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Qual dos dois maridos será o mais infeliz?

Nas vésperas do grande dia, quando o Borges andava de baixo para cima, tratando de pôr em prática as ordens da mulher, deu cara a cara com o Barroso, uma noite em que entrava no Passeio Público.

Em outra ocasião, é possível que os dois companheiros de infância nem se cumprimentassem, pois nunca mais se tinham visto depois da resinga do casamento; mas encontrados assim, de supetão, ambos colhidos de surpresa, não puderam conter o clássico -Oh!- dos momentos de circunstância, e, quando deram por si, já estavam nos braços um do outro.

Ah! eles haviam sido tão camaradas, tão parecidos nos gostos e nos costumes! usando da mesma moral e dos mesmos princípios! Durante quarenta anos tinham seguido sempre a mesma linha tesa das conveniências comerciais; -O Borges, como sabemos, transviara-se com o impulso que lhe deu Filomena; mas o Barroso, não senhor! -foi cada vez mais acentuando a sua circunspecção e enrijando os seus créditos de homem sério.

De sorte que, atirados agora um defronte do outro, em flagrante contraste -o Barroso tão grave, tão ríspido, tão invulnerável dentro de seu paletó saco, fiel ao seu permanente chapéu alto de pêlo e ao seu guarda-chuva desenrolado; e o Borges tão catita, tão gamenho, tão moderno nos seus sapatões ingleses e na sua bengalinha de junco- não podiam fugir ao mais completo embaraço.

Sentaram-se ambos no primeiro banco, ao lado um do outro, sem uma palavra, mudos como dois frades de pedra.

Borges, no fim de alguns instantes de completo silêncio, caiu de novo nos braços do amigo e abriu a chorar copiosamente.

Não era o barão de Itassu quem chorava ali, era o João Touro, o primitivo, o bom João Touro doutros tempos, que agora reaparecia, como por encanto, à vista de um companheiro de seu doce passado, tão tranqüilo e singelo.

Chorou muito, muito, como se desabafasse naquele momento toda a acumulação de contrariedades, de desgosto e de fadigas, que se lhe foram amontoando no coração desde a primeira noite do casamento. Era um pranto velho, há muito tempo represado à falta de uma ocasião para rebentar.

O Barroso recebia no peito as lágrimas do antigo camarada, sem fazer um movimento, nem ter uma palavra para lhe dizer. Enquanto chorava o Borges, ele fazia por explicar a si mesmo como diabo se podia conciliar toda aquela lamúria com a jubilosa aparência do amigo.

-Não és então feliz com tua mulher?... perguntou-lhe afinal.

-Adoro-a! respondeu o outro, limpando os olhos.

-Então?...

-Mas é que a minha vida de casado tem sido uma tempestade constante! Ainda não o disse a ninguém, digo-to a ti, que és o único amigo em quem deposito confiança. Ah! não imaginas! não imaginas, Barroso, o que tenho experimentado! Não calculas de que força é minha mulher... bem me dizias tu...

-Mas por que não a pões a teu jeito, filho?

-Porque a adoro, como te disse. Porque só a idéia de lhe cair em desagrado me faz tremer!

-Pô-la a meu jeito -dizes tu! É que não a conheces!

É que, felizmente para ti, nunca te deixaste arrastar por uma paixão como a minha!

E, depois de uma pausa, enquanto o outro se torcia sob aquela expansão sentimental:

-Pô-la a meu jeito!... foi ela quem me pôs ao seu! Foi ela que me torceu a seu bel-prazer!

-Ora essa! E quem te mandou consentir?...

-Repito! nunca amaste, que se já o houvesses feito, não estranharias a minha fraqueza.

E, abaixando a voz, disse-lhe alguma coisa ao ouvido.

O Barroso fez um gesto de indignação.

-Desaforo! Não havia de ser comigo, juro-te!

-Ah! Só Deus sabe pelo que tenho passado!...

-Não! contradisse o Barroso... Não! Uma mulher dessa ordem, manda-a a gente plantar batatas!

-Impossível! Se te estou a dizer que a adoro!

O outro sacudiu os ombros:

-Não era isso o que ele supunha! Pelo que ouvira por aí, ia jurar que o Borges era o homem mais feliz do mundo!

-É o que todos julgam... tugiu o barão com tristeza.

-Pelo menos é o que leva a acreditar esse teu modo de viver, de tempos para cá! São só pagodes e mais pagodes! Eu... confesso-te -sempre estranhei!...

-Ah! gemeu o outro. Só Deus sabe quanto me custa tudo isto! Meu amigo vês-me a cara e não me vês o coração...

-Vamos tomar alguma coisa, disse o Barroso erguendo-se do banco e seguindo na direção do botequim. Creio que agora já bebes.

-Se bebo! tartamudeou o outro, acompanhando-o. Se bebo!

E foram ambos sentar-se a uma mesinha no lugar das bebidas.

-Pois muito me contas!... prosseguiu o Barroso, enchendo os copos de cerveja.

-E ainda não te disse nada!... acrescentou o Borges, a olhar muito sério para um buraco que fazia no chão com a ponta da bengala.

E depois, encarando o amigo:

-Mas, olha! Isto que não passe daqui. Imagina que papel faria eu, se viessem a saber que...

-Ó Borges! interrompeu o Barroso, ofendendo-se. Eu ainda sou o mesmo! Ainda sou aquele mesmo amigo para a vida e para a morte! Porque estás mudado e porque já não dás idéia do que foste, não se segue que os mais também se tenham transformado ! Oh!

-Bem sei, bem sei, meu bom amigo; perdoa! E olha, vai sábado lá a casa; a mulher arranjou uma festa... leva contigo quem quiseres.

-Sempre as festas! censurou o Barroso por acréscimo. Sempre as festas!...

-Que queres tu? Filomena obriga-me a essas coisas! Hoje, creio até que eu próprio já não poderia passar sem isso! Tudo vai do hábito!

-É imperdoável, mas irei, irei à tua casa...

E meneando a cabeça:

-Pobre Borges! Pobre Borges!

-Traze mais cerveja! disse este ao caixeiro, com uma voz plangente.

-Pois vais beber ainda?... observou o outro admirado.

-Quero festejar o restabelecimento de nossa amizade!

-Seja; mas eu não te posso acompanhar. Bem sabes que a minha conta é um copo...

-Sei, sei! Quantas vezes noutro tempo, assentados invariavelmente nos fundos da venda do Sampaio, não fiz caretas ao teu copinho de cerveja!

Então era eu quem se admirava de que «houvesse no mundo alguém que a bebesse por gosto»... entretanto... tu continuas a tomar a tua cervejinha todas as noites, ao passo que eu...

-Todas as noites..., confirmou o Barroso. É o meu vicio! Com a diferença de que agora, em vez de a tomar na casa do Sampaio, tomo-a quase sempre ao lado de minha mulher.

-É verdade! Não me lembrava que havias também casado. E como vais te dando com a vida?

-Bem! Não tenho razão de queixa! A Sabina, justiça se lhe faça, é uma excelente mulher! Bom gênio... acomoda-se com tudo,.. não gosta de festas!... Às vezes até é preciso que eu a obrigue a sair de casa para distrair-se um bocado, coitada!

-Sim? hein?

-Vivemos como Deus com os anjos!...

Houve uma pausa.

-Já temos um pequeno, sabes? ...acrescentou ele depois.

Borges continuou silencioso, a cabeça derreada numa taciturnidade invejosa. Só mudou de posição para esgotar o copo e tornar a enchê-lo.

-Ainda?! censurou o outro.

-Que queres, homem?!

E depois de alguns goles:

-Com que então, és feliz?...

E suspirou.

-Sou, graças a Deus! sou! respondeu o Barroso estirando-se na cadeira. Lá a minha Eva não é nenhuma senhora que meta vista, lá isso não é!... Ao contrário, coitada! não serve para se haver com etiquetas e cerimonias; porém, no que se diz -arranjo de casa, doçura de gênio, tratamento do filho e mimos cá com o nhô-nhô... nisso não quero que haja segunda! Meiguice ali! Ela é incapaz de uma resinga! Sempre a mesma! Sempre! Além disso muito asseada, muito amiga de arrumar e ativa, ativa que faz gosto! Ainda há pouco tempo ficamos três dias sem criada. Pois, filho! acredita que a Sabina, arregaçou as mangas, meteu-se na cozinha, agarrou-se a uma vassoura, e, tantas voltas deu, tanto virou, que a criada não fez falta! Foi preciso que eu ralhasse para a ver sossegar um instante! Não! como dona de casa não quero que haja outra!... mas também podes ver de que maneira a trato!...

-Ai, ai! suspirou o Borges. Garçom!, mais cerveja!

-Não bebas mais!, aconselhou o Barroso.

-Deixa-me!, balbuciou o outro limpando os olhos. Deixa-me!

Quando se levantaram para sair, o marido de Filomena, muito atacado dos nervos, muito excitado pela cerveja, chorava como uma criança.

-Consola-te, homem! dizia o amigo, batendo-lhe no ombro. Consola-te! Mais tem Deus para dar que o diabo para tomar!

Porém, no dia seguinte, quem fosse à casa do Sr. barão de Itassu, das nove da noite às seis da madrugada e o visse fantasiado de chicard no meio da dança, não seria capaz de acreditar que ali estivesse o mesmo homem da véspera.

Era de um efeito cômico o Borges de cabeleira de arminho e capacete com penacho vermelho. O seu vigoroso tipo de montanhês não se acomodava bem dentro da extravagante camisola de seda cor-de-rosa, franjada de ouro, que lhe mostrava os ombros e os grossos braços nus, e parecia reagir contra as pitorescas botas de montar, que lhe iam até o joelho.

-Falta-te qualquer coisa!... dissera-lhe a mulher a considerá-lo de alto a baixo, na ocasião em que ele lhe perguntou que tal o achava. Deves dar mais elasticidade aos movimentos; não trazer esse capacete assim caído sobre a nuca, e puxar o canhão das botas mais para cima.

Ela é que apareceu encantadora numa fantasia espanhola, que lhe deixava bem patente o rijo desenho do corpo e mostrava um princípio de pernas, parte do colombiano seio, e completo aquele famoso pescoço cor de camélia, tormento de muita gente nas poucas vezes que se expunha.

Os adoradores crivavam-no à ponta de olhares gulosos, e desfaziam-se em galanteios.

A festa foi no primeiro pavimento, e toda ela de um brilho original e deslumbrante.

Plantas e flores por toda a parte, entre decorações de bandeiras e galhardetes; longos rosários de pequenas lanternas redondas, desenhando os mais graciosos arabescos em uma bela variedade de cores; palmeiras, tinhorões, grutas artificiais, repuxos, sátiros e faunos, engendravam grupos artisticamente distribuídos.

A música, que não se sabia donde vinha, chegava às salas tépida, abafada e voluptuosa, como gemidos, beijos e soluços errantes pelo ar. A luz, à feição da música, era também distribuída suavemente, em tons opalinos e duvidosos.

Tudo era morno e misterioso: os tapetes de seda fina, imitando relva, bebiam o som dos passos; os coxins de damasco da Ásia, os divãs bojudos e rasteiros, como bonzos deitados de bruços no chão, tinham a maciez fofa e mole de carnes gordas; enquanto que dos maciços de verdura se desprendia, numa sutil pulverização, um delicioso chuvisco de perfumes, que adoçava e refrescava o ambiente e punha nos sentidos um vago entorpecimento de volúpia.

Como para contrastar com toda essa suavidade de tons e sons, havia no fundo do salão principal um enorme tímpano de metal polido, em forma de quadrante de relógio, que servia para marcar as várias peças da dança. Era bastante que o regente da orquestra tocasse, lá do seu esconderijo, num botãozinho elétrico, que tinha ao lado, para que o grande tímpano, nem só com um ponteiro, mas em badaladas sonoras, anunciasse por toda a casa a quadrilha ou a valsa que se ia dançar.

Um terraço, iluminado à luz elétrica, estabelecia comunicação entre as salas e a chácara, onde pequenos quiosques transparentes, como gigantescas lanternas de papel pousadas sobre a grama, ofereciam aos convidados a mais completa variedade de vinhos e refrescos.

-Com efeito! disse o Barroso, olhando com um ar de censura para tudo aquilo. Com efeito! É até onde pode chegar a maluquice de um homem!...

E não conseguiu reprimir a sua indignação ao ver o Borges aproximar-se dele aos saltos, agitando o irrequieto e escandaloso penacho do seu ofuscante capacete cor de prata:

-Que diabo é isso?!... exclamou, deste para maluco?! Pois não vês, homem, que já não te ficam bem essas coisas?!... Queres acabar num hospício?!... Ora, o que parece um marmanjão da tua idade a pular no meio da casa, vestido de princês?!...

-Que queres, meu amigo?... o amor! o amor! disse o Borges, procurando ser grave e conseguindo apenas ficar mais cômico debaixo da sua cabeleira a Luís XV.

-Qual o amor, nem qual carapuça! retrucou o outros ralhando. Eu amo muito minha mulher., e ai dela se me viesse para cá com pantomimices dessa ordem!

-É por que não estás nas minhas condições! Fosses tu casado com Filomena e dir-me-ias depois!

-Qual o quê!, contradisse o Barroso. Tu o que precisavas era de um cáustico na nuca!

-Mas, com a breca! querias então que eu contrariasse minha mulher?!... repontou o Borges, perdendo a paciência. Que diabo! eu desejava estar casado de outro modo!... juro-te que preferia uma esposa como dizes ser a tua!... Mas a sorte não quis assim; que lhe hei de eu fazer?... Agora é levar a cruz ao Calvário! Se eu não a estimasse, bem! mas eu adoro-a, como já te confessei um milhão de vezes; e ela, meu amigo, formosa, querida, desejada como é, vendo-se contrariada, seria, em represália, muito capaz de fugir dos meus braços para os de outro qualquer!

-Pois que fugisse! É boa!

-Que fugisse, não! bradou o Borges encolerizando-se. Vai para o diabo com o teu agouro! Prefiro tudo a ver-me privado da sua companhia! Serei um louco, um libertino, um criminoso, se preciso for, contanto que a tenha sempre ao meu lado, que a veja, que a sinta, que a ame, que a possua! Deixá-la ir! E nesse caso de que me serviria a vida?... Sem ela de que me serviria a posição social, a estima pública e todas as grandezas da terra?!

-Não era dessa forma que me falavas há poucos dias... observou o Barroso, deveras surpreso com a transformação rápida que se acabava de operar no amigo.

-É que então não me aconselhavas que a deixasse fugir de meus braços!... respondeu o marido de Filomena.

-O que te afianço, acrescentou o outro, é que, se desconfiasse que havias de mudar tão depressa, não teria vindo à tua casa...

-Estás arrependido?...

-Não, filho! não estou arrependido... mas é que ainda há tão poucos dias tu te queixavas daquela forma de tua mulher, e hoje saltas-me com três pedras na mão, só porque eu...

-Ah! tornou o Borges, passando o braço na cintura do amigo e procurando falar-lhe em segredo. Ah!... é que nesse momento eu estava longe de Filomena, fora do alcance de sua fascinação, do perfume de seus cabelos, do eco de sua voz, da reflexão de seus olhos?

O Barroso fitou-o assombrado, e fez um gesto para fugir-lhe do braço. Que diabo de palavrório era aquele?!...

O outro não fez caso e segurou-o melhor.

-Vê! ... disse-lhe entusiasmado apontando para a mulher, que atravessava a sala próxima. Olha! Vê como vai formosa! Contempla aquela garganta de mármore, aquele porte de rainha egípcia; aqueles olhos mais formosos que as estrelas! Contempla-a toda, e dir-me-ás depois, desgraçado! se há no mundo coisa alguma que valha a posse de todo aquele tesouro vivo e palpitante!... se há coisa alguma, seja ela a doçura do lar, as glórias do talento, a consolação do trabalho, as honrarias sociais, o respeito, o acatamento de seus semelhantes, o amor de uma geração inteira -se há alguma coisa que possa corresponder à suprema ventura de ser seu escravo!

-Tu bebeste demais! exclamou o Barroso, conseguindo afinal arrancar-se-lhe dos braços.

-Ainda não bebi demais! respondeu o barão, fazendo um gesto dramático.

-Mas lembraste a propósito: champanha! exclamou para um criado. Champanha! Depressa!

E depois, erguendo a taça, que se lhe entornava sobre os dedos: -Ao amor, Barroso! Ao sempre belo! ao sempre novo! ao nunca vencido! ao amor!

-Estás insuportável! resmungou o amigo, pensando já em escamugir-se na primeira ocasião.

E mal pilhou uma escapula, foi-se.

Em casa, a mulher, que ainda estava de pé, admirou-se de o ver entrar tão cedo.

-Pois eu estou lá disposto a aturar bebedeiras de quem quer que seja?! ... exclamou ele, desabridamente, a desenfiar a sobrecasaca. O Borges está insuportável! Está um libertino! A mulher faz dele o que quer. Eu, se adivinhasse semelhante coisa, até nem lhe tinha falado quando o vi! Um pancada!

-Mas que fez ele?... perguntou D. Sabina, emperrando com as palavras do marido.

-Ora! Faz todas as loucuras que vêm à cabeça da mulher! Não imaginas!... É bastante que ela mostre desejo de uma coisa, seja qual for, a mais extravagante, a mais irrealizável, aí está o homem tratando de pô-la em prática! Deus te livre!

-Então faz-lhe todas as vontades?...

-Pois se ele está apaixonado loucamente pela mulher! se está mesmo pelo beiço!

E o Barroso passou a contar tudo o que presenciara a respeito do Borges.

-Sim senhor! disse D. Sabina, quando ele terminou. Sim, senhor! É um marido às direitas! Assim é que eu os entendo -ou bem que um casal se ama ou bem que se não ama!

-Que é lá isso?... perguntou Barroso espantado. -Pois achas que aquele idiota procede bem, fazendo todas as vontades à mulher?!

-De certo! acudiu Sabina -de certo. E há de ser muito amado e muito respeitado pela esposa. Eu, no caso dele, faria o mesmo. Pois se a mulher é todo o seu encanto, todo o seu feitiço, nada mais natural que o homem lhe faça as vontades para vê-la feliz e satisfeita. Não tem que saber -gosto do Borges! É um marido que me enche as medidas!

-Ora! ora! ora! fez o Barroso, sacudindo a cabeça -ora esta!

Sabina prosseguiu:

-De uma mulherzinha como a dele é que você precisava para o ensinar, seu unha de fome! Não devia ser uma toleirona, como eu, que levo aqui a matar-me, às vezes até fazendo o despejo! E quando quero ir a qualquer divertimento, quando apeteço um teatro, um passeio, uma visita, ou quando preciso de um vestidinho mais assim ou de um chapéu mais assado, você nunca está pela coisa!

-Porque não sou doido! respondeu o Barroso com mau modo. -Estaria bem servido se fosse a fazer-te todas as vontades! -a estas horas não teria onde cair morto!

-Ora, não me venha contar histórias, seu Barroso! Não haviam de ser essas misérias que o poriam mais pobre! Hoje, por exemplo... por que não me levou à casa de seu amigo?... Eu tinha tanta vontade de lá ir!... Dizem que estava tudo preparado com tanto luxo, tão bonito!... E você, só para não me fazer a vontade, deixou-me ficar em casa!

-Pergunta antes se tinha dinheiro para te levar!

-Lá vem a tal história do «pergunta se eu tenho dinheiro!» O mesmo não diz você aos procuradores dessas sociedades, que não lhe largam a porta! Principalmente a tal Maçonaria! Meu Deus, é um cesto roto para comer dinheiro! Entretanto, o mais insignificante objeto de que eu precise...

-Olha! queres saber de uma coisa?! exclamou o Barroso, interrompendo-a. -Não estou disposto a ouvir essa lengalenga! Por hoje já basta de maluquices! Se te não levei à casa do Borges foi porque não quis, entendes tu! Porque não quis! e não tenho que te dar satisfações! Ora, vamos a ver se temos aqui a Filomena Borges!

-Ah! fale assim! retrucou a mulher enraivecendo-se. -Fale desse modo e não venha para cá com fingimentos! Você não me levou à casa do barão, porque teve pena de comprar um vestido! porque não teve coragem para alugar um carro! Sumítico!

-Ó mulher! berrou o marido. -Já te disse que não estou disposto a essa siringação!

-Pois que não esteja! Eu também não estou disposta a muita coisa e vou agüentando! Só não pilho o que desejo! -Há mais de uma semana pedi-lhe que comprasse um tapete, ali para o pé da cama, que, sempre que me levanto, é uma constipação certa -e, que é dele?!

Aí temos outra!

-Pois se é assim mesmo! Eu nada lhe peço que você faça!...

-Não tenho onde cavar dinheiro! Arre!

-Mas tem por fora onde enterrá-lo! Quem sabe se o Borges é mais rico do que você?!

-Mulher! mulher! mulher! Estás a fazer chegar-me a mostarda ao nariz!

-Diabo do sovina!

-Cala esta boca, demônio! trovejou o Barroso, ameaçando a mulher com o punho fechado.

-Bate, malvado! guinchou ela, empertigando-se com as mãos nas cadeiras, lívida, defronte do marido. Bate! Também é só para que serves. Ordinário!

E, voltando-se com desprezo. -Um pulha desta ordem a querer falar dos outros! -Por isso é que se vê tanta coisa por aí!

-Hein?! berrou o marido, saltando para junto da mulher. Que é que se vê por aí?! Hás de dizer o que se vê por aí!

-Hás de dizer! hás de dizer!

E cego de cólera, a sacudir um braço de Sabina:

-Solte-me o braço, seu bruto!

-Atrevida! Quero só que vejam a intenção perversa daquela ameaça!

E empurrando-a: -Vai-te peste! Vocês são todas a mesma súcia! E ainda há quem dê os homens como culpados das patifarias das mulheres!...

-E são! respondeu Sabina. E são! E fazem elas muito bem! Era do que você precisava para não ser bruto!

O Barroso, que se havia afastado, volta rapidamente ao ouvir a nova ameaça, e com tal força arremessou um pé contra a mulher, que a fez ir aos trambolhões de encontro à mesa de jantar.

-Bate, danado! bate! que não me hás de tapar a boca!

O pequeno, no quarto, acabava de despertar com o barulho e pôs-se a fazer berreiro.

A mulher correu logo para junto dele e foi lhe assistindo palmadas nas perninhas tenras, a exclamar:

-Tu também, pestezinha? tu também queres entrar no sarilho?! Pois toma! Toma!

E o pequeno redobrava a gritaria na proporção das palmadas.

-Não mates a criança! rugiu o Barroso, puxando a mulher pelo braço e fazendo-a cair por terra. Ela não tem culpa que a acordasses tu com os teus berros!

-Dou! posso dar! retorquiu Sabina, esganiçando-se. É meu filho! não é seu!

-Não é meu, cachorra?!

E a pancadaria recomeçou.

Mas afinal, a desgraçada foi deitar-se, a chorar, a maldizer-se, e o marido daí a pouco fez o mesmo, ao lado dela, resmungando.

Algumas horas depois dormiam profundamente nos braços um do outro.

-Vivemos como Deus com os anjos!... balbuciava ele, sonhando, a conversa que tivera com o Borges no Passeio Público. -Meiguice ali!... Mas também podes ver de que maneira a trato!

Ah! hipócritas! hipócritas!

Amor de Filomena

Por esse tempo a festa do Borges atingia o seu apogeu.

Chegava ao momento do completo delírio, do prazer sem bordas que embala e arrebata os sentidos, como um vasto oceano de delícias, sem horizontes. Chegava ao ponto em que a gente perde a noção justa das coisas e cai num doce modorrar voluptuoso e alheado; quando tudo o que nos cerca vai-se confundindo, dissolvendo, perdendo os contornos num esbatimento de sonho; quando todos os hálitos se misturam no ar; quando os perfumes das mulheres, os gemidos das rabecas, e todas as cintilações da carne, e todas as rebrilhações dos diamantes se fundem e confundem numa atmosfera opalina, que nos penetra até os mais íntimos refolhos da alma.

Mas, no meio de tanta delícia, Filomena recebeu em pleno coração um abalo que ela estava longe de prever.

Este abalo foi causado por uma carta caída do cinto do marido. Filomena apanhou-a, refugiou-se no quarto, abriu-a e leu-a.

Era dirigida por aquela célebre viúva rica, a Chiquinha Perdigão, a mulher de firma comercial, a mesma que em algum tempo tentara seduzir o Borges e que, afinal, a julgar pelo sentido do que vinha escrito, conseguira pouco mais ou menos os seus desígnios.

Eis o que dizia ela, à tinta encarnada, numa pequena folha de papel de seda, rescendente a couro da Rússia:

«Querido barão.

Em data de ontem, recebi a sua amável cartinha e tenho o mais vivo prazer em cumprir com o que ela me determina.

Não sei o que vou ouvir de seus lábios, mas adivinha-me o coração que não será nada de mau.

Durante a sexta quadrilha estarei à sua espera no caramanchão que fica ao fundo da avenida de bambus.

A essa hora ninguém se lembrará de lá ir, e poderemos então conversar à vontade, sem que D. Filomena venha a suspeitar de nossa entrevista.

Por mais cautela levarei um dominó escuro, que previamente ficará depositado no gabinete das senhoras, e acho que o barão deve também se disfarçar com outro dominó.

Por conseguinte, não se comprometa com pessoa alguma para a sexta quadrilha e, à hora marcada, esteja no ponto, sem falta.

Aquela que o estima e sempre o estimou,

C. Perdigão

-Miseráveis! exclamou Filomena, amarrotando a carta. -Miseráveis!

E, depois que o seu pensamento percorreu num vôo toda a órbita do fato que ali estava provado naquele pedaço de papel, sentiu uma grande indignação pelo marido.

-Trair-me! Trair-me o infame! E logo com quem?... Com a Chiquinha! ... uma mulher que pinta os cabelos e usa enchimentos de algodão! Oh! É indigno!

E, sem se poder dominar, deixou-se possuir de um desespero sombrio, de uma aflitiva sede de vingança; mas, caiu logo em si, e circunvagou olhares sobressaltados, como se receasse ser apanhada na intimidade daquele sofrimento.

Desconheceu-se.

-Pois que... teria ela ciúmes do marido?... Seria crível que ela -Filomela Borges!- amasse aquele homem, aquele impostor?! Oh! não! não era possível!

Ergueu-se da otomana, em que se havia prostrado, e pôs-se a passear pelo quarto, rindo nervosamente, a afetar que não ligava «a menor importância àqueles amores ridículos do marido.»

-Que amasse! que amasse à vontade a quem melhor entendesse! que diabo tinha ela com isso?!...

E, sentindo um novelo enrodilhar-se-lhe na garganta, foi à janela e abriu-a bruscamente de par em par.

Sua fantasia fugiu logo noite fora, como ave ominosa e amiga das trevas e do silêncio. E ela ficou, ficou a olhar, a olhar para o espaço, como se acompanhasse com a vista o doido remigiar do pássaro fantástico e agoureiro.

A noite era calma e de uma transparência azul. Sentiam-se no ar emanações balsâmicas que se despediam do jardim, onde ainda bruxuleavam tristemente os últimos balõezinhos venezianos; ao passo que das salas do primeiro andar, em um tom cansado e arquejante, subiam de rastros longos gemidos de outras valsas alemãs.

Filomena apoiou os cotovelos no balcão da janela, cobriu o rosto com as mãos e pôs-se a chorar.

Nisto, a lua, afastando a cortina de nuvens que a velava, entornou da concha de prata a sua luz tranqüila e misteriosa, que é, como um doce orvalho, refrigerante para os corações abrasados na febre do amor.

Então uma infinidade de considerações veio grupar-se no espírito magoado de Filomena Borges.

Agora, que pela primeira vez o esposo lhe aparecia capaz de esquecê-la por outra, é que ela o desejava e queria como nunca. As palavras da viúva enchiam-na toda de um amor inesperado e punham-lhe no espírito o sobressalto de quem dá de repente pela falta de um objeto precioso que trazia consigo; enquanto a pontinha sorrateira de um nascente remorso aproveitava a perturbação em que ela estava para ir desfibrando, um por um, todos os véus que escondiam as qualidades simpáticas do marido.

E o vulto do Borges, à proporção que se descobria aos olhos da mulher, ia crescendo, crescendo, e tomando dimensões extraordinárias.

-Filomena já o via generoso, bom, intrépido e apaixonado. -Sim!... murmurou ela, como se despertasse de um longo entorpecimento. -Sim!...

Ele era digno de muito mais amor! É um homem completo, um coração enorme, um caráter sublime! Eu, só eu, fui a culpada de o haver perdido: nunca o apreciei devidamente! nunca lhe paguei em amor bastante tudo que a sua dedicação punha aos meus pés! Imprudente que fui!... Mas ele?! ... Ele! como pôde esquecer-se de mim por aquela mulher detestável?! Oh! Eu detesto-o! Eu abomino-o!

E, escondendo de novo o rosto, abriu de novo a chorar.

Estava agora mais formosa na sua fantasia espanhola: toda vergada sobre o balcão da janela, os quadris empinados, suspendendo um pouco mais a saia de seda amarela, guarnecida de rendas pretas; as pernas cruzadas, os ombros vagamente iluminados pela lua, faziam estranha harmonia naquela expressão de angústia, casada com o salero de seu tipo a Fortúnio.

Mas um beijo à queima-roupa, recebido em cheio no pescoço, fê-la soltar um grito e voltar-se rápida como uma espada em duelo.

A seu lado tremulava o irrequieto penacho vermelho do marido, cujas mãos lhe haviam já empolgado a cinta e a puxavam brandamente sobre ele.

Filomena, em vez da costumada resistência, passou-lhe os braços em volta do pescoço e começou a disparar-lhe beijos por todo o rosto, com um tal ardor e com uma tal obstinação, que o pobre homem, pouco habituado àqueles ataques, esteve a perder o fôlego.

-Upa! exclamou ele afinal, atordoado e cheio de espanto.

A mulher fitou-o por alguns segundos e, de repente, atirou-se-lhe de novo nos braços como uma descarga. O Borges, ainda desorientado com a primeira, hesitou entre a resolução de fugir ou implorar graças. Daquela forma a mulher dava-lhe cabo do canastro!... Que menina!

-Tu amas-me Borges?! interrogou ela, segurando-lhe as mãos com transporte.

-Ora, que pergunta! Pois ainda tens alguma dúvida a esse respeito?

-Não sei! Quero que respondas! Quero que digas se me amas, se és só meu!

-Oh! Tu até me ofendes com isso, filhinha! Bem sabes que sim... mas, anda daí. Há meia hora que estou à tua procura... alguns dos nossos convidados já se querem raspar. Anda, vem daí!

-Não! Espera, espera um instante! Desejo ter-te ainda algum tempo nos meus braços! Não me fujas! Vem cá!

O Borges, cada vez mais surpreso, não teve forças para resistir, e os dois, assentados no mesmo divã, abraçados como dois amantes de quinze dias, juravam e tornavam a jurar uma afeição eterna, quando, no fim de meia hora, o sinal da sexta quadrilha os foi interromper.

-Ouviste? exclamou ele, pondo-se de pé. -Vão tocar uma quadrilha; não devemos ficar aqui. A caminho!

-É a sexta, disse Filomena.

-É! é a sexta... repetiu ele.

-Pois vamos. Serás o meu par; ainda não dançaste hoje comigo...

-Impossível, balbuciou o Borges, já tenho par. Dançaremos a seguinte.

-Não quero! Quero esta!

-Mas, meu amor, se te estou dizendo que...

-Quem é o teu par?!

-É...

-A Chiquinha... Aposto!

-É exato, é justamente a Chiquinha, disse o marido enrubescendo.

-Pois vai! Vai!, respondeu a mulher repelindo-o. Eu fico.

-Ficas aqui?

-Fico.

-E os nossos convidados?...

-Que esperem.

-Acho que fazes mal; devias dançar.

-Só dançaria contigo...

-Então, até logo.

-Até já.

E ele foi-se.

A mulher, mal o viu pelas costas, correu ao guarda-roupa, abriu-o, sacou um dominó preto, enfiou-o rapidamente no corpo, pôs máscara, tomou o seu chicote de montaria, e, depois de vencer ligeira o segundo andar, ganhou as escadas do fundo e desapareceu.

Atravessou a chácara como um pássaro que foge, entrou na avenida de bambus e dirigiu-se ofegante, trêmula, para o ponto da entrevista.

A fronde compacta de árvores e o tear das trepadeiras acumulavam sombras. Filomena embrenhou-se por entre elas, só diminuiu a força da carreira nas proximidades do caramanchão.

Ao entrar sentiu dois braços prenderem-lhe o pescoço, ouviu uma voz que se queixava de medo, enquanto um corpo de mulher procurava unir-se ao dela.

Filomena recuou incontinenti, e, puxando da chibata, remeteu duas vergastadas contra o dominó que tinha defronte de si.

Este soltou um grito, menos de raiva que de dor e, arrancando a máscara, exclamou:

-Barão!

-Não é o barão, é a baronesa!, respondeu a outra, tirando também a sua máscara.

-A senhora?!

-Sim! A quem queria trair, miserável!

-É falso!

-Nem uma palavra, e some-te daqui já!

-Mas ouça-me!

-Não quero ouvir nada! Sai já de minha casa! Traidora! Põe-te já daqui para fora, se não queres ser desfeiteada lá em cima, na presença de todos os meus amigos. Rua!

A viúva soltou uma rabanada e fez menção de entrar na avenida de bambus.

-Não! disse a baronesa, cortando-lhe a passagem. Não hás de sair pela frente; passarás por onde sai a gente de tua espécie!

E levou-a aos empurrões até os fundos da chácara, onde havia um portão, que Filomena abriu, dizendo:

- ai, e quando me vires em qualquer parte, abaixa os olhos!

-Havemos de nos encontrar! ... ameaçou a viúva, depois de atravessar a porta. Juro-te que me pagarás tudo isto!

-Rua! insistiu Filomena, fechando a porta com estrondo; e, já de volta ao caramanchão, disse entredentes:

-Agora o outro!...

Ao chegar aí, um calafrio percorreu-lhe o corpo -já lá estava o marido.

Não disfarçado de dominó, como recomendava a carta, mas com a sua camisa cor-de-rosa, as suas botas de montar e o seu penacho vermelho.

E passeava de um para outro lado, cheio de preocupação, as mãos cruzadas atrás, o capacete na nuca, o ar de quem espera no corredor que lhe abram a porta da sala.

Filomena armou a máscara no rosto, conteve o melhor que pôde a sua cólera, e avançou de braços abertos para o chicard.

Mas qual não foi a sua surpresa ao ver-se repelida brandamente por ele!

-Perdão, disse o Borges, a senhora pelo que parece, compreendeu mal o meu convite.

E oferecendo-lhe lugar num banquinho que havia perto:

-Tenha a bondade de sentar-se. Não levarei muito tempo a dizer o que me obrigou a incomodá-la. Devia ter ido procurá-la em casa, mas é que se trata de um negócio urgente, muito urgente, um verdadeiro aperto! Um aperto sério! Se amanhã não conseguir levantar vinte mil cruzeiros, estou perdido! Não me convém recorrer aos bancos por todo este ano...

E, vendo que a suposta viúva não ia ao encontro de seu pedido:

-Podemos arranjar uma hipoteca... se não lhe convém o n. 6 das Laranjeiras, vê-se outro, contanto que...

E já incomodado com o silêncio do dominó:

-Creio que a proposta é razoável... Que acha?... A senhora pode servir-me, se... Não quis falar ao Fontes, o seu sócio, sem saber de antemão se podia contar com o seu apoio.

Novo silêncio.

O Borges, já enfiado, caiu então nas minudências comerciais. Falou de letras, transações, lembrou firmas, com que ele podia contar.

Porém o silêncio continuava.

-Então?! Que diz?! Perguntou ele, muito desconcertado.

Filomena arrancou a máscara e atirou-se-lhe nos braços desfeita em soluços.

-Tu?! Que significa isto?!

Ela puxou do bolso a carta da viúva e entregou-a ao marido.

-Pois imaginaste que eu seria capaz de... oh!...

E ferido de súbito por uma idéia:

-E ela?! A viúva Perdigão, que fim levou?!

Filomena contou-lhe o que se havia passado.

Borges deixou cair a cabeça, as mãos:

-Fizeste-a bonita!... exclamou ele. -Vais ver as conseqüências!

-Que queres? Tive ciúmes! balbuciou a mulher. Dizem tanta coisa da Chiquinha, que...

-Tolinha! interrompeu o marido, abraçando-a de novo.

-E por que não me falaste com franqueza?... acrescentou ela.

-Temia afligir-te...

-Fizeste mal! Se me tivesses prevenido, nada disto sucederia!

E notando o acabrunhamento do esposo:

-Mas, enfim que há?! Creio que agora já posso saber! De que apuros falavas tu ainda há pouco?...

-Estou sobre um abismo! disse o Borges, afinal -sobre um abismo, minha querida! Se não arranjar certos negócios até o vencimento de umas letras que tenho, creio que irá tudo por água abaixo! A ruína será inevitável!

-Pois que venha a ruína! respondeu Filomena erguendo-se. Eu terei bastante coragem para afrontá-la!

Novas torturas

O Borges não conseguiu arranjar os tais negócios de que tratava, e a roda de sua fortuna recebeu o primeiro impulso para desandar.

Desde então tudo lhe foi contrário; todas as suas especulações falharam; todos os capitais que arriscou foram-se pela correnteza.

A idéia de uma ruína completa torturava-o principalmente por causa de Filomena.

-Que seria, se lhes viessem a faltar os elementos do luxo e do prazer?... Desgraçado que sou! pensava ele. Agora que possuo a confiança e a dedicação de minha esposa, é que a fortuna entende de se ir embora! De que me serve uma coisa sem outra?!

E na sua febre de agarrar pela nuca a deusa que lhe fugia, arriscou tudo que lhe restava: vendeu casa, empenhou títulos e atirou-se ao jogo como a uma tábua de salvação. As suas propriedades foram desaparecendo a pouco e pouco, passando a outros; as suas ações de várias companhias foram-se dissolvendo; as suas apólices derretiam-se; os seus últimos recursos evaporavam-se.

Viúva Perdigão & Cia. Faziam-lhe uma guerra atroz; para qualquer lado que se voltasse o Borges encontrava logo a sanha implacável do inimigo. E tudo parecia apostado para destruí-lo, para matá-lo por sua vez. Um jornal diário, de grandes proporções, comercial, amigo do governo, em cuja fundação Borges arriscara cinqüenta mil cruzeiros, acabava de estalar, como estalou o Banco Mauá onde ele possuía em depósito o duplo dessa quantia.

Porém o seu maior desastre foi com as empresas teatrais: o Borges, que ultimamente freqüentava todos os teatros, aparecendo familiarmente nas caixas, não podia passar despercebido aos empresários vazios de dinheiro e transbordantes de projetos e planos gigantescos.

Vira-se em breve cercado de homens de todos os matizes e nacionalidades, que desejavam associá-lo em mil empresas diversas. Um queria estabelecer um grande «jardim-recreio», no qual, à moda do antigo Tivoli parisiense, se encontrasse toda a sorte de divertimentos -representação, sala de tiro, dança, concerto, apostas, e uma infinidade de jogos para toda a espécie e categoria de gente: outro pretendia inaugurar o teatro nacional «levantar a pobre arte dramática brasileira, que João Caetano plantara com tanto gênio!»; outro queria desenvolver o Alcazar, fazer ver uma boa companhia francesa; outro queria a ópera em português, com música nacional e cantores estrangeiros; este trazia o plano de um circo de cavalinhos; aquele o projeto de uma tourada; aquele outro a idéia de um Skating-Rink.

E na fúria de ganhar dinheiro às pressas, Borges, se não aceitou todas aquelas propostas, aceitou grande parte. E tudo isso rebentou, e tudo isso deu com os burros n'água, e os capitais do marido de Filomena acompanharam os burros.

Afinal, restava-lhe apenas uma empresa; também, essa a mais importante e felizmente nada tinha de comum com os teatros: -Tratava-se pura e simplesmente de explorar o carneiro.

-Essa indústria completamente desconhecida no Brasil, dizia o proponente, espanhol sagaz e viajado -essa indústria, Sr. Barão, está destinada a representar um papel importantíssimo neste belo pais. Ela virá fornecer ao povo elementos novos de riquezas; aumentará o valor das terras, equilibrará os capitais, reformará a vida dos agricultores, educará o fazendeiro, dando-lhe novos conhecimentos zootécnicos, novos costumes e novas necessidades: enfim, essa indústria está destinada a fazer aqui uma revolução econômica e social, e levar à posteridade o nome daquele que entre nós a firmar corajosamente, como em Buenos Aires sucedeu com o cônsul norte-americano Haley.

O Borges podia, se quisesse, nem só fazer uma fortuna colossal, como ainda imortalizar-se.

Aí estavam os exemplos da Austrália, do Cabo da Boa Esperança e da República Argentina, os três grandes fornecedores de lã para o mundo inteiro. Ora, por que razão o Brasil, situado tão perto dessas regiões; o Brasil que não está sujeito aos frios da Austrália e aos bochornos do Cabo, por que razão o Brasil não havia de explorar o carneiro?! A alimentação desse precioso animal seria muito mais fácil aqui do que em outra qualquer parte!... Aqui, com as nossas vastas campinas, sempre cobertas de verdura, não se daria o que se dá na Europa, onde a carestia de feno constitui o maior tormento dos criadores de gado lanígero.

E fazia cálculos, apresentava cifras muito bonitas -três tosquias por ano- mais de quinhentos por cento de lucro! E citava os carneiros preferíveis ao Brasil, falava com entusiasmo no merino espanhol, melhorado pelos métodos zootécnicos, o merino da Saxônia, o Bambouillet, o merino da Mauchamp, o merino Loyeuse, os de Lanraguais, os dishley de Montecavrel, o negretti eleitoral! E se o Borges também quisesse explorar a carne do carneiro, podia importar da Inglaterra os Southdown, os Dixley, os Dixley-Leicester, conhecidos pelo nome de -raça precoce, e cujo esqueleto diminui na razão do aumento das banhas e da carne.

Acumulava termos técnicos; fazia divisões de espécies, lembrava os carneiros braquicéfalos e os carneiros dolicocéfalos.

O Borges sucumbia debaixo dessa terminologia estranha aos seus ouvidos.

-E o leite?! gritava o espanhol. -Quem poderia impedir que o Barão, com o leite de suas ovelhas viesse a fazer concorrência aos célebres queijos de Roquefort?... E o comércio das peles? ... Para o curtume das peles bem se podia aproveitar com vantagem a casca de certas árvores brasileiras muito abundantes e não fazer como o Rio da Prata, que exporta as suas peles em bruto. Enfim, o sr. barão, para v. s. ter idéia do lucro fabuloso que vamos fruir com os nossos carneiros, basta considerar que, só com o produto do esterco, vendido pela mínima, temos quase salvo o capital! Berion trata disso minuciosamente! Leia o grande veterinário Sanson! Leia José Hernandez!

O Borges só compreendeu que era o único carneiro explorado naquela empresa, no dia em que viu o espanhol desaparecer, levando consigo o dinheiro que lhe pôde apanhar.

Dizia-se que havia fugido para S. Paulo; Borges, sem perda de tempo, tomou o caminho dessa província; mas os seus esforços foram baldados -ninguém lhe soube dar notícias do gatuno.

Contudo, a viagem sempre lhe aproveitou alguma coisa: pareceu-lhe que em S. Paulo faria dinheiro; o caso era achar um amigo que lhe desse a mão, e dispôs-se a labutar com o mesmo ardor de quando principiou a vida.

-O mesmo ardor! ... Ah! mas nesse tempo não conhecia ele outra preocupação que não fosse o seu trabalho! Nesse tempo não tinha vícios, não tinha desgosto, não tinha inimigos, não tinha responsabilidades sociais!

Onde iria ele agora descobrir a coragem e a resignação que dantes possuía?! ... Como levantar-se às seis da manhã e só deixar o serviço às seis da tarde?!

Entretanto, estava disposto a principiar de novo a existência; chegou mesmo a fazer algumas propostas de construção; agora toda a dificuldade era descobrir o tal amigo que o ajudasse!

Voltou à corte; percorreu os bancos, consultou vários negociantes -nada! A viúva Perdigão cortava-lhe todas as vazas.

Mais ainda havia o Barroso. -Era impossível que esse também lhe virasse as costas,

Procurou-o.

-Homem, filho!, respondeu o austero marido de Sabina, -Para falar-te com franqueza, não vieste bater a muito boa porta -não estou, para que digamos, em estado de arriscar a quantia que desejas; mas enfim..., havemos de ver...

-Porém é necessário tratarmos disto quanto antes! -observou o Borges. Estou com a corda no pescoço; tenho de seguir de muda para S. Paulo até o fim do mês; não posso ficar nem mais um instante no Rio de Janeiro!

-Havemos de ver!... Havemos de ver... e como vais tu com tua mulher?

-Assim-assim... ela ultimamente está mais meiga e menos caprichosa. Mas então prometes que para a semana realizamos o negócio?

-É possível! É possível! disse o Barroso fugindo ao assunto. Pois lá a minha Sabina continua no mesmo. Não! nisso tenho sido feliz...

O barão tornou a puxar a conversa para o seu negócio. O outro, afinal, prometeu ajudá-lo.

Mas, desde esse dia, Borges principiou a não encontrá-lo em parte alguma, até que uma vez, indo procurá-lo em casa, antes das sete da manhã, e tendo penetrado familiarmente pela chácara, ouviu o amigo ordenar à mulher em tom misterioso:

-Dize-lhe que não estou. Ora sebo! Não gastasse o que tinha! Ninguém está disposto a se amolar pelos outros!... Fosse mais poupado, fizesse como eu! É boa!

Borges voltou na ponta dos pés, sem esperar a resposta. Ia aniquilado, desiludido.

-Pois até o Barroso?!... O único amigo em que ele ainda depositava confiança! O seu velho camarada dos primeiros anos! O seu companheiro de lutas! O seu «outro eu»! também lhe voltava o rosto, também o repelia?! Oh! Com efeito!

Chegou à casa desorientado, perdido. Já lá estava uma carta anônima à sua espera, para mais lhe envenenar a ferida. Era do Guterres, naturalmente; talvez da viúva Perdigão, talvez do Barradinhas!...

O pobre homem, depois de lê-la, atirou-se à cama, desesperado, mordendo os travesseiros para abafar os soluços e não ser ouvido pela esposa.

Esta, porém, correu ao encontro dele, tomou-o nos braços, consolou-o com os seus beijos e procurou transmitir-lhe a sua coragem.

-Não desanimes! bradava-lhe. -Não desanimes, que o mundo é vasto e havemos de descobrir um canto, onde se possa abrigar o nosso amor! Deus há de proteger-nos!... Enquanto tivermos um pouco de sol, um pouco de ar e um pouco de azul, não nos devemos revoltar contra o destino!

Mas os credores surgiam de todos os lados. Era preciso entregar tudo, despedir os criados, abandonar aquela casa, aqueles trastes, os cavalos, os carros, as telas preciosas, as porcelanas de sèvres, os talheres de vermeil.

-Seja! exclamou ela, atirando-se radiante nos braços do marido. Que levem tudo, contanto que tu fiques!

E com a estreiteza da situação redobrava o seu amor pelo Borges, como se o reflexo de toda aquela desgraça o tornasse maior e mais brilhante aos olhos dela.

E, na ocasião de sair, antes de abandonar o ninho, Filomena, entre os trastes desarrumados para o leilão, na desordem daquela casa esplêndida que eles iam deixar para sempre, soltou uma gargalhada, foi buscar a última garrafa de champanha que havia na sua adega, outrora tão rica, quebrou-lhe o gargalo de encontro ao mármore secular de um móvel, e, enchendo uma taça, e colando os lábios nos do marido, e chorando de prazer, brindou à nova existência que se ia abrir defronte deles alegre e luminosa, como uma aurora que surge.

Miséria

Seguiram para S. Paulo, quase sem recursos, levando as jóias na algibeira e, todavia, satisfeitos, cheios de esperança, orgulhosos daquela situação extraordinária, que os unia mais, que os identificava e como que os tinha abraçados e enleados pela mesma desgraça, cosidos dentro da mesma mortalha.

Hospedaram-se no Grande Hotel, fazendo uma existência difícil, vivendo de expedientes, empenhando diamantes, jogando.

Foi então que se manifestaram em Filomena os primeiros sintomas de gravidez, e este fato, que noutro tempo teria causado a felicidade do pobre Borges, agora representava nada menos que um novo obstáculo a vencer.

Ah! O bom homem fazia esforços supremos para não deixar transparecer o quanto sofria com aquele viver tão contrário ao seu gênio! Mostrava-se forte, resignado, seguro numa fé que não existia, falando a cada instante de fortunas imprevistas, sonhando acasos de grande felicidade que, de um momento para outro, lhe restituíssem a sua antiga posição.

Mas passavam-se os dias, e a fortuna sempre esquiva. Embalde furava o Borges por todos os lados, à procura de trabalho, à procura de emprego. Ninguém o queria.

Vinham-lhe então grandes desânimos, que o desgraçado já não podia esconder da mulher. Às vezes até, depois de um dia de inútil campanha em busca de serviço ou quando, em vez de ganhar, perdia tudo ao jogo, ou quando se gastava pelos cafés e pelas ruas, cansando-se na convivência dos vadios, tinha acessos de desespero. Entrava em casa brutalmente aniquilado, dando com a cabeça pelas paredes, blasfemando, pedindo em berros a morte e atirando-se tragicamente ao chão, lívido e arquejante.

Oh! mas como Filomena o amava nesses momentos! Com que transporte o recebia no colo, beijando-lhe os olhos em chama, afagando-lhe os cabelos empastados de suor, ameigando-lhe o grosso bigode conspurcado de cerveja e nicotina.

Estranha existência a dessas duas criaturas, que a natureza fez tão diversas, tão contrárias, mas que o acaso lançou no mesmo destino, abraçadas a uma só onda, sofrendo e gozando promiscuamente, sem nunca poderem determinar onde principiava a dor, onde terminava o gozo.

A mesma cousa, que a um fazia padecer, dava ao outro transportes de alegria. Daí esse equilíbrio da lágrima e do riso, que era a fonte de toda a sua coragem e de toda a sua força. Não podia sucumbir nunca, porque um deles estava sempre de pé para amparar o companheiro quando este porventura vacilasse.

E assim se passaram meses, sem que o Borges conseguisse arranjar meios seguros de vida. Entretanto, os recursos iam decrescendo; o círculo apertava-se em torno deles, à medida que se desenvolvia a gravidez de Filomena.

Tiveram que deixar o primeiro hotel por um outro mais modesto, depois este por outro, até que afinal, sempre fustigados por uma terrível adversidade, refugiaram-se numa hospedaria de terceira ordem, no largo de S. Bento.

Era uma casa térrea, mal freqüentada, abafadiça, tresandando a cocheira.

Quando o Borges se apresentou com a mulher, os quartos estavam quase todos ocupados por uma companhia de saltimbancos, que trabalhava daí a dois passos, todas as noites, em uma barraca armada no largo. Um inferno de cães e macacos sábios!

De vez em quando uma briga. Então vinha a polícia: dava-se bordoada, fazia-se muita bulha; mas tudo, no fim de contas, acabava em boa paz.

Imagine-se agora como viveria o Borges nesse meio; ao passo que Filomena, longe de acompanhar o ressentimento do marido, descobria em tudo aquilo um sedutor aspecto de aventura e de boemia, inteiramente novo para a sua fantasia. Aquela miserável espelunca, habitada por gente de circo, mascates e engraxadores, vista pelo prisma de sua loucura, tomou as dimensões românticas de um antro misterioso a Eugênio Sue.

Não obstante, o implacável círculo mais e mais se contraía em torno deles; as pequenas necessidades de todos os dias multiplicavam-se, trazendo cada uma a sua gota de fel, como uma praga de insetos venenosos. A necessidade principiava a transpirar o seu fétido horrendo, que a todos revolta e afugenta; enquanto que a inimizade, a desconsideração, a antipatia, o ódio, o desprezo, vinham-se chegando para eles, como um bando de corvos ao cheiro da carniça.

O dono da casa, ao ver o Borges, fazia já uma careta de raiva; a lavadeira de Filomena escrevia-lhe bilhetes grosseiros, exigindo o pagamento de seu trabalho, e todos, todos os que os cercavam, tinham para eles palavras duras, olhares maus, gestos de desconfiança ou sorrisos de desprezo.

Então o Borges, pela primeira vez, compreendeu que a pureza de seu caráter e a bondade de seu coração não eram dotes naturais, mas uma simples resultante das circunstâncias felizes de sua vida.

Ah! dinheiro! dinheiro! pensou ele, tu és o único que nos dás o direito de sermos bons, generosos e abençoados pelos nossos semelhantes. Tu és o único que conquistas a simpatia e o respeito do mundo inteiro! Tudo me perdoavam -a estupidez, a brutalidade, a loucura, a fraqueza, até os crimes, se os cometesse; só não me perdoam já não te possuir. Ó meu chorado companheiro de tanto tempo! Que importa que do nosso dinheiro não participe ninguém? Que importa que ele só preste ao egoísta que o possui; que importa?! O dono será sempre «um homem honesto!» Terá quem o defenda, quem o elogie, quem o ame, quem o proteja, quem lhe ofereça e dê aquilo que ele não pede e do que não precisa. «Não ter onde cair morto». Isto é que ninguém perdoa! Furta, mata, prostitui-te; mas, se deres a tua mãe o dinheiro que furtaste, serás «um bom filho»; se deres a tua mulher o fruto de tua prostituição serás «um bom marido»; se o deres a tua amante, serás «um fidalgo, um excelente cavalheiro, um homem de bem». E todos te abençoarão! Terás em redor de ti o acatamento, o sorriso, a lisonja, porque és, ou porque podes ser «bom». Porque o teu dinheiro vale pelo destino que há de ter e não pela procedência que teve!

Depois de semelhantes considerações, o Borges sentiu um profundo rancor pelo gênero humano e uma pesada indiferença pelo bom cumprimento do dever.

-Ilusão! tudo ilusão! dizia ele, a sacudir a cabeça, sem se lembrar de que no meio de toda essa tempestade, o seu amor conjugal, aquilo que ele mais estimava no mundo, havia-se enfolhado e frutescido.

Mas o maldito círculo está prestes a esmagá-los.

Vendeu-se a última jóia; esgotou-se o último recurso.

Filomena, entretanto, não se mostrava aflita; não amaldiçoava o marido e, quando o via entrar da rua com a barba por fazer, a roupa esgarçada, os sapatos rotos, a camisa cheia de pó e de suor, e a cara transformada por um desespero supremo; ela, igualmente transfigurada, cheia de prenhez e mau trato, descarnada, sem cor, caía-lhe nos braços freneticamente, louca, ressuscitando-lhe, com os seus beijos de fogo, todas as fibras adormecidas do amor.

Um belo dia acordaram sem um centavo. O dono da casa negou-se logo a fornecer comida, enquanto não pagassem o que já deviam.

-Ao menos hoje! disse-lhe o Borges, tomando-o de parte. -Não quero nada para mim, é só para ela, para minha mulher! coitada! Ainda se não estivesse naquele estado..., mas, assim, a menor contrariedade pode lhe ser fatal! Tenha paciência! -O senhor receberá depois tudo o que ficarmos a dever!

-É o diabo! ... resmungou o estalajadeiro. -É o diabo! os gêneros não me vêm de graça para casa! ...

-Mas também eu não estou lhe pedindo que nos dê de graça! Ora essa! Apenas quero que espere um instante mais pelo pagamento!

-E qual é a garantia que tenho eu disto?! interrogou o locandeiro, picado já pelo tom em que lhe falava o hóspede. -Eu não sei se o senhor pagará ou não!

-Ó homem! bradou o Borges. -Não hei de carregar minha mulher naquele estado, sem ter ainda para onde ir! Descanse, que hoje mesmo hei de dar um jeito às coisas!

-Pois dê primeiro o tal jeito, que eu cá estou para o servir do que quiser...

-Mas você não vê que ela não pode ficar sem comer até que eu volte?!

O estalajadeiro sacudiu os ombros.

-Você não vê que isto é um caso sério?! ... tornou o Borges.

-Nada tenho com isso, respondeu aquele.

-Mas você não vê que é uma questão de vida?! Você quer matá-la?!

-Que a leve o diabo!

-Maroto! exclamou o Borges, perdendo de todo a paciência e erguendo o estalajadeiro pela barguilha. Nem mais uma palavra, tratante! se não queres ficar em pedaços!

O homenzinho, à volta do passeio aéreo que deu, estava já disposto a atender às reclamações do Borges.

-Uf! gemeu ele, quando se pilhou no chão. -Olha que o senhor também é de um gênio! Safa! não se lhe pode dizer nada!... Toma logo o pião à unha! Pois eu era lá capaz de maltratar uma senhora, que se acha em um estado tão melindroso!...

-E maltrate, para ver o que lhe sucede! berrou o Borges, mostrando-lhe o pulso fechado. -Experimente que verá o bom e o bonito!

E saiu furioso, a praguejar.

-Ladrão! rosnou o outro, quando o calculou já na rua -o que tu merecias era uma facada nesse bandulho, grandíssimo sem vergonha!

E, passando enfurecido pela porta do quarto de Filomena, acrescentou de modo a ser ouvido por ela:

-Diabos dos cafres! Arranjam galinhas chocas e querem que os mais as sustentem! Vão roubar para o inferno! Súcia de vagabundos!

Filomena, que estava de cama, porque nesse dia amanhecera mais incomodada ergueu-se lívida e lançou-se instintivamente para a porta.

-É contigo mesmo, peste de uma bruxa! replicou o locandeiro, cuspindo sobre ela um olhar insolente.

-Canalha! gritou Filomena, correndo ao fundo do quarto para tomar o chicote. Mas, em meio do caminho, parou, levando com um gemido as mãos ao ventre.

Ai! gritou ela, e deixou-se cair aos pés da cama, desfeita em sangue. Tinha abortado.

Uma acrobata americana, sua vizinha, que lhe ouvira o grito, acudiu logo em seu socorro.

Por esse tempo o Borges vagava de rua em rua, inquieto, tonto, à procura de um conhecido, de alguém, de qualquer dinheiro, com que pudesse tapar a boca do maldito usurário.

Mas as horas iam-se e vinham, sem trazer em nenhum de seus sessenta minutos uma só moeda de vinte centavos. E, contudo não poderia voltar a casa com as mãos vazias. Era preciso obter dinheiro, fosse como fosse -tratava-se da segurança de Filomena!

Deram quatro horas -nada; deram cinco- nada; nada! seis -ainda a mesma coisa!

Borges deixou-se cair exausto sobre um banco do Passeio Público. Ai! Como se sentia fatigado e como lhe doía todo o corpo! Palmilhara a cidade desde pela manhã, sem comer nem descansar, alimentando-se apenas com o fel de seus desgostos.

Começava a fazer-se noite. A hora melancólica do crepúsculo ainda mais lhe ensombrava o coração.

Sentia necessidade de morrer, desertar do mundo, lançar fora aquela existência, que lhe pesava sobre os ombros.

Escondeu o rosto nas mãos, fechou os olhos, e um torpor voluptuoso o foi invadindo a pouco e pouco.

Achou-se como num sonho; a realidade esbatia-se em torno de seus sentimentos amodorrados, espalhando-se até o pleno domínio da fantasia.

E toda a sua vida principiou então a lhe deslizar pelo espírito como um interminável cordão de espectros, que se precipitavam vertiginosamente. Viu-se de todos os feitios e em todas as idades; desde antes de se conhecer, até uma época que ainda não conhecia; desde a primeira infância, até a completa decrepitude.

Viu-se em Paquetá, descalço, em mangas de camisa, a cabeça ao sol; depois, ao serviço do pai, ajudando-o no trabalho, fazendo cobranças no fim do mês, perseguindo os maus pagadores; depois, homem sério, já estabelecido, de calças brancas, paletó de alpaca, chapéu do Chile; depois, de casaca, luvas de pelica, à espera da noiva; viu-se, no dia seguinte ao casamento, enfronhado no seu rodaque de brim, ajoelhado aos pés de Filomena; viu-se fumando o seu primeiro charuto e bebendo o seu primeiro trago de vinho; viu-se de barba raspada, bigode retorcido, fraque à moda; de espanhol, a raptar a esposa; de albornoz, a percorrer o Egito; de túnica, a passear na Índia; de touriste, a bordo dos paquetes; de chicard, a dirigir o cotillon; viu-se de todos os modos; viu-se reduzido a boêmio, empenhando jóias; mendigo, a sentir fome, e afinal sonhou-se velho, arrastando-se pelas ruas, a pedir uma esmola por amor de Deus.

E toda essa variada coleção de tipos, todos esses Borges, giravam e rodopiavam, de mãos dadas uns aos outros, saltando, esperneando, fazendo caretas, em torno de uma mulher esplêndida, coberta de diamantes, que se torcia de riso com uma taça na mão, a transbordar de champanha, e olhava para todos eles, atirando a cada um, simultaneamente, frases de amor e de ironia, beijos e muxoxos, suspiros e reviretes.

Foi surpreendido nesse ponto da vertigem por dois grossos pulsos que lhe batiam no ombro. Borges acordou sobressaltado; porém, mal voltou a si, um grito de prazer escapou-lhe dos lábios.

Defronte dele estava o Urso, a fitá-lo, de orelha em pé, a sacudir a cauda.

-Meu amigo! meu verdadeiro amigo! exclamou o pobre homem abraçando-se ao cão, enquanto lhe corriam dos olhos as mais verdadeiras lágrimas de ternura.

Urso respondia a lamber-lhe as mãos, a farejá-lo todo, a grunhir.

-Bom e fiel amigo, acrescentou o Borges, sem se fartar de contemplá-lo. Bem se vê que não és um homem! Injusto fui eu em não contar contigo na miséria, apesar de te haver abandonado no tempo da minha ventura! Mas que te hei de dar agora, fiel camarada; eu, que nada tenho para mim?!... Em todo o caso, sinto-me mais forte! Vamos lá -havemos de viver!

E, dizendo isto, levantou-se, passou ainda uma vez a mão na cabeça do Urso e seguiu na direção do hotel. Talvez tenha fome!... pensava ele. Mas é impossível que eu não descubra alguma coisa para lhe dar.

À porta da estalagem, quando o Borges se aproximou com o Urso, estava o empresário da companhia de saltimbancos, de pernas cruzadas, a fumar cachimbo.

Era um italiano calvo, muito magro, alto, de grandes barbas negras; chamava-se Bela.

-Bom animal para um circo! pensou ele, atentando no Urso; se o tivessem ensinado valeria quanto pesa!

E os olhos do funâmbulo cresceram sobre o cão.

-Quer dez cruzeiros pelo bicho? perguntou, tocando no ombro do Borges.

Este fitou o italiano, sem responder.

-Dou-lhe quinze.

-Não, respondeu e outro secamente, penetrando já na estalagem.

-Vinte.

-Não! não! disse o Borges, fugindo a uma idéia que lhe acabava de atravessar o pensamento. -Não! seria infame!

-Pois se quiser vinte, é meu; mais não dou! gritou ainda da porta o empresário.

Borges já não o podia ouvir, porque a acrobata americana vinha de lhe comunicar o estado de Filomena.

Correu ao quarto da mulher. Encontrou-a estendida no leito, a gemer, a voltar-se incessantemente de um lado para outro.

-Que é isto?! perguntou ele, desvairado. E, mal disseram a causa do acidente, precipitou-se, como louco, para a sala de jantar. O estalajadeiro, assim que o viu, calculou o risco que corria, e tratou de fugir; mas só teve tempo de se esconder dentro de um armário despratelado, que jazia a um canto da sala.

Este jogo de cena fez alguma bulha e atraiu todos os de casa. Quiseram logo impedir que o Borges se aproximasse do armário.

Vão esforço. João Touro, com o primeiro arranco, lançou por terra os que o tentavam segurar e atirou-se contra o armário.

Não se deu ao trabalho de abri-lo, abarcou-o sobre o peito, ergueu-o, e, depois de sacudi-lo duas ou três vezes, arremessou-o pela sala, varando tudo que estava no caminho.

Um clamor estrepitoso rebentou em volta dele, No meio do barulho, ouviam-se os gritos do estalajadeiro, o ladrar medonho do Urso, que acompanhava aos saltos os movimentos do amo e, de todos os lados, um coro terrível de exclamações cheias de assombro, de raiva e de terror.

Mas os que ficaram machucados logo ao primeiro encontro, acudiam já contra o Borges, armados de cadeira; a companhia em peso, tomando as dores pelo dono da casa, não tardou igualmente a lançar-se sobre ele, e, em menos de dois segundos, travou-se o mais formidável sarilho.

Foi uma coisa horrorosa!

O Borges, fora de si, ia agarrando o que lhe caía nas mãos e arremessando para frente. Voaram mesas, cadeiras, estantes, aparadores, garrafas, tudo!

A sala, em breve, ficou completamente vazia, e ele, só ele, passeava de um para outro lado, rugindo e fungando como um verdadeiro touro.

Coisas extraordinárias

Foi o empresário da companhia, o Bela, o primeiro que se animou a voltar à sala... Mas não trazia aspecto de briga; ao contrário, aproximou-se do Borges com toda a calma, e disse-lhe em voz baixa:

-Tenho uma proposta a fazer-lhe...

-Que é?! gritou o marido de Filomena.

-Contratá-lo para a minha companhia. O senhor, com a força de que dispõe e com o seu Urso, pode fazer chicanas. Dou-lhe duzentos cruzeiros por mês. Aceita?

-Aceito, respondeu o Borges, sem vacilar. Mas com a condição de que o senhor pagará imediatamente o que devo nesta casa.

-Está dito, respondeu o italiano. É só fecharmos o contrato; isso fez-se num instante.

E o estalajadeiro, uma vez embolsado, declarou que retirava o que dissera pela manhã, e pediu que lhe perdoassem o mal que havia causado e afiançou que sua casa e os seus serviços estavam sempre às ordens de Borges.

Este tratou logo de pôr a esposa ao corrente do passo que acabava de dar.

-Magnífico! exclamou ela. Oh! magnífico! Contanto que o italiano esteja disposto a me arranjar igualmente um lugar na sua companhia.

-Hein?! Um lugar... um lugar para ti? Estás gracejando com certeza!

-Juro-te que não. E desde já te previno de que só nesse caso consentirei que cumpras o teu contrato!

-Mas, meu amor, aquilo não te pode convir..., do que iria te encarregar numa companhia de acrobatas?! É preciso ver a coisa por este lado!

-Ora! E o meu talento coreográfico, e a minha voz de contralto, a minha beleza, e o meu espírito, não valem tanto como a tua força e o teu cão?!

No dia seguinte, Filomena estava também contratada. Esperariam apenas que se restabelecesse completamente para mete-la em serviço.

-Diabo era se iam encontrar na platéia algum velho conhecido dos bons tempos! Ainda se fosse eu só!..., pensava o Borges. Mas a questão é minha mulher!

O empresário cortou essa dificuldade lembrando que Filomena, para não ser conhecida, podia muito bem se disfarçar em índia, pondo uma cabeleira e pintando-se de cabocla, e que o Borges, ainda com mais facilidade podia caracterizar-se de inglês. -Um pouco de vermelhão, um par de suíças ruivas, e aí teriam o mais legítimo e completo atleta deste mundo! Quanto ao Urso -pouco seria necessário para reduzi-lo a um urso verdadeiro.

Ficou tudo combinado.

Borges lutaria com a sua fera e com os homens que se apresentassem; faria exercícios de força, suspenderia barras de ferro, carregaria e dispararia uma peça ao ombro, jogaria enormes balas de cinco arrobas, etc... etc... Filomena dançaria vários passos difíceis e cantaria os seus tangos e as suas cançonetas.

Convinha é que ela se restabelecesse quanto antes, para poder abandonar aquela maldita estalagem e cuidar dos primeiros ensaios. Felizmente a cura foi rápida e, graças aos novos recursos, de que dispunham, Filomena, a primitiva, a formosa, a deslumbrante Filomena Borges, surgiu da cama ainda mais bela, mais petulante, como se a idéia de farandulagem que a esperava lhe fizesse ressaltar os encantos, ajuntando-lhes uma nota diabólica de desordem e de boemia.

O empresário esfregava as mãos de contente, quando a viu no dia da mudança. Ou ele muito se enganava, ou aquela mulherzinha ia fazer uma revolução no público!

Principiaram os ensaios, logo depois que saíram da estalagem. Filomena, às primeiras tentativas, revelou um tal jeito, uma tal habilidade para a sua nova profissão, que o Bela ficou deveras encantado.

Ninguém seria capaz de dançar e cantar um tango brasileiro com mais graça nem com mais originalidade.

Em corpo algum de mulher diziam tão bem as penas sensuais da tanga, as axorcas orientais e o emplumado e pitoresco cocar indígena.

-Achei a sorte grande, não há dúvida! considerava o Bela com os seus botões.

É que, além de Filomena, o Borges enchia-lhe as medidas. A luta deste com o Urso faria furor! O cão efetivamente, depois de certos arranjos no focinho, nas patas e na cauda, não deixava, nem de leve, suspeitar a sua modesta procedência.

Espalharam-se logo por todas as esquinas imensos cartazes, anunciando os «dois célebres artistas, que acabavam de chegar de Paris, contratados para o Pavilhão Chinês».

Pavilhão Chinês era o circo do Bela.

Grande sucesso do dia! A linda Vênus Americana, o invencível Hércules Inglês e o indomável e terrível Urso Negro».

Acompanhava esses nomes um pomposo programa de espetáculo, onde vinham as mais provocadoras considerações a respeito daquelas três celebridades.

Apesar, porém, de tudo isso e das bandeiras e luminárias com que o Bela enfeitou seu pavilhão, a estréia dos novos artistas não foi muito concorrida. Mas, da segunda noite em diante, a formosura irresistível de Filomena principiou a atrair extraordinária concorrência.

Não tardou a rebentar em toda a cidade um entusiasmo apoplético por aquela Vênus cor de amêndoa, que parecia ter furtado às serpentes do Brasil o segredo de suas curvas sensuais, quando ao som dos lundus e das habaneras, quebrava e retorcia o corpo, como numa agonia de amor.

A Faculdade de Direito em peso não abandonou mais as galerias do Pavilhão Chinês: os jornais acadêmicos apareceram repletos de artigos, crônicas, versos, o diabo! a respeito de Filomena. E o povo, o grosso povo, acudia de todos os lados, a um cruzeiro por cabeça.

Ah! mas Filomena tinha um corpo admirável e excepcionalmente correto. Ela não punha espartilhos e, com uma simples camisa de meia cosida à pele, principiava a sapatear, a torcer-se toda aos gemidos das habaneras, fazendo e desfazendo as curvas magnéticas dos rins, expondo corajosamente a pureza grega de sua cintura elástica e vibrante, como se a alma de uma danseuse da Grande Ópera tivesse tido a fantasia de encarnar-se num dos velhos mármores do Partenão.

Era um delírio, quando a banda de música rompia o tango, e Filomena, vestida de índia, saltava ao meio do circo, a jogar o corpo para a direita e para a esquerda, ora num pé, ora no outro, os braços no ar, a cabeça bamba, a boca a sorrir, os olhos a requebrarem-se.

-Bravo! Bravo a Vênus! Quebra! gritavam de todos os cantos.

E choviam flores. E os chapéus, os lenços e as bengalas juncavam o tapete que ela pisava.

Por outro lado, o Hércules inglês ia conquistando as simpatias do público. A sua melhor sorte era a que ele executava com o bom Urso: «a vida pelo combate ou a luta terrível do homem com a fera», segundo diziam os anúncios.

Consistia no seguinte:

Seis homens arrastavam para o meio do circo uma enorme gaiola de grossos varões de ferro, pousada sobre quatro rodas, na qual vinha o pobre animal, arvorado em fera e preparado de modo a iludir os mais espertos.

Logo depois, com as suas suíças ruivas, as suas faces cor de sangue, aparecia o Borges, vestido de guerreiro romano, cheio de escamas e cintilante de lantejoulas: na cabeça um grande capacete de folha-de-flandres e na mão uma pequena vara de ponta encarnada.

A terrível fera, ao ver surgir o domador, começava a agitar-se, a espolinhar-se como sequiosa de sangue.

Ouviam-se então por todo o circo uns rugidos medonhos e atroadores, que o Bela, escondido debaixo da gaiola, soltava com o auxílio de uma trombeta de sua invenção.

Todos emudeciam. E, entre o resfolegar ansiado do público, caminhava o domador a passos firmes para a jaula. Abria a portinhola, entrava, e de carreira ia lançar-se ao monstro, que se erguia logo nas pernas de trás e roncava com mais força.

Principiava a luta.

Por vezes caía o homem, quase vencido, mas de pronto se levantava e de novo investia contra o formidável adversário, até conseguir domá-lo, segurando-lhe o pescoço com uma das mãos e paralisando-lhe com os pés o movimento das pernas.

Nisto, de todas as curvas da barraca, rompiam os aplausos. E, dentre a enorme gritaria, só se destacava uma palavra, que era repetida por mil bocas:

-Basta! -Basta! -Basta!

E o Hércules, inalterável e frio como se tivesse plena consciência de seu valor, saía da jaula, fechava bem a cancela, cumprimentava o público e recolhia-se modestamente ao interior do circo.

Quando por ventura aparecia alguém que quisesse lutar, ele nunca se negava; e, quando não aparecia, era o Bela que desfrutava essa honra, deixando-se vencer no fim de um quarto de hora, e retirando-se depois para os fundos do barracão debaixo de uma tremenda vaia do público.

O fato é que, dentro de pouco tempo, o empresário levantou a cabeça, graças aos seus novos artistas, que eram já considerados os primeiros da troupe. Mas, se quis conservá-los, e conseguir que eles o acompanhassem numa excursão pelas outras províncias, teve que lhes dobrar o ordenado, oferecer-lhes depois novas vantagens, e, afinal, associá-los à empresa.

Borges e a mulher faziam progressos admiráveis. Depois de percorrerem Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas, achavam-se possuidores de alguns mil cruzeiros e podiam, como desejava o marido, abandonar a vida de saltimbancos e abraçar uma carreira menos repugnante.

Mas, no coração romanesco e aventureiro de Filomena, o prazer do aplauso, o gozo da nomeada, encontraram terreno propício e haviam já cravado bem fundo as suas raízes.

Entretanto, a vaidade de artista festejada pedia-lhe horizontes mais largos e conquistas mais nobres. Agora toda sua ambição era ligar o seu verdadeiro nome, o seu nome de batismo, às glórias que conquistava em público.

Não hesitou em separar-se do Bela, contratar por sua conta novos artistas, formar um novo plano de trabalho e, com o seu vasto repertório de lundus, tangos e modinhas brasileiras, que ela colecionara pelas províncias, e, com as suas vestimentas indígenas, que trouxera do Amazonas, levantou o ferro para as repúblicas vizinhas.

Malgrado os conselhos do Borges, que ardia por um momento de descanso, percorreu-as da Patagônia à Venezuela. Seguiu depois para a América do Norte, onde, durante um ano, ganhou rios de dinheiro e por fim, aguilhoada pela idéia de aparecer na Europa, despediu todo o pessoal e, apenas acompanhada pelo marido e pelo Urso, levantou a proa sobre Paris.

Segredos de bastidor

O Borges, a despeito de sua constante revolta com o destino, nunca estacionou um momento. Aprendeu a executar os jogos malabares, exercícios no trapézio, ginástica sobre o cavalo, mágicas e prestidigitação.

De Hércules Inglês passou a equilibrista japonês, fazendo-se anunciar com o nome de Tchim-Chim-Fu. E trabalhava vestido de seda amarela, uma grande mitra encarnada, um leque na mão, todo cheio de mesuras e saltinhos, sem que ninguém pudesse suspeitar que aquelas pantomimices escondiam um coração puro e singelo, talhado para o amor da família, para a dignidade do lar doméstico e para os exemplos da honra e da perseverança no trabalho.

E promiscuamente foi tudo quanto se pode ser dentro de um circo, desde o palhaço vulgar, de cabeleira pontiaguda e cor de fogo, à cara empastada de alvaiade, até o empresário, de casaca e luva, que dirige os trabalhos e manobra os cavalos, de chicote em punho e comenda ao peito.

Mas em Paris faria de selvagem. Estudou bem um botocudo e escolheu o pseudônimo de Bu-ru-cu-lu-lu, que, com certeza, iria produzir muito boa impressão nos anúncios.

A mulher conservaria as suas roupas indígenas, mas não havia de pintar mais o rosto nem esconderia o nome, seria limpa e claramente: «Filomena Borges -A Brasileira»

O Urso é que ficara de melhor partido -ia deixar a cena e recolher-se à sua primitiva e sossegada posição de animal doméstico. Já não era sem tempo, coitado! O pobre cão estava velho e sentia fugirem-lhe progressivamente as faculdades.

Estrearam no Cirque d'hiver.

Que sucesso! Os parisienses cansados de boa música e fartos de artistas célebres; os parisienses desiludidos, esgotados, blasés, ainda tiveram fibra para um arrepio novo, quando ouviram os chorados da Bahia e as modinhas do Pará, gemidos em português por aquela deliciosa filha dos trópicos, que não precisava de espartilhos e peitos de borracha para dizer na linguagem clássica e singela das curvas carnais toda a velha sensualidade paradisíaca.

O Borges, na sua humilde qualidade de botocudo, não tinha mais que afetar grande selvageria e deixar-se expor com os seus botoques nos beiços e nas orelhas, como um bicho perigoso e raro. Foi esse o meio único que descobriu o pobre homem para não se fatigar em extremo, por várias vezes teve de sair do seu sossego e ameaçar com as suas flechas de ubá e com os seus guinchos atroadores os gommeux embeiçados pela mulher.

Ingleses silenciosos e tradicionalmente excêntricos, russos viajantes, príncipes de várias partes do mundo, vinham ao Cirque d'hiver atirar o coração e a bolsa aos pés da formosa brasileira. Filomena, porém, não era mulher que sucumbisse a tais seduções e, já com a tática que apanhara nos teatros, já com os conselhos que em pequena recebera de D. Clementina, sabia pilhar de seus adoradores tudo que entendesse sem lhes dar em troca mais que os seus famosos olhares de ternura e os seus belos sorrisos de esperança. Só nas ocasiões supremas é que o terrível botocudo se mostrava, armado de tamarana, uirupara e esgaravatana, e, tal gritaria e tais ameaças punha em jogo, que ninguém levaria a sua intrepidez a ponto de avançar.

Não obstante, ele às vezes ficava sobressaltado e receoso.

-Não acho muito prudente que te exponhas deste modo, meu amor! dizia em segredo à mulher -Podes vir a cair em algum laço... conhecemos muito pouco esta cidade, e os parisienses, minha rica, gozam a esse respeito de uma fama terrível!... Quanto a mim, acho que o melhor seria deixarmos por uma vez esta maldita vida de teatro e irmos descansar a um canto sossegado e feliz da nossa terra!... O que já possuímos, com alguma economia, chegar-nos-há perfeitamente para o resto da existência, e eu, confesso-te, minha santa, desde que me casei, não faço outra coisa senão suspirar por um momentozinho de repouso!

Filomena sorriu.

-Ora, queira Deus que te não venhas a arrepender!... acrescentou o Borges. Tenho pressentimentos horríveis com esta cidade infernal!

-Descansa, meu bom amigo, respondeu a esposa. São de todo infundados os teus receios! Descansa, eu sei o que faço; não me há de suceder coisa alguma!

-Hum, hum!... resmungou o botocudo, sacudindo a cabeça. Não sei que te diga!... Olha, esse tal duque louro, por exemplo, esse que te mandou ontem aquele diamante negro, não me passa da garganta! É de todos o que mais me incomoda! Não sei que diabo acho na cara de semelhante homem!

Nesta noite, já no teatro, quando ela se preparava para entrar em cena e o marido metia no pescoço o seu barulhento aiucará feito de búzios e dentes de animais ferozes, foram surpreendidos por uma voz que, da porta do camarim, dizia no melhor português:

-É permitido cumprimentar a formosa brasileira?

-Pois não! respondeu esta, ordenando à criada que fizesse entrar a visita na pequena sala próxima.

E, quando apareceu, já pronta: -Oh! o duque!... Não sabia que V. Excia. falava português, e com tanta perfeição!

-Pois se eu sou português...

-Ah! fez ela, considerando o tipo louro que tinha diante de si.

Dir-se-ia um alemão. Era baixo e gordo, vermelho, bigode e barba à Cavaignac, cabelos de um amarelo frio e seco.

-Não falemos nisso, interrompeu ele -tratemos de outra qualquer coisa!... De seu esplêndido país, por exemplo.

-O Sr. duque conhece o Brasil?...

-Não. Nunca fui ao Brasil, mas tenho lá muitos parentes e amigos.

-Parentes! Na corte ou nas províncias?

-Na corte.

-Ah! Então devo conhecer algum deles. Eu sou filha da corte.

-É inútil insistirmos: não conhece com certeza... é uma família de estrangeiros...

-Ah! balbuciou Filomena, tornando-se mais cortês, porque havia já suspeitado quem vinha a ser aquela incógnita visita. -É ele, com certeza... pensou de si para si.

Mas nesse momento o Borges acabava de entrar na pequena sala e, no seu papel de botocudo, foi assentar-se a um canto, sem mais cerimônias.

-Tomo a liberdade de apresentar-lhe meu marido, disse Filomena, mostrando-o ao duque.

O selvagem monologou alguns sons guturais e sem sentido e encarou a visita, franzindo as sobrancelhas.

-Ainda não conseguiu familiarizar-se com as línguas estranhas, explicou Filomena.

E percebendo no duque um gesto de contrariedade:

-Pode conversar à vontade em português; Bu-ru-cu-lu-lu não entenderá uma palavra do que ouvir. Só eu posso fazer-me compreender por ele, graças ao pouco que sei do tupi.

-Mas como foi a senhora, tão bonita e tão delicada, descobrir esse monstro para seu marido?... quis saber o fidalgo.

-Devo-lhe a vida! ... respondeu Filomena.

-Se não fosse esse bravo indígena, teria sido devorada pelos seus compatriotas numa lamentável excursão que fiz ao Alto Amazonas...

-Ah! E sabe o que o levou a salvá-la?

-O amor, creio eu. Este pobre monstro viu-me de longe entre os seus companheiros, correu-me aos pés, ajoelhou-se, em seguida tomou a minha defesa, matou os que me queriam fazer mal, carregou comigo para um lugar seguro, e desde este instante me segue como um cão. É de supor que me tomasse por alguma divindade! Pelo menos, assim me leva a crer o respeito religioso que ele me tributa!

-Ah!

-De resto, não tem absoluta consciência do que faz -é uma espécie de bicho! Não sabe a razão por que aparece em público; não compreende nada do que o cerca. Uma ocasião, perguntei-lhe, por curiosidade, que efeito lhe produzia Paris, e, pela resposta que deu, conclui que o tolo se supõe numa existência de além-túmulo, julga-se no paraíso de sua religião.

-Como assim? perguntou o duque intrigado.

Filomena apressou-se a explicar:

-É que, na ocasião de defender-me de seus companheiros, Bu-ru-cu-lu-lu ficou muito ferido e, ao chegar a Manaus, acometeram-lhe febres tão fortes, que o fizeram delirar três dias consecutivos. Pois, bem, o toleirão imagina que sucumbiu à moléstia e que voou logo às mansões siderais, onde eu represento para ele a veneranda encarnação do poder altíssimo e da suprema divindade!

-De sorte que ele se julga já falecido?... perguntou o duque com interesse.

-Em plena bem-aventurança eterna... Julga-se como alma do outro mundo. Paris, que é o éden terrestre dos estrangeiros, para ele, coitado! é nada menos que o paraíso celeste!

-É singular!

-Singular e extremamente cômodo para mim, prosseguiu a brasileira, gozando do efeito que as suas palavras produziam na visita. -Imagine o Sr. Duque que o fato de meu marido se julgar morto faz com que ele não tenha comigo a menor exigência e se submeta humildemente ao que eu lhe ordene. Entretanto, é o meu guarda, é a minha defesa: quando o sinto ao meu lado, não tenho que recear qualquer agressão, venha ela de um leão das salas ou de um leão das florestas!

-É muito singular! repisou o duque, reconsiderando com um ar de pasmo a grossa e taciturna figura do Borges acocorado ao canto da sala. Sim, senhora! Está garantida!

-Ah! perfeitamente garantida! Já vê o Sr. Duque que eu não poderia encontrar melhor marido em parte alguma do mundo!

-Ele então não consente que lhe toquem sequer com o dedo?... perguntou o louro, fazendo um ar de desgosto.

-Experimente! disse Filomena, faça que me vai prender o braço.

O duque estendeu a sua mão calçada de luva da Escócia e fingiu que ia tocar no carnudo braço da artista.

O Borges ergueu-se logo e, movendo lentamente a cabeça para os lados, com movimentos de urso velho, principiou a rondar em torno dos dois, farejando.

-E se eu me arriscasse a dar-lhe um abraço?..., perguntou o duque.

-Deus o defenda! Nem é bom pensar nisso! Bu-ru-cu-lu-lu seria capaz de estrangulá-lo no mesmo instante! Não queira experimentar, que eu não respondo pelas conseqüências.

-E não havia meio de estar um momento em sua companhia sem a presença desta alimária?!

-Pode haver, mas é muito arriscado! Ele tem um faro mais sutil que o de qualquer cão de caça! ... Iria descobrir-me no inferno, se no inferno eu me escondesse!

E por que não se desfaz a senhora de semelhante bruto?! No fim de contas, deve ser aborrecido suportar eternamente este orangotango.

-Se lhe estou dizendo, Sr. Duque, que o demônio do bicho tem faro!

-Era fazer presente dele ao museu zootécnico de França, em nome do Imperador de seu país, que é um sábio. E com isso a senhora ainda prestaria um relevante serviço à biologia. Se quiser eu encarrego-me de o remeter à comissão que recebe os donativos.

-Não! disse Filomena, por ora não. Mais tarde pode ser que aceite o seu oferecimento.

-Pois, quando quiser, estou às suas ordens, acrescentou a ilustre visita, erguendo-se e tomando a mãe de Filomena para depor um beijo.

Mas o Borges afastou-o da mulher, metendo-se entre os dois grosseiramente.

-Este animal não me deixa pôr o pé em ramo verde! pensou o fidalgo, saindo contrariado, depois de cortejar a brasileira.

Borges acompanhou-o até fora da porta e, ao voltar para junto da mulher, disse-lhe esta:

-Conheces?

-Quem? Este tipo? Não!

-Oh! o d. Luís, homem!

-Que d. Luís?

-O d. Luís de Portugal.

-Ora essa!

-Pois é ele!

-Queira Deus que estas brincadeiras não te venham a dar na cabeça! ... observou o botocudo.

-Deixa-te de receios, meu selvagem -e vem daí, que já deu o segundo sinal para principiar o espetáculo!

Suprema exigência

Foi dessa forma que Filomena logrou conciliar os ganhos de dançarina requestada com as suas intransigências de mulher honesta e com os eternos desvarios de seu temperamento romântico, fazendo sempre do amor do marido um instrumento de sua fantasia, transformando-o e disfarçando-o sob todas as singularidades de seus caprichos, dando-lhe atrações que ele por si não tinha, e sem as quais ela não o poderia suportar.

As ternuras do Borges só lhe alcançavam o coração depois de filtradas por uma rede de sobressaltos; essa rede era para aquele amor o que uma flauta é para o sopro -o meio de o transformar em notas harmoniosas e comovedoras.

Queria todos os beijos do esposo, sim -contanto que não viessem naturalmente, sem obstáculos a vencer ou conveniências a guardar. Era preciso que houvesse necessidade de esconde-los de alguém, de obte-los com sacrifício de alguma coisa; era preciso enganar, fingir, despertar suspeitas, levantar desconfianças, promover comentários.

Não consentia por isso que o Borges se denunciasse a quem quer que não fosse ela. Exigia que o marido só deixasse de ser aquele selvagem repulsivo e terrível, quando estivesse ao seu lado, em completa intimidade de alcova. Essa mistificação tornava-se indispensável para a ventura de Filomena.

O botocudo intrigava muita gente: -Seria crível que uma mulher, tão formosa e tão lúcida, tivesse por marido aquela besta do Alto Amazonas?... O monstro seria de fato seu amante, ou ela o conservaria como uma simples réclame?...

E os comentários reproduziam-se entre os freqüentadores do Cirque d'hiver à proporção que Filomena ia se tornando conhecida e sendo cada vez mais desejada e menos condescendente.

Em alguns passeios de distração que fez aos arredores de Paris, quase sempre escoltada por uma corte de adoradores, o Borges, que não queria acompanhá-la de selvagem, tinha de segui-la a certa distância, usando de todos os expedientes para não ser descoberto e para que não suspeitassem de leve que ele ia à pista da brasileira.

Estava nisto empenhada a sua honra, isto é, a honra do marido de Filomena.

Que lida, que trabalho, que tortura, para gozar com ela nessas ocasiões alguns momentos de felicidade! Era preciso recorrer aos mais engenhosos estratagemas; tinha de saltar muros, às vezes servir-se da chaminé, introduzir-se-lhe no quarto, por alta noite, a tripe-trepe, quando não fosse pressentido por nenhum dos apaixonados da sua mulher, que estavam todos de orelha em pé, à espera do primeiro escândalo.

E tudo isso o torturava abertamente. -Maldita fosse a hora em que ele se fez botocudo! em que ele se meteu na casca daquele bicho.

Entretanto, o nome da original e formosa brasileira derramava-se por Paris invadindo as redações das folhas, os salões, os ateliers, os boulevards, os cafés, as corridas, os foyers de todos os teatros, as mansardas das tristes costureiras e o quinto andar dos magros estudantes.

Atribuíram-lhe anedotas, inventaram-lhe legendas, fizeram-lhe canções e triolets, publicaram-lhe a biografia em pequenas revistas teatrais.

E o mundo inteiro viu-a, admirou-a, em caricaturas, em fotografias, em cromos, em caixinhas de fósforos, em bustos de gesso, em nervoso grevins de terre cuite. E por toda a parte apareceram chapéus, fazendas, penteados à Filomena Borges. Seu nome serviu de título a casas de negócio; suas toillettes serviram de modelo; suas frases foram repetidas, publicadas, decoradas, traduzidas em todas as línguas.

Quando ela terminou a longa excursão que fez pelo norte da Europa, possuía em dinheiro e em jóias mais que o necessário para viver tranqüilamente o resto de sua vida.

Por outro lado o Borges, que ao sair de Paris abandonara finalmente o incômodo papel de botocudo e retomara o seu título de barão de Itassu, rogava-lhe com instância que deixasse o diabo do teatro e fosse por uma vez descansar com ele a um cantinho feliz da pátria -a Paquetá, por exemplo, a Paquetá de que ele tinha as mais vivas saudades!

-Havia perto de dez anos que vagabundeavam por esse mundo de Cristo. Era mais que tempo de regressarem! ele estava farto de nunca ser aquilo que era, de nunca desfrutar em paz a felicidade que lhe pertencia de direito! ... Para que ir mais longe? Achavam-se ricos pela segunda vez; tinham já experimentado todas as comoções; haviam percorrido já toda a escala da vida humana -riram, sofreram e gozaram; tiveram o que há de bom e o que há de mau, tiveram tudo! Para que continuar?!

A baronesa, porém, sorria desdenhosamente às palavras do marido:

-Ela voltaria à pátria, sim, estava disposta a voltar, mas havia de ser precedida de réclames e anúncios retumbantes! Queria entrar no Brasil com ruído, levantando a poeira da capital em peso, sobressaltando a população, desencaixilhando-a de seus eixos, perturbando a vida burguesa dessa aldeola, que tinha a suprema honra de lhe haver dado o berço!

Não iria trabalhar do mesmo feitio que trabalhara em Paris nos circos e vaudevilles, ou como trabalhara em S. Paulo, numa barraca de saltimbancos; nunca mais vestiria a sua pitoresca fantasia de penas e tecidos de palha; não seria a indígena que tantos corações fez pulsar, mas em compensação havia de ser a «Exma. Sra. Baronesa de Itassu». Enorme cauda de veludo! jóias deslumbrantes! luvas até o ombro!

E só se dignaria de cantar algumas notas em concertos muito escolhidos, na melhor sociedade; ou então, lá uma vez por outra para quebrar o seu tédio de mulher célebre e obrigar o Rio de Janeiro a ir ajoelhar-se-lhe aos pés, mostrar-se-ia condescendentemente no teatro Pedro II, entre o que houvesse de mais fino na roda dos artistas. Tinha certeza de que seu nome, enxertado num programa de espetáculo, esse nome que os parisienses decoraram, seria o bastante para encabrestar a população da corte e traze-la de rastros aos degraus de seu trono.

E queria o Borges que ela fosse descansar a Paquetá!

-Mas, santo Deus! estaria nas suas mãos por ventura sumir-se por uma vez, desaparecer, fugir?!... Isso vinha a ser pior que a morte, vinha a ser o aniquilamento em vida!

Do que havia experimentado até ali, do que havia sentido, do que sofrera, do que gozara -nada a satisfizera completamente! Ainda lhe faltava qualquer coisa! No seu coração ainda existiam fibras intactas, que precisavam vibrar!

-Ai, ai, ai! gemeu o Borges, levando as mãos à cabeça. -Valha-me Jesus Cristo! que ainda temos fibras para vibrar! Ainda não é desta vez que sossego!

-E para que sossegar?! interrompeu Filomena. -Que significa o repouso? Pensarás que eu hoje seria capaz de resignar-me à morbidez estúpida de uma existência sem idéias nem aspirações? Pensarás que eu consentirei em abandonarmos a vida pública, sem que te hajas celebrizado ao menos uma vez, sem que tenhas conquistado um nome digno de mim e digno de teu mérito?!...

-Hein?! Como é lá isto?!... exclamou o Borges com um salto. Pois tencionas fazer ainda de mim uma celebridade? Contas que eu venha a ser um «grande homem»?!

-Certamente! certamente! Ao contrário não valeria a pena gastarmos tanto tempo e tanto esforço em preparar o teu espírito!

-Ora essa! De sorte que até agora... eu nada mais fiz que preparar-me?...

-Para conquistar uma posição eminente, concluiu a mulher. Foi nessa esperança que te dediquei a minha vida e o meu amor...

-Mas filoquinha de minhalma! eu não disponho de aptidões para isso! ... Bem vês que até hoje tenho feito por ti tudo que está nas minhas mãos... como, porém, hei de ser aquilo para que me faltam certos conhecimentos e uma certa dose de talento?!...

-Isso é o que pensas, e a modéstia com que te julgas é mais uma prova de tua competência! O verdadeiro mérito é sempre assim!

-Mas eu dou-te a minha palavra de honra em como não tenho o menor talento! Acredita que é esta a pura verdade! Sinto perfeitamente que não serei jamais um «grande homem»!

-Se sentisses o contrário, é que nunca o poderias ser!

-Ora, que desgraça a minha! ... considerou o Borges de si para si. -Ora, que eu não consiga entrar um momento nos meus eixos, sem ter de contrariar minha mulher! De que havia agora de se lembrar -querer que eu seja um «grande homem». Eu, que não sirvo para essas coisas! eu, que abomino a popularidade, o escândalo, o ruído! eu, que já me impacientava de a ver tão conhecida, e suspirava todos os dias por sair desta inferneira!

-Não! disse ele em voz alta. Não! Tem paciência! Isso é impossível! Pede o que quiseres, mas não exijas de mim uma coisa de que eu não disponho!

-Entretanto, assim é preciso, respondeu Filomena, a não ser que estejas resolvido a destruir num segundo a única esperança que me resta!...

-Mas a questão é que a gente não é «grande homem» quando quer!... Ora essa! replicou o Borges.

-E muito menos quando não quer! volveu a outra. -Não exijo de ti mais do que um pouco de boa vontade; o resto fica por minha conta!

-De boa vontade?!

-Sim, de resolução. Contento-me com isso!

-Mas se tenho toda a certeza de que esse esforço será baldado! ... Eu bem me conheço, minha mulher!

-Seja ou não seja baldado, ele é necessário para a minha felicidade e para a segurança do amor que te dedico! Agora, se entendes que não vale a pena...

-Eu não disse semelhante coisa!... Valha-me Deus! Teu amor está acima de tudo, e creio já ter dado provas disso. Mas, deixa que te diga, com franqueza: eu, isto aqui entre nós, eu nem sei em que consiste o tal esforço de que me falas; não sei os passos que é preciso dar; não sei como a gente se faz célebre ou o que melhor queres que eu seja!

-Não é tão difícil como te parece à primeira vista. -Se o Brasil estivesse em guerra, sentarias praça em quanto antes e dentro em pouco tempo poderias alcançar um posto elevado. Farias uma bela carreira nas armas!

-Deus me livre!

-Mas, continuou Filomena -desgraçadamente estamos numa paz absoluta, e, por conseguinte, só nos resta a política.

-A política?...

-Sim, visto que nas artes ou nas ciências já não poderás fazer nada. Agora é escolher uma causa política e caminhar desassombradamente!

-Uma causa?!

-Sim, uma idéia, um princípio patriótico, qualquer coisa que esteja articulada aos atuais interesses do Brasil! Descoberta a tua idéia, não tens mais que defende-la; então escreverás, escreverás sem cessar; publicarás tudo que te vier à cabeça a respeito de tua causa; darás por paus e por pedras; falarás de tudo e de todos, até que sejas um homem perfeitamente conhecido, e o imperador te chame para junto de seu trono. Uma vez ao lado de meu padrinho, só não obterás o que não quiseres. Entendes tu?

Borges apertou os beiços. E, sacudindo a cabeça:

-É difícil!

-Qual difícil o que! retrucou a mulher. -Difícil era conquistar o meu coração e a minha confiança, e conquistaste-os! Não queiras parar em meio do caminho: conquista também o meu entusiasmo e a minha admiração. Faze-te grande! faze-te célebre! coloca-te ao meu lado! sobe à minha altura! acompanha-me no vôo!

-Veremos, veremos..., prometeu o marido vagamente. Hei de fazer a diligência!

Se fosse coisa que estivesse em suas mãos, a mulher nem precisava pôr tanto na carta! Mas que diabo! Aquela história de descobrir uma causa para defender; o fato de ter de publicar artigos sobre artigos; falar de tudo e de todos; isso é que lhe fazia confusão e dava-lhe volta ao miolo; mas, enfim, estava disposto a empregar a diligência. -Já agora, seria o que Deus quisesse!

E nessa disposição acompanhou de novo a mulher para o Rio de Janeiro.

Celebridades

Filomena não se enganara quanto à previsão do entusiasmo que havia de causar no Rio de Janeiro. Bastou constar que vinha aí a famosa cancionista, tão apreciada de Paris, para que toda a cidade se mostrasse tomada de uma loucura instantânea.

E desde então até a sua chegada foi ela a ordem do dia; não se falava noutra coisa. Esperavam-na contando os minutos; um sussurro uníssono de elogios evolava-se da opinião pública, sem que ninguém pudesse explicar a causa de semelhante alacridade.

Afinal chegou.

Que frenesi! Todos queriam ser o primeiro a vê-la. O cais Pharoux parecia diminuir sob a multidão que o coalhava. Viam-se enormes grupos, esparsos, por aqui e por ali, galgando a muralha, invadindo as lanchas e os escaleres. Nas ruas faziam-se comentários a respeito da baronesa de Itassu; os jornais pregavam na parede notícias a respeito dela; vendia-se o seu retrato em todas as proporções; inventavam-se biografias.

Uns afirmavam que Filomena Borges era um modelo de virtudes; outros que era uma grande velhaca. Este jurava que a vira já muito por baixo, num hotel; aquele dizia que ela fora sempre riquíssima, e que só trabalhava em público por amor à arte. Aqui afiançavam have-la visto, em tal época dançar uma habanera em casa de tal figurão; logo, ali, negavam: -Que não! que essa Filomena era outra, falecida havia já coisa de cinco anos, e que esta, a nova, a do teatro, não tinha absolutamente nada de comum com a outra, com a tal Filomena, cujos bailes, por tão luxuosos e originais, ainda se conservavam na memória de toda a gente!

E as discussões reproduziam-se, cada qual mais disparatada.

Entretanto, no meio desse burburinho, que se fazia no cais, dois homens, depois de se abalroarem, soltaram exclamações de reconhecimento,

-Olá! Você também por aqui, Sr. Barroso?...

-É verdade. Como vai o amigo Guterres?

Guterres ia bem, muito agradecido, mas sempre apoquentado. O outro, ao contrário, dizia-se feliz. Graças a Deus continuava às mil maravilhas com a sua cara mulherzinha e com o seu pequerrucho. Ah! a mulher e o filho eram a sua preocupação, eram o seu enlevo!

-O senhor é quem goza esta vida! considerou o outro.

-É. Deus louvado não tenho de que me queixar! -sustentou o Barroso. Sou feliz, não nego! Coube-me por sorte uma esposa que é um anjo, um verdadeiro anjo da bondade! Também, meu amigo, olhe que lhe pago na mesma moeda... trato-a como vossemecê não imagina!

-Mas faço uma idéia! faço uma idéia! respondeu o Guterres, cheio de acordo.

E mudando de tom e chegando-se mais perto do outro:

-Ora, diga-me cá uma coisa, seu Barroso: tire-me de uma dúvida: -quem vem a ser esta Filomena Borges?... Dir-se-ia a mulher do João Touro!

-Pelo menos, o nome é o mesmo e foi justamente essa dúvida o que me trouxe por cá!

-O nome e o titulo! acudiu o outro, que ela se anuncia como baronesa de Itassu. Afianço-lhe, porque vi!

-Então não é outra com certeza! disse o Barroso -e se duvido, quero que me rachem de meio a meio!

-Ora o diabo!

-Nem era de esperar outra coisa de semelhante doida! Uma sujeita toda cheia de caprichos e de fantasias!

-Mas, tornou o Guterres, como consente aquele homem que a mulher levante um espalhafato desta ordem?... Isto até faz desconfiar!

-Pois então você não sabe que o Borges sempre foi um barão pela mulher?... Ela faz dele o que bem entende!

-Sim, mas segundo me consta, o João Touro não saiu lá muito recheado aqui do Rio! ... considerou o Guterres.

-Recheado saiu ele, mas foi de dívidas!

O Barroso ia responder, mas interrompeu-se:

-Olhe! Aí chegam eles! São os mesmos -é a Filomena e o pancada do marido!

-Ora, para que havia de dar aquele maluco! exclamou Guterres, considerando o casal que o outro lhe mostrava.

-E como vêem tão esquisitos! Parecem dois estrangeiros! Ora o Borges!

Filomena, com efeito, vinha tão à européia pelo braço do marido, que não parecia a mesma.

E como estava formosa! como estava cada vez mais linda!

A quantidade de curiosos que os cercavam era tão grande, que os dois mal podiam caminhar.

Nunca o entusiasmo brutal do povo chegou àquele auge. As ruas, por onde seguia a desejada bailarina, ficavam completamente cheias. As janelas transbordavam. De todos os lados choviam versos; duas sociedades filarmônicas acudiram com a pancadaria de sua música. Um verdadeiro delírio!

Começaram a surgir as ovações.

Do dia seguinte à chegada em diante, Filomena Borges transformou-se no alvo de mil protestos de amor, de presentes e oferecimentos, propostas de todos os sentidos. Os apaixonados caíam-lhe em redor aos bandos, como pássaros prostrados pelo calor.

E a sedutora, sem desenganar a nenhum deles, nem lhes dar mais nada além de vagas esperanças, governava com o macio e delicioso cabresto de seus sorrisos e de seus olhares de ternura, toda aquela imensa matilha de namorados.

Na primeira noite em que ela se mostrou no Pedro II, o teatro foi pequeno para a concorrência que havia. As senhas atingiram o valor de jóias. Viam-se casacas nas torrinhas. E todos aplaudiam, todos se entusiasmavam, não pela arte, nem pelo talento de Filomena, mas pelo gracioso de seus gestos, pela originalidade de sua beleza, pelo satanismo de sua faceirice, que iam maravilhosamente com os requebros dos tangos e das modinhas.

-Não há francesa! não há nada que se compare a isto!... dizia-se.

Um mandarim, que por esse tempo estava no Rio de Janeiro, encarregado de uma comissão diplomática, mandou-lhe no dia seguinte ao primeiro espetáculo, por quatro dos seus criados de rabicho, uma bela urna de sândalo, incrustada de ouro e repleta de coisas preciosas, entre as quais havia um bilhete de papel de arroz, escrito a pincel, que no melhor francês, punha à disposição de Filomena os sete aposentos que ocupava o chim no Hotel dos Estrangeiros.

Logo em seguida, um lord viajante, cuja fragata havia três semanas estava ancorada no porto do Rio de Janeiro, apresentou-se-lhe em casa, oferecendo-lhe um dote de meio milhão de libras esterlinas, se ela quisesse abandonar o marido e acompanhar o sedutor à Inglaterra, onde se casariam sob a religião protestante.

E, como esses, outros, e mais outros oferecimentos vinham amontoar-se-lhe defronte dos olhos; e ela sempre meiga, sempre amável, nunca dizia que «não» e também nunca dizia que «sim», justamente como em pequena lhe ensinara a velha D. Clementina.

O Borges, coitado! é que já não podia agüentar com aquele demônio de vida.

Quando não era o teatro, eram as visitas, os jantares, as repetidas festas -um nunca acabar de maçadas! é certo que já não pisava no palco, mas em compensação as suas lides de empresário, de secretário, de caixa e de gerente, absorviam-lhe todos os instantes. Tinha de atender para a direita e para a esquerda, pagar contas, contratar empregados, administrar o serviço do teatro, escriturar a receita dos espetáculos -um inferno de preocupações.

E quando afinal, pela manhã, ganhava a cama, moído e prostrado, lá estava a mulher para perguntar-lhe pela «idéia», para perguntar-lhe como iam «as suas ambições políticas». Se o Borges havia já deliberado alguma coisa a esse respeito; se aprontara o seu primeiro artigo para a imprensa. -Que fizera, afinal, depois que estavam na corte.

-Matar-me! É o que tenho feito! respondia o infeliz, gemendo no seu cansaço. -Esta vida dá-me cabo da pele! Não sirvo para isto!... Como queres tu que eu pense, que eu escreva, se não tenho um momento de repouso, se todas as minhas horas são poucas para o tal teatro?!

-Entretanto, é mister que te resolvas a principiar! ... Não podes de forma alguma permanecer no estado em que te achas!

-Sim, sim, resmungava o Borges, entre bocejos. -Hei de dar um jeito...

-Tenho uma idéia! exclamou a mulher de uma dessas vezes -tenho uma excelente idéia! -Está a chegar o verão; iremos passá-lo em Petrópolis e, durante esse tempo de completo repouso, tu farás o que já combinamos. Hein? que tal te parece?

-Bom, parece-me bom, respondeu o infeliz, mais animado com a idéia daquele descanso. -Irei para Petrópolis, irei de muito boa vontade, mas hás de afiançar primeiro que não voltaremos antes do inverno e que durante todo esse tempo nem sequer pensaremos em teatro!

-Podes ficar descansado! prometeu a mulher.

O Guterres, apesar daquela conversa com o Barroso, foi um dos primeiros que, à chegada do Borges, o procurou.

Apresentou-se muito comovido, disposto a perdoar generosamente as afrontas que recebera do amigo.

E, desde essa visita, não lhe deixou mais a casa. Jantava lá quase todos os dias e à noite era infalível no teatro.

Borges apenas conseguiu suportá-lo mas Filomena tinha-o em certa estima. Guterres não se cansava de elogiá-lo; ao lado dela só falava nos sucessos extraordinários que a formosa bailarina obtinha todas as noites. E a vaidosa experimentava certo gostinho em sentir a seus pés aquele constante incensador, aquele louvaminheiro incansável, que a glorificava sempre no mesmo diapasão, como uma caixa de música que não precisasse de corda, mas que só tivesse uma peça.

Todavia, o Guterres, pronto sempre a obsequiar lá a seu modo, fazia-se muito solícito com o Borges, dava-lhe conselhos, mostrava-se interessado por ele. Passava os dias no teatro, querendo ajudá-lo em tudo e não fazendo coisa alguma; assentando-se familiarmente ao lado do bilheteiro, examinando a receita e a despesa, interrogando os trabalhadores, consultando os músicos, tomando contas às costureiras, repreendendo os que conversavam em voz alta nos ensaios, apaixonando-se nas discussões a respeito de Filomena ou do Borges, pedindo desculpa aos espectadores que por ventura ficavam mal acomodados na platéia, e indo e vindo, da caixa para os corredores, a fiscalizar, a saber como corria o negócio.

Quem o visse ali, tão inquieto, tão empenhado, tão comprometido com aquele serviço, ficava supondo que o Guterres tinha parte na empresa.

Quando ele se referia ao Borges, dizia sempre:

«O João, o nosso amigo João». Mas se estivesse presente algum estranho, acrescentava logo, com respeito, como para justificar aquela amizade: «O barão de Itassu».

Borges no fim de contas já não o achava tão ruim, e aos poucos o ia admitindo nos seus particulares. Um dia de mais expansão, chegou a falar-lhe muito em segredo, nos projetos políticos, que ultimamente o preocupavam.

-Não é coisa minha! disse, justificando-se.

-São histórias lá de minha mulher! Deu-lhe pr'aí. Acha que devo meter-me na política!

O outro recebeu a notícia com um acolhimento cheio de assombro.

-E por que não?!

-Achas então que a coisa é exeqüível? perguntou o Borges.

-Mas certamente! Dessa massa é que eles se fazem! Nas condições em que estás e dispondo da influência de tua mulher, seria um crime até não cuidares do futuro! Olha...

E chegando-se misteriosamente ao ouvido do outro: -Eu estou aqui para te ajudar! Descansa!

Mas o Borges não podia descansar; as palavras do Guterres inspiravam-lhe muito pouca confiança, continuava a ver nele o mesmo preguiçoso vulgar, o mesmo «pobre diabo», o mesmo parasita incorrigível.

-Então é certo que vais para Petrópolis? perguntou-lhe o amigo na véspera da viagem...

-É, respondeu o marido de Filomena; -sigo amanhã.

-Diabo, antes fosses mais tarde! Não me convinha sair daqui sem acabar o mês...

-Mas que necessidade tens tu de sair? ponderou o Borges, temendo que o outro lhe quisesse duplicar as despesas do passeio.

-Pois eu havia lá de consentir que partisses sem levar um amigo em tua companhia!

-Não, não! não te incomodes por minha causa! apressou-se a dizer o Borges. Agradeço-te do fundo do coração a boa vontade; mas acredita que não há a menor necessidade de...

-Ora, deixa-te dessas coisas! Queres romper cedo comigo, João?!... Bem sei que és escrupuloso, que tens receio de me importunares, aceitando estes pequenos obséquios; eu, porém, julgo-me no dever de cumpri-los, mesmo contra o que disseres.

-Mas, filho, dou-te a minha palavra de honra, que fico muito mais agradecido se não fores! oh!

-E eu dou-te também a minha palavra que nem a tiro conseguirás que eu mude de resolução!

-Nesse caso é birra! exclamou o Borges, sem poder disfarçar a impaciência.

-Será o que tu quiseres! bradou o teimoso. -Mas eu considero do meu dever não te deixar ir só!

E com orgulho:

-Não! Que não sou desses amigos que só aparecem pelo bom tempo!... Não senhor!... Sei que vais doente, cansado, prostrado... sei que hás de precisar de um bom amigo ao pé de ti, que te dê coragem, que te anime! Sei que levas projetos de escrever artigos políticos, de lutar, de resistir, e sei que te faltarão as forças para tanto! E pensares que eu seria capaz de te deixar ir só. Oh! não te mereço semelhante injustiça! Eu supunha, João, que fizesses de mim um melhor juízo!

-Ora essa!

-Não! não! Seria cometer a mais revoltante indignidade, se eu não te acompanhasse!

Borges ainda protestou, não, porém, com o mesmo ardor; as palavras do amigo a respeito dos tais projetos políticos o interessaram sobremaneira. O Guterres gozava de certa fama de homem fino, perspicaz e muito inteligente.

Verdade é que seria difícil citar-lhe as obras; Borges não se lembrava de haver posto os olhos em alguma coisa escrita por ele; nunca lhe descobrira o menor trabalho de imprensa, mas, por várias vezes ouvira conversar a respeito do talento do Guterres:

-Se não fosse tão preguiçoso, diziam, seria a nossa «primeira pena!»

-Bem podia ser que o demônio do homem entendesse deveras do riscado e viesse a prestar-lhe muito bons serviços!... Em tricas de política, pelo menos, ninguém lhe podia negar competência.

Borges ainda se lembrava perfeitamente das formidáveis discussões, em que o vira por inúmeras vezes empenhado com os grandes da matéria. -Ora, se assim era, valia a pena abrir mão de umas certas coisas e aceitar abertamente o auxilio que lhe oferecia o tipo! ...

-O diabo seriam as despesas!

Borges já não era o mesmo algibeiras rotas em questões de dinheiro: depois das suas adversidades, ficara econômico e desconfiado. -Mas enfim! ora adeus!... Quem precisa tem que puxar pela bolsa!

E resolveu agüentar a carga.

Petrópolis

Era ainda no tempo das pitorescas diligências, e Filomena, que nunca tinha ido a Petrópolis, ficou maravilhada com o passeio.

Principalmente a subida da serra com a sua estrada muito branca, em ziguezague, que serpeia e se arrasta por sobre ela, à semelhança de uma cobra fantástica de marfim, causou-lhe arrebatamentos vertiginosos.

Vales e montanhas, píncaros e despenhadeiros, tudo surgia amplamente defronte de seus olhos, banhado de tons cerúleos, num morte-cor ideal, vaporoso e fugitivo. As roxas grimpas da serrania alcandoravam-se por entre flocos transparentes de neblina, que se iam rasgando às primeiras irradiações do sol, como trêmulas cambraias sopradas pelo vento.

E pouco a pouco descortinavam-se as planícies afogadas num oceano compacto de verdura, e logo depois enormes penhascos debruçados sobre elas, como gigantes adormecidos de pé, e lá embaixo, ao fundo, muito ao longe, acentuava-se a baía entre nuvens de cordilheiras, que se acumulavam a perder de vista, formando largos horizontes cor de pérola.

-Esplêndido! balbuciou Filomena, com a boca meio aberta, os olhos iluminados de inspiração, o seio ofegante, as narinas sôfregas e dilatadas. -Esplêndido!

E com os olhos ia-se-lhe a alma por aquela imensidade deslumbrante, precipitando-se de plano em plano, derramando-se até o fundo misterioso dos vales ou voando aos alcantis que se perdiam no céu.

Nada do que vira pelo mundo inteiro a comovera tanto, nada lhe afetara tão poderosamente a sua fina sensibilidade de artista; nada lhe penetrara tão fundo a alma apaixonada e contemplativa.

Entretanto, o Borges, defronte dela, assentado ao lado do Guterres, discutia com este os seus projetos políticos.

-Agora só o que me falta é a «idéia»! disse o barão ao ouvido do outro.

-Idéia? de que?... perguntou o Guterres, sem compreender.

-A idéia, homem, a causa que eu tenho de abraçar, de defender! Sim! é preciso decidir-me por alguma!

O amigo olhou muito sério para ele:

-Tu ainda não tens partido?!

E depois de um gesto negativo do outro:

-Mas isso é ouro sobre azul! Não sabes a fortuna que possuis! O imperador dá a vida pelos homens nessas condições!

-Achas, hein!

-Tenho certeza! Mas, vem cá, o partido conservador é o único que te convém, é o único que te pode oferecer algumas vantagens! Homem, sempre é melhor estar com o poder... não acredites que os liberais levantem tão cedo a cabeça! E, se levantarem, melhor! porque nesse caso colocar-te-ás na oposição, ficas na brecha! terás a luta, terás a reação às tuas ordens! Só o que te falta é a prática, são as relações políticas. -Isso obterás rapidamente, juro-te eu, que conheço essa gente como a palma de minhas mãos!...

Enfim, não te faltam os elementos!... segredou depois de uma pausa, piscando o olho e fazendo com os dedos sinal de dinheiro.

-Não é tanto como supões! respondeu o Borges.

E, assim conversando, chegaram à estação do desembarque, onde, segundo o costume, havia já uma confusão de curiosos, e onde já estavam os empregados dos hotéis, que vinham com os seus carros à pesca de hóspedes.

De todos os grupos se exalava um cheiro penetrante de luxo e de riqueza.

Borges entregou a bagagem a um moço do hotel Bragança, deu-lhe o bilhete da carga que chegaria mais tarde, e, com a mulher e mais o Guterres, tomou o carro que lhe competia, e os três seguiram alegremente, devorados de apetite.

Petrópolis produziu no Borges uma impressão inteiramente contrária à que produziu em Filomena.

Para esta a transformada fazenda do sr. d. Pedro II apareceu como um paraíso da elegância, colocado entre rochedos; adorável com as suas pequenas ruas encentradas pelo rio e contornadas de arvoredos, formando, vistas a certa distância, belos canteiros de verdura, onde a magnólia, a camélia, o cravo, a açucena e a rosa disputam a primazia em número e beleza.

A acumulação dos jardins, a riqueza das flores, a pureza do céu, a frescura do ar, prontamente impressionaram o seu espírito, sempre voltado ao pitoresco, ao recreativo, ao ideal. Além disso, as criancinhas louras, descalças, caminhando em bando para a escola, as criadas alemãs, de olhos azuis, a boca vermelha e a pele branca, faziam-na esquecer, por instantes, do africano e repulsivo aspecto geral das cidades do Brasil, e imaginar-se num canto feliz da legendária e melancólica Germânia.

E no Borges. as primeiras impressões foram justamente o contrário de tudo isso. Espírito prático, e por demais ferrenho, não se cegou logo pelas aparências do mimalho de Sua Majestade e tratou de julgar Petrópolis friamente, com todo o peso do seu bom senso grosseiro e burguês.

O que ele notou, em primeiro lugar, foi o engano em que ali viviam todos, supondo luzir com o reflexo que vinha do monarca; quando aliás Sua Majestade, astro sem brilho próprio, não podia emprestá-lo a quem quer que fosse.

Enquanto a mulher se extasiava defronte dos jardins, das fontes e dos rios, ele, o Borges, notava que Petrópolis, com os seus decrépitos laudêmios, com as suas sesmarias, OS seus enfiteuses, os seus canons, os seus foros territoriais, continuava a ser uma fazenda, uma feitoria do imperador, e que era bastante tocar em qualquer coisa, que lá estivesse, para se sentir logo a dois passos, o olho vigilante e repressivo do proprietário, do dono.

Por toda a parte, em tudo, o mesmo prestígio do «Senhor». A mesma impertinência do «Amo».

-Bela rua! exclamou o barão, considerando a rua d. Afonso, depois de percorrer as ruas do Imperador e da Princesa Januária.

-É exato! responderam-lhe -o imperador acha-a bonita!

-Não morro de amores pela cerveja que aqui se fabrica, disse ele doutra vez.

-Não! contradisseram-lhe, esta cerveja é magnífica -o imperador gosta!...

E assim era, sempre que o Borges fazia qualquer pergunta ou pedia qualquer informação. As idéias, as frases, giravam sempre sobre o mesmo parafuso -o imperador. Era ele sempre o ponto de partida, o termo de comparação, a base, o princípio, o fim, o meio.

-Ora bolas! exclamou o Borges, afinal já importunado com aquele servilismo. -Para qualquer lado que me vire, dou sempre com o mesmo espantalho! Sebo! No fim de contas que diabo tenho eu com o tal Imperador? Não estou aqui por obséquio, não estou na casa de ninguém; estou num hotel, a tanto por dia! Ora essa! Pago com o meu dinheiro!

O Guterres então contrapunha argumentos cheios de prudência e reflexão. -O amigo fazia mal em pronunciar-se daquele modo! Não era isso que mais convinha aos seus projetos políticos! Que diabo! Não custava coisa alguma guardar umas tantas conveniências!

-Estou vendo é que mando para o inferno a tal idéia de minha mulher e musco-me daqui quanto antes! -Ah! meu Paquetá! meu Paquetá!

Não sabia por que, mas sentia-se muito contra a vontade na tal cidadezinha! Faziam-lhe mal aos nervos aquela elegância convencional, aquele falso luxo, aquela preocupação de «parecer rico», que notava em quantos iam passar ali o verão.

-Súcia de pulhas! resumia o bom homem, fazendo uma careta de tédio.

E experimentava arrepios de indignação quando, à tarde, num alvoroço postiço, reuniam-se à porta do Bragança grupos casquilhos de damas e cavalheiros, macaqueando uma aristocracia que não tinham, fazendo uma existência fina e superior, que mal conheciam de tradição. Por debaixo daquelas roupas a inglesa, daquelas rendas e daquelas sedas; por debaixo daqueles movimentos largos de fidalguia endinheirada, o Borges lobrigava o brasileirinho, ou o portuguesão, meticuloso, ruim, amigo da intriguinha, reparador dos defeitos alheios e cheio de vícios.

Os phaétons, as berlindas, os landaus, as cestinhas puxadas a dois e três tiros de cavalos, as corridas à marcha inglesa pelas ruas, a conversa ruidosa dos falsos elegantes, a febre de gastar dinheiro inutilmente, enfim tudo que não tinha o cunho do hábito e o caráter de coisa adquirida insensivelmente com a educação, com o berço, tudo isso se lhe afigurava tacanho, ridículo, insuportável.

E por toda a parte e em todos os objetos, nas casas de negócio, nos costumes, nas toilettes, na linguagem, nas relações, nos amores, em tudo descobriu o mesmo fingimento, a mesma mentira, a mesma preocupação de mostrar uma grandeza que não havia.

-Isto, quanto a mim, classificou ele finalmente, em confidência com o Guterres -cheira-me assim a mulata forra com pretensões a cocotte.

E o Borges, aquele pax vobis, aquele homem que não sabia quais eram os passos necessários para entrar na política, resolveu do fundo do seu bom senso burguês que Petrópolis não passava de uma cidadezinha dissolvente, cara, preciosa, que se alimentava do calor enervante de um sol no ocaso, um sol, ou antes um parhélio, que ia desaparecendo lentamente para nunca mais voltar.

E profetizou, o toleirão! que, dentro de vinte anos Petrópolis deixaria de existir ou transformar-se-ia, completamente, numa dessas muitas cidadelas do prazer e do vício como Mônaco ou Monte-Carlo, alimentadas pelo jogo, pagando o «barato» ao governo e servindo exclusivamente aos libertinos do bom-tom e às prostitutas de alto bordo.

Entretanto, todo esse conjunto de coisas, que, observadas a olhos nus, repugnavam ao paladar simples do burguês, apareciam a Filomena radiantes e encantadoras, vistas através do prisma fantástico de sua imaginação.

Para Filomena, Petrópolis continuava a ser o «tépido retiro das almas delicadas, a fina corte do espírito e da elegância». Uma espécie de ninho artístico, feito de ramos e folhas naturais, porém borrifado de leve com algumas gotas de ylang-ylang.

Os mesmos elementos, que levantavam a antipatia do marido, para ela serviam de bom pasto aos seus gostos e caprichos. O prestígio do monarca, por exemplo, longe de lhe ser desafeiçoado, constituía um dos pontos que mais a interessava. E, se nisto havia ainda qualquer coisa a desejar, era justamente não ser ele mais completo, mais cavalheiresco, mas ao sabor da idade média.

Queria d. Pedro no seu castelo feudal, mais moço, mais bonito, amando os combates encarniçados e as mulheres formosas; devoto e libertino a um tempo; supersticioso e malvado; indomável e forte defronte dos esquadrões inimigos, suplicante e humilde aos pés de uma dama fraca e delicada.

Não o desejava de casaca e chapéu alto, porém, de gorro emplumado e gibão de veludo, todo ele resplandecente de ouro nas suas bordaduras preciosas. Preferia-o de longos cabelos da cor do sol, a barba dividida ao meio do queixo, o nariz firme e audacioso, como o dos antigos heróis da Grécia.

A gorda figura do Imperador, com o seu abdômen saliente, as suas pernas finas, a testa abaulada, os olhos vulgares, causava-lhe um desgosto profundo. Não lhe podia perdoar aquele aspecto de bom velho, aquele ar pacato, aquela proverbial honestidade, aquela expressão moleirona de homem linfático e turgido pela vida sedentária. A voz branda e fanhosa, o ar giboso de Sua Majestade avultavam no espírito de Filomena como o mais grave atentado que se pudesse opor às magnificências da coroa.

-Não é um rei! dizia ela consigo, cheia de indignação. -Não é um rei, é um pai de família, um fazendeiro rico, um tipo comum!

Mas para que se afligir com essas pequenas misérias do mundo, se ali estava a sua bela imaginação, pronta sempre a torcer e dissimular os fatos que a realidade lhe grupava brutalmente em torno da existência?!

E, com o auxílio dessa fiel companheira, tudo se lhe afigurou entretecido de ouro e azul. Petrópolis converteu-se defronte de seus olhos nos domínios de um belo infante apaixonado, que vivia a abater nas suas terras o javali bravio.

E Filomena, soltando as rédeas de sua indomável fantasia, transpunha-se aos tempos medievos e sonhava as clássicas manhãs de caça, em que os reis, cercados de uma corte luzidia e fugace, partiam galhardamente para o campo, ao agreste som de retorcidas trompas de metal.

E formosas damas, pálidas na vertigem do galope, deslizavam nos seus palafréns cobertos de pedrarias, o amazonas desfraldado aos ventos. E fidalgos poderosos, e pajens lindos como arcanjos, e donzéis de falcão ao dedo, e ligeiros batedores, e nuvens ululantes de cães que se precipitavam em matilhas; tudo, tudo perpassava vertiginosamente defronte de seus olhos, num rebrilhar fantasmagórico de opulências.

Por isso, ao entardecer dos dias quentes, quando as cigarras estridulam nas matas e a natureza se recolhe na concentração, mística e voluptuosa da sesta, Filomena furtava-se de todas as vistas e saía a bordejar silenciosamente os largos misteriosos da cidade ou a deixar-se perder pela alfombra embalsamada dos caminhos de bambus.

Em um desses passeios encontrou-se com o monarca, Ele caminhava em direção contrária à dela, inteiramente desacompanhado.

Viu-a, fitou-a rapidamente, fez-lhe um gracioso cumprimento, e lá se foi por diante, muito sombrio, com a cabeça enterrada nos ombros, as mãos cruzadas atrás, os olhos presos na terra.

Filomena havia parado e ficou alguns instantes a contemplá-lo. Depois fez um gesto de impaciência com a boca, sacudiu as espáduas e continuou o seu passeio.

Volta-se à dança

Naturalmente o monarca falou a alguém do seu ligeiro encontro com a afilhada, porque esta, se até então conseguira em Petrópolis furtar-se um pouco ao burburinho das salas, daí em diante não foi mais senhora de si.

Viu-se logo cercada de manifestações, querida, reclamada a todos os instantes, servindo de alvo a todas as atenções, discutida, invejada, luzindo e ofuscando com a sua beleza, com os seus gostos, com o seu espírito e com o seu nome, que se impunha aos ouvidos de toda a gente, alta ou baixa, como o título de uma canção popular.

Organizaram-se concertos, inventaram-se meios de a ouvir, de a ter perto, de a obsequiar. Os seus gostos foram imitados; as suas toilettes decretaram a moda da estação, as suas frases mais insignificantes converteram-se em apotegmas.

-Isto vai mal!... considerava todavia o Borges, vendo que os seus horizontes, em vez de se acalmarem de todo, mais e mais se perturbavam. -Isto vai muito mal!... muito mal! Desde que cheguei a este inferninho de cidade, ainda não tive um momento de verdadeiro descanso, e já pressinto aliás que as coisas vão tomando um caráter ameaçador! Confesso que não estou nada satisfeito!

-Não sou dessa opinião, contrapôs o Guterres, -Entendo que o negócio caminha às mil maravilhas! Nós, o que precisamos é não dormir com o trabalho!

-Ó homem! exclamou o outro. -Pois você acha que temos trabalhado pouco? Você acha que é pouco o que temos feito?! Ainda não abandonei a pena senão para comer e dormir algumas horas!

-É pouco! é quase nada!

-É um artigo!

E com efeito, os quatro dias que tinham de Petrópolis foram devorados na confecção de um artigo político, uma espécie de autobiografia a jeito de programa ao mesmo tempo, peça original e divertida, na qual criticava o autor a lamentável situação econômica do Brasil, censurando e lamentando certas coisas, aplaudindo outras com entusiasmo, fazendo-se muito patriótico e empenhado na salvação desse «país esplêndido, destinado por Deus a um grande destino, mas infelizmente vítima todos os dias do egoísmo e do desamor daqueles que, se compreendessem os seus deveres, deviam ser os primeiros a defende-lo e honrá-lo perante o século dezenove e não procurar precipitá-lo no aviltamento e na vergonha».

O Borges tomara no hotel um gabinete especial para esses trabalhos. E a sua mesa, coberta de tiras de papel, cheia de livros abertos, coalhada de jornais, não parecia ter quatro dias naquele serviço; parecia ter vinte anos.

E ele, todo vergado sobre a pasta, o olhar carrancudo, a ponta da língua a brincar fora da boca, como a cabeça de um boneco de engonço, enchia e reenchia centenas de tiras, caprichando na letra, recorrendo aos dicionários, consultando o código, manuseando jornais velhos e lendo em voz alta o que ficava escrito, declamando enfaticamente as frases que lhe pareciam de mais efeito.

O Guterres nunca escrevia, apenas ditava; ora repimpado na cadeira de balanço, o copo de cerveja ao lado, a cabeça vergada para trás, a fisionomia cheia de preocupação, os olhos quase fechados, espiando atentamente por entre os dedos que ensarilhava no ar, defronte do rosto.

Ou então passeava pelo quarto, fitando o soalho, as mãos nas algibeiras das calças, o charuto fumegando a um canto da boca. E só se alterava para fazer uma visita ao copo ou dar uma vista d'olhos ao que escrevia o Borges.

Às vezes, depois de correr uma olhadela pelo trabalho tomava em silêncio a pena das mãos do outro, emendava alguma palavra mal escrita, largava de novo a pena sobre a mesa e prosseguia no seu passeio.

«Patriota e defensor acérrimo da Carta Constitucional»..., bradava ele, destacadamente, acentuando a frase com um movimento de braço: «sempre tive por único objeto de meus esforços a prosperidade e a glória de meu país!» Escreva!

O Borges escrevia.

«No meu livro sobre o Oriente» (é bom falar nisso!) «escrito de colaboração com minha mulher, a Exma. Sra. baronesa de Itassu, e que muito breve verá a luz da publicidade, hei de provar o que há pouco avancei!».

E depois de dar ao Borges o tempo de escrever:

«Na política espanhola, na qual tive a honra de tomar parte durante as últimas revoluções do cantonalismo»...

-Mas, filho, eu não tomei parte nisto! protestou o Borges, largando a pena e limpando o suor da testa. -O que se passou foi só aquilo que te contei! Para que havemos nós de dizer uma coisa que não é verdade?!

-Cala a boca, homem de Deus!

-Não! Hás de convir que...

-Mau! Se você conta escrever só a verdade, está bem servido nas suas pretensões! É melhor então cuidar de outra coisa!

O Borges coçou a cabeça, sem responder...

-Em política, meu amigo, disse o outro -verdadeiro é só aquilo que nos convém. Que diabo há de então você dizer, no caso que esteja resolvido a alegar em seu favor somente os seus serviços reais prestados à política?! Sim! Quero saber o que foi que você já fez por este ou por aquele partido! Se há qualquer coisa, diga, porque, olhe! não me consta!

O Borges olhou para ele, sempre a coçar a cabeça.

-Por conseguinte deixe-se de histórias, e escreva! Escreva, que o resto fica por minha conta!

Daí a pouco suscitou a mesma questão a respeito de d. Luis de Portugal. O Guterres queria que o amigo desse a entender no seu artigo que havia em Paris gozado «a estima e a confiança do bom e afável duque do Porto».

-Não! Essa agora é que não passa! reagiu o Borges energicamente. -Ainda com o cantonalismo -vá! porque enfim o basbaque do estalajadeiro tomou-me por um correligionário; mas com o d. Luis valha-me Deus! a coisa é muito diversa! Homem, pois se ele nem mesmo chegou a trocar uma palavra comigo, que até supunha que eu não entendesse o português! ... Eu estava de botocudo!

-Mas é a mesma coisa, João! Você não entende disto! Faça o que lhe digo e deixe-se de escrúpulos sem razão de ser!

Afinal entraram em acordo, e o primeiro artigo ficou pronto. O Guterres iria levá-lo pessoalmente ao Jornal do Comércio.

-Ah! soprou o Borges, atirando-se a uma cadeira. -Deste estou livre!

Mas foi logo interrompido pela mulher, que lhe vinha dar parte que no dia seguinte, antes de principiar o baile do Casino, organizado no próprio hotel Bragança, onde havia um teatrinho, ela dançaria um de seus tangos e cantaria uma de suas modas para fazer a vontade ao padrinho.

-Está tudo perdido! calculou o Borges, empalidecendo. -Adeus sossego! O diabo é dançar a primeira vez!

E o pobre homem tinha razão. A notícia de que Filomena ia dançar, levantou entusiasmo. Petrópolis assanhou-se; o hotel Bragança encheu-se de curiosos; por toda a cidade só se falava na baronesa de Itassu; todos queriam ajudar nos preparativos da festa; foi preciso fechar o salão do baile para conseguir-se fazer alguma coisa. O Borges viu-se atrapalhado.

No dia da função, às sete horas da noite, já se não podia transitar na rua do Imperador. De todos os lados acudia gente; os carros grupavam-se em todo o comprimento do rio. Uma curiosidade febril agitava os corações.

E quando, acesos os candeeiros de querosene, organizada a platéia; distribuídos os lugares, o monarca já instalado com o seu seminário, ergueu-se o pequeno pano do teatrinho e Filomena principiou a dançar o tango, o entusiasmo difundiu-se de tal modo, que foi preciso empregar todos os meios para contê-lo.

Era a primeira vez que o salão do frio e sizudo Casino experimentava uma febre daquela ordem.

Terminado o ato, o imperador dignou-se cumprimentar pessoalmente a formosa artista e prometeu que dançaria com ela uma quadrilha francesa.

Este ato foi aplaudido em geral, como um rasgo de verdadeira justiça.

Afastaram-se logo as cadeiras e os bancos da platéia, desembaraçando-se o salão para a dança e, daí a pouco a linda baronesa de Itassu, em grande uniforme de baile, era a soberana daquela festa. O padrinho dirigiu-lhe por várias vezes a palavra e disse-lhe que simpatizava muito com o barão e que mais tarde havia de dar provas dessa simpatia.

Espalhou-se logo o boato de que o imperador estava deveras apaixonado pela irresistível afilhada e que esta lhe correspondia de um modo escandaloso.

Verdade é que, depois do primeiro baile, não se passava um dia em Petrópolis, sem que d. Pedro tivesse ocasião de se encontrar com ela; e, quando havia dança, o bom príncipe não lhe dispensava a sua quadrilhazinha e os seus dois dedos de palestra.

-Belo monarca! Belo monarca! dizia o Guterres. E ainda havia por aí toleirões que falavam em república e revolução! Onde iriam encontrar um chefe mais lhano, mais condescendente, mais generoso, mais democrata que aquele? ... um verdadeiro amigo de seu povo!

E fazia-se muito dele, muito amigo da monarquia, muito pronto a defende-la. Se, em sua presença, alguém se animava a falar no suposto namoro de Filomena com o padrinho, Guterres respondia logo, fazendo voz de choro e cara de lamúria:

-Não, coitado! é uma injustiça! O pobre homem não pode se divertir um instante!... Ah! também vocês de tudo querem armar escândalo!

O Borges é que não se conformava com a brincadeira, se bem que a mulher empregasse todos os meios para convence-lo de que tais sobressaltos não tinham o menor fundamento.

Mas não era só por causa disso que ele se apoquentava -é que a despeito do esforço que fazia o infeliz para evitar as convivências ruidosas e resignar-se à maçadora companhia do Guterres, não conseguia fugir às constantes visitas de cerimônia, e a sua vida ia-se tornando cada vez mais cheia de etiquetas e mortificações.

-Já vejo que é mesmo sorte minha!... resmungava ele. -E eu que supunha vir encontrar aqui neste inferno de intrigas um momento de repouso!

A presença do imperador, a sua conversa constrangedora, virgulada de gestos incompreensíveis, era de tudo o que mais o amofinava. Borges, por melhor vontade que empregasse, não podia entrar com as praxes estabelecidas da cortesania.

-Não nascera para aquilo!

Burguês completo, amigo sincero do povo, donde saíra e onde crescera, livre por hábito e por princípio conhecendo o governo apenas pelos seus impostos, pelas suas exigências, pelas suas opressões, era, sem nunca o ter dito, talvez até sem o saber, um inimigo natural do trono, um tipo perfeito do revolucionário moderno, um verdadeiro, um puro republicano.

Todavia, nunca se envolveu nem de leve com a política de seu país; nunca se declarou mais simpático a este ou àquele partido. Até aos quarenta anos cedera os seus votos ao primeiro amigo que o mendigasse, sempre indiferente aos atos do governo, aos negócios do Estado, chegando até a evitá-los instintivamente, como uma mulher honesta evita por impulso natural o contacto de certas pessoas.

Amava os homens pela pureza do caráter e não pela cor do partido ou pela posição social. Se a mulher não o tivesse obrigado a comprar um título, não seria ele decerto quem se havia de lembrar de semelhante patacoada.

Desde pequeno habituado ao trabalho livre, sem jamais precisar do governo, a quem sempre considerou um parasita importuno, educado por um pai da mesma forma trabalhador e independente. Borges nunca se lembrou de pôr a sua consciência em leilão, nunca precisou dobrar aquela grossa cabeça de plebeu às conveniências desta ou daquela idéia. Além disso, quando se viu sem recursos de vida e abandonado na mais dura miséria, tudo, nesse momento, lhe teria passado pelo cérebro, menos a lembrança de que possuía uma pátria, para a segurança da qual tinha ele contribuído, durante muitos anos, com o seu esforço e com a sua coragem.

De sorte que, lançado agora bruscamente, por um capricho da mulher, aos pés de um soberano, que, até aí, era para ele simplesmente um princípio, que a gente aceita, para não se dar ao trabalho de dizer a razão por que aceita, atirado assim de improviso aos degraus safados de um trono, que nada de comum podia ter com ele, um trono de que ele nada podia esperar por motu proprio, o Borges sentiu-se como esmagado por uma desgraça que o humilhava, sentia-se coagido, preso, inutilizado, e, cada vez mais, furioso de sua vida.

Entretanto, obedecia à fatalidade das circunstâncias que o arremessavam àquela posição falsa e constrangedora.

Ia tudo suportando, sem ânimo de reagir: fazia-se cortesão a pouco e pouco, habituava-se ao sorriso do Paço; acompanhava os outros na adulação e no servilismo; até que, de repente, sem esperar por isso, recebeu como um augusto favor ou talvez como recompensa do seu aviltamento, a nomeação de «superintendente dos trabalhos privados do Paço», com um bonito ordenado, casa, comida, roupa lavada e engomada.

A mulher atirou-se-lhe ao pescoço: -Bravo! bravo, meu amor! Principias maravilhosamente!

-Mas eu, em consciência, não devo aceitar este cargo... objetou o Borges muito atrapalhado.

-Eu não entendo nada disto! Não sei o que é ser superintendente, não sei quais sejam as atribuições desse lugar! Não sei finalmente o que tenho de dar em troca do ordenado que me oferecem!

Feriu-se uma tremenda discussão entre os dois.

-Está bom, está bom! disse afinal a baronesa.

-Acho que deves guardar essas discussões para quando estivermos em casa -neste hotel ouve-se tudo o que se diz um pouco mais alto!

Borges calou-se, mas, receoso de fazer algum disparate, saiu à procura do Guterres. -Precisava desabafar! Arre!

-Não dês com o pé na fortuna!... disse-lhe o amigo. -Que diabo queres tu então, homem de Deus?!...

-Eu sei cá o que quero! Quero fazer a vontade a Filomena, mas isso, já se vê, sem me colocar na crítica situação em que me acho! Eu lá sei pra que lado fica o serviço de que me querem encarregar!

E que necessidade tens tu de entender disso?... Acaso alguém te reclama habilitações?... Alguém te pede competência?... Por ventura os mais que são nomeados para os outros cargos apresentam-se aptos para desempenhá-los?... Ora, por amor de Deus! Estás na aldeia, e não vês as casas? Quem sabe se pretendes reformar os costumes!... Quem sabe se queres ser a palmatória do mundo!...

-Nada disso me convence de que devo aceitar um cargo, sem ter habilitações para exercê-lo!

-Mas, João, vem cá, repara que estás no Brasil e lembra-te de que aqui os empregos de confiança do governo, sejam eles de que gênero for, nada tem que ver com as aptidões individuais de quem os vai desempenhar! Que diabo! Não vês aí todos os dias ministros da guerra, que não conhecem patavina do militarismo? Não vês que os ministros da agricultura não sabem para que lado fica a lavoura; que o ministro do império, a cargo de quem está a instrução pública, já faz muito quando sabe ler e escrever corretamente... Não vês que o ministro da fazenda não pesca nada de economia política; que o da pasta de estrangeiros não entende coisa alguma de política internacional? E assim o da marinha! e assim todos eles! e assim todo o mundo! Oh!

Essas razões, longe de convencerem o Borges, mais lhe irritavam os nervos.

-Não! bradou ele, furioso. Não! Não posso, não devo aceitar semelhante cargo! seria uma bandalheira, uma velhacaria! Não quero!

-Bem diz o provérbio que Deus dá nozes a quem não tem dentes! sentenciou o outro. -Ah! se fosse eu o nomeado, havia de te mostrar que...

-Queres tu ficar com o emprego?!... perguntou o barão, limpando o rosto, que se inundava o suor.

-Ora! Se fosse possível, que dúvida!...

-Vai ver se é ou não possível!

E nesse mesmo dia, o Borges, logo que pilhou o imperador, foi-se atravessando defronte dele e dizendo abertamente que não podia aceitar o cargo de superintendente, mas que designava o Guterres para o substituir.

-É um pouco difícil de contentar, seu marido! observou d. Pedro a Filomena quando se encontrou com ela.

-Não sabia que era tão exigente!

-Exigente?! ... perguntou a baronesa.

-Não se dá por satisfeito com o cargo que lhe ofereci. E, no entanto, agora é quase impossível dar-lhe coisa melhor!...

Filomena surpreendeu-se muito agradavelmente com essas palavras do monarca: -Pois seria possível que o Borges já fizesse daquilo?... Oh! Não julgava que o marido fosse capaz de um rasgo de ambição!

-Bravo! bravo! aplaudiu ela consigo. E tratou logo de confirmar a opinião do esposo -No fim de contas, ele não deixa de ter alguma razão, coitado! Vossa Majestade há de concordar que o tal cargo é muito insignificante para um homem de aspirações e de talento! Superintendente! Ora, que vale isso!

-Bom! bom! Já sei! já sei o que devo fazer enquanto não lhe arranjo melhor emprego! Vou trocar-lhe o título por outro, por titulo brasileiro e mais alto -vou faze-lo visconde! Não ficará ele satisfeito?!

Filomena apressou-se a beijar a mão de seu augusto padrinho: -Oh! Vossa Majestade é magnânimo!

-Engana-se! Não sou: -faço-me, para dar-lhe o exemplo: percebe?..., disse o monarca piscando o seu olho azul do lado esquerdo.

Mas teve logo de disfarçar, porque alguém se aproximava.

Torniquetes

Foram inúteis todos os novos esforços do Borges para recusar o cargo. Teve de entrar logo em exercícios de suas funções.

-Ora a minha vida! lamentava ele, sozinho, a espacear pela quinta do imperador. Ter de entrar na carreira pública depois dos cinqüenta anos de idade! Esta só a mim sucede!

Sua Majestade não tardou a puxá-lo bem para junto de si, faze-lo dos do seu peito. E, com enorme espanto do Borges, chegava a consultá-lo em questões completamente estranhas ao pobre homem. Às vezes pedia-lhe conselhos.

-Homem, majestade! ... para falar com franqueza, eu...

-Já sei, já sei! Não lhe é simpático o negócio! Eu também sou quase desse parecer...

-Perdão, perdão! não é isso!... mas é que...

E o Borges, a contragosto, ia pensando nas coisas do Estado, ia-se articulando às engrenagens do governo, ia-se deixando invadir secretamente por todas as sutilezas da política.

-Eu, jurava ele com os seus botões -eu, quando menos o esperarem, fujo! desapareço por uma vez, e ninguém saberá para onde fui! Posso lá com semelhante modo de vida!

Não obstante, quatro meses depois disso, a condessa de Itassu era já o melhor empenho para o sr. d. Pedro de Alcântara. Pretendente que se apadrinhasse com ela podia ter a certeza de obter o que desejasse.

De suas mãozinhas aristocráticas saíram nomeações importantíssimas, licenças escandalosas, remoções, transferências, acessos de empregos, privilégios de companhias, concessões de engenhos centrais. Muita questão importante se resolveu com um simples sorriso.

Quando regressaram de Petrópolis foram habitar em S. Cristóvão, perto do palácio de sua majestade. O monarca não queria o visconde de Itassu muito longe de si.

A casa deste transformou-se logo em um centro político. Aí, todas as noites se reuniam as figuras mais volumosas dos poderes públicos; aí se discutiam as mais graves questões do Estado; formavam-se e destruíam-se gabinetes; criavam-se e resolviam-se crises, conforme o capricho de Filomena.

-Ora, dá-se por isso?... Será crível que eu nunca mais obtenha um momento de repouso?... pensava o Borges.

Com efeito, sua pobre vida jamais esteve tão cheia de preocupações e tão carregada de responsabilidade. Quando o desgraçado saía do quarto, depois de uma noite mal dormida, já uma enorme salva o esperava, transbordante de jornais, de cartas, requerimentos, ofícios, comunicados e o diabo, cujo expediente era preciso aviar e fazer subir quanto antes ao conhecimento do seu augusto amo.

Depois, tinha audiências; negócios inteiramente fora de sua competência vinham-lhe suplicar um parecer, pedir um auxílio.

Que luta!

Mas, além de tudo isso, era preciso atender aos colegas, aos amigos, aos políticos em atividade, que o procuravam todos os dias. De resto, era preciso constantemente envergar a farda, suportar as exigências do cargo, acompanhar o monarca, comparecer aos atos solenes da corte ou às reuniões particulares dos ministros.

E o Borges em vão se arrepelava, se maldizia e se punha fora de si.

Filomena, ao contrário, à semelhança de certas plantas caprichosas, que só vingam bem nos abrasados e altaneiros píncaros do rochedo, cada vez mais e mais se identificava às exigências do seu novo meio.

E protegia o marido à sombra de seus conselhos, amparava-o, conduzia-o, emprestando-lhe um lugar no ginete de suas ambições e cedendo-lhe liberalmente todas as armas do seu espírito e toda a força da sua vontade.

O Imperador não disfarçava o bom conceito em que tinha a opinião do experimentado e sensato visconde de Itassu.

-É um homem de peso... dizia. -Não tem fulgurações de talento, mas sobra-lhe o tino! Homem de gabinete!

O Borges, o modesto e inofensivo Borges, viu então circularem ao redor de si os mais lisonjeiros comentários a respeito de qualidades, que ele nunca desconfiara que possuía. Viu atribuírem-lhe competências, das quais ele podia jurar que não dispunha: viu darem-lhe a paternidade de fatos de grande tática política, dos quais só chegara ao conhecimento pelas notícias do «Diário Oficial».

Mas, em compensação, os jornais ilustrados, os órgãos republicanos e algumas folhas diárias surgiam pejados de sátiras, de pilhérias e de caricaturas contra ele, a mulher e o monarca.

Deram-lhe alcunhas ridículas, inventaram-lhe biografias vergonhosas, crivaram-no de triolets insultosos. Afirmou-se que Filomena Borges era de fato a imperatriz do Brasil: que ela, se não reinava sobre a nação, reinava sobre o monarca: que sua majestade, tomado de amores, deixava fazer de si o que bem quisesse a viscondessinha de Itassu, e que esta abusando da posição, pintava o diabo com o pobre país, erguia e desmanchava gabinetes, com o mesmo capricho com que armava e desfazia os seus penteados e... os do marido.

Borges não sabia resistir a tais diatribes; ficava a ponto de perder a cabeça quando as lia; mas, em vez de revoltar-se contra a própria fraqueza, atirava sua indignação sobre os inimigos do Estado, ao passo que a este ia-se prendendo cada vez mais.

-Não dês a menor importância! acudia o Guterres. -Deixa ladrar a inveja!

-Mas que necessidade tenho eu de ouvir diariamente esses desaforos?...

-E uma questão de hábito, filho! Bem se vê que ainda não estás calejado nesta coisa! Pois querias fazer posição sem ouvir descomposturas?...

Serias aqui o primeiro! -quem tem mérito, tem inimigos! Mais tarde, quando os jornais já não disserem nada a teu respeito, hás de sentir até a falta desses mesmos desaforos que hoje te mortificam!

Mas o visconde, em vez de habituar-se ao que diziam dele, ia-se enterrando progressivamente no azedume e no tédio; deixava-se tomar de um desespero irritativo e constante, assanhava-se já por qualquer coisa, andava sempre de cara fechada, tinha palavras duras e gestos desabridos, até com o próprio imperador.

O imperador!...

Pobre homem! Bem longe estava ele de merecer as acusações que lhe faziam a respeito da afilhada!

Que estivesse impressionado pela gentil criatura, pode ser, mas é que o diabrete arranjava as coisas de tal jeito, que o bom monarca não conseguia ir além de seus desejos, se é que os tinha.

Por mais esforço que empregasse, se os empregava, a viscondessinha fugia-lhe por entre os dedos com desculpas banais, como por exemplo a da circunstância de ser sua afilhada, deixando o coração do soberano ainda mais abrasado e ansioso, o que é possível, porque desgraçadamente os imperadores são feitos da mesma carne fraca e tilitante de que se formam as outras criaturas suscetíveis ao amor.

Por esse tempo era o Borges indigitado para exercer fora do País um importante cargo diplomático, que acabava de vagar.

-Não é que este homem embirrou deveras comigo?!... exclamou ele, quando lhe chegou aos ouvidos tal notícia. -Agora quer me fazer ministro plenipotenciário lá por onde o diabo perdeu o cachimbo! Ora, os meus pecados!

Filomena preferia ficar na corte, mas declarou logo que, se o marido aceitasse o cargo, ela o acompanharia, fosse lá para onde fosse.

Cassou-se imediatamente a nomeação do visconde, e, à noite, quando este teve ocasião de ver o amo, notou-lhe na fisionomia um certo ar de má vontade.

Lá se ia por água abaixo o prestígio do Borges e mais da mulher.

Dissolvem-se as últimas ilusões

Todo o empenho de Filomena Borges, todo o seu sonho dourado, era ver o marido no poder, à frente de um ministério; ordenanças atrás do carro, casaca resplandescente de galões amarelos, chapéu armado, espada à cinta e comenda ao peito.

Queria vê-lo ministro! Ministro, ainda que fosse por pouco tempo! -por uma semana, por um dia ao menos!

-Mas meu amor, dizia-lhe o esposo com a voz suplicante -teu marido já não pode com semelhante vida! Hei de fatalmente arriar a carga; estou exausto, estou seco, sem uma pitada de miolo! -mais uma semana- estouro! levo o diabo!

-Oh! Por amor de Deus não desanimes! exclamava a viscondessa, lançando-se-lhe nos braços. -Concentra todas as tuas forças e luta mais um instante! Juro-te, meu amigo, que, mal te vejas ministro, eu te acompanharei para onde quiseres e farei tudo o que me ordenares! Não penses em abandonar covardemente o posto de honra, agora que à custa de sacrifícios, conseguimos vencer a parte mais difícil da ladeira! Ânimo, visconde de Itassu! Não cedas o terreno aos teus adversários, que nos cobrem de ultrajes e calúnias! Não queiras realizar o que eles nos profetizaram! Se me tens amor, se me adoras, visconde, se te merece alguma coisa o muito que te quero e a forma imaculada pela qual tenho até hoje conduzido o teu nome, não faças uma fugida vergonhosa! Não queiras ser o meu algoz, porque eu não saberia resistir a tanta humilhação!

-É o diabo! ... respondeu o Borges, coçando a cabeça. É o diabo! Se tudo isso dependesse só de minha vontade, já cá não estaria quem falou! Mas a questão é que eu já não sei a quantas ando! Já não tenho cara para mostrar a todos esses homens, que confiam no meu valor e que esperam de mim o que nunca esperei! -É o diabo! Não calculas o quanto me pesa esta responsabilidade; não imaginas com que impaciência desejo atirar para longe as cangalhas que me puseram nas costas, e fugir, fugir contigo para um canto obscuro, onde não haja preocupações políticas, compromissos, artigos a responder, e onde não tenhamos que amargar as descomposturas da imprensa e as cuspalhadas dos inimigos! Ah meu Paquetá! meu belo e tranqüilo Paquetá, como te desejo, como te ambiciono!...

-Não! Nós não nos enterraremos em Paquetá, não nos condenaremos ao ostracismo, sem que tenhamos triunfado dos nossos esforços! Hás de governar! Juro-te eu! Hás de ser grande; e poderoso!

Mas, ai! a linda ambiciosa contava dispor ainda do único elemento com que lhe era dado realizar tudo isso -a proteção do padrinho. Não desconfiava ainda, a visionária! que já não tinha às suas ordens essa vontade maravilhosa, que tudo determina no Brasil. E, ao reconhecer os primeiros sintomas de sua impotência, teve ímpetos de estrangular-se.

Todavia procurou iludir-se. Não desanimou logo e, a despeito dos protestos do marido, que parecia cada vez mais aflito, reuniu todo o seu empenho em um último esforço, a ver se conseguia reatar o sonho, sem ter de poluir o seu contrato de fidelidade conjugal.

-Lutaremos! Lutaremos! bradava ela, a sacudir o marido violentamente. -As principais influências conservadoras estão conosco! Havemos de vencer ou morreremos juntos, esmagados pelo mesmo destino!

O Borges tomou fôlego, depois de uma reviravolta que lhe deu a mulher, e declarou que entendia muito mais acertado irem eles acabar os seus dias tranqüilamente em um canto obscuro e feliz.

-Pensa em quanto é tempo, meu amor! dizia o pobre homem. Resolve-te quanto antes, porque, para falar com franqueza, desconfio que as coisas não vão boas; creio que teremos novidade lá por cima! E, assim por assim, é muito melhor que a bomba rebente quando já estivermos longe! Que te parece?...

Filomena não respondeu às considerações do marido e jurou que estava «disposta a lutar até o último momento».

Mas um fato inevitável, e talvez precipitado justamente pelo soberano, veio tolher-lhe as asas logo no coração do vôo, e decidir a derrota de Filomena: -declarou-se no ministério conservador a memorável crise que produziu a situação de 5 de janeiro de 78.

O velho partido estalou nas raízes, estremeceu todo, rangeu e afinal caiu por terra, como um carvalho secular, esmagando de uma só vez a caterva de políticos que dormiam à sombra dele.

Foi um charivari furioso.

O Rio de Janeiro despertou sobressaltado com o baque formidável do poder. Mil existências desarticularam-se de seus eixos, mil interesses feneceram; mil esperanças espocaram, para dar lugar a outras tantas, que surgiram... Os liberais atiraram-se a campo, assanhados, famintos, depois de um jejum de dez anos. E um redemoinho vertiginoso formou-se em volta do trono, arrancando pela raiz todas as plantas mal seguras ao fundo limoso daquele oceano de egoísmos.

E tudo veio à superfície d'água; velhas misérias abafadas ressurgiam. E os corpos que boiavam depois do cataclismo, chocaram-se uns contra os outros, a lutarem, a morderem-se, a engalfinharem-se, num supremo desespero de náufragos.

O Borges nunca experimentara um dia tão levado dos diabos; viu-se tonto, perdido, naquele labirinto de paixões políticas e conveniências particulares; labirinto de que ele não conhecia o norte, nem o sul, nem o lugar de entrada, nem o lugar da saída. O imperador virou-lhe as costas à primeira pergunta; o Guterres desapareceu, sem lhe deixar ao menos duas palavras que o animassem.

Todavia exigiam dele a explicação de fatos cuja existência o pobre homem até ignorava; responsabilizavam-no por outros completamente alheios à sua competência; fizeram dele um bode expiatório; envolveram-no em uma rede de intrigas; reduziram-no a peteca e atiraram-no de mão em mão, crivado de pilhérias, de dichotes, de rabos de palha, inutilizado, cheio de ridículo, cuspido por todas as bocas da publicidade.

-Safa! safa! bufava o desgraçado, quando afinal se viu em caminho de casa.

-Vão todos para o diabo que os carregue, súcia de bandidos! Agora, haja o que houver, não os aturo nem mais um instante! Minha mulher que tenha paciência, mas em coisas que cheirem a política nunca mais meterei o bedelho! Nada! Hei de ver-me livre daquele inferno e ainda me parecerá um sonho!

Só à noite conseguiu chegar ao lado de Filomena, já tarde e caindo de fome, porque nesse dia nem lhe deram tempo para comer.

Encontrou-a toda vergada sobre a secretária, a cabeça entre as mãos, os cabelos despenteados e soltos ao ombro.

-Então, hein?! ... Que me dizes tu à brincadeira?.., exclamou ele, indo ter com a mulher.

-Peço-te que não me dês uma palavra a respeito da situação política! respondeu Filomena erguendo-se muito triste.

E a partir daí deixou-se tomar de uma grande melancolia.

Foi preciso chamar um médico logo ao amanhecer do dia seguinte. Filomena sentia-se mal, vieram-lhe irritações nervosas, derramamento de bílis, e depois febre, acompanhada de delírios.

Assim levou três dias, sem obter melhoras de espécie alguma.

Durante esse tempo, Borges penou e labutou mais do que em toda a sua trabalhosa existência. Andava num torniquete incessante das secretarias para S. Cristóvão, de S. Cristóvão para casa, arranjando a sua demissão e ao mesmo tempo servindo de enfermeiro à esposa.

Uma dobadoura infernal! Faltava-lhe cabeça para tanta coisa. Já não podia suportar as perguntas que lhe faziam sobre os trabalhos do paço, fugia-lhe a paciência, dava respostas atravessadas, queria brigar, esbordoar os que lhe exigiam explicações, praguejava, insultava e pedia por amor de Deus que o despachassem quanto antes, que o pusessem na rua.

Afinal, convencidos de que o pobre diabo sofria de demência e talvez também porque já estivessem fartos de rir e de o aturar, deram-lhe com a demissão, e ele, sem perda de tempo, correu para junto da enferma, disposto a não pensar noutra coisa que não fosse restituir-lhe a saúde, a força, a alegria, que eram igualmente a sua alegria e a sua força.

Chegou à casa caindo de fadiga. A mulher estava tão fraca, tão abatida, que não parecia a mesma.

Ele ajoelhou-se a seus pés, tomou-lhe uma das mãos entre as suas e cobriu-a de beijos.

A doente agradeceu-lhe com um sorriso triste.

-Como te sentes?... perguntou ele. Estás melhorzinha, não é verdade?

Filomena respondeu que sim com a cabeça.

-Isso nada vale! Diz o médico que ficarás boa, logo que mudes de ar. Agora mesmo venho de estar com ele; amanhã tratarei da viagem.

E, chegando-se mais para a esposa, principiou com muita ternura a dizer os seus projetos:

-Seguiriam juntos e mais o Urso para um ar que escolhessem no campo. -Paquetá, por exemplo, «Paquetá, que ele não via há quanto tempo, e da qual sentia tamanhas saudades!...»

-Ah! que bom! uma existência calma e desocupada nessa querida ilha, onde ele nascera e passara os primeiros anos! Teriam a sua casinha, muito bem arranjada, sempre muito limpa, muito bem ventilada; teriam o seu pomar, o seu jardim, de que eles próprios se encarregariam para matar o tempo; teriam uma vaca de leite, algumas cabras, carneiro, porcos, um pequeno tanque, onde os marrecos e patos tomassem banho, muita criação de galinhas e pombos, pombos a perder de vista. A casa seria à beira-mar, teriam o seu botezinho para a pesca e para os passeios à tarde pela costa ou até a ilhota da Brocoió!...

-Que gosto em ter a gente à mesa as frutas que viu crescer no seu quintal..., dizia o Borges comovido. Que prazer em passar os dias a cuidar do que é seu, consertando, endireitando, plantando, regando, colhendo. Demais, ali não tens que fazer etiquetas; podes andar por toda a ilha com o teu vestidinho de chita, o teu chapéu de palha, o cabelo à vontade, que ninguém repara nisso!

E entusiasmando-se progressivamente com aquela expectativa de felicidade tranqüila:

-Isso que sentes agora nada vale... Hás de ver como ficas esperta logo que estivermos em nossa casinha de Paquetá! ... E que passeios não havemos de fazer ao ar livre, pela praia, nas manhãs de sol ou nas noites de luar! ... Havemos de ter pequenas reuniões de amigos; tu tocarás o teu piano, cantarás, enquanto eu estiver cuidando da chácara!

-Oh! como havemos de ser felizes! como havemos de ser felizes! exclamava o bom homem, já transportado mentalmente à sua terra, e sentindo-se em pleno gozo daquela doce existência que ele tanto ambicionava.

Filomena ouvia-o em silêncio, o olhar imóvel, a boca levemente arqueada pelo esforço que ela fazia para sorrir às palavras carinhosas do marido.

-Mas não fiques triste desse modo, que me matas... suplicava ele, com a voz trêmula e os olhos embaciados. -Espalha essas mágoas, que são a causa única de tua moléstia, minha querida Filomena! Se não quiseres vir para a roça, como aconselhou o médico, se Paquetá não te agrada, dize então o que te apetece, o que te serve... bem sabes que todo o meu empenho é só fazer-te a vontade, é ver-te feliz e satisfeita, minha santa, minha querida mulherzinha!

-Não, meu amigo, não! Eu irei para onde quiseres; tenho obrigação de acompanhar-te... respondeu Filomena em voz baixa, fazendo esforços para conter as lágrimas.

- XXIII -

Paquetá

Borges não descansou mais um instante, sem ter arranjado o necessário para abandonar a cidade.

Obteve uma casa em Paquetá; comprou tudo que lhe pareceu mais ao gosto da mulher, pois que ela se obstinava a guardar silêncio e não se pronunciava por coisa alguma, como se tudo lhe fosse indiferente.

-Faze o que entenderes..., respondia ela, sem abrir os olhos. Quanto fizeres será bem feito. Tudo me agradará...

-Mas não fiques desse modo!... pedia o esposo afagando-a.

Ela sorria tristemente e não dava mais palavra.

Partiram na manhã seguinte para Paquetá.

Havia um belo sol. Toda a natureza palpitava às carícias da luz; um panorama radiante desenrolava-se em torno da poltrona, onde Filomena se sumia entre grandes almofadas.

Os horizontes iam fugindo e azulando; as águas da baía estendiam-se a perder de vista, refletindo nas suas lâminas de prata as pequenas ilhas verdejantes que surgiam de todos os lados. E a serra dos Órgãos aparecia ao longe, apunhalando o céu com as suas pontas cor de aço, enquanto as nebulosas cordilheiras derramavam-se-lhe aos pés, formando grupos de nuvens paralisadas.

Filomena, entretanto, parecia indiferente a esses mesmos esplendores que dantes a arrebatavam.

Embalde o marido fazia por chamá-la às antigas impressões; embalde procurava despertar-lhe na alma o extinto entusiasmo: -Filomena, muito abatida, os olhos mortos, as mãos esquecidas sobre o regaço, deixava-se ficar no seu entorpecimento doentio.

Já não era a mesma Filomena de dois meses atrás. Seu sorriso agora era triste e cansado; sua cabecinha redonda e outrora esperta como a cabeça de uma rola, caía-lhe sobre o peito em uma prostração de luto e viuvez.

O resto da viagem correu fúnebre.

Ao chegarem a casa, Filomena não se mostrou interessada por coisa alguma; entrava ali como se entrasse para um hospital; a criada que encontrou às suas ordens, pareceu-lhe uma irmã de caridade. Em vão o marido pedia a sua opinião sobre o que tinha preparado para recebe-la ou sobre a beleza natural do lugar, a esplêndida vista que se desfrutava deste ou daquele ponto.

Filomena sacudia os ombros, sem uma palavra; Urso em vão lhe farejava os pés, à espera de uma carícia.

Veio o almoço, Borges, para chamar a mulher, ao bom humor, lembrava tudo que lhe parecia ter graça: e inventava anedotas, recorria a todos os meios para distraí-la, fazendo-se pilhérico, fingindo-se alegre, procurando reconstruir as mesmas fisionomias, os mesmos movimentos ridículos, com os quais ele, antes, sem querer, fazia-a rebentar de riso. -Engasgava-se com o vinho, tossia, fingia-se parvo, imbecilizava-se propositadamente.

Mas tudo era baldado. E o infeliz sentindo acudirem-lhe as lágrimas, fugia, abafando os soluços com as mãos, para que a mulher os não percebesse.

E no entanto, a melancolia de Filomena avultava de instante a instante, como uma nuvem que se espalha no céu. E tudo se foi tornando sombrio, carregado, trevoso, até que a última réstea de azul desapareceu totalmente.

Então a enferma deixou-se ficar de cama, sem querer ouvir falar de coisa alguma desta vida, nem querer suportar outra companhia que não fosse a do marido.

Ele, só andava na ponta dos pés, só falando em segredo, tresnoitado, aflito, como louco, servindo a um tempo de enfermeiro e de criado. Não queria que ninguém se aproximasse do quarto da mulher, com receio de incomoda-la. Ela não podia ouvir a menor bulha; o mais leve som de passos eqüivalia a marteladas na cabeça.

E o Borges, em meias, com pisadas de ladrão, o ar sobressaltado, não ficava quieto num lugar, andava por toda a casa, evitando o que pudesse contrariar a doente. E quando se punha ao lado dela, seguia-lhe os movimentos da pálida fisionomia, como um cão ao lado do senhor, pronto a lançar-se de carreira para a direita ou para a esquerda, conforme o decrete o olhar do dono.

-Ó minha Filomena! minha querida companheira, dizia-lhe em segredo, sem poder distrair as lágrimas que lhe transbordavam dos olhos. -Que tens?... que sentes... Que te falta? Dize! fala, minha vida! Pode ser que isso te faça bem!... Desabafa, ordena -eu sou o teu escravo, estou aqui para te obedecer! Vamos, por quem és! dize o que queres!

Filomena desviou o rosto vagarosamente, pedindo ao marido, com um gesto, que se afastasse, e dois grossos fios luminosos principiaram a lhe correr pela nublada palidez do rosto. Depois, no fim de alguns minutos, como se ganhasse alívio com aquele choro, fechou os olhos e adormeceu tranqüilamente.

Borges, encostado à porta do quarto, vigiou todo esse sono, que durou mais de cinco horas.

Só se animou a entrar, quando a sentiu novamente acordada.

Eram seis da tarde: de uma tarde melancólica de julho. Ouvia-se grunhir lá fora, o vento nos flabelados ramos das palmeiras, e o mar estrebuchava em soluços pela extensão da costa.

No aposento da enferma crescia o silêncio escuro das igrejas. Tudo era triste e concentrado; ao longe, vozes de crianças rezavam em coro a Ave-Maria.

Borges parou defronte do leito da mulher.

Viu-a toda branca, destacando-se do claro-escuro dos lençóis, como uma figura de cera. Mas a fisionomia dela repousava numa expressão de inefável doçura.

Aproximou-se lentamente, sonâmbulo, e foi ajoelhar-se aos pés daquela imagem adorada; tomou-lhe uma das mãos, que pendia fora da cama.

-Meu amigo, disse Filomena com dificuldade, derramando sobre o marido um suplicante olhar de extrema ternura, como se lhe quisesse pedir perdão. -Meu bom amigo, sinto que morro, e só me punge a idéia do bem que te não fiz e do muito que merecias!

-Ó minha querida! não penses nessas coisas! ... Espalha essas idéias de morte!

Filomena meneou a cabeça.

-Não, não! disse-lhe o marido, tomando-a nos braços. -Tu não morrerás! Havemos de viver ainda muito! -felizes!- eternamente unidos como dois pombos! Eu continuarei a ser o teu escravo, o teu amante, o teu fiel companheiro; tudo aquilo que entenderes! Voltarei alegre para onde quiseres! Tornaremos à agitação da corte, à febre das paixões; principiarei de novo a minha vida! Saltimbanco, touriste, superintendente, jornalista, homem célebre, serei tudo de novo, contanto que tu vivas, meu amor, minha felicidade! Contanto que não te deixes assassinar por essa tristeza, que te abafa, a existência, ó minha vida! ó minha doce esposa!

E o Borges, tomado de um desespero febril, estorcia-se ao lado da cama, desfazendo-se em lágrimas.

-Obrigada! muito obrigada, meu generoso e honrado amigo! De tal modo te habituaste às minhas quimeras e à minha loucura, que não podes acreditar que eu tenha um momento lúcido antes de morrer.

-Não! não! não penses em morrer, minha querida!

Filomena, em resposta passou os braços em volta do pescoço do marido e repousou a cabeça no colo dele.

-Só tu és bom! ... dizia arquejando -só tu mereces todas as bênçãos do céu!... Como eu te adoro e como eu te amo, meu...

Não pôde acabar. E, depois de uma breve aflição, retesou as pernas e os braços, exalando, num estremecimento geral, o último suspiro.

-Filomena! Filomena! bradou o esposo, sem a largar das mãos, mas afastando-a rapidamente a toda a distância dos braços e encarando-a desvairado e sôfrego: -Fala, fala! Dize por amor de Deus que não estás morta!

Ela, porém, em vez de responder, deixou pender cabeça para um dos lados e, assim, ficou na sua imobilidade de cadáver.

Borges ainda a encarou em silêncio arquejante. Depois, sacudiu-a toda, com impaciência; chegou repetidas vezes ao seu rosto esfogueado o lábio frio da morta, para ver se lhe descobria um último sopro de vida. E, afinal, soltando um bramido formidável, repeliu-a de súbito e atirou-se ao chão, a espolinhar-se, a rolar por todo o quarto, entre gargalhadas de louco.

Entretanto, lá fora continuava o surdo marulhar das vagas; zumbia ainda o vento nos palmares; e as crianças, no seu coro de arcanjos, pediam à Virgem Santíssima que as amparasse neste vale de lágrimas.

Dias depois, no modesto cemitério de Paquetá, à sombra de um velho cajueiro, via-se uma pobre sepultura, em cuja lápide dois nomes se entrelaçavam com o mesmo apelido. E defronte, estático e silencioso, como uma esfinge de mármore negro, um enorme cão velho e trôpego, fitava-a, deitado sobre a relva.