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Noites de visitas

Félix, com o dogue nos braços, alcançou para logo o perdão das parvoíces que haviam dito a Rosa, que recebeu, apertou contra o peito e beijou cem vezes o feliz felpudo animalzinho, pelo que já o padecente primo começava a fazer uma quadrinha imitante de outras por ele lidas, e principiava a dizer assim:

Quem me dera ser cachorro,
Para...

Quando foi estagnada sua veia poética pela repentina chegada de Tomásia, que, ouvindo as risadas que há pouco tinham soado, vinha pedir a explicação delas. Encontrando o dogue nos braços de sua filha, seu rosto tomou expressão de cólera; mas cedo riu-se também com a melhor vontade, sabendo do qüiproquó de seu sobrinho, e em louvor de tal prometeu a Rosa fechar os olhos à sua paixão pelo cãozinho.

Félix, que já se achava mais a sangue-frio, reparou então que alguma novidade devia haver na casa de sua tia; a sala estava cuidadosamente ornada; havia flores frescas nos vasos, e velas ainda virgens nos castiçais; as duas senhoras mostravam-se vestidas no último apuro da mais afetada simplicidade.

-Então que quer dizer isto? perguntou ele; minha tia, eu aposto que se esperavam visitas aqui!

-E ninguém será tão louco que queira perder apostando contra ti, respondeu Tomásia, sentando-se com um cuidado admirável para não amarrotar o vestido.

-Mas quem são, portanto, as pessoas que se devem mostrar hoje?... eu quero saber se me cumpre fugir ou ficar.

-Fica, fica, meu Félix, ao menos para me ajudares a sofrer com paciência as parvoíces do Sr. Estanislau, de sua terrível metade, desenxabida filha, e malcriado filho... eu bem me não quero meter com semelhante gente... são as amizades de meu marido.

-Porém, minha mãe, disse Rosa, em compensação meu primo apreciará a sociedade de D. Mafalda, que sem dúvida traz consigo a lindeza de sua sobrinha.

-Fico, minha prima, fico; ainda que seja só para ouvir D. Mafalda e ver D. Inácia.

-Pois o que tem de bom ouvir-se D. Mafalda? perguntou Tomásia.

-Muito, tiazinha; ela sabe e conta a crônica dos mortos, dos vivos, e até dos que ainda estão para nascer.

-E o que tem de bom ver D. Inácia? inquiriu Rosa sorrindo-se de antemão.

-Misericórdia!... minha prima!...

-Ora... estou vendo que o senhor não a queria...

-Oh!... se a queria! mas para ganhar minha vida, andando pelo mundo a mostrá-la como raridade; que carão, minha prima, que carão!...

-Quanto mais se ela não andasse de vestido tão comprido.

-Então por quê?

-Tem as pernas enormemente zambras, e um pé duas polegadas maior do que o outro.

-Bravo! que belo achado!

-Mas que é isto, meu primo, que alegria é essa?...

-Um feliz achado; um amigo meu se ocupa em escrever os Mistérios do Rio de Janeiro, e vou oferecer-lhe em D. Inácia, uma cambeta.

-Cala-te, língua má! disse por entre risadas de gosto Tomásia, cala-te e esperemos todos pelas nossas visitas.

No entanto, que estas cenas se passavam em casa de Venâncio, em duas outras casas estiveram desde as sete até às oito horas e meia da noite, demonstrando toda a sua paciência dois pobres homens, mártires da moda.

Porque, em verdade, não é um martírio; mas é a provação mais segura da paciência de um homem, o fazê-lo esperar por uma senhora, gamenha, que se veste para sair; assim como no fogo se prova o ouro e a prata, assim também nessa longa hora, em que o pai ou marido leva a bocejar, coçar a cabeça, passear pela sala e consultar o relógio, fica-lhe provada a santa virtude da paciência, e, o que é mais, são-lhe de justiça descontados boa meia dúzia de seus pequenos pecados.

De ordinário as senhoras fazem voto de sair cedo de casa, pois que, principalmente entre as moças, não se conta uma só que não beba os ares por uma noite de teatro, de visita às amigas, ou de passeio pela Rua do Ouvidor; mas, quando se vêem defronte do toucador (aqui para nós, um toucador é a cachaça das moças) esquecem-se das horas que passam, e de lá se não desgrudam, sem que os pais ou maridos gritem por elas cem vezes, de cansados de esperar que se acham.

Há, no entanto, duas cenas sobremaneira apreciáveis: aqui se vê um homem que, apertado dentro de sua casaca e enforcado por sua gravata, passeia impaciente ao longo da sala; lá, uma ou meia dúzia de moças, que, firmes ante o toucador, dão graças à natureza, pois não há nenhuma que se não julgue bonita, e arengam e gritam com as escravas e criadas para que as apertem até o ponto de sufocá-las.

Na sala, o pobre homem exclama de momento a momento: «andem, senhoras! venham meninas! pois ainda não estão prontas?»... do toucador responde umas delas: «já vamos, meu paizinho! estamos pondo os anéis» e ainda lhes falta todo o ânimo preciso para afastar-se defronte do feiticeiro toucador... e ainda elas se ocupam em beliscar as orelhas para torná-las vermelhas, em morder os lábios para fazê-los rubros, em preparar certo mover neles para fingir um sorriso, com que derrotem, quem o merecer, e ensaiar um quebrar de olhos com que ponham em fino cascalho o coração mais de pedra que lhes venha à mente conquistar.

Finalmente, depois que na sala muito se esperou e se gritou, sai a senhora do toucador, exclamando que não se pode aturar um homem rabujento, e as meninas confessando em segredo que seu paizinho, à medida que se vai fazendo mais velho, se está tornando mais impertinente. Ainda ao descer a escada, e mesmo da porta da rua, elas voltam ou mandam buscar o vidro de essência de rosas, a flor, o leque, o lencinho escolhido e outras coisinhas, de que ordinariamente se esquecem para lembrar-se nesse lugar o que não deixa de ter seu mérito no grande tom. Em resultado é sempre uma vitória de peso o vê-las em ordem de marcha. As senhoras negam estas observações; mas... respondam os mártires. Foi pouco mais ou menos isto mesmo o que se passou com o Sr. Estanislau, e com Brás-mimoso, que tinha sido convidado para acompanhar D. Mafalda.

Às oito horas e meia da noite chegaram as visitas com diferença de minutos uma da outra. Escusado é dizer que muito tempo gastaram as senhoras em dar-se muitos beijos, e em dizer-se mil coisinhas muito lisonjeiras, de que no interior elas mesmas se estavam rindo por havê-las dito.

Achavam-se, pois, presentes o Sr. Estanislau com sua mulher, filha e filho; o Sr. Brás-mimoso com D. Mafalda, e D. Inácia; e Venâncio, Tomásia, Rosa e Félix.

Manduca tinha ido a um teatrinho de bonecos; divertimento de que era muitíssimo apaixonado.

Depois de sentados na sala, a sessão começou, como era de esperar, pela apresentação da recém-nascida, que foi trazida e mostrada a todos, passando pelo colo de todas as senhoras, recebendo um beijinho de cada uma delas.

-Dou-lhe os parabéns, Sr.ª D. Tomásia, disse D. Carlota, que assim se chamava a mulher de Estanislau; sua filha é um perfeito cupidinho.

-E que viveza, minha senhora!... quando me vê já estende os bracinhos e move com os lábios, como para dizer -mamãe; olhe -Má já ela chegou a dizer ontem à tarde... é o meu encanto... ri-se... brinca... conhece a todos de casa... não chora de noite... enfim, não é por ser minha filha, mas eu nunca vi criança como esta.

-Isso é verdade... eu nunca vi criança como esta, disse automaticamente Venâncio.

-Com quem se parece, Sr. Estanislau?...

O Sr. Estanislau, na verdade que quando a criança lhe fora apresentada, havia dito -que lindo anjinho!- mas, aqui para nós, nem de leve lhe reparara nas feições; todavia, ouvindo a pergunta de Tomásia, entendeu que deveria responder satisfatoriamente, e por isso disse sem hesitar:

-Ora, minha senhora... basta um rápido olhar para se reconhecer o retrato de V. S.ª no belo rosto daquele querubim!...

-Então Venâncio, não te tenho eu dito que esta menina é o meu retrato?...

-Basta vê-la, Tomási, eu penso do mesmo modo.

-Olhem... exclamou Tomásia... olhem como ela chupa o dedo!... que graça! que encanto!... quer mamar e não chora: uma outra criança já nos teria ensurdecido com seus vagidos; leva-a rapariga, leva-a com cuidado e dá-lhe de mamar; por esta vez...

-As crianças deste tempo, disse D. Mafalda, são todas vivas e maliciosas logo que nascem; desde que se proclamou a constituição não se vê mais criança tola.

-Tomara eu que chegasse o dia do batizado!...

-Por falar no batizado, já sei que se deve achar em trabalhos com o seu baile.

-O certo é que me tenho visto doida com pedidos de convites!

-A propósito, minha tia, disse Félix, devo dar-lhe conta de minha comissão.

-De que comissão me falas, sobrinho?

-Do convite que me obriguei a oferecer ao Sr. Hugo de Mendonça.

-O Sr. Hugo de Mendonça?... disse Estanislau; é o homem de quem te falei, minha Carlota.

-O homem que tem uma filha que diz ser bonita?...

-Esse mesmo.

-O pai da jovem a quem chamam romântica?... perguntou D. Rita, filha de Estanislau.

-Exatamente, respondeu Félix.

-Mas que tem ela para se chamar romântica?... tornou Carlota.

-Eu não sei; ainda não a vi.

-Eu já tive a honra inapreciável de vê-la, disse com ar meio irônico a sobrinha de D. Mafalda.

-E então?...

-E então?...

-Pinte-nos esse belo anjinho.

Todos se voltaram para D. Inácia e fizeram voto de lhes prestar a maior atenção. Brás-mimoso era, porém, da roda, o que se via mais atrapalhado: o filho de Estanislau, menino de sete anos, o rapazinho mais espirituoso do Rio de Janeiro, como supunha Carlota, o não deixava parar; empregava todo o seu espírito em incomodar o pobre homem; havia principalmente implicado com a corrente do relógio e com os belos cachos da postiça cabeleira de Brás-mimoso.

-Espere, nhonhô... Sr. Juca... espere, disse ele.

-Aquieta-te, Juca... olha que eu te prendo em uma cadeira, acudiu Estanislau.

-Estanislau, deixa a criança, exclamou Carlota; tu sabes como o Sr. Brás ama o nosso Juca... aposto eu, que ele está gostando... Juca é tão engraçado...

-Sem dúvida, tornou Brás-mimoso meio desapontado, eu gosto muito dele... venha, Sr. Juca... sente-se aqui no meu colo.

O Juca não esperou segundo convite; sentou-se no colo de Brás-mimoso que, para vingar-se do menino, que com as mãos lhe torcia a corrente do relógio e com os botins lhe esfregava as calças, deu-lhe um comprido beijo na face, fitando os olhos em D. Rita.

-Mas, meus encantos, disse Rosa a D. Inácia, a romântica, a romântica?...

-A romântica... é... uma moça.

-Até aí sabemos nós; falta o essencial: principiemos pela idade quantos anos tem?...

-Não lhe vi ainda a certidão de batismo; a tal respeito não será bom fiarmo-nos no que ela disser.

-É bonita?...

-Isso é conforme... para mim todas são bonitas.

-Ora...

-Ora, não; se quiserem, o que eu posso fazer é dar os princípios, e depois podem as senhoras tirar a conseqüência.

-Pois comece, meus encantos; não vê a nossa ansiedade?...

-Começarei pelos cabelos... são negros... negros de meter medo!...

-Lisos ou crespos?...

-Não se conhece bem... parecem crespos; mas assim uns crespos à custa de muito trabalho...

-Curtos?...

-Não serão curtos; mas logo se adivinha que ela há de vir a ser calva.

-Oh! exclamavam todas as senhoras a um tempo, isso é horrível!...

-A testa, continuou D. Inácia, é alta; mas sem nobreza...

-Antes fosse baixa... isso é já um defeito, acudiu Rita, uma testa alta sem nobreza... vejam só como há de ser.

-Os olhos?...

-Os olhos... na verdade que são grandes e pretos; mas ao mesmo tempo são amortecidos... requebrados...

-Santa Bárbara! gritou D. Carlota, olhos requebrados são coisas muito indecentes... antes ser cega...

-O nariz... não pequeno... é afilado... a falar seriamente, eu não julgo o nariz dela bem-feito.

-Eu faço idéia, disse D. Rosa, dando uma risada.

-Os lábios são rubros... quando ela os morde... é um hábito que ela tem desde criança.

-Olhem que tal!... assim todos têm lábios bonitos.

-Os dentes muito brancos... ora este excesso...

-É um sinal de tísica pulmonar complicada com tubérculos pulmonares, acudiu Tomásia.

-O queixo... eu não me lembro bem se ela tem queixo!

As senhoras desataram a rir.

-A tez é branca, muito branca... não é amarela; mas também ela não tem a palidez da moda... a palidez romântica...

-É uma cor sem alma.

-Isso mesmo, minha mãe; o colo não é lá essas coisas... os braços podiam ser mais bem-feitos... as mãos um pouco mais brancas... os dedos... os dedos tão finos que causam pena...

-Adiante, adiante, meus encantos.

-Que direi mais... meus encantos, você bem sabe que o corpo se arranja muito bem com algodão, saias e vestidos, de modo que só parece mal feita quem quer assim parecer.

-Por conseqüência?... perguntou Félix rindo-se.

-Há de ser calva, disse uma.

-Tem olhos indecentes, disse a outra.

-Não é bonita.

-É feia.

-É horrível.

-Não, não, tornou D. Inácia, ela não é lá essas coisas que querem dizer; mas também não consinto que a julguem horrível... olhem, eu simpatizei com ela; talvez seja suspeita por isso; pois quem simpatiza com uma moça, sempre a julga melhor do que na verdade é.

-Pois bem, disse Rosa, nós a veremos em poucos dias; porque não creio que seu pai rejeitasse o convite que levou meu primo.

-Ah! acudiu Tomásia; é verdade, Félix, vamos ao resultado da tua comissão.

-Foi uma batalha, minha tia.

-Como?...

-É o caso que a mãe do Sr. Hugo de Mendonça detesta os bailes, tanto como qualquer outro progresso nacional, e por conseqüência opôs-se furiosamente à aceitação do convite.

-Então tem o atrevimento de rejeitar?

-Ela por certo que não virá ao sarau de minha tia.

-Também não se precisa de semelhante original; e o Sr. Hugo?...

-Finalmente aceitou o convite, depois de uma discussão de duas horas, em que a Sr.ª Ema de Mendonça saiu fora da ordem mais de cem vezes.

Um grito de Brás-mimoso interrompeu a Félix. Todos olharam: o mais extravagante sucesso tinha acontecido ao infeliz gamenho; o Juca, que não lhe havia mais deixado o colo, e que tinha passado o divertimento de suas mãos da corrente do relógio exclusivamente para os cabelos emprestados de Brás-mimoso, em um dos arrancos que lhes deu, atirou a cabeleira ao meio da sala, de modo que a linda calva de Brás-mimoso ficou patente aos olhos de toda a sociedade.

Seguiu-se um momento de contração de risadas.

Um outro de hilaridade prolongada.

Enfim, Estanislau passou a repreender o Juca; quando, porém, se dispunha a pô-lo de penitência em uma cadeira, Carlota chamou para junto de si o filho e deu-lhe três beijos seguidos, como mãe muito boa e extremosa que era.

Enquanto Brás-mimoso concertava a cabeleira, chegou o chá.

Depois do chá D. Inácia cantou uma modinha, D. Rita um romance, e Brás-mimoso um lundu.

Às onze horas as senhoras levantaram-se para retirar-se, às onze horas e meia chegaram ao topo da escada, e alguns minutos depois da meia-noite desceram a escada, voltando ainda D. Rita para dar um beijo na filhinha de Tomásia.

Na primeira esquina, as duas famílias deviam separar-se. Aí conversaram ainda boa meia hora; entre muitas coisas disse D. Carlota:

-Aquela D. Tomásia é a velha mais tola e vaidosa que conheço.

-É uma amizade que a gente entretém para não dar que falar, disse D. Mafalda; quanto ao mais, direi que só o pobre do Venâncio podia aturar semelhante bicho.

-E a tonta da filha? disse D. Rita.

-É uma víbora, acudiu D. Inácia; é o retrato da mãe.

-Leva de má língua, disse Estanislau; vamos, que é quase uma hora.

Separadas que foram as duas famílias, cada qual conversou como pôde.

-Estanislau, disse D. Carlota, que peça importante é esta D. Mafalda! que língua venenosa que tem!

-Meu paizinho, e a filha dela? é a moça mais estúpida com quem tenho conversado.

-Oh! Sr. Brás, dizia na outra rua D. Mafalda, já viu mulher como aquela D. Carlota?... enfim, tem os mesmos costumes da avó e da mãe, que por minha desgraça conheci: é uma família de mexeriqueiros.

-E D. Rita, mamãe?... dizia também D. Inácia, que desenxabida maitaca!... que cascavel! não se cala um instante.

-E o Juca, minhas senhoras, respondia Brás-mimoso, que menino malcriado!

Chegando à porta da casa, Brás-mimoso despediu-se das senhoras. Apenas havia voltado as costas:

-De que empada nos fizemos acompanhar, Inácia!... disse D. Mafalda.

E Brás-mimoso ia pela rua, dizendo consigo:

-Oh! que duas pamonhas eu aturei eu esta noite!...

Em casa de Venâncio, Tomásia havia exclamado apenas as visitas saíram:

-Que duas velhas tão detestáveis!...

E Rosa tinha dito:

-Que duas moças tão impertinentes e feias!

Venâncio exclamou coçando a cabeça:

-Que maçada!

O cabeleireiro

Tinham soado quatro horas da tarde do dia em que devia ter lugar o sarau de Tomásia. No gabinete de vestir de Honorina achavam-se duas pessoas: ela, que esperava pelo cabeleireiro que tinha de toucá-la, e Lúcia, que, no entanto, a distraía conversando.

A mãe Lúcia, como Honorina chamava, era uma mulher de mais de quarenta anos, alta, gorda, cheia de saúde e vivacidade, havia nascido longe da corte, e perto de uma das fazendas do pai de Hugo, por quem fora convidada para servir de ama-de-leite ao pequeno Lauro de Mendonça. Lúcia, que nada tinha de seu, e aos vinte anos de idade, que então fazia, acabava de perder, quase ao mesmo tempo, o marido, que a amparava, e uma filhinha de três meses, que ternamente amava, aceitou sem hesitar o convite; prudente, sossegada e carinhosa, amamentou com tanto amor, com tantos desvelos o pequeno Lauro, que mereceu e teve a gratidão e amizade da família dele. Graças à solicitude de Raul de Mendonça (pai de Hugo), casou-se Lúcia pela segunda vez, e, dando à luz uma menina exatamente na mesma época em que nasceu Honorina, soube com esta repartir o leite de seu filho; mas, roubando-lhe a morte também este, concentrou todos os seus cuidados e amor na menina que a seus seios confiaram. Alguns anos depois ficou de novo viúva, e só no mundo; e então a família Mendonça a recebeu para sempre em sua casa.

Tanta amizade, tanta confiança merecia essa mulher de toda a família, que a muitos pareceria uma parenta dos Mendonça; a sua voz é naquela casa atendida, os seus desejos estudados e sempre satisfeitos; ainda na véspera do dia em que se passa este capítulo, uma simples insinuação de Lúcia bastou para que Hugo mandasse admitir entre os caixeiros do seu armazém um menino, a quem nunca tinha visto, mas que a ama de sua filha apresentou como seu sobrinho.

Tendo dado uma sucinta idéia da mãe Lúcia, iremos agora acompanhar com ela a linda moça que espera pelo cabeleireiro.

-Mas tu vês, mãe Lúcia, disse Honorina, que assim tenho por força de aparecer no sarau malvestida e mal toucada, de modo que todos se hão de rir de mim.

-Oh! não tenha medo disso, Sr.ª D. Honorina; com os olhos e rosto que tem, poderá causar inveja, mas não riso.

-Ora, mãe Lúcia!

-Além de que ainda temos tempo de sobra para tudo aquilo: às cinco horas chega o cabeleireiro, às seis estará penteada, às sete vestida, e em uma hora poderá chegar à corte.

-Porém, sempre foi bem má lembrança de minha avó o exigir que eu me preparasse e vestisse para o sarau aqui, em vez de o ir fazer na corte, mesmo em casa de Raquel.

-O que quer?... a nossa boa velha tem suas idéias, mais ou menos extravagantes; não ouviu o que ela disse?... fora de mim carregar-te-ão com essas modas e enfeites indecentes, de que terás vergonha de ti própria!... A Sr.ª D. Ema está exatamente no ponto em que estava há cinqüenta anos atrás.

-É verdade, mãe Lúcia, e o ódio que ela vota a meu primo!... é um ódio tão elevado, como só o é também o amor que lhe tens!

-Pois então, menina?... ele como a senhora beberam o leite dos meus peitos, disse Lúcia enxugando uma lágrima; e não é justo que se ame, como a filhos, as crianças que mamam o nosso leite?

-Agradecida, mãe Lúcia, agradecida! também pela minha parte eu te amo tanto como meu primo.

-Oh! o Sr. Lauro me amava muito!

-E eu, mãe Lúcia, e eu?

-Também, também! mas o Sr. Lauro...

-Sim... é porque tu o amas muito mais do que a mim, disse a moça tristemente.

-Não Sr.ª D. Honorina; mas é porque se deve mais ternura aos que estão ausentes; a senhora lembra-se dele?...

-Eu era tão pequena quando ele partiu...

-E que amor que ele lhe tinha, menina!... parecia seu irmão!...

Nesse momento uma escrava apareceu e anunciou a chegada do cabeleireiro.

-Ah!... que entre!... exclamou Honorina desabafando um suspiro e arranjando-se para logo defronte do toucador.

O cabeleireiro entrou; era um moço alto, vestido à fantasia, isto é, trazia uma coisa que ficava entre a casaca e sobrecasaca, de cor verde, enfiada e segura pelos braços; a gravata era amarela, o colete vermelho com botões de metal dourado, as calças roxas, e calçava botis de duraque de cor questionável com ponteira envernizada; quanto ao seu parecer, o cabeleireiro tinha os cabelos excessivamente ruivos, trazia óculos, e o seu rosto era tão rubro que parecia usar carmim.

Depois de cumprimentar as senhoras com respeitoso movimento de cabeça, colocou-se em posição de começar o seu trabalho.

-Faço mal conversar, enquanto me penteio?... perguntou a moça.

O cabeleireiro fez um movimento que parecia querer dizer não; depois desatou a fita que prendia os cabelos de Honorina, e as bastas e negras madeixas da moça caíram como uma nuvem negra até ao chão. Honorina tinha as costas voltadas para o cabeleireiro; Lúcia olhava com prazer inefável para os cabelos da querida filha do seu leite, e por isso nenhuma das duas viu através dos vidros dos óculos do mancebo, o fogo que de seus olhos lançava, como querendo devorar eles tão precioso tesouro.

-Pois que não faz mal conversar enquanto me penteio, disse Honorina, podemos continuar, mãe Lúcia.

-Pois sim, Sr.ª D. Honorina, eu lhe dizia que o Sr. Lauro a amava muito, e lhe perguntava se se lembrava dele.

-Eu te dizia que não, mãe Lúcia, isto é, de sua figura me não lembro nada, mas da sua amizade, sim, conservo ainda bem agradáveis recordações!

-É possível?...

-Mas não é bem verdade que nós nos lembramos sempre docemente do que conosco se passou no tempo da nossa infância?

-Certamente.

-E, portanto, é por isso que eu me recordo de muitas coisas passadas então comigo, com minha mãe, e contigo mãe Lúcia, com as minhas camaradas, e com meu primo.

-Também com ele?... ora...

-Então duvidas de mim, mãe Lúcia? pois eu podia provar-te já que é verdade o que digo... eu me lembro de mil pequeninos episódios...

-Passados com o Sr. Lauro?

-Sim... também com ele; olha... sim, por exemplo..., a boneca cor-de-rosa...

-E então a boneca cor-de-rosa?...

-Eu te conto. Não sei que idade deveria eu ter -ai!... senhor, não me puxe assim os cabelos! mas eu era bem pequenina, bem travessa, e, segundo o que dizem, bem engraçada; falava como um papagaio; ora, tu, mãe Lúcia, para me fazeres adormecer, costumavas embalar-me, cantando uma balada, ou o que quer que seja, uma cantiga enfim: tão fácil era a música, e tantas vezes a havias cantado embalando-me, que eu já a tinha de cor, e a cantava também com minha graça infantil; riam-se tanto de me ouvir cantar, que me faziam repetir vinte vezes por dia a tal cantiga; meu primo era insaciável; apesar do meu gênio condescendente, um dia já de tão cansada que estava, teimei, e não quis cantar para ele ouvir. Ele fingiu-se enfadado. Chamou-me feia, tola, e disse-me que já tinha outra prima mais bonita do que eu, e que no dia seguinte lhe compraria uma boneca; ora, eu era louca por bonecas... Mas o senhor o que faz? está parado... não me penteia... há mais de meia hora que tenho os cabelos soltos!... Mãe Lúcia, faça que ele me penteie.

Com efeito, o cabeleireiro estava em enlevada contemplação: o colo de alabastro de Honorina, todo nu e alvejando debaixo dos seus olhos, lhe havia feito esquecer o pente e o dever do seu ministério; já mesmo tinha levantado os óculos sobre a fronte, e com vistas ardentes atentava as perfeições do colo da moça. Ouvindo a observação que lhe era dirigida, ele, sempre em teimosa mudez, não pronunciou uma só palavra, e continuou o trabalho que havia, talvez sem querer, interrompido.

-Ande, senhora, disse Lúcia; havia-se depressa.

Senhora D. Honorina, continue a sua história.

-No outro dia, às horas do jantar, meu primo apareceu, trazendo uma boneca de vestido cor-de-rosa; apenas a vi, lembrei-me da cena passada; mas sentida do que ele fazia, e que eu julguei um insulto, despeitada e talvez um pouco ciumenta, olhei para a boneca e não lha pedi.

-Então, Honorina, disse-me minha mãe, não é tua aquela boneca?...

-Não, minha mãe, respondi eu, é da prima bonita dele.

-Sem querer, meus olhos se encheram de lágrimas; mas meu primo Lauro fingiu que não me via chorar. Acabado o jantar, Lauro disse que ia guardar a boneca para levá-la de noite à sua prima, e entrou para o seu quarto; depois saiu... e desapareceu. Eu me sentia ansiosa por conseguir tão linda boneca; meus olhos não se podiam arrancar da porta do quarto de meu primo; minha mãe, que estava lendo o meu coração, disse:

-Honorina, vai furtar a boneca da prima bonita de Lauro.

-Eu achei tão justo e agradável o conselho de minha mãe, que entrei correndo no quarto de meu primo.

Havia no fundo do quarto uma espécie de altar; Lauro tinha feito da colcha da sua cama uma cortina, que caía até baixo, tapando a frente de uma mesa, no fundo da qual eu vi a boneca.

«Muito pequena para chegar até lá, eu arrastei uma cadeira, trepei e fui pegar na boneca; mas, quando a minha mão estava quase tocando-a, ela ergueu-se acima da minha mão... levantei esta... a boneca abaixou-se... abaixei a mão... ela fugiu para um lado... persegui-a ali, e ela escapou-se para o outro!... espantada... supondo-me só no quarto... eu recuei... dei um grito, e corri para onde estava minha mãe... -ora... ora... isto é demais!... mãe Lúcia, este homem está beijando os meus cabelos!...»

-Senhor!... exclamou Lúcia erguendo-se.

O cabeleireiro não fez o menor movimento; tinha com efeito beijado duas ou três vezes alguns anéis das belas madeixas de Honorina; mas, conhecendo que ela se ofendia com isso, continuou a penteá-la, sempre sem dizer palavra.

-Porém, mãe Lúcia, não é isto ousadia demais?...

-Provavelmente ele não quis ofendê-la com tal ação; se a senhora visse como o rosto do pobre homem está exprimindo dor tão pungente...

-Está bem, mãe Lúcia, não lhe digamos nada; coitado! é um estrangeiro, que ignora os nossos costumes. Eu creio que ele não sabe uma palavra do português: ainda não disse nada.

-Eu também penso do mesmo modo, disse Lúcia, mas vamos à conclusão da história.

-Sim, continuou Honorina; eu corri para minha mãe, e contei assustada o que acabava de acontecer-me, assegurando que a boneca era encantada; minha mãe, contrafazendo-se para não se rir, disse-me que sabia um segredo para destruir o encanto da boneca, e depois de me ouvir instar muito para que mo dissesse, depois de me ver beijá-la e abraçá-la mil vezes, ensinou-me que fosse outra vez ao quarto e que, subindo na cadeira, cantasse defronte da boneca a minha cantiga; eu olhei para minha mãe, como quem duvidava; mas tanto ela insistiu e me assegurou que com isso seria destruído o encanto, tantas vezes me repetiu as mesmas palavras, que acabei por acreditar e entrei de novo, posto que menos apressada, no quarto de meu primo.

-E então?...

-Entre a dúvida e a esperança coloquei-me defronte da boneca e comecei a cantar tremendo...

Eu a vi fazer um movimento para mim...

Quase que soltei um grito... pouco depois, já mais animada continuei... cantei o segundo verso...

A boneca aproximou-se algumas polegadas do meu lado...

O meu espanto só podia ser igualado pelo meu prazer; apesar da comoção que sentia, cantei ainda... cantei sempre... cantei até ao fim...

E a boneca ainda se veio chegando... sempre mais... sempre mais... até que ao terminar a minha cantiga, estendi os braços e prendi-a entre as minhas mãos. Então eu pude ver que alguns arames sustinham a boneca em pé, e que diversos cordões, que se perdiam por baixo da mesa tinham servido, não sei como, para fazê-la mover-se em diferentes sentidos; desatei esses cordões, livrei a minha boneca dos arames, e abraçada com ela ia saltar da cadeira, quando caí nos braços de meu primo, que me cobriu de beijos... oh! mãe Lúcia! todo aquele encanto de arames e cordões era ele que tinha ideado... ele não tinha prima bonita... a boneca tinha sido comprada de propósito para mim.

-E depois?...

-Nós fizemos as pazes, e eu lhe cantava todos os dias a minha cantiga... Ai!... oh!... mãe Lúcia, este homem me cortou uma porção de cabelos!...

-Senhor! exclamou Lúcia.

-Senhor! disse a moça fazendo-se cor de nácar, saiba que eu amo muito os meus cabelos para consentir que eles sejam assim cortados contra minha vontade! Mãe Lúcia, onde está meu pai?...

-Ainda não veio, senhora.

-Pois devo eu estar sofrendo as loucuras deste homem?... eu juro que ele não é cabeleireiro... ainda tenho os cabelos soltos!... oh!... será possível que Raquel me mandasse cá semelhante homem para me pentear?...

O cabeleireiro, sempre silencioso e parecendo não compreender coisa alguma do que a moça estava dizendo, depois de guardar furtivamente no bolso da sua casaca ou sobrecasaca um belo anel de madeixa, ia continuar, quando Honorina se levantou; a moça estava rubra de despeito.

-Senhor, quero saber se me quer pentear ou não?... se quer, já o podia ter feito, se o não sabe fazer, deixe-nos.

Nada mais encantador do que a figura graciosa de Honorina: com uma mão pousada sobre o encosto da cadeira, em que estivera assentada, com os seus cabelos caídos até à altura dos joelhos, com as faces fortemente enrubescidas, ela encarava com olhos de despeito o homem que se atrevera a cortar-lhe um anel das suas belas madeixas.

O insolente cabeleireiro a princípio pareceu comovido por tantos encantos; depois, sempre sem dizer palavra, tomou o chapéu, cortejou as duas senhoras e foi saindo sem cerimônia alguma, e sem mesmo cuidar em apanhar um papel, que do seio lhe caiu.

-Então ele se vai, mãe Lúcia?...

-Parece que sim...

-Será crível!... que homem é este?...

-Olhe, Sr.ª D. Honorina, ele deixou cair um papel... vejamos.

-Dá-mo.

-Ei-lo.

Honorina abriu o papel e soltou um grito.

-Que é isto? perguntou Lúcia.

-É ele, mãe Lúcia, é ele!...

-Ele quem?... ele quem?... diga!...

-O desconhecido que jurou amar-me! o desconhecido de quem te falei!...

-Meu Deus!... e o que diz ele?...

-Ouve, respondeu Honorina, lendo o que estava escrito naquele papel: «Honorina!... perdoa, se te roubei um anel de madeixas, mas eu te amo! eu te amo com esse amor de poeta, com esse amor de fogo, que ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja sempre o mesmo amor, é por força bem belo!...»

-Oh! mas isto é já uma loucura!... balbuciou Honorina.

-É admirável!... porém aquele que se esconde no mistério é um homem de quem se deve fugir.

-Sim, mãe Lúcia, disse automaticamente a moça, é um homem de quem se deve fugir.

E, deixando-se insensivelmente sentar na cadeira, Honorina pareceu entregar-se à mais profunda meditação.

Era de ver-se essa jovem tão bela e tão interessante caída nessa posição desleixada, e tão fechada consigo mesma no íntimo de seus ocultos pensamentos; pálida, como a sombra da mais linda virgem refletida em água de fonte sossegada; com as mãos esquecidas sobre o colo; com seus cabelos espalhados e soltos negligentemente; com seus belos olhos desmaiados em doce quebrantamento; e em todo o seu semblante, com traços ligeiros dessa melancolia inefável, que tanto pode nos corações!

Lúcia olhava em silêncio para Honorina... parecia querer adivinhar seus pensamentos na expressão de seu rosto... bebê-los no ar que ela, respirando, deixava sair embalsamado por entre seus lábios cor-de-rosa.

No fim de um quarto de hora a moça levantou a cabeça e com as mãos afastou para trás das orelhas as aneladas madeixas, que lhe brincavam nas faces; estava então perigosamente fascinadora! era já absolutamente outra!... via-se sua fronte umedecida por leve suor, em seus olhos brilhava fogo celeste... suas faces mostravam-se brandamente coradas... suas narinas um pouco dilatadas... e pelos lábios, entreabertos, escapava-lhe respiração difícil e quase suspirante, que lhe agitava o seio, como se se sujeitasse a repetidos choques elétricos, de momento a momento estremecia; depois de alguns instantes mais, ela passou a mão pela testa e, erguendo-se, desassossegada:

-O sarau!... exclamou, o sarau!... que se me penteie... que se me vista depressa!... eu preciso sair... eu quero respirar o ar livre... e depois esquecer-me do mundo e de mim mesma na embriaguez de uma noite de prazeres ruidosos!... Mãe Lúcia, a minha cabeça me está ardendo! eu tenho nela alguma coisa que me queima... que me devora... que pode enlouquecer-me de um instante para outro!...

-Menina!...

-Que me penteiem!... que me vistam depressa!...

-Então será preciso mandar vir outro cabeleireiro...

-Oh!... quanto tempo perdido!... mas é impossível que fosse Raquel quem me mandasse aquele homem!... é impossível que se ela tenha ligado com ele para conspirar contra o meu sossego!...

-Um cabeleireiro, que vem da parte da Sr.ª Raquel, disse uma escrava, aparecendo na porta do gabinete.

-Que entre! exclamou a moça; mãe Lúcia... não foi, portanto, Raquel quem o mandou cá...

O cabeleireiro entrou; a moça estava perfeitamente toucada uma hora depois.

No entanto, o primeiro cabeleireiro, que havia estado com Honorina, pouco depois de ter saído da casa dela, buscou apressadamente o ponto da praia, onde em Niterói se encontram as faluas; aí cercado e perseguido pelos patrões e remadores, que à porfia lhe ofereciam seus batéis, o mancebo livrou-se deles, empurrando-os para os lados, e, saltando dentro da primeira falua que viu, gritou:

-Para a corte! velas ao vento, remos ao mar! e uma boa molhadura, se curta for a viagem!...

Meia hora depois o mancebo desembarcava no cais da rua fresca, devendo apenas notar-se que, com a pressa com que saltou fora do batel, desarranjou-se-lhe a cabeleira ruiva que trazia, e ele, para não demorar-se concertando-a, arrancou-a, e guardou-a no bolso da casaca.

O sarau de Tomásia

Este mundo é grande campo, esta vida uma longa batalha, mercê de quem todos se combatem, embora a cada espécie e ainda a cada sexo caiba seu gênero de peleja particular, assim como a cada classe sua estratégia peculiar. Os homens, que têm para si tomado o que há de mais grave e talvez de mais difícil na ordem da sociedade, se dão batalha por diversos modos: e, pois, o político se bate no parlamento e nas ante-salas de palácio; o diplomata nos brilhantes salões; o literato no prelo; os artistas nas exposições etc. As senhoras não podiam deixar de ter no mundo o seu campo de guerra; elas o tem, o mote de todas é um só quero agradar, e o triunfo de uma significa a derrota de todas as outras.

Elas pelejam mostrando-se. No teatro elas pelejam, mas no teatro só são vistas por metade; no passeio elas pelejam, mas no passeio só de relance se mostrarão; seu grande campo é, pois, a noite de sarau. Então, desde a flor do cabelo até o bico do sapato, tudo se ostenta. Então se luta; luta-se uma noite inteira espírito contra espírito, gracejo contra gracejo, ironia contra ironia; então se opõe seda a seda, jóia a jóia, brilhantismo a brilhantismo; então se dança e se canta, se olha e se sorri, se fala e se suspira com estudo, com arte e intenção. Uma flor vale ali uma espada, uma amiga serve às vezes de escudo, um leque pode falar de longe, um lenço branco vale mais que tudo isso.

E a batalha é geral: não há camarada nem parenta que não possa ser uma rival; às vezes é uma prima, uma irmã, mesmo a inimiga, a quem se hostiliza, a quem se não dá tréguas, a quem se faz oposição na sala e se persegue até na toilette.

E o triunfo?... o triunfo está na imaginação: ao entrar no carro, ao apear-se dele em casa, ao deitar-se no leito de repouso, a moça suspira fatigada, e diz -agradei! Eis sua vitória.

Pois uma dessas interessantes batalhas, em que damas são lidadores, e armas os encantos delas, se dava com vigor em casa de Venâncio.

Conceba-se agora uma espaçosa sala em que se deve dançar, uma outra mais curta onde se joga, um gabinete onde se há de tocar, uma escada gostosamente iluminada, pela qual sobem as senhoras para a toilette, uma sala que deverá ser a de jantar, e que ora nela se servem refrescos, e, enfim, ao lado dela um agradável terrado, cujos parapeitos estão cobertos de lindos vasos de flores, dos quais se pode gozar o aroma, sentado em bancos crivados de conchinhas brancas; e ter-se-á feito uma justa idéia da casa de Venâncio.

Conceba-se mais do belo ruído, toda a sublime desordem do começo de um sarau; as senhoras que chegam, os beijos que estalam lábio a lábio entre as camaradas que se encontram; o murmúrio das que criticam; os planos que se forjam nas rodas de moços; as quadrilhas que se engajam; as lisonjas que se dizem; as desculpas que se oferecem; e, sobretudo, os parabéns que recebe a Sr.ª D. Tomásia, e ter-se-á feito também justa idéia do que aí se passava pouco antes de começar o sarau.

Nesse tão forte ostentar de agrados e louçainhas, e entre as que mais se extremavam, via-se a madrinha da filha de Tomásia, D. Lucrécia, jovem viúva de vinte anos, orgulhosa de suas faces cor-de-rosa, de seu rosto fresco e belo, do interesse que lhe dava seu estado de viuvez tão prematuro, e que, cônscia de tais atrativos, ainda mais se deixava adormecer, sem cuidados do futuro, no seio da segurança e da felicidade que lhe prometiam seus avultados teres.

Tomásia não cabia em si de contente: havia umas poucas de razões, porque se julgava venturosa. Antes de tudo ela conhecia que jamais enganara com mais habilidade a si própria: com efeito, nunca tingira melhor seus cabelos brancos, nem até então lhe havia M.me Gudin cortado com mais feliz mão um vestido de seda; depois, Tomásia não deixava de ser mãe; via com orgulho sua querida filha, que, como toda a moça que tendo dezesseis anos não é feia e mostra-se espertinha, brilhava aos olhos da sociedade. Sem dúvida, Rosa fazia-se acompanhar em seus menores movimentos de boas duas dúzias de olhos masculinos, como conquistador, que em triunfo arrasta após si vencidos algemados, tão galantinha, tão faceira e (digamos em francês para mais agradar) tão coquette, que estava.

Finalmente, Tomásia se dava alegremente parabéns pelo gosto e brilhantismo de sua festa; fosse como fosse, Venâncio arranjou-se o melhor que pôde; o dinheiro havia aparecido, e Brás-mimoso, que tinha dedo para negócios tais, forjara e estava executando um plano de sarau tão bem concebido, determinado, e posto em prática, que nada deixava a desejar.

A casa já se achava cheia de convidados, e a todos os momentos vinham chegando novos. Entre os jovens mais elegantes, primava Otávio. Tomásia o tinha recebido com a maior afabilidade, e Rosa com engraçado sorrir, posto que ambas já não contavam com ele: Félix as tinha precedentemente desanimado com a relação da amorosa inteligência, que se dava entre ele e D. Lucrécia; e também Otávio, que tanto olhara para Rosa no teatro, que a fora esperar à saída, e que até tomara nota da rua onde ela morava, nem uma só vez viera passar por defronte das janelas da moça, e nem mais se lembrara de seu lindo rosto moreno.

À vista de semelhante procedimento, Rosa tinha riscado o nome de Otávio da lista dos seus adoradores, e o olhava quase com indiferença, quase que com os mesmos olhos com que observava a multidão de moços que vinham entrando e espalhando-se pelas salas.

Às oito horas e um quarto da noite, pouco mais ou menos ouviu-se na sala um sussurro geral... os homens precipitaram-se para ver uma pessoa que entrava, as senhoras moveram-se todas... umas sorriram-se, outras estenderam os pescoços... foi, enfim, um movimento de curiosidade geralmente demonstrado por toda a assembléia.

Era Honorina que entrava.

A curiosidade, que tinha sido igual tanto nos homens como nas senhoras, nascia, porém, de um desejo absolutamente contrário; as senhoras desejavam dizer -é falso, e os homens -é verdade.

Não é uma ficção de romance. Uma moça, que dizem ser formosa e que chega a qualquer cidade, é pedida e desejada pelos olhos de todos; todos a querem ver, e no coração de todos se prepara um sentimento para ela, que antes da primeira vista apenas interrogativo. No coração das moças se pergunta: «será uma rival perigosa»?... No coração dos moços se diz ao contrário: «será um encanto poderoso»?...

E, pois, Honorina estava nesse caso. Fora, é certo, nascida e educada na corte, mas longe dos olhos da multidão, abrigada à sombra do amor, e escondida debaixo do véu dos prejuízos de uma família, que, arraigada a graves usanças, se espantava e corava diante da civilização galanteadora da furta-cor França. Enfim, conquistada pelo gosto da época, ela entrava pela primeira vez em uma dessas salas de prazer ardente, onde parece que se quer com olhos de fogo devorar a beleza, que chega.

Honorina entrou ao lado de Raquel: comovida e trêmula, ela hesitou um momento; inocente ainda, não compreendeu o que queria dizer o sussurro que se levantava à sua chegada; mas Raquel, que de coração a amava, vendo-a com os olhos no chão, e mais pálida que nunca, disse-lhe ao ouvido:

-Princesa da festa, levanta a cabeça; pois que a vitória é já tua.

Honorina levantou os olhos, e com eles percorreu toda a sala... o rubor do pejo tingiu suas faces... como as primeiras rosas da aurora insinuada em um céu cor de leite.

Com efeito, o triunfo era dela. O murmúrio que se escuta quando uma moça entra numa assembléia, ou demonstra o horror que se vota ao vício, ou a admiração e entusiasmo, como que se contempla a virtude e a beleza. O vício estava longe de Honorina; a virtude se aninhava em sua alma e a beleza se mostrava em toda ela; e, pois, o triunfo era dela.

Honorina vinha toucada e vestida do seguinte modo: dois largos bandós de lindos cabelos negros desciam até dois dedos abaixo das orelhas e para trás se voltavam, indo suas extremidades a perder-se por entre longas tranças de perfeitíssimo trabalho, que se enroscavam terminando em cesta; uma grinalda de flores brancas salteadas de pequeninos botões de rosa se entretecia nesse belo tecido de madeixas; duas rosetas de brilhantes pendiam de suas orelhas; nenhum enfeite, nenhum adorno ousara cair sobre seu colo, que, nu, alvejava, arredondado, virginal, e puro; um vestido de finíssimo blonde, que deixava transparecer o branco cetim que cobria o corpinho todo talhado em estreitas pregas, que desenhavam elegantes formas, era debruado por uma longa fita de flores, semelhantes às dos cabelos, as quais ainda se deixavam de novo ver formando uma cercadura em que acabavam as mangas curtas, justas, e singelas; esse vestido cruelmente comprido para esconder dois pequenos pés calçando sapatinhos de cetim, se terminava por uma simples barra bordada de branco; no braço esquerdo da moça fulgia um bracelete de riquíssimos brilhantes; e, enfim, suas mãos calçavam luvas de pelica branca, guarnecidas de arminho e com borlas de seda frouxa.

Raquel se tinha vestido, toucado, e adornado absolutamente como Honorina. Não se via em uma nada de menos e nada de mais do que na outra: eram duas irmãs, e ambas da mesma altura, ambas com cabelos e olhos pretos, ambas quase igualmente belas; apenas no rosto deferiam; porque a primeira o tinha corado, vivo e alegre; e a segunda, pálido e melancólico.

Honorina e Raquel ocupavam duas cadeiras, que estavam aos lados de D. Lucrécia. Esta senhora beijou as duas moças, e Honorina viu fitos em seu rosto dois lindos olhos azuis cheios de encantadora doçura, e ouviu que a jovem viúva lhe dizia:

-É preciso ser bem feliz, minha senhora, para que com tanta formosura se ganhe ao primeiro momento todo o coração de outra moça!...

E D. Lucrécia se sorriu com um sorrir angélico... e era uma rival que se sorria!...

Honorina, vivamente tocada do que lhe dizia Lucrécia, mal teve tempo de apertar decentemente a mão da moça, que segurava na sua, porque uma multidão de mancebos se precipitava para ela.

-Meu Deus!... exclamou a moça encostando-se o mais que pôde na cadeira.

A primeira, a segunda, a terceira... até a décima segunda quadrilha já estavam concedidas, e a coluna dos cavalheiros cada vez se tornava mais compacta e forte.

A cada mancebo galante que corria para Honorina, um novo e engraçado sorriso se derramava pelos lábios de Lucrécia, e uma seta penetrava em seu coração.

-Raquel! disse Honorina passando a cabeça por detrás da cadeira de Lucrécia; Raquel! acode-me; eu já não posso...

-Escuta, respondeu-lhe a amiga; ao primeiro que te falar, responde: «já tenho para todas».

Quando Honorina voltou a cabeça, já estavam três cavalheiros defronte dela; o primeiro que lhe falou foi Brás-mimoso.

-Minha senhora, venho implorar a V. Ex.ª a honra de uma contradança.

-Mas se eu já tenho par para todas...

-Porém, quantas são todas, minha senhora?...

-A falar a verdade... eu me não lembro... Raquel, tu te lembras quantas contradanças prometi?...

-Vinte e três, respondeu Raquel sem hesitar.

-E V. Ex.ª, minha senhora? disse Brás-mimoso, voltando-se para D. Lucrécia.

-Vinte e quatro, respondeu a viúva.

-E V. Ex.ª, senhora D. Raquel?...

-Vinte e cinco, disse Raquel rindo-se.

As três moças viram-se felizmente livres de seus cruéis perseguidores; no entanto, Félix achava-se preso, desde que entrara Honorina, nas redes de sua interessante prima Rosinha. A moça, no meio de uma roda de quatro ou cinco companheiras tão travessas, tão galantinhas e levianas como ela mesma, entretinha o primo, contando-lhe uma história muito comprida e cheia de mil supérfluos episódios, tendo, porém, os olhos fitos na bela romântica.

Quando conheceu que seu primo não poderia obter mais contradança alguma de Honorina, exclamou:

-Oh!... mas, meu pensamento, nós nos esquecíamos de que meu primo deverá estar ansioso por alcançar para uma quadrilha o sim da interessante senhora que acabou de entrar... vá, meu primo, se já não veio engajado de casa, vá depressa.

-Sim, minha prima, eu vou... porém... minha prima ainda me não deu uma contradança...

-Eu já tenho par para todas, disse a moça soltando uma risada, que foi acompanhada pelas das outras moças.

-Muito sinto, disse Félix fazendo-se vermelho. Conheço perfeitamente que as senhoras zombavam de mim; mas protesto que a jovem romântica me vingará.

Félix aproximou-se de Honorina... falou... e em resposta escutou essas terríveis palavras, que ela já de Raquel tinha aprendido; essas cinco palavrinhas, que ainda pronunciadas com toda a doçura por uma boca de moça bonita, têm gosto de fel, e pesam, e soam horrivelmente para os pobres rapazes, que, mal as ouvem, voltam-se desapontados.

Às oito horas e meia da noite teve princípio o sarau. Será bom considerá-lo em três partes distintas.

Começa o sarau

Uma bela ouverture foi o sinal do começo do sarau. Logo depois dançou-se a primeira quadrilha. A prova de que Honorina recebia as honras da noite é que todos os olhos estavam fitos nela, como querendo beber seus movimentos.

Não se diga, nem se pense, que loucura é querer concluir da graça de uma bela jovem dos vaivéns que simplesmente fazem as moças, quando contradançam. É inegável, que nos mais brilhantes saraus, a dança não passa, quanto aos homens, de meia dúzia de arrasta-pés acompanhados de outras tantas cortesias, e quanto às moças, de igual número de interessantes deslizamentos; porém, quando uma senhora tem em si isso, que se não pode explicar, mas que por demais se sente no coração, isso que alguns têm chamado graça, mas que não se diz tudo, dizendo-se somente graças; porque graça não define essa bela reunião de uma boca, donde saem palavras que nos fazem sempre sorrir de gosto e que nos ficam de cor; de olhos, cujas vistas nos obrigam a hesitar e estremecer e que penetram até o âmago de nossos corações; de um mimoso andar, que nos faz embeber os olhos nos vestígios das pisadas que deixou, para procurarmos ver alguma coisa que não vemos, mas que devera ter ficado ali; do mimoso andar de um corpo, que deixa na coluna de ar que cortou alguma doce... encantadora... inefável exalação de si próprio, como a rosa impregna de seus eflúvios a branda aragem que lhe varreu a face... isto tudo, e muito mais ainda, que nenhuma boca pode dizer, que nenhuma pena pode explicar, não é somente graça... é antes um sopro saído dos lábios de Deus, que cerca de uma atmosfera mágico-celestina a criatura feliz: não é somente graça; ou então é a graça de Deus.

Pois este dom sagrado, que nenhum homem tem, que pertence exclusivamente a algumas senhoras, pode-se apreciar e de fato se aprecia nas próprias contradanças francesas, apesar de toda a sua monotonia e desagradável simplicidade. E Honorina o tinha!... e eles, pois, a viram andando... (porque dizer dançando, além de uma mentira, seria fazer um insulto ao bom gosto da época), e eles, pois, a viram andando... não... deslizando-se doce e imperceptivelmente, como um leve batel, a quem o sopro do brando zéfiro faz lamber a superfície de um lago sossegado!... e ainda mais: para o encanto ser completo, Honorina, de momento a momento, tornava-se dobradamente interessante. Com efeito, Honorina havia entrado na sala mais pálida do que era; trêmula, receosa, com os olhos baixos, e toda cheia desse acanhamento que acobarda a jovem campesina, que, pela primeira vez aparece em uma assembléia da corte, cônscia de sua ignorância, dos usos do belo tom, ela temia que em cada simples vista de seus olhos houvesse um erro, em cada palavra sua um crime de leso-bom gosto; por isso ela tinha os olhos no colo, e respondia apenas por monossílabos; porém, sua organização eminentemente nervosa lhe devia dar a vitória sobre si mesma. Desde que a música rompeu, o milagre foi operado.

Ouvindo as primeiras harmonias dessa feiticeira inspiração de Auber, o Domino-noir (que foi exatamente a ouverture, com que se deu princípio ao sarau), Honorina sentiu um choque inexplicável... depois... sempre... até o fim se foi ela animando... seu coração pulsando com mais força... sua alma pareceu inflamar-se... seu rosto ergueu-se e ela começou a viver para o mundo onde estava.

Enfim, todo esse movimento, todo esse ruído de um sarau, o calor que fazia, a agitação das contradanças, cuja alegre música podia tanto nela, acenderam ainda mais o fogo que a salvara de seu acanhamento; já tinha as faces levemente coradas... seu peito arfava... ela começava a gostar de tudo o que via... seu cavalheiro já lhe havia jurado que ela era encantadora... Honorina já se tinha sorrido para Raquel... estava alegre, estava feliz; e sua alegria a tornava mais bela que nunca.

Mas o centro, o alvo das atenções dos homens deveria ser o dos ciúmes, pelo menos da maior parte das senhoras. Lucrécia vivamente se incomodava com os obséquios que a via receber; e tanto mais que Lucrécia era realmente bela, e dobradamente orgulhosa. Flor das sociedades, não cedendo até então a primazia a nenhuma, Lucrécia queria todos os homens a seus pés; e nessa noite Honorina lhe conquistou a maior parte dos seus adoradores.

Além disso, um episódio tinha ocorrido, que convém não deixar passar desapercebidamente. Otávio havia chegado pouco antes de Honorina, e se esquecera de ir logo aos pés da bela viúva; quando a filha de Hugo de Mendonça entrou e se sentou junto de Lucrécia, Otávio correra e obtivera daquela a sexta quadrilha, e só depois foi que se dirigiu à sua bela amada, pedindo-lhe exatamente uma contradança que ela acabava de conceder a outro cavalheiro.

Ora, Lucrécia sabia bastante dos segredos dos saraus, que muitas vezes, quando um jovem não quer nem dançar, nem ofender o amor-próprio da senhora a quem um dever qualquer o obriga a dirigir-se, manda um amigo seu convidá-la para certa quadrilha, e depois vai ter com ela e pede para si essa mesma quadrilha, que, incauta já deu a outro.

Esta idéia, a lembrança desse estratagema tantas vezes posto em uso, feriu cruelmente o orgulho da viúva; portanto, Otávio levantava acima dela essa menina, que apenas acabava de aparecer!... isso era uma dessas ofensas que as senhoras jamais perdoam; e, entre as senhoras, o amante que se esqueceu de uma delas, comete um crime enorme, que se faz expiar, não ao desleal que o cometeu, mas à rival, ainda inocente, que o causou. E, pois, Lucrécia, que se sorria, que tinha doçura angélica em seus belos olhos azuis, tinha ao mesmo tempo o despeito e o amargor no coração.

No gabinete onde estava a música, e em que se achava também o piano, apareceu uma moça para cantar, e começou a deixar ouvir os belos acordes de sua doce voz; uma coluna de moços tomava a porta do gabinete.

-Parabéns! disse um àquele que conduzira a moça ao piano, parabéns ao condutor de Euterpe!...

-Que se há de fazer?... respondeu ele, eu cá tolero que se cante, quando não há mais nada que fazer; porém agora, que podemos dançar e conversar com as moças, é mesmo horrível roubar-se-nos meia hora desse prazer para se ouvir aquela senhora!...

-O que é aquilo que ela está cantando?...

-Eu não sei... parece-me inglês; mas deve ser uma ária italiana: -bravo, minha senhora!...

-E que bico faz ela: bravíssimo!...

-Como desafina: bonito! bravo!...

Os dois senhores continuavam a falar desapiedadamente em voz baixa contra a moça que lhes fazia a honra de se deixar ouvir, ao mesmo tempo que em voz alta aplaudiam; mas... é preciso passar isto por alto, porque há tantos homens que se podem julgar retratados nestes dois Midas, que é bom não entender com eles.

A moça concluiu a sua ária no meio de bravos e palmas, e foi conduzida à sua cadeira pelo mesmo cavalheiro que dela criticara em voz baixa.

-Parabéns, minha senhora, dizia ele à moça; cantou mais que brilhantemente!... que harmonia, e que execução!... seria perdoável perguntar a V. Ex.ª se não podia repetir a mesma peça esta noite?...

-Oh!... a mesma não, respondeu a moça; eu cantarei outras, que são igualmente bonitas.

-E quantas serão, minha senhora?...

-Talvez... ainda três...

-Meu Deus!... por que não serão antes seis!...

Mas um sinal da orquestra pôs fim às lisonjas e zombarias de que estava sendo vítima a inocente senhora; era o sinal brilhante e vivo da valsa.

A valsa! sim, a valsa é com toda a razão o delírio das moças e o belo ideal dos moços em um sarau. Acusem-na muito embora os senhores Esculápios (que aqui para nós, nada há com que se não intrometam) como causa de enfermidades sem-número; amaldiçoem-na muito embora como origem de mil pleurites, hepatites e tudo mais que na sua benta língua acabar em ites, se é assim... melhor para eles.

A valsa é o delírio das moças; porque na valsa é que elas experimentam esses movimentos rápidos, acelerados, consecutivos, que tanto amam por sua organização, e que, marcados por uma música forte, alegre, impulsiva, produzem nelas choques nervosos e abaladores. É na valsa que seus olhos mais brilham, e que mais vivo fogo se acende em suas faces; é na valsa, enfim, que elas se assemelham com os anjos, voando pelos ares, e tendo só de humanos... o receio de uma queda.

E a valsa é o belo ideal dos mancebos; porque é nela que eles cingem a delicada cintura de uma moça! nas contradanças, o apaixonado prefere dançar defronte da sua bela; na valsa, pelo contrário, é com ela mesma que ele dança... com o rosto perto do dela... sentindo o fogo ardente de seus olhos fitos nele... sentindo o delicioso bafo que escapa suspiroso dos lábios dela para refletir nos seus; sentindo a palpitação de seu coração... o toque de sua mão... bebendo o sorriso de seus lábios, e amparando o doce peso de seu corpo, que desleixadamente se abandona nos braços que a cingem!...

A valsa acabou enfim. E passeava-se.

Quem poderá ouvir tudo quanto se diz em um passeio de sarau! seria sua relação um romance tão variado como completo... seria talvez mil romances; porém, desgraçadamente, o que aí se conversa de mais interessante é feito tão em segredo e por entre tantos sorrisos, que mal se pode entender. É melhor, pois, não dizer nada, para não cair no erro de dizer o que menos interessa.

Mas Lucrécia tinha sido convidada, para passear, por Otávio; era como uma satisfação que lhe dava o moço; ela aceitou-lhe o braço. Havia algum acanhamento entre ambos, por isso durante a primeira volta pela sala nenhum dos dois disse palavra; depois eles se dirigiram para o terraço; ao passar pela sala dos refrescos Otávio viu um amigo seu, que passeava só.

-Oh!... Leopoldo! tão solitário...

-Que queres? não encontrei senhora que quisesse aceitar a oferta do meu braço.

-Olha... dirige-te àquela... vai sem cavalheiro.

E Otávio mostra-lhe uma senhora, que deveria contar seus bons setenta janeiros.

-Misericórdia! exclamou Leopoldo; antes só, do que mal acompanhado.

-Mas, segundo o teu sistema, a melhor maneira de chegar até junto das moças é agradar às velhas.

-Sim, sim; porém, aquela é uma velha sem fiadores.

Neste momento Otávio e Lucrécia entravam no terrado.

-Que quer dizer uma velha sem fiadores?... perguntou Lucrécia.

-Quer dizer, respondeu Otávio, uma senhora adiantada em anos, que não tem filhas, nem sobrinhas, nem agregadas moças.

-E por conseqüência uma senhora, com quem os senhores julgam todos os momentos perdidos; Sr. Otávio, V. S.ª tem mãe?...

-Minha senhora, eu não penso como o meu amigo.

-Oh!... mas o que se pratica... o que tenho ouvido... o que acabei de ouvir, enfim me convence de que se eu nunca tiver filhas, não devo freqüentar sociedade alguma, logo que me sentir envelhecer.

-Mas, minha senhora, com o espírito de V. Ex.ª não é possível envelhecer...

-Obrigada... obrigada!... eu gosto muito de parecer espirituosa; mas V. S.ª o sabe, as senhoras gostam ainda mais de parecer outra coisa.

-Eu acreditei, respondeu Otávio, que devia mostrar-me simplesmente tocado do espírito de V. Ex.ª, pois que para o completo elogio de sua beleza é mais que suficiente um espelho.

-Acha-me, portanto, bonita?...

-Preciso repeti-lo ainda?...

-Agradável?...

-Muito.

-Espirituosa?

-O mais que é possível.

-Meu Deus!... isto é quase uma declaração.

-Que não seria mais do que a repetição do que já me tem ouvido.

-Estou a ponto de crer que me ama.

-Eu pensava que já não havia dúvida a esse respeito.

-E, no entanto, o senhor nem ao menos dançará comigo!

-Minha senhora... eu cheguei tarde aos pés de V. Ex.ª

-Nem uma quadrilha... nem uma valsa... nada!

-Eu estava dizendo que cheguei tarde aos pés...

-Oh! é porque talvez, quando quis chegar até a mim, alguma bela aparição o fez parar... sentir... e desejar...

-Minha senhora...

-Primeiro dirigiu-se a uma moça que se sentava ao meu lado; obteve, sem dúvida, o que queria; e depois, quando ouviu que eu acabava de conceder a um seu amigo a terceira quadrilha, V. S.ª chega-se então a mim; e o que me pede?... a terceira quadrilha...

-Então V. Ex.ª chegou a persuadir-se...

-Tenho a certeza de que o Sr. Otávio não se lembrou de mim neste sarau.

-É uma injustiça, minha senhora, que eu podia voltar também contra V. Ex.ª

-Como?...

-Dizendo outro tanto de V. Ex.ª

-Por quê?...

-Porque sabendo que eu vinha a este sarau, porque vendo-me na sala, não me quis guardar uma quadrilha.

-Oh!... mas V. Ex.ª podia ter-me castigado com mais generosidade...

-Pois receba o castigo, senhor: eu guardei-lhe uma quadrilha.

-E qual?... e qual?... minha senhora!

-O senhor a deseja?

-Peço-a de joelhos!... diga-me o número!...

-A sexta...

-A sexta quadrilha...

-Eu não sei a que atribua o movimento que faz: para atribuí-lo a prazer... seria amor-próprio demais.

-É que a sexta quadrilha... eu... me havia comprometido...

-Eu aprecio a sua urbanidade; porém, é tão fácil fingir-se um engano... e depois com uma polida satisfação... ora, os senhores homens sabem às mil maravilhas como se faz isto.

-Se fosse possível ser uma outra qualquer...

-Senhor, eu poderia neste momento lembrar-me de ter ciúmes, se não devesse só recordar-me que já desci bastante de minha posição, guardando-lhe uma quadrilha!...

-Eu reconheço o obséquio que devo a V. Ex.ª

-E então?...

-Em todo o caso aproveitar-me-ei dele... não era possível que de outra forma procedesse.

-Por civilidade, não é assim?...

-Oh!... não: por um sentimento bem terno.

Alguns minutos depois Lucrécia estava outra vez sentada junto de Honorina.

-Então, minha bela menina, disse ela, como acha o sarau?... tem sido feliz nele?...

-Sim... sim, minha senhora; tenho passado uma noite bem esquecida de mim mesma...

-É uma compensação, porque acredito que muita gente só se tem ocupado em admirá-la.

-Minha senhora... eu não posso merecer...

-Ora... ora... aposto eu que tem dançado todas as quadrilhas, que não tem perdido uma só valsa?...

-É verdade; mas creio que também a senhora...

-Não... deixei de dançar a segunda quadrilha; estes homens!... acreditará que estes mesmos senhores, que tantas lisonjas nos dizem, que tantos elogios nos fazem, se aproveitam de tudo para atormentar-nos?...

-Mas a senhora parece ofendida.

-Não, eu os desprezo; porém, quero preveni-la: sabe como aqui se fere o amor-próprio de uma mulher?...

-Não, minha senhora; eu nunca freqüentei saraus.

-Pois bem: o homem que quer demonstrar a uma senhora, que aquela que ele ama é superior a ela, convida-a para certa quadrilha, e quando chega esta, deixa a senhora ficar sentada, e vai dançar com a que ama!

-Isso quando feito de propósito deve julgar-se um insulto!

-Pois eles o fazem!...

Lucrécia pôs fim à sua conversação aí: tinha aguçado um punhal, que deveria ferir o amor-próprio de Honorina no momento de se dançar a sexta quadrilha.

O chá

O chá começou a servir-se às dez horas e meia da noite: a hora do chá é nos saraus a hora das satisfações, dos longos cumprimentos, e de certos prazeres que lhe são muito peculiares. Compreender e ouvir para relatar tudo o que então se passa e se diz, seria operar o milagre que não esteve no alcance dos arquitetos e operários da torre de Babel. É certo que ali não se grita, nem se amotina ninguém; mas há em compensação mais de cinqüenta homens que conversam, e outras tantas senhoras que falam todas ao mesmo tempo... e tanto basta.

Brás-mimoso tirava então o seu ventre da miséria; no meio de meia dúzia de moças, nenhuma das quais tinha mais de vinte anos, ele, que tinha embora escondidos cabelos de avô de todas elas, se apresentava com cara e pretensões de priminho de qualquer das seis.

É preciso fazer sentir, antes de ir por diante, o erro em que estão certos sujeitos que, supondo enganar o mundo, enganando a natureza, não enganam senão a si próprios. Para todas as idades, como para todas as condições, há um quadro com duas faces; uma oferece o belo, e a outra o feio, que lhe deve caber. Na boa face de seu quadro tem o velho os respeitos, as considerações, as honras, que todo o mundo bem-educado lhe deve e lhe vota; e o velho, que se quer fazer passar por moço e gamenho, perde o belo de seu quadro e fica com o feio em ambas as faces dele. Pois Brás-mimoso não se dava com isso: espartilhado, todo no rigor do tom, com sua bela cabeleira de cabelos pretos; gamenho com rugas na face, engraçado sem sainete, vaidoso sem mesmo saber de quê, perseguia as moças como... como... tantos outros.

Ele investiu para aquela interessante meia dúzia de tentaçõezinhas com seis balas de estalo nas mãos; era o seu mar de rosas!... no entender de Brás-mimoso, a invenção das balas de estalo era o último apuro do engenho humano.

As moças, assim que o viram, começaram para logo a beliscar-se e a trocar segredos e meias risadinhas. Ora, essa espécie de cabala, nelas é sempre denunciada por um risozinho engraçado, do qual todo o homem, que conta em si uma oitava de juízo, tem mais medo do que da mais estrepitosa trovoada; porém, Brás-mimoso não se dava muito com aquilo; também parece que a natureza, quando tivera de assoprar juízo na cabeça do jovem qüinquagenário, se achava com veia para a homeopatia.

Pobre do meu Brás-mimoso! ei-lo com elas! um velho namorado no meio de seis gênios de graças e travessuras.

-Senhora D. Adelaide, disse Brás-mimoso, venho rogar-lhe que estale uma bala comigo... oh! será um estalo misterioso!...

-Pois não, Sr. Brás, de todo o coração...

A menina pegou na bala com a ponta dos dedos... puxaram, puxaram e o papel rompeu-se sem estalar.

-Chocha!... exclamaram as moças rindo às gargalhadas.

Ora, uma bala de estalo que sai chocha, é uma coisa horrível para o gamenho; Brás-mimoso ficou espantado, como se nunca dantes lhe houvera sucedido tal, a ele o non plus ultra estala balas!

-Uma outra, minha senhora...

-Nada... respondeu a moça; a primeira saiu chocha, não quero mais.

-Então Sr.ª D. Emília...

-Vamos... eu gosto muito de estalar balas com o senhor... bem, puxe!

-Chocha!... exclamaram de novo as seis caçoístas...

-É que eu não compreendo isto! disse Brás-mimoso, só se as senhoras não seguram na bala, como manda a arte...

-Não senhor, não senhor... nós puxamos direito; é porque o senhor não nos estima...

-Oh! minhas senhoras...

-Puxe comigo, Sr. Brás, disse a terceira moça.

-Prontamente, Sr.ª D. Camila.

-Olhe... eu pego bem junto da bala... puxe!

-Chocha!...

-Ora, vocês estão mangando com o Sr. Brás, disse a quarta moça; querem ver como estala?... vamos comigo, Sr. Brás.

Brás-mimoso, pálido e desfigurado estendeu a mão a D. Rosaura... era a quarta bala que pretendia estalar... puxou...

-Chocha! gritaram pela quarta vez as moças.

Brás-mimoso estava mesmo a ponto de chorar de vergonha; parecia-lhe que toda a sociedade tinha os olhos fitos sobre ele... e ele desmentia o conceito que tanto se gabava de merecer!

-Puxe comigo, Sr. Brás, disse D. Leocádia, puxe...

-Ei-la aí, murmurou o pobre do homem quase gemendo.

-Chocha!...

Aquele grito -chocha- soava terrivelmente aos ouvidos do presumido velho, como poderia aparecer ainda nas assembléias, ele, o gamenho por excelência, se em seus dedos haviam consecutivamente falhado cinco balas?! Brás-mimoso estava ouvindo a cada passo esse grito fatal, grito de maldição -chocha!... Foi trêmulo e fora de si, que automaticamente estendeu a última bala à sexta senhora.

D. Felícia teve piedade dele.

-Oh!... exclamou Brás-mimoso, ouvindo o estalo, que trovão argentino!...

As moças desataram-se a rir; com as risadas caiu o ramo de cravos a Felícia; Brás-mimoso imediatamente o apanhou, e, beijando-o, lho entregou; mas quase ao mesmo tempo escapou o leque da mão de Rosaura; o infeliz homem quando o levantou, abaixou-se de novo para dar a Leocádia o lenço que lhe caíra; porém no mesmo momento tombaram os leques de Adelaide e Emília, e Brás-mimoso, que os ergueu, viu que de novo caíra o pendão de cravos de Felícia, e, ao apanhá-lo, esteve a ponto de pisar nas luvas de Camila.

Finalmente, apiedadas do infeliz homem, as moças puseram termo a seu martírio, e para consolá-lo cada uma lhe deu uma flor, e lhe disse, sorrindo docemente, o competente significado.

Brás-mimoso, suando por todos os poros de seu corpo, recebeu as flores com entusiasmo e, orgulhoso, atravessou a sala com elas no peito.

-Ande lá, Sr. Brás, disse um moço, ao vê-lo passar, o senhor é o querido das moças; mas trabalha!...

-Meu amigo, respondeu seriamente Brás-mimoso, sem trabalho não se conquista!

E saiu da sala para concertar-se; porque, graças às muitas vezes que se havia curvado para apanhar os objetos caídos, tinha ficado sem dois botões de sua esticada calça.

No entanto, Honorina e Raquel, alguns momentos depois de haverem tomado chá, tinham-se levantado e passeavam juntas. Apenas deixaram suas cadeiras, um elegante jovem correu para elas:

-V. Ex.as, perguntou ele, estimariam honrar o braço de um cavalheiro?...

-Oh! foi Raquel quem respondeu, nós nos levantamos para conversar juntas e em liberdade; mas, se V. S.ª se interessa por passear conosco, nós teremos prazer em agradar-lhe...

-Minha senhora... grande seria para mim a honra; mas o interesse de meu coração deve ser sacrificado aos desejos de V. Ex.as... eu as deixo em liberdade.

-Este moço é muito civil, disse Honorina continuando a passear com sua amiga.

-Sim, Honorina, contam-se poucos homens que, como ele, deixem de ser importunos.

-Certamente; tenho notado em todos uma urbanidade tão estudada, cumprimentos tão exagerados, palavras tão escolhidas, comparações tão multiplicadas, que...

-Que parece que já as trazem de casa, não é assim?... pois até aí nada há de novo; alguns são ainda suportáveis pela variedade de suas cortesias; mas uma grande parte, Honorina, diz-nos hoje, o que nos está a dizer há cinco ou seis saraus passados; diz-me agora o mesmo, o que já te disse e o que já havia dito as todas as moças com quem tem conversado durante a noite. São cortesãos a machado... belas casacas de fidalgo, cobrindo corpos de rústicos aldeões...

-Raquel, tu falas tão alto...

-Ora, Honorina, e quem manda a essas gralhas virem aqui mostrar-se com presunção de pavões?... é que se faz preciso rirmo-nos muito deles, porque eles pensam que zombam sempre de nós; zombemos, pois, também... zombemos muito. Olha, Honorina, uma boa parte desses senhores, que tanto nos cercam e nos cortejam, são tão tolos como presumidos, e alguns há ainda tão presumidos como insolentes!

-Mas tu és terrível, Raquel!

-É porque tu não os conheces como eu, Honorina. Tu não sabes o que é um jovem presumido. Por exemplo, dize: quantos hoje te hão asseverado que és encantadora!... anda... não cores assim... estás falando comigo: quantos?...

-Todos com quem dancei, Raquel.

-Pois bem, Honorina, eles falaram por acaso a verdade; mas queres tu apostar que quaisquer desses senhores vai dizer que és feia?...

Apesar de toda a sua simplicidade, Honorina não gostou da palavra feia; ela era mulher.

-Então, queres ou não?... repetiu Raquel.

-À minha vista, Raquel?... perguntou Honorina.

-Ora... à tua vista juraria de novo que és um anjo, o mesmo que tivesse dito que és feia.

-Mas poderei eu ouvi-lo?...

-Sim... é possível.

-Pois aceito.

-Bem... oh! a propósito... ali vai uma amiga minha, que nos pode servir: vem cá, Úrsula...

-Adeus, Raquel!... mas deixa-me, eu vou à toilette...

-Não precisas: estás tão bela como entraste, ou mais ainda...

-Obrigada, meu senhor! quer saber onde eu moro?... perguntou Úrsula gracejando.

-Deixa-te de graças, Úrsula; temos negócio sério; primeiro que tudo apresento-te esta senhora, que é minha amiga do coração.

Úrsula deu um beijo em Honorina, e voltando-se para Raquel:

-E depois?... perguntou.

-Ouve: Honorina é nova em nossas assembléias; acha por isso exagerado o quadro que lhe eu tracei dos nossos jovens cavalheiros...

-Oh!... são anjos todos eles, minha senhora!

-Pois, para dar-lhe uma fraca prova do que disse, eu propus fazê-la ouvir ser chamada feia por algum, ou alguns dos que durante a noite lhe juraram que ela era encantadora.

-Pois a senhora duvida disso?...

-Não; mas sempre quisera ouvir.

-Nada é mais fácil; mostre-me alguns desses senhores...

-Aqueles dois que ali conversam...

-Oh! por minha vida! exclamou Úrsula; são meus apaixonados!... mas... separemo-nos... e por enquanto, minha senhora, sou a sua maior inimiga!... Raquel, toma cuidado no meu lenço, ouviste?

-Vai... e apressa-te.

Cinco minutos depois a espertinha D. Úrsula, que se achava no vão de uma janela com outra moça, cercadas por alguns cavalheiros, fez com seu lencinho branco um sinal a Raquel.

-Agora, vem cá, disse Raquel a Honorina.

E, dando uma volta para não serem vistas, as duas moças espremeram-se na janela contígua àquela em que estava Úrsula.

A discussão já tinha começado. Os dois moços, que Honorina havia mostrado, estavam lá.

-Mas eu digo, falava Úrsula, que ela deve estar bem orgulhosa! tem sido tão incensada... tão requestada... eu não sei mesmo por quê...

-Porque é uma novidade...

-Tem dançado por empenhos!...

-Ora, minha senhora, também isso é exageração...

-O Sr. Daniel e o Sr. Jônatas, por exemplo, morriam de paixão se não tivessem dançado com ela!...

Os dois rapazes começaram a dar satisfações, e tentaram livrar-se da moça, jogando a arma feliz, com que quase sempre se faz as pazes com uma senhora... fazendo-lhe elogios.

-Em todo o caso, D. Querubina, continuou Úrsula falando com a moça que lhe estava ao pé, nós devemos estar descontentes, e mesmo despeitadas; aquela senhora foi uma aparição terrível, que nos veio fazer mal... nós nos temos achado sós toda a noite!...

-Que injustiça! bradou Jônatas, eu não me lembro de haver jamais perseguido tanto V. Ex.ª como hoje!...

-Eles fizeram uma comparação entre nós e ela, e a declararam princesa; concedendo-nos, talvez por compaixão, o grau de suas vassalas!...

-Meu Deus!... meu Deus!... como se julga mal de um pobre homem!...

-Paciência, D. Querubina, paciência!... é preciso ceder a palma à beleza do dia... o nosso reinado passou...

-Mas quem é a beleza do dia?... perguntou Daniel.

-Quem?... o seu par da segunda contradança...

-Misericórdia!...

-Nega que os senhores a têm achado a mais bela moça do sarau?...

Daniel olhou para Jônatas.

-Nego! disse Jônatas.

-Seria uma blasfêmia!... disse Daniel.

-Oh! eu os compreendo! ao pé de mim fala-se desse modo; mas daqui a pouco os senhores se vingam, desfazendo-se em elogiar a sua figura...

-Figura sem expressão, minha senhora, disse Daniel torcendo o nariz.

-A sua beleza...

-Que beleza!... é uma flor desbotada... sem aroma... disse Jônatas.

-O seu espírito...

-Espírito?... espírito de mudez: é uma estátua.

-Uma estátua... sim, meus senhores; estátua de Vênus, é o que querem dizer...

-Pois bem, tornou Jônatas, uma estátua de Vênus feita por mãos de escultor calouro.

-E o Sr. Daniel, que é tão apaixonado da cor pálida...

-Sim... aprecio, amo muito a cor pálida... como, por exemplo, a de V. Ex.ª; porém a dela...

-É transparente... diáfana... romântica...

-Repulsiva... repulsiva, disse Daniel.

-Repulsiva?...

-É uma defunta viva, minha senhora! acrescentou Jônatas.

As duas moças começaram a rir-se; e os dois cavalheiros continuariam a dizer ainda melhores coisas de Honorina, se a orquestra não os chamasse para a quinta quadrilha.

Portanto uns e outros se separaram, e um momento depois Úrsula estava junto de Raquel e Honorina.

-Então?... perguntou a Honorina.

-Agradeço-lhe muito, minha senhora: juro-lhe que foram os minutos mais agradáveis que tenho passado esta noite.

-É verdade, Úrsula; a nossa Honorina ouviu tudo com o ar mais divertido do mundo.

-E hesitará em divertir-se também com eles?...

-Oh! não!... não, minha senhora!... muito simples deve ser a mulher que não souber fazer de um homem um bobo com quem se ria!

-Bem!... bem!...

-Honorina, disse Raquel, eis um dos teus apaixonados.

-O Sr. Jônatas...

-Que te chamou defunta viva.

-Vem buscar-me para dançar com ele, tornou Raquel.

Jônatas chegou e ofereceu a mão a Raquel.

-Senhor Jônatas, disse Úrsula, apresento-lhe a mais bela aquisição de nossas assembléias, a minha nova e querida amiga, a Sr.ª D. Honorina: não concorda que é uma jovem encantadora?...

-Apareceu-nos, senhora, como um anjo caído do céu!...

Honorina levou o lenço à boca... mas foi impossível suster-se: soltou uma risada.

Fim do sarau

No fim da quinta quadrilha Lucrécia sentou-se junto de Honorina, e esperou ansiosa pelo momento de sua vingançazinha de moça. Quando a orquestra deu o sinal desejado, ela lhe perguntou:

-Com quem dança esta quadrilha, minha senhora?...

-Juro-lhe que me não lembro; eu não conheço aqui ninguém; pediram-me contradanças... disse que sim; e espero que me venham buscar.

-Oh! quisesse o céu que ficasse sentada, Honorina, eu não danço agora, e passearíamos sós.

-Raquel, eu também o desejo; mas tenho medo de o desejar em vão.

-Preferes tu passear comigo a dançar a sexta quadrilha?...

-Sim... mas...

-Pois vem cá, vamos para a toilette, e desceremos para passear, quando a quadrilha tiver começado.

-E o cavalheiro com quem me comprometi dançar?...

-Virá buscar-te, e, não te encontrando, procurará outra senhora.

-Porém, Raquel, deve-se fazer tal?...

-Ora... ora... ora... quando eu digo que tu és simples demais, Honorina!... escuta: todas nós, quando temos pouca vontade de dançar, ou não queremos fazer com algum cavalheiro, com quem a civilidade nos obrigou a comprometer-nos, apelamos sempre para a toilette, não pode haver melhor desculpa! estive concertando o cabelo... fui pregar um colchete que se rebentou... etc. etc. etc., são coisas que se dizem e que devem contentar.

-Porém, Raquel, deve-se fazer tal?...

-Deve-se, Honorina; é mesmo uma compensação; porque muitas vezes os nossos cavalheiros nos deixam ficar sentadas, entretidos e colados na mesa do écarté; ora, é muito mais natural e muito menos repreensível, que uma moça se esqueça de um cavalheiro, presa defronte do toucador, do que um cavalheiro se esqueça de uma senhora por um baralho de cartas; por conseqüência, anda... vamos... vem esquecer-te...

-Eu não sei...

-Mas para que há de deixar de dançar?... perguntou Lucrécia afetuosamente.

-Para passear comigo, minha senhora, respondeu Raquel, levando Honorina pela mão, e quase à força.

A viúva ficou exasperada com tão imprevisto contratempo; com frieza acompanhou Otávio, que a veio receber, e dançou sem prazer algum.

No entanto, Raquel apenas sentiu que a quadrilha tinha começado, tomou o braço de Honorina e disse sorrindo-se:

-Agora que já te esqueceste, e que já concertaste o teu cabelo, desçamos para passear.

E as duas moças desceram e, dirigindo-se ao terrado, foram atravessando a sala do jogo.

-Quanta gente! disse Honorina; todo esse mundo, Raquel, diverte-se jogando?...

-Sem dúvida... o que tem isso?...

-É que deve ser um jogo bem interessante.

-Sim... sim... é o écarté, jogo um bocadinho menos complicado do que o diabrete.

-Ora, Raquel!

-Como queres que te diga, Honorina?

-Então aquela gente toda...

-Empenha-se por ganhar ou perder dinheiro da maneira a mais desenxabida do mundo.

Nesse momento, e quase ao mesmo tempo, Honorina e Raquel entravam no terrado, e Tomásia saía dele.

Tomásia tinha sofrido uma contrariedade no meio de sua glória dessa noite: o cavalheiro, que lhe havia pedido a sexta quadrilha, a tinha deixado ficar sentada, e Tomásia, quando não dançava, ou brigava com Venâncio, ou arquejava.

Há um costume velho nos saraus: ali se contam certos moços que querem dançar sempre e a todo o custo; e, se encontram todas as moças engajadas, atiram-se para dois lados das sociedades, os quais eles consideram talvez como dois esquadrões de reserva: são as crianças e as senhoras idosas; aí vão eles encher o número das quadrilhas que lhes faltam; porém, se no correr do sarau aparece alguma jovem que os queira ouvir, os meus senhores não têm dúvida nenhuma de deixar esperando inutilmente tanto a velha como a criança, que a vão buscar para a quadrilha.

A Tomásia tinha sucedido, pouco mais ou menos, isso mesmo: seu prometido cavalheiro tinha deparado com uma jovem piedosa, e para logo esqueceu-se completamente de Tomásia, apesar mesmo de ser dona da casa.

Era por isso que Tomásia se achava em horas de tempestade; ardendo em desejos de encontrar em quem despejar seus furores, sua boa fortuna lhe mostrou o pobre Venâncio, que se dirigia para o interior da casa.

-Aonde vais, Venâncio?...

-Tomásia, vou ver como vai isto cá por dentro...

-E que tem o senhor com o que vai pelo interior da casa?... não sabe que isso pertence ao cuidado das senhoras?...

-Está bem, Tomásia, não te aflijas... estás tão colérica...

-Colérica?... e como não estar, se sinto a todos os momentos que me acho casada com um tolo, um água-morna, que para nada serve...

-Oh! senhora, nem mesmo agora me deixa descansar?!

-Vamos... vá para a sala... ou mesmo será melhor que fique cá dentro, para me não envergonhar.

-Então, Tomásia, disse pacificamente Venâncio, queres que vá ou que fique?...

-Quero que me não exasperes!... bradou a mulher; anda... dá-me o braço, e conduze-me à sala.

O pobre homem chegou-se para ela, e, torcendo-se com a dor dos beliscões que recebia, a foi acompanhando com os lábios enfeitados pelo sorriso mais mal fingido do mundo.

No entanto Honorina e Raquel se haviam assentado juntas em um dos bancos do terrado e conversavam alegremente, quando entrou um jovem, que poderia ter pouco mais ou menos vinte e dois anos, e que se foi sentar defronte delas triste e pensativo.

As duas moças, com uma rápida vista de olhos, fizeram um completo exame do recém-chegado: era moço, magro e de estatura ordinária; tinha belos cabelos loiros, que lhe caíam em anéis em derredor da cabeça; estava pálido e triste, o que não deixava de dar alguma graça a seu rosto simpático, e talvez bonito para rosto de homem; vinha vestido todo de preto e de gravata branca, e prendendo à fina camisa um rico alfinete de esmeralda; calçava, enfim, botins envernizados. A figura graciosa e modesta desse jovem tocou notavelmente as duas moças; como ele se conservasse silencioso e com os olhos fitos no chão, elas começaram a falar em voz baixa.

-Quem é?... perguntou Honorina.

-Eu não sei, respondeu Raquel, não me lembro de ter visto este moço.

-Está vestido sem exageração, e com elegância...

-Traz ao peito um alfinete de esmeralda... a cor verde quer dizer esperança; então é porque ele tem alguma esperança no coração.

-Olha... ele não é feio.

-E está melancólico e pensativo... em que pensará ele?...

-Meu Deus... eu não posso adivinhá-lo.

-Pois pergunta-lhe.

-Raquel! tu julgas-me doida?...

-Não... mas tinha vontade de saber em que ele pensa.

-É que tu és muito curiosa, Raquel.

-Mas não, Honorina, é que é muito mau costume vir um moço sentar-se melancólico e cabisbaixo defronte de duas moças... e pensando... pensando em quê?...

-Olha... ele suspirou; Raquel, saiamos daqui.

-Por quê?... pelo contrário, demoremo-nos.

-Olha... suspirou outra vez...

-Coitado! Honorina! pergunta-lhe se está doente.

-Eu!... Deus me livre.

-Pois então pergunto-lhe eu.

-Raquel!...

-O senhor está incomodado?... perguntou a moça em voz alta.

O mancebo pareceu estremecer; ouvindo a voz de Raquel, levantou a cabeça e fitou nas duas moças dois olhos cheios de fogo.

-Perdão, minhas senhoras, disse ele com voz comovida, perdão, se tenho cometido alguma falta!... eu não sei de mim mesmo!...

-Está doente?... perguntou outra vez Raquel.

-Cala-te, extravagante! disse Honorina ao ouvido da amiga.

-Oh!... muito doente... respondeu o moço animando-se; muito doente na verdade!... na minha cabeça está um fogo que me devora; no meu coração se cria... se agita um sentimento que eu nunca experimentei até há bem poucos dias, mas que hoje é já suficientemente forte para fazer-me desgraçado!...

-Ora aí está o que tu querias ouvir; já sabes em que ele pensava?... murmurou Honorina ao ouvido de Raquel.

-Espera, tola, deixa ouvir a relação da moléstia do moço, disse Raquel; e, voltando-se para o mancebo, continuou: e, portanto, veio ao sarau para distrair-se? Tem passado melhor?...

-Cheguei agora mesmo, minha senhora.

-Ah! pensei que tinha estado cá desde o começo...

-Eu não sabia deste sarau... não fui convidado... não conheço aqui ninguém...

-Então?...

-Passei... ouvi tocar... entrei; ninguém me perguntou quem eu era, cheguei até aqui; a primeira pessoa que me falou, foi V. Ex.ª

-Mas... quase uma imprudência; podiam tê-lo tratado mal.

-Pois se eu digo que estou louco!... que padeço, e não sei o que tenho... oh!... não! isso não, eu sei bem o que padeço.

-Portanto...

-Eu amo.

As moças não disseram palavra.

-É uma nova imprudência que pratico, estar ocupando a atenção das senhoras com a relação dos meus sofrimentos; mas eu preciso falar para consolar-me!... Eu amo... muito! como ninguém amou ainda! amo uma virgem bela, inocente e pudibunda; e ela não sabe o que eu sofro, ignora a paixão que por ela nutro, ignora que vou morrendo pouco a pouco... em silêncio... com o meu segredo escondido no fundo de minha alma. Devo eu fazê-la corar diante de mim, perguntando-lhe se também me ama?... ou se me paga com ingratidão?...

-Como terá sempre de chegar a esse extremo... disse Raquel.

-Oh!... não!... balbuciou Honorina.

-Eu penso como a senhora, continuou o mancebo: fazê-la corar à minha vista, não; seria demais para ela. Eu tenho estudado o meio. V. Ex.as me têm tratado tão agradavelmente, que não hesito em confessar-lhes tudo.

-Vamos... Raquel, vamos para dentro.

-Não... deixa o senhor acabar.

-Minhas senhoras, o meu projeto é filho de um sonho: é, pois, um sonho que eu quero realizar. Eu sonhei que me havia encontrado com a jovem, que me faz enlouquecer de amor; não querendo implorar ali a sua gratidão, mas desejando merecê-la, fingi uma paixão... contei uma história, e disse que, para saber se era ou não amado, em uma manhã a mulher que eu amava acharia sobre a janela de seu gabinete uma sempre-viva... se ela fosse grata... guardaria a flor; se me desprezasse, deixá-la-ia cair para o lado de fora.

-É um bonito sonho, disse Raquel.

-Que continua ainda, minha senhora. No dia seguinte, a jovem senhora, que eu amava e a quem havia contado a minha história, quando acordou achou em cima da janela de seu gabinete uma sempre-viva!... lembrou-se de mim... lembrou-se do homem que a adorava...

-E o que fez?... perguntou Raquel.

-Despertei nesse momento, minha senhora! ficou, pois, o meu sonho incompleto; mas eu quero aproveitar-me dele... realizá-lo... para ver no que acaba...

-Raquel... Raquel... vê como chega tanta gente... tu és louca, Raquel!...

-Sim... disse o moço; é a multidão que chega... a multidão que me pesa. Devo sair, minhas senhoras; agradeço a obsequiosa atenção com que fui ouvido: o sofrimento a merecia!...

O moço, como para não ser conhecido, escondeu parte do rosto com o lenço e desapareceu no meio da multidão; Honorina e Raquel não o viram mais durante o resto do sarau.

Aquele mancebo, cujo nome as duas moças ignoravam, mas que tinha uma figura nobre e simpática, e uma voz tão doce como comovida, deixou no espírito de ambas uma sensação serena e agradável.

O sarau terminou às duas horas da manhã.

O bateleiro

Pouco antes das três horas da madrugada Hugo de Mendonça e sua bela filha desembarcavam de um carro no cais da Rua Fresca. A velha Ema não tinha podido consentir que a sua Honorina dormisse aquela só noite na corte; e como havia sua condescendência chegado ao ponto de revelar, embora a custo, que a menina se expusesse aos horríveis perigos de um sarau, força foi fazer-lhe a vontade também, voltando para junto dela logo depois de terminado aquele.

Apenas chegados ao cais, um moço alto e asselvajado se chegou a Hugo. Apesar de ser noite, conhecia-se ao primeiro olhar que era homem de mar: calçava grossos sapatos, não trazia meias, suas calças eram de ganga azul, e já ruças de tão usadas que estavam, e, enfim, vestia um quimão de baeta preta. Tendo seu chapéu em uma mão e o cigarro na outra, ele falou a Hugo de Mendonça com essa voz áspera e grossa tão comum nos patrões de nossos barcos.

-Meu amo; meu pai, que tinha ficado de esperar por V. S.ª, lá se foi meter na cama com o maldito achaque de erisipela, que o persegue há vinte anos, de sorte que estou eu aqui, em lugar dele, às ordens de meu amo.

-Ser levado a Niterói pelo senhor ou por ele, disse Hugo, contanto que vamos lá ter com prontidão e salvamento é para mim indiferente.

-Lá isso não tem dúvida, meu amo; eu conheço a baía do Rio de Janeiro como as palmas de minhas mãos.

-Pois então, ao largo!...

O batel soltou-se e navegou para a jovem capital da província do Rio de Janeiro.

Honorina tinha encarado o patrão e examinava seus rudes trajos, sua cor vermelha e tostada e dois olhos vivos, e na verdade belos, cujas vistas, sem expressão sim, mas certamente brilhante, eram por desleixo do marinheiro meias nubladas pela enorme massa de longos e mal-educados cabelos pretos, que lhe caíam toscamente sobre os olhos.

O exame da moça pareceu incomodar ao rude patrão, que começou por coçar com força as bastas e crescidas barbas, que lhe escondiam três partes do rosto (único ponto de contato, ou antes de semelhança que, no opinião de Honorina, se dava entre ele e alguns dos jovens da moda, com quem acabava de estar no sarau); mas como visse que nem assim a jovem arrancava os olhos de sobre ele:

-Juro, disse, que estou incomodando a senhora com o fumo do cigarro...

-Não, não, respondeu a moça, pode fumar: é verdade que me dou mal com o cheiro do fumo; mas agora o vento, que sopra, o leva para longe de nós.

-Como estava olhando para mim há muito tempo, eu pensei que era por isso... e, pelo sim pelo não, cigarro na água.

E atirou com o cigarro no mar. Os pretos que remavam começaram a conversar em seu selvagem idioma, e riam-se maliciosamente.

-Ó lá... bradou o patrão com voz estrepitosa, seja como for, quem manda aqui agora, sou eu... leva de risadas!

Sua voz áspera e rude tinha tomado um tom bravio; seu rosto exprimia algum sentimento mais forte do que o que nasce de uma contrariedade: em seus traços quase que transpirava a cólera.

Honorina teve receio desse homem, e arrependeu-se de haver olhado para ele.

-Perdoe-me, disse ela com voz trêmula, perdoe-me! quando eu olhava para o senhor, não o queria ofender!...

E olhou, como que implorando proteção para seu pai, que havia insensivelmente adormecido. Ela teve o pensamento de despertá-lo; porém sua mão, que para isso ia tocar nele, caiu-lhe de novo no colo, ao escutar outra vez a voz do marinheiro.

O receio... talvez o susto da bela passageira não tinha escapado aos olhos vivos e ardentes do jovem marítimo; seu rosto grosseiro se ameigou um pouco, como o leão que se curva apiedado diante da fraqueza e da inocência; ele abaixou, e fez mesmo por adoçar um tanto sua voz agreste e disse:

-Fui eu que ofendi a senhora com esta minha fala bruta; assustei-a; a senhora olhava para meu rosto e viu a cara de um bicho... depois ouviu minha voz, como o uivo de uma fera, e teve medo!... perdoe-me!... perdoe-me!... tirando disto, eu não sou mau.

-Senhor... eu não estou ofendida...

-Descanse... olhe seu pai como dorme; porque me parece que este homem é pai da senhora... durma também...

A moça obedeceu maquinalmente ao conselho do marinheiro; encostou o lindo braço todo nu na borda do batel, e, pousando sobre ele a cabeça, fechou os olhos.

Mas Honorina não queria nem podia dormir: primeiramente as últimas palavras do patrão não tinham totalmente dissipado todos os seus receios; quem sabe por que desejava ele que ela dormisse?... o pensamento de que aquele homem poderia ser um malfeitor... um ladrão talvez, apareceu em seu espírito; mas, temendo desafiar outra vez sua cólera, se patenteasse a desconfiança que sentia, acordando seu pai, ela fingiu adormecer; porém o jovem marinheiro continuava a mostrar-se sossegado e já respeitoso; e quando falava aos remeiros, sua voz parecia abrandar-se de modo que semelhava menos uma ordem, que uma súplica. E, pois, as idéias desfavoráveis, que sobre ele tinham aparecido no ânimo de Honorina, começaram a esvair-se pouco a pouco.

Depois, pode uma jovem senhora voltar de um agradável sarau sem pagar o tributo das lembranças?...

Perguntai a toda essa bela turba de moças e mancebos o que se passa durante o resto da noite que se queimou na pira dos prazeres de um sarau, e a uma voz vos responderão: «ah! recorda-se, se se vela!... sonha-se... quando se consegue dormir».

Recorda-se, sim, todos aqueles eloqüentes obséquios, aquelas palavras de sentido obscuro para todos e bem claro para só ela que as ouviu, e que as recorda!... recorda-se, sim, o mancebo daquela interessante senhora... toda graças... toda espírito, que lhe arrastava o coração e os olhos, quando valsava; que lhe prendia a alma inteira nos ouvidos quando lhe falava... recorda-se com saudade... mais do que com saudade de um simples, pode ser... de um doce talvez... murmurado com os lábios quase cerrados, e que ainda assim soa tão ternamente no coração; um doce talvez!... palavra mágica! primeiro elo dos amantes! fonte das primeiras esperanças! talvez... expressão sublime... tão sublime no princípio de um amor nascente, como só o é no fim dele o eu vos amo! da mulher que se adora; recorda-se mesmo com interesse de um duvidoso, quem sabe?... de um triste, não sei; apesar de toda a sua bárbara frialdade!...

E sonha-se também, oh! sonha-se muito! e ainda com o mesmo pobre mancebo, que a seguiu inutilmente toda a noite... sonha-se com o seu olhar de fogo que, embebido nos olhos dela, pareceu querer penetrar até sua alma para lá plantar o sentimento que dardejava!... sonha-se com o sorriso angélico da encantadora moça, que lhe deu uma inocente flor... sonha-se com aquele suspiro que se apanhou descuidado... com aquele pé, em que se tocou por acaso... com aquele colo de alabastro, onde dois tesouros se deixavam adivinhar tão belos!...

-Leva remos!... disse o jovem patrão; porque chegavam à praia.

O batel arrastou seu bojo sobre a areia, e, quando a prancha caiu, o marinheiro despertou a Hugo de Mendonça e a Honorina com a menor rudeza que pôde.

-Chegamos, disse ele.

-Bem... bem... obrigado... saltemos, Honorina.

Honorina ergueu-se e procurava as luvas, que havia posto sobre o banco.

-Eis aqui uma, senhora, o vento a ia lançando ao mar, enquanto a senhora dormia... foi por isso que parou em minhas mãos.

-Obrigada, respondeu a moça, a outra tenho cá eu.

Mas, no momento de calçá-las, Honorina olhou com surpresa para o jovem marinheiro, que ao pé dela se mostrava triste e submisso.

Hugo e Honorina desembarcaram; e o patrão, que recebeu o seu dinheiro, os viu partir.

Que a luva estava nas mãos do marinheiro, Honorina o sabia quando parecia procurá-la no banco; porque ela, fingindo dormir, velara durante toda a viagem e vira tudo quanto se tinha passado no batel.

Primeiro, ela notou que o batel um instante se desgovernara... ou talvez seguia rumo diverso do que devera seguir, e o jovem patrão, que tão sabido se jactara de pilotagem, chamou a um dos remeiros e por algum tempo lhe entregou o leme.

Depois ela sentiu que, quando o batel se achou defronte da barra, o vento refrescou, e foi então que, uma de suas luvas, levantada por ele, teria com efeito caído no mar, se o jovem marinheiro a não tivesse tomado.

Enfim, ela reparou também que ele em lugar de tornar a pôr a luva onde estava, beijou-a muitas vezes... deu-lhe mil voltas, e por último guardou-a junto do coração.

Receosa ainda do que vira, supondo aquele homem tão rude... tão mal-educado, ousado demais por interessar-se tanto por um simples objeto, que lhe pertencia, e não querendo por isso deixá-lo em suas mãos, Honorina fingiu procurar a luva, que lhe faltava no banco, onde a tinha posto.

Quando a recebeu das mãos do marinheiro... ela a achou quente ainda do calor daquele peito grosseiro; apesar disso, querendo calçá-la, fez um movimento de surpresa, porque dentro da luva estava alguma coisa demais... guardou silêncio então, por temer que seu pai pudesse ter uma disputa com um homem tão selvagem; e, fingindo nada haver percebido, partiu com as mãos nuas.

Depois ela poderia falar, e dizer a seu pai quanto se passara; mas Honorina pensou que iria afligir o seu bom velho; além de que não deixava de sentir alguma curiosidade de saber o que continha a luva.

Com tais pensamentos chegou a casa. Ema os esperava cuidadosa; recebeu nos braços a querida neta, a quem achou mais pálida e por demais fatigada; graças talvez a isso, foi-lhe para logo permitido retirar-se para seu quarto em companhia da boa Lúcia.

No entanto, logo que Hugo de Mendonça e sua filha desapareceram aos olhos do jovem marinheiro, este fez certo sinal a um dos remeiros que, imediatamente, apertando o lábio inferior, soltou três assobios.

Alguns minutos depois um velho, cujos vestidos em tudo se pareciam com os do moço patrão, chegou-se para este.

-Então, meu cavalheiro, disse o velho.

-Aqui está o seu dinheiro, patrão, respondeu o moço, três mil-réis, que deveria receber dos seus passageiros, e o dobro dessa quantia que lhe prometi.

-Obrigado, senhor... senhor... ah! é verdade que ainda me não disse a sua graça.

-Nem creio que seja preciso dizê-la: não entrou isso no nosso ajuste.

-Também foi só por perguntar... eu cá não sou curioso; mas conte-me, como se houve... o certo é que o mar esteve de rosas...

-Todavia desgovernei uma vez... vi-me doido entre os navios... e a maldita voz de bronze, que me foi preciso fingir!... enfim, está passado; agora pertence-lhe o resto; o senhor jurou-me não dizer palavra.

-Pode ficar perto, que eu cá para isso sou um poço.

-Otimamente. E pretende ir dormir?...

-Quando está para amanhecer, senhor?...

-Tanto melhor; dentro de uma hora parto para a corte; quer levar-me?

-Sem dúvida.

-Bem; eu volto imediatamente.

Com efeito, uma hora depois um interessante mancebo, cujos vestidos sem dúvida muito decentes estavam, todavia, em censurável desalinho, saltou dentro do batel, que regressou para a corte: uma metamorfose completa se havia, pois, operado no marinheiro de cabelos pretos.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

-Mãe Lúcia! mãe Lúcia!... dizia Honorina à sua ama, tendo um pequeno papel diante dos olhos; eis aqui!... é, portanto, sempre ele!...

-Quem, menina?...

-O homem que trabalha por enlouquecer-me!... que põe uma carta debaixo da janela do meu quarto... que se veste de cabeleireiro para cortar um anel de meus cabelos, que se veste de marinheiro para viajar comigo, e deitar um escrito dentro de minha luva!...

-Pois ele escreveu...

-Sempre as mesmas... as minhas próprias palavras!... ouve: «Honorina! eu te amo! eu te amo com esse amor de poeta, com esse amor de fogo, que ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja o mesmo amor, é por força bem belo!...»

-E, portanto, é que ele lhe ama muito!

-Oh!... mas quem se esconde é porque teme causar horror!

-Senhora!

-Está bem, mãe Lúcia, eu quero dormir... e amanhã que me deixem na cama até bem tarde.

-Pois será assim, menina. Boa-noite!

-Boa-noite!...

Mas como dormir?... como conciliar o sono, quando se tem tanto em que pensar, tantas idéias a ligar, e, sobretudo, um mistério a decifrar?... porém, Honorina lutou em vão com esse mistério; o homem que a amava, nunca lhe tinha aparecido tal qual era; havia-se mostrado sempre ridículo ou estúpido... com uma cabeleira ruiva, ou com uma de cabelos pretos... longos e tão grosseiros, que pareciam nunca haver conhecido um pente, e ser bem capazes de rebentar o mais forte que primeiro ousasse querer domá-los!... era por força feio... detestável... horrível o homem que se escondia assim.

E do feio... detestável... horrível o pensamento de Honorina fugiu, procurando um objeto bonito... e amável, em quem por alguns momentos ao menos pousasse; e pousou na imagem do moço loiro que se havia sentado no terrado, triste e pensativo defronte dela e de Raquel.

Oh! aquele mancebo, apesar da extravagância e leviandade que mostrou, falando tão imprudentemente de seus amores a duas jovens desconhecidas, deveria ter deixado no ânimo de Honorina uma impressão bem agradável e talvez bem perigosa para que ela, com o pouco tempo que o viu, se lembre tão bem dele, que sua imagem a ocupe por momentos.

Com efeito, Honorina tem diante de si a graciosa figura do apaixonado mancebo: ela o vê ora melancólico e pensativo, suspirando silencioso... depois com sua cabeça levantada... seus cabelos loiros, caídos em belos cachos sobre as orelhas... seus brilhantes olhos dardejando vistas de fogo... ela escuta sua voz doce e comovida... enleva-se, vendo o triste sorriso de seus lábios... enfim, ela o vê partir... escapar-se por entre a multidão, que entra no terrado, com o lenço sobre o rosto, como para não ser conhecido...

Mas a imagem, que desapareceu, volta de novo para repetir-se a mesma cena... duas... três... mil vezes até ao romper da aurora.

É que em seus sonhos de inocência e de amor, Honorina tinha desde muito tempo muitas vezes sonhado uma bela imagem de fantástico mancebo, que aquele moço venturoso viera realizar!...

A natureza havia despertado com a aurora, e o ruído que traz o dia arrancou Honorina de suas meditações.

A moça lembrou-se pela primeira vez de si própria, e sentiu então que sua cabeça ardia... que ela não estava boa... que ela estava talvez próxima a padecer também a mesma moléstia do moço loiro.

Semelhante idéia fez estremecer Honorina, e, pois, apertando a cabeça com as mãos, exclamou:

-Não! não! meu Deus!... isso não!

E cerrou as pálpebras para nada ver; e cobriu a cabeça para dormir.

Mas, apesar dela, a imagem do moço loiro vinha outra vez para diante de seu espírito, como uma doce harmonia, que se tem ouvido, que se deseja esquecer, e que se está repetindo no pensamento sem querer!...

Honorina ergueu-se espantada do que se passava nela, e, atirando-se fora do leito, exclamou de novo:

-Não!... não!... isso não, meu Deus!...

Lúcia, cuja câmara era imediata à de Honorina, e que ouviu a exclamação dela, temendo alguma novidade, veio ver a sua querida filha; mas ficou estática e silenciosa, observando-a da porta. Honorina desassossegada e aflita correu para a janela... abriu-a, levantou a vidraça para deixar entrar as auras da manhã, e... recuou surpreendida...

Na janela estava deposta uma sempre-viva, e por debaixo desta um papel com algumas linhas escritas.

Uma sempre-viva!... Honorina lembrou-se do sonho do moço loiro. Por conseqüência, a jovem adorada era ela!...

Depois de alguns momentos de hesitação, ela tirou o papel que estava por baixo da flor e leu: «Honorina!... se ela me for grata, guardará a flor; mas se me desprezar, deixá-la-á cair para o lado de fora... foi o meu sonho; ah! eu te amo! eu te amo com esse amor de poeta, com esse amor de fogo que ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja sempre o mesmo amor, é por força bem belo!...»

-E, portanto, murmurou Honorina tremendo, mas levantando insensivelmente o papel até junto do coração, e, portanto, o moço loiro era ele!...

Depois, como cedendo a um impulso repentino, a moça lançou-se para a janela... ia atirar a flor para fora... mas, antes que sua mão tocasse nela, o zéfiro da manhã, que com doçura soprava, fez a sempre-viva rolar brandamente pela janela até tombar dentro do quarto.

Como levada pela força de um milagre, Honorina olhou sorrindo-se para a flor e disse:

-Oh!... ainda bem que não fui eu!... foi o teu sopro, meu Deus!...

E, sentando-se junto do toucador com a face pousada na mão, esteve em silêncio muito tempo com os olhos fitos na flor... depois soltou um suspiro e adormeceu.

Quando Lúcia viu que ela dormia, cerrou mansamente a porta e retirou-se, dizendo em voz baixa:

-Ela o ama.

Resultados do sarau

Portanto o sarau de Tomásia não tinha sido infecundo.

Nós vimos como uma moça, que para ele fora com o coração virgem de amor, voltara possuída de um sentimento novo para ela, e que talvez, a pesar seu, seja o próprio que não conhecia. E nós vamos ver, que outros corações há, nos quais essa noite deixou vestígios mais ou menos profundos e impressões duradouras.

Uma mulher, na primavera da sua vida, bela para conquistar os olhos, pálida e graciosa para inflamar o espírito dos que a vêem, havia aparecido nesse sarau e involuntariamente arrancado a palma da vitória aos mais encantadores e vaidosos semblantes: essa mulher, pois, devia ter dado origem a dois sentimentos opostos...

Era o que tinha realmente acontecido.

Simples, modesta e formosa, Honorina, deixando o sarau, arrastara após si, sem o querer, sem pensar em tal, vinte corações de mancebos; cercada de adorações, vitoriosa sempre, a mais requestada entre todas, seguiu-a, em compensação, a inveja de algumas, o ciúme de outras, e o desagrado da maior parte das moças.

Mas ou porque o amor, quando não correspondido, é (para alguns) como uma exalação etérea, que se esvai de súbito; ou porque o coração dos nossos mancebos seja para esse sentimento, como o espelho, que reflete a imagem de todos os semblantes, esquece desde o instante em que lhe fogem; ou porque, enfim, muitos sabem amar em triste silêncio, e fazer do próprio coração um túmulo para seu amor não aceito; alguns dos adoradores de Honorina não ousaram apresentar-se mais.

Muitos padecentes infelizes contentaram-se, porque mais não podiam, em ir todos os dias passar duas vezes junto ao gradil da bela casinha de Niterói, derretendo-se-lhe os olhos sobre o banco de relva, no qual tinham por acaso visto Honorina descansando um momento.

Outros, aproveitando-se da amizade que entretinham com o pai da moça, lá foram queimar suas almas no fogo dos olhos dela, e... puseram em tributo a paciência de Hugo, e da velha Ema, a quem pagavam horas inteiras de maçada com o oferecimento de pitadas de ótimo rapé.

E porque seja destino de toda a moça bonita contar sempre entre seus sérios apaixonados algum tolo ou impertinente, Honorina tinha tido a desgraça de agradar também a Brás-mimoso e a Manduca.

Mas essa moça, a quem já conhecemos tão ardente, tão entusiasta, e (digamos assim) tão nascida para amar, conservava-se no meio de tanto fogo, insensível e fria.

Nem o mais leve favônio de esperança tinha conseguido um só de seus apaixonados.

Mas o objeto do amor de tantos homens devia ser o despeito de dobrado número de senhoras.

Com efeito, elas haviam sido feridas em dois pontos por demais sensíveis. Aquele ardor, com que no sarau todos os cavalheiros procuravam dançar com Honorina; a deserção cruel, que cada bela senhora notou no círculo de seus adoradores; a multidão que cercou, acompanhou e incensou durante toda a noite a jovem romântica; aqueles cem olhos de elegantes mancebos, que estavam sempre embebidos no rosto dela; mil episódios, mil pequeninos incidentes, nenhum dos quais escapou, nem podia escapar, tudo pareceu dizer, tudo disse a Honorina -tu és a mais bela!

E no meio de cinqüenta moças dizer a uma -tu és a mais bela... tu és a rainha! é ferir, é torturar o amor-próprio de todas as outras; e o amor-próprio é o noli me tangere da mulher; é levantar aquela a um ponto, aonde não podem chegar as outras; mas para onde elas mandam por si o despeito.

E sobre esse golpe, que foi comum a todas, caiu um outro que feriu principalmente a uma.

Otávio, não podendo resistir à força dos encantos de Honorina, amou-a mais do que todos os seus competidores; amou-a ardente e loucamente; amou-a como nunca dantes tinha amado.

Lucrécia, a antiga dama dos pensamentos de Otávio, Lucrécia, hábil e perspicaz, compreendeu desde logo que seu amante faltava aos juramentos tantas vezes repetidos, que a traía enfim!

E Honorina era a causa, embora involuntária, desta traição!

Exasperada porque via acima de sua vaidade a cabeça angélica de uma moça encantadora; exasperada porque amava sempre e muito a Otávio, Lucrécia queria vingar-se; mas em todos os projetos de vingança, o meio... e a vítima era somente Honorina.

Desde o instante da cruel convicção de sua derrota, Lucrécia determinou colocar-se entre o perjuro e a rival; sabendo que Otávio, esquecido do passado e só cuidoso do seu recente afeto, se aproveitara do antigo conhecimento, que o podia aproximar de Hugo de Mendonça, o procurara e cercara de obséquios, e finalmente chegara até junto de Honorina, não hesitou: fez alugar uma casa em Niterói, e não longe da da sua rival correu a oferecer-lhe a sua amizade, eternizou nos lábios o seu belo sorrir, que tão bem condizia com a doçura de seus lindos olhos azuis; e, recebida com prazer pela incauta jovem, ela ficou lá pronta para opor-se como uma barreira ao homem que a tinha ofendido, e, a ser preciso, para sacrificar a beleza e inocência de Honorina nos altares da sua vaidade.

Otávio e Lucrécia personificavam os sentimentos que por Honorina nutriam os homens e senhoras.

Uma única diferença havia.

Otávio era o mais apaixonado e ardente dos pretendentes que Honorina tinha, contra a sua vontade, trazido do sarau.

Lucrécia a menos nobre de todas as senhoras, isto é, nenhuma das rivais de Honorina desceria até ao ponto a que é capaz de descer a viúva.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Duas semanas são passadas depois do sarau de Tomásia.

São nove horas da noite. Brás-mimoso e Félix acham-se em casa de Venâncio; a conversação tinha naturalmente caído sobre Honorina.

-Nós já a vimos com mais vagar, disse Tomásia; há três dias que veio com seu pai cumprimentar-nos... ao menos política sabem eles...

-Política sabem eles, repetiu Venâncio.

-Quanto ao mais, outra vez digo, não é lá essas coisas, disse Rosa.

-Deixa-te disso, mana, acudiu Manduca... foi a moça mais bonita que cá veio...

-Ora... vocês todos são assim; se amanhã chegar alguma outra mocinha... adeus, Sr.ª D. Honorina!...

-Não eu, que me acho apaixonado até aos olhos! exclamou Brás-mimoso.

-Também o Sr. Brás?... muito bem: falta um para duas dúzias; primo Félix talvez queira inteirar a conta.

-Não, prima Rosa, se eu quisesse amá-la não precisava de conselhos... mas confesso que, achando D. Honorina bonita, não sinto, contudo, grande abalo por ela.

-Quem sabe, meu primo, talvez que você quando levantasse os olhos para olhá-la não a visse por estar alta demais...

-Pode ser, prima; mas falando assim, você faz de antemão muito baixa idéia de outra mulher.

-Como?...

-Porque deve acreditar baixa demais a mulher a quem eu ousar oferecer o meu amor.

O rosto de Rosa se tornou da cor do seu nome; pois que acabava de ser cruelmente ferida com suas próprias armas.

-Lá pela conta dos vinte e quatro não haja arrufos, disse Brás-mimoso, eu posso apresentar um nome que talvez não esteja na relação.

-Vamos a ele, disse Tomásia.

-O Sr. Otávio.

-Otávio! exclamou dando uma risada Tomásia; Sr. Brás, asseguro-lhe que está muito atrasado.

-Está muito atrasado, Sr. Brás! repetiu Venâncio rindo-se também com sua mulher.

-Mas explique-se Sr.ª D. Tomásia.

-Pois não sabe que ele é homem sobre quem não pode calcular nenhuma moça solteira?...

-Por quê?...

-Porque é parcela votada no orçamento da comadre Lucrécia.

-Está muito atrasada, Sr.ª D. Tomásia!... exclamou Brás-mimoso, dando por sua vez uma risada.

-Então que há de novo?... conte-nos.

-Estão de arrufos!...

-Quem, Sr. Brás?...

-Otávio e sua comadre...

-É possível?!...

-Por causa da mesma feiticeira que nos encantou a todos...

Ora, feiticeira!... feiticeira!... murmurou Rosa, no meio de uma conversa séria, sai-se com aquilo.

-Mas como pode ser isso, Sr. Brás, se a comadre Lucrécia está agora dia e noite na casa de Honorina e parece ser a sua melhor amiga?... em menos de oito dias de conhecimento travaram uma amizade que parece de anos.

-Lá esses segredos só as senhoras poderão explicar; quem é que até hoje compreendeu um coração de mulher?...

-Mas duas rivais darem-se assim...

-Rivais, não disse eu; porque Otávio ama loucamente uma senhora, não se segue que ela por isso lhe corresponda.

-Então D. Honorina é algum anjinho, que não sinta o que nós sentimos? perguntou Rosa, não há ninguém neste mundo que lhe mereça um suspiro? meus senhores, tenham cuidado que não voe para o céu o seu querubim!...

-Não, não digo isso, tornou Brás-mimoso; porém afirmo que não é Otávio o mais feliz de seus adoradores.

-Então quem é, quem é o venturoso conquistador daquele belo milagre da natureza?... perguntou Rosa.

-Eu... eu o não saberei dizer, respondeu Brás-mimoso fingindo-se acanhado, ainda é tão duvidoso...

-Bravo!... bravo!... parabéns, Sr. Brás, gritou Tomásia.

-Bravo!... parabéns!... parabéns!... repetiu Venâncio.

-Devia ser assim!... exclamou Rosa rindo-se muito; os senhores merecem-se igualmente.

-Ora... não era isso... o que eu queria dizer; mas enfim... certos sinais que vi, e que um homem entendido nestas coisas sabe muito bem compreender...

-Bem, bom!... bem bom!... disse Rosa, vamos aos sinais...

-Desnublar arcanos de amor, minha senhora!

-Todos nós aqui somos de segredo... olhe, eu não tenho na vizinhança senão seis amigas com quem converso; o seu segredo não pode passar desta rua; além de que ninguém lhe mandou principiar.

-Os sinais, Sr. Brás, os sinais!...

-Enfim... vá...

Brás-mimoso, sem reparar que Manduca estava já roncando de raiva, começou:

-Talvez atendendo a estas minhas maneiras delicadas, ao espírito e sutileza que, sem vaidade o digo, desenvolvo em um sarau... D. Honorina mostrou-me uma predileção...

-Ora, isto já passa de impostura!... bradou Manduca.

-Cala-te, Manuelzinho... Sr. Brás, não faça caso do que ele disser... disse Tomásia.

-Não faça caso do que ele disser, repetiu Venâncio; continue, Sr. Brás, não faça caso do que ele disser.

-Está com ciúmes!... coitado! acudiu Rosa.

Brás-mimoso não cabia em si de contente: o ciúme de Manduca o enchia de glória.

-Pedindo-lhe para valsar comigo, continuou Brás-mimoso, ela respondeu-me que sentia bastante estar já comprometida com outro: ora, isto de sentir bastante não será muito explicativo?

-Muito!... muito!... não tem dúvida...

-No terrado, em um momento infeliz, escorreguei tão fortemente, que, se me não seguro à casaca de um amigo, esbarrava por força diante dela; quando me endireitei, olhei-a, e vi que ela se estava sorrindo docemente... bem se vê que isto não deixa dúvida nenhuma!...

-Mas, Sr. Brás, acudiu Rosa se eu estivesse lá e lhe visse escorregar, não me ria docemente, soltava mesmo uma gargalhada, e ninguém dirá que somos apaixonados.

-Por isso mesmo... no rir-se docemente é que está o segredo!...

-Ora, vejam isto!... e minha mãe me chama de tolo!... tolo eu, quando o Sr. Brás diz destas!... exclamou Manduca.

-Enfim, minhas senhoras, por duas ou três vezes ela olhou-me com expressão tal, que...

-Se é por isso, interrompeu Manduca, ela de uma vez também me olhou com expressão três vezes...

-Mano, isso precisa de explicação.

-O que precisa de explicação, é o que tem dito o Sr. Brás, exclamou Manduca afrontado; porque é muito malfeito andar se impondo de namorado de uma moça tão inocente.

-Bravo!... que inocência!... disse Rosa.

-Pois eu tenho culpa de lhe haver agradado?... tornou Brás-mimoso.

-Qual agradado, nem meio agradado; pois o senhor se capacita de que uma moça de bom gosto havia de interessar-se por um esqueleto de cinqüenta anos?

-O Sr. Manuel Venâncio me insulta!... exclamou Brás-mimoso.

-Manuelzinho, cala-te!... gritou Tomásia.

-Cala-te, Manuelzinho, repetiu Venâncio.

-O senhor, continuou Brás-mimoso, endireitando a gravata, com ter menos de vinte anos não é capaz de ser mais bonito nem mais engraçado do que eu.

-Pois mostre-se tal qual é, respondeu Manduca; tire os cabelos postiços, os dentes postiços, a cor postiça da cara!... o senhor sempre é um homem, que usa de mais postiços do que a própria mana Rosa...

-Não seja tolo, ouviu?... acudiu Rosa enraivecida, não me meta lá nas suas tratadas... minha mãe, ouça o que está dizendo este pateta.

-Manuelzinho, retira-te, disse Tomásia, a tua cabeça não está boa.

-Retira-te, Manuelzinho! repetiu Venâncio. Sr. Brás, não repare, a cabeça dele não está boa.

Manduca retirou-se furioso da sala, jurando vingar-se de Brás-mimoso.

-Não se enfade, Sr. Brás... aquilo é fogo de palha; tem estas imprudências, mas é um menino muito bem-criado e de muito bom gênio.

-Eu tenho-lhe amizade, disse Brás-mimoso, já menos irado; sei o que é o ciúme... o Sr. Manuel foi infeliz... é um rival que caiu por si mesmo; o mais terrível, e o que me dá mais cuidado é Otávio.

-Eu sei que ele já freqüenta muito a casa de meu amo, disse Félix.

-Pois bem: é esse o único que me incomoda; mas ao menos ele não pode deixar de ver-se muito atrapalhado.

-Por quê?...

-Porque a sua comadre mudou-se para Niterói, e consta-me que não deixa a companhia de D. Honorina... isto há de dar ainda muito que falar.

-Rosa!... que belos dias temos de passar... é preciso entrelaçarmo-nos de amizade com D. Honorina; domingo, agrados sobre agrados!

-Então domingo...

-Estamos convidadas a passar o dia com ela...

-Minha senhora... se eu pudesse ser apresentado...

-Oh! será uma contrariedade para Manuelzinho; mas se quiser pode ir em nossa companhia, e devo crer que será bem recebido.

-Disso tenho eu a certeza.

-Pois muito bem; está convidado.

-Oh! presente do céu!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

No entanto, que alguns dos apaixonados de Honorina preparavam-se para lutar, que Lucrécia se dispunha para vingar-se, ou pelo menos opor-se à ventura de Otávio, Tomásia e Rosa se tratavam para observar e murmurar; o que estaria projetando ou fazendo esse homem, de que nenhum deles sabe, esse incógnito, cuja existência só tem sido sentida por Honorina, Raquel e Lúcia?...

Duas semanas são passadas desde o seu último aparecimento: não há notícia nenhuma dele; ninguém o conhece... e Honorina, que em silêncio pensa nele, não se anima, nem se animará nunca a perguntar pelo moço loiro.

E quem é esse homem das sombras e do mistério?...

E o que quer dizer esse contínuo pensar do espírito de Honorina, que pende sempre docemente em suas reflexões das vigílias, e em seus sonhos das noites para esse jovem desconhecido?... o que quer dizer?...

Extravagante, estouvado por força, esse personagem misterioso, que ainda se não sabe, ao certo, que cara tem, que muda de semblante, de ofício, de vestidos, e de cabelos a cada hora, como pôde tão vivamente tocar a alma (e quem sabe se também já o coração) de uma inocente moça?...

Oh!... é porque a mulher ama, sobretudo, o que lhe parece mais romanesco e misterioso!

Sem que se dê por tal, ela é apenas curiosa no princípio, logo depois se faz interessada... e é um milagre se escapa de ser amante no fim.

E Honorina, que na cor pálida de seu rosto, na delicadeza de sua compleição, e em todos os seus traços enfim deixava ler esse temperamento, talvez perigoso, mas sempre interessante, no qual a vida está no sentimento, e com o qual somente se sabe compreender, sentir e alimentar essa paixão ardente, cujo fogo não minora, não se extingue, nem ao sopro do infortúnio, nem ao poder da prepotência, e com o qual, enfim, basta a impressão ligeira de uma figura, que se vê na sombra... diáfana... misteriosa, que se adivinha bela, que se sonha, como se deseja para dar um rumo ao batel da vida, que nem um tufão da tempestade, nem a agitação das vagas pode jamais mudar; para dar um doce pendor ao espírito, que nem a docilidade dos conselhos, nem a força de uma ordem, nem o rigor do despotismo pode fazer desaparecer; e Honorina, dizemos nós, romanesca e entusiasta, tinha cedido à força de sua organização e ao enlevo do misterioso proceder do homem que a amava na sombra.

E, portanto, já havia um segredo na vida da moça, e apesar dela uma ação que às vezes a obrigava levemente a corar. O segredo estava em seu coração... ainda pouco inteligível para ela mesma: era o sentimento que começava a votar ao moço loiro; a ação de que levemente corava, era o ter ela guardado a sempre-viva que o zéfiro da manhã lhe atirara dentro da câmara.

Duas semanas estavam passadas depois da noite do sarau; novas amizades tinham vindo ocupar-lhe horas de alguns dias; Lucrécia, que havia alugado uma casa em Niterói, era então assídua junto dela, e a cercava de obsequiosos cuidados; mas Honorina se contrafazia ao pé de Lucrécia... amava a solidão... suspirava em silêncio, e apesar seu... pensava no moço loiro.

Honorina se tinha tornado docemente melancólica, o que fazia ainda mais realçar os seus encantos.

Ela precisava sem dúvida confiar seus sentimentos... seus receios e seu estado a uma amiga; mas Lúcia tinha o triplo da sua idade, e, posto que não hesitara em mostrar-lhe os primeiros escritos do moço loiro, agora ela não podia resolver-se a corar diante dela, confessando-lhe que guardara a sempre-viva, ainda que lhe repetisse as mesmas palavras que costumava dizer a si própria para desculpar-se diante de sua mimosa consciência de moça:

-Não fui eu... meu Deus! foi o teu sopro.

Lucrécia... Lucrécia não era a sua amiga da infância, como Raquel, e Raquel estava longe dela.

Finalmente na manhã de sábado Hugo conveio em levar um bilhete de sua filha a Raquel; e, pois, Honorina escreveu depressa:

«Raquel!... Não nos pudemos falar a sós no dia em que fui à corte; e eu tinha tantas coisas para te dizer!... vem hoje Raquel, dormiremos juntas, e eu te contarei uma história bem singular: vem hoje, Raquel, ver a tua amiga -Honorina.»

Nesse dia, não; mas na manhã do seguinte, Honorina abraçou a Raquel.

Canto ao luar

Um dia inteiro se tinha passado sem que Honorina e Raquel tivessem podido estar a sós alguns momentos. A casa de Hugo se achava cheia de visitas. Lucrécia se havia apresentado às nove horas da manhã. Otávio um pouco depois; às onze horas do dia, Venâncio com sua família, e Brás-mimoso; e, enfim, Félix. Era preciso, pois, que Honorina se repartisse por todas aquelas senhoras, que agradasse àqueles homens, que, em suma, desse alma à sociedade reunida em casa de seu pai.

O dia foi correndo prazenteiro e belo. Ema, apesar de não compreender como era possível tolerar-se a liberdade que aqueles homens tomavam com as senhoras, conversando, gracejando e lisonjeando a todas elas, não podia deixar de encher-se de orgulho, vendo a graça e a nobreza com que se portava a encantadora neta.

O jantar serviu-se tarde; e, já ao anoitecer, a sociedade, levantando-se, derramou-se pelo jardim. Ema, que não podia expor-se ao ar frio da noite, ficou na sala, acompanhada de Venâncio e de Jorge, o pai de Raquel.

Hugo de Mendonça passeava com Tomásia.

Honorina, defendida pela amizade de Raquel, vigiada pelo ciúme de Lucrécia, perseguida pelos impertinentes obséquios de Otávio, espantada das loucas pretensões de Brás-mimoso e do ridículo proceder de Manduca, caía às vezes em doces meditações, nas quais vinha quase sempre a imagem do moço loiro tomar o posto mais nobre.

Félix dava o abraço à sua querida prima; e, único feliz entre tantos, esquecia-se, conversando com ela, do tempo que passava, dos olhos que o cercavam, do passado, do presente e mesmo do futuro.

Porque o homem, que passeia com a mulher que ama, é um ente excepcional, cujo mundo não passa dela e dele; cujo mundo é fechado pelo horizonte de amor... horizonte belo, cor-de-rosa, brilhante, limitado... tão limitado, que dentro dele só cabem dois corações, somente soam as palavras de duas bocas, somente pensam duas almas; troca-se entre ambos uma linguagem, um idioma de fogo, e sempre novo, que se fala pelos olhos e se entende pelo tremer dos braços ou pelo palpitar dos corações; tudo que os cerca está fora do seu mundo, não tem nele existência possível; aí só vivem os dois... e amor.

Depois de algum tempo de passeio, as senhoras recolheram-se. Hugo foi ajuntar-se e tomar parte com Venâncio e Jorge na conversação de sua mãe, que, entusiasmada, se exaltava, fazendo a apologia das belezas, dos prazeres e dos puros costumes do seu tempo.

Otávio uniu-se a Félix, e ambos desapareceram pelas mais obscuras ruas do jardim, como se os ocupasse objeto de muito subido interesse.

Brás-mimoso e Manduca passeavam cada um para seu lado; mas na volta de uma rua encontraram-se, talvez contra a vontade de um deles.

Aqueles dois completos namorados sem ventura eram, em verdade, a personificação de duas classes de homens, que todas as senhoras devem mais ou menos ter encontrado no decurso de sua vida. Vejamos se, dando conta do caráter de cada um deles, poderemos ter a felicidade de chegar ao ponto de que cada moça que tiver estas linhas diante de seus belos olhos, possa dizer consigo ao recordar a coleção de seus impertinentes adoradores: «Brás-mimoso se parece com este; Manduca é o retrato daquele.»

Há um sentimento... oh! seria profanação dar-lhe o sagrado nome de amor. Comecemos, pois, de outro modo.

Há homens detestavelmente vaidosos, homens insolentes, que não vêem na mulher senão a mais fraca e humilde das criaturas; homens que não amam nunca, pois são incapazes de tão nobres sentimentos, mas que trabalham para ser e se ufanam de parecer amados. A alma desses homens é torpe, é alma de lodo; e a mulher infeliz, a quem requestam, é por força a vítima de sua vanglória; porque, de duas uma, ou ela é bem desgraçada para corresponder a fingidos extremos, ou deles sabe zombar. No primeiro caso, lá vão os miseráveis ostentar seus triunfos em toda a parte... nas assembléias, nos passeios e no teatro eles desfiam a atenção do público para que todos sintam suas vitórias, invejem suas felicidades, proclamem-nos como conquistadores, embora à custa do nome e do crédito da vítima!... e, quando uma senhora os tem tratado de maneira que em sua própria vaidade não ousam supor-se felizes, eles ousam, contudo, por jactância e por vingança impor... fingir... dizer sê-lo! para eles o nome e a fama de uma mulher não é mais que a flor, que importa pouco ser quebrada, murcha e perdida, contanto que sirva um momento para ornar a coroa de seus improvisados triunfos.

Brás-mimoso, com ser tão ridículo em si mesmo, era um desses homens.

Há outros que, pelo contrário, nem se sabem fazer amantes; outros que, vivamente interessados por uma senhora, ficam duas horas a sós com ela sem lhe dizer palavra, e, quando ela se retira, vingam-se de si mesmos, beijando suas pisadas, e se conservam uma noite inteira contemplando a cadeira em que ela esteve sentada; que comem o palito que lhe caiu dentre os dentes, que beijam em segredo o papelzinho que ela enrolou entre os dedos, que decoram e adoram os versos das balas que se atreveram a estalar com ela, que a servem nas sociedades como um escravo, e depois se retiram para um canto, olhando-a de longe, e abaixando os olhos se encontram com os dela; que quando são obrigados a dar-lhe o braço, tremem como varinhas verdes; se ousam dirigir-lhe a palavra, gaguejam e se perturbam a ponto de causar piedade; e que, finalmente, confiando, a medo, seus extremos a um amigo, lastimam-se, choram e vivem assim.

Manduca era pouco mais ou menos um namorado deste gênero.

Ora, parece depois do que vem dito, que naturalmente o homem que impõe deve ser forte e valente, e aquele que chora, fraco e desanimado; pois por notável contradição sucede o contrário disso: as mais das vezes o chorão é um Hércules, e o impostor um covarde. E mais um exemplo vem para a regra; porque Manduca tem o braço de um atleta; e Brás-mimoso a natureza de um poltrão.

Exatamente por esse motivo, Brás-mimoso, que achava um não sei quê no rosto de Manduca, desde a última noite que havia passado na casa de Venâncio, não tinha lá a maior vontade de encontrar-se com o moço em lugar solitário; porém, tantas voltas deu o filho de Tomásia pelas ruas do jardim, que depois de aturado trabalho conseguiu encontrar-se cara a cara com Brás-mimoso, que, um pouco desapontado, e com o mais desengraçado e menos bem fingido disfarce, ia já se voltando para trás, quando Manduca o chamou dizendo:

-Sr. Brás, faça-me o favor...

-Oh! Sr. Manuel! exclamou Brás-mimoso, ora... muito bem diz o ditado -os que se querem, se encontram sempre.

-Fico-lhe obrigado; mas ouça-me, pois tenho que lhe falar.

-E eu também... quero dar-lhe os parabéns... o senhor tem sido feliz... felicíssimo... o nosso amigo Otávio deve trazê-lo na garganta.

-Pior é estar-me o senhor a trucar de falso!... disse Manduca levantando a voz.

Brás-mimoso estremeceu desde os pés até à cabeça.

-O Sr. Manuel parece um pouco... exacerbado!... creio que não fui eu quem teve a desgraça...

-Então já se esqueceu do que disse em minha casa sexta-feira à noite? perguntou o moço.

-Oh!... pois V. S.ª ainda se lembra disso?

-Lembro-me perfeitamente de que o senhor se fez de grande valentão, porque estava à vista de minha mãe; e, portanto, venho aqui repetir-lhe o que então disse, e dar-lhe um conselho proveitoso.

-Sr. Manuel, V. S.ª abusa da minha posição!...

-Eu quero repetir-lhe na cara que o senhor é um esqueleto de cinqüenta anos, um velho muito ridículo e miserável; pois que, sem se lembrar de que tem cara de avô, anda com pretensões de moço de vinte anos...

-Senhor... eu vejo que devo ser prudente com V. S.ª... eu me recordo de que V. S.ª é o filho de um homem... e de uma senhora.

-Digo-lhe, continuou Manduca, que me não importa que o senhor persiga com suas maneiras ridículas e desprezíveis aquela bela senhora; pois que eu a suponho com bastante juízo para não fazer caso de uma ostra, de um carrança espartilhado como o senhor!...

Brás-mimoso tremia e suava suores frios; por isso ouviu sem dizer palavra aquele ataque feito a seu amor-próprio.

-Porém, prosseguiu Manduca, e aqui vai o conselho; se o senhor tiver o atrevimento de gabar-se uma outra vez em qualquer parte do mundo de ter sido atendido por D. Honorina, já que mostra tão pouco juízo, que parece haver-se tornado de novo criança, tenha a certeza de que me acho disposto a persegui-lo cruelmente.

-Está bem, Sr. Manuel, diga o que lhe parecer...

-Juro-lhe que sou capaz de arrancar-lhe a cabeleira mesmo à vista de D. Honorina.

-Senhor... mas eu não sei em que tenho merecido a inimizade de V. S.ª...

-E como, em todo o caso, faz-se preciso que um castigo acompanhe sempre o crime, e o senhor delinqüiu, falando sem respeito de uma senhora honesta, e chegando mesmo a caluniá-la...

Brás-mimoso, ouvindo falar em castigo, sentiu enfraquecerem-lhe as pernas, e, encostando-se ao tronco de uma árvore, olhava para todos os lados a ver se descobria alguém a quem recorresse.

-Eu exijo, continuou Manduca, que em presença das mesmas pessoas, diante de quem falou sexta-feira, o senhor se desdiga de quanto disse... que confesse que não passa de um tolo...

-Sr. Manuel... V. S.ª...

-Um caluniador...

-Por quem é, Sr. Manuel, não me deite a perder...

-Um...

Manduca foi interrompido: o céu acabava de socorrer Brás-mimoso.

E os dois singulares rivais estenderam os pescoços e ficaram estáticos e boquiabertos, atentando os acentos melodiosos de uma voz doce e branda, que cantava uma música melancólica.

Uma idéia feliz tinha tido Hugo de Mendonça para obsequiar a seus hóspedes: como, à exceção de Brás-mimoso e Manduca, se achassem todos depois de algum tempo sentados debaixo de uma copada mangueira, que ficava próxima do mar, ele lembrou-se que ali, à mercê do silêncio da noite e ao clarão da lua, devia causar efeito bem agradável uma voz harmoniosa, que entoasse um canto; e, orgulhoso do mérito de sua filha, não hesitou em aconselhar-lhe que cantasse.

Félix ofereceu-se para acompanhá-la; apareceu um violão, e Honorina cantava.

Já então era noite fechada; mas a lua cheia e bela derramava sobre a interessante Niterói os raios de sua luz misteriosa. E uma voz entoava um hino melancólico. Oh! fora preciso estar ali, e ouvi-la; e sentir também como toda a natureza harmonizava os seres, punha em concerto os elementos para magicamente acompanhá-la. E, pois, brando favônio lambia apenas as folhagens... as ondas murmuravam docemente ao beijar das praias... a lua prestava à cena essa luz receosa e modesta, mercê da qual o fraco embalançar dos ramos, que a aura embalava, erguia aqui e ali seres fantásticos... místicas sombras noturnas, que, segundo o vaivém dos ramos, ora se agigantavam, ora se iam minguando até sumir-se de todo, para logo renascer outra vez... e por toda a parte o silêncio... e como equilibrando-se sobre ele essa voz... doce, angélica... que diríeis um longo suspirar de anjo... essa voz... um pouco curta talvez... mas tão cheia de encanto e magia... que soar... tocar o ouvido... e cair no coração de quem a escutava, era milagre de um breve instante... Oh! fora preciso ouvi-la!... e também fora preciso ver essa moça que cantava, assentada debaixo de copada mangueira... essa moça bela... pálida... vestida de branco... semelhante talvez à imagem vaporosa que a imaginação escaldada do viandante noturno vê à porta do templo solitário... ou curvada sobre a campa de um finado... essa moça, cuja voz tinha um não sei quê de tão subtil... tão melancólico... tão sobre-humano talvez, que retinia no âmago do coração, e nos seios da alma!...

Honorina escolhera para cantar uma lira que era desde alguns dias a sua favorita; que desde algumas noites ela preferia sempre a mil outras para entoá-la ao lado de seu pai, ou sentada à janela de seu quarto no silêncio das desoras: essa lira parecia como uma prece, que saía do seio de uma virgem para subir ao céu; ela dizia assim:

Inocente, incauta virgem,

Que inda o mundo te sorri...

Esse mundo que te incensa

Laços arma contra ti.

Virgem, mede os passos teus...

Virgem, só confia em Deus!...

Esses olhos que dardejam

Sobre ti chamas de amor,

Podem verter em teu seio

Doce veneno traidor.

Virgem, mede os passos teus...

Virgem, só confia em Deus!...

Sê, ó virgem, sê somente

Sempre a rosa do Senhor...

Vê que o vento afronta às vezes

A do mundo pobre flor.

Virgem, mede os passos teus...

Virgem, só confia em Deus!...



Honorina calou-se... Os aplausos choveram sobre ela... os dois infelizes amantes, que de longe a tinham escutado, correram a derramar suas felicitações e seus parabéns aos pés da encantadora moça que os enfeitiçava; mas de repente os parabéns, os aplausos se suspenderam, e todos olharam surpreendidos para o mar; porque uma voz também sonora entoava de lá o seu canto, sujeitando-se à mesma música.

Favorecidos pelo luar, eles viram, a pouca distância da praia, um pequeno e lindo batelão parado, e sobre ele a figura branca de um homem, que, voltado para a árvore, debaixo da qual se achavam, cantava com voz comovida; e eles ouviram que seu canto dizia assim:

Inocente, bela virgem,

Que o mundo fazes sorrir...

Amor, que inspira a virtude,

Sabe em teu seio nutrir.

Virgem, mede os passos teus;

Mas cede ao sopro de Deus!...

Lembra, que esse amor de poeta,

Em que pode uma alma arder,

Mesmo acabando na morte

Por força belo há de ser.

Virgem, mede os passos teus;

Mas cede ao sopro de Deus!...

Qual cede a rosa ao favônio

Vivo aroma encantador;

Ao homem nobre e constante

Ceda a virgem seu amor.

Virgem, mede os passos teus;

Mas cede ao sopro de Deus!...



O canto terminou; e o batelão se foi misteriosamente deslizando para o largo.

Insensivelmente toda a companhia se tinha aproximado à praia; só Honorina e Raquel haviam ficado no mesmo lugar, surpreendidas, e tomadas talvez do mesmo sentimento.

-É ele!... murmurou Honorina, quando sentiu que o canto acabava.

-Eu o conheci, disse Raquel; ele falou ainda uma vez no amor de poeta!

-Oh!... tornou Honorina, e o sopro de Deus!... o sopro de Deus!... portanto, ele vê... ele ouve... ele sabe tudo!...

-Que queres dizer, Honorina?

-Logo... logo te direi tudo. Agora silêncio: todos se chegam para nós.

Com efeito, a sociedade tornava a seu primeiro lugar.

-É preciso convir, disse Hugo de Mendonça, que aquele bateleiro é um atrevido, que tem muito boa voz, e canta bem sofrivelmente!

-O que não pode fazer olvidar, disse Otávio, que ele é um insolente, que se aproveita da largueza do mar...

-Como insolente?... acudiu Lucrécia, que se apraziava com o desgosto de Otávio; eu me confundo decerto!... Supunha que nada havia mais natural do que um bateleiro fazer demorar sua viagem para ouvir a voz de uma moça que cantava; nada mais agradável do que responder o canto, que acabava de ouvir, com outro da mesma natureza.

-Mas o homem que cantou não pode ser um rude bateleiro...

-E que podemos nós fazer?... disse Hugo: porventura está no nosso direito impedir que se cante no mar?... deverá Honorina privar-se de sua mais bela prenda só porque houve um homem que, de longe, respondeu uma vez a seu canto?...

-Deus nos livre disso! acudiu Otávio.

-Seja embora um atrevido, continuou Hugo, devemos confessar que causou-nos uma surpresa.

-Mesmo uma agradável surpresa, ajuntou Tomásia.

-Não tem dúvida; uma agradável surpresa, repetiu Venâncio.

-Mas que é isso, Honorina?... tão melancólica de repente?... Será possível que aquele harmônico bateleiro chegasse a incomodar-te até o ponto de te entristecer assim?...

-Meu pai... é que eu não esperava...

-Graças a Deus temos todos essa certeza. Nada... nada de nos ofendermos por tão pouco... Querem saber? se eu pudesse, faria com que o nosso bateleiro repetisse uma outra vez o seu canto...

-Meu pai!

-Não é graça... tem uma bela voz de tenor...

-E o efeito, disse Lucrécia, o grande efeito que produz o canto no silêncio da noite e no mar...

-É verdade!... é verdade!...

-A propósito! exclamou Hugo de Mendonça, daremos uma lição ao nosso bateleiro.

-Como?...

-Se Honorina quiser, aproveitaremos uma ou duas destas belas noites de luar, faremos um passeio marítimo, e no mar... defronte da mais linda praia... levantam-se os remos, e Honorina entoa a sua lira da virgem inocente.

-Oh! não, meu pai!...

-Sim... sim, minha senhora... ceda...

-Porventura tens medo de bateleiro?... lá... o caso é outro: estaremos no mesmo campo, e se ele aparecer veremos qual é o batel que mais voa... então que dizes?...

-Ceda... ceda...

-Eu farei o que meu pai quiser.

-Pois muito bem: estamos tratados; resta marcar a noite; quando deverá ser?...

-A Sr.ª D. Honorina que decida...

-Para mim é indiferente... pode ser qualquer...

-Honorina, disse Raquel, marca a noite de amanhã: eu fico contigo até terça-feira, não é assim, meu pai?...

-Sim, minha filha, respondeu Jorge.

-Amanhã, amanhã, Sr.ª D. Honorina, disse Tomásia, nós temos de passar o dia de amanhã com minha comadre, e pediremos licença para tomar parte em tão agradável passatempo.

-Pois se meu pai quiser, tornou Honorina, seja amanhã.

-Está dito, concluiu Hugo, seja amanhã.

E ao mesmo tempo que todos se levantavam, ouviu-se ao longe muito ao longe, a voz do bateleiro, que repetia:

Virgem, mede os passos teus;

Mas cede ao sopro de Deus!



As duas amigas

Enfim, elas se viam sós; não como da outra vez, recostadas na janela, que deitava para o jardim, porque Honorina receava uma aparição noturna e repentina daquele homem singular, que em toda a parte e a todas as horas velava por ela. Mas agora, sentadas ambas em um sofá, e livres de seus atavios, com a liberdade da solidão, independentes das prisões das modas, esquecidas de si próprias no doce enleio da amizade, Honorina e Raquel se dispunham para encetar a conversação que tanto desejavam; e, todavia, ainda em silêncio se conservavam, e já uma vez tinha cantado o galo.

O silêncio de Honorina não era difícil de explicar-se: havia nela por força todo esse belo receio, todo esse encantador acanhamento de virgem, que, quando ama pela primeira vez, hesita e treme ao falar de seus sentimentos à própria amiga de seu peito, e até cora, quando pensa consigo mesma... nele.

Mas Raquel?... a jovial e feliz Raquel, por que não compreende a hesitação da pobre Honorina?... por que também docemente melancólica deixa ir correndo assim a noite?...

O galo cantou segunda vez; e Honorina, como para a todo custo dar princípio à conversação, disse:

-Que dia! Raquel, que dia enfadonho passamos!...

-Eu o sinto, Honorina; melhor valera se sós o tivéssemos gozado.

-Oh! é verdade... e tanta gente... e esses homens!

-Que te perseguiram, não é assim?...

-É que eu sou bem infeliz, Raquel; não bastava Otávio, que me diz tantas coisas; que me obriga a ouvi-las; que se enche de esperanças, que eu não alimento!... eram precisos ainda mais dois que me atormentassem todo o dia com suas loucas palavras e ridículas ações!...

-E que remédio tem uma mulher, senão às vezes deixar-se requestar por tolos?... quem diz tolo, diz vaidoso.

-Oh! mas é necessário ter ou vaidade de mais, ou então um espírito muito miserável, para que eles não compreendam que eu desprezo formalmente seus obséquios!

-Porém, quem te manda desprezá-los?... pelo menos podias animar o velho... um velho namorado, Honorina, serve muito para a gente rir-se...

-É... que... eu não posso rir-me!...

-Por que, Honorina?...

-Raquel!... exclamou a moça, escondendo por instantes o rosto no seio da sua amiga.

-Fala, Honorina; desafoga-te comigo.

Passou-se ainda um momento de silêncio, em que o rosto de Honorina se foi tornando cor-de-rosa; depois ela falou:

-Raquel!... Raquel!... tu não sabes o que se tem passado comigo desde aquela fatal noite, em que conversamos, ambas encostadas nessa janela; lembras-te daquele papel, que achamos e lemos na manhã do dia seguinte?...

-Lembra-me... sim.

-Pois eu tenho involuntariamente recebido outros da mesma natureza, que trazem todas essas palavras que eu pronunciei, falando-te de amor, escritas... repetidas, como a divisa de um cavalheiro, ou como o estribilho de um hino de triunfo...

-E o homem que as escreve?...

-Oh!... esse homem?... eu o tenho visto... eu o tenho ouvido... e eu não te posso dizer ao certo qual é o seu verdadeiro rosto, nem qual é o som de sua voz!...

-Mas o que tu dizes, Honorina, é ainda bem ininteligível!...

-E, todavia, é a própria verdade; o homem que me escreve é um ente que muda de aspecto, de voz, de vestidos, de condição, de ofício e de tudo, segundo as circunstâncias em que me quer aparecer.

Raquel chegou-se para mais perto de Honorina, como não querendo perder uma só palavra do que lhe ia dizer a amiga.

-Lembras-te que te mandei pedir, continuou Honorina, que me enviasses um cabeleireiro para me toucar no dia do sarau de D. Tomásia?... tu me tinhas respondido que às cinco horas da tarde o cabeleireiro se me apresentaria...

-E então?...

-Pouco depois das quatro aparece aqui um homem para pentear-me; um homem que não dizia uma só palavra, vestido de mil cores, com o rosto muito vermelho, com os cabelos ruivos, um homem que beijou minhas madeixas, que roubou-me um anel delas, e que inopinadamente deixou-me ainda destoucada; Raquel... era ele!...

-Mas o cabeleireiro que eu te mandei?...

-Chegou depois; exatamente às cinco horas da tarde. Ouve mais: de volta do sarau, somos trazidas aqui por um jovem marinheiro, rude, grosseiro... malvestido... com cabelos pretos tão longos como hirtos; no meio da viagem, enquanto meu pai dormia, e eu receosa dele fingia dormir, apanha uma de minhas luvas, que o vento levantara, beija-a, guarda-a junto do coração... e ao chegar à praia, vendo que eu buscava a minha luva, ma entrega, tendo posto dentro dela um papel; Raquel... era ele!...

-E esse papel, Honorina?

-Estavam nele escritas as palavras fatais... o meu imprudente pensamento sobre o amor... aquilo que eu te disse, Raquel, pensando que ninguém mais me ouvia!...

-E depois?

-Tu te recordas, Raquel, daquele jovem loiro que no sarau de D. Tomásia sentou-se no terrado defronte de nós?... Raquel! Raquel! tu te recordas de seu sonho?... tu te lembras o que ele disse sobre uma sempre-viva?...

-Oh!... muito!... muito, Honorina!... eu me lembro muito!

-Pois bem... eu não pude dormir... a imagem desse moço esteve sempre diante de meus olhos! eu passei o resto da noite febril... ardente... desassossegada!... eu comparava o amor desse moço tão singular, mas tão respeitoso, que ele temia fazer corar de pejo o objeto de seus cuidados, com esse amor misterioso... noturno... e talvez terrível do homem que me persegue!... eu comparava aquele rosto melancólico e doce... aqueles belos cabelos loiros com o semblante vermelho ou agreste, com os cabelos ruivos ou pretos que no outro tinha visto!... comparava sua voz branda e comovida com a voz áspera, grossa e desagradável do bateleiro... ah! tudo isso era um paralelo cruel para o desconhecido que me amava!... Agitada... com a cabeça em fogo... aflita enfim, eu me ergui, à primeira luz do dia... abri aquela janela... levantei a vidraça... Raquel!... eu achei aí um papel, e sobre ele a sempre-viva!... a sempre-viva!...

-E o papel?... o que dizia o papel?... perguntou Raquel violentamente comovida.

-Lê tu mesma, disse Honorina, mostrando-lhe um breve escrito, que desde que se fora sentar tinha fechado em uma mão.

Raquel devorou rapidamente as poucas palavras escritas nesse papel, e entregou-o de novo a Honorina com mão visivelmente trêmula.

-Portanto, continuou esta, o moço loiro era ele!

-Sim... sim... era ele... eu o deveria ter previsto!...

Honorina abafou um suspiro.

-E a sempre-viva?... perguntou Raquel.

-Ei-la aqui! disse Honorina abrindo a outra mão.

-Tu a guardaste?!... e então foi o mesmo que responder eu também te amo!...

-Oh!... não me olhes assim Raquel, não me olhes com esses olhos tão ardentes, se não queres fazer-me abaixar os meus, e fechar-me a boca!...

-Enfim... tu guardaste a sempre-viva, Honorina?

-Não... não fui eu!... escuta. Acabando de ler essas palavras, que aí vês escritas, confesso que hesitei um momento; mas depois... eu dei um passo para a janela... estendi o meu braço... eu ia... eu devia deitar fora a sempre-viva, não é assim, Raquel?...

-Sim... sim...

-Mas... soprava uma branda aragem... o favônio da manhã, Raquel!... eu vi que cedendo a seu sopro... a sempre-viva rolou sobre a janela até cair a meus pés!...

-E depois... tu a guardaste?...

-Oh! Raquel! aquele zéfiro matutino tão fresco, tão doce, me pareceu então enviado pelo céu!... tu sabes, tens dito mil vezes, que eu tenho uma imaginação de louca, que à força de uma organização toda inflamável e de uma educação recebida na solidão, longe do mundo e dos homens, meu pensamento não se acomoda com o gelo das realidades e vive do fogo das quimeras; pois bem! será mais uma quimera; mas naquele instante eu pensei que o zéfiro que fazia rolar a flor para meu quarto, era como a mão do destino, que me arrastava para aquele homem! nos meus delírios... na exacerbação em que me achava, Raquel, eu contemplei a sempre-viva, que tinha tombado a meus pés, e sem ter ânimo para lançá-la fora... temendo mesmo cometer um sacrilégio, se o fizesse, eu disse, desculpando-me a mim mesma: -Oh!... ainda bem que não fui eu... foi o teu sopro, meu Deus!...

-O sopro de Deus!... balbuciou Raquel.

-O sopro de Deus!... sim... o sopro de Deus!...

-E, portanto, ele cantava ainda agora um pensamento que tu só podias compreender!...

-Mas Raquel... Raquel, como é que esse homem ouviu o que eu murmurei baixinho escondida no meu quarto?... pois então ele está também em toda a parte, assim como se veste de todos os semblantes?...

-Quem sabe... talvez ele estivesse mesmo de longe... talvez ele visse rolar a sua flor à força do zéfiro... e então pensasse também, como tu pensaste em um sopro de Deus!

-Mas podem acaso ter duas almas, ao mesmo tempo, um só e igual pensamento?...

Raquel respondeu com voz sumida e melancólica:

-Quando se amam, Honorina; porque já não há dúvida que tu amas...

-Oh! Raquel!... eu tenho medo de o pensar!...

-Como tu és feliz, Honorina!... disse docemente Raquel.

-E ele?... e ele? fala-me tu dele, Raquel.

-Minha bela vaidosa, que queres, pois, que eu diga?

-Se tu pudesses dizer-me, Raquel; se tu o soubesses!... é que há uma eterna pergunta no meu coração, e uma dúvida cruel dentro do meu espírito!... quem é ele?... quem é esse homem?...

-Posso eu sabê-lo?

-Será um moço ou um velho?... será um belo jovem ou um homem que faça medo?... qual é o seu rosto? qual a sua voz? quais os seus cabelos?...

-Pois duvidas que seja o moço loiro, Honorina?

-Sim, Raquel, ele foi o moço loiro de alguns momentos!... eu tenho ainda no meu espírito aquela graciosa cabeça... eu sinto ainda o fogo ardente de seus olhos... eu vejo, Raquel, eu vejo sempre aquele triste sorriso, que ele derramava em seus lábios... soa sempre em meus ouvidos, ainda mais docemente que o seu canto desta noite, aquela voz suave e comovida, com que ele dizia -eu amo!... muito!... como ninguém amou ainda!...

-E então, que queres tu mais, linda ambiciosa?...

-Raquel, Raquel, eu tenho medo, que assim como foi uma mentira aquela cabeça ruiva de ridículo cabeleireiro, assim como foi uma máscara ilusória aquela cabeça hirta de selvagem marinheiro, eu tenho medo, Raquel, de ver esvair-se como um sonho a minha mais bela ilusão... eu tenho medo de que aquele engraçado semblante de mancebo seja ainda um semblante emprestado, de que seus belos cabelos loiros sejam ainda uma pérfida cabeleira!...

Raquel não pôde deixar de sorrir-se do inocente receio de sua amiga.

-Sim... tu te estás rindo de minhas loucuras... perdoa-me, perdoa-me; porque eu estou talvez a ponto de ir ser bem desgraçada...

-Tu, Honorina, desgraçada?... e por quê?...

-Pois já te não lembras do que outrora me dizias?... Raquel, desgraçada; porque eu penso que já amo.

-Mas quando sabes que és amada?...

-Porém, isto é quase amar uma idealidade... uma sombra, que, quando pensamos tocar com o dedo, desaparece a nossos olhos!... isto é viver em um sonho eterno...

-Oh!... exclamou Raquel apertando a mão de Honorina, esse homem estudou bem a mulher de quem queria ser amado!... ele foi direito ao ponto mais fraco... atacou... e venceu!

-É porque eu sou uma mulher bem fraca, não é assim?...

-Não: é porque tu tens uma imaginação muito ardente, um coração muito cheio de fogo!... é porque tu terias amado a Torquato, como Eleonora, e a Camões, como Catarina de Ataíde!... e esse homem, que não tem certamente podido ser poeta para vir ajoelhar-se a teus pés, com sua lira nos braços, a oferecer-te a glória de um renome; que não tem certamente podido ser um herói para com os louros na fronte deslumbrar teus olhos e cativar teu espírito... esse homem, sagaz, sem dúvida, apelou para o mistério, chamou a seu favor o que achou que podia parecer-te maravilhoso... apresentou-se diante de ti coberto com um véu para te fazer desejar rompê-lo... trouxe uma centelha em seus olhos... atirou-a sobre a tua imaginação... ateou-a... venceu... é amado!...

-E tu, Raquel, terias resistido, não é assim?...

A pergunta pareceu contrariar a Raquel, que, depois de hesitar um momento, como se abafasse um gemido, respondeu:

-Honorina, não se trata de mim agora.

-Sim... sim, eu sei... terias resistido; porque tu não és como eu... tu és prudente.

-Oh!... e de que vale a prudência, Honorina?...

-A experiência e sábios conselhos de teu pai te armaram de uma fortaleza que nenhuma outra teve ainda... teu coração para amor está forrado de aço... tu só és sensível à amizade...

-Pelo amor de Deus, Honorina, não fales de mim agora!...

-Tu podes sofrer sem estremecer o olhar atrevido de um homem fixado uma hora inteira sobre teu rosto... tu zombas do poder dos olhos... tu és surda para as palavras de amor... a influência de um homem não chega nunca a teu espírito!... tu és feliz... bem feliz!...

-Honorina!... Honorina... tu ignoras o mal que me estás fazendo!...

-Eu te invejo, Raquel!...

-Desgraçada!... tu não sabes o que dizes!...

-Oh! eu me lembro bem daquelas frias palavras que uma vez me disseste!... eu as decorei: porque elas me espantaram! porque seu pensamento, enunciado por uma mulher, me pareceu um milagre... tu disseste...

-Não... não... Honorina, não as repita...

-Tu disseste: -Amor é uma vã mentira!... amor não é mais que uma das muitas quimeras com que a imaginação nos entretém na vida, como a boneca que se dá à criança para conservá-la quieta no berço... amor não é mais que a flor de um só dia, que se abre de manhã, e antes da noite está murcha!...

-Perdão!... perdão!... Honorina; pode ser que eu me tivesse enganado!...

Honorina olhou espantada para Raquel, ouvindo suas últimas palavras.

-Raquel! exclamou a moça, tu me deves um segredo!

O semblante de Raquel tornou-se pálido, semelhante ao de uma moribunda: seus olhos se fecharam, como para não deixar que os de Honorina fossem nos seus beber o arcano que ela escondia; e, parecendo haver tomado uma repentina resolução, disse tremendo:

-Honorina, eu também amo.

-Amas?... amas?... e a quem?...

-Tu vais corar, Honorina!...

-Dize, dize...

-A um homem casado.

-Desgraçada!... exclamou Honorina abraçando sua amiga.

Sorriso amargo e irônico se derramou pelos lábios de Raquel, ouvindo a exclamação da moça.

Raquel havia mentido.