberam o batismo de sua cólera invejosa, são indistintamente «os ladrões, os patoteiros, os vis, os traidores, os capachos do rei!» Através dos cerrados negrumes naquela miséria e daquele ressentimento, nada enxergam de bom e de legítimo.
Coqueiro, não obstante, se mostrava satisfeito com os seus inquilinos e dizia ter encontrado no Damião o «homem que lhe convinha».
Aparecia por lá constantemente; gostava de ver como ia o prédio, gostava de dar um vista de olhos pelos cantos da casa, em silêncio, de mãos no bolso, e sentia uma verdadeiro prazer sempre que encontrava alguma coisinha para consertar -algum pedaço de papel solto da parede, alguma régua despregada, alguma tábua fora do lugar.
A existência nunca lhe parecera tão corredia e tão fácil; só faltava, para complemento da ventura, que o maçante do colega desembuchasse por uma vez com aquele maldito casamento.
-Ah! então é que seriam elas!...
***
Mas o «maçante do colega» estava bem longe de pensar em casamento; todo ele era pouco para sofrer a cáustica impassibilidade de Hortênsia.
A caprichosa continuava no seu terrível sistema de não aviar nem desaviar. Amâncio fizera-lhe ir ter às mãos uma segunda cópia da carta subtraída, e ela em resposta aconselhou-o a que não escrevesse outra, sob pena de entregá-la ao marido.
-Pois que vá para o diabo que a carregue! pensou o estudante, furioso, e resolveu dar o negócio por acabado.
Com efeito, durante um mês inteiro, nas poucas vezes em que teve de falar ao Campos sobre questões de interesses materiais, não passou do escritório.
-Homem! dizia-lhe o negociante. -Você só aparece aqui por fruta, e faz visitinhas de médico! Não há meios de apanhá-lo lá em cima! Neném até já se queixou!
Amâncio defendia-se com os seus estudos e com os sobressaltos em que andava depois das últimas cartas do norte.
-Por quê? Há alguma novidade?!... perguntou o amigo, cheio de solicitude.
-A velha não está boa!... explicou o rapaz. -Desde que morreu meu pai, a pobre de Cristo ainda não levantou a cabeça! confesso-lhe que tenho meus receios, tenho!...
E quedava-se abstrato, a fitar o chão, com a fisionomia paralisada por uma tristeza vidente e ao mesmo tempo irresoluta.
O outro não se animava a interromper aquele silêncio doloroso e respeitável. Mas, por fim, lembrou discretamente, com delicadeza, que não seria mau uma viagem à província; talvez com isso se evitasse um desgosto maior... Amâncio era a menina dos olhos de D. Ângela... bem podia ser que, só com a presença dele, a pobre senhora melhorasse!...
O estudante mostrou-lhe a última carta da mãe; e os dois, tendo ainda conversado com o mesmo recolhimento, vieram a concordar em que era indispensável um passeio ao Maranhão; Amâncio retirou-se fazendo os planos da viagem.
-Oh! exclamava ele por dentro. -Vou! não tem que ver! vou definitivamente! E provo àquela mulher que não ligo a menor importância ao que ela me fez! Hei de provar-lhe que o seu procedimento em nada me alterou. Que até sigo muito satisfeito e muito senhor de mim.
E via-se já na ocasião das despedidas -frio, indiferente, sorrindo às lágrimas de Hortênsia. E sua fantasia, gozando do efeito desses devaneios, armava-lhe ao sabor da vaidade, cenas muito espetaculosas, nas quais representava ele sempre o papel mais brilhante e mais elevado.
Via Hortênsia a seus pés, lacrimosa e mísera, suplicando-lhe por piedade que não se fosse, que a perdoasse, que se compadecesse de tamanho desespero. «Ela ali estava submissa e arrependida, pronta a cumprir de olhos fechados as ordens de seu querido Amâncio, do seu senhor, de seu Deus, do seu tudo!»
Ele então, com um riso cruel, voltando-lhe o rosto e acendendo um charuto: «Não, filha, tem paciência! E se insistes, vai tudo às mãos de Campos!»...
Hortênsia, ao ouvir estas palavras, estorcia-se numa aflição teatral, e logo que Amâncio se dispunha a partir, desabava de costas, quase morta, justamente como as heroínas dos romances que ele devorava aos quinze anos.
Mas a terrível concupiscência do nortista, sobrepujando logo a fantasia do vaidoso, não resistia à tentação de possuir, ao menos em sonho, aquele belo corpo desfalecido e, como dantes, começava mentalmente a despi-lo, peça por peça, até deixá-lo em pleno escândalo da carne.
Entrou em casa resolvido a levantar o vôo, custasse o que custasse.
-Sim, era preciso ir! por Hortênsia, por sua mãe, por Amélia, por mera distração, por tudo! Precisava afastar-se daquele inferno, onde duas mulheres, como duas sombras, o torturavam; uma fugindo e a outra perseguindo. Desde que recebeu a tremenda resposta de Hortênsia, sentia-se muito nervoso e irascível; Amélia suportava-o, sabe Deus como, fazendo milagres de paciência para não se afastar dos conselhos que lhe dera o irmão. Quase que já se não podiam sofrer um ao outro. Além disso, as cartas de Ângela repetiam-se agora desesperadamente. Estaria a pobre mãe com efeito em risco de vida?... pensava Amâncio. «Dependeria dele o salvá-la?... E os seus interesses que havia tanto tempo o reclamavam?... E as saudades da pátria? e os prazeres que encontraria à volta do primeiro ano acadêmico?»
Os prazeres, sim. Amâncio, pelo derradeiro paquete, recebera em uma das principais folhas diárias de sua província a seguinte notícia:
MARANHENSE DISTINTO. -Acaba de fazer brilhantemente o primeiro ano de seu curso na Escola de Medicina na Corte o nosso talentoso comprovinciano, Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos, filho do há pouco falecido e sempre chorado Comendador Manuel Pedro de Vasconcelos, um dos mais estimados negociantes que foi desta praça. Enquanto não podemos pessoalmente abraçar o digno jovem e esperançoso discípulo de Hipócrates, apressamo-nos a enviar-lhe daqui os nossos sinceros parabéns, futurando em S. S., mais uma glória legítima para a nossa Atenas, já tão rica, aliás, em talentos privilegiados!
***
Ninguém poderá imaginar o efeito que produziram tais palavras no espírito presunçoso de Amâncio. Era a primeira vez que ele via o seu nome em letra redonda, seguido de alguns adjetivos laudatórios.
Por detrás daquela notícia pressentia o rapaz um paraíso de novas considerações que o esperava na província; antevia o sorriso das damas, a reverência dos pais de família e a inveja dos ex-colegas do Liceu.
-Não! não podia deixar de ir. O Maranhão, naquele momento, e por todos os motivos, representava para ele uma necessidade urgente. -Havia de meter a cabeça e varar por quantos obstáculos se lhe antepusessem.
***
Amélia ficou estonteada quando o amante lhe deu parte dos seus projetos de viagem, tão calmo e resoluto foi o tom em que o fez; mas, voltando do primeiro choque, rompeu um grande pranto e atirou-se de bruços na cama, soluçando muito aflita. «Que era uma desgraçada! Que Amâncio a queria abandonar, depois de a ter desonrado e perdido!»
-Eu volto, filha! disse ele, procurando fazer-se meigo. -Vou tratar de meus interesses, ver minha mãe, e volto para o teu lado! Não tenhas receio de que te engane! Eu ainda se quisesse, não podia ficar por lá, já não digo por ti, mas, que diabo! pelos meus estudos. Pois acreditas que eu cairia na asneira de abandoná-los, agora que estou tão bem encaminhado?...
-Não sei! respondeu a rapariga, erguendo-se rapidamente, com feições sumidas na vermelhidão do choro. -Você, é impossível que não tenha no Maranhão alguém à sua espera!... E essa com certeza não há de ser pobre como eu, não terá a boa fé que eu tive!... com essa você não porá dúvida nenhuma para casar!...
E voltaram-lhe os soluços, como um temporal que recresce.
-Estás a dizer tolices, filha! Dou-te a minha palavra de honra em como nunca esquecerei de ti! Que mais queres?!
-Pois então casemo-nos e partirás depois!...
-Isso é impossível! Já te disse um milhão de vezes! Oh! -Minha mãe espera-me há quatro vapores seguidos! Imagina tu como não estará ela, coitada, com a morte do velho! Não hei de agora, em, vez de minha pessoa, lhe apresentar uma carta pedindo licença para casar!... Que espécie de filho seria eu nesse caso?! «Enquanto a pobre viúva se desfaz em lágrimas; enquanto na família tudo é luto e desgosto, o bom do filho pensa em casamento e, sem dúvida, prepara as festas do noivado!» Não! gritou ele energicamente. -Isso não faria eu, nem se me cosessem a facadas! Pelo menos, enquanto estiver com esta roupa sobre o corpo...
E sacudiu com força a aba do seu fraque de lustrina.
-Enquanto estiver com esta roupa, não penso em mulher! Nada! Antes de tudo, sou filho! Percebes?! Antes de tudo, tenho de olhar por minha pobre mãe, que é muito capaz de morrer se não me ver ao seu lado!
E foi, cheio de excitação, debruçar-se no peitoril da janela, fitando as plantas do jardim, a roer as unhas.
Houve um silêncio. Amélia já não chorava; imóvel, apoiando-se ao espaldar da cama, entontecia a vista contra as ramagens cruas do tapete.
-Nesse caso, ela que venha ter contigo... disse afinal, sem erguer os olhos.
-Ora! resmungou Amâncio, voltando-se vivamente na janela.
-Ou então iremos nós... acrescentou a rapariga, fazendo um biquinho de enfado. E depois, com pieguice: -Tenho muito medo das maranhenses!...
O estudante não respondeu, foi ter com ela, tomou-lhe meigamente a cabeça entre as mãos.
-Esta cabecinha!... -disse -esta cabecinha não sei quando terá juízo!...
E, passando a falar em tom sério, protestou que era até injustiça supô-lo capaz de cometer uma perfídia daquela ordem! Amélia já devia estar perfeitamente convencida de que ele a amava deveras; de que ele não seria tão mau que a abandonasse, depois de receber tantos carinhos. Ela que não estivesse a descobrir perigos, onde nem sombras disso havia!... A tal viagem ao norte, no fim de contas, era uma questão de dois ou três meses, e ele deixaria uma mesada regular e escreveria por todos os vapores!...
-Não acreditas ainda que te estou falando com sinceridade?... concluiu, a beijá-la nos olhos. -Que precisão tinha eu de te enganar?...
-Sim, creio, creio que por ora assim seja, não há dúvida! Mas também estou persuadida de que, logo que passes a barra, tudo muda de figura!... Nos primeiros dias ainda te lembrarás da infeliz que aqui deixaste, mas depois... com a presença de outras, com os novos passatempos que te esperam... até hás de perguntar aos teus botões «como foi que em algum dia chegaste a pensar a sério neste casamento?»...
-Bem se vê que não me conheces!... retorquiu o rapaz.
-Não! não! não irás! sustentou Amélia. -Adoto-te, és meu, não te quero perder! Ora essa!
-Mas, filha, observou Amâncio impacientando-se -lembra-te de que é mais decente fazermos a coisa por bons modos... Afinal, tu não me podes constranger a ficar, e, eu, em vez de ir, deixando um compromisso de cavalheiro, sou capaz de ir, sem deixar coisa alguma! Ora aí tens!
-Hein?! bradou ela, transformando-se a contragosto. -Cai nessa! Experimenta só, para veres o gosto que lhes achas!
Amâncio respondeu com um gesto desabrido, enterrou o chapéu na cabeça, e saiu à toa, sem destino, com um fúria surda a espezinhar-lhe o coração.
Mas, ao voltar, encontrou Amélia no mesmo estado. E a questão reapareceu à noite, reapareceu na manhã seguinte, e todos os dias, tomando um caráter de rezinga permanente.
Amâncio perdeu de todo a paciência.
-Era demais! Sebo! Ele, no fim de contas, não tinha obrigação nenhuma de aturar semelhante gaita nos ouvidos! Que mastigação! Arre! Amélia que fosse atenazar o pai!
Ela respondeu possessa, deixando escapar palavrões, «Supunha ter encontrado um homem, mas encontrara um quidam, um canalha, um desfrutador!»
-Desfrutadores são vocês todos! -Percebes tu?! berrou ele, colérico. -Desfrutadores -é teu irmão -é tua madrasta e és tu! que só faltam me arrancar a pele! Súcia de filantes!
E lembrou o que até aí gastara com eles, o que lhes dera, o que comprara e o que lhe desaparecia das algibeiras.
-Não me estás de graça, não! exclamou, saindo afinal do quarto como da outra vez.
Desta, porém, quando voltou a casa vinha com o ar mais despreocupado que se pode desejar. E logo que Amélia lhe falou na questão da viagem, ele respondeu tranqüilamente que já não havia nada a esse respeito. «Resolvera ficar.»
A rapariga compreendeu o disfarce e, no dia seguinte, tratou de prevenir o irmão de que abrisse os olhos, se não queria ver o Sr. Amâncio escapar-lhe por entre os dedos.
João Coqueiro ficou de orelha em pé.
A pequena tinha toda a razão; Amâncio, parecia resolvido a desistir da viagem, era porque nessa mesma tarde encontrara Paiva e, na sua necessidade de expansão, levou-o para o fundo de um café e abriu-se com ele. Contou-lhe as dificuldades que o afligiam, e pediu-lhe conselhos.
-Não há que saber!... disse o consultado. -Não há que saber!... Aí só vejo dois partidos a tomar: -ser tolo -ou- não ser tolo!
E, como o outro fizesse um trejeito de má compreensão:
-Tolo, se ficares e -não tolo- se te puseres ao fresco!
-Mas, Paiva, você então acha que devo ir?... perguntou Amâncio, hesitando, a morder as unhas.
-Homem! volveu aquele -se precisas ir ao Norte, prepara-te caladinho e vai! Que necessidade tens tu de que a gente do Coqueiro saiba disso?... Deve-lhes satisfação de teus atos?... Se não deves, é aprontar as malas e... por aqui é o caminho! olha! deixa-lhe uma carta, muito delicada, já se vê, muito cheia de promessas. «Que voltas, que hás de fazer, que hás de acontecer!» E, no entanto, vai-te raspando... Porque estas coisas, filho, assim é que se decidem. E, quanto aos arranjos da viagem... cá estou eu para te ajudar!...
Calaram-se por alguns instantes. Paiva Rocha pediu um novo sherry-cobler e prosseguiu enquanto o amigo, muito pensativo, fitava o mármore da mesa:
-Agora, se estás tão embeiçado pela sujeita, que não tenhas ânimo de a deixar; isso é outra coisa!... Neste caso, o melhor é escrever à velha, dizendo-lhe que venha, arranja um novo advogado de confiança que se encarregue de teus negócios no Maranhão, e faze a vontade à pequena -casa-te!
Amâncio torceu o nariz com enfado:
-Qual!
-Então, filho, que esperas?... É perder o amor aos objetos que lá tens, e fazer o que já te disse!
-Mas Coqueiro não poderá tomar alguma vingança?...
-Não sejas parvo! resmungou o outro, bebendo de um trago o que ainda tinha no copo; e ergueu-se disposto a sair. -Amanhã às mesmas horas, cá estou! Traze o cobre e deixa o resto por minha conta!
Separaram-se concordes e que no dia seguinte ficariam depositados na república do Paiva os apetrechos da fuga.
Em casa de Coqueiro, todos, à semelhança de Amelinha, nem de leve mostravam suspeitar de coisa alguma; pareciam até mais tranqüilos e satisfeitos. Nem um gesto de ressentimento, nem uma palavra indiscreta que os denunciasse. Tudo era paz e bem-aventurança.
Reapareceram as primitivas noites de amor, como boa estação que volta carregada de flores. Os dois amantes nunca se possuíram tão satisfeitos um do outro e nunca se patentearam tão convictos da mesma felicidade. No empenho comum de se enganarem, cada qual redobrava de carinhos e meiguices; enquanto por dentro os corações lhes bocejavam, aborrecidos e fatigados.
O dia da viagem chegou sem novidade alguma. Amâncio levantou-se como das outras vezes, apenas um pouco mais cedo. Olhou por um momento Amélia que ainda dormia, toda sumida nos lençóis, vestiu-se cautelosamente para não a acordar; depois foi à varanda, bebeu café e saiu em ar de passeio.
No Largo do Machado tomou um carro e bateu para a república de Paiva.
Não encontrou o colega, havia já saído. -Devia estar à sua espera com a bagagem, no cais Pharoux.
Amâncio mandou tocar o carro para lá. E, à proporção que se aproximava do mar, crescia-lhe por dentro um vago sobressalto de impaciência e de medo.
-Anda! Gritou ao cocheiro, espiando repetidas vezes pela portinhola e apalpando de instante a instante o bilhete da passagem que tinha no bolso.
Estava comovido, principiava a sentir pena de deixar a Corte; apareciam-lhe saudades das boas noites com Amélia, das patuscadas com os amigos. E um mundo de recordações formava-se e transformava-se atrás dele, fugindo, desaparecendo como sombras que se esbatem.
Para disfarçar a impressão desagradável de tais mágoas, procurava embriagar-se com a idéia das aventuras que o esperavam na província, grupando na fantasia tudo aquilo que o pudesse interessar de qualquer modo; e compunha, e construía, inventava episódios, cenas, dramas inteiros, nos quais lhe cabia sempre a principal figura. E, depois de bem mergulhado nos seus devaneios, depois de bem envolvido na alacridade de seus sonhos de glória, o Maranhão aparecia-lhe risonho e brilhante como a última expressão do que há de melhor sobre a terra.
Mas, na ocasião em que se apeava, um tipo mal encarado, olhou por cima dos óculos, a barba grisalha, um tom geral de porcaria no seu velho fato de pano preto, nas suas botas acalcanhadas, no seu chapéu de pêlo cheio de manchas amarelas, aproximou-se dele e, com uma voz enxuta e morfanha, intimou-o «a comparecer imediatamente em presença do delegado de semana na secretaria de polícia». Era um oficial de justiça.
-Mas que desejam de mim... perguntou o estudante, empalidecendo e procurando o Paiva com os olhos. -Eu não tenho nada com a polícia!
E recuou dois passos.
-O senhor está intimado! repetiu secamente o outro, e, em voz baixa, disse a dois sujeitos que se haviam adiantado: -Cerca! cerca o homem!
Então aqueles avançaram logo, jogando o corpo num pé só, o chapéu para trás, um grosso porrete na mão.
-Comigo é onze! exclamou um deles, muito canalha, a cuspilhar para os lados.
-Mas, por que me prendem?!... perguntou o estudante, sentindo-se tolhido.
-São coisas!... responderam-lhe, fazendo-o entrar no carro.
Amâncio ainda procurou descobrir Paiva; depois, azoinado pela gentalha que se reunia em torno dele, saltou para a almofada, perseguido sempre pelos três sujeitos.
O oficial segredou alguma coisa ao cocheiro, e o carro deu volta e rodou em sentido contrário ao cais.
Amâncio cobriu o rosto com o lenço e principiou a soluçar.
Coqueiro, desde a prevenção que lhe fez a irmã, não se descuidou mais um instante de vigiar a sua presa: seguiu-lhes os passos, farejando, até o momento em que Amâncio tomou bilhete de passagem para o norte.
Então, correu à casa do Dr. Teles de Moura.
O Teles era um advogado velho, muito respeitado no foro; não pelo caráter, que o não mostrava nunca, nem pela sua ciência, que não a tinha; nem tampouco pelo seus cabelos brancos, que a estes nem ele próprio respeitava, invertendo-lhe a cor; mas sim pela sua proverbial sagacidade, pelas suas manhas de chicanista, pela sua terrível figura de raposa velha, pelos seus olhinhos irrequietos e matreiros, pelo seu nariz à bico de pássaro e pela sua boca sem lábios, donde a palavra saía seca e penetrante como uma bala.
O passado de Teles era toda uma legenda de vitórias judiciais; atribuíam-lhe anedotas mais antigas do que ele; muito processo se anulou naquelas unhas aduncas de tamanduá; muito criminoso escapou às penas da lei por entre as malhas da sua astúcia; muito inocente foi parar à cadeia ensarilhado nas pontas de seus sofismas.
Para ele não havia causas más; em suas mãos qualquer processo se enformava ao capricho dos dedos como uma bola de miolo de pão.
E o irmão de Amélia sabia de tudo isso perfeitamente quando lhe foi bater à porta.
Seriam então nove horas da manhã; a raposa almoçava.
Coqueiro esperou um instante e, só terminado o barulho dos pratos, animou-se a tocar a campainha.
Apareceu um moleque, tomou o recado no corredor e pouco depois trouxe a resposta. «O amo estava muito cheio de ocupações naquele dia, não falava com pessoa alguma. Coqueiro que voltasse noutra ocasião.»
Mas Coqueiro recalcitrou. Esperaria... Tinha que falar ao Dr. Teles, custasse o que custasse. «Tratava-se de uma causa importantíssima!»
Veio afinal o doutor, palitando os dentes, o ar muito ocupado, os movimentos de quem tem pressa.
-Que era? O que desejavam?
Coqueiro, com a voz alterada, os gestos dramaticamente desesperados, disse que ia ali buscar proteção de justiça. «Era pobre, sim, mas estudioso e trabalhador. Sua vida aí estava -limpa! Podia até servir de modelo! -Casara-se na idade em que os rapazes em geral só pensam nos prazeres e nas loucuras!... Adorava a família; sim! adorava, porque a família era o bem único de que ele dispunha na terra! Tinha uma irmã, inocente e indefesa, a quem até aí servira de pai e de tutor...»
O advogado deixou escapar uma tossezinha de impaciência.
-Pois bem, senhor doutor! exclamou o outro, puxando com ambas as mãos, contra o peito, o seu chapéu de feltro. -Pois bem! Essa menina, que era todo o meu orgulho, que era como o documento vivo do bom cumprimento de meu dever... essa menina, que eduquei sob os maiores sacrifícios... essa pobre criança...
-Que fez, perguntou o velho muito calmo. -Arribou de casa?...
-Não senhor, acaba de ser vítima da maior traição, da mais degradante maldade, que...
-Mas, afinal, o que houve?... interrogou o doutor fugindo às preliminares.
-Foi desvirtuada por um rapaz, um colega meu que, há coisa de um ano, hospedei, por amizade, debaixo de minhas telhas!...
-E ele? perguntou o advogado, sem se comover.
-Ele já está de passagem comprada para o Maranhão e foge amanhã mesmo, se não houver uma alma reta e caridosa que lhe embargue a viagem.
-Ela ficou pejada?
-Não senhor.
-É menor?
-Tem vinte e três anos, respondeu o queixoso, triste porque sua irmã não tinha menor idade.
-Está o diabo!... resmungou a raposa; espetando os dentes com o palito. -E ele?
-Ele tem vinte e um.
-Feitos?
-Feitos, sim senhor.
-Bem.
E acendeu um cigarro que levava a preparar lentamente.
-É o diabo!... repisava. -Não se pode fazer nada, sem a verificação do fato... É o diabo!
E calaram-se ambos. O velho a pensar; o outro, de cabeça baixa, o aspecto infeliz, a choramingar baixinho.
-Ele tem recursos? perguntou aquele afinal.
-É rico, bastante rico, respondeu Coqueiro, sem tirar os olhos do chão.
-Emancipado?...
-Totalmente. Órfão de pai! E até sócio comanditário de uma importante casa comercial. Tem para mais de quatrocentos contos de réis.
-Bem. Arranja-se a queixa-crime. Olhe! Deixe-me aí o seu nome, o dele, o da vítima, o dos competentes pais, se os tiverem, as respectivas moradas, profissões, etc., etc. Enfim a substância da queixa...
-O senhor doutor acha então que?...
-Veremos! Veremos o que se pode fazer!... Não perca tempo -escreva.
Coqueiro escreveu prontamente, interrompendo-se de vez em quando para pedir informações.
-Está direito! sussurrou o advogado, correndo os olhinhos pela folha de papel que o outro lhe acabava de passar. -Pode ir descansado. Vá.
E seu todo impaciente estava a despedir a visita. Esta, porém, fazia não dar por isso e desejava mais esclarecimentos; queria saber ao certo o tempo que deitaria aquela questão. «Se era de esperar que Amâncio casasse com a vítima; se havia recursos na lei para o perseguir, etc., etc.»
O velho palitou os dentes, mais vivamente. «Que diabo! Um processo era um processo! Tinha de percorrer todos os componentes sacramentos! Não se chegava ao fim, sem passar pelos meios!... Amâncio podia furtar-se à citação, esconder-se; os oficiais de justiça eram tão fáceis de ser comprados!... tão ordinários!... vendiam-se por qualquer lambugem, por um relógio, por um pouco de dinheiro!...
E principiou a encarecer a causa, grupando termos jurídicos, apontando dificuldades. Sua voz transformava-se ao sabor daquela terminologia especial. Em primeiro lugar tinham de apresentar uma queixa perante o juiz de direito do distrito criminal. Deferida a petição, intimar-se-ia o indicado para a audiência que se designasse. -E os interrogatórios? E a pronúncia? e os recursos?... Enfim havia de se fazer o que fosse possível!...»
-E por enquanto... acrescentou o chicanista, consultando apressado o relógio -não tenho de meu nem mais um segundo!
E despedindo o outro com um aperto de mão:
-Olhe! Procure-me logo mais na polícia, ao meio-dia. Estou lá a sua espera, pode ir descansado. Adeus!
E empurrando-o brandamente:
-Não deixe de ir, hein?... Meio-dia em ponto! Adeus! Desculpe!
Coqueiro saiu, mastigando agradecimentos.
Estava agora mais tranqüilo; -a fama do Dr. Teles de Moura enchia-o de esperanças radiosas. «Sua causa não podia cair em melhores mãos!»
***
E a verdade é que ele, industriado pela raposa velha obteve um mandato de notificação, obrigando Amâncio a comparecer na polícia, imediatamente, para investigações policiais, e peitou o oficial da justiça e arranjou dois secretas e, afinal, o amante da irmã foi conduzido à presença do delegado de semana e daí levado à detenção, donde só sairia para responder ao primeiro interrogatório.
O advogado requereu corpo de delito na ofendida e, para a seguinte audiência, o comparecimento dos outros dois inquilinos que, por ocasião do crime, moravam na casa de pensão -o Dr. Tavares e o guarda-livros.
No inquérito, duas testemunhas fizeram-se ouvir contra Amâncio; um taverneiro das Laranjeiras -bicho gordo, cabeludo, a pele cor de telha e dono de uma venda que encostava os fundos com os da casa de Amélia, e um alferesinho de polícia, noutro tempo vizinho do queixoso em Santa Teresa e agora morador do casarão da Rua do Resende -homenzito magro, pobre de sangue, olhos fundos e boca devastada por uma anodontia horrorosa.
Amâncio, que ainda não conhecia de perto o que vinha ser «um processo» e estava longe de imaginar as tricas e os ardis de que costumam lançar mão os litigantes para defender ou acusar um pobre diabo que a justiça lhe atira às unhas, ficou pasmo, quando na ocasião de assinar os atos e termos, leu a matéria do fato criminoso que lhe argüiam.
O alferes declarou em substância que: «na noite de 16 de julho do ano tal, pela uma hora da madrugada, estando em Santa Teresa, no sótão que então ocupava (o qual era místico ao sótão de uma outra casa, onde viera a saber mais tarde, residira Amâncio), ouviu daí partirem gemidos angustiados e uma voz fraca, de mulher, a dizer: Solte-me! Solte-me! Não me force! E que, tomado de curiosidade, trepara-se a espreitar para a casa do vizinho e, então, percebera distintamente que um homem violentava uma rapariga; e que depois cessaram as vozes e só se ouviram suspiros e soluços abafados.»
O tavarneiro depunha que: «naquela mesma noite, estando casualmente de passeio em Santa Teresa, ouvira, ao passar pela casa onde então residia João Coqueiro com a família uma altercação de duas vozes, na qual se destacava uma de mulher que chorava, implorando piedade e suplicando, por amor de Deus, que a não desonrassem.»
E tudo isso estava perfeitamente de acordo com que já havia declarado Coqueiro. Dissera este que «nessa mesma noite se recolhera às três horas da madrugada, pois estivera até então em Botafogo, na companhia de seu colega Firmino de Azevedo, e que, ao entrar em casa ouvira leves gemidos no quarto da irmã e, chamando por esta da varanda e perguntando-lhe o que tinha, ela respondera que -não era nada, apenas havia acordado às voltas com um pesadelo; mas que ele, Coqueiro, apesar dessa explicação, ficou muito sobressaltado e ainda mais, quando, depois de acordar a esposa, que dormia profundamente, e perguntar-lhe se houvera em casa alguma novidade durante a sua ausência, lhe ouvira dizer que -até às nove horas da noite podia afiançar que nada acontecera, mas que, daí em diante, não sabia, visto que, sentindo-se àquela hora muito incomodada, se havia recolhido ao quarto com seu filho César e, como usava água de flor de laranja para os seus padecimentos nervosos, supunha ter essa noite medido mal a dose e tomado demais o remédio, em virtude do estranho e profundo sono que se apoderou dela até o momento em que o marido a chamara. -Por conseguinte, das nove horas da noite as três da madrugada, Amâncio e Amélia haviam ficado em plena liberdade».
E mais: «que, no dia seguinte àquela noite fatal, Amélia não quis sair do quarto e que ele, indo ter com a irmã e perguntando-lhe se sofria de alguma coisa e se precisava de médico, notou-lhe certa perturbação, certo constrangimento e um grande embaraço na resposta negativa que deu; e que ela, todas as vezes que era interrogada, fugia com o rosto para o lado contrário e abaixava os olhos, como tolhida de vergonha; e que, examinando-a melhor, lhe descobrira sinais roxos nos lábios, nas faces, e pequenas escoriações no pescoço, nas mãos e nos braços; e que então, fulminado por uma suspeita terrível, exigiu energicamente a revelação de tudo que se passara na véspera durante a sua ausência, e que ela, empalidecendo, abrira a chorar e, só depois de muito resistir, confessou que fora violentada por Amâncio, mas que este prometera, sob palavras de honra, em breve reparar com o casamento a falta cometida.»
Mme. Brizard confirmou o que disse o marido a seu respeito.
Amâncio, porém, logo que foi novamente interrogado, negou: 1.º -Que conhecesse as duas testemunhas deponentes contra ele; 2.º -Que em tempo algum houvesse sucedido o que elas afirmavam; 3.º -Que tivesse empregado violência contra Amélia; 4.º -Que fizesse promessa de casamento a quem quer que fosse e debaixo de quaisquer condições. E confirmou: 1.º -Que na noite, não de 16, mas de 20 de julho daquele ano, estabelecera relações carnais com a queixosa; 2.º -Que nessa noite, permanecendo de pé o conchavo de uma entrevista combinada entre eles, Amélia, logo que a casa se achou de todo recolhida, apresentara-se-lhe no quarto e aí ficara até às cinco horas da manhã, sem mostrar durante esse tempo o menor indício de contrariedade, e parecendo, aliás, muito satisfeita e feliz com o que se dera, como se alcançara a realização do seu melhor desejo; 3.º -Que de tudo isso nada absolutamente teria sucedido, se Amélia não o perseguisse com os seus repetidos protestos amorosos, com as suas provocações de todo o instante, chegando um dia a surpreendê-lo à banca do trabalho com uma aluvião de beijos! que não teria sucedido, se todos os de casa, todos! -o irmão, a cunhada, ela, César, os fâmulos, não concorressem direta ou indiretamente para aquilo, armando situações, preparando conjunturas arriscadas para ambos, explanando ocasiões escorregadias, nas quais fora inevitável uma queda!
E Amâncio acrescentou, arrebatado pela correnteza de suas palavras:
-Nada disso teria acontecido, senhor juiz, se me não desafiassem, se me não sobressaltassem os instintos, atirando-a todo o momento contra mim; se nos não empurrassem para o outro, com insistência, com tenacidade, deixando-nos a sós horas e horas consecutivas: fazendo-a enfermeira ao lado de minha cama, pespegando-a todos os dias, todas as noites, diante de meus olhos, ao alcance de minha mãos -enfeitada, perfumada, preparada, como uma armadilha, como uma tentação viva e constante!
O delegado observou discretamente que Amâncio se excedia nas suas declarações; mas o auditório, na maior parte formando de estudantes, protestava, atraído por aquela setentrional verbosidade que enchia toda a sala.
Rebentavam já daqui e ali, algumas exclamações de aplauso. E a voz do nortista, irônica e crespa no seu sotaque provinciano, ainda se fez ouvir por alguns instantes, em meio do quente rumor que se alevantava.
-Ah! Por Deus! por Deus, que bem longe estava ele de imaginar um fim tão dramático àquela comédia! Bem longe estava de imaginar que, depois de o escodearem por tantas maneiras; já o fazendo chefe de uma família que não era a sua; já lhe exigindo a compra de uma casa, exigindo vestidos, jóias, carros, dinheiro para a despesas diárias, dinheiro para a botica, dinheiro para o açougue, para o médico, para tudo! -ainda se lembrassem de estorquir-lhe a coisa única que até aí não haviam cobiçado -seu nome! -o nome que herdara de seus pais!
-Bravo! Bravo! Muito bem!
E a matinada dos estudantes rebentou com entusiasmo, sufocando os novos protestos que apareciam. O delegado reclamava silêncio, e Amâncio, muito pálido, a testa luzente de suor, tinha os braços cruzados, a cabeça baixa, numa atitude dramática de altiva resignação.
Findo o inquérito e dada a queixa, o sumário caminhou sem mais incidente. Todavia, o provinciano, sempre que era interrogado, deixava-se arrebatar como da primeira vez.
As testemunhas, com mais ou menos tergiversação, reproduziam as suas patranhas; concederam-se os dias da lei ao indiciado, para que juntasse a sua defesa escrita e os documentos; e, afinal, subiram os autos à Relação, onde foi sustentada a pronúncia, e o processo esperou que designassem a sessão em que Amâncio teria de entrar em julgamento.
O acidente de Amâncio causou enorme impressão nos seus conhecidos. Campos, ao receber a notícia, ficou fulminado e atirou-se no mesmo instante para a casa de correção, sem mais se lembrar de que nesse dia estava cheio de serviço até os olhos.
Seu primeiro ímpeto foi de repreender severamente o culpado, verberar-lhe com energia a «ação indigna» que acabava de praticar; mas pouco depois, veio-lhe uma grande comiseração. «Porque, enfim, coitado, o pobre moço ainda era muito criança... naturalmente fraco... e daí... Quem sabia lá o que teriam feito para o precipitar naquele crime?...»
Sem saber por que, afigurava-se-lhe que o papel de vítima cabia mais a Amâncio do que a Coqueiro. Este surgia-lhe agora à imaginação, como que um Satanás de mágica que deixou de fugir de repente, pelo alçapão do teatro, com a sua túnica de bom velho peregrino. Seria até capaz de jurar que, a despeito do disfarce, já de muito lhe havia bispado a saliência dos cornos diabólicos por debaixo do religioso capuz. E pequeninos fatos, que até aí jaziam dispersos e abandonados no seu espírito, vinham, acordado de repente, justificar semelhante transformação.
-Sim! Já em certa época descobrira em Coqueiro tais e tais sintomas de hipocrisia; ouvia-lhe tais e tais frases que o fizeram desconfiar de seu caráter!... Não tinha que ver! -Já lá estavam as tais pontas diabólicas a espetar o capuz!
E arrependia-se de não haver em tempo desviado o pobre Amâncio daquele perigo: -Andara mal! Devia preveni-lo... devia ter dado qualquer providência a esse respeito!...
E voltando-se contra si:
-Mas, onde diabo tinha eu esta cabeça, para não ver logo que um homem -que se casa especulativamente com uma velha do feitio de Mme. Brizard; um homem que consente à irmã receber presentes e mais presentes de um estranho; um homem que especula com tudo e com todos, um maroto! -não se mostraria tão agarrado ao rapaz, senão com o propósito firme de lhe pregar alguma?!... Oh! andei mal! ande mal, como um pedaço de asno!...
E apressou-se a socorrer a «pobre vítima».
-Ainda se houvesse a hipótese de uma fiança... reconsiderava ele, já em caminho da detenção. -Mas qual! Dr. Tavares, que lhe levara ao escritório a notícia do escândalo, dissera-lhe que «o crime era inafiançável e que por conseguinte não se podia evitar a prisão!» -Infeliz moço! infeliz moço! resmungava Campos, quase chorando. -Antes nunca ele viesse ao Rio de Janeiro! -Que demônio hei de eu agora escrever à família?... E a pobre D. Ângela! Coitada, como não ficará, quando, em vez do filho, receber a notícia de tanta desgraça?!... Valha-me Deus!
E foi nesse estado que Campos chegou à Casa de Correção da Rua do Conde.
Hortênsia não ficou menos impressionada; ao saber do caso empalideceu extraordinariamente e começou a tremer toda. Desde então se tornou apreensiva e nervosa de um modo lastimável; tinha pesadelos, ataques de choro, ameaças de febres e um fastio enorme.
Carlotinha, que se achava nessa ocasião de passeio em casa das Fonsecas de Catumbi, foi logo reclamada a lhe fazer companhia.
Em casa do negociante quase se não falava de outra coisa que não fosse o processo de Amâncio; parecia todos empenhados com o mesmo ardor na sorte do «pobre rapaz». Os caixeiros murmuravam pelos cantos do armazém e os criados, sempre desejosos de merecer a atenção dos amos, traziam da rua os comentários que ouviam ou que inventavam sobre o fato.
E o escândalo, como um líquido derramado, ia escorrendo pelas ruas, pelos becos, penetrando por aqui e por ali, invadindo as repartições públicas, os escritórios comerciais, as redações das folhas e as casas particulares.
Os jornais começavam a explorá-lo.
Na Academia de Medicina e na Escola Politécnica levantava-se partidos. João Coqueiro bem poucos colegas tinha de seu lado; nem só porque lhe cabia na questão o papel, sempre mais antipático, de agressor, como em virtude de seu gênio insociável e seco. Antigos ressentimentos que pareciam esquecidos, ressurgiam agora, aproveitando a ocasião para tirar vinganças; daí -opiniões mal intencionadas; comentários atrevidos sobre a conduta de Amélia, sobre o caráter mercantil de Mme. Brizard, sobre as velhas brejeirices do Rua do Resende. Uns se contentavam em fazer conjecturas, outros, porém, tiravam conclusões, e alguns iam ainda mais longe, contando fatos: «Em tal baile do Mozart», dizia um quartanista de medicina, «estava com a irmã de Coqueiro, dançara com ela duas valsas e desde então ficara sabendo que força era a tal bichinha!...» E seguiam-se pormenores degradantes e revelações descaradas.
Este, sustentava que João Coqueiro sabia perfeitamente de tudo que lhe ia por casa e que era até o primeiro a mercadejar com a irmã, como seria capaz de fazer com a própria mulher, se houvesse um homem de bastante coragem para afrontar aquele dragão! Este outro afirmava que ele não se lamberia com a proteção do carola Teles de Moura, se não fossem as legendárias relações de Mme. Brizard com o falecido Cônego Muniz, ex-redator de um jornal católico.
E choviam as insimulações, as denúncias: Coqueiro era um hipócrita, um jesuíta! -Fingia-se muito devoto na escola para agradar ao professor Fulano; defendia a escravidão e a monarquia para lisonjear Beltrano; -se entrava numa pândega com os companheiros, no outro dia punha-se a dizer que só ele não se embebedara e não fizera papel triste! -se lhe tocavam em mulheres, o velhaco abaixava os olhos e ficava todo estomagado, e, debaixo da capa de santarrão, ia fazendo das suas! -Era um cão! um tartufo!
Toda essa má vontade contra João Coqueiro redundava em benefício de Amâncio, por quem alguns estudantes pareciam sentir verdadeiro entusiasmo. Na Faculdade de Medicina não se encontrava um só rapaz a favor daquele; ao passo que este tinha por si quase toda a Politécnica. Nas duas escolas falava-se muito em «exploração, em roubo, em piratagem». A cifra dos bens de Amâncio, à medida que passava de boca a boca, ia tomando proporções fabulosas, faziam-na de mil, quatro mil, dez mil contos de réis. Paiva era agora requestado pelos colegas, como um boletim sanitário que traz os últimos telegramas da guerra. Por saberem de sua intimidade com o réu e das visitas cotidianas que ele fazia à casa de correção, não o largavam um só instante; cercavam-no, cobriam-no de perguntas: «Como estava Amâncio, se triste, abatido, desesperançado, ou se alegre, indiferente, risonho?!... E a tal Amelinha dos camarões?... que fazia? como se portava no negócio? -ia visitar o amante? escrevia-lhe? aparecia a alguém! comprazia-se com a desdita do preso ou era solidária nos sofrimentos dele?»
Paiva respondia para todos os lados, não tinha mãos a medir; os espíritos, porém, longe de se acalmarem com isso, mais se sofregavam e acendiam. A impaciência tomava o lugar da curiosidade: um sobressalto febril, de jogo, preava o coração dos estudantes; os ânimos palpitavam na expectativa de um desfecho escandaloso. Previam-se, com arrepios de gozo antecipado, o impudico espetáculo dos depoimentos, as brutais declarações dos médicos e todo o cortejo descomposto de um júri de desfloramento.
O artigo 222 do Código Criminal lá estava pairando nos ares, cínico e espetaculoso como o flammeum de Nero no banquete de Tigelino.
***
Campos, entretanto, não podia descansar com a idéia daquela desgraça. Abandonava tudo, esquecia os próprios interesses para correr às bancas dos advogados, consultando, propondo defesas; mais tonto, mais aflito do que se tratasse de salvar um filho.
A situação relacionara-o com Dr. Tavares, o qual, um pouco em represália a Coqueiro por havê-lo despedido de casa, sem as explicações devidas ao seu alto merecimento, e um pouco talvez na esperança de lucros pecuniários, mostrava-se ferozmente empenhado na questão. Nunca esteve tão verboso, tão cheio de entusiasmo e tão fecundo em citações latinas. Viam-no, a cada passo, em todos os grupos da Rua do Ouvidor, berrando, gesticulando sobre o assunto, como se tudo aquilo lhe tocasse diretamente.
-É incontestável, exclamara ele a quem lhe caía nas garras -é incontestável que Amâncio foi vítima de uma arbitrariedade! E esse delegado das dúzias que, sem mais nem menos, o mandou recolher à prisão -prevaricou! Prevaricou, principalmente porque Amâncio nada mais fez do que desflorar mulher virgem maior de dezessete anos, o que, perante a nossa lei, não constitui crime! Por conseguinte, a prisão preventiva não devia ser efetuada!
E a sua voz, aguda e sistemática, repetindo a frase friamente obscena da lei, causava no auditório o efeito vexativo que nos produz um cadáver nu.
Hortênsia já se escondia no quarto, quando o maçante se lhe pespegava em casa.
-Ah! Ele havia de mostrar a esses advogadozinhos de meia tigela, os quais, mal surge um processo andam a oferecer-se como protetores de qualquer uma das partes e acabam sempre por comprometer a causa! -Ele havia de mostrar o que é dignidade e retidão na justiça! E, se não tivesse outro meio escreveria uma série de artigos quer os poria a todos na rua da amargura! Campos, havia de ver!
E, chegando-se para este, em atitude misteriosa:
-Mas o senhor, justamente, é quem me podia ajudar se quisesse!...
-Ajudá-lo?
-Sim! Nós dois, brincando, dávamos cabo da panelinha de Coqueiro! Que julga? Sei tudo! Vi -com estes olhos! Sei, melhor que ninguém, como se armou a cilada ao pobre moço!
Campos declarou que, em benefício de Amâncio, estava pronto a fazer o que fosse preciso.
-Encarrega-se da publicação dos artigos?! exclamou o advogado.
-Pago-os até a quem os fizer... disse Campos -contanto que isso aproveite o rapaz! Todo o meu desejo é livrá-lo o mais depressa possível! É uma questão de consciência!
-Pois então, meu caro amigo, pode escrever que, ou o seu protegido não sofrerá o menor desgosto ou leva o diabo a caranguejola desta justiça de borra! Sou eu quem o afirma! Amanhã mesmo trago-lhe o primeiro artigo! Verá!
-Está dito!
Mas, nesse mesmo dia, quando Campos se dispunha a sair de casa, para ir entender-se com Saldanha Marinho que parecia resolvido a tomar a causa de Amâncio, entregaram-lhe uma carta.
Era de Coqueiro e dizia simplesmente: «Para que V. S. não continue iludido e não se sacrifique por quem não lhe merece mais do que o desprezo, junto remeto-lhe um documento que nos torna quase companheiros de infortúnio e que lhe dará uma idéia justa do caráter desse moço perverso, cuja intenção ao lado de sua família era desonrá-la como desonrou a minha!»
O negociante desdobrou, a tremer, o papel que vinha incluso e leu aquela célebre carta subtraída por Amélia alguns tempos antes.
Não quis acreditar logo no que via escrito. Uma nuvem passara-lhe diante dos olhos. «Mas não havia dúvida! Era a letra de Amâncio, era a letra daquele miserável, por quem ele ultimamente passara dias tão penosos!»
-Que ingratidão! E Campos que o tinha na conta de um rapaz honesto!... Como vivera iludido!... Agora, dava toda a razão a Coqueiro! Calculava já o que não teria feito o biltre na casa de pensão!
As tais pontas de mefistofélico iam desaparecendo da cabeça do irmão de Amélia para se revelarem na cabeça de Amâncio.
-E Hortênsia?! gritou-lhe de surpresa o coração.
-Ah! Por esse lado estava tranqüilo!... Por ela meteria a mão no fogo! -Demais, o teor da carta bem claro mostrava que o infame não conseguiria seus lúbricos desígnios! -no desespero brutal palavras via-se indubitavelmente que a «virtuosa senhora» fechara ouvidos ao malvado!
Mas, como se podia conceber tanta perversidade e tanta hipocrisia em uma criatura de vinte e poucos anos?!... E lembrar-se Campos de que, ainda naquela manhã, nem conseguira almoçar direito, de tão preocupado que estava com o destino de semelhante cachorro!...
Agora, nem de longe queria ouvir falar de Amâncio ou do que este se referisse. As suas boas intenções sobre o rapaz fugiram de um só vôo e o coração esvaziou-se-lhe de repente, como um pombal abandonado.
Mas ainda lá ficou uma idéia branda e compassiva que respeitava ao ingrato; ainda lá ficou uma mesquinha pomba esquecida, que já não tinha forças para acompanhar a revoada das companheiras -era a comiseração inspirada pela mãe do criminoso. Essa ficou.
-Que desgraça da infeliz senhora! possuir um filho daquela espécie!
E Campos, com as mãos cruzadas atrás, encaminhou-se lentamente para o segundo andar, em busca da mulher.
Não a acusou; não lhe fez de leve uma pergunta de desconfiança; apenas disse, pondo-lhe a carta defronte dos olhos:
-Mira-te neste espelho!
Hortênsia ficou lívida.
-Vê tu em que eu me metia!... acrescentou ele. -Defender aquele miserável! Calculo quanto não te incomodaste, minha santa!
E beijou-a na testa.
Ela sacudiu os ombros numa expressão de confiança na própria virtude: -O marido a conhecia bem, para que pudesse recear uma deslealdade de sua parte!
Logo, porém, que lhe escapou da presença, sentiu uma grande vontade de chorar. Correu ao quarto, fechou-se por dentro, e atirou-se à cama, abafando os soluços com os travesseiros que se inundavam.
***
Era um desespero nervoso, uma estranha mágoa por alguma coisa que ela podia determinar o que fosse, mas que só se abrandava com aquela orgia de lágrimas. Sentia gosto em vertê-las, abundantes, fartas, como se as derramasse no fogo que a devorava.
Não obstante, ao receber aquela carta, ainda lhe sobejara coragem para responder, sem afrouxar nos seus princípios de honestidade; mais, agora, uma súbita transformação ganhava-lhe os sentidos e parecia chamar-lhe à cabeça as ondas quentes de seu sangue revolucionado.
-E quem não se revoltaria, pensava Hortênsia -defronte da sorte tão contrária do lastimável moço, cujo grande crime consistia apenas no muito amor que ela lhe inspirara?... Ah! Era isso decerto o que a enchia de aflição e desalento! -era a desgraça dessa pobre criatura, contra a qual tudo parecia conspirar como se um gênio fantástico e mau a perseguisse! Que seria agora do mísero, sem a proteção de Campos?... Que seria do desgraçado, sem esse último companheiro que lhe restava no meio de tamanhas lutas?...
Violou uma donzela, é verdade! Mas deveriam responsabilizá-lo por isso?... Seria ele o verdadeiro culpado ou simplesmente uma vítima?... Falava-se tanto nos costumes de toda aquela gente de Coqueiro!... rosnavam com tanta insistência sobre os planos, os cálculos, as armadilhas tramadas ao dinheiro do rapaz!... De que lado estaria a razão?... E, quando se revoltassem todos contra o infeliz, teria ela, Hortênsia, o direito de fazer o mesmo?... Não lhe caberia grande parte na culpa que o acusavam? não poderia ela, só ela, ter evitado aquilo tudo com uma simples palavra de amor?... Por que, afinal o que lançou Amâncio nos braços da tal rapariga?... Foi a paixão? foi a beleza? foi o talento? -não! foi unicamente o despeito! foi o delírio, o desespero de um coração repudiado! -Sim, sim! Tudo aquilo sucedera, porque ela o repelira; porque ela, a imprudente, fechara-lhe os braços, quando o desgraçado, louco de paixão, lhe suplicava por tudo um bocado de amor, um pouco de caridade!...
Antes tivesse cedido!...
E embravecia-lhe o pranto. -Antes tivesse, porque, se assim fosse, o pobre moço, com certeza, não pensaria na outra! -Mas o infeliz, coitado! viu-se aflito, enraivecido, sofrendo, sabe Deus o quê! e sucumbiu, ora essa! sucumbiu por desalento, talvez por vingança, talvez por não ter outro remédio! -Não! definitivamente sentia muito pena daquele desditoso rapaz!
Amava-o agora. Seu espírito atrasado e muito brasileiro descobria nele uma vítima de fatalidades amorosas, e esse prisma romântico emprestava ao estudante uma irresistível simpatia de tristeza, uma deliciosa atração de desgraça.
Hortênsia sonhava-o «pálido, melancólico, desprezado no fundo de uma prisão, tendo por leito -um catre abominável, por única luz -uma trêmula aresta do sol que se filtrava pelas grades negras do cárcere».
E aquela encantadora figura do prisioneiro, com a cabeça languidamente apoiada nas mãos, os olhos úmidos de pranto, os cabelos em desalinho, sobre a fronte -a penetrava toda, enchia-lhe o coração, num aflitivo transbordamento de lágrimas.
-Oh! Aquela adorável figura de vinte anos sofria tudo aquilo porque a amava! -porque uma paixão insensata lhe entrara no peito; sofria porque Hortênsia recusara os beijos que o desventurado lhe pedira com tanta febre e com tanta ansiedade.
Pobre moço! Pobres vinte anos! dizia ela quase com as mesmas frases do marido. -Mas por que se haviam de ter vistos?... por que se haviam de amar?...
E a mulher de Campos, que até aí não sentira dificuldade em resistir às seduções do estudante, agora, fascinada pela dramatização daquela catástrofe que o heroificava, via-o belo, indispensável, grande na sua situação especial, conhecido das mulheres, temido e odiado dos homens, vivendo na curiosidade do público, percorrendo todas as fantasias, sobressaltando todos os corações.
E o contraste da sofredora condição em que o via presentemente com as atitudes brilhantes que ele outrora estadeara naquela própria casa, quando, de taça em punho, espargia a sua bela palavra quente e sonora, prendendo a atenção de velhos e moços, dominando, conquistando -esse contraste ainda mais a arrebatava para ele com toda a violência de uma alucinação.
Não mais se possui -um desgosto mofino apoderou-se dela; ficou insociável e muito triste; entregou-se a longas leituras místicas, acompanhando com interesse amores infelizes, lentos martírios da alma, que só terminavam no esquecimento da morte ou do claustro. Decorou entre lágrimas a carta do réu.
-Como ele me amava! dizia soluçando -como ele sofria, quando arrancou do coração estas palavras, ainda quentes do seu sangue!
De sorte que, ao lhe comunicar o marido a resolução de escrever a Amâncio, remetendo-lhe a terrível carta denunciadora e prevenindo-o de que lhe retirava a sua amizade, ela, com uma agonia a sufocá-la, resolveu também escrever ao moço uma carta que servisse, ao menos, para suavizar o golpe da outra.
***
O estudante, no dia seguinte, recebia na prisão as duas cartas.
Não se pode determinar qual delas o surpreendeu mais; notando-se, porém, que a de Campos produziu completo o efeito a que se propunha; ao passo que a outra, em vez de o consolar, enraiveceu-o.
-Pois aquela mulher ainda não estava satisfeita e queria insistir nas suas provocações?... Ela talvez fosse a culpada única de tudo que de mau lhe acontecera! -A coisas não tomariam decerto o mesmo caminho, se a maldita não lhe fizesse as negaças que fez e não lhe acordasse desejos que se não podiam saciar! -E agora?... além de perder a amizade de Campos, justamente quando mais precisava dela, havia de suportar a prosa lírica da Sr.ª D. Hortênsia!... «Que estava arrependida, que o adorava, que seria capaz de tudo por lhe dar um momento de ventura e que o esperava de braços abertos, logo que ele se achasse em liberdade.»
Fosse para o inferno com as suas adorações! Diabo da pamonha! «Que o esperava de braços abertos!» Era quanto podia ser! Aquilo até lhe cheirava a debique! Aquilo parecia um insulto a sua desgraça, a sua terrível posição!
E chorava, o infeliz, chorava como se quisesse vingar nas lágrimas.
Depois da carta de Hortênsia, a vida se lhe fazia mais escura e mais apertada entre as paredes da sua prisão. Quase que já não podia agüentar a presença de Paiva, de Simões e de alguns outros colegas que lá iam. No meio das sombras, progressivamente acentuadas em torno dele, só a imagem tranqüila e doce de sua mãe permanecia com a mesma consoladora suavidade; sempre aquela mesma carinhosa figura de cabelos brancos, aquele corpo fraco, vergado e tão mesquinho que parecia pequeno demais para sustentar tamanho amor.
-Minha mãe! Minha santa mãe! exclamava o preso, quando seu espírito, esfalfado pelas desilusões, precisava remancear ao abrigo morno e quieto de um bom pensamento.
-Minha santa mãe!
Três meses depois, a Escola Politécnica e a Escola de Medicina apresentavam o quente aspecto de um sedição. -Amâncio fora absolvido.
Os estudantes formigavam assanhados como se acabassem de ganhar uma vitória. O nome do nortista era repetido com transporte; um grupo enorme de rapazes, capitaneado pelo Paiva Rocha e pelo Simões, aguardava o colega à saída do júri, para o conduzir em triunfo ao Hotel Paris, onde havia à sua espera um almoço e a banda de músicas alemães.
Fora muito extenso o último júri, quarenta horas seguidas; a defesa de Amâncio principiou à meia-noite e acabou às seis da manhã. O advogado, que «estava feliz como nunca», ainda aproveitou engenhosamente essa circunstância para afestoar o remate de seu pomposo discurso: «Não queria que o rei dos astros se envergonhasse com aquele nojento espetáculo de pequenas misérias! Não queria que o Sol tivesse de corar defronte de semelhante tolina! Pedia que se varressem de pronto as consciências; que se descarregassem os espíritos, para que limpamente recebessem a esplêndida visita da aurora! -Aí chegava o dia! aí chegava a luz, enxotando os fantasmas tenebrosos da noite e precipitando-os em debandada pelo espaço!
Pois bem! Pois bem, meus senhores! Se ainda permanece nos vossos espíritos alguma sombra, alguma dúvida, alguma opinião vacilante sobre a inocência daquele pobre mancebo... (e mostrava Amâncio com um gesto supremo) -que essa dúvida se apague! que essa opinião vacilante se resolva na luz que nos assalta! que essa última sombra da noite se retire espavorida de envolta com as últimas sombras da noite que foge!»
-Bravo! Bravo! Apoiado! Muito bem!
E, no conflito da luz fresca, que entrava pelas janelas do edifício, com a luz vermelha do gás que amortecia, as palavras retumbantes do orador tomavam uma expressão de trágica solenidade. E os rostos lívidos e tresnoitados iam se esbatendo nas sombras da sala, como pálidas manchas brancas que se dissolvem.
Ninguém saíra antes de terminar a defesa; um empenho nervoso os prendia ali; as palavras do advogado eram aplaudidas com febre -todos queriam a absolvição de Amâncio.
Às nove horas da manhã a cidade parecia ter enlouquecido. Interrompeu-se o trabalho; os empregados públicos demoravam-se na rua; os cafés enchiam-se com a gente que vinha do júri. À porta das redações dos jornais não se podia passar com o povo que se aglomerava para ler as derradeiras notícias do processo, pregadas na parede à última hora.
Por toda a parte discutia-se a brilhante defesa de Amâncio de Vasconcelos: »Estivera magnífica! -Surpreendente! -Uma verdadeira obra-prima! uma glória para o advogado Fulano!» Repetiam-se frases inteiras do imenso discurso; faziam-se comparações: «Maître Lachaud não se sairia melhor!»
A Rua dos Ourives estava quase intransitável com a multidão que se precipitava freneticamente para ver sair o absolvido. À porta do júri, o tal grupo de estudantes capitaneado pelo Paiva, esperava-o formando alas ruidosas. Tudo era impaciência e sofreguidão.
Afinal, apareceu o homem. Vinha muito pálido e um pouco mais magro.
Ouviu-se então um rugido formidável que se prolongava por toda a rua. Os chapéus agitaram-se no ar.
-Viva Amâncio de Vasconcelos!
-Vivô! repetiram os colegas.
-Morram os locandeiros!
-Morram os piratas.
Amâncio passava de braço a braço, afagado, beijado, querido, como uma mulher formosa.
Mas Paiva e Simões apoderaram-se dele, e, seguidos pelo enorme grupo de estudantes, puseram-se a caminho para o hotel, entre as contínuas exclamações de entusiasmo, que rompiam de todos os pontos.
Entraram na Rua do Ouvidor. Por onde passava o bando alegre dos rapazes, um rumor ardente, ancho de vida, enchia a rua num delírio de vozes confundidas. As portas das casas comerciais atulhavam-se de gente; pelas janelas dos dentistas, das costureiras e dos hotéis, surgiam com o mesmo alvoroço, cabeças femininas de todas as graduações: -senhoras que andavam em compras; raparigas que estavam no trabalho, professoras de piano, atrizes, cocotes; e, em todas igual sorriso de pasmo, olhares incendiados, bocas entreabertas a balbuciar o nome de Amâncio. Braços de carne branca apontavam para ele num tilintar nervoso de braceletes.
-É aquele! diziam. -Aquele, moreno, de cabelo crespo, que ali vai!
-Mamãe! mamãe! gritavam doutro lado -venha ver o moço rico que saiu hoje da prisão!
E flores desfolhadas choviam-lhe sobre a cabeça, e os lenços de renda borboleteavam e iam cair-lhe aos pés, como uma provocação, e olhares de amor entornavam-se das janelas entre o ruidoso e pitoresco cata-sol das mulheres em grupo.
E Amâncio, tonto de prazer caminhava no meio dos amigos, abraçado a um grande ramo de flores naturais, que um preto lhe acabava de entregar e em cuja larga fita pendente via-se o nome dele em letras de ouro. Era uma lembrança de Hortênsia.
E o bando crescia sempre. O Largo de São Francisco já estava cheio e ainda a Rua do Ouvidor não se tinha esvaziado.
Ao passar pela Escola Politécnica, ouviram-se estalar foguetes e os vivas a Amâncio e à Liberdade reproduziram-se com mais veemência. Os músicos alemães responderam da porta do hotel com a Marselhesa. -A vertigem chegou então ao seu cúmulo, inflamada pela vibração corajosa dos instrumentos de metal. A Rua do Teatro, o Rocio e todos os becos e travessas circunvizinhas já se achavam tolhidas de povo; as janelas do Hotel Paris destacavam-se embandeiradas e cheias de gente, como nos dias de carnaval. E aquela festa, ali, no coração da cidade, tomava um largo caráter de manifestação pública.
Já ninguém se entendia com o estardalhaço das vozes, da música e dos foguetes. Amâncio, carregado em triunfo nos ombros dos colegas, entrou no hotel ao som do grande hino, chorando de comoção e agitando freneticamente o seu velho chapéu de feltro desabado e boêmio.
Francesas de cabelo amarelo desciam com espalhafato ao primeiro andar de Paris, para ver de perto o «tipo da ordem do dia», o belo moço de que todo o Rio de Janeiro se ocupava naquele momento -o herói daquele romance de amor que havia meses apressava tantos espíritos e sobressaltava tantos corações.
Ele, que até aí parecia sufocado e não dera palavra, como que despertou as primeiras notas da Marselhesa e recobrou de súbito a sua equatorial verbosidade de brasileiro nortista; acederam-se repentinamente as faces: os olhos luziram-lhe como duas jóias, e a sua voz era já segura e vibrante quando ao teto voaram as primeiras rolhas de champanha.
E, de pé, dominando a extensa mesa coberta de iguarias, a taça erguida ao alto, o corpo torcido em uma posição teatral, desencadeou o seu verbo apaixonado e brilhante.
***
Entretanto, a essas horas, Coqueiro se dirigia tristemente para casa. As mãos cruzadas atrás, a cabeça baixa, as sobrancelhas franzidas, como o ar trágico de um herói vencido.
Vira e ouvira tudo!
Oculto num botequim, vira passar o bando fogoso dos colegas que festejavam o amante de sua irmã; ouvira os «morras ao locandeiro! ao pirata!» ouvira as galhofas, os risos de escárnio, que lhe atiravam como a um inimigo de guerra. E uma raiva negra, um desespero surdo e profundo entraram-lhe no corpo que, nem um bando de corvos, para lhe comer a carniça do coração. Um duro desgosto pela vida o levava a pensar na morte, revoltado contra o mundo, contra a sociedade, contra sua família, contra a hora em que nascera.
-Maldito fosse tudo isso! Malditos seus pais! sua pátria! suas convicções! Malditas as leis todas que regiam aquela miserável existência!
Chegou lívido, sombrio, com os lábios a tremer na sua comoção mortífera. Um silêncio fúnebre enchia a casa; dir-se-ia que acabava de sair dali um enterro. Amélia chorava fechada no quarto e Mme. Brizard, estendida na preguiçosa, tinha a cabeça entre as mãos e meditava soturnamente. Sobre a mesa o almoço há horas esfriava, esquecido e às moscas.
É que já sabiam do terrível desfecho do júri: -Amâncio estava livre, senhor de si por uma vez! podendo ir para a província quando bem quisesse, porque, além de tudo, nem o dinheiro lhe faltava!...
-E eles que ali ficassem, a roer um chifre! -sem recursos, e obrigados a ocupar aquela casa, que era o preço de sua desonra comum.
-Mas, o culpado foste tu e tu! berrou de supetão Mme. Brizard, erguendo-se da cadeira com um movimento de cólera. -Se me tivesse ouvido, não ficarias agora com essa cara de asno. «Quem tudo quer, tudo perde!» Foi bem-feito, para que, de hoje em diante, preste mais atenção ao que te digo! -Agora -pega-lhe com trapos quentes!
O marido deixou cair a cabeça sobre o peito e quedou-se a fitar o chão. Mme. Brizard, depois de voltear agitada pela sala, acrescentou:
-Se fosse o único a sofrer as conseqüências de tuas cabeçadas -vá! Mas é que nós todos temos de as agüentar! Agora só quero ver como te arranjar! onde vais tu descobrir dinheiro para sustentar a casa! É preciso ser muito cavalo, para ter a fortuna nas mãos e atirá-la pela janela fora! Agora é que eu quero ver! Anda! Vai arrajnar hóspedes! Vê se descobres um novo Amâncio!ou quem sabe se contas viver do que der o cortiço da Rua do Resende?! Fizeste-a bonita; os outros que amarguem!...
Calou-se por um instante, arquejando, mas repinchou logo:
-Olha! Por estes três meses já podes avaliar o que não será o resto! -Não há mais um punhado de farinha em casa; a companhia já ontem nos cortou o gás, porque não lhe pagamos o trimestre vencido; o último criado que nos restava foi-se há mais de quatro semanas, dizendo aí o diabo; só nos resta a mucama, que é aquele estafermo que sabemos; o Eiras reclama todos os dias do tratamento de Nini! -E tu!... tu! -sem um emprego, sem um rendimento, sem nada! -Então?! E pôs as mãos nas cadeiras, com um riso abominável de ironia. Então?! Estamos ou não estamos arranjadinhos?!... O que te afianço é que não me sinto nada disposta a tornar ao inferno da existência que curti na Rua do Resende! Vê lá como te arranjas!
Coqueiro fugiu para o quarto, sem responder à mulher. «Tinha medo de fazer um despropósito!»
-Que miséria de vida, a sua! refletia ele. -Nem ao menos a própria família o consolava! Por toda a parte a mesma perseguição, o mesmo ódio, a mesma luta! -Que seria de si?! que fim poderia ter tudo aquilo?! Onde iria cavar dinheiro para manter os seus?! -E as custas do processo, e as despesas que fizera?! -O alferes e o homem da venda exigiam o pagamento do que depuseram contra Amâncio a quem mal conheciam de vista; aquele o ameaçava com um escândalo, se Coqueiro não lhe «cuspisse ali os cobres»; o outro o abocanhava pela vizinhança, fazendo acreditar que o devedor era, nem só um caloteiro como um bêbado!
E não havia dinheiro para nenhuma dessas coisas!
-Um inferno! um verdadeiro inferno! -Os moradores da Rua do Resende há que tempos que não pingavam vintém; -Damião estava já pelos cabelos para arriar a carga: «Não podia mais aturar semelhante corja!» dizia e contava até que um dos inquilinos lhe tentara chegar a roupa ao pelo por questões de aluguéis.
E Coqueiro viu arrastar-se todo aquele mau dia na mesma inferneira.
À noite, foi preciso acender velas em substituição do gás suprimido. Amélia não comera desde a véspera e queixava-se agora de muitas dores na cabeça, náuseas, tonturas de febre e um fastio mortal; apareciam-lhe por todo o corpo pequenas manchas roxas. Mme. Brizard só abria a boca para fazer novas recriminações e praguejar; na sua cólera chegara a dar alguns tabefes no filho, e este rabujava a um canto, embesourado e casmurro.
-Antes morresse! antes, mil vezes antes! repisava Coqueiro, sentindo-se esmagar debaixo daquele desmoronamento. -Que faria agora de uma irmã prostituída, e de uma mulher desesperada?!...
E as horas arrastavam-se pesadas como cadeias de ferro. A casa mal esclarecida tinha uma tristeza lúgubre de igreja deserta.
Afinal, Mme. Brizard foi para a cama com o filho, Amélia parecia mais tranqüila; só Coqueiro velava, só ele, com o seu desespero a triturá-lo por dentro.
Não podia sossegar um minuto -era deixar-se ir consumindo pelo sofrimento, até que a dor cansasse de doer e os tais bichos negros do coração lhe comessem o último bocado de carniça. Sentia, porém, uma espécie de volúpia pungente em reler as cartas anônimas que lhe enviaram durante o dia; encolerizava-se com isso, mas não podia deixar de as ler, como quem não resiste a tocar numa parte dolorida do corpo.
Três, nada menos do que três cartas anônimas, e cada qual a mais insultuosa e mais perversa; não lhe poupavam coisa alguma: -a vergonha real da situação, o ridículo que havia de o acompanhar para sempre, a ojeriza que o público lhe votava espontaneamente; tudo lá estava; tudo vinha descrito, com uma minuciosidade cruel, e com pequeninas considerações ultrajantes, com o terrível cuidado de quem se vinga.
E, para o efeito ser mais completo, falavam intencionalmente, com entusiasmo, nas conquistas e nas simpatias do outro, do querido, do «feliz»! Não se esqueciam da menor circunstância lisonjeira para Amâncio: -o modo pelo qual o receberam ao sair da prisão -os vivas -as flores desfolhadas sobre ele -os oferecimentos -as declarações de amor -os ramilhetes que lhe deram -os brindes; tudo, tudo fora metido ali, para ferir, para danar, para moer.
Reconheceu logo que uma das cartas era de Lúcia; as outras deviam ser de seus próprios colegas ou, quem sabe?... de algum velho inimigo já esquecido por ele! -Tanta gente saíra despeitada da sua casa de pensão!... Ser credor é ser algoz!... exigir pagamento de uma conta a quem não tem dinheiro é exigir a sua inimizade eterna! Além disso, com os seus modos secos e retraídos ele sempre fora tão pouco estimado na academia!... não tinha, como o «prosa» do Amâncio, gênio para agradar a todo o mundo; não tinha as lábias do outro: não sabia fazer «discursatas e falações» a propósito de tudo!... Era um infeliz, que todos evitavam -um leproso! um lazeiro!
E a dor, sem se resolver nas lágrimas que lhe faltavam, encaroçava-se-lhe por dentro, numa grande aflição.
-Agora, como se apresentar nas aulas?!... Com que cara suportar o riso sarcástico dos colegas?!... Como resistir à curiosidade brutal do público que o esperava impaciente por cuspir-lhe no rosto?!... Como passar debaixo daquelas mesmas janelas que despejaram flores sobre à cabeça de Amâncio?!... -Amâncio! o homem que dormiu meio ano com sua irmã!...
E maquinalmente foi à secretária e tirou o velho revólver que fora do pai.
Que estranhas recordações à vista daquela arma! daquela arma que na sua infância o fizera chorar tantas e tantas vezes!... Belos tempos que não voltam!...
E contemplava distraído os bonitos do revólver -os arabescos de prata e madrepérola com o brasão do velho Lourenço Coqueiro em ouro.
Rica peça! Artística, bem trabalhada; não se lhe enxergava sinal de ferrugem, nem desarranjo nas molas. -Também, que havia nisso para admirar se o dono tinha por ela uma espécie de fetichismo e andava sempre a bruni-la e a azeitá-la? Era o único objeto que lhe falava ainda das extintas grandezas do pai: Quantas vezes não ouvira ele cavaquear o pobre velho sobre as alegorias daquele rico brasão!... E quantas vezes, a tremer de medo, não o vira descarregar aquela mesma arma contra uma laranja que um escravo segurava com a mão erguida!
-Ah! bem que se recordava de tudo isso!... Parecia-lhe ouvir ainda gritar o pai, quando lhe metia à força o revólver entre os dedos. «Não! Isso agora hás de ter paciência! tu, ao menos, ficarás sabendo dar um tiro!»
E, todavia, não fiquei sabendo... balbuciou o filho de Lourenço, a experimentar nos lábios o contato frio do cano de aço. -Não fiquei sabendo dar um tiro, que, se o soubesse, acabaria aqui mesmo com esta vida estúpida e miserável!...
Se eu tivesse ânimo... pensou ele, estremecido com a idéia da morte -amanhã encontrariam o meu cadáver e não ficariam naturalmente fazendo de mim um juízo tão triste e tão ridículo! -Talvez até chegassem a amaldiçoar o outro e erguessem em volta de meu nome uma legenda respeitosa e compassiva...
Foi à gaveta, havia lá algumas balas, carregou a arma.
-Não há dúvida, é a melhor coisa que eu poderia fazer... reconsiderava Coqueiro, imóvel, a olhar indeciso para o revólver que tinha na mão.
Mas era bastante chegá-lo contra a boca ou contra um dos ouvidos, para que os seus dedos logo se paralisassem e para que um arrepio muito agudo lhe corresse pela espinha dorsal.
Faltava-lhe a coragem.
Duas vezes ergueu-o à altura da cabeça, duas vezes o desviou, com as mãos trêmulas e o corpo entalado numa agonia insuportável.
-É horrível! resmungava ele. -É horrível!
Ia principiar de novo as tentativas, quando da rua uma forte matinada lhe prendeu a atenção. Um grupo se aproximava, entre cantarolas e algazarras de risos.
Eram dez ou doze dos últimos convivas de Amâncio; haviam passado todo o dia e grande parte da noite a folgazar no Paris; muitos, como o autor da pândega, lá ficaram prostrados pela bebida, mas aqueles tiveram a fantasia de um passeio matinal ao Jardim Botânico e meteram-se barulhosamente no bonde.
Já no Largo do Machado, um deles, um, que de há muito trazia Coqueiro atravessado na garganta, lembrou que seria mais divertido apearem-se ali e seguirem a Rua das Laranjeiras. «A casa do velhaco era a alguns passos -bem lhe podiam cantar uma serenata debaixo das janelas!»
A idéia foi bem acolhida, e a ruidosa farândola despejou-se pelo caminho das Laranjeiras num hilaridade pletórica de bêbados.
Só pararam defronte da porta de João Coqueiro. Através das vidraças e das cortinas de uma das janelas, viram transparecer dubiamente a trêmula morte-cor de uma luz avermelhada.
-Estás dormindo, ó Joãozinho dos camarões?! berrou cambaleando o que tivera a idéia daquela romaria. -Dorme, dorme! é assim que fazem os sem-vergonhas de tua espécie! -Vendem a irmã e põem-se a descansar no colchão que lhe deixou o amante!
Seguiu-se um estrupido de gritos e risos:
-Fora! fora!
-Fiau, fiau!
-Larga essa casa que não é tua, gritou aquele. -É da outra! Ganhou-a com o suor de seu rosto! -Sai, parasita!
-Sai! Sai!
E espoucavam gargalhadas no grupo, e os guinchos sibilantes iam até o fim da rua: -Fora.
-Fora!
-Fiau!
-Sai, cão!
-Deixa a casa, que não é tua! -Fora!
-Fora o cáften!
-Fiau!
Os vizinhos chegavam às janelas, vozeando furiosos contra semelhante berraria.
-É que o sucede a quem mora perto de um João Coqueiro! bradou um da turma.
-Quem mora junto ao chiqueiro sente o fedor da lama! gritou um segundo.
-Queixe-se à Câmara Municipal! acudiu outro.
E formidável matação2 foi de encontro à vidraça iluminada do chalé de Amélia.
Um dos vizinhos apitou e outro despediu um jarro de água sobre os desordeiros.
Ouviu-se logo o estardalhaço impetuoso dos gritos, das descomposturas e do crepitar dos vidros que se partiam sob um chuveiro de pedras.
-Morra o infame! bramia a malta, já de carreira para o Largo do Machado. -Morra o cáften!
***
João Coqueiro presenciara tudo aquilo, grudado a um canto da janela, mordendo os nós da mão, os olhos injetados, o sangue a saltar-lhe nas veias.
-Oh! Era demais, pensava ele desesperado. -Era demais tanta injúria! -Se Amâncio estivesse ali, naquela ocasião, por Deus, que o estrangulava!
Abriu a janela. O dia repontava já, mas enevoado e triste. Não havia azul; céu e horizontes de neblinas, formavam uma só pasta cor de pérola, onde vultos cinzentos se esfumavam.
O homem da venda abria também as suas portas. Coqueiro cumprimentou-o, ele respondeu com um risinho insolente, acompanhado de pigarro.
Uma caleça rodejava lentamente ao largo da rua, o cocheiro vergado sobre as rédeas, o seu casquete sumido na gola do capotão. Coqueiro fez-lhe sinal que esperasse, embrulhou-se no sobretudo, enterrou o chapéu na cabeça, meteu o revólver no bolso e saiu.
-Hotel Paris! disse ao da boléia, atirando-se no fundo da carruagem. O cocheiro endireitou-se sobre a almofada, espichou o pescoço, sacudiu as rédeas e os animais dispararam, assoprando grossamente contra o ar frio da manhã.
***
Coqueiro enfiou pela escadaria do hotel.
Estava tudo deserto e silencioso; apenas, no salão principal, viam-se um preto velho e um caixeiro desdormido que, entre bocejos, se dispunha a principiar a limpeza da casa.
Dir-se-ia que ali passara um exército de bêbados. Por toda a parte vinho derramado, copos partidos, cacos de garrafa e destroços do vasilhame que servira à mesa; o oleado do chão escorregava com uma crusta gordurosa de restos de comida e vômito pesinhado; um espelho ficara em fanicos3 e um aquário desabara, fazendo-se pedaços e alagando o pavimento, onde peixinhos dourados e vermelhos jaziam, uns mortos e outros ainda estrebuchando.
O preto, de gatinhas, em manga de camisa e calças arregambiadas, procurava desencardir o sobrado com um esfregão de coco, que ia embeber ao canto da sala numa tina cheia d'água; enquanto o caixeiro, a jogar o corpo, muito esbodegado, erguia o que estava pelo chão e empilhava as cadeiras sobre as mesinhas de mármore, ao comprido das paredes.
-Onde é o quarto do Amâncio? perguntou-lhe João Coqueiro.
-Amâncio?... repetiu aquele, emperrando mo meio da sala para fitar o interlocutor com um olhar morto de sono! -Ah! bocejou. -O tal moço do pagode de ontem?...
Coqueiro sacudiu a cabeça perpendicularmente.
-É cá, no número dois, mas escusa bater, que ele aí não está. Ficou lá em cima, no onze, com a Jeanete.
E, voltando ao serviço:
-Se ele não é coisa de pressa, o melhor seria procurá-lo mais logo... Deve estar agora ferrado no sono, que levou na pândega até as quatro e meia!...
Coqueiro voltou-lhe as costas e dirigiu-se para o segundo andar. Bateu à porta do n.º 11.
Ninguém respondeu.
Tornou a bater.
Bateu de novo.
-Qui est lá!... perguntou na rouquidão do estremunhamento uma voz de mulher.
-Preciso falar a esse rapaz que aí está, o Amâncio!...
Ouviu-se um farfalhar de panos, chinelas arrastaram, e em seguida a porta abriu-se cautelosamente, mostrando pela fisga um rosto gordo, de olhos azuis.
-Qui est lá!...
Mas Coqueiro, em vez de responder, afastou a porta com um murro e atirou-se para dentro do quarto; ao passo que Jeanete, esfandogada de medo, desgalgava em fralda o escadão que ia ter ao primeiro andar.
Amâncio, em uma cama muito cortinada e muito larga, dormia profundamente, de barriga para o ar, pernas abertas e braços atirados sobre a desordem das colchas e dos lençóis. No chão, ao lado do escarrador, um travesseiro caído, e em torno, por todo o desarranjo da alcova, roupas espalhadas.
Coqueiro olhou um instante para ele, sem pestanejar; depois, sacou tranqüilamente o revólver da algibeira e deu-lhe um tiro à queima-roupa.
Amâncio soltou um ai.
A segunda bala já não o pilhou, mas o irmão de Amélia, abstrado, pateta, continuava a disparar os outros tiros até que a arma lhe caiu das mãos.
Nisto, como se acordasse de uma vertigem, saiu a correr tropeçando em tudo. No primeiro andar uma polícia lançou-lhe as garras aos cós das calças e o foi conduzindo a sua frente, sem lhe dizer palavra.
Entretanto, Amâncio despertou com um novo gemido e levou ao peito as mãos que se ensoparam no sangue da ferida. Olhou em torno, à procura de alguém; mas o quarto estava abandonado.
Então, fechou novamente os olhos estremecendo, esticou o corpo -e um palavra doce esvoaçou-lhe nos lábios entreabertos, como um fraco e lamentoso apelo de criança: -Mamãe!...
E morreu.
Começou logo a reunir povo na porta do hotel. Faziam-se grupos; os repórteres andavam num torniquete; viam-se Piloto por toda a parte, irrequieto, farisqueiro; e o fato ia ganhando circulação, com uma rapidez elétrica. Pânico, sobressalto quebrava violentamente a plácida monotonia da Corte; mulheres de toda a espécie e de todas as idades, empenhavam-se com a mesma febre na sorte dramática do infeliz estudante, e Coqueiro, alado pela transcendência de seu crime, principiava a realçar no espírito público, sob a irradiação simpática e brilhante de sua corajosa desafronta.
Às dez horas da manhã já não se podia entrar facilmente no necrotério, para onde fora, sem perda de tempo, conduzido o cadáver de Amâncio, entre um cortejo imenso de curiosos.
Choviam as interpretações, os comentários sobre o fato; todos queriam dar esclarecimentos, explicar os pontos mais obscuros do grande sucesso. «A bala atravessara-lhe as regiões torácicas e fora cravar-se num osso da espinha», afirmava um homem alto, elegante, de cabelos brancos, cujo ar empantufado prendia a atenção demais.
Esse homem, que alguns tomavam por um médico, outros por qualquer autoridade policial; outros por um jornalista, outros por um dos professores da faculdade onde estudava o defunto, não era senão Lambertosa, o ilustre gentleman da casa de pensão da Mme. Brizard.
E, sempre distinto, sempre viajado, pronto sempre a explicar as coisas cientificamente, agitava a bengala afagando a barriga bem abotoada, e de pernas abertas, pescoço duro, ia estadeando a sua «grande intimidade» com o célebre morto; citando fatos, contando magníficas anedotas que se deram entre os dois.
-Ah! Era um moço de invejável talento! -Boa memória, compreensão fácil e gosto cultivado. Para a retórica ainda não vi outro... Não, minto! -em Londres, em Londres, confesso que encontrei um outro nessas condições!...
E punha-se a falar de Londres, e passava depois à França, à Itália, à Europa inteira, e chegaria até aos pólos, se alguém quisesse acompanhá-lo na viagem.
Muitos outros dos antigos inquilinos de Mme. Brizard também apareceram no necrotério. Lá esteve a pálida Lúcia, cheia de melancolia, a fitar o cadáver, em silêncio, com os seus belos olhos alterados pelo abuso das lunetas. Agora morava ela com o seu Pereira em Niterói, numa casa de pensão de um italiano, educador de cães e macacos. Era a terceira que percorria depois da Rua do Resende.
Lá esteve, de passagem, o Fontes, com as suas amostras de renda debaixo do braço; lá esteve o triste Paula Mendes, para fazer a vontade da mulher, que exigira ver a «vítima daquele grande cão»!; lá esteve o Dr. Tavares que parecia tomar cada vez mais interesse no «escandaloso assassinato». E, quem diria? até lá esteve o esquisitão do Campelo que muito dificilmente se abalava com as questões alheias.
Por toda a cidade só se pensava no «crime do Hotel Paris»; os jornais saíam carregados de notícias e artigos sobre ele, esgotavam-se as edições da defesa e da acusação de Amâncio; vendia-se na rua o retrato deste em todas as posições, feitios e tamanhos; moribundo, em vida, na escola, no passeio. E tudo ia direto para os álbuns, para as paredes e para as coleções de raridades.
Hortênsia, quando lhe constou o terrível desfecho daquele episódio que, na sua fantasia romântica, tomava as proporções de um poema, caiu sem sentidos e ficou prostrada na cama por uma febre violenta. Durante esse tempo, o marido procurava na prisão o assassino para lhe oferecer os seus serviços e pôr à disposição dele o dinheiro de que precisasse. «Coqueiro podia ficar tranqüilo -nada havia de faltar à família, nem a pensão de Nini.»
E foi em pessoa dar as providências para o enterro do outro.
O funeral atingiu dimensões gigantescas: parecia que se tratava da morte de um grande benemérito da pátria.
Por influência do advogado de Amâncio, que era político e bem relacionado, compareceram muitos figurões e até alguns homens do poder. Houve senadores, ministros em vigor, titulares de vários matizes, altos funcionários públicos, artistas de nome, doutores de toda a espécie, clubes de todas as ordens, ordens de todas as devoções, jornalistas, negociantes, empresários, capitalistas e estudantes; estudantes que era uma coisa por demais.
A cidade inteira abalou-se, demoveu-se, para deixar passar aquela estranha procissão de um magro cadáver de vinte anos.
Veio muita gente dos arrabaldes. De todos os cantos do Rio de Janeiro acudia povo e mais povo a ver o enterro. As ruas, os largos, por onde ele ia, ficavam acogulados de gente; os garotos grimpavam-se aos muros, escalavam as árvores, subiam às grades das chácaras; as janelas regurgitavam, como num domingo de festa.
O caixão foi carregado a pulso, coberto de coroas; no cemitério ninguém se podia mexer com a multidão que afluía.
Um delírio!
E no dia seguinte, descrições e mais descrições jornalísticas; necrológicos, artigos fúnebres, notícias biográficas e poesias dedicadas à «triste morte daquelas vinte primaveras».
E, o que é mais raro, o fato não caiu logo no esquecimento, porque aí estava o novo processo do assassino para lhe entreter o calor, à feição de um banho-maria.
Continuavam, pois, as notícias jurídicas; Coqueiro popularizava-se, ia conquistando opiniões e simpatias; ia aos poucos se instalando no lugar vago pelo desaparecimento do outro. Muitos colegas se voltavam já a favor dele; até Simões -até Paiva!
Paiva, sim! que agora, completamente restaurado com as roupas herdadas de Amâncio, deixava-se ver amiúde nos pontos mais concorridos da cidade e, entre as palestras dos amigos, mostrava-se todo propenso a justificar o ato do irmão de Amélia.
-Não! dizia ele, quando lhe tocavam nesse ponto -não! Coqueiro andou bem!... Eu, se tivesse uma irmã, fosse ela quem fosse, faria o mesmo naturalmente!...
***
Entretanto, pouco depois do enterro, no meio do burburinho de passageiros chegando no vapor do Norte, uma senhora já idosa, coberta de luto, saltava no cais Pharoux.
Vinha acompanhada por uma mulata, que trazia constantemente os braços cruzados em sinal de respeito, e por um velho gordo e bem vestido, cujas maneiras faziam adivinhar que ele ali não passava de um simples companheiro de viagem.
Como se já tivessem resolvido no escaler o que deviam fazer logo que saltassem, o velho, mal se viu em terra, chamou por um carroceiro, deu a este a sua bagagem com o competente endereço, fez sinal à mulata que seguisse a carroça e, depois de ajudar a senhora a sair do bote, perguntou, solicitamente, se ela queria tomar um carro.
A senhora, muito inquieta, respondeu que preferia ir a pé, e os dois, de braço dado, puseram-se a andar na direção da Rua Direita.
Essa senhora era D. Ângela, a mãe de Amâncio.
Campos já lhe havia escrito, comunicando a prisão do filho. A princípio, não se achou com ânimo de falar nisso à pobre mãe; mas seus escrúpulos fugiram totalmente; desde que lhe chegou às mãos aquela terrível denúncia de Coqueiro.
Ângela não esperava pelo golpe, e ficou a ponto de perder a cabeça. «Como?! Seria crível?... Seu filho, seu querido filho na prisão, com um processo às costas e sem ter quem lhe valesse!... Ó Santo Deus! Santo Deus! que isso era demais para um pobre coração de mãe! -Que mal teria ela feito para merecer tão grande castigo?!»
E resolveu seguir para a Corte, imediatamente, no mesmo vapor. Sentia-se corajosa, capaz de todas as lutas, de todas as violências, para salvar seu filho. Esqueceu-se de seus achaques, do estado melindroso de seu peito, para só cuidar dele; só pensar nessa criatura idolatrada que valia mais, no fanatismo de seu afeto, do que todas as grandezas da terra, todos os esplendores do mundo e todas as potências do céu.
-Oh! Haviam de restituir-lhe o filho!... Ela estava resolvida a atirar-se aos pés dos juízes, das autoridades, do Imperador se preciso fosse, para resgatá-lo! -Não era possível que só encontrasse corações tão duros, que resistissem a tanta lágrima, a tamanha dor e a tamanho desespero!
No primeiro paquete achava-se a bordo, apenas seguida de uma escrava que, entre as suas, lhe merecia mais confiança.
Mas, agora, pelo braço de um estranho que a não desamparava por mera delicadeza, ou talvez por compaixão; agora, no grosseiro tumulto do cais, estremunhada no meio daquela gente desconhecida -a infeliz sentia-se fraquejar. Não sabia que fazer -se ir em busca de Campos ou correr à toa por aquelas ruas, a gritar pelo filho, e reclamá-lo daquele mundo indiferente que formiga em torno de sua perplexidade.
E, por mais que se quisesse fingir forte, uma aflição crescia-lhe dentro e tomava-lhe a garganta. Tremiam-lhe as pernas e os olhos marejavam-se-lhe de lágrimas.
-Mas V. Exª. não disse que seu filho morava nas Laranjeiras?... perguntou o velho, compreendendo a perturbação de Ângela.
-Sim, foi para aí que ele me mandou dirigir as cartas... Tenho até aqui comigo o número da casa, mas, depois disso, já recebi a tal notícia da prisão, e...
-Bem, interrompeu o outro -o mais certo é irmos até lá. -Se não encontrarmos o rapaz, havemos de achar alguém que nos dê informações. É mais um instante! Eu ainda posso acompanhá-la; não tenho pressa; o melhor, porém, seria tomarmos um carro.
-Não, não! respondeu a senhora, sempre inquieta, a olhar para todos os lados, como se esperasse, por um acaso feliz, descobrir Amâncio, de um momento para outro.
Estavam já na Rua Direita. Ela, de repente, estacou e pôs-se a fitar a vidraça de um armarinho.
-Algum conhecido? perguntou o velho.
-Não. É que estes chapéus... tenha a bondade de ver se consegue ler aquele nome... eu, talvez me enganasse...
O velho leu distintamente «à Amâncio de Vasconcelos». -É o título! disse. -Eles agora batizam as mercadorias com os nomes que estão na moda. Algum tenor!
-É singular!... balbuciou a senhora.
-Por quê?
-É esse justamente o nome de meu filho.
-Oh! Não há só uma Maria no mundo!...
Mas D. Ângela fugira-lhe outra vez do braço para correr a uma nova vidraça. Eram agora bengalas e gravatas «à Amâncio de Vasconcelos» que lhe prendiam a atenção.
Acabavam de entrar na Rua do Ouvidor.
-Vê?... interrogou ela, muito preocupada e procurando esconder a comoção. -Ainda!
-Ah! fez o companheiro, já impaciente. -V. Exª. vai encontrar o mesmo por toda a parte. -É o costume! Olhe! Se me não engano, lá está o retrato do tal Amâncio! Tenha a bondade de ver!
D. Ângela aproximou-se do retrato, correndo, e soltou logo uma exclamação:
-Mas é ele! É meu filho! o meu Amâncio!
E começou a rir e a chorar muito perturbada.
O velho, meio comovido e meio vexado com aquela expansão em plena Rua do Ouvidor, principiava talvez a arrepender-se de ter sido tão cavalheiro com Ângela, quando esta, que estivera até aí a percorrer, como uma doida, outros mostradores, arrancou do peito um formidável grito e caiu de bruços na calçada.
Tinha visto seu filho, representado na mesa do necrotério, com o tronco nu, o corpo em sangue.
E por debaixo, em letras garrafais:
«Amâncio de Vasconcelos, assassinado por João Coqueiro no Hotel Paris, em tantos de tal.»